{"id":2047,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2047"},"modified":"2025-12-01T12:40:38","modified_gmt":"2025-12-01T15:40:38","slug":"uma-defesa-primaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/uma-defesa-primaria\/","title":{"rendered":"Uma defesa prim\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Cristina Drummond<\/strong><br \/>\nAME da EBP\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:paixao.bhe@terra.com.br\">paixao.bhe@terra.com.br<\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O texto aborda a import\u00e2ncia do conceito de defesa prim\u00e1ria como norteador da cl\u00ednica freudo-lacaniana. Freud situa a no\u00e7\u00e3o de defesa em primeiro plano nas psiconeuroses e delineia a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do funcionamento da vida ps\u00edquica, marcando sua oposi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos seus contempor\u00e2neos. Desde o texto \u201cProjeto para uma psicologia cient\u00edfica\u201d, a defesa prim\u00e1ria \u00e9 percorrida tanto atrav\u00e9s da busca por sua origem quanto pela diferencia\u00e7\u00e3o entre defesa normal e patol\u00f3gica. Avan\u00e7ando pelo ensino de Lacan, argumenta-se que a defesa diz respeito \u00e0 dor, ao corpo, e como cada um pode se virar com esse encontro. A partir dessa premissa, esse conceito \u00e9 apresentado como orientador na dire\u00e7\u00e3o do tratamento, seja em casos nos quais a forma\u00e7\u00e3o do sintoma se estrutura pelo recalque e \u00e9 pass\u00edvel de decifra\u00e7\u00e3o, permitindo a desmontagem de sentido, seja nos fen\u00f4menos de corpo, como as toxicomanias e anorexias, seja quando a desmontagem da defesa faz emergir a puls\u00e3o encoberta. A constru\u00e7\u00e3o pela defesa prim\u00e1ria permite buscar, por tr\u00e1s das manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas, o sujeito do gozo.<\/p>\n<p><b>Palavras-chave:<\/b>\u00a0defesa; dire\u00e7\u00e3o do tratamento; forma\u00e7\u00e3o de sintomas.<\/p>\n<p><b>A PRIMARY DEFENSE<\/b><\/p>\n<p><b>Abstract<\/b>: The text addresses the importance of the concept of primary defense as the guide of the Freudian-Lacanian clinic.\u202fFreud puts the notion of defense at the foreground in psychoneuroses, and outlines the very conception of the functioning of psychic life,\u202fmarking his opposition to his contemporaries.\u202fSince the text Project for a scientific psychology, the primary defense is covered both through the search for its origin and the\u202fdifferentiation between normal and pathological defense.\u202fAdvancing through Lacan&#8217;s teaching, it is argued that defense concerns pain, the body, and how each one can deal with this encounter.\u202fFrom this premise, this concept is presented as a guide in the direction of treatment,\u202fwhether it is in cases in which the formation of the symptom is structured by the repression and is subject to decryption, allowing the disassembly of meaning\u202fin body phenomena, such as drug addictions and anorexias, or when the disassembly of the defense brings out the covert drive.\u202fThe construction by primary defense allows for finding the subject of jouissance behind the symptomatic manifestations.<\/p>\n<p><b>Keywords:<\/b>\u00a0defense; direction of treatment; symptom formation.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2048\" style=\"width: 464px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS-_CRISTINA_DRUMMOND.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"454\" data-large_image_height=\"605\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2048\" class=\"wp-image-2048\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS-_CRISTINA_DRUMMOND.jpg\" alt=\"\" width=\"372\" height=\"496\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2048\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. S\/T<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>Freud e a defesa prim\u00e1ria<\/i><\/p>\n<p>Ao colocar a no\u00e7\u00e3o de defesa em primeiro plano nas psiconeuroses, Freud delineou a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do funcionamento da vida ps\u00edquica em oposi\u00e7\u00e3o aos pontos de vista de seus contempor\u00e2neos. Para investigar os primeiros usos do termo, vamos voltar \u00e0 histeria e \u00e0s hip\u00f3teses sobre a etiologia das psiconeuroses e ao \u201cProjeto para uma psicologia cient\u00edfica\u201d, escrito por Freud em 1895 em apenas tr\u00eas semanas. Ele faz parte dos rascunhos trocados em sua correspond\u00eancia com Fliess, a qual durou de 1887 a 1902. O projeto ficou inacabado e foi engavetado por Freud, que s\u00f3 voltou a ter contato com o texto em 1937, por interm\u00e9dio da princesa Maria Bonaparte, que o obteve com a compra das cartas Freud\u2013Fliess. O texto s\u00f3 foi publicado em 1950, 11 anos ap\u00f3s a morte de Freud, e ele tornou-se uma refer\u00eancia para o estudo da metapsicologia, pois cont\u00e9m a origem de muitos conceitos.<\/p>\n<p>Apesar de ser um documento neurol\u00f3gico, o projeto mostra o esfor\u00e7o inicial de Freud para compreender a etiologia das neuroses, assim como traz o g\u00e9rmen do que ele vai desenvolver mais tarde. No \u201cProjeto\u201d, Freud se prop\u00f5e a formalizar uma doutrina que tem na mec\u00e2nica newtoniana seus par\u00e2metros cient\u00edficos, buscando uma base org\u00e2nica para as descobertas cl\u00ednicas oriundas dos atendimentos a pacientes com sintomas neur\u00f3ticos graves.