{"id":203,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=203"},"modified":"2025-12-01T12:50:38","modified_gmt":"2025-12-01T15:50:38","slug":"a-escola-o-instituto-e-a-etica-das-consequencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/a-escola-o-instituto-e-a-etica-das-consequencias\/","title":{"rendered":"A escola, o instituto e a \u00e9tica das consequ\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Confer\u00eancia proferida na atividade Para que serve o Instituto? &#8211; abril\/2023<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\nJ\u00e9sus Santiago<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, A.M.E. da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<br \/>\n<span id=\"cloak8909485eda34bb0ac04da02c7eb2a6e1\"><a href=\"mailto:santiago.bhe@terra.com.br\">santiago.bhe@terra.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo: <\/strong>No presente texto, o autor apresenta a forma de funcionamento da Escola e do Instituto a partir da ideia de que o princ\u00edpio de orienta\u00e7\u00e3o para a pr\u00e1tica cl\u00ednica \u00e9 o mesmo que para a pr\u00e1tica institucional dedicada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. O modo como a psican\u00e1lise apreende as coisas do mundo diz mais de uma dimens\u00e3o \u00e9tica do que propriamente epist\u00eamica \u2013 trata-se de uma dimens\u00e3o \u00e9tica que se deduz do fato de que n\u00e3o h\u00e1 uma teoria do inconsciente sem uma pr\u00e1tica que seja capaz de acolher a experi\u00eancia do inconsciente. O autor, faz, ent\u00e3o, uma leitura sobre os ambientes psicanal\u00edticos contempor\u00e2neos e sobre a diferen\u00e7a entre a Escola e o Instituto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Escola; Instituto; \u00e9tica; teoria; pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THE SCHOOL, THE INSTITUTE AND THE ETHICS OF CONSEQUENCES<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0The present essay discusses the operation of the School and Institute of psychoanalysis taking into consideration that both the clinical practice and the psychoanalytical institution invested in the teaching of psychoanalysis share the same principle. The psychoanalytical way of perception has more to do with an ethical dimension than epistemic itself \u2013 it is about an ethical dimension that comes from the deduction of the fact that there is no theory of the unconscious without a practice that is able to take the experience of the unconscious into account. The author thus offers a reading on the contemporary psychoanalytical environments and on the difference between the psychoanalytical School and the Institute.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>School; Institute; ethics; theory; clinical practice.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_204\" style=\"width: 719px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sofia_Nabuco3.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Sofia Nabuco\" data-large_image_width=\"709\" data-large_image_height=\"399\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-204\" class=\"size-full wp-image-204\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sofia_Nabuco3.png\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sofia_Nabuco3.png 709w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Sofia_Nabuco3-300x169.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-204\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Sofia Nabuco<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se imp\u00f5e como princ\u00edpio de orienta\u00e7\u00e3o para a pr\u00e1tica cl\u00ednica imp\u00f5e-se tamb\u00e9m para a pr\u00e1tica institucional lacaniana voltada para a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Vejamos como se pode formular esse princ\u00edpio de orienta\u00e7\u00e3o que, a meu ver, serve tanto para a pr\u00e1tica cl\u00ednica quanto para a nossa concep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica a servi\u00e7o do discurso anal\u00edtico. O meu ponto de partida \u00e9 admitir que, se a psican\u00e1lise ocupa uma posi\u00e7\u00e3o singular no conjunto das ci\u00eancias, \u00e9 porque ela, apesar de se inspirar em seus fundamentos e seus m\u00e9todos, \u00e9, antes de tudo, uma pr\u00e1tica cujo fundamento \u00e9 a experi\u00eancia do ser falante com o inconsciente. Esclare\u00e7o ainda que a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma \u201cteoria do psiquismo\u201d e, tampouco, uma \u201cteoria do inconsciente\u201d, como se o psiquismo ou o inconsciente existissem em si e que seria apenas necess\u00e1rio desvelar o seu funcionamento intr\u00ednseco. A psican\u00e1lise recusa-se, assim, a abordar o inconsciente nos termos de uma cosmologia, ou seja, n\u00e3o se trata de tom\u00e1-lo como uma entidade substancial fechada em si mesma, como se fosse uma realidade qualitativamente determinada, hierarquicamente ordenada, submetida a leis diversas, cuja exist\u00eancia antecedesse o pr\u00f3prio surgimento da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ren\u00fancia da pressuposi\u00e7\u00e3o cosmol\u00f3gica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto pr\u00e1tica, o edif\u00edcio conceitual da psican\u00e1lise \u00e9 concebido como uma constru\u00e7\u00e3o segundo o estilo\u00a0<em>work in progress<\/em>, exatamente como na ci\u00eancia da f\u00edsica, que n\u00e3o se constitui como um conhecimento em que seus objetos existiriam em si para al\u00e9m de suas produ\u00e7\u00f5es conceituais e metodol\u00f3gicas. O que \u00e9 caracter\u00edstico da ci\u00eancia que se faz presente entre n\u00f3s desde o s\u00e9culo dezesseis \u00e9 deixar em aberto a abordagem cosmol\u00f3gica das coisas do mundo. A ideia de Cosmo teve o seu predom\u00ednio at\u00e9 o surgimento da f\u00edsica de Galileu, que contribuiu para desfazer o mundo da tradi\u00e7\u00e3o, ordenado e limitado. O discurso da ci\u00eancia est\u00e1 em marcha e progride inexoravelmente, transformando o mundo fechado da cosmologia no universo infinito da f\u00edsica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nosso ponto de partida \u00e9 admitir que a exist\u00eancia do mundo<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#nota11111\">[1]<\/a><a id=\"refer2\"><\/a><\/sup>\u00a0n\u00e3o nos assegura absolutamente acerca da exist\u00eancia de uma cosmologia. Muito antes pelo contr\u00e1rio, o pr\u00f3prio saber da ci\u00eancia demonstra que n\u00e3o h\u00e1 avan\u00e7os na apreens\u00e3o das coisas do mundo sem a ren\u00fancia de toda pressuposi\u00e7\u00e3o cosmol\u00f3gica.<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#nota22222\">[2]<\/a><a id=\"refer3\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#_edn2\" name=\"_ednref2\"><\/a><\/sup>\u00a0Como se viu antes, a emerg\u00eancia da ci\u00eancia exigiu o abandono da concep\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica e medieval do Cosmo enquanto unidade fechada de um\u00a0<em>Todo<\/em>\u00a0qualitativamente determinado e refrat\u00e1rio aos acontecimentos contingentes oriundos do\u00a0<em>Real.\u00a0<\/em>Isso quer dizer que as coisas do mundo, com as quais a ci\u00eancia lida, n\u00e3o s\u00e3o preexistentes ao saber da ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A respeito do modo como a psican\u00e1lise trata essa objetividade do mundo, \u00e9 preciso levar em conta o trabalho inaugural de Freud com a\u00a0<em>Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em>, em que a conceitua\u00e7\u00e3o do inconsciente se institui como um lugar que ele pr\u00f3prio denomina como uma\u00a0<em>Outra cena<\/em>\u00a0(<em>eine anderer Schauplatz<\/em>) (LACAN, 1962-63\/2005). Introduzir a fun\u00e7\u00e3o do inconsciente como\u00a0<em>Outra cena\u00a0<\/em>a partir do sonho esclarece o que vem a ser, por sua vez, o tratamento que a psican\u00e1lise confere \u00e0s coisas do mundo. Em segundo lugar, Lacan (1962-63\/2005) prop\u00f5e que essa dimens\u00e3o da\u00a0<em>cena<\/em>, que se apresenta como separada do mundo, aponta para a distin\u00e7\u00e3o radical entre o mundo e esse lugar imposs\u00edvel de ser simbolizado pela via das leis e do sentido, ao qual denominamos Real, lugar em que as coisas adquirem exist\u00eancia. Assim, as coisas do mundo v\u00eam colocar-se em\u00a0<em>cena<\/em>\u00a0segundo as leis da linguagem, leis que, por consequ\u00eancia, n\u00e3o podem ser tomadas como inteiramente homog\u00eaneas ao Real (LACAN, 1962-63\/2005).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O inconsciente \u00e9, portanto, exemplar acerca do modo como a psican\u00e1lise capta e apreende as coisas do mundo, distinguindo nelas o real que lhes \u00e9 concernente. Mais do que uma quest\u00e3o epist\u00eamica, h\u00e1 uma dimens\u00e3o \u00e9tica impl\u00edcita na formula\u00e7\u00e3o de que a teoria psicanal\u00edtica do inconsciente n\u00e3o teria vindo \u00e0 luz sem a interposi\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica cl\u00ednica de Freud com o sujeito hist\u00e9rico. Trata-se da dimens\u00e3o \u00e9tica que se deduz do fato de que n\u00e3o h\u00e1 uma teoria do inconsciente sem uma pr\u00e1tica que seja capaz de acolher a experi\u00eancia do sujeito com o inconsciente. Isso quer dizer que, se h\u00e1 uma teoria do inconsciente, ela \u00e9 fruto da pr\u00e1tica cl\u00ednica e, nesse sentido, se h\u00e1 uma teoria em geral na psican\u00e1lise, ela se constitui sempre, segundo os termos do Lacan (1968-69\/2008, p. 64), como \u201cteoria da pr\u00e1tica anal\u00edtica\u201d. Como ele pr\u00f3prio p\u00f4de sentenciar: \u201co caminho do inconsciente propriamente freudiano, foram as hist\u00e9ricas que o ensinaram a Freud\u201d (LACAN, 1964\/1988, p. 20). Com isso, reconhece-se a impossibilidade em instaurar uma\u00a0<em>teoria da pr\u00e1tica \u2013\u00a0<\/em>concebida como a defini\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do discurso anal\u00edtico \u2013, por meio da mera especula\u00e7\u00e3o conceitual, notadamente, quando esses conceitos est\u00e3o a servi\u00e7o de uma\u00a0<em>Weltanchauung\u00a0<\/em>(\u201cvis\u00e3o de mundo\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A \u00e9tica do primado da pr\u00e1tica \u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao delimitar o campo da pr\u00e1tica anal\u00edtica, por um lado, como um terreno f\u00e9rtil para as mais diversas inven\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, e n\u00e3o apenas aquela\u00a0<em>concernente<\/em>\u00a0\u00e0 histeria, postula-se, por outro lado, que a pr\u00e1tica anal\u00edtica \u00e9 realista e, portanto, n\u00e3o-nominalista. O ensino de Lacan n\u00e3o esconde a sua filia\u00e7\u00e3o realista em raz\u00e3o da apreens\u00e3o do real pela psican\u00e1lise se opor \u00e0 separa\u00e7\u00e3o radical entre os conceitos e as coisas. A pr\u00e1tica anal\u00edtica apenas \u00e9 poss\u00edvel por sua concep\u00e7\u00e3o do sintoma, na qual se formula a conjun\u00e7\u00e3o entre o real e a linguagem. Isso, ali\u00e1s, \u00e9 da ordem das evid\u00eancias: se a psican\u00e1lise busca modificar o real pela fun\u00e7\u00e3o da fala, \u00e9 porque, segundo ela, a articula\u00e7\u00e3o entre o real e a linguagem \u00e9 um pressuposto intranspon\u00edvel (SANTIAGO, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale dizer, por outro lado, que suas perspectivas inovadoras quanto ao tratamento do sintoma n\u00e3o emergem em estado bruto, sem a a\u00e7\u00e3o dos conceitos psicanal\u00edticos. Afirmo que o valor \u00e9tico do\u00a0<em>primado da pr\u00e1tica\u00a0<\/em>diz respeito ao fato de que os conceitos e as categorias cl\u00ednicas com as quais lidamos e cujo\u00a0<em>aggionarmento\u00a0<\/em>visamos n\u00e3o apenas atendem as exig\u00eancias da pr\u00e1tica anal\u00edtica, mas tamb\u00e9m t\u00eam a sua origem nesse \u00e2mbito da pr\u00e1tica.\u00a0 Se Lacan chega a p\u00f4r em quest\u00e3o a exist\u00eancia de uma teoria do inconsciente \u2013 como ele o faz no transcurso do Semin\u00e1rio\u00a0<em>De um Outro ao outro<\/em>\u00a0<em>\u2013<\/em>, o faz na medida em que ele \u00e9 apenas apreens\u00edvel, conceitualmente falando, no campo da pr\u00e1tica. Diante disso, pode-se inferir que o inconsciente \u00e9 exemplar da dimens\u00e3o consequencialista da \u00e9tica, na medida em que sua conceitua\u00e7\u00e3o n\u00e3o adv\u00e9m da mera especula\u00e7\u00e3o sobre a sua exist\u00eancia, mas, sim, da pr\u00e1tica que o toma como objeto de uma experi\u00eancia. A \u00e9tica mostra-se implicada nessa formula\u00e7\u00e3o de que o inconsciente apenas \u00e9 apreens\u00edvel no campo da pr\u00e1tica, considerando que a visada da psican\u00e1lise \u00e9 a incid\u00eancia efetiva no real do sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o princ\u00edpio \u00e9tico do primado da pr\u00e1tica deve prevalecer, \u00e9 preciso evitar o vi\u00e9s puramente especulativo, muito presente nos ambientes psicanal\u00edticos contempor\u00e2neos, em que a psican\u00e1lise se transforma numa esp\u00e9cie de \u201csociologismo inflex\u00edvel\u201d (MILLER; MARTY, 2021) a servi\u00e7o de uma causa pol\u00edtica ideal. A psican\u00e1lise n\u00e3o pode acolher de modo imediatista e desprezando suas exig\u00eancias \u00e9ticas os significantes-mestres que passam a circular como resposta ao mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 sabido que o conceito de g\u00eanero assumiu uma import\u00e2ncia capital para certos psicanalistas, tendo em vista que atrav\u00e9s dele foi poss\u00edvel contrapor ao reducionismo da quest\u00e3o sexual ao seu componente biol\u00f3gico. Em fun\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica \u00e0 vis\u00e3o naturalista e biologizante dos corpos, passou-se a adotar a no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero como uma constru\u00e7\u00e3o social normatizada e que \u00e9 convocada, por Judith Butler, a ser problematizada e criticada, como acontece em seu livro\u00a0<em>Problemas do g\u00eanero<\/em>. Mais tarde, em seu livro\u00a0<em>Desfazer o g\u00eanero<\/em>, essa mesma no\u00e7\u00e3o \u00e9 objeto de uma cons\u00edgnia de desconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazer incidir na psican\u00e1lise a concep\u00e7\u00e3o butleriana do conceito de g\u00eanero sem nenhuma cr\u00edtica a empurra para uma vis\u00e3o puramente sociol\u00f3gica da diferen\u00e7a sexual, pois as posi\u00e7\u00f5es sexuais tornam-se entidades socialmente constru\u00eddas. Se, com Stoller, \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o ao pai do par parental que o g\u00eanero se constr\u00f3i, em Butler, o substrato da constru\u00e7\u00e3o do g\u00eanero \u00e9 social. Se, para a psican\u00e1lise, a posi\u00e7\u00e3o sexual de um sujeito compreende um modo de gozo singular, para Butler, o g\u00eanero pertence \u00e0 socialidade, ao\u00a0<em>socius.