{"id":2030,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2030"},"modified":"2025-12-01T12:20:27","modified_gmt":"2025-12-01T15:20:27","slug":"cisao-do-eu-no-processo-de-defesa-ichspaltung","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/cisao-do-eu-no-processo-de-defesa-ichspaltung\/","title":{"rendered":"Cis\u00e3o\u00a0do eu no processo de defesa \u2014\u00a0Ichspaltung"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Lucia Mello<\/strong><br \/>\nPsic\u00f3loga, psicanalista, membro da EBP\/ AMP<br \/>\nMestre em psicologia e professora do IEC PUC-MINAS<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Coment\u00e1rio sobre o artigo inacabado de Freud &#8220;Uma cis\u00e3o do Eu \u2014\u00a0<em>Ichspaltung<\/em>&#8221; orientado pelas leituras de Lacan e Miller sobre o tema, que resultaram em contribui\u00e7\u00f5es fundamentais para a atualidade do trabalho cl\u00ednico. H\u00e1, na cura psicanal\u00edtica, uma experi\u00eancia da\u00a0<em>Spaltung<\/em>, que atravessa dois grandes momentos do ensino de Lacan, do simb\u00f3lico ao real, e preserva, nesse percurso, seu elemento de surpresa.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Cis\u00e3o;\u00a0<em>Ichspaltung<\/em>; defesa; inconsciente; corpo; real; puls\u00e3o; perturbar a defesa.<\/p>\n<p><strong>SPLIT OF MYSELF IN THE DEFENSE PROCESS \u2014\u00a0<em>ICHSPALTUNG<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0A commentary about Freud&#8217;s unfinished article &#8220;Split of Myself \u2014\u00a0<em>Ichspaltung<\/em>&#8221; guided by readings of Lacan and Miller, which resulted in fundamental contributions for the current clinical work. There is a\u00a0<em>Spaltung<\/em>\u00a0experience in the psychoanalytic cure that crosses two key moments in Lacan&#8217;s teachings, from symbolic to real, and preserves in this course its element of surprise.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Split;\u00a0<em>Ichspaltung<\/em>; defense; unconscious; body; real; drive; disturb the defense.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2031\" style=\"width: 464px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS_-_LUCIA_MELLO-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"454\" data-large_image_height=\"457\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2031\" class=\"wp-image-2031 \" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS_-_LUCIA_MELLO-1.jpg\" alt=\"\" width=\"482\" height=\"485\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2031\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA.\u00a0AU<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Uma cis\u00e3o do Eu \u2014\u00a0<i>Ichspaltung<\/i>&#8221; re\u00fane o paradoxo de artigo inacabado, publicado postumamente em 1938, escrito em 1924. Tal como ocorre em algumas obras sinf\u00f4nicas, nas quais o compositor \u00e9 assediado por uma frase, uma quest\u00e3o, um tema imposs\u00edvel de responder, a obra de Freud indaga, duvida e insiste no decorrer do trabalho incessante, da inquieta\u00e7\u00e3o n\u00e3o respondida na travessia da constru\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo, verificado e transformado ao longo da experi\u00eancia psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>No in\u00edcio desse artigo, Freud diz que n\u00e3o sabe o que comunicar, dividido que est\u00e1 entre algo h\u00e1 muito conhecido e &#8220;algo totalmente novo e estranho&#8221;. O que seria? H\u00e1 muito conhecido est\u00e3o os conceitos de trauma, recalque, defesa, Eu, repeti\u00e7\u00e3o, puls\u00e3o, satisfa\u00e7\u00e3o, proibi\u00e7\u00e3o, realidade, castra\u00e7\u00e3o, sexualidade, fantasia, sintoma, inconsciente, entre outros.