<\/p>\n<p>Em seu \u201cProjeto para uma psicologia cient\u00edfica\u201d, Freud aborda o problema da defesa de duas maneiras. Em primeiro lugar, ele procura a origem daquilo que chamou de \u201cdefesa prim\u00e1ria\u201d numa viv\u00eancia de dor. Em segundo lugar, ele procura diferenciar uma defesa normal de uma defesa patol\u00f3gica. A primeira opera no caso da revivesc\u00eancia de uma experi\u00eancia penosa, e o ego j\u00e1 come\u00e7a a diminuir a intensidade do desprazer quando a situa\u00e7\u00e3o se repete.<\/p>\n<p>Na carta do dia 20 de outubro de 1895, Freud, que ainda se encontrava esperan\u00e7oso em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cProjeto\u201d, relata a Fliess de que modo sua psicologia tornara-se clara para ele:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">[&#8230;] as barreiras ergueram-se subitamente, os v\u00e9us ca\u00edram e tudo se tornou transparente \u2014 desde os detalhes das neuroses at\u00e9 os determinantes da consci\u00eancia. Tudo pareceu encaixar-se, as engrenagens se entrosaram e tive a impress\u00e3o de que a coisa passara realmente a ser uma m\u00e1quina que logo funcionaria sozinha. Os tr\u00eas sistemas de neur\u00f4nios; os estados livres e ligados de Qn; os processos prim\u00e1rio e secund\u00e1rio; a tend\u00eancia principal e a tend\u00eancia de compromisso do sistema nervoso; as duas regras biol\u00f3gicas de aten\u00e7\u00e3o e da defesa; as caracter\u00edsticas de qualidade, realidade e pensamento; o estado do grupo psicossexual; a determina\u00e7\u00e3o sexual do recalcamento; e, por fim, os fatores que determinam a consci\u00eancia como fun\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o \u2014 tudo ficou e continua correto at\u00e9 hoje! Naturalmente, mal consigo conter minha alegria (FREUD, 1887\u20131904\/1986, p. 147).<\/p>\n<p>Nessa carta temos um resumo do projeto e ela mostra que Freud queria encaixar o organicismo \u00e0 sua teoria do Inconsciente em forma\u00e7\u00e3o. Na carta que inicia em 8 e continua em 10 de novembro daquele ano, ele diz de sua tristeza pela desist\u00eancia do projeto: \u201cA partir de agora minhas cartas perder\u00e3o muito de seu conte\u00fado. Empacotei os manuscritos psicol\u00f3gicos e os atirei numa gaveta, onde dormir\u00e3o at\u00e9 1896. [&#8230;] Desde que pus a \u03a6\u03a8\u03c9 de lado, sinto-me abatido e desencantado; creio n\u00e3o estar de modo algum \u00e0 altura de suas congratula\u00e7\u00f5es\u201d (FREUD, 1887\u20131904\/1986, p. 151). E a sua pr\u00f3pria avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa d\u00favidas de que ele abre m\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o de superposi\u00e7\u00e3o entre a neurologia e o mecanismo de recalque:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cN\u00e3o entendo mais o estado mental em que maquinei a psicologia; n\u00e3o consigo perceber como posso t\u00ea-lo infligido a voc\u00ea. Creio que voc\u00ea est\u00e1 sendo polido demais; para mim, parece ter sido uma esp\u00e9cie de loucura. A solu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica das duas neuroses provavelmente se manter\u00e1, depois de algumas modifica\u00e7\u00f5es\u201d (FREUD, 1887\u20131904\/1986, p. 153).<\/p>\n<p>A primeira utiliza\u00e7\u00e3o do termo \u201cdefesa\u201d ocorreu no texto \u201cNeuropsicoses de defesa\u201d (1894). Entretanto, antes disso, Freud j\u00e1 buscava compreender esse processo, mesmo que n\u00e3o o tivesse nomeado assim. O estudo das origens das concep\u00e7\u00f5es sobre defesa nos remete \u00e0s suas investiga\u00e7\u00f5es acerca do trauma. Freud afirma que as quantidades de energia com as quais um sujeito tem de lidar colocam o psiquismo em funcionamento, pois, das excita\u00e7\u00f5es que prov\u00eam de fora, o sujeito pode fugir, tal como no modelo do arco-reflexo; mas n\u00e3o pode fugir das excita\u00e7\u00f5es internas, o que acarreta a necessidade de estruturas capazes de dar conta da tramita\u00e7\u00e3o interna e da descarga adequada das quantidades de energia.<\/p>\n<p>Para Freud (1893\/1976, p. 42), a lembran\u00e7a traum\u00e1tica possui a\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e intensa, que n\u00e3o se desgasta com o tempo, pois n\u00e3o houve perda do afeto que est\u00e1 investido nela. O momento que marca o surgimento da doen\u00e7a \u00e9 aquele em que o indiv\u00edduo \u201cse confrontou com uma experi\u00eancia, uma representa\u00e7\u00e3o ou um sentimento que suscitaram um afeto t\u00e3o aflitivo que o sujeito decidiu esquec\u00ea-lo\u201d (p. 55). \u00c9 essa incompatibilidade entre o eu e uma representa\u00e7\u00e3o que torna necess\u00e1ria a \u201cdivis\u00e3o de consci\u00eancia\u201d, ou seja, a cria\u00e7\u00e3o de um segundo grupo ps\u00edquico cujo n\u00facleo \u00e9 recalcado. Nesse momento inicial da concep\u00e7\u00e3o da defesa, esse processo \u00e9 tratado como um ato volunt\u00e1rio de afastar algo tomado como desprazer do psiquismo, e ele n\u00e3o pode ser considerado patol\u00f3gico, j\u00e1 que esse ato de esquecimento intencional \u00e9 