<\/em>\u00a0Por tomar o terreno das rela\u00e7\u00f5es entre os sexos como um universo socialmente constru\u00eddo sem exterior, sem alternativa, sem escapat\u00f3ria \u00e9 que se pode falar de uma sociologia inflex\u00edvel. Nenhum sujeito pode escapar da performatividade social do g\u00eanero (n\u00e3o h\u00e1 sujeito e nem subjetividade). \u00c9 apenas por meio da opera\u00e7\u00e3o de disfuncionamento social promovida pelo ativismo militante dos grupos identit\u00e1rios que se pode gerar mudan\u00e7as nas identidades de g\u00eanero e das normas heterossexuais dominantes. \u00c9 not\u00f3rio que essa deriva para o sociologismo torna a psican\u00e1lise vulner\u00e1vel a esse ativismo, em detrimento do que \u00e9 a sua coluna vertebral, ou seja, a pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Entre intens\u00e3o e consequ\u00eancia<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizer que a psican\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1tica n\u00e3o a torna, portanto, uma disciplina ref\u00e9m da mera aplica\u00e7\u00e3o de regras t\u00e9cnicas r\u00edgidas, oriundas de uma suposta teoria psicanal\u00edtica. Uma das virtudes e resultados do Semin\u00e1rio da \u00c9tica da Psican\u00e1lise, que se desenvolve no in\u00edcio da d\u00e9cada de 60, \u00e9 contrapor-se a essa cis\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica e, segundo essa orienta\u00e7\u00e3o, as quest\u00f5es t\u00e9cnicas s\u00e3o substitu\u00eddas pela perspectiva \u00e9tica. Logo, se a psican\u00e1lise n\u00e3o procede pela separa\u00e7\u00e3o radical entre a teoria e a pr\u00e1tica, se a empreitada psicanal\u00edtica se afirma como uma pr\u00e1tica, essa pr\u00e1tica n\u00e3o existe sem a dimens\u00e3o \u00e9tica. Se n\u00e3o h\u00e1 pr\u00e1tica cl\u00ednica sem \u00e9tica, o mesmo acontece com a pol\u00edtica, que visa constituir-se como o horizonte que organiza e anima a vida institucional de uma comunidade de analistas. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 uma pr\u00e1tica institucional com a Escola e com o Instituto sem considerar a \u00e9tica da psican\u00e1lise. E isso serve para todos aqueles grupos ou institui\u00e7\u00f5es que tentam se inspirar na pr\u00e1tica institucional concebida, por Lacan, durante sua longa trajet\u00f3ria de analista. E qual \u00e9 a \u00e9tica que orienta uma pol\u00edtica lacaniana para o discurso anal\u00edtico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em artigo publicado na revista\u00a0<em>La Cause freudienne<\/em>, sob o t\u00edtulo de \u201cPol\u00edtica lacaniana\u201d, Miller (1999) avan\u00e7a na ideia de que uma tal \u00e9tica deveria ser pensada segundo a antinomia entre duas perspectivas distintas: de um lado a \u201c\u00e9tica da boa inten\u00e7\u00e3o\u201d, que n\u00e3o \u00e9 freudiana, e que, sendo uma \u00e9tica da boa-f\u00e9, \u00e9 incompat\u00edvel com o campo conceitual freudiano. De outro lado, a \u201c\u00e9tica das consequ\u00eancias\u201d, que sempre se julga pelo ato e, por meio do estatuto do ato, por seu valor e suas consequ\u00eancias. Para mim, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas que essas duas perspectivas \u00e9ticas sempre est\u00e3o presentes como princ\u00edpio para os que se disp\u00f5em na arte de governar e dirigir as iniciativas de uma comunidade de analistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente que essas \u00e9ticas aparecem como tend\u00eancias que se efetivam de forma excludente no pr\u00f3prio modo de gest\u00e3o das quest\u00f5es que concernem as atividades cotidianas da institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica: a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, a admiss\u00e3o de novos membros, a autoriza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica cl\u00ednica, o passe, a garantia, a produ\u00e7\u00e3o, entre outras. Em outros termos, tenta-se governar com a \u00e9tica da boa-inten\u00e7\u00e3o, em que prevalece o culto aos belos princ\u00edpios do que seria uma institui\u00e7\u00e3o que, supostamente, responderia pelos fundamentos da psican\u00e1lise. \u00c9 poss\u00edvel constatar que uma tal orienta\u00e7\u00e3o permanece, no essencial, inoperante, porque se mostra prisioneira dos limites da figura da hegeliana da \u201cbela-alma\u201d, que, no fundo, \u00e9 impotente para lidar com a complexidade da situa\u00e7\u00e3o na qual estamos todos envolvidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, a \u201c\u00e9tica das consequ\u00eancias\u201d busca se fiar na dimens\u00e3o pol\u00edtica de um ato que, ao assumir as tarefas de dire\u00e7\u00e3o, procura, necessariamente, incluir o Outro. Essa inclus\u00e3o do Outro quer dizer que, se a quest\u00e3o dos princ\u00edpios e fundamentos do conceito de Escola importam muito, \u00e9 preciso, entretanto, dar sequ\u00eancia ao momento l\u00f3gico do ato, pelo qual se pode instaurar algo novo no real de uma comunidade de analistas. \u00c9 s\u00f3 observar o que nos \u00faltimos anos temos feitos com rela\u00e7\u00e3o ao discurso anal\u00edtico: mais do que belos discursos sobre a institui\u00e7\u00e3o ideal, temos, na verdade, dado provas de uma a\u00e7\u00e3o que visa injetar novos elementos nesse real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num primeiro momento, foram as Jornadas Cl\u00ednicas e a ideia de que o analista deve despojar-se de sua enfatua\u00e7\u00e3o, dando testemunho daquilo que ele faz em sua pr\u00e1tica cl\u00ednica. E, nesse mesmo tempo, institu\u00edmos entre n\u00f3s a pr\u00e1tica de produ\u00e7\u00e3o, proposta por Lacan, dos cart\u00e9is. No momento seguinte, assumimos a empreitada de dissolver os grupos e colocar em quest\u00e3o a l\u00f3gica dos chefes e l\u00edderes, e passamos \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da Escola. E o que n\u00e3o poderia ser diferente, quase imediatamente criamos o passe de entrada, como uma forma de reconhecer que a autoriza\u00e7\u00e3o do analista passa, necessariamente, por sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de an\u00e1lise, e que uma Escola deve saber acolh\u00ea-la. Exatamente neste momento, estamos \u00e0s voltas com o ato de consecu\u00e7\u00e3o do Instituto e de sua Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta do Instituto surge nos rastros do desejo de Lacan em criar um Departamento de Psican\u00e1lise, no contexto do ambiente universit\u00e1rio, no final da d\u00e9cada de 60. Isso desaguou no que todos conhecem como sendo o Departamento de Psican\u00e1lise da Universidade de Paris VIII. Em 1975, ele realiza uma esp\u00e9cie de re-funda\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o desse Departamento e, em 1976, cria os cursos e respectivos diplomas do DEA (um equivalente do nosso Mestrado) e do Doutorado. Em 1977, surge a Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. O pr\u00f3prio Miller (1997, p. 13) afirma que, se ele inventou o \u201cInstituto foi para prosseguir, na Fran\u00e7a e em outros lugares, essa via que n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o a de Lacan\u201d. E a pergunta que emerge a partir da\u00ed \u00e9 a seguinte: se j\u00e1 se tem a Escola de Lacan, porque seria necess\u00e1rio criar o Instituto? Qual \u00e9 a dial\u00e9tica que se instaura entre o ato de funda\u00e7\u00e3o que promoveu uma iniciativa institucional e a outra? Se trata simplesmente de espa\u00e7os institucionais geogr\u00e1ficos distintos? Claro que n\u00e3o!<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Duas l\u00f3gicas distintas a servi\u00e7o da forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, estamos diante de duas l\u00f3gicas de funcionamento que se justificam por princ\u00edpios essencialmente distintos. E o ponto de partida dessa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que o discurso anal\u00edtico tende, invencivelmente, ele mesmo, a se destruir. A tese da autofagia pr\u00f3pria do discurso anal\u00edtico se justifica em fun\u00e7\u00e3o de que \u00e9 o\u00a0<em>saber suposto<\/em>\u00a0que alimenta e sustenta a psican\u00e1lise, e que \u00e9 esse mesmo saber que, por dentro, o corr\u00f3i. Essa forma espec\u00edfica do saber anal\u00edtico, que est\u00e1 na base da experi\u00eancia anal\u00edtica, \u00e9 o que anima a exist\u00eancia da Escola e o que permite ter como seu sustent\u00e1culo b\u00e1sico o dispositivo do passe. O passe apenas existe porque a experi\u00eancia anal\u00edtica secreta essa forma de saber cuja l\u00f3gica \u00e9 aquela da resson\u00e2ncia do saber que se transmite pela via do trabalho de transfer\u00eancia. O saber suposto \u00e9 o que se motiva e se produz por interm\u00e9dio da transfer\u00eancia e \u00e9 nisso que, enquanto modo de saber, ele est\u00e1, genuinamente, ancorado na experi\u00eancia anal\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o funcionamento da Escola se funda e se orienta pelo saber suposto e pela experi\u00eancia do passe, o Instituto, por sua vez, se baseia no saber exposto e naquilo que, no dom\u00ednio da psican\u00e1lise, lhe \u00e9 caracter\u00edstico: o matema. O Instituto \u00e9, portanto, o lugar em que predomina o saber exposto, o \u00fanico capaz de colocar limite ao processo inexor\u00e1vel de autofagia do saber suposto, pr\u00f3prio ao discurso anal\u00edtico. \u00c9 por isso mesmo que se diz que o Instituto \u00e9 o aguilh\u00e3o da Escola. Ele \u00e9 o aguilh\u00e3o da Escola na medida em que, ao empunhar e priorizar a l\u00f3gica da argumenta\u00e7\u00e3o em detrimento daquela da resson\u00e2ncia, ele estimula, por excel\u00eancia, a transfer\u00eancia de trabalho, transfer\u00eancia que apenas pode se personificar na demonstra\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do saber exposto. Nessa distin\u00e7\u00e3o entre o passe e o matema, saber suposto e saber exposto, entre a l\u00f3gica da resson\u00e2ncia e a da argumenta\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e demonstra\u00e7\u00e3o, o Instituto assume suas fei\u00e7\u00f5es de algo que permanecer\u00e1 para sempre como at\u00f3pico: \u201cEnquanto que a Escola se particulariza, esposando os contornos de cada cidade, regi\u00e3o, pa\u00eds, o Instituto, em qualquer lugar que exista, tenta ser o mesmo, tal como o matema\u201d (MILLER, 1997, p. 13).<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">KOYR\u00c9, A. Estudos de Hist\u00f3ria do Pensamento Cient\u00edfico. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 1982.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 10<\/em>: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1962-63).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. (Trabalho original proferido em 1964).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 16<\/em>:\u00a0 De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2008. (Trabalho original proferido em 1968-69).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. L\u2019acte entre intention et cons\u00e9quence.\u00a0<em>La Cause freudienne<\/em>, n. 42, mai. 1999.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Ouverture de la surprise \u00e0 l\u00e9nigme.\u00a0<em>IRMA \u2013 Le Conciliabule d\u2019Angers<\/em>: Effets de surprise dans les psychoses. Paris: Agalma, 1997.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SANTIAGO, J. A querela atual do sintoma: o realismo l\u00f3gico da psican\u00e1lise em face do nominalismo contempor\u00e2neo.\u00a0<em>Curinga<\/em>, v. 24, p. 11-19, 2007.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#refer1\">[1]<\/a><a id=\"nota1\"><\/a>\u00a0Confer\u00eancia proferida em 15 de abril de 2023 durante atividade do IPSM-MG intitulada\u00a0<em>Para que serve o Instituto?<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#ref2\">[2]<\/a><a id=\"nota2\"><\/a>\u00a0\u201cEu diria que o primeiro tempo \u00e9: o mundo existe\u201d. (LACAN, 1962-63\/2005, p. 42)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#refer3\">[3]<\/a><a id=\"nota3\"><\/a>\u00a0A emerg\u00eancia da ci\u00eancia exigiu o \u201cabandono da concep\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica e medieval do Cosmo \u2013 unidade fechada de um Todo, Todo qualitativamente determinado e hierarquicamente ordenado, no qual as diferentes partes que o comp\u00f5em, a saber, o C\u00e9u e a Terra, est\u00e3o sujeitos a leis diversas\u201d. (KOYR\u00c9, 1982, p. 182)<\/h6>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Debate:<\/strong><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Lilany Pacheco:<\/em>\u00a0Queria agradecer muit\u00edssimo ao J\u00e9sus, um trabalho espetacular. Achei interessante isso de voc\u00ea enfatizar: a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9, a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9, a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9&#8230; \u00c9 parecido com o que Lacan fez nos seus Escritos para dizer o que o inconsciente n\u00e3o \u00e9. Achei essa pulsa\u00e7\u00e3o important\u00edssima e que culminou nessa explicita\u00e7\u00e3o das duas l\u00f3gicas de maneira espetacular, clara, marcada por esse percurso que nos deu o ch\u00e3o, para escutarmos a l\u00f3gica que nos orienta em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Escola e a l\u00f3gica que nos orienta em dire\u00e7\u00e3o ao Instituto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jorge Pimenta:<\/em>\u00a0J\u00e9sus, quero agradecer a sua confer\u00eancia. Eu gostaria que voc\u00ea voltasse a falar sobre o primado da pr\u00e1tica, pois voc\u00ea citou a quest\u00e3o da milit\u00e2ncia no marxismo. H\u00e1 um termo da dial\u00e9tica hegeliana retomada por Marx que \u00e9 a\u00a0<em>pr\u00e1xis<\/em>. Podemos pensar essa quest\u00e3o do primado da pr\u00e1tica, ou a teoria da pr\u00e1tica, em fun\u00e7\u00e3o desse termo,\u00a0<em>pr\u00e1xis<\/em>. Achei interessante voc\u00ea ter feito essa refer\u00eancia \u00e0\u00a0<em>Weltanschaaung<\/em>, na medida em que, em Freud, h\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o entre a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise daquela da filosofia que \u00e9 essa de uma vis\u00e3o de mundo. Outra quest\u00e3o que eu faria \u00e9 sobre a \u00e9tica da psican\u00e1lise. Pode-se pens\u00e1-la n\u00e3o como uma deontologia, como \u00e9 a \u00e9tica das profiss\u00f5es; mas, o que seria a \u00e9tica da psican\u00e1lise? Ela inclui o sujeito na sua vertente de\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>, o gozo, a puls\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Bruno Engler:<\/em>\u00a0Incialmente eu gostaria de te agradecer, J\u00e9sus, pelo esfor\u00e7o de demonstra\u00e7\u00e3o do que para mim \u00e9 o que fundamenta a nossa pr\u00e1tica. Minha quest\u00e3o \u00e9 a respeito do que eu entendi como uma \u00e9tica do ato, uma \u00e9tica em ato. Quero perguntar-lhe sobre o que estaria em jogo no ato de Lacan na dissolu\u00e7\u00e3o da Escola tanto no que diz respeito \u00e0 sua causa quanto em rela\u00e7\u00e3o aos seus efeitos, como uma forma de pensarmos o lugar que estamos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cristiana Pittella:<\/em>\u00a0Quero te agradecer muito, J\u00e9sus, por sua exposi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea poderia retomar a quest\u00e3o da Escola como sujeito, a quest\u00e3o do ato e da \u00e9tica pr\u00f3pria da psican\u00e1lise? Poder\u00edamos pensar assim tamb\u00e9m para o Instituto, pois, me pareceu que h\u00e1 algo que se conjuga com a Escola na forma do trabalho do Instituto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Antes de responder a sua quest\u00e3o, Cristiana, queria saber se voc\u00ea considera que o Instituto tamb\u00e9m deve ser concebido como um sujeito? Digo isso pois como se sabe, Jacques-Alain Miller prop\u00f5e uma tese, na sua Teoria de Turim sobre o sujeito da Escola, \u00a0qual seja, que a Escola de Lacan deve ser tomada como um sujeito pass\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o. Como ele se exprime nesse texto: \u201ca vida de uma Escola deve se interpretar. \u00c9 interpret\u00e1vel. Interpret\u00e1vel analiticamente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cristiana Pittella<\/em>: N\u00e3o sei e \u00e9 exatamente isso que te pergunto: como considerar ou pensar Instituto? Por exemplo, chamou-me muito a aten\u00e7\u00e3o voc\u00ea destacar que \u201ca jornada cl\u00ednica incide na forma\u00e7\u00e3o do analista\u201d. Parece-me que h\u00e1 algo a\u00ed tamb\u00e9m do sujeito, do ato e da \u00e9tica da psican\u00e1lise em jogo no Instituto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Sim, Cristiana, considero a sua quest\u00e3o de fundamental import\u00e2ncia para pensarmos o futuro de nosso trabalho com o Instituto. Devo dizer-lhe que apesar das duas l\u00f3gicas distintas, isto \u00e9, o\u00a0<em>saber suposto\u00a0<\/em>do lado da Escola e o\u00a0<em>saber exposto\u00a0<\/em>do lado do Instituto, penso que essas duas l\u00f3gicas existem em fun\u00e7\u00e3o de um objetivo comum, que \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Isso quer dizer que a l\u00f3gica do Passe e a do\u00a0<em>matema\u00a0<\/em>n\u00e3o existem na vida concreta desses dois sujeitos de Direito \u2013 Escola e Instituto \u2013 de forma separada e estanque. Logo, a vida coletiva do Instituto apenas tem lugar se estiver a servi\u00e7o do\u00a0<em>discurso anal\u00edtico.