{"id":2043,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2043"},"modified":"2025-12-01T12:39:55","modified_gmt":"2025-12-01T15:39:55","slug":"2043-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/2043-2\/","title":{"rendered":"O sintoma substituto"},"content":{"rendered":"<h6><strong>M\u00f4nica Campos Silva<\/strong><br \/>\nPsicanalista, mestre em estudos psicanal\u00edticos pela UFMG, membro da EBP\/AMP,<\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>o presente artigo visa a tratar o lugar do sintoma como defesa. A partir da diferencia\u00e7\u00e3o realizada por Freud entre inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia, \u00e9 poss\u00edvel observar o funcionamento ps\u00edquico em seu aspecto din\u00e2mico, bem como a fun\u00e7\u00e3o do Eu diante das demandas de satisfa\u00e7\u00e3o. Assim, o sintoma como substituto evidencia tanto sua vertente de verdade como de real, estabelecendo consequ\u00eancias para a cl\u00ednica e seu manejo.<\/p>\n<p><b>Palavras-chaves<\/b>: sintoma; verdade; ang\u00fastia; defesa.<\/p>\n<p><b>THE SUBSTITUTE SYMPTOM<br \/>\n<\/b><b>Abstract:<\/b>\u00a0this article aims to approach the idea of the symptom as a defense. From the differentiation made by Freud between inhibition, symptom and anguish, it is possible to observe the psychic functioning in its dynamic aspect, as well as the function of the Self facing the demands of satisfaction. Thus, the symptom as a substitute reveal both its truth and real aspects, establishing consequences for the clinic and its management.<\/p>\n<p><b>Keywords<\/b>: symptom; truth; anguish; defense.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2044\" style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS-_MNICA_CAMPOS.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"567\" data-large_image_height=\"378\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2044\" class=\"wp-image-2044 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS-_MNICA_CAMPOS.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"378\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2044\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. S\/T<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Sobre o sintoma\u00a0<\/i><\/p>\n<p>Miller (2015) interroga: por que colocamos o sintoma entre as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente? \u00c9 um fato que o sintoma, por sua perman\u00eancia, se distingue de todas as outras forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Para que haja sintoma, no sentido freudiano, \u00e9 preciso que haja sentido em jogo e que esse possa ser interpretado. Para que haja sintoma, \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m que o fen\u00f4meno dure. Igualmente, diz Miller, o sintoma \u00e9 o que a psican\u00e1lise nos d\u00e1 de mais real; o sintoma como o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever, enquanto sua perman\u00eancia se imp\u00f5e \u00e0 experi\u00eancia. \u00c9 desse &#8220;a mais&#8221; que atravessa e marca o corpo que \u00e9 preciso dar-se conta na forma\u00e7\u00e3o dos sintomas. Por sua vez, em Freud (1925\u20131926\/1996), o uso do sintoma \u00e9 sempre o mesmo: pela satisfa\u00e7\u00e3o sexual ou servir de substituto \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o que falta na vida, a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional.<\/p>\n<p>De tal modo, o sintoma revela duas vertentes: uma de verdade e uma de real. O que Freud descobriu \u00e9 que um sintoma se interpreta como um sonho, quer dizer, se interpreta em fun\u00e7\u00e3o de um desejo, e que \u00e9 um efeito de verdade. Mas h\u00e1 um segundo tempo desse descobrimento: a persist\u00eancia, a perman\u00eancia do sintoma depois da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Freud (1925\u20131926\/1996) aponta que o conceito de recalque n\u00e3o implica uma rela\u00e7\u00e3o com a sexualidade, separando o recalque, que se refere a um mecanismo sem\u00e2ntico \u2014 algo que n\u00e3o pode ser dito porque houve um recalcamento \u2014, e o registro da sexualidade. Procura, ent\u00e3o, atrelar as duas vertentes, isto \u00e9, a da descoberta do inconsciente, dos fen\u00f4menos interpret\u00e1veis, e a da descoberta da sexualidade infantil e do car\u00e1ter perverso da sexualidade. Para Lacan, no entanto, o recalque tem a ver com a libido, ou seja, o que se op\u00f5e ao dizer tudo \u00e9 o mesmo que se op\u00f5e \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o plena do sexual. Para Lacan, o que est\u00e1 recalcado \u00e9 o significante, o que Freud nomeia de representante da puls\u00e3o (MILLER, 2015).<\/p>\n<p>Freud, em\u00a0<i>Inibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ang\u00fastia<\/i>\u00a0(1925\u20131926\/1996), caracteriza o sintoma a partir da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional \u201ccomo o signo e o substituto\u201d de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que n\u00e3o aconteceu, ou seja, a puls\u00e3o busca satisfa\u00e7\u00e3o e, ap\u00f3s o recalque incidir sobre ela, h\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o do sintoma como satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva. Mais adiante, o autor trata o trauma e o inconsciente tomando como princ\u00edpio que, sob cada sintoma neur\u00f3tico, h\u00e1 sempre um trauma. Toda neurose cont\u00e9m, diz ele, uma fixa\u00e7\u00e3o dessa natureza. Acrescenta o princ\u00edpio de que o sentido dos sintomas \u00e9 sempre desconhecido para o doente, afirmando ser \u201cnecess\u00e1rio que esse sentido seja inconsciente para que o sintoma possa surgir\u201d (FREUD, 1925\u20131926\/1996, p. 287), ou seja, n\u00e3o se formam sintomas a partir dos processos conscientes. Freud completa: &#8220;A constru\u00e7\u00e3o de um sintoma \u00e9 o substituto de alguma outra coisa diferente que est\u00e1 interceptada&#8221; (p. 287). O sintoma como substituto vem no lugar do objeto que conv\u00eam \u00e0 puls\u00e3o, mas nem por isso alcan\u00e7a a satisfa\u00e7\u00e3o, tratando sempre de renovar sua busca.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que, em Freud, a defini\u00e7\u00e3o de sintoma leva em conta seu car\u00e1ter de forma\u00e7\u00e3o de compromisso, de conex\u00e3o entre gozo e defesa. A observa\u00e7\u00e3o de Freud \u00e9 que, no sintoma, trata-se de obter satisfa\u00e7\u00e3o e de defender-se dela. Dessa conex\u00e3o entre gozo e defesa, Lacan extrair\u00e1 que h\u00e1 algo excessivo no gozo que obriga o sujeito sempre a se defender do gozo que busca, ou seja, o paradoxo de que os doentes sofrem dos seus sintomas, mas n\u00e3o parecem desejar tanto assim desfazer-se deles (MILLER, 2020). Por\u00e9m, \u00e9 importante notar que o sintoma oferece \u00e0 puls\u00e3o outra satisfa\u00e7\u00e3o, mas como desprazer. A defesa do Eu contra a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, atrav\u00e9s do recalque, produz a convers\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o em desprazer. O desvio e a substitui\u00e7\u00e3o s\u00e3o realizados pelo Eu, conduzido pelo princ\u00edpio do prazer em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 exig\u00eancia pulsional. Logo, o que aparece como desprazer no sintoma, como sofrimento, \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Miller (2020), a puls\u00e3o n\u00e3o conhece o &#8220;semblante de gozar&#8221;; a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional \u00e9 um real. Segundo ele, Lacan enfatiza o inv\u00f3lucro formal das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, mas n\u00e3o lhe escapa que a chave da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas \u00e9 pulsional, o que permanece. Aponta ainda que o sintoma pode aparecer como um enunciado repetitivo sobre o real. O sujeito n\u00e3o pode responder ao real a n\u00e3o ser sintomatizando.