bem sucedido para muitas pessoas. Por isso, Freud (1895\/1977) inclui a defesa entre as tend\u00eancias normais do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Para formular o modelo do funcionamento ps\u00edquico, Freud (1895\/1977) prop\u00f5e uma concep\u00e7\u00e3o quantitativa dos processos ps\u00edquicos com duas no\u00e7\u00f5es fundamentais: a de neur\u00f4nio e a de quantidade (Q). A quantidade \u00e9 a energia que circula pelos neur\u00f4nios, podendo ser deslocada e descarregada. A energia transita atrav\u00e9s dos neur\u00f4nios, que s\u00e3o capazes de armazen\u00e1-la. Assim, um neur\u00f4nio pode estar ocupado, com uma quantidade de excita\u00e7\u00e3o, ou desocupado. O sistema nervoso recebe est\u00edmulos do mundo externo. A tend\u00eancia \u00e9 descarregar-se das quantidades de energia que ingressam pela fuga, seguindo o modelo do arco-reflexo. Mas o sistema nervoso recebe tamb\u00e9m est\u00edmulos end\u00f3genos, que precisam ser descarregados, e dos quais o organismo n\u00e3o pode se esquivar. Esses est\u00edmulos criam as grandes necessidades, tais como a fome, a respira\u00e7\u00e3o, a sexualidade. Diante desses est\u00edmulos, o aparelho n\u00e3o pode descarregar toda a quantidade de excita\u00e7\u00e3o presente no neur\u00f4nio, pois \u00e9 necess\u00e1rio que este sustente um ac\u00famulo de Q, em fun\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para p\u00f4r fim a eles. A partir disso, Freud (1895\/1977) diz que a estrutura e o desenvolvimento, assim como as fun\u00e7\u00f5es dos neur\u00f4nios, devem ser compreendidos com base no princ\u00edpio de in\u00e9rcia, que \u00e9 a tend\u00eancia a evacuar as quantidades de energia que recebem do mundo externo, com o objetivo de diminuir a excita\u00e7\u00e3o presente no neur\u00f4nio. Com o fracasso dessa evacua\u00e7\u00e3o, a tend\u00eancia do psiquismo passa a ser manter a energia no n\u00edvel mais baixo poss\u00edvel, o que constitui o princ\u00edpio de const\u00e2ncia.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da vida, devido a seu estado de desamparo, o ser humano n\u00e3o consegue provocar uma a\u00e7\u00e3o capaz de diminuir a tens\u00e3o vinda de excita\u00e7\u00f5es end\u00f3genas. O al\u00edvio da tens\u00e3o s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ado se for eliminado o est\u00edmulo na fonte end\u00f3gena. Nesse momento, o sujeito precisa ser auxiliado por outro, que realize uma a\u00e7\u00e3o para acabar com o estado de tens\u00e3o. Quando isso ocorre, essa a\u00e7\u00e3o diminui a tens\u00e3o interna, produzido uma sensa\u00e7\u00e3o de prazer na consci\u00eancia. Essa a\u00e7\u00e3o \u00e9 independente da Q end\u00f3gena, e Freud a chama de a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, aquela que possibilitar\u00e1 o que Freud denomina viv\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. A viv\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o deixa uma marca e far\u00e1 com que o sujeito, diante de novo estado de tens\u00e3o, queira que essa se repita. \u00c9 pela viv\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o que ser\u00e3o constru\u00eddos os tra\u00e7os mn\u00eamicos. Por meio da viv\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o, devido a um movimento mec\u00e2nico, a not\u00edcia da elimina\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o chegar\u00e1 a outros neur\u00f4nios formando uma trilha preferencial entre neur\u00f4nios que cont\u00eam a imagem mn\u00eamica do objeto da satisfa\u00e7\u00e3o. Quando outra situa\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o ocorrer, a imagem do objeto \u00e9 reinvestida e ocorre algo an\u00e1logo \u00e0 percep\u00e7\u00e3o, ou seja, uma alucina\u00e7\u00e3o. O psiquismo n\u00e3o cont\u00e9m mecanismos internos suficientes para discriminar entre a presen\u00e7a real do objeto da satisfa\u00e7\u00e3o e a alucina\u00e7\u00e3o deste. Assim, torna-se necess\u00e1rio que se adquira um crit\u00e9rio para verificar a presen\u00e7a real do objeto da satisfa\u00e7\u00e3o, a fim de que seja efetuada uma descarga de Q na presen\u00e7a do objeto de desejo, o que efetivamente levaria \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o. Do contr\u00e1rio, diante da alucina\u00e7\u00e3o, a descarga de Q levaria ao desprazer.<\/p>\n<p>Freud (1895\/1977) afirma que as a\u00e7\u00f5es humanas se constituem em duas viv\u00eancias fundamentais: buscar o prazer e evitar a dor. A busca do prazer \u00e9 indicada como viv\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. Tanto na viv\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o quanto na viv\u00eancia de dor, h\u00e1 uma mem\u00f3ria que, em determinadas circunst\u00e2ncias, \u00e9 acionada. Na busca do prazer, a imagem do objeto de satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 reinvestida. No entanto, para que haja de fato uma satisfa\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o, o objeto tem de estar presente. No caso de um objeto causar dor ao psiquismo, h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de desprazer, e esse aumento quantitativo induz a elimina\u00e7\u00e3o da Q para consequente al\u00edvio da tens\u00e3o. Ocorre ainda um trilhamento entre a tend\u00eancia \u00e0 descarga e uma imagem-lembran\u00e7a do objeto que provoca a dor. Se a imagem do objeto hostil \u00e9 reinvestida, surge um estado de desprazer com uma tend\u00eancia \u00e0 descarga. Esse estado n\u00e3o \u00e9 propriamente a dor, mas algo que se assemelha a ela e que Freud chama de afeto. Na recorda\u00e7\u00e3o da dor, h\u00e1 desprazer. O desprazer tem uma origem dupla: no ambiente externo, pelo objeto hostil; internamente, pela recorda\u00e7\u00e3o. Portanto, evitar a dor ter\u00e1 rela\u00e7\u00e3o com o n\u00e3o-investimento da imagem mn\u00eamica do objeto hostil.