\u00a0<\/em>Concluo, portanto, de modo taxativo, que a vida coletiva do Instituto \u00e9 t\u00e3o interpret\u00e1vel quanto a vida coletiva da Escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Patr\u00edcia Ribeiro<\/em>: J\u00e9sus, muito obrigada. Minha quest\u00e3o diz respeito ao que voc\u00ea sublinhou sobre o \u201crisco de\u00a0<em>autofagia<\/em>\u201d no que toca ao discurso anal\u00edtico. Seria poss\u00edvel pensar nesse risco a partir da leitura do texto de Miller (2005) \u201cUma fantasia\u201d, especificamente quando ele afirma que o discurso da civiliza\u00e7\u00e3o hipermoderna tem a estrutura do discurso do analista?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0\u00c9 verdade, a hipermodernidade faz com que, de alguma maneira, o discurso da civiliza\u00e7\u00e3o passe a ser o discurso anal\u00edtico, e n\u00e3o o discurso do mestre. Essa \u00e9 a ideia central que Jacques-Alain Miller desenvolveu nesse texto ao qual voc\u00ea fez refer\u00eancia. Por\u00e9m, explicite melhor o que voc\u00ea pensa sobre a rela\u00e7\u00e3o dessa mudan\u00e7a com a tese da\u00a0<em>autofagia,\u00a0<\/em>ou seja, de que o discurso anal\u00edtico tende ele pr\u00f3prio a se destruir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Patr\u00edcia Ribeiro:<\/em>\u00a0Exatamente por isso, pelo fato de que n\u00e3o haveria mais, como esclarece Miller, uma rela\u00e7\u00e3o de avesso da psican\u00e1lise, com o discurso do mestre, como havia antes, mas sim uma rela\u00e7\u00e3o de afinidade, de converg\u00eancia com a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago<\/em>: Bastante interessante a sua quest\u00e3o Patr\u00edcia. \u00c9 verdade: se o discurso anal\u00edtico \u2013 e n\u00e3o o discurso do mestre \u2013 passa a ser o discurso da civiliza\u00e7\u00e3o, pode-se conjecturar se isso n\u00e3o agravaria o processo da\u00a0<em>autofagia\u00a0<\/em>pr\u00f3prio do discurso anal\u00edtico. Penso que, para avan\u00e7armos, ter\u00edamos que enfrentar o seguinte problema: para que a psican\u00e1lise possa exercer sua fun\u00e7\u00e3o de \u201cl\u00e2mina cortante\u201d das identifica\u00e7\u00f5es subjetivas se faz necess\u00e1rio, ou n\u00e3o, uma rela\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>exterioridade<\/em>\u00a0da opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica com rela\u00e7\u00e3o ao programa da civiliza\u00e7\u00e3o. Lembro-lhe que, nesse texto mesmo, Miller sugere a ideia de que o surgimento do discurso anal\u00edtico trouxe consequ\u00eancias importantes no \u00e2mbito da sexualidade e da feminilidade. Em outros termos, desde o S\u00e9culo das Luzes n\u00e3o houve discurso mais potente do que a psican\u00e1lise para fazer vacilar os semblantes da vida civilizada. Assim, respondo a sua pergunta com uma outra pergunta: se a psican\u00e1lise n\u00e3o agisse de modo exterior ao programa dominante da civiliza\u00e7\u00e3o, ela teria desempenhado esse papel de fazer vacilar os semblantes nas esferas do sexual e do feminino?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Aluna do Instituto:\u00a0<\/em>Tamb\u00e9m quero te agradecer, J\u00e9sus. Fiquei pensando sobre essas perguntas que se fazem sobre a t\u00e9cnica da psican\u00e1lise, como, por exemplo, o manejo com o pagamento da sess\u00e3o, fazendo acreditar que haveria respostas prontas para isso. Estamos hoje \u00e0s voltas com isso, sobre como fazer operar, como obter respostas pr\u00e1ticas, tais como cobrar a falta na sess\u00e3o, sobre pagamento, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Lilany Pacheco:<\/em>\u00a0Essa pergunta diz respeito aos jovens que demandam na supervis\u00e3o, por exemplo, saber como agir nessas situa\u00e7\u00f5es de falta \u00e0 sess\u00e3o, pagamento&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Aluna do Instituto:<\/em>\u00a0O que mais existe hoje s\u00e3o cursos que ensinam como cobrar a sess\u00e3o, como se faz isso ou aquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0As perguntas referentes ao modo como se analisa hoje s\u00e3o talvez as mais importantes e de mais dif\u00edcil resposta. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que tivemos in\u00fameras Jornadas e Encontros no Campo Freudiano que versam sobre o tema de\u00a0<em>como se analisa hoje.<\/em>\u00a0Na hist\u00f3ria do movimento freudiano, as quest\u00f5es que envolvem os procedimentos cl\u00ednicos de interven\u00e7\u00e3o segundo um conjunto de\u00a0<em>regras a serem seguidas\u00a0<\/em>denominava-se, at\u00e9 o surgimento do ensino de Lacan, \u201ct\u00e9cnicas psicanal\u00edticas\u201d. Assim, as quest\u00f5es relativas \u00e0 transfer\u00eancia e \u00e0 contratransfer\u00eancia, \u00e0 regra fundamental, \u00e0 regra da abstin\u00eancia e ao modo de interven\u00e7\u00e3o (ativo ou passivo), \u00e0 dura\u00e7\u00e3o das sess\u00f5es, \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do analisante (frente a frente ou deitado no div\u00e3), entre outras, eram abordadas como se fossem quest\u00f5es de natureza puramente \u201ct\u00e9cnica\u201d. Foi Lacan quem trouxe um verdadeiro abalo nessa vis\u00e3o cristalizada do tratamento, em que as quest\u00f5es t\u00e9cnicas tornavam-se prevalentes com rela\u00e7\u00e3o ao teor conceitual do que \u00e9 o inconsciente, a transfer\u00eancia, a interpreta\u00e7\u00e3o, a sess\u00e3o anal\u00edtica e etc. Por exemplo, ao abandonar a delimita\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica do tempo da sess\u00e3o, submetendo-a a uma temporalidade vari\u00e1vel ou curta, Lacan evidencia que as quest\u00f5es t\u00e9cnicas devem estar submetidas \u00e0 perspectiva \u00e9tica pr\u00f3pria do discurso anal\u00edtico. Ao ser portadora de uma temporalidade vari\u00e1vel, a sess\u00e3o anal\u00edtica consiste em um modo de interpreta\u00e7\u00e3o por meio do corte da sess\u00e3o, sob a responsabilidade do analista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Lucia Mello:<\/em>\u00a0Eu pe\u00e7o a voc\u00ea, J\u00e9sus, um coment\u00e1rio a respeito da Conversa\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, sobre a sua import\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Eu proporia uma distin\u00e7\u00e3o entre uma Conversa\u00e7\u00e3o que teria incid\u00eancia, de prefer\u00eancia, epist\u00eamica, e outra, que teria um alcance mais cl\u00ednico. Tomaria como exemplo da modalidade epist\u00eamica a\u00a0<em>Conversa\u00e7\u00e3o de Arcachon<\/em>, que criou as condi\u00e7\u00f5es para Jacques-Alain Miller formular a no\u00e7\u00e3o de \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d. Permito-me falar do alcance cl\u00ednico da Conversa\u00e7\u00e3o a partir da experi\u00eancia que a Ana Lydia Santiago p\u00f4de desenvolver no contexto de projetos de\u00a0<em>pesquisa-interven\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>que aconteceram no \u00e2mbito da rede p\u00fablica de ensino. Segundo o m\u00e9todo da Conversa\u00e7\u00e3o, buscou-se intervir nesses sintomas da modernidade que s\u00e3o os problemas e impasses que atingem a vida escolar, na inf\u00e2ncia, como \u00e9 caso do fracasso escolar, da segrega\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia presente nas escolas.<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>\u00a0\u00c9 sabido que a escola lida muito mal com as particularidades da subjetividade, seja na inf\u00e2ncia, seja na adolesc\u00eancia. Nesse caso, o interesse maior da Conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 resgatar a singularidade do sujeito e o modo como o coletivo pode abrir espa\u00e7o, a partir da conversa, para que cada sujeito produza novas enuncia\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como define Miller (2003), uma Conversa\u00e7\u00e3o estimula a s\u00e9rie de associa\u00e7\u00f5es livres. A associa\u00e7\u00e3o livre poder ser coletivizada na medida em que n\u00e3o somos donos dos significantes. Um significante chama outro significante, n\u00e3o sendo t\u00e3o importante quem o produz em um dado momento. O intuito de uma Conversa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 produzir uma enuncia\u00e7\u00e3o coletiva \u2013 pois, do ponto de vista da psican\u00e1lise, isso \u00e9 imposs\u00edvel \u2013, sen\u00e3o uma associa\u00e7\u00e3o livre coletivizada, da qual se espera um certo efeito sobre o saber. Outros analistas fizeram uso do m\u00e9todo da Conversa\u00e7\u00e3o com o objetivo tamb\u00e9m cl\u00ednico, como \u00e9 o caso do Phillipe Lacad\u00e9e, no \u00e2mbito dos jovens adolescentes e da variedade de sintomas que lhes concernem.\u00a0\u00a0<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Maria Rita Guimar\u00e3es:<\/em>\u00a0Fa\u00e7o coro aos agradecimentos e cumprimentos a J\u00e9sus, sua confer\u00eancia foi muito esclarecedora. O que me interessou muito diz respeito ao ato. Se eu me recordo da leitura desse texto ao qual voc\u00ea fez refer\u00eancia \u2013\u00a0<em>Pol\u00edtica lacaniana\u00a0<\/em>\u2013, Miller (1997-98\/2017) vai trazer uma pergunta: \u201ccomo se reconhece um ato?\u201d. E responde: \u201cpor seus efeitos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, me parece que, numa sess\u00e3o cl\u00ednica, o analista tem condi\u00e7\u00f5es de reconhecer esse ato de um modo mais evidente na pr\u00f3xima sess\u00e3o, no que vai se seguindo a\u00ed na an\u00e1lise. No CIEN (Centro Interdisciplinar de Estudos sobre a Crian\u00e7a) \u00e9 poss\u00edvel a gente perceber que houve um efeito desse ato, mediante o impasse apresentado, quando, atrav\u00e9s da Conversa\u00e7\u00e3o, esbo\u00e7a-se alguma sa\u00edda. Como se poderia reconhecer o ato em suas consequ\u00eancias, segundo a pol\u00edtica lacaniana, no coletivo institucional?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Aparentemente, a pergunta da Maria Rita exigiria uma resposta que sairia do escopo de nossas discuss\u00f5es sobre o Instituto e a Escola. Por\u00e9m, n\u00e3o! A pr\u00f3pria exist\u00eancia da primeira Escola de Psican\u00e1lise, isto \u00e9, a Escola Freudiana de Paris, acontece como fruto de um \u201cato\u201d \u2013 o ato solit\u00e1rio de funda\u00e7\u00e3o de Lacan. Entendo que o ato no plano do coletivo institucional sup\u00f5e o desejo do analista, que, por sua vez, se define como a \u201cpura enuncia\u00e7\u00e3o\u201d que visa a \u201cdiferen\u00e7a absoluta\u201d. O ato de funda\u00e7\u00e3o vem para impedir aquilo que \u00e9 um pressuposto da pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o da IPA (<em>International Psychoanalytical<\/em>\u00a0Association), a saber: criar um coletivo que congregue todos os analistas do mundo. Sendo que n\u00e3o existe\u00a0<em>todos os analistas\u00a0<\/em>e tampouco\u00a0<em>o analista<\/em>. \u201cS\u00f3 existe um analista, mais outro, mais outro, mais outro analista, tem\u00a0<em>mille e tre\u00a0<\/em>analistas\u201d (MILLER, 1984, p. 15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 ainda o fato de que esse conjunto de\u00a0<em>todos os analistas<\/em>\u00a0est\u00e1 referido \u2013 porque n\u00e3o dizer \u201cidentificado\u201d \u2013 ao Outro que se situa fora dele: o pai morto. Para Miller (1984, p. 15), \u201ca IPA \u00e9 um coletivo de analistas fundado pela identifica\u00e7\u00e3o ao pai morto\u201d. A Escola de Lacan n\u00e3o se constitui como um conjunto fundado no culto da mem\u00f3ria e tampouco no apego ao legado de seu ensino. O ensino de Lacan existe de modo vivo, entre n\u00f3s, orientando-nos em nossas pr\u00e1ticas cl\u00ednicas e institucionais, em que cada analista entra com a singularidade pr\u00f3pria de sua experi\u00eancia do inconsciente e do modo como cada um fez a passagem de analisante e analista. Vale dizer que constitu\u00edmos um conjunto paradoxal e sem uniformidade e homogeneidade, um conjunto \u00e0 la Bertrand Russell que tem como ponto de partida o axioma:\u00a0 \u201co conjunto de todos os conjuntos que n\u00e3o possuam a si pr\u00f3prios como elementos\u201d. Considere que o\u00a0<em>conjunto P<\/em>\u00a0\u00e9: o conjunto de todos os conjuntos que n\u00e3o possuam a si pr\u00f3prios como elementos. Se todos os conjuntos est\u00e3o formando outro conjunto, ent\u00e3o ele n\u00e3o pode ser um conjunto, da\u00ed surge o paradoxo inerente \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o lacaniana: n\u00e3o existe conjunto de todos os conjuntos, nem classe de todas as classes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>T\u00e2nia Abreu:<\/em>\u00a0J\u00e9sus, \u00e9 sempre um prazer te ouvir. Eu estou trabalhando em minha tese de doutorado sobre a experi\u00eancia anal\u00edtica e seus efeitos de forma\u00e7\u00e3o, e ela tem rela\u00e7\u00e3o com o que voc\u00ea falou, sobre o fato de que o analista se autoriza de si mesmo. Achei fant\u00e1stico voc\u00ea fazer essa diferen\u00e7a entre o Instituto e a Escola a partir do Passe, nesses termos: \u201cO instituto, que n\u00e3o tem o Passe, mas o\u00a0<em>matema<\/em>, pode ser interpretado?