{"id":2052,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2052"},"modified":"2025-12-01T12:04:45","modified_gmt":"2025-12-01T15:04:45","slug":"defender-se-de-uma-incompatibilidade-na-vida-representativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/defender-se-de-uma-incompatibilidade-na-vida-representativa\/","title":{"rendered":"Defender-se de\u00a0uma incompatibilidade na vida representativa"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Virg\u00ednia Carvalho<\/strong><br \/>\nPsicanalista, membro da EBP\/AMP, doutora<br \/>\ne mestre em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG.<br \/>\n<a href=\"mailto:virginiacarvalhopsicanalise@gmail.com\">virginiacarvalhopsicanalise@gmail.com<\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>\n<strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A autora trabalha a no\u00e7\u00e3o lacaniana de \u201cdes-montar\u201d (<i>d\u00e9ranger<\/i>) a defesa a partir de uma releitura dos textos de Freud &#8220;As neuropsicoses de defesa&#8221; (1894) e &#8220;Observa\u00e7\u00f5es adicionais sobre as neuropsicoses de defesa&#8221; (1896), nos quais localiza a \u201cincompatibilidade na vida representativa\u201d como o ponto chave do qual o sujeito se defende, indicando algumas perspectivas cl\u00ednicas dessa concep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Palavras-chave:\u00a0<\/b>Defesa; cl\u00ednica psicanal\u00edtica; puls\u00e3o.<\/p>\n<p><b>TO\u00a0<\/b><b>DEFEND FROM AN INCOMPATIBILITY IN A REPRESENTATIVE<\/b><b>\u00a0LIFE<\/b><br \/>\n<b>Abstract:\u00a0<\/b>The author works with the Lacanian notion of \u201cdis-assembling\u201d (<i>d\u00e9ranger<\/i>) the defense, based on a reading of the Freud&#8217;s texts\u00a0<i>The neuropsychoses of defense<\/i>\u00a0(1894), and\u00a0<i>Additional observations on the neuropsychoses of defense<\/i>\u00a0(1896), in which she localizes the \u201cincompatibility in representative life\u201d as the key point from which the subject defends himself. She also indicates some clinical perspectives of this notion.<\/p>\n<p><b>Keywords:\u00a0<\/b>Defense; psychoanalytic clinic; drive.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_2053\" style=\"width: 1664px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS_-__VIRGNIA_CARVALHO.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1654\" data-large_image_height=\"2323\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2053\" class=\"wp-image-2053\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/PRELDIOS_-__VIRGNIA_CARVALHO-729x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"572\" height=\"803\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2053\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA.\u00a0SHEILA NAJIG<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na 58\u00aa edi\u00e7\u00e3o das\u00a0<i>Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise<\/i>, propusemos o desafio de ler Freud a partir da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana de que des-montar a defesa \u00e9 o \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d, a matriz mesma da opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica (MILLER, 2020, p. 36). O termo utilizado por Lacan \u00e9\u00a0<i>d\u00e9range<\/i>, que optamos por traduzir como desmontar, desordenar. Tamb\u00e9m inclu\u00edmos um h\u00edfen no des-montar para real\u00e7ar a ideia de que h\u00e1 uma nova montagem a ser feita, uma vez que n\u00e3o se elimina a defesa. Essa \u201cdes-montagem\u201d parece se aproximar do que vemos no trabalho\u00a0<i>Disassembled\/Things come apart<\/i>, do fot\u00f3grafo Todd McLellan (2013). O artista desmonta alguns objetos e faz desses objetos desmontados uma bela e interessante nova montagem. As fotos encontram-se dispon\u00edveis em seu site.<\/p>\n<p>Ler Freud com Lacan, Lacan com Freud e Miller fazendo a costura: eis nossa metodologia de trabalho. Mas \u00e9 preciso fazer isso sem apagar a complexidade do texto freudiano. Em seu semin\u00e1rio sobre as psicoses, o\u00a0<i>Semin\u00e1rio 3\u00a0<\/i>(1955-1956), Lacan nos orienta nesse desafio que \u00e9 ler Freud:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cs\u00f3 mesmo ele [Freud] \u00e9 que, em vida, tenha preparado os conceitos originais necess\u00e1rios a atacar e ordenar o campo novo em que descobria. Esses conceitos, ele os prepara cada um com um mundo de quest\u00f5es. O que h\u00e1 de interessante em Freud \u00e9 que ele n\u00e3o as dissimula, essas quest\u00f5es. Cada um de seus textos \u00e9 um texto problem\u00e1tico, de tal modo que ler Freud \u00e9 reabrir as quest\u00f5es\u201d (LACAN, 1955-1956\/1995, p. 128).<\/p>\n<p><i>Com-texto<\/i><\/p>\n<p>Centrar-nos-emos sobre dois textos cuja temporalidade remonta a um tempo anterior ao que Freud localiza como o da \u201cpsican\u00e1lise propriamente dita\u201d (1925\/1996): &#8220;As neuropsicoses de defesa&#8221; (FREUD, 1894\/1996) e &#8220;Observa\u00e7\u00f5es adicionais sobre as neuropsicoses de defesa&#8221; (FREUD, 1896\/1996). Ambos s\u00e3o anteriores ao abandono por Freud da teoria da sedu\u00e7\u00e3o, ou seja, ele ainda acreditava que a experi\u00eancia traum\u00e1tica da qual seus pacientes lhe falavam referia-se a reminisc\u00eancias de epis\u00f3dios de abuso ocorridos na inf\u00e2ncia, algum tipo de sedu\u00e7\u00e3o por um adulto. \u00c9 somente tr\u00eas anos ap\u00f3s esses textos que Freud escreve a Fliess sua &#8220;Carta 69&#8221; (1892-1899\/1996), dizendo que n\u00e3o acreditava mais em sua neur\u00f3tica.<\/p>\n<p>Em 1897, duas quest\u00f5es o atordoavam: por que ainda n\u00e3o havia sido poss\u00edvel levar uma an\u00e1lise \u00e0 sua conclus\u00e3o real e exitosa?, ser\u00e1 que todos os pais s\u00e3o perversos e abusam de suas filhas? Como resposta, Freud se deparou com o papel \u201cextraordinariamente grande desempenhado na vida mental dos neur\u00f3ticos pelas atividades da fantasia\u201d (FREUD, 1924\/2016). Isso o fez constatar o \u201cerro\u201d que cometia ao privilegiar a sedu\u00e7\u00e3o como um fato e, ao mesmo tempo, permitiu-lhe sustentar ainda mais a ideia de que, no psiquismo humano, existe uma inst\u00e2ncia em que a verdade e a fic\u00e7\u00e3o coexistem lado a lado (FREUD, 1892-1899\/1996), o inconsciente.