{"id":206,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=206"},"modified":"2025-12-01T12:51:24","modified_gmt":"2025-12-01T15:51:24","slug":"construcoes-e-reminiscencias1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/construcoes-e-reminiscencias1\/","title":{"rendered":"Constru\u00e7\u00f5es e reminisc\u00eancias<sup>[1]<\/sup>\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Luciana Silviano Brand\u00e3o<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<br \/>\n<span id=\"cloakdf8bf6fb5dabf00dad8a715219bf371c\"><a href=\"mailto:lucianasbl@gmail.com\">lucianasbl@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A autora faz um percurso ao longo do texto \u201cConstru\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise\u201d, trabalha os conceitos de recorda\u00e7\u00f5es ultran\u00edtidas, verdade hist\u00f3rica, rememora\u00e7\u00e3o e reminisc\u00eancia. Sua hip\u00f3tese \u00e9 a de que a verdade hist\u00f3rica se equipara conceitualmente \u00e0 reminisc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave<\/strong>: constru\u00e7\u00e3o, verdade hist\u00f3rica, rememora\u00e7\u00e3o, reminisc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CONSTRUTIONS AND\u00a0<\/strong><strong>REMINISCENCES<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The author takes a journey through the text &#8220;Constructions in analysis&#8221;, working on the concepts of ultranitical memories, historical truth, remembrance, and reminiscence. Her hypothesis is that historical truth is conceptually equivalent to reminiscence.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>construction, historical truth, remembrance, reminiscence.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_207\" style=\"width: 719px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"709\" data-large_image_height=\"323\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-207\" class=\"size-full wp-image-207\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes.png\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"323\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes.png 709w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/construes-300x137.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-207\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n\u201cConstru\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise\u201d foi publicado pela primeira vez em 1937 e, nele, Freud d\u00e1 \u00eanfase ao procedimento e \u00e0 t\u00e9cnica anal\u00edtica. Percebemos sua necessidade em defender a psican\u00e1lise, pois esta era alvo de ataques dos mais variados campos, e ele o inicia se referindo a um cr\u00edtico que acusava os psicanalistas de se colocarem na postura daqueles que t\u00eam sempre raz\u00e3o, sem levar em conta o \u201cn\u00e3o\u201d do paciente. Para esse cr\u00edtico, \u201cse [o analisando] concorda conosco, estamos com raz\u00e3o; mas se ele nos contraria, ent\u00e3o seria apenas um sinal de sua resist\u00eancia e, portanto, tamb\u00e9m mostraria que temos raz\u00e3o\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 365).<\/p>\n<p>No entanto, para a psican\u00e1lise, um simples \u201cn\u00e3o\u201d do paciente n\u00e3o abdica o psicanalista de sua interpreta\u00e7\u00e3o, e \u00e9 essa posi\u00e7\u00e3o que pode servir de muni\u00e7\u00e3o para a reprova\u00e7\u00e3o de tais cr\u00edticos. Dessa forma, \u00e9 necess\u00e1rio entrar em detalhes sobre como a psican\u00e1lise entende o \u201csim\u201d ou o \u201cn\u00e3o\u201d do paciente.<\/p>\n<p><strong><em>Objetivo do trabalho anal\u00edtico<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O objetivo do trabalho anal\u00edtico \u00e9 a suspens\u00e3o do recalque para substitui-lo por rea\u00e7\u00f5es que correspondam a um estado de maturidade ps\u00edquica. Para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio que o analisando se recorde de determinadas viv\u00eancias e mo\u00e7\u00f5es de afeto que foram esquecidas. Qual seria o caminho para esse resgate? Freud responde que seria atrav\u00e9s dos fragmentos de lembran\u00e7as nos sonhos, na associa\u00e7\u00e3o livre e em alus\u00f5es de repeti\u00e7\u00f5es de afetos pertencentes ao recalcado. A transfer\u00eancia seria o caminho para alcan\u00e7ar a imagem dos anos esquecidos pelo paciente.