\u201d. A Escola pode ser interpretada, pois ela \u00e9 sujeito, ela \u00e9 dividida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea colocou o\u00a0<em>matema<\/em>\u00a0do lado do Instituto e o Passe do lado da Escola. A interpreta\u00e7\u00e3o, a meu ver, s\u00f3 pode mesmo estar do lado da Escola. Mas o Instituto precisa avan\u00e7ar tamb\u00e9m, precisa ser revisto o seu mecanismo. Qual a ferramenta que podemos pensar para esse\u00a0<em>aguilh\u00e3o<\/em>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0T\u00e2nia, creio que j\u00e1 pude responder a sua pergunta quando tratei da quest\u00e3o formulada por Cristiana Pittella. Mesmo que a interpreta\u00e7\u00e3o esteja preferencialmente do lado da Escola e, sobretudo, porque no seu cora\u00e7\u00e3o temos o Passe e o AE \u2013 cuja fun\u00e7\u00e3o principal, como temos visto em nossas discuss\u00f5es, \u00e9 interpret\u00e1-la \u2013, isso n\u00e3o invalida que o coletivo de analistas que assumem responsabilidades possa lan\u00e7ar m\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o no trabalho do Instituto. Afirmo isso na medida em que o trabalho de transmiss\u00e3o do saber anal\u00edtico no Instituto se faz sob os ausp\u00edcios dos princ\u00edpios e meios que se veicula no pr\u00f3prio discurso anal\u00edtico. Nesse sentido, o instrumento com o qual contamos para fazer valer a fun\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>aguilh\u00e3o\u00a0<\/em>do Instituto \u00e9 tanto a transfer\u00eancia de trabalho quanto a interpreta\u00e7\u00e3o \u2013 notadamente, quando esta \u00faltima incide sobre os efeitos de grupo e ao mutualismo inerente \u00e0 vida associativa das institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marcia Mez\u00eancio:<\/em>\u00a0Agrade\u00e7o por sua exposi\u00e7\u00e3o. Eu tamb\u00e9m estou \u00e0s voltas com esse tema sobre o qual discuti nas Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias, bem como na Diretoria de Cart\u00e9is. S\u00e3o quest\u00f5es sobre o\u00a0<em>saber suposto\u00a0<\/em>e o\u00a0<em>saber exposto<\/em>, a elabora\u00e7\u00e3o provocada do saber e o\u00a0<em>aguilh\u00e3o<\/em>. Mas fiquei me perguntando, diferentemente dessa distin\u00e7\u00e3o, sobre o que haveria em comum entre a Escola e o Instituto. E se a resposta n\u00e3o seria a\u00a0<em>transfer\u00eancia de trabalho<\/em>, porque ela est\u00e1 em quest\u00e3o no Passe, no Cartel e no Instituto. Se o Instituto est\u00e1 articulado \u00e0 vertente do\u00a0<em>saber exposto<\/em>, como ele poderia fazer uso da transfer\u00eancia de trabalho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Vou dar continuidade \u00e0s minhas respostas com a quest\u00e3o do Jorge. \u00c9 interessante porque ele faz uso do termo\u00a0<em>pr\u00e1xis<\/em>, que foi muito corrente num momento em que, tanto ele como eu, est\u00e1vamos imersos numa pr\u00e1tica pol\u00edtica militante contra o regime de ditadura militar que tomou conta do Brasil a partir de 64. Ali\u00e1s, n\u00f3s exerc\u00edamos uma milit\u00e2ncia em um grupo pol\u00edtico revolucion\u00e1rio \u2013 A\u00e7\u00e3o Popular Marxista-Leninista \u2013 que, inicialmente, adotava uma orienta\u00e7\u00e3o mao\u00edsta e, pouco a pouco, migrou para uma perspectiva leninista e com forte influ\u00eancia do marxista italiano Ant\u00f4nio Gramsci. A quest\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre a pr\u00e1tica e a teoria sempre foi uma quest\u00e3o importante para os militantes da esquerda revolucion\u00e1ria em a\u00e7\u00e3o sob o regime da ditadura militar. Havia toda uma pol\u00eamica sobre a quest\u00e3o da pr\u00e1tica, sobre o voluntarismo, o \u201ctarefismo\u201d e, tamb\u00e9m, sobre o lugar da teoria e da forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-pol\u00edtica do militante. \u00c9 verdade que, nesse momento dram\u00e1tico de nossa hist\u00f3ria pol\u00edtica, surge, entre n\u00f3s, o uso corrente dessa categoria\u00a0<em>pr\u00e1xis.\u00a0<\/em>Como explicar esse uso? Penso que se tratava de encontrar uma rela\u00e7\u00e3o \u201cdial\u00e9tica\u201d entre a teoria e a pr\u00e1tica, uma vez que nos defront\u00e1vamos com o que, para n\u00f3s, era o desvio do \u201ctarefismo\u201d, ou do voluntarismo, ou seja, para a milit\u00e2ncia, a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tendia a se tornar uma \u201cpr\u00e1tica sem teoria\u201d<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado do marxismo tamb\u00e9m chamado de estrutural, aquele propugnado por Louis Althusser (1977), buscava-se resolver esse problema do voluntarismo do militante por meio do que ele designava como a \u201cpr\u00e1tica te\u00f3rica\u201d. Ele pr\u00f3prio foi levado a fazer uma \u201cautocr\u00edtica\u201d porque isso levou a um outro tipo de desvio: o do teoricismo, ou seja, uma \u201cteoria sem pr\u00e1tica\u201d. No fundo, sob o nome de \u201cteoria\u201d, Althusser aposta em algo inteiramente diverso do que o surgimento da psican\u00e1lise pode promover a esse respeito, pois, segundo ele, a \u201cpr\u00e1tica te\u00f3rica\u201d seria capaz de gerar algo novo no dom\u00ednio do pensamento e da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No terreno da psican\u00e1lise, me parece curioso o fato de que o termo\u00a0<em>pr\u00e1xis\u00a0<\/em>surge, logo no in\u00edcio do Semin\u00e1rio 7,\u00a0<em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>\u201d, provavelmente, porque Lacan (1959-60\/1988) debatia com o ambiente psicanal\u00edtico de sua \u00e9poca a quest\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica anal\u00edtica a um protocolo de regras t\u00e9cnicas. Um ano ap\u00f3s, durante o Semin\u00e1rio 8,\u00a0<em>A transfer\u00eancia<\/em>, Lacan (1960-61\/1992, p. 85) esclarece que o emprego do termo\u00a0<em>pr\u00e1xis<\/em>\u00a0se justifica pelo fato \u201cde que o acesso ao real n\u00e3o deve ser concebido como correlativo da busca de um tema\u201d \u2013 que seria te\u00f3rico \u2013 \u201cainda que este seja universal\u201d. Ele \u00e9 expl\u00edcito a esse respeito, ao dizer, que a\u00a0<em>\u201cth\u00e9oria<\/em>\u00a0[&#8230;] por mais contemplativa que possa ser, ela n\u00e3o \u00e9 somente isso, e a\u00a0<em>pr\u00e1xis\u00a0<\/em>da qual ela se extrai [&#8230;] o demonstra de modo suficiente. Sob esse ponto de vista, a ideia de uma \u201cpr\u00e1tica te\u00f3rica\u201d, como sugere Althusser, constitui-se, para o campo freudiano, um disparate. A teoria n\u00e3o \u00e9, portanto, \u201cuma mera abstra\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>pr\u00e1xis<\/em>, nem sua refer\u00eancia geral, nem o modelo daquilo que seria sua aplica\u00e7\u00e3o\u201d (1960-61\/1992, p. 85). Em suma, com o termo\u00a0<em>pr\u00e1xis,\u00a0<\/em>Lacan mostra que, em psican\u00e1lise, o surgimento da teoria n\u00e3o se faz sem a interveni\u00eancia da pr\u00e1tica, e a teoria, por sua vez, se confunde com o exerc\u00edcio e o poder \u2013\u00a0<em>to pragma \u2013<\/em>\u00a0do fazer e do ato anal\u00edtico. A meu ver, \u00e9 insuficiente o simples apelo \u00e0 intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre a teoria e a pr\u00e1tica, a exemplo do que faz o marxismo, como argumento para manter o emprego do termo\u00a0<em>pr\u00e1xis<\/em>. Tenho a impress\u00e3o que a vertente mais aut\u00eantica do que vem a ser a\u00a0<em>pr\u00e1xis<\/em>\u00a0apenas se mant\u00e9m no horizonte de pr\u00e1ticas que se sustentam no \u00e2mbito da experi\u00eancia, como \u00e9 o caso, na psican\u00e1lise, da experi\u00eancia do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, as pr\u00e1ticas que se alimentam pela via dos ideais, por exemplo o ideal de transforma\u00e7\u00e3o do mundo, com vistas a atingir uma sociedade justa, sem oprimidos e exploradores \u2013 tendem rebaixar a pr\u00e1tica ao plano de um ativismo com conota\u00e7\u00f5es messi\u00e2nicas. Para Walter Benjamin, marxismo e messianismo, revolu\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o, seriam duas faces de uma s\u00f3 e mesma pessoa, ou de um s\u00f3 e mesmo pensamento. Segundo ele, \u201ca imagem da felicidade est\u00e1 indissoluvelmente ligada \u00e0 da reden\u00e7\u00e3o\u201d (BENJAMIN, 1940\/2012, p. 242). Portanto, que la\u00e7o se pode estabelecer entre esses dois aspectos, em que um se qualifica como \u201cpol\u00edtica\u201d e o outro como \u201creligi\u00e3o\u201d? Longe de se exclu\u00edrem, esses dois aspectos parecem se refor\u00e7ar mutuamente, encontrando no pensamento de Benjamin analogias surpreendentes, que chega a falar de \u201cparadoxal reversibilidade rec\u00edproca\u201d do religioso no pol\u00edtico e do pol\u00edtico no religioso. Ao contr\u00e1rio do evolucionismo de esquerda, Benjamin n\u00e3o concebe a revolu\u00e7\u00e3o como resultado \u201cnatural\u201d ou \u201cinevit\u00e1vel\u201d do progresso econ\u00f4mico e t\u00e9cnico (ou da contradi\u00e7\u00e3o entre for\u00e7as e rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o), mas como interrup\u00e7\u00e3o de uma evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica criando as condi\u00e7\u00f5es para uma sociedade sem classes, sem Estado e sem domina\u00e7\u00e3o patriarcal. Contr\u00e1rio a uma vis\u00e3o linear e quantitativa, Benjamin op\u00f5e uma percep\u00e7\u00e3o qualitativa da temporalidade fundada por um lado na\u00a0<em>rememora\u00e7\u00e3o,<\/em>\u00a0por outro na\u00a0<em>ruptura messi\u00e2nica e revolucion\u00e1ria da continuidade.\u00a0<\/em>A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 o equivalente profano da interrup\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica da hist\u00f3ria, e tamb\u00e9m, como se disse antes, \u201csuspens\u00e3o messi\u00e2nica do devir\u201d (L\u00d6WY, 2012, p. 135).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, entendo que a quest\u00e3o da pr\u00e1tica assume uma especificidade pr\u00f3pria em fun\u00e7\u00e3o desse vi\u00e9s profundamente anti-messi\u00e2nico que circunscreve o fazer cl\u00ednico do psicanalista a uma opera\u00e7\u00e3o sobre o sintoma. Meu ponto de vista \u00e9 que isso introduz na rela\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica uma perspectiva pragm\u00e1tica no fazer cl\u00ednico do psicanalista que prov\u00e9m do \u00faltimo ensino de Lacan. \u00c9 o que permite referir-se ao\u00a0<em>primado da pr\u00e1tica<\/em>\u00a0sobre a teoria psicanal\u00edtica que assume o valor de um princ\u00edpio epist\u00eamico que se faz presente desde o momento em que a psican\u00e1lise desponta na cena do mundo enquanto um tratamento ofertado ao ser falante. Assim, a via pragm\u00e1tica se afirma, uma vez que, para Lacan, n\u00e3o h\u00e1 uma\u00a0<em>psican\u00e1lise te\u00f3rica<\/em>\u00a0que se diferencie de uma\u00a0<em>psican\u00e1lise aplicada<\/em>\u00a0e que esteja completamente separada desta \u00faltima. Se n\u00e3o existe uma\u00a0<em>teoria<\/em>\u00a0psicanal\u00edtica propriamente dita, \u00e9 com efeito certo que, em Freud, a cl\u00ednica da histeria apenas venha \u00e0 tona segundo uma \u201cteoria da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica\u201d (LACAN, 1968-69\/2008, p. 64).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a quest\u00e3o da deontologia, posso responder a partir do que disse antes: a deontologia considerada como um conjunto de regras e de deveres que regem a pr\u00e1tica anal\u00edtica seria o avesso da dimens\u00e3o propriamente \u00e9tica da psican\u00e1lise. Se a deontologia constitui um conjunto de regras a ser seguida, ela \u00e9, portanto, exatamente o contr\u00e1rio do que s\u00e3o os princ\u00edpios que orientam a a\u00e7\u00e3o do analista. A esse respeito, vale a pena recuperar o que Miller aborda em seu curso \u201cDonc\u201d acerca do paradoxo do c\u00e9tico de Wittgenstein enunciado pelo l\u00f3gico Saul Kripke (MILLER, 2011). Em termos anal\u00edticos, eu traduziria esse paradoxo assim: nenhum ato anal\u00edtico pode ser determinado por um protocolo de regras a serem seguidas, pois n\u00e3o h\u00e1 como garantir, por meio de um\u00a0<em>saber seguir regras<\/em>, um saber fazer futuro consoante com supostas regras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Houve um momento em que o campo anal\u00edtico se viu amea\u00e7ado pela vontade do Estado-provid\u00eancia de regulamentar a psican\u00e1lise, e, nesse momento, fomos levados fazer um esbo\u00e7o de um c\u00f3digo deontol\u00f3gico que expusesse os princ\u00edpios e procedimentos da pr\u00e1tica anal\u00edtica. Tendo em vista que esses projetos de regulamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram adiante, esse c\u00f3digo foi para gaveta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Lilany Pacheco:<\/em>\u00a0E est\u00e1 na gaveta&#8230;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Sim! Ficou na gaveta. Com isto quero dizer que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conduzir um tratamento anal\u00edtico no horizonte de um c\u00f3digo deontol\u00f3gico. Vou aproveitar para responder \u00e0 aluna do Instituto que fez uma quest\u00e3o importante sobre a t\u00e9cnica. Evidentemente que as quest\u00f5es sobre a t\u00e9cnica psicanal\u00edtica surgem quando estamos em dificuldades com algum problema no tocante ao atendimento de um paciente. Muitas vezes, procura-se resolver essas dificuldades por interm\u00e9dio de um fazer sob o comando de um conjunto de regras prescritivas. Lacan prop\u00f5e que as quest\u00f5es t\u00e9cnicas devem estar submetidas aos princ\u00edpios que conferem subst\u00e2ncia \u00e0 chamada \u00e9tica da psican\u00e1lise. Isso significa que n\u00e3o h\u00e1 como dirigir um tratamento anal\u00edtico por meio de um protocolo de regras t\u00e9cnicas a serem seguidas. A medicina hoje, a t\u00e3o propalada \u201cmedicina baseada em evid\u00eancias\u201d, \u00e9 marcada pelo uso de\u00a0<em>guidelines<\/em>, pelo emprego rotineiro de protocolos e, em suma, por princ\u00edpios de car\u00e1ter estritamente t\u00e9cnicos. Parecem-me importantes os questionamentos e as investiga\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 t\u00eam lugar no terreno da medicina, sobre o emprego do protocolo na atividade cl\u00ednica do m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel afirmar que na pr\u00e1tica psicanal\u00edtica, em contraste com essa dissemina\u00e7\u00e3o do uso dos protocolos na medicina, exige-se uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre teoria e pr\u00e1tica, e tendo a considerar que esse ponto se constitui como algo in\u00e9dito no campo dos saberes em geral.\u00a0 \u00c0 luz do ponto da psican\u00e1lise, pode-se dizer que uma quest\u00e3o que emerge na atividade cl\u00ednica do analista n\u00e3o se resolve sem a dimens\u00e3o te\u00f3rica, sem a dimens\u00e3o conceitual. Por\u00e9m, \u00e9 preciso admitir, por sua vez, que essa mesma dimens\u00e3o conceitual apenas adquire consist\u00eancia e valor epist\u00eamico, se ela emana a partir de uma problematiza\u00e7\u00e3o que tem lugar no seio da pr\u00e1tica anal\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A meu ver, \u00e9 nessa intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre teoria e pr\u00e1tica que reside o precioso aforisma enunciado por Miller: \u201cn\u00e3o h\u00e1 cl\u00ednica psicanal\u00edtica sem \u00e9tica\u201d. Vale dizer que as rela\u00e7\u00f5es entre teoria e pr\u00e1tica s\u00e3o um dos principais princ\u00edpios \u00e9ticos da psican\u00e1lise. Ali\u00e1s, \u00e9 no interior desse problema que se pode inserir a import\u00e2ncia da pr\u00e1tica da supervis\u00e3o. A supervis\u00e3o entendida n\u00e3o apenas como um trabalho dirigido \u00e0\u00a0<em>constru\u00e7\u00e3o do caso<\/em>, mas, tamb\u00e9m, como espa\u00e7o para a interpreta\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica do analista e do desejo do analista. Por exemplo, \u00e9 o trabalho da supervis\u00e3o que pode lan\u00e7ar-se na quest\u00e3o: temos nesse caso cl\u00ednico o funcionamento do desejo do analista como motor do tratamento?