<\/p>\n<p>Em 1925, ao revisitar a cena do abandono da teoria da sedu\u00e7\u00e3o, conclui que tal abandono implicava em reconhecer que \u201cos sintomas neur\u00f3ticos n\u00e3o estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos, e que, no tocante \u00e0 neurose, a realidade ps\u00edquica era de maior import\u00e2ncia que a realidade efetiva\u201d (FREUD, 1925\/1996, p. 29). Isso nos leva \u00e0 ideia que vem sendo trabalhada por Miller a respeito de que, em Freud, tudo \u00e9 sonho e que todo mundo \u00e9 louco \u2014 mas n\u00e3o nos apressemos com isso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m conv\u00e9m lembrar que, quando escreveu &#8220;Neuropsicoses de defesa&#8221; (FREUD, 1894\/1996), ele ainda n\u00e3o dispunha de uma teoria consistente do recalque \u2014 o que se consolidou melhor em sua metapsicologia, em 1915, quando o relaciona ao \u201cpilar sobre o qual repousa o edif\u00edcio da psican\u00e1lise\u201d (FREUD, 1915\/2010), mas que ele localiza ainda mais no texto sobre &#8220;Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia&#8221; (FREUD, 1926\/1996), que ser\u00e1 posteriormente trabalhado aqui. Tamb\u00e9m n\u00e3o havia formulado suas constata\u00e7\u00f5es acerca da puls\u00e3o de morte, o que vai acontecer em 1920, n\u00e3o sem antes questionar de diversas formas sua maneira de formalizar o conceito de puls\u00e3o.<\/p>\n<p>Inicialmente, Freud (1910\/1996) considerava que havia dois grupos distintos de puls\u00e3o. Um que estava a servi\u00e7o da autoconserva\u00e7\u00e3o, que nomeou de puls\u00f5es do Eu, e outro que serviria \u00e0s demandas sexuais. Esse primeiro dualismo pulsional ancorava suas bases no poeta Schiller, que acreditava que \u201cfome e amor\u201d moviam as engrenagens do mundo. Em &#8220;A perturba\u00e7\u00e3o psicog\u00eanica da vis\u00e3o&#8221; (1910\/1996), Freud nos d\u00e1 algumas imagens para compreendermos como uma mesma fonte poderia obedecer \u00e0s duas correntes pulsionais. Diz Freud:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA boca serve tanto para beijar como para comer e para falar; os olhos percebem n\u00e3o s\u00f3 altera\u00e7\u00f5es no mundo externo, que s\u00e3o importantes para a preserva\u00e7\u00e3o da vida, como tamb\u00e9m as caracter\u00edsticas dos objetos que os fazem ser escolhidos como objetos de amor \u2014 seus encantos\u201d (FREUD, 1910\/1996, p. 201).<\/p>\n<p>Segundo Freud nos indica em sua confer\u00eancia sobre &#8220;Ang\u00fastia e vida pulsional&#8221; (1932\/1996), quando come\u00e7a a estudar o Eu e se aprofunda no conceito de narcisismo, \u201ca distin\u00e7\u00e3o entre puls\u00e3o do Eu e sexual perde o sentido\u201d, j\u00e1 que o Eu \u00e9 sempre o principal reservat\u00f3rio da libido. Nesse momento, abrem-se algumas perguntas para ele sobre um tipo de puls\u00e3o bastante destrutiva, que revela uma propens\u00e3o a restaurar uma situa\u00e7\u00e3o anterior, um retorno ao inorg\u00e2nico: uma \u201cestranha puls\u00e3o que se volta para a destrui\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria morada org\u00e2nica essencial\u201d (FREUD, 1932\/1996). Desse modo, a hip\u00f3tese de Freud passa a ser a de que existiriam duas classes de puls\u00e3o: \u201cas puls\u00f5es sexuais, compreendidas no sentido mais amplo \u2014 Eros, se preferem esse nome \u2014, e as puls\u00f5es agressivas, cuja finalidade \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o\u201d (1932\/1996, p. 129). A ideia freudiana de que vida e morte se mesclam no processo de viver e que as puls\u00f5es de morte estariam amalgamadas \u00e0s de vida permitiu a Lacan (1964\/1998) considerar que a puls\u00e3o \u00e9 puls\u00e3o de morte e que a puls\u00e3o de vida j\u00e1 seria um tratamento dado \u00e0 puls\u00e3o.<\/p>\n<p>A puls\u00e3o \u00e9 considerada por Lacan (1964\/1998) um dos mais importantes conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Segundo a metapsicologia de Freud (1915\/2016), elas podem ser consideradas \u201cuma medida da exig\u00eancia de trabalho imposta ao an\u00edmico, em decorr\u00eancia de sua rela\u00e7\u00e3o com o corporal\u201d (p. 25). Por isso \u00e9 um \u201cconceito fronteiri\u00e7o entre o an\u00edmico e o som\u00e1tico\u201d (FREUD, 1915\/2016, p. 25). Ela \u00e9 uma press\u00e3o (<i>drang<\/i>) constante, da qual n\u00e3o se pode fugir, e que tem como meta a satisfa\u00e7\u00e3o. Como esta implicaria numa suspens\u00e3o do est\u00edmulo corporal, e isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, a puls\u00e3o insiste como demanda. Sua fonte \u00e9 corporal, mas seu objeto \u00e9 o que h\u00e1 de mais vari\u00e1vel, pois n\u00e3o est\u00e1 nunca atrelado a ela. \u00c9 sempre um objeto faltoso, pois ser\u00e1 sempre um substituto, o que est\u00e1 escrito por Freud, nos &#8220;Tr\u00eas ensaios sobre a sexualidade&#8221;, do seguinte modo: \u201co encontro do objeto \u00e9, na verdade, um reencontro\u201d (1905\/1996, p. 210). Lacan (1964\/1998) a configura como uma montagem surrealista, tal como um sujeito ac\u00e9falo, sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A puls\u00e3o n\u00e3o pode ser satisfeita nem eliminada, no entanto, pode sofrer alguns destinos. Freud (1915\/2016) enumerou quatro: 1) revers\u00e3o em seu oposto, que seria a mudan\u00e7a da finalidade da puls\u00e3o, como a mudan\u00e7a de atividade para passividade; 2) retorno em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria pessoa; 3) sublima\u00e7\u00e3o, que consiste na modifica\u00e7\u00e3o da finalidade sexual da puls\u00e3o para uma finalidade n\u00e3o sexual e tamb\u00e9m em uma inibi\u00e7\u00e3o do alvo, sem restri\u00e7\u00e3o da intensidade; e o 4) recalque, que consiste na separa\u00e7\u00e3o entre a ideia e o afeto que a acompanha, mantendo a ideia afastada da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O recalque ganhou um texto pr\u00f3prio, e, nesse, Freud (1915\/2010) o articula \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos sintomas, sendo estes \u00faltimos seus derivados. Indica que \u00e9 o recalque origin\u00e1rio (<i>Urverdrangung<\/i>) o respons\u00e1vel pela divis\u00e3o entre os sistemas pr\u00e9-consciente\/consciente e inconsciente e que esse primeiro recalque consiste em negar o acesso do representante pulsional \u00e0 consci\u00eancia, atrav\u00e9s de um \u201ccontrainvestimento\u201d (1915\/2016). O recalque propriamente dito \u00e9 o que vai cuidar de sua continuidade e funciona mantendo uma ideia afastada da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas o recalque \u00e9 a defesa? Freud\u00a0 os separa e os mistura, chegando a localizar, no texto &#8220;Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia&#8221; (1926\/1996), que o recalque n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que a defesa, classificando o recalque como \u201cum caso especial de defesa\u201d, pois a defesa seria algo \u201cque pode abranger todos os processos que tenham a mesma finalidade \u2014 a saber, a prote\u00e7\u00e3o do eu contra as exig\u00eancias\u201d pulsionais (p. 159). Miller (2020) nos ajuda a entender a ideia de que a defesa n\u00e3o se equivale ao recalque. Enquanto o recalque incide sobre o significante, separando a ideia do afeto, a defesa n\u00e3o recairia sobre um significante. Ela qualifica, j\u00e1 em Freud, \u201cuma rela\u00e7\u00e3o com a puls\u00e3o\u201d (MILLER, 2020, p. 52). A defesa \u00e9 defesa ao real. Falarei sobre isso depois.