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que Freud caracteriza como defesa prim\u00e1ria: a desocupa\u00e7\u00e3o da imagem recordativa hostil. A defesa prim\u00e1ria, que \u00e9 acionada no caso da dor, cumpre a fun\u00e7\u00e3o de gerar uma avers\u00e3o a manter investida a imagem mn\u00eamica hostil. Portanto, a consequ\u00eancia da defesa prim\u00e1ria \u00e9 gerar prazer, evitando o desprazer. Freud afirma que, al\u00e9m da defesa prim\u00e1ria, o psiquismo necessita de mecanismos internos para dar conta da insatisfa\u00e7\u00e3o que seria gerada a partir da recorda\u00e7\u00e3o da dor e da catexiza\u00e7\u00e3o da imagem mn\u00eamica do objeto da satisfa\u00e7\u00e3o sem sua presen\u00e7a real. Da\u00ed decorre a import\u00e2ncia, para a estrutura\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, da viv\u00eancia da dor e do estado de desejo. Se n\u00e3o existem estruturas internas capazes de inibir o processo alucinat\u00f3rio no caso da dor, h\u00e1 a gera\u00e7\u00e3o de desprazer. Embora o objeto hostil n\u00e3o esteja presente, o desprazer sentido pela representa\u00e7\u00e3o \u00e9 como se fosse real e externo. Da mesma maneira, a catexiza\u00e7\u00e3o do objeto de desejo nos estados de desejo leva ao desprazer, pois h\u00e1 uma elimina\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o pelos caminhos facilitados, mas n\u00e3o ocorre a satisfa\u00e7\u00e3o, pois o objeto de desejo n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 para propici\u00e1-la. Se a inibi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 tarefa do ego, n\u00e3o se realiza, h\u00e1 naturalmente uma decep\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, o ego \u00e9 um conjunto de neur\u00f4nios que tem por finalidade inibir a descarga da quantidade quando da aus\u00eancia do objeto da satisfa\u00e7\u00e3o. No caso da dor, precisa-se de um signo para a desocupa\u00e7\u00e3o da imagem recordativa hostil. Essa tarefa do ego se d\u00e1 pela inibi\u00e7\u00e3o da descarga de quantidades, pelo processo que Freud denominou de ocupa\u00e7\u00e3o das vias colaterais, que consiste em inibir a descarga da Q pelos caminhos facilitados, desviando-a para os neur\u00f4nios colaterais. Se se conseguir realizar a inibi\u00e7\u00e3o a tempo, n\u00e3o haver\u00e1 libera\u00e7\u00e3o de desprazer. No caso contr\u00e1rio, haver\u00e1 enorme desprazer e defesa prim\u00e1ria excessiva. Esse \u00e9 o papel do ego. A partir da postula\u00e7\u00e3o da inibi\u00e7\u00e3o da descarga feita pelo ego, Freud distingue os processos ps\u00edquicos prim\u00e1rios e os secund\u00e1rios. No processo prim\u00e1rio, o estado de liga\u00e7\u00e3o do ego deixa de ser levado em conta e prevalecem as liga\u00e7\u00f5es associativas criadas pela viv\u00eancia origin\u00e1ria, havendo uma indiferencia\u00e7\u00e3o entre percep\u00e7\u00e3o e alucina\u00e7\u00e3o do objeto. Os processos ps\u00edquicos secund\u00e1rios se d\u00e3o a partir da inibi\u00e7\u00e3o produzida pelo ego. Nesse caso, verifica-se que a defesa prim\u00e1ria \u00e9 menos utilizada nos processos secund\u00e1rios devido \u00e0 inibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A defesa prim\u00e1ria \u00e9 considerada, ao lado da aten\u00e7\u00e3o, regra biol\u00f3gica e definida como um rep\u00fadio a manter investida a imagem mn\u00eamica hostil da dor, isto \u00e9, evitar o desprazer. Contudo, n\u00e3o se podem ignorar as rea\u00e7\u00f5es de adoecimento encontradas em diversos pacientes, que se devem ao esquecimento ocasionado pela \u201cdivis\u00e3o de consci\u00eancia\u201d (1894, p. 57). O que determina uma defesa como tendo um car\u00e1ter patol\u00f3gico \u00e9 o deslocamento. A ideia que causa desprazer \u00e9 esquecida, mas outra representa\u00e7\u00e3o irrompe repetidamente na consci\u00eancia sem motivo evidente e desencadeia o afeto aflitivo (FREUD, 1895\/1977, p. 405-406). Na tentativa de defender-se, o eu se obriga a fazer algo de que n\u00e3o \u00e9 capaz: erradicar o tra\u00e7o mn\u00eamico e o afeto ligado \u00e0 representa\u00e7\u00e3o, \u201cmas uma realiza\u00e7\u00e3o aproximada da tarefa se d\u00e1 quando o eu transforma essa representa\u00e7\u00e3o poderosa numa representa\u00e7\u00e3o fraca, retirando-lhe o afeto do qual est\u00e1 carregada\u201d (FREUD, 1894\/1976, p. 56). Para que a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel se torne verdadeiramente in\u00f3cua, \u00e9 preciso que a soma de excita\u00e7\u00e3o que dela foi desvinculada seja utilizada de alguma forma, seja pela convers\u00e3o, seja pelas falsas liga\u00e7\u00f5es das ideias obsessivas, seja pela libera\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outro tipo de defesa, que, segundo Freud, \u00e9 mais poderosa e mais bem sucedida do que naqueles casos em que a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel \u00e9 separada de seu afeto. Nessa defesa, \u201co eu rejeita a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel juntamente com o seu afeto e se comporta como se a representa\u00e7\u00e3o jamais lhe tivesse ocorrido\u201d (FREUD, 1894\/1976, p. 64). Quando isso acontece, o sujeito fica em um estado de confus\u00e3o alucinat\u00f3ria que pode ser classificado como psicose. Nesse processo de \u201cfuga para a psicose\u201d, o eu rompe com a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel, que est\u00e1 ligada a uma parte da realidade e, dessa forma, ele acaba por romper com a realidade.