{"id":2034,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2034"},"modified":"2025-12-01T12:21:57","modified_gmt":"2025-12-01T15:21:57","slug":"perigos-e-defesas-a-analise-finita-e-a-infinita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/perigos-e-defesas-a-analise-finita-e-a-infinita\/","title":{"rendered":"Perigos e defesas: a an\u00e1lise\u00a0finita e a infinita"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Luciana Silviano Brand\u00e3o<\/strong><br \/>\nPsicanalista, membro da EPB\/AMP<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O texto acompanha o percurso de Freud sobre o tema do final de an\u00e1lise tendo como refer\u00eancia o artigo \u201cA an\u00e1lise finita e a infinita\u201d, que trouxe desdobramentos importantes na psican\u00e1lise. No entanto, Lacan, ao postular a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, desafia a concep\u00e7\u00e3o de Freud e abre a possibilidade de um passe de ordem l\u00f3gica.<\/p>\n<p><b>Palavras-chave:\u00a0<\/b>Psican\u00e1lise; finita; infinita; passe.<\/p>\n<p><b>DANGERS AND DEFENSES: FINITE AND INFINITE ANALYSIS<\/b><\/p>\n<p><b>Abstract:\u00a0<\/b>The text follows the path of Freud on the theme of the end of analysis with reference to the article &#8220;The finite and infinite analysis&#8221; that brought important developments in psychoanalysis. However, Lacan, by postulating the inexistence of the sexual relationship, challenges Freud&#8217;s conception and opens up the possibility of a pass of logical order.<\/p>\n<p><b>Keywords:\u00a0<\/b>Psychoanalysis; finite; infinite; pass.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2035\" style=\"width: 490px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS_-_LUCIANA_S_BRANDO.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"480\" data-large_image_height=\"480\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2035\" class=\"wp-image-2035 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS_-_LUCIANA_S_BRANDO.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"480\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2035\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. S\/T<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Freud publicou \u201cA an\u00e1lise finita e a infinita\u201d em 1937, mas esse tema j\u00e1 o preocupava desde 1900. Em carta para Fliess, de 16\/04\/1900, relatava sua inquieta\u00e7\u00e3o com o car\u00e1ter \u201caparentemente sem fim de um tratamento anal\u00edtico\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 362). No entanto, foi apenas em 1937 que dedicou um trabalho inteiro a esse tema. S\u00e3o dignos de nota dois eventos importantes que ocorreram antes da data dessa publica\u00e7\u00e3o: as desaven\u00e7as com Otto Rank (que havia proposto um modelo de terapia breve baseado na teoria de car\u00e1ter traum\u00e1tico do nascimento) e as pol\u00eamicas com Ferenczi, que se queixava da pouca aten\u00e7\u00e3o recebida por Freud (\u201caos sentimentos e fantasia negativos em parte transferidos\u201d) (FREUD, 1937\/2017, p. 362), que impedia o fim de sua an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Na verdade, esse \u00faltimo ponto foi o que tornou ainda mais relevante a quest\u00e3o que concerne \u00e0 an\u00e1lise dos pr\u00f3prios psicanalistas e que fez com que Ferenczi formulasse a \u201csegunda regra fundamental\u201d da psican\u00e1lise: a an\u00e1lise (finalizada) do analista (FREUD, 1937\/2017, p. 362). Essa discuss\u00e3o foi retomada por Lacan nos anos 1960, quando prop\u00f4s a articula\u00e7\u00e3o l\u00f3gica entre o final de an\u00e1lise e o advento de um psicanalista.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo desse artigo foi traduzido pela editora Aut\u00eantica como \u201cA an\u00e1lise finita e a infinita\u201d, diferentemente de \u201cAn\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel\u201d, da Standard. O tradutor explica a escolha ao mencionar a exist\u00eancia dos sufixos usados na l\u00edngua alem\u00e3 e que o \u201cinfinita\u201d tem a conota\u00e7\u00e3o de \u201csem fim\u201d.