<\/p>\n<p>No entanto, temos que nos lembrar que o trabalho anal\u00edtico \u00e9 feito por duas partes \u2013 analista e analisando -, cada qual com uma fun\u00e7\u00e3o. Ao analisando, cabe a tarefa de se lembrar do material recalcado, e, ao analista, cabe interpretar esse material. O analista ent\u00e3o, \u201cter\u00e1 de inferir o esquecido a partir dos sinais por ele deixados, ou, mais corretamente, ele ter\u00e1 de\u00a0<em>construir<\/em>\u00a0o esquecido\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 367).<\/p>\n<p>Para caracterizar o trabalho do analista, Freud faz uma analogia com o do arque\u00f3logo. Da mesma forma que o arque\u00f3logo infere onde estaria uma parede em uma ru\u00edna, o analista faz o mesmo com as lembran\u00e7as e associa\u00e7\u00f5es do paciente. Outra fonte importante para a tarefa anal\u00edtica de constru\u00e7\u00e3o s\u00e3o as repeti\u00e7\u00f5es \u201cde rea\u00e7\u00f5es oriundas de tempos primevos e tudo o que \u00e9 revelado em termos de repeti\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da transfer\u00eancia\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 368). Importante ressaltar que para Freud, nesse momento, h\u00e1 a aposta de ser imposs\u00edvel a destrui\u00e7\u00e3o total das forma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas. Ele acreditava que seria apenas uma quest\u00e3o de a t\u00e9cnica anal\u00edtica conseguir trazer totalmente \u00e0 tona o que est\u00e1 oculto.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio levar em considera\u00e7\u00e3o que o objeto ps\u00edquico, diferentemente do arqueol\u00f3gico, \u00e9 muito mais complicado que os restos arqueol\u00f3gicos. A constru\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas um trabalho preliminar na an\u00e1lise de um sujeito.<\/p>\n<p>O processo anal\u00edtico, ou a constru\u00e7\u00e3o, \u00e9 feita passo a passo. Freud afirma que o analista<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">produz um peda\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o, comunica-o ao paciente, para que fa\u00e7a efeito sobre ele; depois, ele constr\u00f3i mais um peda\u00e7o a partir do novo material que chega como um afluente e trabalha do mesmo jeito, e nessa altern\u00e2ncia vai at\u00e9 o fim. (FREUD, 1937\/2017, p. 369)<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 se o analista pegou o caminho certo em sua tentativa de fazer esse trajeto. Se n\u00e3o o tiver feito, poder\u00e1 se retificar em momento oportuno quando nova constru\u00e7\u00e3o puder ser feita.<\/p>\n<p><strong><em>O sim ou o n\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quanto ao \u201csim\u201d ou ao \u201cn\u00e3o\u201d do paciente, esta \u00e9 uma outra hist\u00f3ria, pois tanto um, quanto o outro, n\u00e3o garantem que a constru\u00e7\u00e3o esteja correta. O que garante sua asser\u00e7\u00e3o \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o, pelo analisando, de novas lembran\u00e7as que complementam e ampliam a constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Importante ressaltar que, com frequ\u00eancia, o \u201cn\u00e3o\u201d do paciente pode ser um sinal de resist\u00eancia, pois a constru\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 sempre incompleta e abarca apenas um pequeno fragmento do acontecimento esquecido. Dessa forma, pode-se pensar que o analisando \u201cfundamenta sua oposi\u00e7\u00e3o com base na parte ainda n\u00e3o revelada\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 372). Para Freud, o analisando s\u00f3 dar\u00e1 a sua concord\u00e2ncia quando souber de toda a verdade e esta, muitas vezes, \u00e9 bastante ampla. \u201cPortanto, a \u00fanica interpreta\u00e7\u00e3o segura do seu \u2018n\u00e3o\u2019 \u00e9 aquela que aponta inseguran\u00e7a; que a constru\u00e7\u00e3o certamente n\u00e3o lhe disse tudo\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 372).<\/p>\n<p>Como saber se a constru\u00e7\u00e3o tocou em um ponto importante? Podemos supor que seja atrav\u00e9s de tipos indiretos de comunica\u00e7\u00e3o, como, por exemplo, atrav\u00e9s da express\u00e3o idiom\u00e1tica \u201ceu jamais pensei (ou teria pensado) isso (nisso)\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 373), que podemos traduzir por \u201cSim, nesse caso, voc\u00ea acertou o inconsciente na mosca\u201d. (FREUD, 1937\/2017, p. 373). Outra \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o indireta atrav\u00e9s de associa\u00e7\u00f5es que combinam com o conte\u00fado das manifesta\u00e7\u00f5es. E, ainda, aquelas em que as confirma\u00e7\u00f5es se infiltram na oposi\u00e7\u00e3o direta por meio de um ato falho.