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio de sua pesquisa, desde os &#8220;Rascunhos&#8221;, o &#8220;Projeto&#8221;, os &#8220;Sonhos&#8221;, os &#8220;Estudos cl\u00ednicos&#8221;, o conflito ps\u00edquico decorrente de um perigo real e intoler\u00e1vel, surge a dupla exig\u00eancia vari\u00e1vel, entre satisfa\u00e7\u00e3o pulsional e proibi\u00e7\u00e3o pela realidade, recalque e desejo. A defasagem, o desacordo entre exig\u00eancias opostas, o dueto entre duas classes de puls\u00f5es al\u00e9m da incompatibilidade representativa s\u00e3o indaga\u00e7\u00f5es persistentes em Freud.<\/p>\n<p>No artigo inacabado, uma crian\u00e7a responde com essa duplicidade ao conflito diante da amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o, amea\u00e7a que deslizava entre registros diversos e parece nunca localizada no \u00f3rg\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o eficaz sustentada pela\u00a0<i>Spaltung,<\/i>\u00a0cis\u00e3o do Eu, evidencia o incur\u00e1vel de uma fenda origin\u00e1ria que nunca cicatriza e aumenta \u00e0 medida que o tempo passa. Nesse caso, o menino manobra a amea\u00e7a de castra\u00e7\u00e3o temida, preserva a masturba\u00e7\u00e3o e opera deslocamentos atrav\u00e9s do fetiche, do sintoma e da fantasia. A fun\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica do Eu \u00e9 perturbada, deixando como resto uma sensibilidade angustiante nos artelhos, interpretada por Freud como express\u00e3o mais clara da castra\u00e7\u00e3o, associada ao temor e \u00e0 fantasia da devora\u00e7\u00e3o pelo pai-cronos.<\/p>\n<p>Freud, no &#8220;Comp\u00eandio de psican\u00e1lise&#8221;, outro artigo inacabado, retoma a hip\u00f3tese da cis\u00e3o do Eu para al\u00e9m da neurose e psicose, visto supor quest\u00e3o mais ampla das &#8220;altera\u00e7\u00f5es&#8221; no processo de defesa, e constata que a fun\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica do Eu, sustentada em v\u00e1rios artigos anteriores, se v\u00ea abalada pelos efeitos dessa fenda origin\u00e1ria. Nos cap\u00edtulos seguintes rel\u00ea a cis\u00e3o do Eu sob v\u00e1rios \u00e2ngulos, examinada entre as inst\u00e2ncias ps\u00edquicas, entre puls\u00e3o e realidade, entre realidades diversas, entre o que nomeia mundo interno e mundo externo, diante do reconhecimento da diferen\u00e7a sexual, entre sonho e realidade. O sintoma, a fantasia, o fetiche, a ang\u00fastia, pela via do temor, as v\u00e1rias formas de nega\u00e7\u00e3o podem ocorrer como tentativas de concilia\u00e7\u00e3o, evita\u00e7\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o, recusa, recalque, mas n\u00e3o modificam as duas atitudes contr\u00e1rias e independentes que se realizam, onde a nega\u00e7\u00e3o \u00e9 suplementada pelo reconhecimento.<\/p>\n<p>Se, anteriormente, Freud &#8220;apresentava um corpo, campo de batalha pulsional entre e Eu e as puls\u00f5es parciais&#8221; (MILLER, 2003, p. 366), em Lacan, a dupla impossibilidade acarretada pela demanda, aqu\u00e9m e al\u00e9m do desejo, consuma a fenda \u2014\u00a0<i>spaltung<\/i>\u00a0\u2014 sofrida pelo sujeito. O desejo, diz Lacan, n\u00e3o \u00e9 nem o apetite de satisfa\u00e7\u00e3o nem a demanda de amor, mas a diferen\u00e7a entre os dois. Desejo sempre agarrado \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o, visto que o sujeito \u00e9 ele mesmo marcado pela\u00a0<i>spaltung\u00a0<\/i>significante, subordina\u00e7\u00e3o escrita por vezes na tela da fantasia.<\/p>\n<p>A fenda surge tamb\u00e9m como o pre\u00e7o a pagar na constitui\u00e7\u00e3o do inconsciente. Pre\u00e7o terr\u00edvel evidenciado no coment\u00e1rio de Lacan sobre a &#8220;Juventude de Gide&#8221;, al\u00e9m de frequente nas consequ\u00eancias cl\u00ednicas de um desejo cindido em duas vias \u2014 o menino Gide, situado entre morte e erotismo masturbat\u00f3rio, confinado ao desejo clandestino, prisioneiro das vicissitudes de ter sido amado, mas n\u00e3o desejado. M\u00e1scara terr\u00edvel, outra leitura lacaniana concernente ao ideal.