<\/p>\n<p>Logo, h\u00e1 algo do sintoma que se localiza entre a ang\u00fastia e a mentira, quer dizer, entre algo que mente e algo que n\u00e3o pode enganar. Algo circula entre o que engana sempre e o que n\u00e3o engana jamais. O sintoma mente, a ang\u00fastia, n\u00e3o. A ang\u00fastia sinaliza a amea\u00e7a, o sintoma defende (MILLER, 2015).<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559685&quot;:0,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360,&quot;335559991&quot;:2}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><i>O texto de Freud<\/i><\/p>\n<p>Ao entrarmos em\u00a0<i>Inibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ang\u00fastia<\/i>\u00a0(1925-1926\/1996), encontramos Freud debru\u00e7ado sobre as manifesta\u00e7\u00f5es que considera patol\u00f3gicas. Para ele, a inibi\u00e7\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o especial com a fun\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tendo necessariamente um sentido de verdade ou uma implica\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica. Mas adverte que, quando a inibi\u00e7\u00e3o \u00e9 tomada a partir do sentido, ou seja, limita\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es da fun\u00e7\u00e3o do Eu, ela se torna um sintoma.<\/p>\n<p>Freud localiza outro encontro entre os elementos em quest\u00e3o, a inibi\u00e7\u00e3o e a ang\u00fastia. Segundo ele, algumas inibi\u00e7\u00f5es representam o abandono de uma fun\u00e7\u00e3o porque sua pr\u00e1tica produziria ang\u00fastia, ou seja, a inibi\u00e7\u00e3o como defesa. Nesse ponto de elabora\u00e7\u00e3o, refor\u00e7a que o sintoma \u00e9 um sinal e um substituto de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que permaneceu em estado im\u00f3vel, sendo uma consequ\u00eancia do processo de recalque. O recalque, por sua vez, se processa a partir do Eu quando este se recusa a se associar a um investimento pulsional despertado no Isso. Assim, quando o Eu se op\u00f5e a um processo pulsional no Isso, ele tem de dar um &#8220;sinal de desprazer\u201d com a ajuda do princ\u00edpio do prazer, a fim de alcan\u00e7ar seu objetivo, o recalque, sendo ainda prov\u00e1vel que as primeiras irrup\u00e7\u00f5es de ang\u00fastia de natureza muito intensa ocorram antes de o supereu se tornar diferenciado, devendo o recalque ser descrito como tendo falhado, em maior ou menor grau.<\/p>\n<p>O Eu \u00e9 uma inst\u00e2ncia central no dinamismo ps\u00edquico. Suas caracter\u00edsticas adapt\u00e1veis permitem se organizar e se diferenciar do Isso, realizar interc\u00e2mbios e influ\u00eancia, mantendo, nesse sentido, duas posi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao sintoma: a que quer incorporar o sintoma e a que vai tentar manter o recalque.<\/p>\n<p>Freud utiliza o caso do pequeno Hans \u2014 apresentado pela primeira vez em 1909 \u2014, uma fobia infantil, para discutir o que est\u00e1 em jogo no sintoma, perguntando que sintoma substitutivo foi encontrado e onde est\u00e1 o motivo de recalque. Hans recusava-se a sair \u00e0 rua porque tinha medo de cavalos \u2014 isso era a mat\u00e9ria prima do caso. O que constitu\u00eda seu sintoma? O medo? A escolha de um objeto para seu temor? Ter abandonado sua liberdade de movimento? Por que e qual foi a satisfa\u00e7\u00e3o a que ele renunciou? Hans n\u00e3o sofria de um medo vago de