<\/p>\n<p>Feito esse com-texto freudiano, podemos agora retornar aos textos de 1894 e 1896 para entendermos melhor o que Freud chama de \u201cincompatibilidade na vida representativa\u201d e nos permitirmos, ainda hoje, cento e vinte seis anos ap\u00f3s, a aprender com Freud sem nos apressarmos tanto para chegar ao ultim\u00edssimo Miller.<\/p>\n<p><i>A incompatibilidade representativa<\/i><\/p>\n<p>Adentremos, ent\u00e3o, em &#8220;As neuropsicoses de defesa&#8221;, cujo subt\u00edtulo \u00e9 &#8220;tentativa de formula\u00e7\u00e3o de uma teoria da histeria adquirida, de muitas fobias e obsess\u00f5es e de certas psicoses alucinat\u00f3rias&#8221; (FREUD, 1894\/1996). Isso nos d\u00e1 uma orienta\u00e7\u00e3o sobre o rumo que Freud imprime a esse texto: h\u00e1 algo comum entre a neurose hist\u00e9rica, a neurose obsessiva, a fobia e a psicose. Embora circunscreva esse ponto em comum, em nenhum momento Freud iguala essas categorias, borrando suas diferen\u00e7as. N\u00e3o faz uma despatologiza\u00e7\u00e3o, como a que tem ocorrido em nossa cultura e que Miller (2022) vem apontando como uma \u201cigualdade\u201d que acaba por apagar a cl\u00ednica, dando lugar a uma substitui\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios cl\u00ednicos por princ\u00edpios jur\u00eddicos, j\u00e1 que tudo passa a se relacionar a estilos de vida. N\u00e3o sei se voc\u00eas estariam de acordo, mas me pareceu que, nesse texto de Freud (1894\/1996), fica evidente seu esfor\u00e7o, com os recursos que tem naquele momento, para dar lugar \u00e0 loucura de cada um.<\/p>\n<p>Leio a quest\u00e3o central desses textos da seguinte maneira: \u201ccomo algu\u00e9m pode n\u00e3o se defender?\u201d. Isso me faz lembrar a pergunta feita por Lacan em seu\u00a0<i>Semin\u00e1rio 23<\/i>\u00a0(1975-1976\/2007), a prop\u00f3sito do paciente que relatava sofrer de \u201cfalas impostas\u201d, dizendo-se afetado pela telepatia, de modo que todo mundo era avisado de suas reflex\u00f5es. O \u201ctelepata emissor\u201d havia tentado se matar, tamanho sofrimento na experi\u00eancia desses fen\u00f4menos elementares. Joyce tamb\u00e9m vivenciava essa sensa\u00e7\u00e3o de \u201cpalavras impostas\u201d, uma vez que sua rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com as palavras evidencia o modo como as \u201cexperimenta como algo estranho, heterog\u00eaneo, \u2018imposto\u2019, que n\u00e3o vai por si\u201d (MANDIL, 2003, p. 249). Joyce produz um anteparo ao car\u00e1ter excessivamente vivo da linguagem, desarticulando-a. Mas, para fazer tal desarticula\u00e7\u00e3o, ele preserva a letra, mantendo sua escrita em ingl\u00eas (MANDIL, 2003). Lacan (1975-1976\/2007) destaca que a escrita deu um tratamento \u00e0 dimens\u00e3o parasita que est\u00e1 presente para todo\u00a0<i>falasser<\/i>: \u201ca quest\u00e3o \u00e9 antes saber por que um homem dito normal n\u00e3o percebe que a fala \u00e9 um parasita, que a fala \u00e9 uma excresc\u00eancia, que a fala \u00e9 a forma de c\u00e2ncer pela qual o ser humano \u00e9 afligido\u201d (p. 92).<\/p>\n<p>Em Freud (1894\/1996), ao buscar em sua experi\u00eancia cl\u00ednica alguma resposta, indica:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cEsses pacientes que analisei, portanto, gozaram de boa sa\u00fade mental at\u00e9 o momento em que\u00a0<i>houve uma ocorr\u00eancia de incompatibilidade em sua vida representativa<\/i>\u00a0\u2014 isto \u00e9, at\u00e9 que seu eu se confrontou com uma experi\u00eancia, uma representa\u00e7\u00e3o ou um sentimento que suscitaram um afeto t\u00e3o aflitivo que o sujeito decidiu esquec\u00ea-lo, pois n\u00e3o confiava em sua capacidade de resolver a contradi\u00e7\u00e3o entre a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel e seu eu por meio da atividade de pensamento\u201d (p. 55).<\/p>\n<p>Luiz Hanns, em seu\u00a0<i>Dicion\u00e1rio comentado do alem\u00e3o de Freud<\/i>\u00a0(1996), se dedica ao termo\u00a0<i>unvertr\u00e4glich<\/i>\u00a0(p. 277). Quer dizer inassimil\u00e1vel, indigesto (faz mal \u00e0 sa\u00fade), inconcili\u00e1vel, intrat\u00e1vel e aponta para uma impossibilidade de coexist\u00eancia. Hanns (1996) concorda com a tradu\u00e7\u00e3o de \u201cincompat\u00edvel\u201d presente na Imago, mas aponta que, com ela, \u201cperde-se a ideia de uma incompatibilidade visceral, bem como a no\u00e7\u00e3o de que se trata de uma impossibilidade de coexist\u00eancia\u201d (p. 281). Interessante nos perguntarmos sobre o que seria essa \u201crepresenta\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel\u201d de que Freud tanto fala. Estar\u00edamos a\u00ed no terreno que Lacan nos ensinou a ler como o registro do real?<\/p>\n<p>Freud (1894\/1996) lembra que seus pacientes hist\u00e9ricos \u201cconseguem recordar com toda precis\u00e3o desej\u00e1vel seus esfor\u00e7os defensivos, sua inten\u00e7\u00e3o de \u2018expulsar aquilo para longe\u2019, de n\u00e3o pensar no assunto, de suprimi-lo\u201d (p. 55). Como faz Elizabeth Von R., que se culpava por pensar em um rapaz que lhe causara uma \u201cleve impress\u00e3o er\u00f3tica\u201d justamente no momento de cuidar de seu pai enfermo, ou Miss Lucy, ao experimentar um sentimento de paix\u00e3o por seu patr\u00e3o. Indico a voc\u00eas retomar os casos trabalhados por Freud em seus &#8220;Estudos sobre a histeria&#8221; (1893-1895\/2016), texto que se encontra no segundo volume das Obras Completas.<\/p>\n<p>Em &#8220;As neuropsicoses de defesa&#8221; (1894\/1996), Freud ressalta que o fato de nos defendermos n\u00e3o \u00e9 patol\u00f3gico. Os sintomas que levam os sujeitos a procurar uma an\u00e1lise surgem, ao contr\u00e1rio, quando a defesa n\u00e3o funciona: quando \u201cesse tipo de esquecimento n\u00e3o funcionou\u201d (FREUD, 1894\/1996, p. 55). Quando a defesa n\u00e3o \u00e9 eficaz, h\u00e1 uma s\u00e9rie de rea\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>O eu se imp\u00f5e uma tarefa, em sua atitude defensiva, de tratar a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel como \u201c<i>non-arriv\u00e9<\/i>\u201d, como se ela n\u00e3o tivesse chegado. Mas o que ocorre \u00e9 que \u201ctanto o tra\u00e7o mn\u00eamico quanto o afeto ligado \u00e0 representa\u00e7\u00e3o l\u00e1 est\u00e3o de uma vez por todas e n\u00e3o podem ser erradicados\u201d (FREUD, 1894\/1996, p. 56). O eu promove, ent\u00e3o, uma transforma\u00e7\u00e3o dessa representa\u00e7\u00e3o poderosa numa representa\u00e7\u00e3o fraca, retirando-lhe o afeto. Separa-se, portanto, o afeto e a ideia, o que Freud mais adiante vai formalizar como sendo o mecanismo do recalque.