{"id":2038,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2038"},"modified":"2025-12-01T12:39:24","modified_gmt":"2025-12-01T15:39:24","slug":"uma-fissura-na-relacao-do-eu-com-o-mundo-exterior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/uma-fissura-na-relacao-do-eu-com-o-mundo-exterior\/","title":{"rendered":"Uma\u00a0fissura\u00a0na rela\u00e7\u00e3o do eu com o mundo exterior"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Cristiana Pittella<\/strong><br \/>\nAP, membro da EBP\/AMP<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A autora faz uma leitura do texto freudiano &#8220;Neurose e psicose&#8221; (1924), servindo-se da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<p><b>Palavras-chave:<\/b>\u00a0Neurose; psicose; sonho; del\u00edrio; simb\u00f3lico; real.<\/p>\n<p><b>A FISSURE IN THE SELF&#8217;S RELATIONSHIP WITH THE EXTERIOR WORLD<\/b><\/p>\n<p><b>Abstract:\u00a0<\/b>The author reads the Freudian text &#8220;Neurosis and psychosis&#8221; (1924), using the Lacanian orientation<\/p>\n<p><b>Keywords:\u00a0<\/b>Neurosis; psychosis; dream; delirium; symbolic; real<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2039\" style=\"width: 464px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS-_CRISTIANA_PITTELLA.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"454\" data-large_image_height=\"478\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2039\" class=\"wp-image-2039 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS-_CRISTIANA_PITTELLA.jpg\" alt=\"\" width=\"454\" height=\"478\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2039\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. S\/T<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><i>Sonhei que era uma borboleta, e quando acordei vi<br \/>\n<\/i><i>que era um homem. Agora n\u00e3o sei se sou um homem<br \/>\n<\/i><i>que sonhou ser borboleta, ou se sou uma borboleta que sonha ser um homem.<\/i><\/p>\n<p>Chuang Tzu, mestre tao\u00edsta<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da realidade, do ser e da exist\u00eancia \u00e9 fundamentalmente humana. Em &#8220;Cl\u00ednica ir\u00f4nica&#8221;, Jacques-Alain Miller (1996a) afirma que, para Freud, nada deixa de ser sonho, e, para Lacan, a prop\u00f3sito de Freud, se tudo \u00e9 sonho, ent\u00e3o todo mundo \u00e9 louco, isto \u00e9, delirante. Assim, &#8220;diante do louco, diante do delirante, n\u00e3o se esque\u00e7a que voc\u00ea \u00e9, ou foi, analisante, e que tamb\u00e9m fala ou falava, sobre o que n\u00e3o existe&#8221; (p. 199).<\/p>\n<p>Nesta 58\u00aa\u00a0Li\u00e7\u00f5es\u00a0Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise, &#8220;Uma fissura na rela\u00e7\u00e3o do eu com o mundo exterior&#8221;, vamos trabalhar o texto freudiano &#8220;Neurose e psicose&#8221;, de 1924. Nele Freud investiga a g\u00eanese das duas entidades cl\u00ednicas, neurose e psicose, e \u00e9 a primeira vez que ele utiliza o termo psicose. O contexto \u00e9 o da segunda t\u00f3pica, em que Freud, no texto &#8220;O eu e o isso&#8221; (1923), expande o inconsciente para al\u00e9m do recalque ao apresentar o aparelho ps\u00edquico pelas inst\u00e2ncias eu, isso e supereu.<\/p>\n<p>O eu encontra-se submetido \u00e0s exig\u00eancias do isso e do supereu, \u201ccom o anseio em servir a todos os seus senhores a um s\u00f3 tempo\u201d (FREUD, 1924\/2016, p. 271). Freud vai delimitar a neurose e a psicose a partir da posi\u00e7\u00e3o do eu. A neurose resultaria do conflito entre o eu e o isso, e, a psicose, do conflito entre o eu e o mundo exterior. Ele mesmo considerar\u00e1 isso uma solu\u00e7\u00e3o simplista, pois a etiologia \u00e9 comum para o in\u00edcio tanto da neurose quanto da psicose. Trata-se de um elemento incompat\u00edvel que se imp\u00f5e ao eu, e este decide recha\u00e7\u00e1-lo: \u201ctrata-se de um impedimento (<em>Versagung<\/em>), uma n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de algum daqueles eternamente indom\u00e1veis desejos de inf\u00e2ncia\u201d (FREUD, 1924\/2016, p. 274).<\/p>\n<p>A ideia de conflito entre a defesa e as mo\u00e7\u00f5es pulsionais, de for\u00e7as antag\u00f4nicas, perpassa a obra de Freud. Tamb\u00e9m em 1923, em seu texto &#8220;A perda da realidade na neurose e psicose&#8221;, Freud considera mais claramente que h\u00e1 na neurose uma perturba\u00e7\u00e3o da realidade, algo que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever, e ela pr\u00f3pria \u00e9 uma fuga da realidade. O real insiste, as puls\u00f5es s\u00e3o, no corpo, o eco do fato de que h\u00e1 um dizer. Neurose e psicose s\u00e3o modalidades de defesa. Para ambas, tratar-se-\u00e1 de uma perda da realidade e da cria\u00e7\u00e3o de uma nova realidade (FREUD, 1923\/2016, p. 284).