cavalos, mas de que um cavalo fosse mord\u00ea-lo. Para Freud, a fobia de Hans foi uma tentativa de solucionar o conflito devido \u00e0 ambival\u00eancia: um amor e um \u00f3dio dirigidos para a mesma pessoa, seu pai. Por\u00e9m, Freud adverte que o medo que faz parte dessa fobia n\u00e3o \u00e9 um sintoma. Se Hans, apaixonado pela m\u00e3e, mostra medo do pai, isso n\u00e3o significa que ele tenha uma neurose ou fobia. Nesse caso, o que transformou a fobia em uma neurose foi apenas uma coisa: a substitui\u00e7\u00e3o do pai por um cavalo. \u00c9 esse deslocamento, portanto, que tem o direito de ser denominado sintoma. As ideias contidas na sua ang\u00fastia era a substitui\u00e7\u00e3o, por distor\u00e7\u00e3o, da ideia de ser castrado pelo pai. \u00c9 sempre a atitude de ang\u00fastia do Eu que \u00e9 a coisa prim\u00e1ria e que p\u00f5e o recalque em movimento. A ang\u00fastia jamais surge da libido recalcada, sendo o recalque apenas um dos mecanismos de que a defesa faz uso.<\/p>\n<p><i>A ang\u00fastia<\/i><\/p>\n<p>Para Freud (1925-1926\/1996), a ang\u00fastia, em primeiro lugar, \u00e9 algo que se sente, e, como um sentimento, tem um car\u00e1ter muito acentuado de desprazer, sendo um sinal para a evita\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o de perigo. A an\u00e1lise dos estados de ang\u00fastia revela a exist\u00eancia de um car\u00e1ter espec\u00edfico de desprazer, atos de descarga e percep\u00e7\u00f5es desses atos.<\/p>\n<p>Por outro lado, Freud esclarece que a puls\u00e3o em si n\u00e3o \u00e9 um perigo. O que ent\u00e3o lhe d\u00e1 essa qualidade? O alerta de desprazer que o Eu emite, frente \u00e0 demanda de satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o, colocando em marcha o princ\u00edpio do prazer para obter esse desvio, \u00e9 o modo como Freud contextualizou a ang\u00fastia \u2014 sinal que coloca o recalque em marcha. A puls\u00e3o, enquanto tal, constitui uma infra\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio do prazer, na medida em que sua exig\u00eancia precisamente n\u00e3o \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o de prazer, e sim uma exig\u00eancia de mais de gozar (MILLER, 2015).<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o importante levantada por Freud em\u00a0<i>Inibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ang\u00fastia<\/i>\u00a0\u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a forma\u00e7\u00e3o de sintomas e a gera\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia. Haveria duas hip\u00f3teses: a ang\u00fastia \u00e9 um sintoma de neurose e os sintomas s\u00f3 se formam a fim de evitar a ang\u00fastia. A ang\u00fastia surgiria como rea\u00e7\u00e3o original ao desamparo no trauma (real), sendo este o fen\u00f4meno fundamental e o principal problema da neurose. Se um paciente agoraf\u00f3bico que tenha sido acompanhado at\u00e9 a rua for ali deixado sozinho, ele produzir\u00e1 um ataque de ang\u00fastia; ou se um neur\u00f3tico obsessivo for impedido de lavar as m\u00e3os ap\u00f3s haver tocado algo, ele se tornar\u00e1 preso de uma ang\u00fastia quase insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Avan\u00e7amos, ent\u00e3o, ao ponto de dizer que inibi\u00e7\u00e3o e ang\u00fastia podem, tamb\u00e9m, se apresentar como sintoma. No que se refere \u00e0 inibi\u00e7\u00e3o, fica claro seu car\u00e1ter de sintoma quando vemos que a inibi\u00e7\u00e3o \u00e9 corporal \u2014 sexual, marcha, alimenta\u00e7\u00e3o e da fala. Isso que toca o corpo \u2014 encontro do significante e o corpo.<\/p>\n<p><i>Perturbar e Des-Montar a defesa<\/i><\/p>\n<p>Como fazer com a condi\u00e7\u00e3o defensiva no sintoma?