<\/p>\n<p>O afeto que resta livre precisa ser utilizado de alguma forma, e, nesse texto de 1894, Freud localiza que histeria, fobia e neurose obsessiva se encontram nesse modo de funcionar, mas n\u00e3o de forma semelhante. Embora todos eles tentem se defender da \u201crepresenta\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel\u201d, a maneira como fazem com esse afeto livre \u00e9 distinta. Vejamos essa distin\u00e7\u00e3o t\u00e3o cl\u00ednica que Freud nos apresenta.<\/p>\n<p>Na histeria, esse afeto se converte em algo som\u00e1tico. Como ocorre com Miss Lucy, que procura Freud com uma \u201crinite supurativa cronicamente recorrente\u201d, aparentemente derivada de uma c\u00e1rie no osso etmoide, mas que persistia sem que seu colega cl\u00ednico pudesse continuar atribuindo o problema \u201ca uma afec\u00e7\u00e3o local\u201d (FREUD, 1893-1895\/2016, p. 134). Ela havia perdido todo o sentido do olfato e \u201cera quase continuamente perseguida por uma ou duas sensa\u00e7\u00f5es olfativas subjetivas, que lhe eram muito aflitivas. Al\u00e9m disso, estava desanimada e fatigada e se queixava de peso na cabe\u00e7a, pouco apetite e perda de efici\u00eancia\u201d (FREUD, 1893-1895\/2016, p. 134).<\/p>\n<p>Ela constantemente sentia um cheiro perturbador de pudim queimado, sintoma que foi \u201co ponto de partida da an\u00e1lise\u201d. Nessa, Miss Lucy trouxe \u00e0 luz a primeira lembran\u00e7a desse cheiro, e os desdobramentos do caso mostram que Freud tentava localizar nesse momento algo que pudesse lev\u00e1-lo \u00e0 representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel. Nos &#8220;Estudos sobre a histeria&#8221;, vemos o movimento de Freud (1893-1895\/2016) de tentar levantar a barreira imposta pelo recalque. Miss Lucy havia chegado \u00e0 ideia de que sua paix\u00e3o pelo patr\u00e3o era sua fonte de sofrimento, e isso tornou desnecess\u00e1rio o sintoma de sentir cheiro de pudim queimado, por\u00e9m, abriu caminho para um deslocamento, passando a experimentar um outro odor: o de fuma\u00e7a de charuto. Freud (1893-1895\/2016) relata n\u00e3o ter ficado \u201cmuito satisfeito com os resultados do tratamento\u201d. Em suas palavras: \u201ceu apenas eliminara um sintoma s\u00f3 para que seu lugar fosse ocupado por outro\u201d (FREUD, 1893-1895\/2016, p. 145). Ele segue ainda o caminho do segundo odor, tentando liberar mais lembran\u00e7as traum\u00e1ticas, e chega a uma cena que sup\u00f5e ter desencadeado os sintomas. Trata-se de um momento em que o patr\u00e3o havia gritado com ela sem que ela fosse respons\u00e1vel pela situa\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o, o que, em sua concep\u00e7\u00e3o, evidenciava sua aus\u00eancia de sentimentos ternos para com ela. Ao chegarem a essa cena, uma lembran\u00e7a aflitiva, ela se libera dos sofrimentos que ensejaram o in\u00edcio da an\u00e1lise, que durou nove semanas.<\/p>\n<p>Voltando ao texto que estamos trabalhando, Freud (1894\/1996) acreditava que, se na histeria esse afeto livre se transp\u00f5e para \u201cenormes somas de excita\u00e7\u00e3o para a inerva\u00e7\u00e3o som\u00e1tica\u201d, na neurose obsessiva haveria uma car\u00eancia na \u201captid\u00e3o para a convers\u00e3o\u201d (p. 59). N\u00e3o obstante, os sujeitos parecem tamb\u00e9m \u201crecha\u00e7ar uma representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel\u201d. Quando tal representa\u00e7\u00e3o \u00e9 separada de seu afeto, ele fica obrigado a permanecer na esfera ps\u00edquica. Como est\u00e1 livre, \u201cliga-se a outras representa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis em si mesmas, e gra\u00e7as a essa \u2018falsa liga\u00e7\u00e3o\u2019 tais representa\u00e7\u00f5es se transformam em representa\u00e7\u00f5es obsessivas\u201d (FREUD, 1894\/1996, p. 59).<\/p>\n<p>No caso do Homem dos Ratos, de 1909, isso fica muito evidente. Vale muito a pena a retomada desse caso, que se encontra no volume X, no texto intitulado &#8220;Nota sobre um caso de neurose obsessiva&#8221;. Trata-se de um jovem senhor de forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria que se apresenta a Freud (1909\/1996) com obsess\u00f5es que o acompanham desde a inf\u00e2ncia e que se intensificaram nos \u00faltimos quatro anos. O caso tem como cen\u00e1rio os ratos (<i>Ratten<\/i>), que tomam relevo a partir do relato de um castigo feito pelo capit\u00e3o \u201ccruel\u201d quando prestava o servi\u00e7o militar. Tal castigo consistia em amarrar o criminoso e introduzir ratos dentro de suas n\u00e1degas. Esse relato se transforma em ideia obsessiva, produzindo sintomas que se referem ao termo:\u00a0<i>Ratten<\/i>\u00a0(ratos),\u00a0<i>Spielratten\u00a0<\/i>(ratos de jogo),\u00a0<i>Raten<\/i>\u00a0(presta\u00e7\u00f5es, pagamentos),\u00a0<i>Heiraten<\/i>\u00a0(casamentos, acasalamentos). Para Freud (1909\/1996), no final das contas, o que se coloca \u00e9 uma quest\u00e3o sobre sua pr\u00f3pria exist\u00eancia como rato, por ver no animal uma \u201cimagem viva de si mesmo\u201d (p. 188).<\/p>\n<p>No in\u00edcio de seu tratamento, o paciente relata a Freud sobre o epis\u00f3dio da morte de seu pai, que ocorreu exatamente no momento em que ele havia se deitado para descansar, enquanto o acompanhava por ocasi\u00e3o da doen\u00e7a no pulm\u00e3o. Soube, pela enfermeira, que o pai o havia chamado, o que aumentou ainda mais sua recrimina\u00e7\u00e3o: \u201cpassara a tratar a si pr\u00f3prio como criminoso\u201d (FREUD, 1909\/1996, p. 156). No caso do Homem dos Ratos, o rato foi o objeto erotizado. \u00c9 o que faz com que esse sujeito inclua os ratos em sua economia, o que pode ser visto na associa\u00e7\u00e3o que faz entre \u201ctantos ratos, tantos florins\u201d (LACAN, 1962-1963\/2005, p. 250).<\/p>\n<p>Para Freud (1894\/1996), \u201ca obsess\u00e3o \u00e9, em primeiro lugar, a fonte do afeto agora colocado numa falsa liga\u00e7\u00e3o\u201d (p. 59). O paciente chega se queixando de suas obsess\u00f5es, mas o afeto ligado a uma determinada ideia parece estar desalojado e transposto.