<\/p>\n<p>Para explicitar a origem desses conflitos e as solu\u00e7\u00f5es encontradas, Freud, no texto que estamos lendo, destaca, a partir de sua experi\u00eancia, dois campos: o das neuroses de transfer\u00eancia e o das neuroses narc\u00edsicas.<\/p>\n<p>Nas neuroses de transfer\u00eancia, o eu, a servi\u00e7o das exig\u00eancias do supereu (ideal), se defende das mo\u00e7\u00f5es pulsionais atrav\u00e9s do mecanismo de defesa, o recalcamento. Ele se separa de uma parte do isso. O recalcado, entretanto, retorna pela via do compromisso \u2014 o deslocamento do afeto de uma representa\u00e7\u00e3o para outra \u2014, encontrando por essa transfer\u00eancia uma satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva: o sintoma.<\/p>\n<p>Freud delimita tr\u00eas neuroses de transfer\u00eancia: a histeria, a obsess\u00e3o e a fobia. Na fobia de Hans, o desejo pelo pai se desloca para o medo do cavalo, que o impede de circular livremente. No homem dos ratos, o desejo de matar a mulher que se ama \u00e9 deslocado para a afli\u00e7\u00e3o de que ela tropece numa pedra, ora colocando, ora retirando essa pedra. Na histeria, o afeto converge para o corpo: em Elisabeth von R., suas dores nas pernas e dificuldade de andar surgem do desejo sexual pelo marido de sua irm\u00e3.<\/p>\n<p>Para especificar o conflito nas psicoses, Freud se valer\u00e1 no texto do exemplo da am\u00eancia de Meynert como um paradigma das neuroses narc\u00edsicas. Trata-se de uma aguda confus\u00e3o alucinat\u00f3ria em que a ruptura com o mundo exterior \u2014 pelo grave e intoler\u00e1vel impedimento de desejo por parte da realidade (<em>Wunschversagung<\/em>) \u2014 leva a uma recusa das novas percep\u00e7\u00f5es (<em>verweigert<\/em>). H\u00e1 uma retirada da libido do mundo exterior (das significa\u00e7\u00f5es compartilhadas, do la\u00e7o social), assim como do mundo interior (perda de si e da identidade). O eu cria para si um novo mundo, fechado em si mesmo, constru\u00eddo de acordo com as mo\u00e7\u00f5es pulsionais.<\/p>\n<p>Freud tamb\u00e9m se refere \u00e0s esquizofrenias, em que h\u00e1 um embotamento afetivo e uma perda de toda participa\u00e7\u00e3o no mundo, do la\u00e7o com o Outro. H\u00e1, na esquizofrenia, um retorno do gozo sobre o corpo. O esquizofr\u00eanico n\u00e3o se defende do real com o simb\u00f3lico porque, para ele, o simb\u00f3lico \u00e9 real (MILLER, 1996a). Sua ironia \u00e9 uma defesa.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 um del\u00edrio que \u00e9 do real, \u00e9 o do esquizofr\u00eanico. Temos por orienta\u00e7\u00e3o nunca nutrir o del\u00edrio (MILLER, 2015), pois ele pode levar ao pior. Em uma supervis\u00e3o em servi\u00e7o de sa\u00fade mental, o CAPS, R\u00f4mulo da Silva (1999) relata que um paciente, invadido por uma voz que o questionava se ele seria um anjo, acaba chegando \u00e0 conclus\u00e3o \u2014 a partir do que trabalhava nas atividades da institui\u00e7\u00e3o \u2014 de que era o anjo Gabriel. N\u00e3o obstante, ele se desenla\u00e7a das atividades de sua vida. Para que ele participasse das atividades, um t\u00e9cnico vai lhe delegar a fun\u00e7\u00e3o de &#8220;anunciar&#8221; as atividades do servi\u00e7o. O paciente ganha um mais de vida; passa a correr com os bra\u00e7os abertos e a anunciar o que lhe era solicitado. Entretanto, para esse sujeito, o simb\u00f3lico, o significante, \u00e9 real, n\u00e3o representa o sujeito para outro significante. Seu del\u00edrio n\u00e3o alcan\u00e7a um valor de met\u00e1fora delirante. Por consequ\u00eancia, ele passa ao ato: &#8220;bate as asas&#8221; pulando da janela de onde morava, vindo a falecer.<\/p>\n<p>Desde sua leitura de Schreber (1911) e tamb\u00e9m em &#8220;Neurose e psicose&#8221;, Freud ressalta que as forma\u00e7\u00f5es delirantes s\u00e3o um remendo onde originalmente surge uma fissura na rela\u00e7\u00e3o do eu com o mundo exterior. Elas s\u00e3o tentativas de cura e reconstru\u00e7\u00e3o da realidade ps\u00edquica, pelo retorno do gozo no significante, fazendo o Outro existir. Freud d\u00e1 uma dignidade ao del\u00edrio concebendo-o n\u00e3o como um dist\u00farbio do ju\u00edzo, mas como algo singular, do enla\u00e7amento do eu \u00e0 realidade, ao Outro.