<\/p>\n<p>Freud nos indica que, quando o analista tenta ajudar o Eu em sua luta contra o sintoma, verifica que esses la\u00e7os conciliat\u00f3rios entre o Eu e o sintoma atuam do lado das resist\u00eancias, n\u00e3o sendo simples de afrouxar, muito menos de separar o Eu e o sintoma. Ele assinala que o Eu \u00e9 fonte de tr\u00eas resist\u00eancias: a resist\u00eancia do recalque; a resist\u00eancia da transfer\u00eancia, que reanima um recalque para al\u00e9m da lembran\u00e7a; e a resist\u00eancia em renunciar a qualquer satisfa\u00e7\u00e3o ou al\u00edvio que tenha sido obtido com a doen\u00e7a. Menciona tamb\u00e9m a resist\u00eancia que decorre do Isso, necessitando de \u2018elabora\u00e7\u00e3o\u2019, e a resist\u00eancia proveniente do supereu, que se op\u00f5e \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio paciente pela an\u00e1lise (FREUD, 1925-1926\/1996).<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, o sintoma, em an\u00e1lise, deve ser reduzido a seu n\u00facleo. Miller\u00a0 elucida que \u201creconduzimos os seres de linguagem a nada, os reduzimos a coisa nenhuma\u201d (2015, p. 18). O paradoxo, segundo ele, \u00e9 o do resto, havendo um x que resta mais al\u00e9m da interpreta\u00e7\u00e3o freudiana. Assistimos, ent\u00e3o, \u00e0 confronta\u00e7\u00e3o do sujeito com o que Freud chama de restos sintom\u00e1ticos. Para Freud, como ele partia do sentido, isso se apresentava como um resto, mas, de fato, esse resto \u00e9 o que est\u00e1 nas origens do sujeito; \u00e9, de algum modo, o acontecimento origin\u00e1rio e, ao mesmo tempo, permanente, que reitera sem cessar, o n\u00facleo do sintoma. Em um tratamento, passamos, certamente, pelo momento de decifra\u00e7\u00e3o da verdade do sintoma, mas chegamos aos restos sintom\u00e1ticos, ao fora de sentido.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos falar que perturbar a defesa, em Freud, seria<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cquando, na an\u00e1lise, damos ao Eu assist\u00eancia capaz de situ\u00e1-lo em posi\u00e7\u00e3o de levantar seus recalques, ele recupera seu poder sobre o Isso recalcado e pode permitir aos impulsos pulsionais que sigam seu curso como se as antigas situa\u00e7\u00f5es de perigo n\u00e3o existissem mais\u201d (FREUD, 1925-1926\/1996, p. 97)<\/p>\n<p>Entretanto, verificamos que, mesmo ap\u00f3s o Eu haver resolvido abandonar suas resist\u00eancias, ele ainda tem dificuldades em desfazer os recalques, sendo o fator din\u00e2mico o que torna uma elabora\u00e7\u00e3o desse tipo necess\u00e1ria e abrangente. Se o perigo neur\u00f3tico \u00e9 um perigo pulsional, ao levar esse perigo que n\u00e3o \u00e9 conhecido do Eu at\u00e9 a consci\u00eancia, o analista faz com que a ang\u00fastia neur\u00f3tica n\u00e3o seja diferente da ang\u00fastia real\u00edstica, de modo que, com ela, se pode lidar da mesma maneira.<\/p>\n<p>Para Miller (2015), ler um sintoma consiste em privar o sintoma de sentido. Por isso, diz ele, Lacan substitui o aparato de interpretar de Freud por um tern\u00e1rio que n\u00e3o produz sentido: o do Real, do Simb\u00f3lico e do Imagin\u00e1rio. Passa-se assim da escuta do sentido \u00e0 leitura do fora de sentido. A leitura, o saber ler, consiste em manter a dist\u00e2ncia entre a palavra e o sentido que ela veicula, a partir da escritura como fora de sentido, como letra, a partir de sua materialidade.<\/p>\n<p>Sabemos que, para perturbar e des-montar a defesa, \u00e9 preciso um percurso de an\u00e1lise. Esta visa reduzir o sintoma a sua f\u00f3rmula inicial, quer dizer, ao encontro material de um significante e do corpo, ao choque puro da linguagem sobre o corpo. Logo, para tratar o sintoma, \u00e9 preciso passar pela l\u00f3gica do desejo, mas tamb\u00e9m ir adiante da verdade que essa decifra\u00e7\u00e3o produz e apontar mais al\u00e9m, a fixa\u00e7\u00e3o do gozo, a opacidade do real.