<\/p>\n<p>No caso de uma substitui\u00e7\u00e3o da qualidade do afeto, estamos no terreno da fobia: a ang\u00fastia liberada cuja origem sexual n\u00e3o deva ser lembrada pelo paciente ir\u00e1 apoderar-se das fobias prim\u00e1rias comuns da esp\u00e9cie humana, relacionadas com animais, tempestades, escurid\u00e3o, e assim por diante, ou de coisas inequivocamente associadas, de um modo ou de outro, com o que \u00e9 sexual \u2014 tais como a mic\u00e7\u00e3o, a defeca\u00e7\u00e3o ou, de um modo geral, a sujeira e o cont\u00e1gio. Podemos aqui fazer refer\u00eancia a Hans e sua fobia de cavalos, caso que se encontra no volume XVII sob o t\u00edtulo &#8220;Hist\u00f3ria de uma neurose infantil&#8221; (FREUD, 1909\/1996).<\/p>\n<p>Em &#8220;Neuropsicoses de defesa&#8221;, Freud (1894\/1996) lembra que, embora sejam distintas as maneiras de lidar com o afeto liberado da representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel recalcada, \u201cem todas as situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 a vida sexual o que desperta o afeto aflitivo\u201d.<\/p>\n<p>Mas, e a psicose? Considero que esses dois textos com os quais estamos trabalhando nos trazem luzes importantes para o trabalho com a psicose, mesmo que sejam ainda muito incipientes e que Freud ainda n\u00e3o tenha localizado a diferencia\u00e7\u00e3o entre a defesa e o recalque. Vejamos o que ele escreve:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201ca defesa contra a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel [na neurose] foi efetuada separando-a de seu afeto; a representa\u00e7\u00e3o em si permaneceu na consci\u00eancia, ainda que enfraquecida e isolada. H\u00e1, entretanto, uma esp\u00e9cie de defesa muito mais poderosa e bem-sucedida. Nela o eu rejeita a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel juntamente com seu afeto e se comporta como se a representa\u00e7\u00e3o jamais lhe tivesse ocorrido. Mas, a partir do momento em que isso \u00e9 conseguido, o sujeito fica numa psicose que s\u00f3 pode ser qualificada como \u2018confus\u00e3o alucinat\u00f3ria\u2019\u201d (FREUD, 1894\/1996, p. 64).<\/p>\n<p>Vemos como Freud, j\u00e1 em 1894, aponta para a rejei\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel na psicose, o que Lacan ir\u00e1 trabalhar a partir de sua concep\u00e7\u00e3o de foraclus\u00e3o, que pode ser lida no\u00a0<i>Semin\u00e1rio 3\u00a0<\/i>(LACAN, 1955-1956\/1995).<\/p>\n<p>Interessante o fragmento cl\u00ednico, trazido por Freud (1894\/1996), da mo\u00e7a que experimentava sua paix\u00e3o por um homem e que acreditava, de modo erot\u00f4mano, que ele tamb\u00e9m a amava, e que, diante da recusa deste, vive a chegada do seu amor como um sonho. Freud (1894\/1996) lembra que ali \u201co eu recha\u00e7ou a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel atrav\u00e9s de uma fuga para a psicose\u201d (p. 65). Ele<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201crompe com a representa\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel; esta por\u00e9m, fica inseparavelmente ligada a um fragmento da realidade, de modo que, \u00e0 medida que o eu obt\u00e9m esse resultado, tamb\u00e9m ele se desliga total e parcialmente da realidade. [&#8230;] Assim, quando a defesa consegue ser levada a termo, ele se encontra num estado de confus\u00e3o alucinat\u00f3ria\u201d (FREUD, 1894\/1996, p. 65).<\/p>\n<p>Freud (1894\/1996) conclui o texto com a ideia de que h\u00e1 \u201ctr\u00eas m\u00e9todos de defesa\u201d (p. 66) e podemos convidar Lacan e Miller para essa conversa, mas n\u00e3o sem antes percorrermos suas &#8220;Observa\u00e7\u00f5es adicionais \u00e0s neuropsicoses de defesa&#8221;, texto de 1896 que nos traz ainda mais elementos. Neste, ele afirma que a defesa \u00e9 \u201co ponto nuclear no mecanismo ps\u00edquico\u201d tanto da histeria como da neurose obsessiva e da psicose alucinat\u00f3ria (FREUD, 1896\/1996).<\/p>\n<p>Ele vai tentando explicar a neurose e a psicose a partir do tra\u00e7o mn\u00eamico deixado por perturba\u00e7\u00f5es sexuais vividas antes do advento da maturidade. Na neurose hist\u00e9rica, o afeto vinculado \u00e0 experi\u00eancia seria colocado no corpo, enquanto, na neurose obsessiva, se deslocaria para outra ideia. Para ele,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201ca natureza da neurose obsessiva pode ser expressa numa f\u00f3rmula simples. As ideias obsessivas s\u00e3o, invariavelmente, auto-acusa\u00e7\u00f5es transformadas que reemergiram do recalcamento e que sempre se relacionam com algum ato sexual praticado com prazer na inf\u00e2ncia\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 169).<\/p>\n<p>O sujeito recalca e substitui a lembran\u00e7a dessas a\u00e7\u00f5es prazerosas por \u201cum sintoma prim\u00e1rio de defesa\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 169). A conscienciosidade, a vergonha e a autodesconfian\u00e7a s\u00e3o sintomas dessa esp\u00e9cie, que d\u00e3o in\u00edcio a um per\u00edodo de aparente sa\u00fade mas que, na realidade, apontam para uma defesa bem-sucedida.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cO per\u00edodo seguinte, o da doen\u00e7a, \u00e9 caracterizado pelo retorno das lembran\u00e7as recalcadas \u2014 isto \u00e9, pelo fracasso da defesa\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 169). Esse fracasso leva a forma\u00e7\u00f5es de compromisso entre as representa\u00e7\u00f5es recalcadas e as recalcadoras; os sintomas. Ele usa um termo interessante, apontando que se trata de um \u201ccolapso da defesa\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 171).<\/p>\n<p>Nesse texto bastante cl\u00ednico, Freud (1896\/1996) mostra algumas estrat\u00e9gias da neurose obsessiva. Considero que nos auxilia grandemente na cl\u00ednica porque nos ajuda a entender que os sintomas dos quais o obsessivo se queixa no in\u00edcio do tratamento n\u00e3o s\u00e3o a causa de seu sofrimento, mas sim sua maneira de se defender dele. Ou seja, a d\u00favida, a compuls\u00e3o, a autoacusa\u00e7\u00e3o, a rumina\u00e7\u00e3o, as medidas penitenciais, a vergonha, a hipocondria, as medidas de prote\u00e7\u00e3o e de colecionar objetos, assim como a busca incessante por assegurar \u201co entorpecimento da mente\u201d s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de uma defesa secund\u00e1ria, diante do colapso da defesa prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>Diferentemente da neurose, na paranoia a defesa \u00e9 muito bem sucedida, da\u00ed Freud (1896\/1996) a considera uma psicose de defesa. Ao mesmo tempo, ele indica que no desencadeamento psic\u00f3tico haveria um total fracasso da defesa:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cEm vista do que se sabe da paranoia al\u00e9m disso, inclino-me a supor que h\u00e1 um gradual comprometimento das resist\u00eancias que enfraquecem as auto-acusa\u00e7\u00f5es, de modo que, por fim, a defesa fracassa por completo e a auto-acusa\u00e7\u00e3o original, o termo real do insulto de que o sujeito vinha tentando poupar-se, retorna em sua forma inalterada\u201d (FREUD, 1984\/1996, p. 181).