<\/p>\n<p>Freud (1895\/1977, p. 374) constatou que o recalcamento incide sobretudo sobre as ideias provenientes da vida sexual do sujeito e que despertam no eu um afeto de desprazer. Essas ideias n\u00e3o s\u00e3o realmente extintas. Torna-se necess\u00e1rio que a for\u00e7a recalcadora que atuou no passado continue sua a\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da resist\u00eancia que \u00e9 dirigida contra qualquer pensamento que tenha rela\u00e7\u00e3o com o recalcado. Esse processo \u00e9 regulado pelo eu. Dessa forma, a defesa passa a adquirir um car\u00e1ter cont\u00ednuo, que tem como efeito a resist\u00eancia evidenciada na cl\u00ednica. Ao retomar o tema da determina\u00e7\u00e3o do processo defensivo patol\u00f3gico, Freud (1896) abandona a quest\u00e3o da hereditariedade como causa mais importante das neuroses e defende o papel da sexualidade na causa\u00e7\u00e3o tanto das neuroses atuais quanto das psiconeuroses de defesa, ressaltando que, nestas, o psiquismo assume papel essencial atrav\u00e9s da defesa contra as lembran\u00e7as traum\u00e1ticas de experi\u00eancias sexuais reais ocorridas precocemente.<\/p>\n<p>Tal como Virg\u00ednia Carvalho nos indicou na li\u00e7\u00e3o anterior, Freud separa e mistura os conceitos de defesa e recalque e, apenas no texto \u201cInibi\u00e7\u00e3o, Sintoma e Ang\u00fastia\u201d, ele pode deixar claro que o recalque n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que a defesa e toma o recalque como \u201cum caso especial de defesa\u201d, j\u00e1 que ele visa a prote\u00e7\u00e3o do eu contra as \u201cexig\u00eancias pulsionais\u201d (1925\u20131926\/1976, p. 159).<\/p>\n<p>Carvalho retomou os efeitos do recalque separando afeto de representa\u00e7\u00e3o e seus efeitos de convers\u00e3o na histeria do seu processo em dois tempos, com deslocamento da representa\u00e7\u00e3o na neurose obsessiva. O efeito do recalque \u00e9 o sintoma, mas, nos processos de defesa prim\u00e1ria, nem sempre a resposta \u00e9 a constitui\u00e7\u00e3o de um sintoma, j\u00e1 que o sintoma decifr\u00e1vel \u00e9 um recurso do simb\u00f3lico e ele depende do recalque de um significante.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o conceito de defesa n\u00e3o se restringiria ao simb\u00f3lico, tampouco ao imagin\u00e1rio, j\u00e1 que podemos tamb\u00e9m tomar todo o recurso ao imagin\u00e1rio como uma defesa diante da precariedade e do desamparo do infans. Se a defesa \u00e9 defesa ao real, ao encontro com o real, o imagin\u00e1rio e o simb\u00f3lico se apresentam como maneiras distintas de recobri-lo.<\/p>\n<p>Por isso o conceito de defesa prim\u00e1ria, aquela que antecederia o recalque, nos \u00e9 muito caro, pois ele nos indica que, quando o sujeito n\u00e3o conta com o recurso do sintoma, temos que nos dirigir ao que ele pode construir como defesa diante do primeiro encontro com o real da l\u00edngua, a como a palavra tocou seu corpo. A defesa prim\u00e1ria diz respeito \u00e0 dor, ao corpo e a como cada um pode se virar com esse encontro.<\/p>\n<p><i>Da import\u00e2ncia de retomar o conceito de defesa<\/i><\/p>\n<p>1) A defesa prim\u00e1ria \u00e9 a defesa do real da puls\u00e3o<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, perguntei-me a respeito da import\u00e2ncia de tomarmos o conceito de defesa a partir de um texto que poder\u00edamos dizer ser pr\u00e9-psicanal\u00edtico, j\u00e1 que ele data de cinco anos antes de \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u201d. Nessas li\u00e7\u00f5es introdut\u00f3rias, visamos tratar o conceito de defesa at\u00e9 chegar \u00e0 proposta de Lacan de que a dire\u00e7\u00e3o de um tratamento se orienta pela perturba\u00e7\u00e3o e desmontagem da defesa, o que demanda passar pelos diversos tempos da constru\u00e7\u00e3o desse conceito. Como Virg\u00ednia Carvalho nos trouxe em sua aula anterior, desmontar a defesa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que incide sobre o gozo aut\u00edstico, sobre o gozo do Um. \u00c9 uma formula\u00e7\u00e3o de Lacan de 1976, que extrai do caminho de Freud uma indica\u00e7\u00e3o precisa sobre a dire\u00e7\u00e3o do tratamento, e vamos ter que fazer um grande percurso te\u00f3rico para dar a ela todo o seu valor de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para voc\u00eas terem uma ideia do que vamos buscar construir nesse percurso, sugiro a escuta do v\u00eddeo de Esthela Solano no\u00a0<i>Boletim Punctum 3<\/i><sup><i><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/uma-defesa-primaria#ii\">1<\/a><\/i><\/sup>. Ali