<\/p>\n<p>Schreber, um doutor em direito na Alemanha, \u00e9 chamado a ocupar o lugar de juiz. Trata-se de uma fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que exige do sujeito um uso da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica advinda da met\u00e1fora do Nome-do-Pai. Entretanto, Schreber \u00e9 confrontado com a foraclus\u00e3o do significante do Nome-do-Pai em sua estrutura, n\u00e3o encontrando um significante que possa represent\u00e1-lo junto a outro significante, o que acarreta uma ruptura de sua realidade ps\u00edquica. Essa ruptura produz uma desestabiliza\u00e7\u00e3o, a saber, um desencadeamento do significante, um desastre crescente do imagin\u00e1rio, e deslocaliza o gozo que retorna no corpo e no Outro do significante.<\/p>\n<p>Ele escreve com rigor, em suas mem\u00f3rias, as imposi\u00e7\u00f5es e abusos que sofre; como seu corpo \u00e9 invadido, comandado e modificado por raios divinos, desfazendo seu mundo em cascata. Pela sua escrita podemos ler como ele vai reconstru\u00ed-lo com o del\u00edrio e encontrar um lugar, uma nomea\u00e7\u00e3o, no ponto onde originalmente surgiu a fissura.<\/p>\n<p>A ideia de ser transformado em Mulher \u00e9 o germe de seu sistema delirante. Ela lhe ocorre a partir de um pensamento de que, afinal de contas, deve ser realmente muito bom ser mulher e submeter-se ao ato da c\u00f3pula. Esse empuxo \u00e0 mulher se imp\u00f5e ao sujeito e, se num primeiro momento, o horroriza, em seguida, ele o aceita como um compromisso razo\u00e1vel, para tornar-se um compromisso irrevers\u00edvel (LACAN, 1955-1956).<\/p>\n<p>Com seu del\u00edrio, designando-se &#8220;A mulher de Deus&#8221;, ele p\u00f4de, durante um per\u00edodo, viver a sua rotina e exig\u00eancias do trabalho. Sua exist\u00eancia, seu mundo e lugar junto ao Outro s\u00e3o reconstru\u00eddos com esse remendo.<\/p>\n<p><em>A cl\u00ednica universal do del\u00edrio<\/em><\/p>\n<p>Formular uma cl\u00ednica universal do del\u00edrio implica situarmos as diferen\u00e7as entre as modalidades de del\u00edrios dos neur\u00f3ticos \u2014 articulados ao fantasma, aos ideais e \u00e0s exig\u00eancias superegoicas \u2014 e os del\u00edrios na psicose.<\/p>\n<p>Se o neur\u00f3tico e o paranoico distintamente fazem o Outro existir defendendo-se do real com o simb\u00f3lico, o esquizofr\u00eanico nos ensina acerca da inexist\u00eancia do Outro, de um real que se apresenta sem a mortifica\u00e7\u00e3o da linguagem e um uso da ironia.<\/p>\n<p>J.-A. Miller nos convida, em &#8220;Cl\u00ednica ir\u00f4nica&#8221; (1996a), a apreendermos a posi\u00e7\u00e3o do psicanalista como ir\u00f4nica. Mas como tocar o real com as palavras? Como toc\u00e1-lo de boa maneira? (MILLER, 2015). Como um psicanalista, na posi\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica, permite interrogar os modos de defesa de cada sujeito?<\/p>\n<p>Advertido de que n\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro, a ironia \u00e9 um modo de fazer e questionar os significantes mestres, em que as palavras podem dizer outra coisa do que dizem e, assim, confrontar o sujeito com a sua pr\u00f3pria dimens\u00e3o delirante.<\/p>\n<p>Exige uma investida, uma presen\u00e7a do analista, que ele aporte o tom, a voz, o acento, um gesto e o olhar, para que seu ato mobilize o corpo do falasser. Nas psicoses, pretendemos apagar ou acomodar o del\u00edrio (MILLER, 2015), assim, temos que considerar quando a ironia \u00e9 uma defesa m\u00ednima do sujeito e quando ela pode servir para perturb\u00e1-la.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise pode reduzir o sofrimento causado pelas fic\u00e7\u00f5es que o sujeito inventou para tratar o real, recortando o sintoma at\u00e9 o\u00a0<em>sem-sentido<\/em>\u00a0para fazer um uso do sinthoma. A cl\u00ednica universal do del\u00edrio tamb\u00e9m aponta para isso que, como psicanalista, trata de escutar o que se enuncia da boca do paciente, o que se vocifera do lugar de mais-ningu\u00e9m (MILLER, 2015), lugar do sujeito designado desde antes que o significante desenrole suas tessituras capciosas, que fazem esquecer que a\u00ed onde se sofre, se goza.<\/p>\n<p><em>A leitura de &#8220;Neurose e psicose&#8221; por Lacan<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de defesa no texto &#8220;Neurose e psicose&#8221; recebe nomes diversos, como recusa, recalcamento e rejei\u00e7\u00e3o, sem uma delimita\u00e7\u00e3o estrutural clara, e sim mais continu\u00edsta. Contudo, Freud termina o texto perguntando-se qual seria o mecanismo an\u00e1logo ao recalcamento na neurose para a psicose, atrav\u00e9s do qual o eu se desliga do mundo exterior.