<\/p>\n<p>Gu\u00e9guen (2014) afirma que, para al\u00e9m de perturbar a defesa, \u00e9 preciso ir al\u00e9m e desmontar a defesa, pois \u00e9 importante supor que uma outra constru\u00e7\u00e3o venha no lugar do que foi esvaziado.<\/p>\n<p>Miller (2020) lembra a pergunta de Lacan: como se vive a puls\u00e3o? O pr\u00f3prio Miller elucida que, no percurso de seu ensino, Lacan nos evidencia que n\u00e3o se trata, como em Freud, de resolver o conflito, mas de obter um novo arranjo, um funcionamento menos custoso para o sujeito. N\u00e3o h\u00e1 puls\u00e3o sem sintoma. A fantasia \u00e9 o curso normal da satisfa\u00e7\u00e3o e equivale \u00e0 in\u00e9rcia imagin\u00e1ria (posi\u00e7\u00e3o do neur\u00f3tico em rela\u00e7\u00e3o ao desejo), impedindo de saber fazer com o sintoma. Contudo, sabemos ser poss\u00edvel, em uma an\u00e1lise, definir, localizar a fantasia. Por\u00e9m, no registro do sintoma, como modo de gozo, o que se pode \u00e9 saber fazer a\u00ed com o sintoma, com esse resto, ou seja, fazer-se amigo do sintoma, montar um novo modo de satisfa\u00e7\u00e3o, uma nova maneira de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, uma nova constru\u00e7\u00e3o que Lacan denomina de sinthoma, pois o sintoma n\u00e3o \u00e9 algo novo, mas um retorno. H\u00e1 sempre algo de velho no sintoma, pois este \u00e9 feito de repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559685&quot;:0,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360,&quot;335559991&quot;:2}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h6><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1925-1926).<b>\u00a0Inibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ang\u00fastia<\/b>. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.<\/h6>\n<h6>GU\u00c9GUEN, P-G. &#8220;Defesa (desmontar a)&#8221;.\u00a0<b>Scilicet<\/b>: Um real para o s\u00e9culo XXI. Scriptum Editora. 2014<\/h6>\n<h6>MILLER, J. -A. &#8220;Os caminhos na forma\u00e7\u00e3o de sintomas&#8221;.\u00a0<b>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/b>. n\u00ba 60. S\u00e3o Paulo: Eolia, set. 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. -A. &#8220;Ler um sintoma&#8221;.\u00a0<b>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/b>. n\u00ba 70. S\u00e3o Paulo: Eolia, jun. 2015.<\/h6>\n<h6>MILLER, J. -A. &#8220;S\u00edntoma y puls\u00edon&#8221;.<b>\u00a0El partenaire-s\u00edntoma<\/b>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2020.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00f4nica Campos Silva Psicanalista, mestre em estudos psicanal\u00edticos pela UFMG, membro da EBP\/AMP, Resumo:\u00a0o presente artigo visa a tratar o lugar do sintoma como defesa. A partir da diferencia\u00e7\u00e3o realizada por Freud entre inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia, \u00e9 poss\u00edvel observar o funcionamento ps\u00edquico em seu aspecto din\u00e2mico, bem como a fun\u00e7\u00e3o do Eu diante das&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57756,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-2043","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2043","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2043"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2043\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57757,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2043\/revisions\/57757"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57756"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2043"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2043"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2043"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}