ela fala do que Lacan nos indicava como a dire\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise: recuperar um tra\u00e7o de gozo que ex-siste no n\u00edvel do dizer. Ir al\u00e9m do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio para buscar o que uma an\u00e1lise deve visar e que ela chama de um acontecimento de sentido real, aquele que toca o corpo. Se a puls\u00e3o \u00e9 definida como o eco no corpo do fato de que h\u00e1 um dizer, \u00e9 esse n\u00edvel real do pulsional que Lacan buscava tocar para al\u00e9m das palavras que o sujeito enuncia, e, para isso, \u00e9 preciso perturbar a defesa. Perturbar a defesa implica em atrapalhar a homeostase do princ\u00edpio do prazer ao fazer um sujeito falar sobre aquilo para o que ele se mostra menos disposto, isto \u00e9, de suas particularidades sintom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Acho que o exemplo relatado por Silvia Ons (2022), de um caso que ela acompanhou em supervis\u00e3o, nos ajuda a entender melhor a maneira como tomamos a defesa na perspectiva de sua perturba\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma mulher que, quando era crian\u00e7a, ganhou um frasco em forma de fada (<i>hada<\/i>) com granulados dentro. Ela o pede dizendo: \u201cme d\u00e1 o geladinha (<i>heladita<\/i>)?\u201d. Nesse momento ela \u00e9 corrigida. Dizem-lhe: \u201cn\u00e3o \u00e9 a\u00a0<i>heladita<\/i>, \u00e9\u00a0<i>hada<\/i>\u201d. Ela leva a lembran\u00e7a desse equ\u00edvoco para sua an\u00e1lise perguntando-se sobre seu sentido. O analista lhe diz: \u201cvoc\u00ea j\u00e1 sabe o que tem que fazer com isso\u201d, tomando esse equ\u00edvoco como uma jaculat\u00f3ria sem sentido, puro gozo. Mas, numa segunda an\u00e1lise, ao puxar o fio simb\u00f3lico, surge uma cena sexual infantil durante a qual ela fantasiava com uma geladeira e assim, geladinha,\u00a0<i>heladita<\/i>, tem um car\u00e1ter de defesa: esfriar o prazer desse encontro sexual mas, ao mesmo tempo, perpetu\u00e1-lo. Geladinha n\u00e3o \u00e9 apenas uma representa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que \u00e9 tamb\u00e9m sintoma como acontecimento de corpo com suas duas caras: defesa diante do gozo e mem\u00f3ria inapag\u00e1vel de seu encontro. Como castigo por seu erotismo infantil, ela imaginava que iriam tranc\u00e1-la em uma geladeira, padecendo de uma rinite cr\u00f4nica e estando sempre resfriada. Seu ceticismo diante da exist\u00eancia, seu constante pessimismo, sua recusa em admitir que os acontecimentos pudessem ser distintos daquilo que ela imaginava, indicam como o\u00a0<i>heladita<\/i>\u00a0\u00e9 tamb\u00e9m esse saber g\u00e9lido que a acompanhava e mortificava. Isso indica que, para se perturbar a defesa, \u00e9 preciso esgotar o sentido que ela encerra.<\/p>\n<p>2) Quando o sujeito n\u00e3o conta com um sintoma<\/p>\n<p>Em segundo lugar, tomar o conceito de defesa tem uma grande import\u00e2ncia na orienta\u00e7\u00e3o do tratamento psicanal\u00edtico nos casos em que as defesas n\u00e3o est\u00e3o estruturadas a partir do recalque e dos sintomas pass\u00edveis de serem decifrados pelo simb\u00f3lico. \u00c9 um fato constat\u00e1vel que a psican\u00e1lise muda e que nos defrontamos em nossa atualidade com uma ordem simb\u00f3lica e com um real distintos daqueles do final do s\u00e9culo 19. Se a l\u00edngua que habitamos muda, os sintomas e os fen\u00f4menos de gozo tamb\u00e9m mudam. Cabe ao analista lidar com a subjetividade de sua \u00e9poca, mas isso n\u00e3o nos leva a querer ser atuais e conformes a nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p>Ainda que a maneira de interpretar tenha mudado, buscamos fazer valer os princ\u00edpios l\u00f3gicos que orientam nossa pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, que \u00e9 sens\u00edvel ao mestre de nossa \u00e9poca, mas eles devem ser entendidos a partir da maneira pela qual Lacan nos ensinou a ler Freud. Tal como diz Max Jacob, o verdadeiro \u00e9 sempre novo, e essa me parece ser a boa maneira de retornar a Freud naquilo que ele nos indica como insuper\u00e1vel. Lacan (1977) nos assinala o esp\u00edrito com o qual devemos retornar a esses primeiros textos em sua \u201cAbertura da sess\u00e3o cl\u00ednica\u201d, em que ele nos diz que o analista tem que apresentar suas raz\u00f5es, at\u00e9 mesmo no mais ocasional de sua pr\u00e1tica, e tamb\u00e9m tem que justificar a raz\u00e3o de Freud ter existido.<\/p>\n<p>Freud n\u00e3o manteve as mesmas ideias em rela\u00e7\u00e3o ao conceito de defesa e, durante sua obra, introduziu mudan\u00e7as em sua teoria de acordo com as quest\u00f5es que foram suscitadas pela experi\u00eancia do real de sua cl\u00ednica. A teoriza\u00e7\u00e3o do conceito de defesa tem grande import\u00e2ncia cl\u00ednica, na medida em que foram as resist\u00eancias, entendidas em um primeiro momento como reflexos cl\u00ednicos da defesa, que mobilizaram as mudan\u00e7as na t\u00e9cnica e as reformula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas em torno da concep\u00e7\u00e3o do tratamento das neuroses. O conceito de defesa foi apropriado de forma equivocada por diversos psicanalistas, o que gerou um tipo de pr\u00e1tica baseada na an\u00e1lise das resist\u00eancias do eu, tendo como alvo o