<\/p>\n<p>Diante dessas constata\u00e7\u00f5es, Freud conclui que a cr\u00edtica sofrida pela psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 devida, pois, ao se prestar aten\u00e7\u00e3o na resposta do analisando, pontos de apoio valiosos s\u00e3o retirados. Por outro lado, \u201cessas rea\u00e7\u00f5es do paciente geralmente t\u00eam m\u00faltiplos significados e n\u00e3o permitem uma decis\u00e3o definitiva\u201d (FREUD, 1937\/2017, p. 375), o que nos leva a concluir que apenas a continuidade da an\u00e1lise vai provar se essas constru\u00e7\u00f5es estavam corretas ou se foram in\u00fateis.<\/p>\n<p>Nem sempre uma constru\u00e7\u00e3o feita pelo analista produz a recorda\u00e7\u00e3o do recalcado, mesmo assim, em alguns casos, o paciente tem uma convic\u00e7\u00e3o segura da verdade da constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Recorda\u00e7\u00f5es ultran\u00edtidas<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ocorre tamb\u00e9m que uma constru\u00e7\u00e3o gere as chamadas recorda\u00e7\u00f5es \u201cultran\u00edtidas\u201d (<em>\u00fcberdeutlich<\/em>) (FREUD, 1937\/2017, p. 376). Nesse tipo particular de recorda\u00e7\u00e3o, os pacientes n\u00e3o se lembram do acontecimento que fora o conte\u00fado da constru\u00e7\u00e3o, e sim de detalhes muito n\u00edtidos: rostos, objetos no ambiente, espa\u00e7o, etc. Como a elas nada \u00e9 atrelado, o psicanalista sugere que foram resultado de um acordo em que a resist\u00eancia conseguiu deslocar o recalcado para objetos secund\u00e1rios vizinhos.<\/p>\n<p>Essas lembran\u00e7as poderiam ser chamadas de alucina\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o apresentam a certeza caracter\u00edstica do fen\u00f4meno e acontecem em casos que n\u00e3o podemos chamar de psicose. Por outro lado, h\u00e1 ocorr\u00eancia ocasional de alucina\u00e7\u00f5es em casos de n\u00e3o psic\u00f3ticos. Freud se pergunta se seria uma caracter\u00edstica da alucina\u00e7\u00e3o que algo vivenciado nos prim\u00f3rdios e depois esquecido se insinue na consci\u00eancia de forma deformada.<\/p>\n<p>Talvez as forma\u00e7\u00f5es alucinat\u00f3rias, nas quais vemos inseridas essas alucina\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sejam assim t\u00e3o independentes da s\u00fabita vinda \u00e0 tona do inconsciente e do retorno do recalcado. De forma geral, s\u00f3 sublinhamos dois fatores no mecanismo de uma forma\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria: o afastamento da realidade e a influ\u00eancia da realiza\u00e7\u00e3o de desejo sobre o conte\u00fado do del\u00edrio. Mas ser\u00e1 que quando o recalcado emerge provocaria o afastamento da realidade, que, por sua vez, causaria a deformidade e o deslocamento do relembrado?<\/p>\n<p><strong><em>A verdade hist\u00f3rica<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Freud sinaliza que o importante \u00e9 que a loucura n\u00e3o s\u00f3 tem m\u00e9todo como cont\u00e9m uma parte de verdade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Nos par\u00e1grafos finais de seu texto de 1937, assinala que, em casos patol\u00f3gicos, n\u00e3o se trata de demover o paciente do erro de seu del\u00edrio, de sua contradi\u00e7\u00e3o diante da realidade, mas de encontrar<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">um fundamento comum no reconhecimento do cerne da verdade a partir do qual se poder\u00e1 desenvolver o trabalho terap\u00eautico. Esse trabalho consistiria em libertar aquela parte de verdade hist\u00f3rica de suas deforma\u00e7\u00f5es e liga\u00e7\u00f5es [<em>Anlehnungen<\/em>] com o presente real, reconduzindo aquela parte do passado \u00e0 qual pertence (FREUD, 1937\/2017, p. 378).<\/p>\n<p>Freud considera que as forma\u00e7\u00f5es delirantes lembram as constru\u00e7\u00f5es feitas pelo analista durante o tratamento anal\u00edtico. Da mesma forma que a nossa constru\u00e7\u00e3o s\u00f3 traz de volta uma parte da hist\u00f3ria de vida perdida, o del\u00edrio tamb\u00e9m deve o seu poder de convencimento \u00e0 por\u00e7\u00e3o de verdade hist\u00f3rica que ele coloca no lugar da realidade rejeitada.