{"id":2061,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2061"},"modified":"2025-12-01T12:08:02","modified_gmt":"2025-12-01T15:08:02","slug":"sobre-certa-presenca-da-psicanalise-nas-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/sobre-certa-presenca-da-psicanalise-nas-ruas\/","title":{"rendered":"Sobre certa presen\u00e7a da psican\u00e1lise nas ruas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Clarisse Boechat<\/strong><br \/>\nPsicanalista, doutora pelo Programa<br \/>\nde P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise da UERJ<br \/>\n<strong><a href=\"mailto:clarisse.boechat@gmail.com\">clarisse.boechat@gmail.com<\/a><\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong>\u00a0Retomo, neste texto, quest\u00f5es que surgiram da experi\u00eancia de trabalho nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, entre 2012 e 2019, e os ensinamentos que pude extrair da\u00ed, destacando especialmente a err\u00e2ncia que as ruas me apresentaram como um dos nomes do real do nosso tempo. A partir disso, foi poss\u00edvel localizar e apontar o que, para cada um, funcionava como orienta\u00e7\u00e3o, assim como sustentar a aposta nos \u201cm\u00e9todos errantes\u201d daqueles com os quais me encontrei, o que se constituiu como um aprendizado coincidente com o que tamb\u00e9m encontro na cl\u00ednica mais tradicional que acontece em meu consult\u00f3rio. A posteriori, depreendeu-se que, seja no consult\u00f3rio, seja nas ruas, a err\u00e2ncia parece se apresentar como modalidade de funcionamento privilegiada em tempos nos quais o Nome-do-Pai j\u00e1 n\u00e3o faz mais as vezes de rodovia principal. Na medida em que vivemos em um mundo tamb\u00e9m errante, os pacientes que nos procuram em nossos consult\u00f3rios s\u00e3o igualmente tomados por suas pr\u00f3prias err\u00e2ncias e solu\u00e7\u00f5es at\u00edpicas, como um sintoma de nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0Psican\u00e1lise; presen\u00e7a; ruas; err\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>ABOUT A CERTAIN PRESENCE OF PSYCHOANALYSIS IN THE STREETS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract<\/strong>: In this text, I return to questions that emerged from the experience of working on the streets of the city of Rio de Janeiro, between 2012 and 2019, and the lessons I was able to extract from that. Highlighting especially the\u00a0<em>wandering<\/em>\u00a0that the streets showed me as one of the names of the\u00a0<em>real<\/em>\u00a0of our time. From that, it was possible to locate and point out what, for each one, worked as guidance, as well as sustain our bet on the \u201cerrant methods\u201d of those I have met. The work turned out to be a learning experience, coinciding with what I also find in my, more traditional, clinical practice. Whether in the office or on the streets, wandering seems to present itself as a privileged mode of operation in times when the Name-of-theFather no longer serves as the main highway. As we live in a wandering world, the patients who come to us in our offices are also taken by their own wanderings and atypical solutions, as a symptom of our time.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong> Psychoanalysis; presence; streetswandering.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_2062\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENCONTROS_-_CLARICE_BOECHAT.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"340\" data-large_image_height=\"529\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2062\" class=\"wp-image-2062 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENCONTROS_-_CLARICE_BOECHAT.jpg\" alt=\"\" width=\"340\" height=\"529\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2062\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. S\/T<\/p><\/div>\n<p><strong><em>Sobre certa presen\u00e7a da psican\u00e1lise nas ruas<\/em><\/strong><\/p>\n<p><a id=\"ref1\"><\/a>Retomo, neste texto, quest\u00f5es que come\u00e7aram a surgir a partir do trabalho iniciado em 2012, como psic\u00f3loga do Consult\u00f3rio na Rua do Centro do Rio de Janeiro. A primeira delas tornou-se mais consistente no t\u00edtulo\u00a0de minha tese de doutorado<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sobre-certa-presenca#i\">1<\/a><\/sup>: \u201cQuando a psican\u00e1lise alcan\u00e7a as ruas, o que fazem os analistas?