<\/p>\n<p>Freud come\u00e7a seu texto dizendo que a an\u00e1lise \u00e9 um processo a longo prazo, e, por essa raz\u00e3o, justifica sua preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de seu tempo. Cita a an\u00e1lise de um jovem russo1, na qual tentou acelerar o tratamento dando ao paciente um \u201cprazo fixo\u201d. Cito-o: \u201cesclareci ao paciente que aquele ano seria o \u00faltimo do tratamento, independentemente dos progressos que ele viesse a registar no tempo ainda restante\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 317). A consequ\u00eancia foi o enfraquecimento da resist\u00eancia, recorda\u00e7\u00e3o das lembran\u00e7as e encontro das rela\u00e7\u00f5es para compreender e solucionar sua neurose. No entanto, anos mais tarde o paciente retornou a Viena em estado lastim\u00e1vel, obrigando o psicanalista a voltar a atend\u00ea-lo com o intuito de ajud\u00e1-lo a dominar uma parte da transfer\u00eancia n\u00e3o resolvida. Depois disso e durante uma d\u00e9cada, o paciente voltou a ser acometido por epis\u00f3dios da doen\u00e7a, sendo tratado pela Dra. Brunswick.<\/p>\n<p>Freud continuou tentando introduzir o m\u00e9todo do \u201cprazo fixo\u201d com outros pacientes concluindo ser poss\u00edvel certa efic\u00e1cia, mas n\u00e3o a garantia da consecu\u00e7\u00e3o completa da tarefa. Uma parte do material se tornava acess\u00edvel, e outra permanecia reclusa, perdendo o esfor\u00e7o terap\u00eautico.<\/p>\n<p>As considera\u00e7\u00f5es sobre a t\u00e9cnica da psican\u00e1lise e a possibilidade de acelerar o processo o levaram a refletir \u201cse (haveria) um t\u00e9rmino natural de an\u00e1lise, ou se (seria) poss\u00edvel levar uma an\u00e1lise a at\u00e9 tal t\u00e9rmino\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 319). Essas considera\u00e7\u00f5es abriram o leque para uma discuss\u00e3o maior, como:<\/p>\n<p>O que \u00e9 o fim de an\u00e1lise? 1. \u00c9 quando o paciente n\u00e3o sofre mais com seus sintomas? 2. Quando o analista julga que n\u00e3o h\u00e1 mais possibilidade de temer a repeti\u00e7\u00e3o de processos patol\u00f3gicos? 3. Ou quando a influ\u00eancia sobre o paciente foi levada a tal ponto que uma continuidade de an\u00e1lise n\u00e3o promoveria nenhuma outra mudan\u00e7a?<\/p>\n<p>As respostas para essas perguntas dependiam de comprova\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, e, ao se debru\u00e7ar sobre a etiologia dos dist\u00farbios, Freud afirmou que essa \u00e9 mesclada: \u201ctrata-se ou de puls\u00f5es muito fortes, ou seja, que se rebelam contra a doma\u00e7\u00e3o pelo Eu, ou do efeito de traumas precoces, isto \u00e9, que ocorreram antes do tempo, dos quais um Eu imaturo n\u00e3o conseguiu se apoderar\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 320). Constata-se, ent\u00e3o, que a etiologia \u00e9 efeito conjunto dos dois momentos: um constitucional e outro acidental. Quanto mais forte o primeiro, maior a possibilidade de um trauma levar \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o, deixando um dist\u00farbio evolutivo como resqu\u00edcio, e, quanto mais forte \u00e9 o trauma, maior ser\u00e1 a certeza de que ele expressar\u00e1 a sua les\u00e3o.<\/p>\n<p>O psicanalista sublinha a import\u00e2ncia da identifica\u00e7\u00e3o dos obst\u00e1culos que impedem a cura anal\u00edtica e ilustra esse ponto com os casos de dois pacientes. O primeiro \u00e9 o de um analisante que, em dado momento da an\u00e1lise, apresenta uma transfer\u00eancia negativa em rela\u00e7\u00e3o ao analista, e o segundo, o caso de uma jovem acometida por dores de natureza hist\u00e9rica. Esta \u00faltima ficou livre de seus sintomas ap\u00f3s 9 meses de tratamento, mas, 14 anos depois, ao ser operada do \u00fatero, desenvolveu um quadro confusional e, segundo Freud, tornou-se inacess\u00edvel a uma nova tentativa anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Os casos descritos acima foram escolhidos por ele para discutir o tema do fim de an\u00e1lise. Os c\u00e9ticos dir\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um fim de an\u00e1lise duradora e os otimistas dir\u00e3o que sim, pois a t\u00e9cnica psicanal\u00edtica evoluiu desde a conclus\u00e3o dos dois casos. As expectativas dos otimistas suscitam quest\u00f5es: 1. \u00c9 poss\u00edvel eliminar um conflito pulsional definitivamente? 