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 Lacan, em seu\u00a0<em>Semin\u00e1rio 3: as psicoses<\/em>\u00a0(1955-1956), ao se referir ao texto freudiano, quem vai delimitar estruturalmente a neurose e a psicose, distinguindo-as quanto \u00e0s perturba\u00e7\u00f5es que elas produzem nas rela\u00e7\u00f5es do sujeito com a realidade. Ele sublinha que Freud admite um fen\u00f4meno de exclus\u00e3o para o qual o termo\u00a0<em>Verwerfung<\/em>\u00a0parece v\u00e1lido, e que esse modo de defesa se distingue da nega\u00e7\u00e3o (<em>Verneinung<\/em>), que \u00e9 reconhecida por Freud como a matriz simb\u00f3lica do inconsciente.<\/p>\n<p>A\u00a0<em>Verneinung<\/em>, nega\u00e7\u00e3o, \u00e9 um momento constitutivo que delimita o mundo da realidade ps\u00edquica, um momento que est\u00e1 na origem da simboliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante ressaltar que essa origem n\u00e3o est\u00e1 em um ponto do desenvolvimento, mas que responde a uma exig\u00eancia, a uma escolha for\u00e7ada. \u00c9 ela que permite a emerg\u00eancia do mundo simb\u00f3lico enquanto um sistema de articula\u00e7\u00e3o, de oposi\u00e7\u00e3o entre elementos diferentes: S1\u2013 S2 , presen\u00e7a e aus\u00eancia, dentro-fora, bom-mal&#8230;<\/p>\n<p>Neurose e psicose s\u00e3o modalidades de nega\u00e7\u00e3o, de defesa face ao real. Elas s\u00e3o ordenadas em rela\u00e7\u00e3o a uma afirma\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria do significante (S1), a\u00a0<em>Bejahung<\/em>, e, ao mesmo tempo, em que h\u00e1 uma afirma\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma expuls\u00e3o definitiva (<em>Austossung<\/em>).<\/p>\n<p>Esse significante (S1) \u2014 lal\u00edngua \u2014, que n\u00e3o \u00e9 feito para se comunicar, marca o corpo do que Lacan nomeou em seu \u00faltimo ensino, falasser. Esse choque de lal\u00edngua no corpo, que chamamos de trauma, itera fora-de-sentido num enxame de significantes S1 (<em>essaim<\/em>) que n\u00e3o se articulam. A realidade ps\u00edquica do falasser se constitui ao redor desse furo traum\u00e1tico (<em>troumatisme<\/em>), desse choque que ressoa o gozo do Um, um excesso traum\u00e1tico (<em>tropmatisme<\/em>).<\/p>\n<p>Na neurose, o modo de nega\u00e7\u00e3o, de defesa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s puls\u00f5es ao que vem do Outro, \u00e9 a\u00a0<em>Verdrangung<\/em>, o recalque.\u00a0 Nesse modo de defesa, o ser falante consente com a afirma\u00e7\u00e3o primordial de um significante (<em>Bejahung<\/em>) S1. Entretanto, nega-se a identidade do sujeito com o significante: S1 # $. O sujeito n\u00e3o \u00e9 o significante, ele s\u00f3 vai figurar no discurso unicamente atrav\u00e9s de um representante. O significante irrealiza o mundo \u2014 a palavra mata a coisa \u2014, a refer\u00eancia est\u00e1 vazia.<\/p>\n<p>Um significante promove o sujeito no discurso, mas isso s\u00f3 se dar\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a outro significante, o que equivale a dizer que o sujeito \u00e9 barrado, cindido. O sujeito ent\u00e3o se constitui nesse movimento de queda de um significante, que \u00e9 recalcado, consentindo com a falta-a-ser. Falta a ser o\u00a0<em>falo.\u00a0<\/em>Tem-se a castra\u00e7\u00e3o do sujeito e do Outro.<\/p>\n<p>O significante recalcado (S1), como nos diz Freud, vai atrair para sua dire\u00e7\u00e3o outros significantes, segundo as leis da met\u00e1fora e da meton\u00edmia (condensa\u00e7\u00e3o e deslocamento), constituindo a cadeia significante, a realidade do sujeito.<\/p>\n<p>Na neurose, o que se elide, nos diz Lacan (1955-1956), \u00e9 uma parte de sua realidade ps\u00edquica (isso), parte esquecida que continua a se fazer ouvir. Como?, pergunta Lacan, e ele mesmo responde: de uma forma simb\u00f3lica. A estrutura de linguagem do saber inconsciente se define ent\u00e3o por essa conex\u00e3o dos significantes, e o saber recalcado reaparece nas forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, como os sonhos, atos falhos, chistes e sintomas.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o, a divis\u00e3o do sujeito, o leva a uma busca recorrente de significa\u00e7\u00e3o. O enigma do gozo se presentifica na indaga\u00e7\u00e3o &#8220;o que isso quer dizer?&#8221;, provocando surpresa e propondo uma quest\u00e3o ao desejo: o que quer o Outro? O neur\u00f3tico, ao tentar apreender o objeto no Outro, s\u00f3 encontra a vacuidade de um gozo.