<\/p>\n<p>No livro 11 de seu\u00a0<i>Semin\u00e1rio<\/i>, Lacan situa no jogo do\u00a0<i>Fort-Da<\/i>\u00a0n\u00e3o apenas a repeti\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria da sa\u00edda da m\u00e3e como causa da\u00a0<i>Spaltung,\u00a0<\/i>mas aponta tamb\u00e9m que &#8220;o que o sujeito visa \u00e9 aquilo que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 enquanto representado&#8221; (1964\/1985, p. 63).<\/p>\n<p>Trata-se aqui de um breve percurso atrav\u00e9s de artigos situados nas d\u00e9cadas de 50 e 60 que ilustram uma cl\u00ednica na qual o inconsciente demonstra os impasses entre desejo e a lei, da tela surpreendente da fantasia portadora das nuances fugidias entre sujeito e o objeto, da fixidez do gozo mort\u00edfero, perspectivas marcadas pela falta irremedi\u00e1vel de um significante no campo do Outro. Impasses em uma constru\u00e7\u00e3o cuidadosa.<\/p>\n<p>O artigo &#8220;Cis\u00e3o do Eu&#8221; prenuncia outra indaga\u00e7\u00e3o sobre a defesa; parece deter-se diante n\u00e3o apenas do fracasso de s\u00edntese do Eu, mas tamb\u00e9m de algo sem nome, &#8220;algo totalmente novo e estranho&#8221;. \u00c9 preciso lembrar que\u00a0<i>Spaltung<\/i>\u00a0pode ser traduzido por separa\u00e7\u00e3o, desdobramento, diverg\u00eancia, racha, fissura, cis\u00e3o, elis\u00e3o, divis\u00e3o origin\u00e1ria, lugar do trauma.<\/p>\n<p>A falta de palavras, a incompatibilidade verificada desde a cena inaugural da hipnose, no nascimento da psican\u00e1lise \u2014 trauma da sedu\u00e7\u00e3o, da sexualidade, das palavras que faltam na ang\u00fastia, assim como nos chamados traumas de guerras, inicialmente enfrentados com a t\u00e9cnica da press\u00e3o, seguida das perguntas sobre a causa do sofrimento \u2014, encontrava resposta incompat\u00edvel. Defasagem entre a demanda do analista e as outras palavras da paciente, a Outra cena entre a puls\u00e3o e consci\u00eancia do eu permanecia, como contradi\u00e7\u00e3o, discrep\u00e2ncia, desacordo.<\/p>\n<p>O traumatismo persiste \u2014 indicativo, segundo hip\u00f3tese freudiana, de aglomerados formando um n\u00facleo separado do Eu que retornam, desconhecidos pelo paciente, como se fossem in\u00e9ditos, insuspeitos. A repeti\u00e7\u00e3o em cada cl\u00ednica demonstra progressivamente o quanto esse n\u00facleo separado do Eu escapa \u00e0 apreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, no depoimento de Suzane Hommel, de sua an\u00e1lise com Lacan, a cena infantil traz o trauma, o conflito entre puls\u00e3o e realidade, cena repetida no pesadelo diante da palavra Gestapo, que evocava a cena da morte iminente das fam\u00edlias judias \u2014 o horror da repeti\u00e7\u00e3o. Mais uma vez, a primeira vez. No lugar das palavras carregadas de sentido, visando o restabelecimento da mem\u00f3ria hist\u00f3rica, indagada por Freud no caso da crian\u00e7a amea\u00e7ada pela castra\u00e7\u00e3o, o gesto sobre a pele de Hommel provoca o deslizamento meton\u00edmico entre os dois idiomas. &#8220;<i>Geste \u00e0 peau<\/i>&#8220;, traduz a analisante, dando nome a essa alguma coisa, esse algo que incide sobre o real da cena, e, com isso, o sofrimento se torna menos invasivo. Menos. Lacan n\u00e3o demanda palavras, nesse outro tempo, para constru\u00e7\u00e3o da cena traum\u00e1tica. Suzane formula sua pergunta: &#8220;o trauma de qualquer sujeito n\u00e3o \u00e9 essa fissura que tentamos revestir com elementos de nossa hist\u00f3ria?&#8221; (HOMMEL, 2022, p. 33).<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise indica ato psicanal\u00edtico diverso da interpreta\u00e7\u00e3o anterior, muda de lugar, vai no sentido oposto atrav\u00e9s de outro caminho, outra configura\u00e7\u00e3o. Avesso e direito n\u00e3o excludentes da experi\u00eancia psicanal\u00edtica, mas que privilegia ainda a singularidade do discurso e o desconhecimento do gozo.