2. \u00e9 poss\u00edvel \u201cvacinar\u201d uma pessoa contra todas as outras possibilidades de conflito?<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Parte III<\/i><\/p>\n<p>A partir deste momento, considero mais did\u00e1tico seguir a forma com a qual Freud dividiu seu texto. Escolhi come\u00e7ar aqui a dividi-lo a partir da parte III.<\/p>\n<p>O ponto principal aqui \u00e9 a discuss\u00e3o sobre o enigm\u00e1tico fator quantitativo e \u201cao que Freud chama de (sua) pot\u00eancia irresist\u00edvel (&#8230;)\u201d (MILLER, 2018, p. 43). Nas palavras de Miller:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cuma elucida\u00e7\u00e3o significante n\u00e3o \u00e9 suficiente para operar; resta alguma resist\u00eancia, n\u00e3o a do paciente, mas a da pr\u00f3pria coisa, uma resist\u00eancia do isso, da libido, de sua viscosidade, da fixa\u00e7\u00e3o. O encantamento provocado pela leitura dos casos de Freud est\u00e1 ligado ao mito de uma libido fluida, que estaria inteiramente na decifra\u00e7\u00e3o, como se pud\u00e9ssemos escrever no quadro a opera\u00e7\u00e3o e seu resultado, e em seguida mostr\u00e1-la ao paciente, que, nesse momento, se levantaria, como L\u00e1zaro, e iria embora, liberto do sintoma. Quando Freud diz: \u2018Esqueci o fator econ\u00f4mico\u2019, ele extrai essa conclus\u00e3o de suas dificuldades com seus pacientes. Ele revela isso com base no modo pessimista de que \u2018An\u00e1lise finita e infinita\u2019 \u00e9 testemunha\u201d (MILLER, 2018, p. 43).<\/p>\n<p>Retornando ao texto de Freud, vemos que este apresenta tr\u00eas fatores determinantes para a oportunidade da terapia anal\u00edtica: 1. influ\u00eancia de traumas; 2. for\u00e7a pulsional constitucional; 3. altera\u00e7\u00e3o do Eu. Dessas, a que mais interessa \u00e9 a for\u00e7a pulsional (FREUD, 1937\/2017, p. 325). Diante desse ponto, o psicanalista pergunta sobre os efeitos a longo prazo da an\u00e1lise, ou seja: \u00e9 poss\u00edvel resolver de forma duradoura e definitiva um conflito entre a puls\u00e3o e o Eu? Ou a uma exig\u00eancia pulsional patog\u00eanica em rela\u00e7\u00e3o ao Eu? (FREUD, 1937\/2017, p. 326).<\/p>\n<p>Mas o que significa\u00a0<i>resolu\u00e7\u00e3o duradoura<\/i>? Freud prop\u00f5e o termo \u201cdoma\u00e7\u00e3o\u201d da puls\u00e3o, que \u201cquer dizer que a puls\u00e3o foi acolhida completamente na harmonia do Eu e \u00e9 acess\u00edvel atrav\u00e9s das outras aspira\u00e7\u00f5es no Eu, n\u00e3o trilhando mais os seus pr\u00f3prios caminhos em busca de satisfa\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 326). No entanto, pode-se constatar a volta dos sintomas em algumas situa\u00e7\u00f5es em que o sujeito \u00e9 acometido pela for\u00e7a de um novo trauma, causando o tombamento do Eu:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;No caso de uma for\u00e7a pulsional excessivamente grande, o Eu amadurecido e apoiado pela an\u00e1lise n\u00e3o consegue realizar a tarefa, de modo semelhante ao que acontecia anteriormente com o Eu desamparado; o dom\u00ednio da puls\u00e3o melhora, mas permanece imperfeito, porque a transforma\u00e7\u00e3o do mecanismo de defesa \u00e9 apenas incompleta. N\u00e3o h\u00e1 nisso nada de espantoso, pois a an\u00e1lise n\u00e3o trabalha com recursos de poder ilimitados, mas com recursos limitados, e o resultado final depende sempre das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as relativas das inst\u00e2ncias em combate m\u00fatuo&#8221; (FREUD, 1937\/2017, p. 332-333).<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Parte IV<\/i><\/p>\n<p>Vemos a seguir que Freud levanta duas quest\u00f5es importantes, uma concernente \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do sujeito contra futuros conflitos pulsionais, e, outra, \u00e0 profilaxia. Cito-o: ser\u00e1 que \u201cdurante o tratamento de um conflito pulsional podemos proteger o paciente contra futuros conflitos pulsionais e [&#8230;] \u00e9 exequ\u00edvel e adequado despertar um conflito pulsional n\u00e3o manifesto naquele momento com a finalidade de profilaxia [?]