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a pergunta do Bruno Engler, sobre a quest\u00e3o da dissolu\u00e7\u00e3o, parece-me interessante coloc\u00e1-la como uma refer\u00eancia para se pensar a dimens\u00e3o do ato, sobre a dimens\u00e3o \u00e9tica do ato, como voc\u00ea mesmo se expressou. O interessante no caso do\u00a0<em>ato da dissolu\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>\u00e9 constatar o que diz Miller no texto que citei antes: \u201cUm ato entre a inten\u00e7\u00e3o e a consequ\u00eancia\u201d. Afirma-se assim: n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o haja nele o componente da inten\u00e7\u00e3o. No fundo, todo ato \u00e9 portador de uma inten\u00e7\u00e3o. E respondendo tamb\u00e9m \u00e0 Maria Rita: no entanto, o que importa destacar na concep\u00e7\u00e3o lacaniana do ato anal\u00edtico \u00e9 a sua consequ\u00eancia. Permanece, para todos n\u00f3s, a quest\u00e3o: quais s\u00e3o as consequ\u00eancias do ato da dissolu\u00e7\u00e3o? Portanto, apenas se obt\u00e9m o alcance do ato por interm\u00e9dio de suas consequ\u00eancias. \u00c9 o caso tamb\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o! S\u00f3 se pode aquilatar o alcance de uma intepreta\u00e7\u00e3o a partir de seus efeitos. Assim, a interpreta\u00e7\u00e3o apenas existe em rela\u00e7\u00e3o com os seus pr\u00f3prios efeitos. Por essa raz\u00e3o, \u00e9 quase imposs\u00edvel querer fazer uma teoria exaustiva do que v\u00eam a ser as diversas modalidades da interpreta\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica anal\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, eu acho que h\u00e1 um outro ponto importante no ato da dissolu\u00e7\u00e3o, promovido por Lacan, ponto que Miller aborda, nesse texto, e que, para mim, permanece em aberto. Trata-se do que num dado momento desse texto ele se prop\u00f5e a esclarecer, que \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o que Lacan adotava para a sua pr\u00e1tica institucional. Ele se pergunta se Lacan n\u00e3o mantinha um respeito excessivo para os grupos existentes no interior de sua Escola. \u00c9 quase como se ele tomasse a forma\u00e7\u00e3o de grupos num coletivo de analistas como um real insurgente. De alguma maneira, isso se constitui como um problema para a pol\u00edtica de Escola, tendo em vista que esses grupos muitas vezes incorrem em perspectivas incompat\u00edveis com os princ\u00edpios do que o pr\u00f3prio Lacan ensinava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejam, por exemplo, a import\u00e2ncia que psicanalista de confiss\u00e3o cat\u00f3lica Fran\u00e7oise Dolto assumiu no ambiente da Escola Freudiana de Paris. Em uma entrevista de Jacques-Alain Miller (2022, p. 425) recentemente publicada no livro\u00a0<em>Lacan Redivivus<\/em>\u00a0sobre o ato de dissolu\u00e7\u00e3o em Lacan, ele revela a forma\u00e7\u00e3o de um grupo que ele nomeia como o \u201cpartido jesu\u00edta\u201d, ou o \u201cpartido cat\u00f3lico\u201d, que assume claramente uma perspectiva que degrada sobremaneira as finalidades do discurso anal\u00edtico. Aponta-se, inclusive, que o grande l\u00edder dessa tend\u00eancia cat\u00f3lica dentro da Escola Freudiana de Paris era o grande te\u00f3rico, especialista em hist\u00f3ria e na m\u00edstica crist\u00e3, o jesu\u00edta Michel de Certeau. Ent\u00e3o, o que aconteceu naquela ocasi\u00e3o \u00e9 que a dissolu\u00e7\u00e3o privilegiou o funcionamento do tipo Escola e buscou intervir nos efeitos de grupo que, de alguma maneira, degradavam a pr\u00f3pria finalidade da Escola que \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 n\u00edtido que, ao longo de sua trajet\u00f3ria, Lacan sacrifica a iniciativa institucional em nome do discurso anal\u00edtico. Respondendo ao Bruno Engler, eu diria que a dissolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um momento crucial para entendermos o que vem a ser o ato anal\u00edtico propriamente dito. E diria mais: o ato da dissolu\u00e7\u00e3o de Lacan encarna o essencial do ato anal\u00edtico, que \u00e9 a passagem de analisante \u00e0 analista. Digamos que a Escola Freudiana de Paris estava voltada muito mais para favorecer e alimentar o discurso do mestre do que dar sustenta\u00e7\u00e3o ao que designamos como discurso psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho importante a lembran\u00e7a de que a dissolu\u00e7\u00e3o se constitui como um momento exemplar do que seria o ato anal\u00edtico e que o ato n\u00e3o \u00e9 apenas o ato de funda\u00e7\u00e3o. E, sob essa \u00f3tica, o ato de funda\u00e7\u00e3o traz nele pr\u00f3prio a dissolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, se a Escola de Lacan deve estar a servi\u00e7o do discurso anal\u00edtico e se, por defini\u00e7\u00e3o, todo discurso \u00e9 o que faz la\u00e7o social, deve-se levar em conta a relev\u00e2ncia de sua inser\u00e7\u00e3o legal\/jur\u00eddica na sociedade civil. Diante disto, se pode ter uma ideia da import\u00e2ncia dos estatutos jur\u00eddicos tanto para a Escola, quanto para o Instituto. Na minha opini\u00e3o, a import\u00e2ncia do pertencimento simb\u00f3lico de uma institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica no terreno do p\u00fablico \u00e9 tal que ela s\u00f3 passa a existir no momento em que se torna detentora de um estatuto legal, jur\u00eddico. Por isso Lacan estimulava que as institui\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas deveriam buscar o reconhecimento de utilidade p\u00fablica junto dos \u00f3rg\u00e3os competentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retorno, agora, \u00e0 quest\u00e3o da Cristiana Pittella que, a meu ver, converge com a pergunta da T\u00e2nia. Acredito que esse ponto \u00e9 fundamental para as nossas discuss\u00f5es sobre as rela\u00e7\u00f5es entre Escola e Instituto ao assumir uma posi\u00e7\u00e3o de que o Instituto \u00e9 t\u00e3o sujeito quanto a Escola e, portanto, como a Escola, o Instituto \u00e9 tamb\u00e9m interpret\u00e1vel. Posso dar um exemplo do quanto o Instituto tamb\u00e9m \u00e9 interpret\u00e1vel. \u00c9 inevit\u00e1vel para todo aquele que assume tanto responsabilidades de condu\u00e7\u00e3o dos trabalhos, quanto tarefas com a transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise no seu interior, se perguntar se o trabalho desenvolvido se mostra compat\u00edvel, ou n\u00e3o, com o discurso anal\u00edtico. Se a l\u00f3gica do Instituto \u00e9 a do\u00a0<em>saber exposto<\/em>, \u00e9 a do\u00a0<em>matema<\/em>, evidentemente que corremos riscos de nos confundirmos com o que fazem os universit\u00e1rios. Sempre me chamou a aten\u00e7\u00e3o a frase inicial do escrito de Lacan (1975\/2003, p. 316) \u201cTalvez em Vincennes\u201d: \u201cTalvez em Vincennes venham a se reunir os ensinamentos em que Freud formulou que o analista deveria apoiar-se, refor\u00e7ando ali o que se extrai de sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, isto \u00e9, saber n\u00e3o tanto para que ela serviu, mas de que se serviu\u201d. Ainda que se tratasse da cria\u00e7\u00e3o de uma Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, Lacan formula, nessa passagem, que o trabalho de transmiss\u00e3o do saber anal\u00edtico deve se apoiar na experi\u00eancia do inconsciente que teve lugar no transcurso de uma an\u00e1lise. Por mais que o foco do que se transmite na Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica passe preferencialmente pelo\u00a0<em>saber exposto<\/em>, \u00e9 preciso conceb\u00ea-la como perme\u00e1vel \u00e0quilo que Freud inventa como a base da cl\u00ednica psicanal\u00edtica, a saber, a experi\u00eancia do inconsciente. Por consequ\u00eancia, a Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica deve ser considerada como uma extens\u00e3o da sess\u00e3o anal\u00edtica, tendo em vista que consiste em mais \u201cuma maneira de interrogar o psicanalista, de lhe for\u00e7ar declarar suas raz\u00f5es\u201d (LACAN, 1977, p. 14). Minha hip\u00f3tese \u00e9 de que o Instituto, o nosso Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental, tornar-se-\u00e1 mais suscet\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o caso ele se aproxime ainda mais dos princ\u00edpios de funcionamento do que Lacan chamou de Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acrescento ainda que, em Minas Gerais, temos uma situa\u00e7\u00e3o muito favor\u00e1vel, pois o Instituto e a Escola existem como espa\u00e7os institucionais conectados um ao outro. Penso, inclusive, que devemos favorecer, cada vez mais, essa intera\u00e7\u00e3o entre essas duas institui\u00e7\u00f5es. N\u00e3o devemos, de modo algum, manter o funcionamento dessas duas modalidades de coletivos de analistas como formas institucionais estanques. Ressalto, por \u00faltimo, que uma outra raz\u00e3o que torna interpret\u00e1vel o Instituto \u00e9 o fato de que este se apresenta, de alguma maneira, subordinado \u00e0 l\u00f3gica da Escola. Portanto, devemos favorecer o processo de intera\u00e7\u00e3o entre Escola e Instituto, na medida em que, no tocante ao discurso anal\u00edtico e \u00e0s exig\u00eancias pr\u00f3prias da cl\u00ednica anal\u00edtica, o\u00a0<em>saber exposto<\/em>\u00a0apenas encontra suas raz\u00f5es considerando a preval\u00eancia do\u00a0<em>saber suposto<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pergunta da M\u00e1rcia Mez\u00eancio acerca da fun\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>aguilh\u00e3o<\/em>\u00a0do Instituto com rela\u00e7\u00e3o ao discurso anal\u00edtico, eu entendo da seguinte forma: se voc\u00ea se dirigir \u00e0 Universidade fazendo o uso dos termos conceituais como o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0ou a fun\u00e7\u00e3o do S1 no tratamento anal\u00edtico, ser\u00e1 preciso detalhar e explicitar do modo o mais transparente poss\u00edvel o valor desses termos. J\u00e1 em nossas discuss\u00f5es cl\u00ednicas, quando fazemos uso deles, n\u00e3o se faz necess\u00e1rio explicit\u00e1-los e detalh\u00e1-los. No terreno de uma discuss\u00e3o cl\u00ednica, em nossas Jornadas ou Congressos, a conversa\u00e7\u00e3o flui e avan\u00e7a, pois o que anima essas discuss\u00f5es s\u00e3o os interesses imediatos, ou n\u00e3o, relativos \u00e0 pr\u00e1tica da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Universidade n\u00e3o \u00e9 assim, pois ela se mant\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o de uma exig\u00eancia e rigor com rela\u00e7\u00e3o ao que denominamos de\u00a0<em>saber exposto.\u00a0<\/em>No meu ponto de vista, e conto, a esse respeito, com muitos anos de experi\u00eancia como professor universit\u00e1rio, essa exig\u00eancia concernente ao\u00a0<em>saber exposto\u00a0<\/em>se constitui de um modo radicalmente outro, no \u00e2mbito do Instituto de Psican\u00e1lise. Se o Instituto lida preferencialmente com o\u00a0<em>saber exposto<\/em>, ele, ao mesmo tempo, reconhece a primazia do\u00a0<em>saber suposto\u00a0<\/em>na opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica<em>.\u00a0<\/em>Por\u00e9m, como questiona M\u00e1rcia, porque afirmar que o Instituto funciona como um\u00a0<em>aguilh\u00e3o<\/em>? Eu penso que o uso da figura do\u00a0<em>aguilh\u00e3o<\/em>\u00a0para caracterizar o estilo de trabalho do Instituto apenas se esclarece se o colocarmos diante da tese da\u00a0<em>autofagia<\/em>\u00a0inerente ao discurso anal\u00edtico. O fator de\u00a0<em>aguilh\u00e3o<\/em>\u00a0pr\u00f3prio do\u00a0<em>saber exposto<\/em>\u00a0existe para estabelecer alguma medida ao efeito de dissipa\u00e7\u00e3o ou corros\u00e3o pr\u00f3prio do que \u00e9 basal na experi\u00eancia anal\u00edtica, isto \u00e9, o<em>\u00a0saber suposto.\u00a0<\/em>Em outras palavras, se aquilo que se conquista na an\u00e1lise, se a especificidade do saber que se adquire na experi\u00eancia viva da an\u00e1lise, tende a se esvair, se faz necess\u00e1rio ao coletivo de analistas o\u00a0<em>saber exposto<\/em>\u00a0como meio de preserva\u00e7\u00e3o do discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A esse prop\u00f3sito, considero os testemunhos de Passe como uma manifesta\u00e7\u00e3o exemplar do que acabo de dizer. N\u00e3o sei se os colegas AE que est\u00e3o presentes nesta sala v\u00e3o estar de acordo, mas eu julgo que h\u00e1 uma diferen\u00e7a substancial entre os primeiros e os \u00faltimos testemunhos de um AE. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o que avan\u00e7a o que acostumamos chamar entre n\u00f3s de \u201censino do AE\u201d, o teor de\u00a0<em>enuncia\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0dos testemunhos tende a reduzir sua for\u00e7a e sua intensidade. Segundo o vocabul\u00e1rio empregado nesta manh\u00e3, eu arrisco dizer que \u00e0 medida que os testemunhos se avolumam, o saber do AE tende a tornar-se\u00a0<em>saber exposto.\u00a0<\/em>Ou seja, passa-se a falar da passagem de analisante \u00e0 analista em termos mais conceituais, com uma perda significativa, em suas constru\u00e7\u00f5es, do valor e do alcance de sua experi\u00eancia mais \u00edntima com o inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Maria Jos\u00e9 Gontijo Salum<\/em><em>:\u00a0<\/em>Agrade\u00e7o pelo que voc\u00ea trouxe. Concordo com o que voc\u00ea falou sobre privilegiar a Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica e, especialmente, dando esse passo, que \u00e9 o de propor a Conversa\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. Ela traduz uma maturidade nas discuss\u00f5es cl\u00ednicas no interior do Instituto em Minas Gerais, ap\u00f3s todos esses anos de funcionamento. O que eu queria perguntar \u2013 e me parece fundamental quando se retoma a discuss\u00e3o do\u00a0<em>saber exposto<\/em>\u00a0a partir da rela\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise com a ci\u00eancia \u2013 seria sobre o uso que a psican\u00e1lise pode fazer da ci\u00eancia, no sentido de se abrir para os procedimentos da ci\u00eancia. Isso n\u00e3o seria tamb\u00e9m uma forma de responder \u00e0 pergunta dessa atividade de hoje sobre \u201cPara que serve o Instituto?\u201d, ou seja, se essa opera\u00e7\u00e3o seria poss\u00edvel de ser feita no interior do Instituto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu pergunto pois a maioria dos jovens que chegam ao Curso de Psican\u00e1lise do Instituto, e ouvimos isso ao fazermos as entrevistas, demandam localizar no Curso, por exemplo, a possibilidade de n\u00e3o simplesmente estudarem a psican\u00e1lise, mas de uma certa sistematiza\u00e7\u00e3o. E, quando perguntamos sobre o que \u00e9 essa sistematiza\u00e7\u00e3o, o ponto ressaltado por eles \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica com a teoria psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto que eu queria tamb\u00e9m destacar, a partir da rela\u00e7\u00e3o Escola-Instituto, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida de que o Instituto s\u00f3 existe a partir da Escola, sustentado pelos membros da Escola. Acho isso fundamental e, nesse sentido, me parece que um modo de o Instituto n\u00e3o ficar repetindo um modelo de mestria e de grupos \u00e9 por meio de sua rela\u00e7\u00e3o com a Escola, pois a pol\u00edtica da psican\u00e1lise se faz a partir da Escola. Sendo assim, o Instituto conectado \u00e0 Escola \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Para responder \u00e0 quest\u00e3o da Maria Jos\u00e9 \u2013 \u201cPara que serve o Instituto?\u201d \u2013, vou retomar a quest\u00e3o da Conversa\u00e7\u00e3o. Digo isto pois tenho a convic\u00e7\u00e3o de que qualquer\u00a0<em>aggiornamento<\/em>\u00a0poss\u00edvel do Instituto ter\u00e1 que passar pelo que chamaria de m\u00e9todo da Conversa\u00e7\u00e3o. Acredito que por essa via n\u00f3s ter\u00edamos mais chances de aproximar a oferta de forma\u00e7\u00e3o que dispensa o Instituto daquilo que se constitui como o seu sustent\u00e1culo, que \u00e9 a Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. Voltemos, portanto, sobre o modo como se pode conceber a Conversa\u00e7\u00e3o tal como ela vem sendo praticada entre n\u00f3s. Em primeiro lugar, \u00e9 preciso dizer que ela \u00e9 um dispositivo que foi criado, alguns anos atr\u00e1s, por Jacques-Alain Miller, com o intuito de dar conta das grandes quest\u00f5es cl\u00ednicas geradas pela desordem do real que se instalou com o advento do s\u00e9culo XXI. A problematiza\u00e7\u00e3o da atualidade cl\u00ednica que o psicanalista enfrenta, em seu cotidiano, culminando com a inven\u00e7\u00e3o da chamada\u00a0<em>psicose ordin\u00e1ria<\/em>, \u00e9 decorrente da\u00a0<em>Conversa\u00e7\u00e3o de Arcachon<\/em>. Devo destacar aqui todo um campo de elabora\u00e7\u00e3o acerca do tema da Conversa\u00e7\u00e3o, sendo que a mais conhecida \u00e9 a que surge com um dos \u00edcones da filosofia pragm\u00e1tica, nos Estados Unidos, que \u00e9 o Richard Rorty. \u00c9 poss\u00edvel extrair elementos sobre a teoria da Conversa\u00e7\u00e3o em sua concep\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica da linguagem, pois o interesse da filosofia, segundo o fil\u00f3sofo, n\u00e3o \u00e9 epist\u00eamico, mas \u00e9tico. O objetivo da conversa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 atingir a verdade, mas fazer existir a s\u00e9rie potencialmente infinita que por si s\u00f3 \u00e9 o signo de um progresso, para o saber, e n\u00e3o de uma regress\u00e3o (RORTY, 1961).