<\/p>\n<p>O coment\u00e1rio muito esclarecedor de Jean Hyppolite, na d\u00e9cada de 50, sobre a tradu\u00e7\u00e3o da\u00a0<i>Verneinung<\/i>, de Freud, e a resposta a esse coment\u00e1rio provocaram em Lacan um remanejamento das quest\u00f5es fundamentais psicanal\u00edticas, resultando em &#8220;perturbar um equil\u00edbrio ps\u00edquico que descansa na\u00a0<i>Spaltung<\/i>&#8220;. Esse trabalho de pesquisa e formaliza\u00e7\u00e3o de cada conceito, devidamente orientado pela cl\u00ednica, vindo de Lacan promove a passagem progressiva do tratamento sobre a resist\u00eancia inaugural situada nas interpreta\u00e7\u00f5es do analista para a incid\u00eancia sobre o real que convoca a responsabilidade subjetiva n\u00e3o apenas na neurose ou psicose, mas na diversidade da cl\u00ednica.<\/p>\n<p>A leitura do caso &#8220;O homem dos lobos&#8221;, fragmento citado por Freud no artigo, mereceu, depois da tradu\u00e7\u00e3o de Hyppolite, diferencia\u00e7\u00f5es mais precisas entre recalque, recusa e forclus\u00e3o. Mais que um caso cl\u00ednico, a constru\u00e7\u00e3o conduzida por Lacan destaca elementos preciosos para a experi\u00eancia da psican\u00e1lise e repercute como acontecimento sobre a teoria. Lacan pode demonstrar, a partir da cena infantil do dedo cortado, que o sentimento de realidade e irrealidade demarcam duas bordas experimentadas pela crian\u00e7a, que demonstram muito precisamente os limites entre alucina\u00e7\u00e3o e del\u00edrio, que a falta quando n\u00e3o advinda no simb\u00f3lico reaparece no real.<\/p>\n<p>A cena, minuciosamente examinada por Lacan, diferencia a rememora\u00e7\u00e3o, que conserva sua articula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, enquanto a reminisc\u00eancia impede o sujeito de elaborar sua hist\u00f3ria, situando-as em temporalidades diferentes, sobretudo rearranjando resist\u00eancia e defesa em dimens\u00f5es opostas: a primeira ao lado do sintoma, a segunda decorrente da puls\u00e3o. A diferencia\u00e7\u00e3o entre resist\u00eancia e defesa ultrapassa, a partir desse caso, a quest\u00e3o estrutural entre neurose e psicose, visto que a defesa por qualificar a rela\u00e7\u00e3o com a puls\u00e3o fora do significante implica extrema variedade: sil\u00eancio, fixidez e desconhecimento do gozo de cada um. &#8220;A defesa qualifica uma rela\u00e7\u00e3o com a puls\u00e3o a respeito da qual a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a opera\u00e7\u00e3o prescrita pela psican\u00e1lise&#8221; (MILLER, 2003, p. 52). Qual seria a opera\u00e7\u00e3o mais indicada para lidar com a defesa?<\/p>\n<p>Finalmente essa constru\u00e7\u00e3o franqueia nova leitura do inconsciente, que, por sua vez, amplia os horizontes da cl\u00ednica contempor\u00e2nea. \u00c9 preciso considerar que esse real n\u00e3o \u00e9 algo suprimido dos tra\u00e7os primordiais, visto se encontrar presente aguardando, digamos assim, um tradutor a sua altura, desde que proposto como hip\u00f3tese por Freud, no &#8220;Projeto para uma psicologia cient\u00edfica&#8221;, na\u00a0<i>Bejahung<\/i>, o assentimento primordial, oposto \u00e0\u00a0<i>Ausstossung<\/i>, a expuls\u00e3o de algo mau \u2014 ju\u00edzos de atribui\u00e7\u00e3o e exist\u00eancia, essenciais no processo de responsabilidade do sujeito. Esse assentimento primordial acarreta, curiosamente, para alguns, a cis\u00e3o irremedi\u00e1vel entre afeto e representa\u00e7\u00e3o. Denuncia a presen\u00e7a de uma exclus\u00e3o do sentido, exclus\u00e3o interna e externa, tempos depois trabalhados por Lacan atrav\u00e9s do conceito de extimidade.