<\/p>\n<p>A parada dessa busca infinita na cadeia se d\u00e1 com a constru\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o de gozo enquanto objeto (a) para o Outro, $&lt;&gt;a, a constru\u00e7\u00e3o da fantasia fundamental. Defesa que implica um ponto ininterpret\u00e1vel e que, uma vez atravessada em uma experi\u00eancia anal\u00edtica, o falasser possa vir a se virar com o gozo fora-de-sentido, o sinthoma.<\/p>\n<p>Pode acontecer, todavia, de o sujeito recusar o acesso ao seu mundo simb\u00f3lico, de alguma coisa que ele experimentou e que n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o amea\u00e7a \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. Esse modo de nega\u00e7\u00e3o, de defesa, cai sob o golpe da\u00a0<em>Verwerfung\u00a0<\/em>e tem uma sorte diferente.<\/p>\n<p>Na foraclus\u00e3o, o ser falante \u201cescolhe\u201d a psicose, insond\u00e1vel decis\u00e3o do ser. A nega\u00e7\u00e3o recai sobre o significante mesmo, que fica nulo quanto a sua fun\u00e7\u00e3o de representabilidade do sujeito. Nesse sentido, a\u00a0<em>Bejahung<\/em>\u00a0n\u00e3o se produz\u00a0<em>\u2014\u00a0<\/em>trata-se da rejei\u00e7\u00e3o de um significante primordial. N\u00e3o h\u00e1 o consentimento, um sim ao significante. Essa rejei\u00e7\u00e3o coloca em d\u00favida todo o conjunto significante\u00a0<em>\u2014<\/em>\u00a0toda a cadeia significante\u00a0<em>\u2014<\/em>, o Outro\u00a0<em>\u2014<\/em>\u00a0fazendo com que alguma coisa n\u00e3o seja manifestada no registro simb\u00f3lico retornando no real.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, uma anula\u00e7\u00e3o do significante: o significante n\u00e3o representa o sujeito para outro significante, o que faz com que Lacan, no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 11<\/em>\u00a0(1964), nomeie como hol\u00f3frase S1 S2, ou seja, h\u00e1 uma falta de articula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o entre os significantes, e, mais tarde, em seu ensino, Lacan escrever\u00e1 apenas como a itera\u00e7\u00e3o do S1\u2026S1\u2026S1, escrituras que demonstram a falta de dialetiza\u00e7\u00e3o, a certeza psic\u00f3tica e a n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o do gozo (a). A fun\u00e7\u00e3o do S1 de representar o sujeito junto ao S2 parte \u00e0 deriva &#8230;S1&#8230;S1&#8230;S1.<\/p>\n<p>\u00c9 isso o que caracteriza a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai, da met\u00e1fora primordial da castra\u00e7\u00e3o. O significante, por n\u00e3o representar o sujeito para outro significante, vai funcionar redobrando o real. O sujeito se depara com um vazio de significa\u00e7\u00e3o, um buraco, que \u00e9 a perplexidade, para, em seguida, retornar no real uma resposta, uma significa\u00e7\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o, que traz uma marca \u00fanica, que \u00e9 a certeza (MILLER, 1996b). O Nome-do-Pai ordena o universo do sentido, estabelece v\u00ednculos entre significante e significado e une o desejo \u00e0 lei ao interditar o gozo primordial.<\/p>\n<p>A foraclus\u00e3o na psicose incide, portanto, diretamente sobre esse significante do Nome-do-Pai, provocando \u201cum furo correspondente no lugar da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica\u201d (LACAN, 1957-1958\/ 1998, p. 564), impossibilitando a simboliza\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o. Por consequ\u00eancia, temos a foraclus\u00e3o do falo. O gozo n\u00e3o \u00e9 extra\u00eddo do corpo _ o psic\u00f3tico tem o objeto (a) no bolso _ \u00a0provocando uma \u201cdesordem na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida no sujeito\u201d (LACAN, 1958 p. 559).<\/p>\n<p>Embora, no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 3, as psicoses<\/em>, Lacan afirme que &#8220;n\u00e3o fica louco quem quer&#8221; (1955-1956\/ 1985 p. 177) ao considerarmos que a refer\u00eancia est\u00e1 sempre vazia, Miller, ao propor uma cl\u00ednica universal do del\u00edrio, nos indica que todo discurso \u00e9 uma defesa contra o real. As fic\u00e7\u00f5es ed\u00edpicas, a fantasia \u2014 a cren\u00e7a louca no pai \u2014 s\u00e3o t\u00e3o delirantes quanto um del\u00edrio na psicose. Ambas s\u00e3o produ\u00e7\u00e3o de sentido ao gozo.