\u00a0 Devo referir tamb\u00e9m, a partir de sugest\u00e3o que me foi transmitida pela Ana Lydia, ao escritor e ensa\u00edsta franc\u00eas Marc Fumaroli (1994), que em seu livro\u00a0<em>Trois institutions litt\u00e9raires\u00a0<\/em>trata do assunto. O autor se dedica a explicitar a ideia de que a Conversa\u00e7\u00e3o, concebida como uma institui\u00e7\u00e3o privada, \u00e9 elevada, na Fran\u00e7a, \u00e0 categoria de uma arte: ela impulsiona a cria\u00e7\u00e3o de um \u201cf\u00f3rum de esp\u00edritos\u201d, em que o lugar e o la\u00e7o comum era a literatura. A \u201carte da conversa\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 vista, por Fumaroli, como um dos alicerces da cultura cl\u00e1ssica francesa, pois designa uma pr\u00e1tica desenvolvida nos s\u00e9culos XVII e XVIII, caracterizada pela busca de uma dimens\u00e3o est\u00e9tica e hedonista nas trocas mundanas. A express\u00e3o concerne originalmente \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o mundana, mas suas pr\u00e1ticas e seus valores se estendem para o conjunto da sociedade culta e tiveram grande influ\u00eancia na literatura cl\u00e1ssica francesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um bom exemplo do que vem a ser o uso do princ\u00edpio da Conversa\u00e7\u00e3o no Campo Freudiano \u00e9 o livro, recentemente publicado na Fran\u00e7a, que trata do tema da solu\u00e7\u00e3o\u00a0<em>trans<\/em>. Esse livro, que em breve ser\u00e1 traduzido para o portugu\u00eas, \u00e9 o estabelecimento da\u00a0<em>Conversa\u00e7\u00e3o de UFORCA (Union pour la Formation en Clinique Analytique)<\/em>\u00a0tal como ela aconteceu, sob a base do dizer de seis sujeitos que se veem ocupados por uma problem\u00e1tica\u00a0<em>trans<\/em>\u00a0e que decidiram falar com um psicanalista inserido nos trabalhos e atividades de uma Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. Esclare\u00e7o que a\u00a0<em>Conversa\u00e7\u00e3o de UFORCA<\/em>\u00a0se realiza em torno Se\u00e7\u00f5es Cl\u00ednicas franc\u00f3fonas que, como se disse antes, n\u00e3o se confundem com a Escola. Pois a Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica \u00e9 um Instituto de forma\u00e7\u00e3o no qual os docentes e respons\u00e1veis s\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Ela prop\u00f5e, portanto, o ensino fundamental de psican\u00e1lise, que se estrutura em torno de tr\u00eas eixos: semin\u00e1rios te\u00f3ricos, semin\u00e1rios pr\u00e1ticos e conversa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas com os pacientes. Parece-me decisivo para o futuro do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais a introdu\u00e7\u00e3o desse m\u00e9todo da Conversa\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. Por\u00e9m, \u00e9 preciso considerar que a realiza\u00e7\u00e3o de uma Conversa\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, segundo esse m\u00e9todo, praticado nas Se\u00e7\u00f5es Cl\u00ednicas franc\u00f3fonas, passa por algumas exig\u00eancias, a saber: a escolha de uma tem\u00e1tica cl\u00ednica rigorosamente escolhida e que concerne uma problem\u00e1tica pertinente \u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica; os casos cl\u00ednicos escolhidos dever\u00e3o ser previamente discutidos e constru\u00eddos; realiza\u00e7\u00e3o de uma brochura contendo o relato dos casos, a ser distribu\u00edda com alguma anteced\u00eancia; e, por fim, a conversa\u00e7\u00e3o deve visar a extra\u00e7\u00e3o de teses, hip\u00f3teses e, sobretudo, uma orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica para o nosso trabalho anal\u00edtico cotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Henri Kaufmanner:<\/em>\u00a0Voc\u00ea formalizou duas quest\u00f5es sobre as quais venho pensando, pois, nesses \u00faltimos anos, tenho acompanhado a forma\u00e7\u00e3o dos novos Institutos e das novas Se\u00e7\u00f5es \u2013 Sul, Nordeste, Leste-Oeste \u2013 como \u00eaxtimo, inicialmente, e, depois, como presidente da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. No entanto, h\u00e1 algo aqui em Minas que fazemos h\u00e1 muito tempo e que \u00e9 interessante nessa discuss\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o dos Institutos: trata-se de um certo tensionamento quanto \u00e0 oferta de cursos de forma\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que h\u00e1 uma demanda financeira, os cursos permitem sustentar a estrutura da Escola. Mas, mais do que isso, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o com o saber e com o ensino que constitui um caminho complicado nessa discuss\u00e3o que voc\u00ea traz de maneira t\u00e3o clara e brilhante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando voc\u00ea afirma sobre a import\u00e2ncia de se criar espa\u00e7os e investir, prioritariamente, na dimens\u00e3o da cl\u00ednica \u2013 e minha participa\u00e7\u00e3o nessas reuni\u00f5es sempre foi apontando a import\u00e2ncia da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica \u2013, voc\u00ea n\u00e3o falou sobre a psican\u00e1lise em intens\u00e3o e em extens\u00e3o. Mas parece que h\u00e1 algo em que o Instituto pode operar, nisso que chamamos da psican\u00e1lise em extens\u00e3o, que \u00e9 a inscri\u00e7\u00e3o do Instituto na cidade, nos servi\u00e7os, nas redes.\u00a0 \u00c9 algo que em Minas j\u00e1 existe h\u00e1 muito tempo, embora j\u00e1 tenha sido muito maior, pois as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas hoje n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o favor\u00e1veis como j\u00e1 foram. Contudo, temos sempre que tender a expandir. E, ent\u00e3o, quando voc\u00ea formaliza o Passe, isso esclarece algo que tem rela\u00e7\u00e3o com a pergunta da T\u00e2nia Abreu e que seria o seguinte: qual o real em jogo em cada uma dessas formula\u00e7\u00f5es. Se a pergunta da Escola \u00e9 sobre o que \u00e9 um analista, o que o\u00a0<em>matema<\/em>\u00a0traz \u00e9 uma tentativa de formaliza\u00e7\u00e3o da nossa pr\u00e1tica, de inscrever algo da nossa pr\u00e1tica, de escrever de alguma forma o real, fazer uma f\u00f3rmula do real, o que \u00e9 da ordem do imposs\u00edvel tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s sabemos que isso inspirou Lacan a fazer uma\u00a0<em>matematiza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0da psican\u00e1lise, ainda que o\u00a0<em>matema<\/em>\u00a0n\u00e3o seja uma f\u00f3rmula. O que interroga o Instituto \u00e9 seu enfrentamento do real da cidade, dos seus espa\u00e7os e da tentativa de\u00a0<em>matemizar<\/em>\u00a0isso que \u00e9 da ordem do imposs\u00edvel. \u00c9 importante que tenhamos essa clareza, pois, se a Escola \u00e9 sujeito e \u00e9 interpret\u00e1vel, o Instituto pode se apresentar dividido a partir desse encontro com esse real da experi\u00eancia. Isso est\u00e1 ligado a uma maior participa\u00e7\u00e3o do Instituto nos espa\u00e7os mais diversos, o que a gente j\u00e1 fez aqui em Minas, mas que hoje vive um refluxo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Sou bastante sens\u00edvel a essa formula\u00e7\u00e3o proposta pelo Henri Kaufmanner de que \u00e9 preciso contar com a presen\u00e7a do real em nossa pol\u00edtica institucional dirigida seja \u00e0 Escola, seja ao Instituto. Diante disto, \u00e9 preciso ter uma certa aten\u00e7\u00e3o como os rumos da oferta de forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica que ele intenciona fazer. Esse cuidado com o Instituto diz respeito ao fato de que se faz necess\u00e1rio introduzir esse real da cl\u00ednica, considerando que o seu forte \u00e9 transmiss\u00e3o por meio do\u00a0<em>saber exposto.<\/em>\u00a0Quando falei de aproxima\u00e7\u00e3o do Instituto com a Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica pensava exatamente nesse ponto de que as nossas atividades visando a forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem se restringir \u00e0 transmiss\u00e3o do\u00a0<em>saber exposto<\/em>, sem o concurso do real da cl\u00ednica. Tendo a considerar que, sem a introdu\u00e7\u00e3o desse real da cl\u00ednica, como se referiu anteriormente Henri, n\u00f3s abrimos as portas para a l\u00f3gica de grupo, ou mesmo para a l\u00f3gica de reconhecimento que se faz a partir da forma\u00e7\u00e3o de grupos no interior da institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. \u00c9 sabido que Lacan n\u00e3o considerava que, ao constituir um funcionamento do tipo-Escola para um coletivo de analistas, que isso eliminaria, como num estalar de dedos, os efeitos de grupo. Em nossas conversas sobre a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana concernente \u00e0 institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, Ant\u00f4nio Benetti sempre enfatiza que, diante do real em jogo no pr\u00f3prio funcionamento do tipo Escola, \u00e9 inevit\u00e1vel a forma\u00e7\u00e3o de grupos mutualistas como uma das respostas poss\u00edveis. Se o grupo traz em seu cerne uma consist\u00eancia que \u00e9 pr\u00f3pria do imagin\u00e1rio, evidentemente que ele se presta a ser utilizado como resposta ao real em jogo na forma\u00e7\u00e3o infinita do analista. Se, por um lado, \u00e9 quase inevit\u00e1vel a tend\u00eancia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de grupos, por outro lado, a cria\u00e7\u00e3o da Escola visa, em \u00faltima inst\u00e2ncia, o tratamento desses efeitos de grupo. Assim, se os grupos n\u00e3o s\u00e3o elimin\u00e1veis, eles ter\u00e3o que ser tratados, inclusive interpretados pela pr\u00f3pria Escola-sujeito. Se, de um lado, eu estou inteiramente de acordo com o Henri, de que se faz necess\u00e1rio fazer valer o real no cerne das atividades do Instituo, de outro, discordo dele quando nomeia como sua tarefa principal o enfrentamento do real da cidade. Penso que o objetivo a ser buscado pelos respons\u00e1veis do Instituto \u00e9, sim, tensionar os seus cursos, semin\u00e1rios cl\u00ednicos e outras atividades atrav\u00e9s do real da cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sob esse vi\u00e9s que temos que adotar um olhar cr\u00edtico sobre o que \u00e9 um curso ou um semin\u00e1rio cl\u00ednico articulado \u00e0 concep\u00e7\u00e3o lacaniana da forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Por exemplo, um curso do Instituto se distingue da gama de cursos que surgem na cidade pelo simples fato de que um curso do Instituto toma a psican\u00e1lise como uma pr\u00e1tica. A dimens\u00e3o da pr\u00e1tica tem que ser muito bem exposta num curso de forma\u00e7\u00e3o. Portanto, n\u00e3o podemos fazer um curso como os demais cursos de especializa\u00e7\u00e3o ligados \u00e0s Universidades. N\u00e3o podemos fazer um curso sobre o conceito de inconsciente, conceito de puls\u00e3o, conceito de estruturas cl\u00ednicas, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s temos que trabalhar melhor entre n\u00f3s para criar uma alternativa que seja inovadora e compat\u00edvel com aquilo que \u00e9 o objetivo da psican\u00e1lise e que \u00e9 tratar o sintoma. Estou insistindo muito nesse ponto, mas, se a gente n\u00e3o levar isso em considera\u00e7\u00e3o, simplesmente a psican\u00e1lise vai sofre os mesmos abalos que um dia sofreu o marxismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A psican\u00e1lise n\u00e3o deve, por exemplo, se tornar uma mera ideologia de defesa das quest\u00f5es de g\u00eanero, das quest\u00f5es segregativas \u2013 e n\u00e3o digo que a quest\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha a sua import\u00e2ncia, mas n\u00e3o \u00e9 a Escola que tem que abra\u00e7ar essa causa. A causa da Escola \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o do analista. Se abdicarmos desse ponto, a psican\u00e1lise vai acabar, vai se extinguir. Se a psican\u00e1lise se transformar numa ideologia, se ela perder o seu teor subversivo, que \u00e9 o de tratar o sintoma, ela vai se fragilizar enquanto discurso. Desse modo, eu penso que temos uma responsabilidade em n\u00e3o deixar reduzir a psican\u00e1lise a mais uma cosmologia ou a uma ideologia sobre a modernidade, sobre o contempor\u00e2neo, sobre as quest\u00f5es da segrega\u00e7\u00e3o racial e sexual! Essas quest\u00f5es existem e temos que encontrar as formas mais compat\u00edveis com o discurso anal\u00edtico para trat\u00e1-las. Por essa raz\u00e3o, considero que dever\u00edamos favorecer a perspectiva da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica no contexto do funcionamento do Instituto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Lilany Pacheco:<\/em>\u00a0Nesse sentido, me parece importante pensar, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, que os N\u00facleos de Pesquisa n\u00e3o se constituam em grupos de especialistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0O problema \u00e9 que trabalhar no sentido da aproxima\u00e7\u00e3o do Instituto e da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica n\u00e3o \u00e9 nada simples. Em primeiro lugar, porque temos que conviver pela frente com a proibi\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>apresenta\u00e7\u00e3o de enfermo<\/em>, que \u00e9 o elemento fundamental na estrutura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. De toda forma, devemos fazer todos os esfor\u00e7os de inven\u00e7\u00e3o para fazer prevalecer os princ\u00edpios que orientam a tese lacano-milleriana da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Maria de F\u00e1tima Ferreira<\/em><em>:\u00a0<\/em>J\u00e9sus, obrigada por sua confer\u00eancia. Me chamou a aten\u00e7\u00e3o o modo como funciona a Conversa\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, especialmente a discuss\u00e3o do caso cl\u00ednico. Eu quero te perguntar sobre o seu modo de funcionamento, pois n\u00e3o \u00e9 o psicanalista que trouxe o caso cl\u00ednico quem o apresenta, n\u00e3o \u00e9? Conforme voc\u00ea diz, h\u00e1 um modo de funcionamento anterior \u00e0 Conversa\u00e7\u00e3o em Cart\u00e9is, nos quais se discutem os casos cl\u00ednicos, mas, no momento da Conversa\u00e7\u00e3o, me parece que o analista respons\u00e1vel pela condu\u00e7\u00e3o do tratamento, bem como os debatedores que interv\u00eam na discuss\u00e3o, acionam um funcionamento bem parecido com a l\u00f3gica do Passe. Ter\u00edamos um passante (o analista) que relata o caso para um passador e, na apresenta\u00e7\u00e3o do relato cl\u00ednico, \u00e9 o passador quem comunica aos demais debatedores o que lhe foi relatado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Voc\u00ea tem toda raz\u00e3o sobre o modo como as Conversa\u00e7\u00f5es Cl\u00ednicas acontecem na Fran\u00e7a, elas t\u00eam um funcionamento que cont\u00e9m particularidades que dificultam muito o emprego desse mesmo dispositivo entre n\u00f3s. Ali\u00e1s, \u00e9 preciso dizer que, quando a Maria