<\/p>\n<p>Ele conclui seu texto com o seguinte par\u00e1grafo:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Se abarcarmos a humanidade como um todo e a colocarmos no lugar de cada indiv\u00edduo humano, verificaremos que ela tamb\u00e9m desenvolveu forma\u00e7\u00f5es delirantes inacess\u00edveis \u00e0 cr\u00edtica l\u00f3gica e que contradizem a realidade. Se, mesmo assim, elas puderem expressar um extraordin\u00e1rio poder sobre as pessoas, a an\u00e1lise levar\u00e1 \u00e0 mesma conclus\u00e3o que no caso de cada indiv\u00edduo. Elas devem o seu poder ao teor de verdade hist\u00f3rica que foram buscar l\u00e1 no recalque dos tempos primordiais esquecidos. (FREUD, 1937\/2017, p. 379)<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong><em>O que \u00e9 verdade hist\u00f3rica?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Antes de finalizar, gostaria de voltar de forma mais detalhada ao termo \u201cverdade hist\u00f3rica\u201d. Ele aparece em alguns textos freudianos importantes, tais como \u201cUm dist\u00farbio de mem\u00f3ria na Acr\u00f3pole\u201d (1936), \u201cMois\u00e9s e o monote\u00edsmo\u201d (1938) e \u201cDa hist\u00f3ria de uma neurose infantil (caso Homem dos Lobos)\u201d (1918).<\/p>\n<p>Em \u201cUm dist\u00farbio de mem\u00f3ria na Acr\u00f3pole\u201d, Freud relata sua peculiar experi\u00eancia ao visitar a Acr\u00f3pole. Seu primeiro pensamento ao v\u00ea-la foi: \u201cEnt\u00e3o tudo isso realmente existe mesmo, tal como aprendemos no col\u00e9gio!\u201d. O que se segue \u00e9 o sentimento de divis\u00e3o do sujeito, pois era como se duas pessoas estivessem ali: \u201cA primeira comportava-se como se estivesse obrigada, sob o impacto de uma observa\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca, a acreditar em algo cuja realidade parecia, at\u00e9 ent\u00e3o, duvidosa\u201d, e, a outra, \u201cA segunda pessoa, por outro lado, com raz\u00e3o estava surpresa, pois desconhecia a possibilidade de que a exist\u00eancia real de Atenas, da Acr\u00f3pole e do cen\u00e1rio em torno, alguma vez tivesse sido objeto de d\u00favida\u201d (FREUD, 1936\/1976, p. 295).<\/p>\n<p>Em \u201cO homem Mois\u00e9s e a religi\u00e3o monote\u00edsta\u201d, o psicanalista afirma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Quando Mois\u00e9s trouxe ao povo a ideia de um deus \u00fanico, ela n\u00e3o constituiu uma novidade, mas significou a revivesc\u00eancia de uma experi\u00eancia das eras primevas da fam\u00edlia humana, a qual havia muito tempo se desvanecera na mem\u00f3ria consciente dos homens. Mas ela fora t\u00e3o importante e produzira ou preparara o caminho para mudan\u00e7as t\u00e3o profundamente penetrantes na vida dos homens, que n\u00e3o podemos evitar crer que deixara atr\u00e1s de si, na mente humana, alguns tra\u00e7os permanentes, os quais podem ser comparados a uma tradi\u00e7\u00e3o. (FREUD, 1934\/1975, p. 153)<\/p>\n<p>E, em \u201cDa hist\u00f3ria de uma neurose infantil (caso Homem dos Lobos)\u201d, h\u00e1 a seguinte passagem do paciente:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Quando eu tinha 5 anos de idade, estava brincando no jardim perto da minha bab\u00e1 e fazia cortes com meu canivete na casca de uma daquelas nogueiras, que tamb\u00e9m t\u00eam um papel em meu sonho. De repente percebi, com um terror indiz\u00edvel, que eu tinha cortado meu dedo mindinho da m\u00e3o (direita ou esquerda?), de tal maneira que ele s\u00f3 estava pendurado pela pele. Eu n\u00e3o sentia dor nenhuma, mas uma grande ang\u00fastia. N\u00e3o me atrevia a dizer nada \u00e0 bab\u00e1, que se encontrava a apenas poucos passos de dist\u00e2ncia, afundei no banco mais pr\u00f3ximo e permaneci sentado l\u00e1, incapaz de olhar mais uma vez para o dedo. Finalmente me acalmei, olhei para o dedo, e, veja s\u00f3, ele estava totalmente ileso. (FREUD, 1918\/1976, p. 723)<\/p>\n<p>Parece poss\u00edvel afirmar, a partir dos fragmentos apresentados, que, ao utilizar o conceito de \u201cverdade hist\u00f3rica\u201d, pode-se identificar uma estrutura que se repete, mas que \u00e9 modificada pela realiza\u00e7\u00e3o de desejo e pelas