<\/p>\n<p>O del\u00edrio \u00e9 universal, porque os homens falam e porque h\u00e1 linguagem para eles. A linguagem serve \u00e0 tecitura das fic\u00e7\u00f5es com as quais ignoramos o que temos de mais real: a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual e a nossa pr\u00f3pria mortalidade. H\u00e1 nesse ponto uma interse\u00e7\u00e3o entre neurose e psicose no sentido que ambos se deparam com S(A\/), ou seja, a forclus\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p>O significante do Nome-do-Pai \u00e9, portanto, uma solu\u00e7\u00e3o entre outras para tratar o gozo. Com o seu decl\u00ednio, efeito da foraclus\u00e3o generalizada e, tamb\u00e9m, mais al\u00e9m da foraclus\u00e3o localizada na psicose (a\u00a0<em>Verwerfung<\/em>), cada um tem que encontrar sua resposta sinthom\u00e1tica frente ao furo, ao real que lhe cabe.<br \/>\n<em>A vida \u00e9 sonho<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Freud, em &#8220;Neurose e psicose&#8221;<em>,\u00a0<\/em>aproxima o sonho da psicose. Essa aproxima\u00e7\u00e3o se d\u00e1, pois h\u00e1 uma realiza\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria do desejo no sonho, e a ideia de que se alucina quando se dorme atualiza a tend\u00eancia do aparelho ps\u00edquico de se fechar. O sujeito acorda para continuar a dormir na rotina de sua fantasia e evitar o despertar para o real (MILLER, 2020).<\/p>\n<p>Podemos tamb\u00e9m considerar a intrus\u00e3o da vida no sonho; o sonho n\u00e3o s\u00f3 na via do inconsciente transferencial \u2014 das forma\u00e7\u00f5es inconscientes \u2014, mas na perspectiva do UM do inconsciente real: um despertar para o real de uma posi\u00e7\u00e3o de gozo.<\/p>\n<p><a id=\"ref1\"><\/a>Alguns fragmentos do passe de R\u00f4mulo da Silva<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/uma-fissura-na-relacao-do-eu-com-o-mundo-exterior#_edn1\" name=\"_ednref1\">1<\/a><\/sup>, membro EBP\/AMP, parece-nos contribuir para essa 58\u00aa Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise. Sua an\u00e1lise lhe permitiu reduzir o sofrimento causado pelas fic\u00e7\u00f5es que o sujeito inventou para tratar o real, recortando o sintoma at\u00e9 o sem-sentido e fazer um uso do sinthoma.<\/p>\n<p>Ao redor dele, o prazer e a alegria estavam do lado das mulheres. Desde novo queria saber sobre o gozo do Outro, o que a mulher quer, para assim alcan\u00e7ar o objeto de sua satisfa\u00e7\u00e3o, o que redundou para ele querer ser esse objeto. De fam\u00edlia italiana, na tristeza e na alegria, ouvia &#8220;<em>mangia che te fa bene!<\/em>&#8220;. Fazer falar e fazer rir eram maneiras de fazer o outro gozar. Posi\u00e7\u00e3o que satisfazia uma parte da fantasia.<\/p>\n<p>At\u00e9 os seis anos foi considerado anor\u00e9xico. Havia preocupa\u00e7\u00e3o com sua magreza e falta de apetite. Sua voz era \u00e1fona. Passa a comer com vigor, como elas, e passa a falar como elas.<\/p>\n<p>Quando lhe perguntavam o que queria comer, respondia sempre: tanto faz. Quando solicitado a falar, a voz n\u00e3o sa\u00eda e experimentava uma retra\u00e7\u00e3o do corpo. E, sob press\u00e3o, o que lhe acometia era um choro que n\u00e3o se externava; sa\u00eda um gemido, uma expira\u00e7\u00e3o impedida, um grito contido.<\/p>\n<p>Tomar a palavra, falar em nome pr\u00f3prio, \u00e9 assumir uma separa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Deixar sair a voz \u00e9 ceder o gozo, separar-se, cair um objeto ao qual se mant\u00e9m apegado. A fun\u00e7\u00e3o evocante da voz fazia com que ele entrasse em mutismo.<\/p>\n<p>A voz \u00e9 um objeto intrusivo dado pelo Outro e n\u00e3o se pode recusar. Os autistas e alguns psic\u00f3ticos nos ensinam o quanto esse objeto \u00e9 intrusivo. O ouvido n\u00e3o \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o que se fecha, diferentemente do objeto oral, que pode ser retirado pelo Outro, deixado pelo sujeito e tamb\u00e9m recusado por ele na anorexia.<\/p>\n<p>Para se constituir como sujeito, \u00e9 necess\u00e1rio que o objeto seja extra\u00eddo do corpo, que o sujeito consinta com o significante. Falar em outra l\u00edngua foi importante na an\u00e1lise de R\u00f4mulo. O analista o acolhe, mas adverte: \u00e9 preciso falar melhor o franc\u00eas.<\/p>\n<p>As interrup\u00e7\u00f5es das sess\u00f5es tinham repercuss\u00f5es para al\u00e9m da fala. O sil\u00eancio do analista o fez percorrer todo o mito familiar, as situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas e as solu\u00e7\u00f5es para se defender do real.<\/p>\n<p>Sua hist\u00f3ria, que tanto gostava de contar, foi se tornando vazia e rid\u00edcula. Convocado a falar o que n\u00e3o tinha ainda falado e possibilitado de tomar a palavra sem que ela fosse articulada ao sentido, o angustiava, presentificava o objeto.