<\/p>\n<p>A Outra abordagem do conceito de defesa resultou no percurso lacaniano atrav\u00e9s da vastid\u00e3o desse &#8220;algo novo e estranho&#8221;. Algo situado por Freud como o inconsciente n\u00e3o recalcado, mas, em Lacan, um texto escrito em outro lugar que n\u00e3o a palavra \u2014 marca, tra\u00e7o, signo, sobretudo letra \u2014, n\u00e3o apenas no corpo simb\u00f3lico ou imagin\u00e1rio, mas na dimens\u00e3o real do corpo. Se o inconsciente inclui um corpo real, a melhor express\u00e3o proposta por Lacan \u00e9 falasser (<i>parl\u00eatre<\/i>). Essa inclus\u00e3o convoca outro trabalho, outro &#8220;giro&#8221;, como diz Miller, da interpreta\u00e7\u00e3o como perturba\u00e7\u00e3o, que convoca a materialidade da palavra, privilegia a surpresa. O sujeito e seu gozo, a falta e a subst\u00e2ncia. O corpo afetado pela letra ou, em algumas situa\u00e7\u00f5es, a letra inventando um corpo.<\/p>\n<p>Se a defesa permanece a mesma, situ\u00e1-la do lado da puls\u00e3o, da reminisc\u00eancia, do real convoca o sujeito a responder de outro modo. Como demonstra a diversidade da cl\u00ednica contempor\u00e2nea, abre novos campos de pesquisa. A psican\u00e1lise, com isso, tem chance de acompanhar as intensas transforma\u00e7\u00f5es da civiliza\u00e7\u00e3o, sempre atuais, o que provoca talvez consider\u00e1-la em tr\u00eas grandes grupos: mais um recurso operado em tr\u00eas registros, simb\u00f3lico, imagin\u00e1rio e real, e suas poss\u00edveis amarra\u00e7\u00f5es onde o sinthoma, em alguns casos, \u00e9 prevalente.<\/p>\n<p>O \u00faltimo ensino de Lacan ilumina uma no\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do sentido e do saber, experi\u00eancia tamb\u00e9m convocada pelo falasser, por veredas diversas do mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o, situada a partir do feminino e da cl\u00ednicas do real apresentadas pela crian\u00e7a na psicose e no autismo. A experi\u00eancia do real resulta em desafio surpresa para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p><i>O novo mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/i><\/p>\n<p>Atrav\u00e9s das batalhas pol\u00edticas e sociais no campo sempre minado dos interesses econ\u00f4micos; dos corpos mutantes, telas a c\u00e9u aberto nas quais o amor e o \u00f3dio se inscrevem como tatuagem; das sexualidades cada vez mais fluidas; das adic\u00e7\u00f5es diversas; dos la\u00e7os sintom\u00e1ticos que revisitam e atualizam formas de submiss\u00e3o a senhores tir\u00e2nicos, em formas de servid\u00e3o volunt\u00e1ria; das cren\u00e7as marcadas por alucina\u00e7\u00f5es e del\u00edrios coletivos, a cl\u00ednica voltada para outras formas de mal-estar convoca a presen\u00e7a fundamental da psican\u00e1lise, visto que a instabilidade atual pode provocar o ato anal\u00edtico instrumentado por novas constru\u00e7\u00f5es.\u00a0<span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:1,&quot;335551620&quot;:1,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Cl\u00ednica do feminino<\/i><\/p>\n<p>Formalizada por Lacan a partir do\u00a0<i>Semin\u00e1rio 20<\/i>, essa cl\u00ednica encontra-se presente desde suas li\u00e7\u00f5es iniciais, visto que as mulheres est\u00e3o na origem da psican\u00e1lise. Lendo Freud, enfrentando o sil\u00eancio e os enigmas das hist\u00e9ricas, Lacan extrai do vazio a quest\u00e3o da inexist\u00eancia, com e sem corpo. Atrav\u00e9s da sexua\u00e7\u00e3o, ele demonstrar\u00e1 o di\u00e1logo imposs\u00edvel com os tr\u00eas registros de falta e o papel suplementar das identifica\u00e7\u00f5es, sempre mentirosas.