\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 333). No fundo, essas quest\u00f5es levantam a problem\u00e1tica sobre os limites da capacidade produtiva de uma terapia anal\u00edtica. A resposta \u00e9 que, quando um conflito pulsional n\u00e3o \u00e9 atual, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de ele ser influenciado pela an\u00e1lise, ou seja, a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 profil\u00e1tica.<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Parte V<\/i><\/p>\n<p>Nesse ponto, abre-se a discuss\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da altera\u00e7\u00e3o do Eu no processo de uma an\u00e1lise:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;Nesse intuito, reconhecemos como fundamentais para o sucesso de nosso esfor\u00e7o terap\u00eautico as influ\u00eancias da etiologia traum\u00e1tica, a for\u00e7a relativa das puls\u00f5es a serem dominadas e algo que chamamos de altera\u00e7\u00e3o do Eu. Foi apenas no segundo desses fatores que permanecemos mais tempo e entramos em mais detalhes; nessa ocasi\u00e3o, tivemos motivos para reconhecer a import\u00e2ncia suprema do fator quantitativo, assim como para enfatizar o direito da perspectiva metapsicol\u00f3gica em cada tentativa de explica\u00e7\u00e3o&#8221; (FREUD, 1937\/2017, p. 338).<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio levar em considera\u00e7\u00e3o, de forma mais cuidadosa, a influ\u00eancia da altera\u00e7\u00e3o do Eu.<\/p>\n<p>Segundo Freud, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica com os psic\u00f3ticos, pois, como se sabe, em uma an\u00e1lise, \u00e9 necess\u00e1rio \u201cnos associarmos ao Eu da pessoa-objeto para submetermos por\u00e7\u00f5es n\u00e3o dominadas de seu Isso, ou seja, inclu\u00ed-las na s\u00edntese do Eu\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 338), e, para tal opera\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio um Eu normal. Mesmo que um Eu normal seja apenas ficcional, como toda normalidade.<\/p>\n<p>Os diversos tipos e graus de altera\u00e7\u00e3o do Eu dependem de dois fatores: se s\u00e3o origin\u00e1rios ou adquiridos. No caso dos adquiridos, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil, pois isso aconteceu ao longo do desenvolvimento desde os primeiros anos de vida. Ou seja, o Eu faz sua tarefa de mediar o Isso e o mundo exterior a servi\u00e7o do princ\u00edpio do prazer, mas:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cSe ao longo desse esfor\u00e7o ele aprender a tamb\u00e9m adotar uma postura defensiva em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio Isso e a tratar as reivindica\u00e7\u00f5es pulsionais desse Isso como perigos externos, isso pelo menos em parte se d\u00e1 porque ele entende que a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional levaria a conflitos com o mundo exterior. Ent\u00e3o, sob a influ\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o, o Eu se acostuma a transferir o campo da batalha de fora para dentro, a dominar o perigo interior, antes que ele se transforme em exterior; na maioria das vezes, provavelmente \u00e9 a melhor coisa a ser feita. Durante essa batalha em duas frentes \u2014 mais tarde, vir\u00e1 ainda a terceira frente \u2014 o Eu se serve de diferentes procedimentos para fazer jus \u00e0 sua tarefa, ou, dito de maneira geral, para evitar perigo, ang\u00fastia e desprazer. Chamamos esses procedimentos de &#8216;mecanismos de defesa&#8217;\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 339).