<\/p>\n<p>Ele sonha. Est\u00e1 submerso num tanque cheio de \u00e1gua. N\u00e3o tem como respirar. H\u00e1 uma torneira em forma de santo. Se a abrisse, encheria mais ainda. Em seu desespero, abre-a e surpreende-se: o tanque se esvazia.<\/p>\n<p>N\u00e3o encontra palavras e repete &#8220;<em>je me sens&#8230; je me sens&#8230; je me sens<\/em>&#8230;&#8221; (&#8220;eu me sinto&#8230;&#8221;), o que faz asson\u00e2ncia com\u00a0<em>geme\u00e7\u00e3o<\/em>, ao tentar expelir o ar, o choro da inf\u00e2ncia, a voz. O analista interv\u00e9m:\u00a0<em>J\u2019aime saint<\/em>, fazendo reverberar o gozo pelo equ\u00edvoco. Fim da sess\u00e3o. Ser analisante \u00e9 aceitar receber de um psicanalista o que perturba a sua defesa (MILLER, 2014).<\/p>\n<p>Faria sentido: a torneira era um santo, o santo que o salvou, o santo que ele \u00e9&#8230; E R\u00f4mulo repete\u00a0<em>j\u2019aime saint&#8230;<\/em>\u00a0mas, em franc\u00eas, n\u00e3o se diz, como em portugu\u00eas, &#8220;Amo santo&#8221;, e sim,\u00a0<em>j\u2019aime le saint\u00a0<\/em>(amo o santo). Ao que ele escuta:\u00a0<em>J\u2019aime sang<\/em>&#8230; (eu amo sangue). Ou seja, n\u00e3o ama nem \u00e9 santo&#8230; tanto que virou o santo de cabe\u00e7a para baixo para se salvar.<\/p>\n<p>R\u00f4mulo, como o mestre tao\u00edsta Chuang Tzu, que n\u00e3o evita o despertar quando seu disc\u00edpulo lhe diz, \u201c\u00e9 apenas um sonho!&#8221;, desperta para o real de sua posi\u00e7\u00e3o de gozo. De uma voz t\u00edmida e feminina, do compromisso identificado \u00e0 m\u00e3e e \u00e0s mulheres que seduzia sendo um homem ador\u00e1vel, sua voz tornou-se mais ativa, de acordo com suas cordas vocais, e falava menos na vida. A fun\u00e7\u00e3o evocante da voz estava vinculada ao se fazer ver que o objeto (a), o olhar, impunha.<\/p>\n<p>Um outro sonho revela isso. Um neologismo em franc\u00eas feito por letras de fuma\u00e7a:\u00a0<em>goulant<\/em>. O som parecia Gourmand, ele via as s\u00edlabas go, gol, goul, na, um, aun, ant se desfazendo e n\u00e3o podia formar uma palavra colocando em jogo o sem-de-sentido, um enxame de S1 (<em>essaim<\/em>). Foi nos \u00faltimos suspiros da an\u00e1lise que a queda do objeto olhar se apresentou e permitiu o fim.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da travessia da fantasia, ele nos conta dois epis\u00f3dios.<\/p>\n<p>No primeiro, sempre carregava uma mochila com seus apetrechos. Em uma sess\u00e3o, o analista, aos berros, exige que ele a deixe fora da sala. Ele a joga num canto. R\u00f4mulo n\u00e3o fala desse epis\u00f3dio na sess\u00e3o, mas havia uma rea\u00e7\u00e3o violenta em seu corpo, pronta para explodir, e, ao mesmo tempo, tentava entender o desejo do analista. Sai da sess\u00e3o se perguntando se o analista pensava que ele seria violento e se carregaria uma bomba. O recebimento dessa mensagem invertida revela a sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No segundo, na sala de espera do analista, fala e gesticula sem parar com algu\u00e9m que tamb\u00e9m aguardava e acaba derrubando um vaso no ch\u00e3o. Sem gra\u00e7a, tenta limpar, n\u00e3o consegue. Sai para pedir ajuda e encontra a esposa do analista no hall. Ao n\u00e3o encontrar a palavra em franc\u00eas, sai disfar\u00e7ando.<\/p>\n<p>Vai para a sess\u00e3o, nada fala do ocorrido. A cena o visita em sua forma ed\u00edpica: \u201cfiz uma besteira, tentei explicar para ela, ela n\u00e3o entendeu. O senhor pode dar um jeito?&#8221;. O analista carinhosamente quis saber os detalhes. R\u00f4mulo se sente rid\u00edculo contando e o analista faz um gesto de &#8220;deixa para l\u00e1&#8221;. Em seguida, volta-se para ele: &#8220;mas voc\u00ea quebrou o vaso?&#8221;. Ele responde que n\u00e3o e que limpou o que p\u00f4de. Em outro gesto tranquilizador e furioso, agarra o bra\u00e7o dele e diz: &#8220;mas, se tivesse quebrado, voc\u00ea teria que pagar!&#8221;. Ele sai apavorado, pensando nos milhares de euros, como se fosse um vaso da dinastia Ming.<\/p>\n<p>A acolhida e, em seguida, a n\u00e3o cumplicidade do analista confrontaram-no com a solid\u00e3o de seu gozo. Enquanto falava desenfreadamente na sala de espera, n\u00e3o levava em conta os outros. N\u00e3o era s\u00f3 narcisismo, mas um autoerotismo; sua satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o levava em conta o Outro, simplesmente gozava.<\/p>\n<p>Ao perturbar a defesa, o analista, com sua investida e presen\u00e7a, coloca em jogo a puls\u00e3o esc\u00f3pica e a invocante. O efeito de seu ato \u00e9 mobilizar o corpo do falasser, pois as puls\u00f5es s\u00e3o, no corpo, o eco do fato de que h\u00e1 um dizer.