percep\u00e7\u00f5es que s\u00e3o perturbadas pela linguagem. A repeti\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o deformada gera o del\u00edrio, mas, quando essa repeti\u00e7\u00e3o compulsiva carrega consigo um retorno do passado, seria uma verdade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>O que se repete n\u00e3o \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o ou o sentido ligado \u00e0 representa\u00e7\u00e3o, mas uma certa estrutura discursiva, que, no caso de Freud em Atenas, seria a reapresenta\u00e7\u00e3o da d\u00favida sobre a exist\u00eancia da Acr\u00f3pole, no monote\u00edsmo, a reapresenta\u00e7\u00e3o do chefe da horda no Deus \u00fanico, e, no Homem dos Lobos, a reapresenta\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o na alucina\u00e7\u00e3o do dedo cortado.<\/p>\n<p><strong><em>Verdade hist\u00f3rica ou reminisc\u00eancia em \u201cO homem dos Lobos\u201d?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Pretendo me ater aqui ao relato do dedo cortado do Homem dos Lobos para introduzir dois conceitos presentes na psican\u00e1lise lacaniana: a reminisc\u00eancia e a rememora\u00e7\u00e3o. Minha hip\u00f3tese \u00e9 ser poss\u00edvel equiparar a reminisc\u00eancia \u00e0 verdade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Parece-me interessante neste ponto explorar a distin\u00e7\u00e3o feita por Lacan entre rememora\u00e7\u00e3o e reminisc\u00eancia. No Semin\u00e1rio 23, o psicanalista afirma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A reminisc\u00eancia \u00e9 distinta da rememora\u00e7\u00e3o. [&#8230;] A rememora\u00e7\u00e3o \u00e9 evidentemente alguma coisa que Freud obteve for\u00e7osamente gra\u00e7as ao termo impress\u00e3o. Ele sup\u00f4s que havia coisas que se imprimiam no sistema nervoso, e lhes conferiu letras, o que j\u00e1 \u00e9 dizer muito, porque n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma para que uma impress\u00e3o se figure como alguma coisa j\u00e1 t\u00e3o distante da impress\u00e3o quanto uma letra. J\u00e1 h\u00e1 um mundo entre uma letra e um s\u00edmbolo fonol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A ideia testemunhada por Freud no Projeto \u00e9 de figurar isso atrav\u00e9s de redes, e foi talvez o que me incitou a lhes dar uma nova forma, mais rigorosa, fazendo com isso alguma coisa que se encadeia, em vez de simplesmente se tran\u00e7ar.<\/p>\n<p>A rememora\u00e7\u00e3o consiste em fazer essas cadeias entrarem em alguma coisa que j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1 e que se nomeia como saber [&#8230;]. (LACAN, 1975-76\/2007, p. 127)<\/p>\n<p>Em \u201cFausse reconnaissance (dej\u00e1 racont\u00e9) no tratamento psicanal\u00edtico\u201d, Freud retoma o relato do epis\u00f3dio do dedo cortado do Homem dos Lobos. Cito-o: \u201cQuando me achava brincando no jardim com um canivete (isso se deu quando eu tinha cinco anos de idade) e cortei fora meu dedo mindinho \u2013\u00a0<em>oh<\/em>, eu s\u00f3\u00a0<em>pensei<\/em>\u00a0que ele fora cortado \u2013 mas j\u00e1 lhe falei sobre isso\u201d (FREUD, 1914\/1996, p. 209). No entanto, o psicanalista, ao ouvir aquele relato, responde-lhe que nunca o havia narrado, mas o paciente afirma ter certeza de\u00a0<em>j\u00e1 o ter contado<\/em>. Por\u00e9m, ao repetir a est\u00f3ria, ele percebe seu engano.<\/p>\n<p>Aqui h\u00e1 um real que fala sozinho, a experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 testemunha de um significante que falta, h\u00e1 um aspecto de descontinuidade temporal \u2013 extratemporal, melhor dizendo. Nesse caso, o que retorna \u00e9 um conte\u00fado que deixou de ser simbolizado, que escapou da simboliza\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e que n\u00e3o p\u00f4de ser historiado. Segundo Miller, trata-se de uma forma imemorial que aparece quando o texto, \u201cinterrompendo-se (fora do texto simb\u00f3lico, portanto), deixa desnudo o suporte da reminisc\u00eancia\u201d (MILLER, 2009, p. 54).<\/p>\n<p>A rememora\u00e7\u00e3o, em contraposi\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno descrito no caso freudiano, acontece quando um elemento esquecido encontra a sua articula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. J\u00e1 a reminisc\u00eancia tem rela\u00e7\u00e3o com a concep\u00e7\u00e3o plat\u00f4nica, pois o indiv\u00edduo n\u00e3o pode elaborar uma verdade a partir de sua experi\u00eancia, s\u00f3 lhe restando o eterno, o que est\u00e1 fora do tempo.