<\/p>\n<p>Logo em seguida, no texto, Freud fala do recalque, mecanismo que foi o ponto de partida para o estudo dos processos neur\u00f3ticos. Ele usa como ilustra\u00e7\u00e3o o exemplo do livro que tem partes adulteradas, censuradas e substitu\u00eddas. Essa compara\u00e7\u00e3o mostra como o Eu est\u00e1 submetido ao princ\u00edpio do prazer, \u00e0 compuls\u00e3o do princ\u00edpio do prazer, pois o aparelho ps\u00edquico n\u00e3o suporta o desprazer, precisa se proteger o tempo todo, e, se a percep\u00e7\u00e3o da realidade trouxer o desprazer, a verdade precisa ser sacrificada. Conclui que conseguimos nos proteger desse perigo temporariamente, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fugir de n\u00f3s mesmos e, contra o perigo interno, n\u00e3o h\u00e1 fuga poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Os mecanismos de defesa servem para afastar os perigos e muitas vezes conseguem seu intuito. Contudo, \u00e9 question\u00e1vel se o Eu, ao longo de seu desenvolvimento, consegue prescindir desses mecanismos ou se eles se tornam um perigo por terem se fixado ali, causando sobrecarga para a economia ps\u00edquica. \u00c9 claro que uma pessoa n\u00e3o usa todos os mecanismos de defesa poss\u00edveis, mas alguns selecionados, que ir\u00e3o se fixar no Eu, transformando-se em formas de rea\u00e7\u00e3o regulares do car\u00e1ter e repetidas ao longo da vida. O Eu fortalecido do adulto continua a se defender dos perigos, que, na realidade, n\u00e3o existem mais.<\/p>\n<p>O ponto importante aqui \u00e9 a indaga\u00e7\u00e3o de como a altera\u00e7\u00e3o do Eu (submetida ao efeito da defesa) influencia o nosso esfor\u00e7o ps\u00edquico. V\u00ea-se que o analisando repete, no percurso da an\u00e1lise, os mesmos mecanismos de defesa aos quais est\u00e1 acostumado, mas isso n\u00e3o torna a sua an\u00e1lise imposs\u00edvel. A tarefa da an\u00e1lise funciona como um p\u00eandulo entre um pedacinho da an\u00e1lise do Isso e outro do Eu, ou seja, tornar consciente um peda\u00e7o do Isso e corrigir algo do Eu. Cito Freud: \u201cO fato decisivo \u00e9 que os mecanismos de defesa contra perigos antigos reaparecem no tratamento como resist\u00eancias contra a cura. Decorre da\u00ed que a cura \u00e9 tratada como um novo perigo, at\u00e9 pelo Eu&#8221; (FREUD, 1937\/2017, p. 343-344). Diante desse perigo, o Eu se retira do contrato anteriormente acordado do tratamento anal\u00edtico e n\u00e3o concorda em revelar o Isso, n\u00e3o permitindo que mais nenhum derivado do recalque aflore. Essa \u00e9 a hora em que a transfer\u00eancia negativa pode aflorar, suspendendo a situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Chama-se o efeito das defesas do Eu de \u201caltera\u00e7\u00e3o do Eu\u201d. Cito Freud: \u201cCreio que possamos chamar o efeito das defesas no Eu de &#8216;altera\u00e7\u00e3o do Eu&#8217;, se entendermos por esse termo a dist\u00e2ncia de um Eu-normal fict\u00edcio, que garante ao trabalho anal\u00edtico uma fidelidade pactual inabal\u00e1vel\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 345). Diante disso, podemos afirmar que a situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica depende de qu\u00e3o enraizadas est\u00e3o essas resist\u00eancias da altera\u00e7\u00e3o do Eu.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que toda altera\u00e7\u00e3o do Eu \u00e9 adquirida durante as batalhas de defesa dos primeiros tempos? \u00c9 importante ter em mente que, al\u00e9m de o fator da defesa ter seu lado inato, h\u00e1 a escolha do sujeito, entre poss\u00edveis mecanismos de defesa a serem usados.<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:1,&quot;335551620&quot;:1,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Parte VI<\/i><\/p>\n<p>Uma fonte importante de resist\u00eancia ao trabalho anal\u00edtico s\u00e3o as diversidades do Eu, \u201cque num outro grupo de casos seriam apontadas como fontes de resist\u00eancia contra o tratamento anal\u00edtico e impedimentos do sucesso terap\u00eautico\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 348).<\/p>\n<p>Outra fonte de resist\u00eancia poderosa ao trabalho anal\u00edtico \u00e9 o comportamento das duas puls\u00f5es primevas: Eros e puls\u00e3o de morte. A oposi\u00e7\u00e3o entre as duas mostra que o aparelho ps\u00edquico n\u00e3o trabalha apenas na vertente do prazer; h\u00e1 uma for\u00e7a destrutiva vigorosa: \u201cEsses fen\u00f4menos s\u00e3o sinais evidentes da presen\u00e7a de um poder na vida ps\u00edquica que chamamos de puls\u00e3o de agress\u00e3o ou puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o, dependendo de seus objetivos, e que deduzimos a partir da puls\u00e3o de morte original da mat\u00e9ria animada\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 349). Importante salientar que o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a jun\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e o embate das duas puls\u00f5es, pois \u00e9 isso que vai explicar o colorido das ocorr\u00eancias da vida.