<\/p>\n<p>Uma das grandes contribui\u00e7\u00f5es lacanianas consiste em demonstrar o n\u00e3o-todo para al\u00e9m da sexua\u00e7\u00e3o como o que n\u00e3o se pode dizer nem escrever. Diante da falta irremedi\u00e1vel de um significante no campo do Outro, a defesa no real traz elementos como aquilo com o que a mulher n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o, e \u00e9 nisso que ela se duplica:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;a cl\u00ednica da defesa diante do vazio \u00e9 comum a todo ser falante. Mas a dificuldade feminina se joga na descontinuidade do enlace significante. A outra para si mesma demonstra esse ponto de imposs\u00edvel \u2014 de representar e de eludir: onde ela goza se pensa outra&#8221; (MASIDE, 2022, p. 269).<\/p>\n<p>Como perturbar essa defesa?<\/p>\n<p>Campo aberto \u00e0 pesquisa da qual h\u00e1 muito o que extrair nos tratamentos psicanal\u00edticos atuais, principalmente do contraponto essencial do n\u00e3o-todo na pol\u00edtica.<\/p>\n<p><i>Cl\u00ednica da psicose<\/i><\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es lacanianas sobre a psicose encontram sua express\u00e3o no plural bem destacadas na pesquisa empreendida por Sergio de Campos (2022). Lacan refaz suas hip\u00f3teses at\u00e9 extrair de seu \u00faltimo ensino a transmiss\u00e3o mais contundente sobre a cl\u00ednica da psicose. Se, na &#8220;Dire\u00e7\u00e3o do tratamento&#8221; (1966\/1998), ele diz que o desejo aponta a impossibilidade da fala reduplicada na fenda\u00a0<i>spaltung\u00a0<\/i>pelo simples fato de falar, os casos cl\u00ednicos e a releitura da\u00a0<i>Bejahung\u00a0<\/i>freudiana produziram mudan\u00e7as consider\u00e1veis. Devido \u00e0 natureza de sua aliena\u00e7\u00e3o, a preval\u00eancia do real e as vicissitudes com seus objetos, o sujeito do inconsciente psic\u00f3tico n\u00e3o ser\u00e1 agente de uma enuncia\u00e7\u00e3o, mas permanece identificado ao lugar vazio onde o Um \u00e9 sem destinat\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em um trabalho incessante de constru\u00e7\u00e3o de uma realidade, o tratamento \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s de diversos recursos \u2014 linguagem, corpo, redu\u00e7\u00e3o de um excesso de gozo \u2014, supl\u00eancias diversas que promovem a estabiliza\u00e7\u00e3o e reconfiguram a psicose na sua vertente ordin\u00e1ria. Ao lado desse trabalho ocorre a potencializa\u00e7\u00e3o das defesas diante da sombra da morte, e o falasser lan\u00e7a para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica indaga\u00e7\u00f5es sobre como perturbar essas defesas atrav\u00e9s de novas configura\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><i>Cl\u00ednica do autismo<\/i><\/p>\n<p>A pesquisa psicanal\u00edtica sobre o autismo, iniciada com Rosine e Robert Lefort nos anos 80 e desenvolvida posteriormente por Laurent, Maleval e Miller, entre outros, encontra nessa cl\u00ednica uma defesa radical e precoce contra a linguagem e o gozo da palavra, na qual nenhuma troca vem mediatizar sua rela\u00e7\u00e3o a um Outro que n\u00e3o existe. Estrutura diferenciada da psicose, decorre da foraclus\u00e3o do furo da linguagem. Na cl\u00ednica do real, na qual as in\u00fameras autobiografias e biografias dos autistas informam, o tratamento cont\u00ednuo \u00e9 realizado pelo sujeito contra esse sistema defensivo \u2014 a ang\u00fastia, a constru\u00e7\u00e3o de recursos espec\u00edficos \u2014 para criar um Outro sob medida, um corpo, uma voz, enfim, para se fazer existir. A batalha dos autistas para se fazerem reconhecer e respeitar \u00e9 surpreendente porque aponta a import\u00e2ncia de um sil\u00eancio eloquente.<\/p>\n<p>A defesa autista se caracteriza pela constru\u00e7\u00e3o de uma borda que se desloca do isolamento para uma borda din\u00e2mica que pode, inclusive, ser apagada. A localiza\u00e7\u00e3o do gozo sobre uma borda constitui finalmente uma defesa caracter\u00edstica do autismo. Uma das maiores contribui\u00e7\u00f5es ao autismo implementada por Lacan foi destacar o autismo como categoria cl\u00ednica fundamental, o status nativo que designa, a um s\u00f3 tempo, o sujeito e o corpo, ou seja, o falasser. Como categoria cl\u00ednica fundamental, reduz o inconsciente ao fato de falar sozinho. \u00c9 a conversa do real com o real que ocupa um lugar essencial na cl\u00ednica das crian\u00e7as muito pequenas, que ainda n\u00e3o passaram pela fala mentirosa e falam com Um-corpo. Lal\u00edngua. Nessa cl\u00ednica, perturbar a defesa seria, pelo contr\u00e1rio, a constru\u00e7\u00e3o de um recome\u00e7o, de uma exist\u00eancia?