Jos\u00e9 era a Diretora Geral do Instituto, n\u00f3s iniciamos uma discuss\u00e3o para avaliar a viabilidade de uma Conversa\u00e7\u00e3o nos moldes das Jornadas Cl\u00ednicas do UFORCA. \u00c9 claro que a realiza\u00e7\u00e3o dessas Jornadas, no contexto do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental, requereria de nossa parte uma capacidade inventiva para encontrar solu\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com as circunst\u00e2ncias particulares de nosso funcionamento. Nesse sentido, F\u00e1tima, eu considero bastante pertinente a sua hip\u00f3tese sobre a analogia do funcionamento das Jornadas UFORCA com a l\u00f3gica de transmiss\u00e3o do Passe. Penso, no entanto, que essa analogia n\u00e3o se justifica apenas pela similaridade do modelo organizacional desses dois dispositivos. Parece-me que o mais decisivo diz respeito \u00e0 sua coloca\u00e7\u00e3o de que analista que conduz o caso funciona como uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>passante<\/em>\u00a0que relata o caso para um\u00a0<em>passador\u00a0<\/em>e, na apresenta\u00e7\u00e3o do relato cl\u00ednico, \u00e9 o\u00a0<em>passador<\/em>\u00a0quem comunica aos demais debatedores o que lhe foi relatado. Depreende-se, da formula\u00e7\u00e3o desse funcionamento, que em ambos os dispositivos estamos diante do problema do que \u00e9 a transmiss\u00e3o de um saber a partir de uma experi\u00eancia do real. \u00c9 bem prov\u00e1vel que para realizar no Instituto uma Jornada, segundo essa modalidade da Conversa\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 preciso aprofundar a reestrutura\u00e7\u00e3o do Instituto segundo o princ\u00edpio da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, isto \u00e9, introduzir, de modo calculado, em nossos dispositivos de transmiss\u00e3o do saber anal\u00edtico, o\u00a0<em>real da cl\u00ednica<\/em>. Devo destacar, por \u00faltimo, que convivemos no momento atual com um enorme obst\u00e1culo para efetivar a implanta\u00e7\u00e3o de algo pr\u00f3ximo da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, obst\u00e1culo oriundo dos tempos da\u00a0<em>despatologiza\u00e7\u00e3o<\/em>, pois somos o alvo de uma proibi\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel das\u00a0<em>apresenta\u00e7\u00f5es de enfermo<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Paula Pimenta:<\/em>\u00a0Eu te agrade\u00e7o e falo em nome da Diretoria de Ensino do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais. Acrescento um ponto que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o do discurso da ci\u00eancia. N\u00f3s recebemos no Instituto os candidatos ao Curso de Psican\u00e1lise e v\u00e1rios trazem a pergunta sobre a &#8220;forma\u00e7\u00e3o&#8221; que nosso curso vir\u00e1 lhes propiciar. Eu acho que voc\u00ea j\u00e1 se antecipou \u00e0 minha pergunta ao diferenciar os cursos de psican\u00e1lise que existem e o que seria a proposta dos Institutos parceiros da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, que \u00e9 a abordagem da pr\u00e1tica. Achei isso essencial. O que eu acrescentaria, para retomar esse ponto, seria que, recentemente, no \u00faltimo mandato de governo federal que acabou em 2023, foi aprovada a proposi\u00e7\u00e3o da gradua\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. As associa\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise de todo o Brasil investiram esfor\u00e7os por longo tempo para que isso n\u00e3o ocorresse, mas foi autorizada, em uma etapa preliminar, pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, a gradua\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise. Em que medida isso interferir\u00e1 no tipo de aluno que o Instituto passar\u00e1 a receber? Como voc\u00ea v\u00ea a repercuss\u00e3o dessa autoriza\u00e7\u00e3o no Instituto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Paula, \u00e9 sempre nocivo para a psican\u00e1lise essas tentativas de regulamentar sua pr\u00e1tica, seja pelo ordenamento jur\u00eddico exercido sob o controle das corpora\u00e7\u00f5es profissionais, seja pela concess\u00e3o de diplomas, via o sistema universit\u00e1rio, que, em \u00faltima an\u00e1lise, objetivam outorgar uma suposta habilita\u00e7\u00e3o do que eles pr\u00f3prios denominam como exerc\u00edcio profissional. N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o o fato de que tanto Freud, quanto Lacan, fizeram de tudo para preservar a forma\u00e7\u00e3o e a autoriza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica anal\u00edtica fora do dom\u00ednio e do controle do Estado. A raz\u00e3o principal \u00e9 que a base de sustenta\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de um psicanalista \u00e9 a exig\u00eancia de que o candidato \u00e0 pr\u00e1tica tenha passado pela experi\u00eancia do inconsciente. E essa exig\u00eancia concernente \u00e0 experi\u00eancia da an\u00e1lise n\u00e3o tem outra forma de controle que n\u00e3o seja os pr\u00f3prios analistas. Sem sombra de d\u00favidas, a aprova\u00e7\u00e3o dessa proposta de gradua\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise trar\u00e1 consequ\u00eancias nefastas tanto para o Instituto, quanto tamb\u00e9m para a Escola. Ela \u00e9 incompat\u00edvel com o pressuposto lacaniano de que, apoiado em sua experi\u00eancia do inconsciente, \u00e9 o psicanalista que se autoriza por si mesmo e por alguns outros. Diante dessa medida governamental contr\u00e1ria \u00e0 concep\u00e7\u00e3o lacaniana da forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, n\u00e3o nos resta outra sa\u00edda sen\u00e3o fazermos a nossa parte, aprofundando ainda mais a nossa pr\u00e1tica institucional inspirada na \u00e9tica da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ram Mandil:<\/em>\u00a0Achei interessante a refer\u00eancia \u00e0\u00a0<em>autofagia<\/em>\u00a0do\u00a0<em>saber suposto<\/em>\u00a0e fiquei me perguntando o que justificaria essa\u00a0<em>autofagia<\/em>. Podemos considerar que uma an\u00e1lise tende \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>saber suposto<\/em>\u00a0implicado naquela experi\u00eancia, mas que haveria tamb\u00e9m um cuidado em manter uma rela\u00e7\u00e3o com o saber, inclusive com o\u00a0<em>saber suposto<\/em>, pois, de alguma forma, a transfer\u00eancia se funda mais sobre a suposi\u00e7\u00e3o de saber do que sobre a exposi\u00e7\u00e3o de saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, achei fundamental isso que voc\u00ea trouxe para pensar a articula\u00e7\u00e3o entre o Passe e o\u00a0<em>matema<\/em>, de modo que o testemunho de um AE n\u00e3o deixe em segundo plano os problemas cruciais da psican\u00e1lise, inclusive como experi\u00eancia de Escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao ensino da psican\u00e1lise: partindo da quest\u00e3o de Lacan \u2013 \u201ccomo ensinar aquilo que n\u00e3o se ensina?\u201d \u2013, considero essa pergunta fundamental uma vez que, a meu ver, ela tamb\u00e9m interroga a tend\u00eancia em tomar o discurso universit\u00e1rio como refer\u00eancia de ensino, inclusive nos Institutos. Por essa via, o que se ensina tende a virar mat\u00e9ria, tende a virar objeto, o modo de ensino vai para o lado da pedagogia, da did\u00e1tica ou coisa dessa ordem e, realmente, para n\u00f3s, isso n\u00e3o \u00e9 o principal, uma vez que tende a excluir a dimens\u00e3o da pr\u00e1tica e aquilo que, da experi\u00eancia anal\u00edtica, n\u00e3o se concentra em mat\u00e9ria ou disciplina. Isso me fez lembrar de uma express\u00e3o que Miller utilizou em algum momento e que permite pensar n\u00e3o apenas o ensino no Instituto, mas tamb\u00e9m a sua rela\u00e7\u00e3o com a Escola, que \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de imers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se pensar que a transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise se d\u00e1 num ambiente de imers\u00e3o. Existe aquilo que se veicula atrav\u00e9s da pr\u00f3pria experi\u00eancia anal\u00edtica, aquilo que se veicula na Escola e aquilo que se veicula no Instituto. Se a gente mantiver muito desarticulada a rela\u00e7\u00e3o Instituto-Escola, perderemos esse clima que \u00e9 fundamental na forma\u00e7\u00e3o, o de estar imerso em uma experi\u00eancia em curso e que mobiliza a cada vez novos elementos para nossa considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o do ensino da psican\u00e1lise, partindo dessa mesma quest\u00e3o do Lacan \u2013 \u201ccomo ensinar aquilo que n\u00e3o se ensina?\u201d \u2013, acho que essa \u00e9 uma pergunta fundamental pois a tend\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 dos Institutos, \u00e9 a de tomar como refer\u00eancia alguma coisa do discurso universit\u00e1rio. Ent\u00e3o, como eu disse, o que se ensina tende a virar mat\u00e9ria, o modo de ensino vai para o lado da pedagogia e da did\u00e1tica e realmente para n\u00f3s isso n\u00e3o interessa. Exclui a dimens\u00e3o da pr\u00e1tica e daquilo que propriamente n\u00e3o se concentra em mat\u00e9rias e objetos. Por isso, lembrei de uma express\u00e3o que Miller usou e que acho que permite pensar a rela\u00e7\u00e3o Instituto-Escola, que \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de imers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea pode pensar que, na entrada na pr\u00e1tica anal\u00edtica, voc\u00ea est\u00e1 entrando em um ambiente de imers\u00e3o. Tem aquilo que se veicula atrav\u00e9s da pr\u00f3pria experi\u00eancia anal\u00edtica, aquilo que se veicula na Escola e aquilo que se veicula no Instituto. Se a gente mantiver muito desarticulada a rela\u00e7\u00e3o Instituto-Escola, perderemos esse clima que \u00e9 o fundamental na forma\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o de estar aqui imerso em uma experi\u00eancia que n\u00e3o se conclui e que mobiliza elementos que seguir\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Talvez n\u00f3s possamos encerrar a nossa discuss\u00e3o com esse coment\u00e1rio agudo de Ram Mandil sobre esse verdadeiro paradoxo segundo o qual, em psican\u00e1lise, ensina-se o que n\u00e3o se ensina. Por meio do problema do que \u00e9 ensinar psican\u00e1lise, o coment\u00e1rio elucida e aprofunda diversos aspectos do que pude abordar no tocante \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre Instituto e Escola. Eu ainda refor\u00e7aria a ideia fundamental de que a entrada na pr\u00e1tica anal\u00edtica se faz por meio de um lan\u00e7ar-se em um ambiente de imers\u00e3o que confunde com a Escola e o Instituto. Como conclui Ram, \u00e9 por estarmos imersos numa experi\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel que, por consequ\u00eancia, nunca se conclui, que \u00e9 preciso manter viva a intera\u00e7\u00e3o inspirada entre o Passe e\u00a0<em>matema<\/em>, entre a Escola e o Instituto, animado pelo esp\u00edrito da Conversa\u00e7\u00e3o e da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda temos a pergunta da Renata Mendon\u00e7a e, portanto, vamos escut\u00e1-la!\u00a0\u00a0\u00a0<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Renata Mendon\u00e7a:<\/em>\u00a0Eu tamb\u00e9m gostaria de te agradecer. A minha pergunta, eu a fa\u00e7o a partir do Ateli\u00ea de Psican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o, do qual sou uma das respons\u00e1veis. Voc\u00ea traz quest\u00f5es extremamente pertinentes para separar o Instituto do mundo das p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es e isso implica diretamente o desejo do analista. Digo isso porque o desejo do analista exclui a milit\u00e2ncia e uma posi\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica. Penso aqui nos jovens que est\u00e3o \u00e0s voltas com as redes, sendo capturados pelas ofertas de v\u00e1rios cursos, v\u00e1rios saberes t\u00e9cnicos sobre psican\u00e1lise. E agora, com a gradua\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise, isso se complica ainda mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, o psicanalista, ao tomar uma posi\u00e7\u00e3o na cl\u00ednica de defesa de um determinado grupo, isso levaria, a meu ver, ao apagamento seu desejo, por excluir a singularidade de cada sujeito na experi\u00eancia anal\u00edtica. Isso \u00e9 muito importante em um momento em que estamos \u00e0s voltas com quest\u00f5es fundamentais, como, por exemplo \u2013 e no caso que me cabe \u2013, a quest\u00e3o do racismo e as quest\u00f5es\u00a0<em>trans<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta que fa\u00e7o \u00e9 no sentido de como manejar para incluir essas quest\u00f5es na cl\u00ednica sem perder de vista o desejo do analista e, consequentemente, a singularidade de cada caso cl\u00ednico. Isso \u00e9 algo novo para a Escola e para o Instituto.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e9sus Santiago:<\/em>\u00a0Antes de responder a pergunta da Renata Mendon\u00e7a, gostaria de ainda tecer algumas palavras aos questionamentos que Maria Jos\u00e9 e Paula Pimenta fizeram, anteriormente, sobre a quest\u00e3o forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica e suas rela\u00e7\u00f5es com a ci\u00eancia. \u00c9 interessante observar que, quando Lacan (1971\/2003, p. 237) funda a Escola Freudiana de Paris, ele cria uma Se\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise Aplicada, que porta como subt\u00edtulo: \u201cO que significa de terap\u00eautica e cl\u00ednica m\u00e9dica\u201d. De alguma maneira, desde a funda\u00e7\u00e3o da Se\u00e7\u00e3o de Psican\u00e1lise Aplicada, no interior da Escola, j\u00e1 se faz presente algo do esp\u00edrito da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. Chama a aten\u00e7\u00e3o o destaque que \u00e9 dado \u00e0 medicina como campo de elabora\u00e7\u00e3o para o que \u00e9, nesse momento, a aplica\u00e7\u00e3o terap\u00eautica da psican\u00e1lise. Seu pensamento \u00e9 que nessa Se\u00e7\u00e3o da Escola estar\u00e3o \u201cgrupos m\u00e9dicos [&#8230;] que estejam em condi\u00e7\u00f5es de contribuir para a experi\u00eancia psicanal\u00edtica: pela cr\u00edtica de suas indica\u00e7\u00f5es em seus resultados; pela experimenta\u00e7\u00e3o dos termos categ\u00f3ricos e das estruturas que introduzi como sustentando a linha direta da\u00a0<em>pr\u00e1xis<\/em>\u00a0freudiana\u201d (LACAN, 1971\/2003, p. 237).