<\/p>\n<p>De forma surpreendente, ao estudarmos os fen\u00f4menos que comprovam a atividade da puls\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o nos deparamos somente com a observa\u00e7\u00e3o de material patol\u00f3gico: \u201cIn\u00fameros fatos da vida ps\u00edquica normal clamam por uma tal explica\u00e7\u00e3o, e quanto mais o nosso olhar se agu\u00e7a, mais intensamente eles chamar\u00e3o a nossa aten\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 350).<\/p>\n<p>Curiosamente e apesar de o tema ser importante, Freud decide destacar apenas algumas amostras e come\u00e7a falando dos bissexuais:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;No entanto, aprendemos que, nesse sentido, todas as pessoas s\u00e3o bissexuais, e que distribuem a sua libido ou de forma manifesta ou de forma latente entre objetos de ambos os g\u00eaneros. Mas h\u00e1 algo que chama a nossa aten\u00e7\u00e3o: enquanto no primeiro caso as duas dire\u00e7\u00f5es se entenderam sem embates, no segundo e mais frequente elas se encontram no estado de um conflito irreconcili\u00e1vel. A heterossexualidade de um homem n\u00e3o tolera a homossexualidade, e vice-versa. Se a primeira for a mais forte, ela conseguir\u00e1 manter a \u00faltima latente e afast\u00e1-la da satisfa\u00e7\u00e3o real; por outro lado, n\u00e3o h\u00e1 um perigo maior para a fun\u00e7\u00e3o heterossexual de um homem do que o dist\u00farbio causado pela homossexualidade latente&#8221; (FREUD, 1937\/2017, p. 350).<\/p>\n<p>Para explicar essa quest\u00e3o, Freud aposta na teoria dualista que advoga uma puls\u00e3o de morte como parceira em n\u00edvel de igualdade com o Eros manifesto da libido (FREUD, 1937\/2017, p. 351) e, para explic\u00e1-la, lan\u00e7a m\u00e3o da tese de Emp\u00e9docles de \u00c1cragas, grego pesquisador, m\u00e9dico, pol\u00edtico, filantropo, mago, profeta.<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Parte VII<\/i><\/p>\n<p>Nessa parte, Freud faz men\u00e7\u00e3o a Ferenczi em seu artigo \u201cO problema da finaliza\u00e7\u00e3o das an\u00e1lises\u201d, no qual o \u00faltimo garantia que a an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 um processo intermin\u00e1vel, mas depende da t\u00e9cnica e da paci\u00eancia do analista. Portanto, a meta n\u00e3o seria o encurtamento do processo, mas o seu aprofundamento. Um dos pontos fundamentais seria a peculiaridade do analista, suas resist\u00eancias e a \u201cnormalidade\u201d. Aqui Freud fala da forma\u00e7\u00e3o de uma forma quase pedag\u00f3gica ao afirmar que<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;[&#8230;] h\u00e1 uma raz\u00e3o em se exigir do analista um grau mais elevado de normalidade ps\u00edquica e corre\u00e7\u00e3o, como parte da comprova\u00e7\u00e3o de sua habilidade profissional; acrescente-se a isso que ele ainda necessita de uma certa superioridade para funcionar como modelo para o paciente em determinadas situa\u00e7\u00f5es anal\u00edticas e em outras como professor&#8221; (FREUD, 1937\/2017, p. 355)<\/p>\n<p>e acrescenta a import\u00e2ncia da cren\u00e7a do amor \u00e0 verdade, no reconhecimento da realidade.<\/p>\n<p>No entanto, depois de fazer essas afirma\u00e7\u00f5es, fala do car\u00e1ter quase imposs\u00edvel da profiss\u00e3o do analista, pergunta-se como, ou onde, adquirir a habilita\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria nessa profiss\u00e3o. A resposta: em sua pr\u00f3pria an\u00e1lise. Mas e a resist\u00eancia do analista em sua pr\u00f3pria an\u00e1lise? Como lidar com essa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;[&#8230;] espera-se que a partir das motiva\u00e7\u00f5es recebidas na pr\u00f3pria an\u00e1lise que elas n\u00e3o se esgotem com o seu t\u00e9rmino, mas que os processos de reformula\u00e7\u00e3o do Eu [<i>Ichumarbeitung<\/i>] continuem espontaneamente no analisando e que todas as demais experi\u00eancias sejam utilizadas nesse novo sentido adquirido. Isso acontece de fato e, conforme vai acontecendo, habilita o analisando para se tornar analista&#8221; (FREUD, 1937\/2017, p. 356).