fortalecimento das defesas. \u00c9 o vi\u00e9s da psican\u00e1lise tomada como a an\u00e1lise dos mecanismos de defesa que foi muito trabalhado por Anna Freud, segundo a qual tudo o que concorre para dificultar o processo anal\u00edtico seria da ordem de uma resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa \u00eanfase dos p\u00f3s-freudianos nos mecanismos de defesa e na an\u00e1lise das resist\u00eancias \u00e9 um ponto importante na distin\u00e7\u00e3o de nossa orienta\u00e7\u00e3o lacaniana e da maneira pela qual tomamos os tratamentos. Isso torna o entendimento do conceito de defesa ainda mais essencial para fundamentarmos os princ\u00edpios l\u00f3gicos de nossa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Retomar os caminhos desse conceito tamb\u00e9m nos leva a promover as maneiras iniciais de Freud e tom\u00e1-lo como uma defesa prim\u00e1ria, que seria distinta do recalque. Esse retomar das primeiras observa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas de Freud se articula ao interesse pelas v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas da contemporaneidade que se apresentam na cl\u00ednica do narcisismo, assim como naquela da compulsividade desregulada e da descarga por meio das diversas atua\u00e7\u00f5es. Essas respostas n\u00e3o s\u00e3o constru\u00eddas de modo sintom\u00e1tico, n\u00e3o s\u00e3o constru\u00eddas a partir do recalque, e pensar sua organiza\u00e7\u00e3o a partir da defesa prim\u00e1ria pode nos ajudar na abordagem desses fen\u00f4menos. Penso aqui na distin\u00e7\u00e3o entre fen\u00f4menos de corpo e acontecimento de corpo como respostas distintas que exigem modos distintos de tratamento e que talvez possamos articular com o conceito de defesa prim\u00e1ria tal como Freud o pensou no in\u00edcio de seu percurso. Se as neuroses t\u00edpicas se fundam pelo recalque, outros sintomas, tais como a anorexia, as toxicomanias, obesidades e outros fen\u00f4menos de corpo, podem ser iluminados em sua articula\u00e7\u00e3o com as defesas prim\u00e1rias.<\/p>\n<p>3) Quando a defesa se desmonta e surge a puls\u00e3o que a encobria<\/p>\n<p>Penso que tamb\u00e9m seria importante pensar no que nos ensinam alguns casos em que as defesas s\u00e3o desmontadas a partir de um encontro com o real. Elas nos elucidam a respeito da fun\u00e7\u00e3o da defesa e de como as puls\u00f5es se apresentam a partir da desmontagem desse recurso. Vou tomar um exemplo que se aproxima daqueles relatados por Lacan sob o t\u00edtulo de pervers\u00e3o transit\u00f3ria, pervers\u00e3o reativa diante de um impasse no simb\u00f3lico, no qual a desmontagem da fantasia faz aparecer uma resposta da puls\u00e3o separada da defesa.<\/p>\n<p>Trata-se de um caso relatado pela analista italiana Laura Storti em uma confer\u00eancia proferida na sess\u00e3o cl\u00ednica de NUCEP em janeiro de 2022, um caso de psican\u00e1lise aplicada atendido no laborat\u00f3rio de homens que cometeram viol\u00eancia contra mulheres e menores, em um servi\u00e7o localizado em Roma. Storti se refere a um homem de 58 anos que foi atendido durante um ano no \u00e2mbito desse laborat\u00f3rio. O servi\u00e7o social o encaminhou buscando um especialista em pedofilia e ningu\u00e9m tinha se colocado \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para tal tratamento. Ele havia ficado um ano na pris\u00e3o e, depois, alguns dias em pris\u00e3o domiciliar enquanto esperava uma senten\u00e7a definitiva. Foi condenado por tentativa de viol\u00eancia contra duas menores e por possuir material pornogr\u00e1fico infantil. No primeiro encontro, ele coloca sobre a mesa da analista os v\u00e1rios documentos judiciais e conta que o incidente ocorreu em um s\u00f3t\u00e3o de um edif\u00edcio residencial onde ele fazia servi\u00e7os de inspe\u00e7\u00e3o. Diz que n\u00e3o fez nenhum tipo de viol\u00eancia contra as meninas, que s\u00f3 se masturbou na frente delas. Dois policiais o prendem um m\u00eas depois e um deles lhe pergunta se ele tinha material de pornografia infantil. Ele diz que sim e entrega espontaneamente o material. Essa admiss\u00e3o foi a causa de sua pris\u00e3o. Ele n\u00e3o entende como chegou a essa situa\u00e7\u00e3o e diz que \u00e9 um homem justo, um homem casado, pai de duas filhas e av\u00f4 de duas netas e que \u00e0s vezes duvidava se tinha sido ele mesmo que havia feito isso. Passa por uma situa\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a na pris\u00e3o e diz que os tratavam assim. Ao ser perguntado a quem ele se referia, ele sussurra: ped\u00f3filos. Tem ins\u00f4nia, fica confuso e muito angustiado. Na pris\u00e3o, o guarda com um olhar perturbador lhe disse que ele deveria morrer. A perda de trabalho como eletricista e vagabundeio na internet o fizeram colecionar as imagens. Primeiro buscou trabalho na internet e, depois, imagens de mulheres, e, \u00e0 medida que seguia sua busca, o computador lhe perguntava se queria mulheres mais jovens. Come\u00e7aram a chegar imagens de meninas. De in\u00edcio, se masturbava, mas depois, n\u00e3o mais. Ele n\u00e3o conseguia entender o que acontecera, pois sempre gostara de mulheres. Quando a analista lhe pergunta se n\u00e3o se interessava nem em sua fantasia, ele se mostra confuso. Ele catalogou as imagens. Fala que a m\u00e3e era