<\/p>\n<p>Mais tarde, ele indica que o que foi abolido do simb\u00f3lico retorna no real.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cParte dos sintomas prov\u00e9m da defesa prim\u00e1ria \u2014 a saber, todas as representa\u00e7\u00f5es delirantes caracterizadas pela desconfian\u00e7a e pela suspeita e relacionadas \u00e0 representa\u00e7\u00e3o de persegui\u00e7\u00e3o por outrem\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 182).<\/p>\n<p>Outra passagem interessante \u00e9 quando ele diz que \u201cnenhuma defesa pode valer contra os sintomas de retorno aos quais, como sabemos, liga-se uma cren\u00e7a\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 183). Parece-me que podemos extrair algumas consequ\u00eancias dessa frase quando estivermos nos dedicando a desenvolver algo sobre o del\u00edrio.<\/p>\n<p>Na paranoia, a autoacusa\u00e7\u00e3o \u00e9 defendida pela proje\u00e7\u00e3o, ou seja, a desconfian\u00e7a passa a ser de outras pessoas: \u201co sujeito deixa de reconhecer a autoacusa\u00e7\u00e3o; e como que para compensar isso, fica privado de prote\u00e7\u00e3o contra as autoacusa\u00e7\u00f5es que retornam em suas representa\u00e7\u00f5es delirantes\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 182). Essas autoacusa\u00e7\u00f5es retornam sob a forma de pensamentos ditos em voz alta. As representa\u00e7\u00f5es delirantes que chegam \u00e0 consci\u00eancia atrav\u00e9s de uma forma\u00e7\u00e3o de compromisso (os sintomas de retorno) \u201cfazem exig\u00eancias \u00e0 atividade de pensamento do eu, at\u00e9 que possam ser aceitos sem contradi\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 183). Assim, o que corresponde aos sintomas de defesa secund\u00e1ria na neurose obsessiva, na psicose se faz como uma forma\u00e7\u00e3o delirante combinat\u00f3ria: \u201cdel\u00edrios interpretativos que terminam por uma altera\u00e7\u00e3o no eu\u201d (FREUD, 1896\/1996, p. 183).<\/p>\n<p>Esse desenvolvimento \u00e9 realizado por Freud a partir do caso da Sra. P. e evidencia uma certa confus\u00e3o entre a paranoia e a esquizofrenia, ponto que tamb\u00e9m no texto anterior se verifica. Digo isso pela nota que ele apresenta em 1924, refor\u00e7ando que se trata de um caso de\u00a0<i>dementia paranoides<\/i>.<\/p>\n<p>A Sra. P., caracterizada por Freud (1894\/1996) como \u201cuma mulher inteligente\u201d, levava \u201cuma vida saud\u00e1vel\u201d em seus \u00faltimos anos at\u00e9 que o nascimento de seu filho \u201cmostrou os primeiros sinais de sua atual enfermidade\u201d (p. 175). Ela tornou-se pouco comunicativa e desconfiada, acreditando que as pessoas a estavam menosprezando, o que, pouco tempo depois, se transformou numa queixa de que as pessoas liam seus pensamentos e sabiam tudo o que ocorria em sua casa. Isso era transposto a seu corpo e a sensa\u00e7\u00e3o que ela experimentava em seu baixo abdome era atribu\u00edda \u00e0 certeza de que sua criada, com quem estava a s\u00f3s, havia tido uma \u201cideia impr\u00f3pria\u201d (FREUD, 1894\/1996, p. 175). Sentia seus \u00f3rg\u00e3os genitais \u201ccomo se sente uma m\u00e3o pesada\u201d e come\u00e7ou a ver coisas que a horrorizavam, como alucina\u00e7\u00f5es de mulheres nuas e genit\u00e1lias femininas e masculinas. Essas imagens a aterrorizavam porque ela tamb\u00e9m sentia seu corpo exposto. Come\u00e7ou a ser importunada por vozes que a censuravam e passou a n\u00e3o mais querer sair de casa e n\u00e3o se alimentar.<\/p>\n<p>Com Freud, a Sra. P. p\u00f4de percorrer algumas cenas infantis, entre elas, uma em que se despia sem nenhuma vergonha na frente de outras crian\u00e7as, o que leva Freud a considerar que haveria algo por a\u00ed. Mas \u201ca depress\u00e3o da paciente come\u00e7ou na \u00e9poca de uma discuss\u00e3o entre seu marido e seu irm\u00e3o, em consequ\u00eancia da qual este passou a n\u00e3o mais frequentar sua casa\u201d (FREUD, 1894\/1996, p. 178). Ele n\u00e3o d\u00e1 muitos elementos sobre esse ponto, mas traz uma nova cena em que sua cunhada a visitara e lhe dissera que \u201cem toda fam\u00edlia acontecem coisas sobre as quais eu gostaria de p\u00f4r uma pedra. Mas quando uma coisa desse tipo acontece comigo, eu a trato com descaso\u201d (FREUD, 1894\/1996, p. 178). O significante \u201cdescaso\u201d havia impregnado o del\u00edrio de P. Seria interessante sabermos mais sobre onde entra o beb\u00ea de P. nessa hist\u00f3ria, mas Freud n\u00e3o nos deu elementos a esse respeito, mesmo tendo localizado que o desencadeamento ocorreu ap\u00f3s o nascimento da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>No texto que estamos trabalhando, de 1894, Freud afirma que pode reproduzir com sua paciente \u201cv\u00e1rias cenas de seu relacionamento sexual com o irm\u00e3o\u201d e, nessas revivesc\u00eancias, seu corpo \u201cparticipou da conversa\u201d, o que nos aponta algo sobre a import\u00e2ncia do atendimento presencial. Para ele, \u201cdepois de percorrermos essa s\u00e9rie de cenas, as sensa\u00e7\u00f5es e imagens alucinat\u00f3rias desapareceram e (ao menos at\u00e9 o presente) n\u00e3o retornaram\u201d (FREUD, 1894\/1996, p. 179). N\u00e3o deixem de ler as notas de rodap\u00e9 escritas por Freud. Elas nos mostram, tal como a arte de Todd McLellan (2013), que h\u00e1 algo que se monta e se des-monta, formando novas montagens. Arranjos e desarranjos.<\/p>\n<p><i>Des-montar a defesa<\/i><\/p>\n<p>O desenvolvimento de Freud nos leva \u00e0 ideia de que a defesa \u00e9 algo basal que est\u00e1 presente tanto na neurose como na psicose e que \u00e9 defesa ao sexual, ou \u00e0 puls\u00e3o, como ele ir\u00e1 trabalhar mais adiante. Em um texto intitulado &#8220;Cl\u00ednica ir\u00f4nica&#8221;, de 1988, que voc\u00eas encontram publicado no livro\u00a0<i>Matemas I\u00a0<\/i>(1996), Miller indica que nos defendemos do real e que \u201ctodos os nossos discursos n\u00e3o passam de defesas contra o real\u201d (p. 190). Lembra que, para Lacan, a cl\u00ednica psicanal\u00edtica \u00e9 \u201co real como o imposs\u00edvel de suportar\u201d. Nesse sentido, as formas cl\u00ednicas n\u00e3o passam de modos de defesa, at\u00e9 mesmo \u201cno caso limite dito esquizofr\u00eanico, onde o sujeito aparece sem defesa diante do imposs\u00edvel de suportar\u201d (MILLER, 1996, p. 198).