<\/p>\n<p>Um segundo ponto interessante \u00e9 quando Freud fala do car\u00e1ter singular do analista e que alguns usam mecanismos de defesa que lhes permitem desviar da pr\u00f3pria pessoa conclus\u00f5es e exig\u00eancias da an\u00e1lise. Essa cr\u00edtica pode dar raz\u00e3o ao poeta quando diz que, ao dar poder a algu\u00e9m, ser\u00e1 dif\u00edcil que n\u00e3o se fa\u00e7a mal uso desse poder.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;N\u00e3o causaria espanto se atrav\u00e9s do trabalho com todo o recalcado, que luta por satisfa\u00e7\u00e3o na alma humana, tamb\u00e9m despert\u00e1ssemos no analista aquelas demandas pulsionais que ele do contr\u00e1rio poderia manter reprimidas. Esses tamb\u00e9m s\u00e3o os &#8216;perigos da an\u00e1lise&#8217;, que n\u00e3o amea\u00e7am o parceiro passivo, mas sim o ativo na situa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, e n\u00e3o dever\u00edamos deixar de enfrent\u00e1-los&#8221; (FREUD, 1937\/2017, p. 357).<\/p>\n<p>A resposta, segundo ele, estaria na necessidade de o analista se analisar a cada cinco anos, tornando, assim, sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, infinita.<\/p>\n<p>Apesar da cita\u00e7\u00e3o acima, Freud diz que \u00e9 necess\u00e1rio esclarecer um poss\u00edvel mal-entendido, pois n\u00e3o considera que a an\u00e1lise seja sem fim, mas alerta que, nos casos de an\u00e1lise de car\u00e1ter, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o esperar um t\u00e9rmino natural.<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Parte VIII<\/i><\/p>\n<p>Continuando a discuss\u00e3o, o psicanalista salienta que tanto nas an\u00e1lises terap\u00eauticas como nas de car\u00e1ter, percebemos dois temas que se destacam com frequ\u00eancia: \u201cambos os temas est\u00e3o atrelados \u00e0s diferen\u00e7as de g\u00eanero; um deles \u00e9 t\u00e3o caracter\u00edstico do homem quanto o outro o \u00e9 da mulher\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 358). Acrescenta ainda: &#8220;os dois temas que se correspondem s\u00e3o, para a mulher, a inveja do p\u00eanis \u2014 a aspira\u00e7\u00e3o positiva por possuir um genital masculino \u2014 e, para o homem, a avers\u00e3o contra a sua postura passiva ou feminina em rela\u00e7\u00e3o a outro homem\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 358). Ou seja,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">&#8220;No caso do homem, a aspira\u00e7\u00e3o de masculinidade desde o in\u00edcio \u00e9 totalmente sint\u00f4nica com o Eu [<i>Ichgerecht<\/i>]; a postura passiva \u00e9 recalcada de forma en\u00e9rgica, uma vez que pressup\u00f5e a aceita\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o, e muitas vezes s\u00e3o apenas supercompensa\u00e7\u00f5es excessivas que apontam para a sua presen\u00e7a. Tamb\u00e9m no caso da mulher, a aspira\u00e7\u00e3o de masculinidade durante determinado momento \u00e9 sint\u00f4nica com o Eu, mais especificamente na fase f\u00e1lica, antes do desenvolvimento da feminilidade. Depois, no entanto, ela \u00e9 submetida \u00e0quele significativo processo de recalque, de cujo resultado, como apresentado tantas vezes, dependem os destinos da feminilidade. Muito depender\u00e1 de sabermos se uma por\u00e7\u00e3o suficiente do complexo de masculinidade se esquivou do recalque, influenciando constantemente o car\u00e1ter; grandes por\u00e7\u00f5es do complexo normalmente s\u00e3o transformadas, para contribuir na constru\u00e7\u00e3o da feminilidade; a partir do desejo n\u00e3o saciado pelo p\u00eanis dever\u00e1 se criar o desejo por uma crian\u00e7a e pelo homem que tem o p\u00eanis. No entanto, \u00e9 estranho percebermos o qu\u00e3o frequentemente o desejo de masculinidade \u00e9 preservado no inconsciente, l\u00e1 desenvolvendo sua influ\u00eancia perturbadora a partir do recalque&#8221; (FREUD, 1937\/2017, p. 359).