<\/p>\n<p>No caso do Homem dos Lobos, diante da emerg\u00eancia do real, s\u00f3 lhe restou o mutismo, o mutismo aterrorizado e a imagem alucinada do dedo cortado. Nesse caso, ao lembrar-se da experi\u00eancia e relat\u00e1-la posteriormente ao analista, n\u00e3o se pode dizer que essa estava na ordem de um mero esquecimento, como no texto \u201cO mecanismo ps\u00edquico do esquecimento\u201d, de Freud. Trata-se de uma experi\u00eancia com uma significa\u00e7\u00e3o t\u00e3o estranha que o sujeito n\u00e3o tem como comunic\u00e1-la ao Outro. N\u00e3o estaria, portanto, no registro de uma lembran\u00e7a esquecida que retorna, de uma rememora\u00e7\u00e3o. Para um elemento ser historiado, ele deve, antes de tudo, ter sido simbolizado, ou seja, s\u00f3 h\u00e1 historiza\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria se houver uma simboliza\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. A \u201crememora\u00e7\u00e3o est\u00e1 situada do lado da rede significante, das cadeias que se formam com o simb\u00f3lico, ao passo que a reminisc\u00eancia, aqui, \u00e9 deixada em branco\u201d (MILLER, 2009, p. 54).<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que proponho aqui, no caso do Homem dos Lobos, \u00e9 pensar que a alucina\u00e7\u00e3o do dedo cortado pode revelar algo que irrompe no discurso do sujeito sem que haja uma historiza\u00e7\u00e3o \u2013 ou o que carrega consigo uma hist\u00f3ria que pode ser contada \u2013, mas revela o puro real sem palavras. Concep\u00e7\u00e3o que se aproximaria do conceito de \u201cverdade hist\u00f3rica\u201d como modo de resposta a incid\u00eancia do real traum\u00e1tico sobre o ser falante.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. Mois\u00e9s e o monote\u00edsmo. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXIII, 1975, p. 165-329. (Trabalho original publicado em 1934).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Totem e tabu e outros trabalhos. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XIII, 1976, p. 238-247. (Trabalho original publicado em 1918).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Um dist\u00farbio de mem\u00f3ria na Acr\u00f3pole. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXII, 1976, p. 291-303. (Trabalho original publicado em 1936).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Fausse reconnaissance (dej\u00e1 racont\u00e9) no tratamento psicanal\u00edtico. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XIII, 1996, p. 207-212. (Trabalho original publicado em 1914).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Da hist\u00f3ria de uma neurose infantil (caso Homem dos Lobos). In:\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Hist\u00f3rias cl\u00ednicas. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017, p. 631-773. (Trabalho original publicado em 1918).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Constru\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise. In:\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017, p. 365-381. (Trabalho original publicado em 1937).<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<em>Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan. O Sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/construcoes-e-reminiscencias#refer1\">[1]<\/a><a id=\"nota1\"><\/a>\u00a0Texto apresentado nas 59\u00aa Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise do IPSM-MG, em 27 de junho de 2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luciana Silviano Brand\u00e3o Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP lucianasbl@gmail.com Resumo:\u00a0A autora faz um percurso ao longo do texto \u201cConstru\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise\u201d, trabalha os conceitos de recorda\u00e7\u00f5es ultran\u00edtidas, verdade hist\u00f3rica, rememora\u00e7\u00e3o e reminisc\u00eancia. Sua hip\u00f3tese \u00e9 a de que a verdade hist\u00f3rica se equipara conceitualmente \u00e0 reminisc\u00eancia. Palavras-chave: constru\u00e7\u00e3o, verdade hist\u00f3rica, rememora\u00e7\u00e3o, reminisc\u00eancia. 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