<\/p>\n<p>Miller (1996) considera que \u201co del\u00edrio \u00e9 universal porque os homens falam e porque h\u00e1 linguagem para eles. Eis, ent\u00e3o, o a-b-c ao qual se volta: a linguagem [o Outro] tem como tal, efeito de aniquilamento\u201d (p. 192). Anteriormente, trabalhamos com a ideia de que n\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 um Outro que diga o verdadeiro sobre o verdadeiro. Para falar com Guimar\u00e3es Rosa (1956\/2019), \u201cmente pouco quem a verdade toda diz\u201d. Nesse sentido, Miller (1996) prop\u00f5e que nossa cl\u00ednica seja ir\u00f4nica, ou seja, fundada sobre a inexist\u00eancia do Outro como defesa contra o real (a neurose tenta fazer existir o Outro, ao pre\u00e7o de um apagamento subjetivo; na psicose, o Outro n\u00e3o est\u00e1 separado do gozo).<\/p>\n<p>Dez anos ap\u00f3s, em seu curso sobre\u00a0<i>A experi\u00eancia do real na cura psicanal\u00edtica<\/i>, Miller (2014) afirma que \u201cna psican\u00e1lise se trata do real e da defesa contra este\u201d. Mas, o que \u00e9 o real? Milner (2006) nos ajuda na defini\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas registros, real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio, do qual depende a estrutura\u00e7\u00e3o da realidade:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cexistem tr\u00eas suposi\u00e7\u00f5es. A primeira, ou melhor, uma delas, pois j\u00e1 \u00e9 demais por ordem nisso, por mais arbitr\u00e1ria que seja, \u00e9 que h\u00e1: proposi\u00e7\u00e3o t\u00e9tica que s\u00f3 tem por conte\u00fado sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o \u2014 um gesto de corte, sem o qual n\u00e3o h\u00e1 nada que exista. Chamaremos isso de real ou R. Outra suposi\u00e7\u00e3o, dita simb\u00f3lica ou S, \u00e9 que\u00a0<i>h\u00e1 al\u00edngua<\/i>, suposi\u00e7\u00e3o sem a qual nada, e singularmente nenhuma suposi\u00e7\u00e3o, poderia ser dita. Uma outra suposi\u00e7\u00e3o, enfim, \u00e9 que\u00a0<i>h\u00e1 semelhante,\u00a0<\/i>na qual se institui tudo o que constitui la\u00e7o: \u00e9 o imagin\u00e1rio ou I\u201d (p. 7).<\/p>\n<p><a id=\"ref1\"><\/a>Para Lacan (1975-1976\/2007), o real \u00e9 o imposs\u00edvel porque \u201c\u00e9 sem lei\u201d e \u201cn\u00e3o tem ordem\u201d<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/defender-se-de-uma-incompatibilidade-na-vida-representativa#i\">1<\/a><\/sup>\u00a0(p. 133). Exatamente por isso, para que o homem possa,\u00a0<i>talvez<\/i>, \u201creencontrar alguma coisa que seja da ordem do real\u201d (LACAN, 1975-1976\/2007, p. 120), \u00e9 necess\u00e1rio se colocar no lugar de lixo, o que significa dispensar o sentido. Quanto mais tenta apreender o real pelo sentido, mais longe est\u00e1 dele.<\/p>\n<p>Miller (2012) ressalta que o real psicanal\u00edtico \u00e9 desprovido de sentido e n\u00e3o corresponde a nenhum querer-dizer. Ele n\u00e3o \u00e9 \u201cum cosmo, n\u00e3o \u00e9 um mundo, nem uma ordem; \u00e9 um peda\u00e7o, um fragmento assistem\u00e1tico porque separado do saber ficcional\u201d (MILLER, 2012, n.p.). O real \u00e9 o que se produz no choque pulsional do encontro do significante com o corpo. O real inventado por Lacan n\u00e3o \u00e9 o real da ci\u00eancia. \u00c9 um real ao acaso, contingente, na medida em que falta a lei natural da rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. O sentido escapa a esse real e, quando h\u00e1 doa\u00e7\u00e3o de sentido, ela ocorre atrav\u00e9s da elucubra\u00e7\u00e3o da fantasia. Favret, ao se perguntar sobre\u00a0<i>O que ilumina o passe no Ultim\u00edssimo ensino de Lacan?\u00a0<\/i>(2014), prop\u00f5e que, no final de uma an\u00e1lise, trata-se de como cada um tenta se aproximar de um ponto, de um peda\u00e7o de real, apesar de sua opacidade.<\/p>\n<p>Frente ao real, nos defendemos. A defesa, segundo Miller (2014), qualifica a rela\u00e7\u00e3o inaugural do sujeito com o real. \u201cA abordagem do real se inscreve em primeiro lugar em termos de defesa, e n\u00e3o de apetite, harmonia ou c\u00e1lculo\u201d (MILLER, 2014, p. 51). Miller (2012) indica que, \u201cpara entrar no s\u00e9culo XXI, nossa cl\u00ednica dever\u00e1 se concentrar em desmontar a defesa, desordenar a defesa contra o real\u201d. Em uma an\u00e1lise, o inconsciente transferencial \u00e9 uma \u201cdefesa contra o real\u201d, ou seja, uma tentativa de fazer o Outro existir. Isso ocorre porque, \u201cno inconsciente transferencial, continua vigente uma inten\u00e7\u00e3o, um querer dizer, um querer que me seja dito algo\u201d (MILLER, 2012). Isso n\u00e3o ocorre no inconsciente real, que n\u00e3o \u00e9 intencional, apenas \u201c\u00e9\u201d. Isso abriria para mais outra pesquisa que encontraria sua ancoragem no &#8220;Pref\u00e1cio para Edi\u00e7\u00e3o Inglesa do<i>\u00a0Semin\u00e1rio 11<\/i>&#8221; (LACAN, 1976\/2003).<\/p>\n<p>Essa indica\u00e7\u00e3o de que nossa cl\u00ednica precisa \u201cdes-montar a defesa\u201d prov\u00e9m da afirma\u00e7\u00e3o lacaniana, em seu\u00a0<i>Semin\u00e1rio, livro 24: l\u2019insu que sait de l\u2019une-bevue s\u2019aile a mourre\u00a0<\/i>(LACAN, 1976-1977), de que o\u00a0<i>falasser<\/i>\u00a0fala sozinho e sempre a mesma coisa, a n\u00e3o ser que se abra para falar com um psicanalista e receba deste algo que desordena, desarranja (<i>d\u00e9range<\/i>) sua defesa (LACAN, 1976-1977). Gueguen (2014) prop\u00f5e a utiliza\u00e7\u00e3o do termo \u201cdesmontagem da defesa\u201d em detrimento da express\u00e3o \u201cperturbar a defesa\u201d, pois, para ele, \u201ca desmontagem da defesa sup\u00f5e que uma outra constru\u00e7\u00e3o venha no lugar do que foi esvaziado\u201d (p.103). Nos testemunhos de passe vemos essa des-montagem, assim como buscamos fazer nas constru\u00e7\u00f5es de casos cl\u00ednicos. \u00c9 tamb\u00e9m essa nossa aposta de leitura ao texto freudiano: des-mont\u00e1-lo e nos permitir sermos tocados por ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><b>Refer\u00eancias<\/b><\/h6>\n<h6>FAVRET, A. O que ilumina o passe no Ultim\u00edssimo ensino de Lacan? [Podcast].\u00a0<b>R\u00e1dio Lacan<\/b>, 2014. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.radiolacan.com\/pt\/topic\/156\/3\">http:\/\/www.radiolacan.com\/pt\/topic\/156\/3<\/a>. Acesso em: 02 de jan. 2023.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1892-1899). Extratos dos documentos dirigidos a Fliess. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>, v. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1893-1895). Estudos sobre a histeria. In<i>:\u00a0<\/i><b>Obras Completas de Sigmund Freud.<\/b>\u00a0S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1896). Observa\u00e7\u00f5es adicionais sobre as neuropsicoses de defesa. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1905). Fragmento da an\u00e1lise de um caso de histeria e Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>, v. 7. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1909). Duas hist\u00f3rias cl\u00ednicas: o &#8220;Pequeno Hans&#8221; e o&#8221; Homem dos ratos&#8221;. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>, v. 17. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1910). A concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica da perturba\u00e7\u00e3o psicog\u00eanica da vis\u00e3o. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>, v. 11. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1915). A repress\u00e3o. In<i>:\u00a0<\/i><b>Obras Completas de Sigmund Freud.<\/b>\u00a0S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1915). As puls\u00f5es e seus destinos. In<i>:\u00a0<\/i><b>Puls\u00f5es (Obras Incompletas de Sigmund Freud).<\/b>\u00a0Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1920). Al\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>, v. 18. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1924). A perda da realidade na neurose e na psicose. In:\u00a0<b>Neurose, Psicose, Pervers\u00e3o. Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/b><i>.<\/i>\u00a0Belo Horizonte: Ed. Aut\u00eantica, 2016.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1925). Estudo autobiogr\u00e1fico. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>, v. 20. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1926). Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ansiedade. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>, v. 20. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1932) Confer\u00eancia XXXII: Ansiedade e vida instintual. In:\u00a0<b>Edi\u00e7\u00e3o standard brasileira das obras psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/b>, v. 22. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>GUEGUEN, P-G. Defesa (desmontar a). In:\u00a0<b>Um real para o s\u00e9culo XXI<\/b><i>.\u00a0<\/i>Belo Horizonte: Scriptum, 2014.<\/h6>\n<h6>HANNS, L.\u00a0<b>Dicion\u00e1rio comentado do alem\u00e3o de Freud<\/b><i>.\u00a0<\/i>Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1955-1956).\u00a0<b>O Semin\u00e1rio livro 3: as psicoses<\/b>. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962-1963).\u00a0<b>O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/b>. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964).\u00a0<b>O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/b>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1976). Pref\u00e1cio \u00e0 Edi\u00e7\u00e3o Inglesa do Semin\u00e1rio 11. In:\u00a0<b>Outros Escritos<\/b><i>.<\/i>\u00a0Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976).\u00a0<b>O Semin\u00e1rio: livro 23: O Sinthome<\/b>. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1976-1977).\u00a0<b>Le s\u00e9minaire, livre XXIV: L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vues\u2019aile \u00e0 mourre<\/b>. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>MANDIL, R. A.\u00a0<b>Os efeitos da letra: Lacan leitor de Joyce.<\/b>\u00a0Belo Horizonte: Contracapa, 2003.<\/h6>\n<h6>MCLELLAN, T.\u00a0<b>Things Come Apart: A Teardown Manual for Modern Living Hardcover.\u00a0<\/b>London: Thames &amp; Hudson, 2013.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Cl\u00ednica ir\u00f4nica. In:\u00a0<b>Matemas I.<\/b>\u00a0Rio de Janeiro: Zahar, 1996.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. O real no s\u00e9culo XXI.\u00a0<b>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/b>, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, n. 63, p. 11-20, 2012.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<b>La\u00a0<\/b><b>Experiencia de Lo Real en la Cura Psicoanal\u00edtica.\u00a0<\/b>Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Perturbar la defensa. In:\u00a0<b>La experi\u00eancia de lo real en la cura psicoanalitica<\/b><i>.<\/i>\u00a0Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2020.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<b>Todo el mundo es loco<\/b>. In\u00e9dito. 2022.<\/h6>\n<h6>MILNER, J. C.\u00a0<b>Os nomes indistintos<\/b>. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2006.<\/h6>\n<h6>ROSA, G. (1956).\u00a0<b>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/b>. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2019.<\/h6>\n<h6>SANTIAGO, J. (2022).\u00a0<b>A escrita real no passe n\u00e3o \u00e9 autofic\u00e7\u00e3o<\/b><i>.\u00a0<\/i>In\u00e9dito<i>.<\/i><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a id=\"i\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/defender-se-de-uma-incompatibilidade-na-vida-representativa#ref1\">1.\u00a0Vemos aqui que houve uma modifica\u00e7\u00e3o no pensamento de Lacan a esse respeito, levando em conta que, no\u00a0<i>Semin\u00e1rio 11\u00a0<\/i>(1964\/1998), ele acreditava que o real \u00e9 o que retorna sempre ao mesmo lugar (MILLER, 2012). J\u00e9sus Santiago (2022), em\u00a0<i>A escrita real no passe n\u00e3o \u00e9 autofic\u00e7\u00e3o<\/i>, indica que \u201c\u00c9 somente no Semin\u00e1rio &#8216;De um discurso que n\u00e3o fosse semblante&#8217; que surgem os sinais mais evidentes de uma formula\u00e7\u00e3o mais acabada e genu\u00edna do real, na medida em que sua concep\u00e7\u00e3o se faz sem os instrumentos da lingu\u00edstica. Em outras palavras, o real deixa de estar submetido ao algoritmo do significante\/significado e passa a ser distinto tanto do sentido (imagin\u00e1rio) quanto do saber (simb\u00f3lico)\u201d.<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Virg\u00ednia Carvalho Psicanalista, membro da EBP\/AMP, doutora e mestre em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG. virginiacarvalhopsicanalise@gmail.com &nbsp; Resumo:\u00a0A autora trabalha a no\u00e7\u00e3o lacaniana de \u201cdes-montar\u201d (d\u00e9ranger) a defesa a partir de uma releitura dos textos de Freud &#8220;As neuropsicoses de defesa&#8221; (1894) e &#8220;Observa\u00e7\u00f5es adicionais sobre as neuropsicoses de defesa&#8221; (1896), nos quais localiza a \u201cincompatibilidade&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57716,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-2052","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2052","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2052"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2052\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57717,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2052\/revisions\/57717"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57716"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2052"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2052"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}