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Impressiona a antevis\u00e3o de Lacan acerca do impacto da ci\u00eancia como discurso, e n\u00e3o tanto como saber, impacto que, para ele, se presentifica de modo contundente no terreno da cl\u00ednica m\u00e9dica. \u00c9 prov\u00e1vel que com essa proposta Lacan antecipava a necessidade de atualiza\u00e7\u00e3o de nossa pr\u00e1tica anal\u00edtica tendo em vista as grandes mudan\u00e7as que j\u00e1 se anunciavam no momento de funda\u00e7\u00e3o de sua Escola. Evidentemente que a maneira voraz com a qual a ci\u00eancia invade o campo da medicina, em detrimento de sua vertente propriamente cl\u00ednica, constitui-se no fator fundamental para entrever as mudan\u00e7as necess\u00e1rias em nossa pr\u00e1tica. Faz-se necess\u00e1rio renovar nossa pr\u00e1tica no mundo, visto que \u00e9 o pr\u00f3prio mundo que se reestrutura provocado pela alian\u00e7a dos dois mais eminentes fatores hist\u00f3ricos: o discurso da ci\u00eancia e o do capitalismo. Segundo Miller (2014), a preval\u00eancia desses dois discursos na modernidade constitui o principal m\u00f3vel de destrui\u00e7\u00e3o da estrutura tradicional da experi\u00eancia humana. A consequ\u00eancia da a\u00e7\u00e3o combinada e corrosiva desses dois discursos, atingindo os fundamentos mais profundos de tal tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o que ele p\u00f4de designar como a \u201cgrande desordem no real (MILLER, 2014, p. 23). \u00c9 pela via da alian\u00e7a da ci\u00eancia e do capitalismo, que \u201co real escapou da natureza (MILLER, 2014, p. 23), instalando a desordem que afetou a reprodu\u00e7\u00e3o, a sexualidade, a fam\u00edlia, a ordem paterna, etc. A psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana vem se mostrando um discurso potente para contrapor e ultrapassar os discursos velhos e retr\u00f3grados que protagonizam a ordem natural do real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossa pol\u00edtica para a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica n\u00e3o poderia permanecer impass\u00edvel e indiferente a essa desordem que, de algum modo, torna pens\u00e1vel o que antes era apenas uma ideia-limite e, por isso mesmo, impens\u00e1vel, a saber, o real sem lei e sem sentido. Aproveitando o que disse nesta manh\u00e3, \u00e9 preciso considerar que o real, entendido desse modo, n\u00e3o \u00e9 um cosmo, n\u00e3o \u00e9 um mundo e, tampouco, uma ordem de saber ainda n\u00e3o revel\u00e1vel. O real \u00e9 pe\u00e7a solta, \u00e9 peda\u00e7o, um fragmento assistem\u00e1tico, separado do saber ficcional que se produz a partir do encontro entre\u00a0<em>lal\u00edngua\u00a0<\/em>e o corpo, encontro que faz do real sem lei pr\u00e9via uma pura conting\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retornemos \u00e0 nossa pol\u00edtica para a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica sabendo que, ao contr\u00e1rio da ci\u00eancia, na psican\u00e1lise n\u00e3o h\u00e1 saber no real. Se a ci\u00eancia pode demonstrar o real pela via do necess\u00e1rio, pela via desse alojar um saber no real, a psican\u00e1lise n\u00e3o, a psican\u00e1lise precisa do singular, ela precisa do sintoma, porque ela demonstra o real pela via da conting\u00eancia, pela via do um a um, do caso a caso. E toda a nossa quest\u00e3o \u00e9 como inserir esse real da cl\u00ednica em nossos cursos te\u00f3ricos, em nossos cursos pr\u00e1ticos, em nossas apresenta\u00e7\u00f5es de caso. Caso venhamos abrir m\u00e3o do ponto de vista cl\u00ednico, embasado por esse real arriscado da conting\u00eancia, estaremos, em breve, confundidos com mais uma vis\u00e3o sociol\u00f3gica do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora sim vou tentar responder a quest\u00e3o, a meu ver crucial, da Renata Mendon\u00e7a, sobre como manter vivo o desejo do analista em forma\u00e7\u00e3o<em>,<\/em>\u00a0como manter viva a\u00a0<em>pr\u00e1xis\u00a0<\/em>anal\u00edtica considerando o dever que lhe compete de n\u00e3o ceder aos desvios e concess\u00f5es que amortecem o seu avan\u00e7o e degradam o seu emprego (LACAN, 1971\/2003). Voc\u00ea tem toda raz\u00e3o em trazer para essa discuss\u00e3o sobre os novos rumos para o Instituto a fun\u00e7\u00e3o do desejo do analista em sua rela\u00e7\u00e3o com um mundo em que os processos de segrega\u00e7\u00e3o se ampliam e se agravam cada vez mais. E isso tem consequ\u00eancias para a diversidade das muta\u00e7\u00f5es que incidem sobre as novas modalidades do envolt\u00f3rio formal do sintoma. Torna-se claro que o seu questionamento, Renata, toca no problema da forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica que o Instituto deve ofertar, considerando as novas configura\u00e7\u00f5es do mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o. A forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica no Instituto deve se mostrar, assim, compat\u00edvel com as exig\u00eancias colocadas \u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica que acontece em um mundo que caminha no sentido do abandono das normas neur\u00f3ticas, fazendo valer o sintoma menos como mensagem do inconsciente recalcado, e mais como defesa do real do gozo. A forma\u00e7\u00e3o deve, assim, incluir um saber fazer com essas novas formas do sintoma que se apresentam como meio de gozo e deve incluir, tamb\u00e9m, um saber analisar o\u00a0<em>falasser\u00a0<\/em>(<em>parl\u00eatre<\/em>), no sentido de que, al\u00e9m de falar, ele tem um corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 apenas esse\u00a0<em>saber fazer\u00a0<\/em>com o sintoma que gera a distin\u00e7\u00e3o entre o ensino no Instituto e a oferta de cursos de psican\u00e1lise no \u00e2mbito da Universidade. N\u00e3o \u00e9 apenas o saber que est\u00e1 em jogo nessa distin\u00e7\u00e3o entre o Instituto e a Universidade, pois o foco fundamental dessa diferencia\u00e7\u00e3o \u00e9 o desejo do analista compreendido como \u201cpura enuncia\u00e7\u00e3o\u201d. Mais precisamente, o desejo do analista \u00e9 uma inc\u00f3gnita, um \u201cx\u201d que se coloca em sua pr\u00f3pria enuncia\u00e7\u00e3o (LACAN, 1967\/2003, p. 257). Segundo esclarecimento recente de Miller (2023), esse \u201cestar em posi\u00e7\u00e3o de inc\u00f3gnita (x) em sua pr\u00f3pria enuncia\u00e7\u00e3o\u201d se ilustra pela figura do\u00a0<em>Che vuoi?<\/em>, que, por sua vez, assume a forma de uma pergunta: \u201cque quer me dizer um analista quando fala e tamb\u00e9m quando n\u00e3o fala?\u201d. Se desejo n\u00e3o se confunde com a fala, o analista no plano de seu desejo se mant\u00e9m em uma posi\u00e7\u00e3o de inc\u00f3gnita (x), ou seja, \u201cn\u00e3o se sabe o que ele quer\u201d. Segundo ele, se pode dizer que o analista pratica a \u201carte do enigma\u201d, ou seja, \u201co enigma est\u00e1 para al\u00e9m do enunciado, por\u00e9m, n\u00e3o se sabe\u201d. E continua essa elabora\u00e7\u00e3o a partir da diferen\u00e7a entre a demanda e o desejo, visto que \u201ca demanda \u00e9 sempre a demanda de algo; o desejo do analista n\u00e3o \u00e9 nunca o desejo de algo para os seus analisantes\u201d. Conclui-se, assim, que \u201co desejo do analista se confunde com o desejo de nada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 essa articula\u00e7\u00e3o acerca do desejo do analista que permite estabelecer a diferen\u00e7a fundamental entre os cursos universit\u00e1rios e o ensino do Instituto, pois este \u00faltimo tem como horizonte a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, cujo princ\u00edpio orientador \u00e9 a passagem de analisante \u00e0 analista. Nos cursos universit\u00e1rios de psican\u00e1lise, em seus programas, prepondera o saber em detrimento do desejo do analista, desejo este que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, concerne \u00e0 passagem do analisante a analista. Mais ainda, constata-se que os cursos universit\u00e1rios se mostram fortemente atra\u00eddos pelos significantes-mestres que circulam, em nossa \u00e9poca, como eixos orientadores da civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Da\u00ed a import\u00e2ncia que assume, nesses cursos, o saber sociol\u00f3gico que busca interpretar, por exemplo, o fen\u00f4meno da segrega\u00e7\u00e3o racial ou sexual. Acoplados a esses saberes, destaca-se inclusive a relev\u00e2ncia da atividade militante de grupos que buscam a defesa das causas qualificadas como identit\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, estou inteiramente de acordo quando voc\u00ea afirma que \u201co desejo do analista exclui a milit\u00e2ncia e uma posi\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica\u201d. Em termos conceituais, eu afirmaria que: se o desejo do analista \u00e9 o desejo de nada, se o desejo do analista \u00e9 manter-se em posi\u00e7\u00e3o de inc\u00f3gnita (x) para sua pr\u00f3pria enuncia\u00e7\u00e3o, isto sup\u00f5e evitar posi\u00e7\u00f5es e defesas animadas pelas identifica\u00e7\u00f5es. Se a Escola e o Instituto se tornarem um sindicato em defesa das identidades, elas correm o risco, como voc\u00ea mesma afirma, de apagar aquilo que \u00e9 o motor da cl\u00ednica psicanal\u00edtica, ou seja, o desejo do analista. A psican\u00e1lise opta por n\u00e3o tratar, seja o problema do racismo, seja a quest\u00e3o\u00a0<em>trans<\/em>, por meio do ativismo militante, reduzindo essas quest\u00f5es decisivas, para o rumo da civiliza\u00e7\u00e3o ao problema de defesa das identidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica lida com o sintoma e, paradoxalmente, o sintoma \u00e9 concebido, por Miller (1998, p. 55), por nada menos que \u201cuma identidade a mais segura\u201d de algu\u00e9m\u201d. A identidade, em psican\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 da ordem de uma rela\u00e7\u00e3o de si mesmo consigo pr\u00f3prio e, tampouco, da ordem de si mesmo a um grupo identit\u00e1rio; por\u00e9m, ela \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o com algo. A identidade em psican\u00e1lise pode ser vista como uma rela\u00e7\u00e3o singular \u00e0 exist\u00eancia, rela\u00e7\u00e3o que se faz por meio de um sintoma. Se o sintoma testemunha nossa inadapta\u00e7\u00e3o \u00e0s normas e \u00e0s exig\u00eancias do Outro, ele testemunha tamb\u00e9m nossa verdade secreta, bem como nossa singularidade \u00faltima. O sintoma, enquanto manifesta\u00e7\u00e3o de um sofrimento, de um mal-estar, de uma dificuldade profunda na exist\u00eancia, \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 toda transpar\u00eancia na rela\u00e7\u00e3o do sujeito consigo pr\u00f3prio. Ao mesmo tempo, se o sintoma \u00e9 o que o h\u00e1 de mais singular no ser falante, ele \u00e9 o que vem perturbar a rela\u00e7\u00e3o que cada um mant\u00e9m com sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. \u00c9 o sintoma que abala toda cren\u00e7a numa identidade determinada, identidade que supostamente nos tornaria transparentes para n\u00f3s mesmos. Se a psican\u00e1lise toma o sintoma como seu meio de opera\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque ela testemunha a incid\u00eancia de um discurso \u2013 discurso do Outro \u2013 que marcou o nosso corpo, \u00e0 revelia de n\u00f3s mesmos. Compete a n\u00f3s mesmos, portanto, buscar ler e tratar, de outro modo, esse enigma que \u00e9 a escritura do sintoma.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Transcri\u00e7\u00e3o<\/strong>: Beatriz Esp\u00edrito Santo, Daniela Gontijo de Souza, J\u00f4natas Cass\u00e9te, Luciana Romagnolli.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ALTHUSSER, L.\u00a0<em>So<\/em><em>bre o trabalho te\u00f3rico<\/em>. Lisboa: Editorial Presen\u00e7a, 1977.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">BENJAMIN, W. Teses sobre o conceito de hist\u00f3ria. In: Obras escolhidas. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2012. (Trabalho original publicado em 1940).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FUMAROLI, M.\u00a0<em>Trois instituitions litt\u00e9raires<\/em>. Paris: Gallimard, 1994.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Ouverture de la Sectionn Clinique.\u00a0<em>Ornicar?,<\/em>\u00a0n. 9, 1977.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 7<\/em>: A \u00e9tica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. (Trabalho original proferido em 1959-60).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 8<\/em>: A transfer\u00eancia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. (Trabalho original proferido em 1960-61).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. (Trabalho original publicado em 1967).<em>\u00a0<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0Ato de funda\u00e7\u00e3o. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. (Trabalho original publicado em 1971).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Talvez em Vincennes. In:\u00a0<em>Outros Escritos.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. (Trabalho original publicado em 1975).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 16<\/em>:\u00a0 De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2008. (Trabalho original proferido em 1968-69).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">L\u00d6WY, M.\u00a0<em>Judeus heterodoxos<\/em>: messianismo, romantismo e utopia. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2012.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Acto e inconsciente. In:\u00a0<em>Acto e interpretation<\/em>. Buenos Aires: Manantial, 1984.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Donc. La l\u00f3gica de la cura. In:\u00a0<em>Sutilezas anal\u00edticas. Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller.<\/em>\u00a0Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Le sympt\u00f4me: savoir, sens et r\u00e9el. In:\u00a0<em>Le sympt\u00f4me-charlatan<\/em>. Paris: Fondation du Champ freudien, 1998.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Problemas de pareja, cinco models. In:\u00a0<em>La pareja y el amor<\/em>: conversaciones cl\u00ednicas en Barcelona. Barcelona: Eolia, 2003.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Uma fantasia.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 42, p. 7-18, fev. 2005.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. O real no s\u00e9culo XXI. Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do IX Congresso da AMP. In: MACHADO, O.; RIBEIRO, V. A. (Org.).\u00a0<em>Scilicet<\/em>: o real no s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte: Scriptum\/Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2014.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A.\u00a0<em>Pol\u00edtica lacaniana<\/em>. Buenos Aires: Colecci\u00f3n Diva, 2017. (Trabalho original publicado em 1997-98).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Ao lado de Jacques Lacan. In: MILLER, J.-A.; ALBERTI, C. (orgs.).<em>\u00a0Lacan Redivivus<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A.\u00a0<em>Presentaci\u00f3n de C\u00f3mo terminan los an\u00e1lisis<\/em>. 2023. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bDT7-7UucQw\">www.youtube.com\/watch?v=bDT7-7UucQw<\/a>. Acesso em: 20 jul, 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">RORTY, R. Recent Metaphilosoplhy.\u00a0<em>The Review of Metaphysics<\/em>, v. 15, n. 2, p. 301-302, 1961.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#refer2\">[1]<\/a><a id=\"nota11111\"><\/a>\u00a0\u201cEu diria que o primeiro tempo \u00e9: o mundo existe\u201d. (LACAN, 1962-63\/2005, p. 42)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-escola-o-instituto#refer3\">[2]<\/a><a id=\"nota22222\"><\/a>\u00a0A emerg\u00eancia da ci\u00eancia exigiu o \u201cabandono da concep\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica e medieval do Cosmo \u2013 unidade fechada de um Todo, Todo qualitativamente determinado e hierarquicamente ordenado, no qual as diferentes partes que o comp\u00f5em, a saber, o C\u00e9u e a Terra, est\u00e3o sujeitos a leis diversas\u201d. (KOIR\u00c9, 1982, p. 182)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia proferida na atividade Para que serve o Instituto? &#8211; abril\/2023 J\u00e9sus Santiago Psicanalista, A.M.E. da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP santiago.bhe@terra.com.br Resumo: No presente texto, o autor apresenta a forma de funcionamento da Escola e do Instituto a partir da ideia de que o princ\u00edpio de orienta\u00e7\u00e3o para a pr\u00e1tica cl\u00ednica \u00e9 o mesmo que&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57777,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-203","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57778,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203\/revisions\/57778"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57777"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}