<\/p>\n<p>Como em um paralelo com o fen\u00f4meno elementar e a fun\u00e7\u00e3o do del\u00edrio na psicose, trata-se de reconduzir o sujeito aos significantes propriamente elementares, sobre os quais o sujeito, em sua neurose, delirou (MILLER, 1996c). O Um sobre o qual o neur\u00f3tico construiu suas defesas, suas elucubra\u00e7\u00f5es ficcionais, hist\u00f3rias de fam\u00edlia tecidas de identifica\u00e7\u00f5es ideais e verdades mentirosas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1923). &#8220;A perda da realidade na neurose e psicose&#8221;.\u00a0<strong>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/strong>. Belo Horizonte. 2021.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1923). &#8220;O ego e o id&#8221;.\u00a0<strong>Obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago. 1969.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1924). &#8220;Neurose e Psicose&#8221;.\u00a0<strong>Obras Incompletas de Sigmund Freud.<\/strong>\u00a0Belo Horizonte: Ed. Aut\u00eantica, 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1957-1958). &#8220;De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose&#8221;.\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-1956).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio: livro 3: as psicoses<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio: livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1988.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. &#8220;Cl\u00ednica ir\u00f4nica&#8221;.\u00a0<strong>Matemas I<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996a.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. &#8220;Concili\u00e1bulo de Angers&#8221;. Conversa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica realizada na Fran\u00e7a em 1996b.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. &#8220;L&#8217;interpretation \u00e0 l&#8217;envers&#8221;.\u00a0<strong>La Cause freudienne<\/strong>, n. 32. Paris: Navarin Seuil, 1996c. pp. 9-13.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>La experi\u00eancia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s. 2014.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>Todo mundo es loco<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2015.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cDespertar&#8221;.\u00a0<strong>Scilicet<\/strong>: o sonho sua interpreta\u00e7\u00e3o e seu uso no tratamento lacaniano, AMP, EBP, 2020. pp. 15-19.<\/h6>\n<h6>SILVA, R. F. &#8220;O psic\u00f3tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra e ao corpo&#8221;.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 24. jun. 1999. pp. 36-37.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a id=\"i\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/uma-fissura-na-relacao-do-eu-com-o-mundo-exterior#ref1\">1. &#8220;O objeto voz na experi\u00eancia de uma an\u00e1lise&#8221;, em\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>\u00a0on-line, n\u00ba 11, e &#8220;Trauma e viol\u00eancia&#8221;, em\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n\u00ba 70.<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristiana Pittella AP, membro da EBP\/AMP &nbsp; Resumo:\u00a0A autora faz uma leitura do texto freudiano &#8220;Neurose e psicose&#8221; (1924), servindo-se da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. Palavras-chave:\u00a0Neurose; psicose; sonho; del\u00edrio; simb\u00f3lico; real. A FISSURE IN THE SELF&#8217;S RELATIONSHIP WITH THE EXTERIOR WORLD Abstract:\u00a0The author reads the Freudian text &#8220;Neurosis and psychosis&#8221; (1924), using the Lacanian orientation Keywords:\u00a0Neurosis; psychosis;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57754,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-2038","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2038","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2038"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2038\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57755,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2038\/revisions\/57755"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57754"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2038"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2038"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2038"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}