muito religiosa e r\u00edgida. Ele era o mais novo dos filhos e a m\u00e3e separava os meninos das meninas. O pai sempre estava fora de casa, trabalhando. Traz uma lembran\u00e7a infantil: aos seis anos est\u00e1 em uma festa na sua casa e beija uma menina. A m\u00e3e entra pela porta e diz \u00e0 menina que n\u00e3o volte \u00e0 sua casa e bate muito no filho. Ele se pergunta se essa lembran\u00e7a teria algo a ver com o que aconteceu com ele, j\u00e1 que ela tinha a mesma idade das meninas diante das quais ele se masturbou. Ele diz que, ao ver as meninas no marco da porta, algo fez click nele. Ele se pergunta pelo prazer em olhar as mulheres e as meninas, mas tamb\u00e9m pelo prazer em ser visto pelas meninas. Disse que talvez tenha feito isso para poder parar. Havia ali o olhar da m\u00e3e e o do guarda da pris\u00e3o. Foi uma apresenta\u00e7\u00e3o da cena fantasm\u00e1tica que o levou \u00e0 atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Creio que o conceito de defesa prim\u00e1ria \u00e9 aquele que nos permite nos orientar na leitura desse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o, fazendo-nos buscar, por tr\u00e1s delas, o sujeito do gozo, aquele que a defesa encobriu.<\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335551550&quot;:6,&quot;335551620&quot;:6,&quot;335559738&quot;:120,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:360}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><b>Refer\u00eancias<\/b><\/h6>\n<h6>FREUD, S (1895). Projeto para uma psicologia cient\u00edfica.\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>. Rio de Janeiro: Imago, v. I, 1977.<\/h6>\n<h6>FREUD, S (1887-1904).\u00a0<b>A correspond\u00eancia completa de Sigmund Freud para Wilhelm Fliess<\/b>. Rio de Janeiro: Imago, 1986.<\/h6>\n<h6>FREUD, S (1894). As neuropsicoses de defesa.\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>. Rio de Janeiro: Imago, v. III, 1976.<\/h6>\n<h6>FREUD, S (1893). Sobre o mecanismo ps\u00edquico dos fen\u00f4menos hist\u00e9ricos: uma confer\u00eancia.\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>. Rio de Janeiro: Imago, v. III, 1976.<\/h6>\n<h6>FREUD, S (1925\u20131926). Inibi\u00e7\u00e3o, Sintoma e ansiedade.\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>. Rio de Janeiro: Imago, v. XX. 1976.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Ouverture de la Section Clinique.\u00a0<b>Ornicar?<\/b>\u00a0n. 9, 1977, p. 7-14.<\/h6>\n<h6>ONS, S. Sobre el sentido.\u00a0<b>El psicoan\u00e1lisis l\u00edquido y s\u00f3lido<\/b>. Buenos Aires: Grama ed., 2022.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><span class=\"TextRun SCXW30016458 BCX8\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"none\"><span class=\"NormalTextRun SCXW30016458 BCX8\" data-ccp-parastyle=\"endnote text\"><span class=\"TextRun BlobObject DragDrop SCXW237400256 BCX8\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"Superscript SCXW237400256 BCX8\" data-fontsize=\"9\"><a id=\"ii\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/uma-defesa-primaria#ref2\">1.<\/a><\/span><\/span><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/uma-defesa-primaria#ref2\"><span class=\"TextRun SCXW237400256 BCX8\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SCXW237400256 BCX8\" data-ccp-parastyle=\"endnote text\">\u00a0<\/span><\/span><span class=\"TextRun SCXW237400256 BCX8\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"none\"><span class=\"NormalTextRun SCXW237400256 BCX8\" data-ccp-parastyle=\"endnote text\">Dispon\u00edvel no YouTube:\u00a0<\/span><\/span><span class=\"TextRun Underlined SCXW237400256 BCX8\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"none\"><span class=\"NormalTextRun SCXW237400256 BCX8\" data-ccp-parastyle=\"endnote text\">https:\/\/youtu.be\/V7wMlwYXXg0<\/span><\/span><span class=\"TextRun SCXW237400256 BCX8\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"none\"><span class=\"NormalTextRun SCXW237400256 BCX8\" data-ccp-parastyle=\"endnote text\">\u00a0Acesso em 13 nov.2022<\/span><\/span><\/a><span class=\"EOP SCXW237400256 BCX8\" data-ccp-props=\"{&quot;201341983&quot;:0,&quot;335559739&quot;:0,&quot;335559740&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristina Drummond AME da EBP\/AMP paixao.bhe@terra.com.br &nbsp; Resumo:\u00a0O texto aborda a import\u00e2ncia do conceito de defesa prim\u00e1ria como norteador da cl\u00ednica freudo-lacaniana. Freud situa a no\u00e7\u00e3o de defesa em primeiro plano nas psiconeuroses e delineia a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do funcionamento da vida ps\u00edquica, marcando sua oposi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos seus contempor\u00e2neos. Desde o texto \u201cProjeto&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57758,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-2047","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2047","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2047"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2047\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57760,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2047\/revisions\/57760"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57758"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}