<\/p>\n<p>Ou seja, em ambos os casos, \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o ao outro sexo o que sucumbe ao recalque.<\/p>\n<p>Freud conclui seu texto de forma insatisfat\u00f3ria para si pr\u00f3prio, diante da impossibilidade de ultrapassar o desejo do p\u00eanis e o protesto masculino ao considerar a for\u00e7a do biol\u00f3gico em seu papel de pano de fundo.<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>Freud, Lacan e Miller<\/i><\/p>\n<p>Em \u201cAposta no passe\u201d (MILLER, 1980\/2018, p. 13), Miller, em uma confer\u00eancia de 1980, em Caracas, resume alguns pontos essenciais sobre o fim de an\u00e1lise. Ele afirma: \u201c<i>Passe<\/i>, o termo usado por Lacan, assume o sentido de\u00a0<i>impasse<\/i>, que, segundo Freud, corresponde ao desfecho\u00a0<i>normal<\/i>\u00a0da experi\u00eancia anal\u00edtica para\u00a0<i>todo sujeito<\/i>\u201d (MILLER, 1980\/2018, p. 14).<\/p>\n<p>Segundo Miller, o trope\u00e7o evocado no\u00a0<i>toda an\u00e1lise<\/i>\u00a0n\u00e3o diz respeito \u00e0 particularidade cl\u00ednica do paciente ou \u00e0 falta de habilidade do analista praticante, pois Freud \u00e9 muito claro ao afirmar que h\u00e1 um impasse de\u00a0<i>estrutura<\/i>, que vale para qualquer sujeito. Ou seja, quanto mais um sujeito avan\u00e7a em sua an\u00e1lise, mais o impasse deve se manifestar. \u00c9 o complexo de castra\u00e7\u00e3o, e, especificamente na mulher, a\u00a0<i>Penisneid<\/i>, essa inveja cravada no corpo. A an\u00e1lise necessariamente deve chegar a esse rochedo que nos leva a um paradoxo, pois o fim de an\u00e1lise implica um fracasso.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a das perspectivas freudiana e lacaniana quanto ao fim de an\u00e1lise \u00e9 que Lacan fala de passe em vez de impasse, mas sem, com isso, deixar de concordar com o que Freud postula. Para os dois h\u00e1 fim de an\u00e1lise, mas Lacan aposta que em seu final haja a transforma\u00e7\u00e3o de analisante para analista, a passagem de uma posi\u00e7\u00e3o a outra (MILLER, 1980\/2018, p. 15).<\/p>\n<p>Freud esperava que o fim de an\u00e1lise seria possibilitar ao homem ser um homem para uma mulher e \u00e0 mulher ser uma mulher para um homem. \u00c9 a\u00ed que h\u00e1 o trope\u00e7o essencial, a falha e a conclus\u00e3o final de que o complexo de castra\u00e7\u00e3o \u00e9 irredut\u00edvel \u00e0 experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Por sua vez, Lacan \u201cindica que a quest\u00e3o do fim de an\u00e1lise n\u00e3o se situa no \u00e2mbito da rela\u00e7\u00e3o sexual, que n\u00e3o existe\u201d (MILLER, 1980\/2018, p. 16), e para que haja fim, deve-se abdicar dessa ideia e sustentar a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o. Ao postular a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, ele desafia a concep\u00e7\u00e3o de Freud e abre a possibilidade de um passe de ordem l\u00f3gica.<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h6><b>Refer\u00eancias\u00a0<\/b><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1937). \u201cA an\u00e1lise finita e a infinita\u201d.\u00a0<b>Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/b>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A\u00a0<i>et al<\/i>. \u201cSobre o desencadeamento da sa\u00edda da an\u00e1lise (conjunturas freudianas)\u201d.\u00a0<b>Aposta no passe<\/b>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. &#8220;Preliminar&#8221;.\u00a0<b>C\u00f3mo terminan los an\u00e1lisis<\/b>. Olivos: Grama Ediciones, 2022.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-. A.\u00a0<b>Perspectivas do semin\u00e1rio 23 de Lacan: O sinthoma<\/b>. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luciana Silviano Brand\u00e3o Psicanalista, membro da EPB\/AMP Resumo:\u00a0O texto acompanha o percurso de Freud sobre o tema do final de an\u00e1lise tendo como refer\u00eancia o artigo \u201cA an\u00e1lise finita e a infinita\u201d, que trouxe desdobramentos importantes na psican\u00e1lise. 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