<\/p>\n<p>Para concluir, \u00e9 preciso citar um trecho do emocionante elogio de Lacan a Freud em &#8220;A dire\u00e7\u00e3o do tratamento&#8221;, a respeito do artigo &#8220;A cis\u00e3o do Eu \u2014<i>\u00a0Ichspaltung<\/i>&#8220;:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;Aqui se inscreve a\u00a0<i>Ichspaltung\u00a0<\/i>derradeira na qual o sujeito se articula com o Logos, e sobre a qual Freud come\u00e7ando a escrever nos ia dando, na \u00faltima aurora de uma obra com as dimens\u00f5es do ser, a solu\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise &#8220;infinita&#8221;, quando sua morte ali veio apor a palavra Nada&#8221; (LACAN, 1998, p. 643).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><b>Refer\u00eancias<\/b><\/h6>\n<h6>CAMPOS, S.\u00a0<b>Investiga\u00e7\u00f5es lacanianas sobre as psicoses: as psicoses extraordin\u00e1rias<\/b>. vol. 1. Belo Horizonte: Topol\u00f3gica, 2022.<\/h6>\n<h6>CAMPOS, S.\u00a0<b>Investiga\u00e7\u00f5es lacanianas sobre as psicoses<\/b>: as psicoses ordin\u00e1rias. vol. 2. Belo Horizonte: Topol\u00f3gica, 2022.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1924) Cis\u00e3o do Eu (<i>Ichspaltung<\/i>). Comp\u00eandio de psican\u00e1lise e outros trabalhos inacabados.\u00a0<b>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/b>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2014.<\/h6>\n<h6>GU\u00c9GUEN, P. G. Defesa (desmontar a).\u00a0<b>Scilicet<\/b>: um real para o s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>HOMMEL, S. Uma Hist\u00f3ria de fam\u00edlia no tempo do nazismo.\u00a0<b>Correio 87<\/b>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Abril, 2022.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958) A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios do seu poder.\u00a0<b>Escritos<\/b>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1954) Resposta ao coment\u00e1rio de Jean Hyppolite sobre a &#8220;<i>Verneinung<\/i>&#8221; de Freud.\u00a0<b>Escritos<\/b>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958) Juventude de Gide ou a letra o desejo.\u00a0<b>Escritos<\/b>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964)\u00a0<b>O semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/b>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>MALEVAL, J-.C.\u00a0<b>La diff\u00e9rence autistique<\/b>. Saint Denis: PUV, Universit\u00e9 Paris 8, 2021.<\/h6>\n<h6>MASIDE, M. Cl\u00ednica da sexualidade feminina.\u00a0<b>Scilicet<\/b>: a mulher n\u00e3o existe. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2022.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-.A.\u00a0<b>La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica<\/b>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2003.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-. A.\u00a0<b>Perspectivas do semin\u00e1rio 23 de Lacan: O sinthoma<\/b>. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucia Mello Psic\u00f3loga, psicanalista, membro da EBP\/ AMP Mestre em psicologia e professora do IEC PUC-MINAS Resumo:\u00a0Coment\u00e1rio sobre o artigo inacabado de Freud &#8220;Uma cis\u00e3o do Eu \u2014\u00a0Ichspaltung&#8221; orientado pelas leituras de Lacan e Miller sobre o tema, que resultaram em contribui\u00e7\u00f5es fundamentais para a atualidade do trabalho cl\u00ednico. 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