\u201d. Para respond\u00ea-la procurei localizar o que houve de anal\u00edtico naqueles encontros at\u00edpicos nas ruas, em configura\u00e7\u00f5es bem distintas do\u00a0<em>setting<\/em>\u00a0tradicionalmente cl\u00ednico. Em outros termos, considerando as grandes diferen\u00e7as entre os encontros que aconteciam nas ruas e uma experi\u00eancia de an\u00e1lise, qual \u00e9 a pertin\u00eancia do interesse da psican\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o a um campo, \u00e0 primeira vista, t\u00e3o distinto daquele das an\u00e1lises tradicionais? As experi\u00eancias de err\u00e2ncia das ruas nos ensinariam sobre a abordagem psicanal\u00edtica dos sintomas ou \u00e9 muito mais a experi\u00eancia com essa abordagem que pode orientar nossas interven\u00e7\u00f5es nas ruas?<\/p>\n<p>Tais quest\u00f5es se endere\u00e7aram ao N\u00facleo de Pesquisa \u201cPr\u00e1ticas da Letra\u201d, ligado ao Instituto de Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Rio. A pesquisa do n\u00facleo, coordenado \u00e0 \u00e9poca por Ana Lucia Lutterbach-Holck, interrogava os \u201cusos poss\u00edveis da psican\u00e1lise na cidade\u201d, convocando-a a se fazer presente \u201cnas ruas, de portas abertas a quem possa interessar testemunhar sua experi\u00eancia\u201d (LUTTERBACH-HOLCK, 2014, p. 43). Dessa aproxima\u00e7\u00e3o surgiu, num segundo tempo, o ateli\u00ea \u201cEscreve-se hist\u00f3ria\u201d, que funcionou semanalmente em frente \u00e0 Central do Brasil, entre 2014 e 2019, permitindo-nos estar em contato com o que me parece poss\u00edvel considerar como a presen\u00e7a do real na cidade.<\/p>\n<p>Nesse ateli\u00ea, uma dupla de psicanalistas se colocava em uma cal\u00e7ada pr\u00f3xima a essa Central, sob o an\u00fancio \u201cEscreve-se hist\u00f3ria\u201d, com um banquinho reservado a quem se aproximasse. A este, diz\u00edamos algo como \u201ccaso queira nos contar uma hist\u00f3ria, podemos escrev\u00ea-la e entreg\u00e1-la, ao final, para voc\u00ea\u201d. Enquanto o primeiro integrante da dupla se oferecia como destinat\u00e1rio, ouvindo a hist\u00f3ria, o segundo operava como uma esp\u00e9cie de \u201cescrevente\u201d e, em sil\u00eancio, registrava os pontos que se destacavam quando um pedestre tomava a posi\u00e7\u00e3o de narrador de sua experi\u00eancia. Ao fim, oferec\u00edamos o original, fic\u00e1vamos com uma c\u00f3pia do material e, caso houvesse interesse, d\u00e1vamos um cart\u00e3o com data e hor\u00e1rio do pr\u00f3ximo encontro.<\/p>\n<p>Ofert\u00e1vamos a escuta e a escrita daquilo que, na abertura ao imprevisto, em uma fala, se precipita, ressoa, causados pelo desejo de ler a cidade de nosso tempo, inventando formas de ocup\u00e1-la. Contudo, essa ocupa\u00e7\u00e3o das ruas, embora tivesse como b\u00fassola a psican\u00e1lise, n\u00e3o deu margem a experi\u00eancias que pudessem ser chamadas de an\u00e1lise. Do ponto de vista mais formal, que tampouco demarca o que \u00e9 uma an\u00e1lise, havia uma radicalidade no despojamento do\u00a0<em>setting<\/em>. Os atendimentos eram feitos em meio a carros e transeuntes; n\u00e3o havia pagamento nem como recolhermos os efeitos do s\u00f3-depois \u2014 pois muitas vezes o depois n\u00e3o existia, devido ao tr\u00e2nsito mesmo daqueles com os quais pontualmente nos encontr\u00e1vamos.<\/p>\n<p>A oferta de escuta e registro das hist\u00f3rias que alguns teriam a nos contar foi o ponto de partida para que pudessem, cada qual a seu modo, e de formas muito distintas, servir-se daquela esp\u00e9cie de trabalho de \u201cedi\u00e7\u00e3o\u201d que faz\u00edamos sobre o que nos ressoava como orienta\u00e7\u00e3o. Tanto o \u201couvinte\u201d das hist\u00f3rias quanto seu \u201cescrevente\u201d tinham a fun\u00e7\u00e3o de \u201ceditar\u201d o \u201ctexto\u201d que nos era endere\u00e7ado. Por vezes, tal \u201cedi\u00e7\u00e3o\u201d consistia em apontar o que se esbo\u00e7ava como uma localiza\u00e7\u00e3o subjetiva; em outras, havia a tentativa de instaura\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7amento m\u00ednimo, localizando frestas que furassem a consist\u00eancia de um Outro invasivo, permitindo-nos apostas nas possibilidades de uma extra\u00e7\u00e3o de algo perturbador; e ainda, em certas ocasi\u00f5es, vis\u00e1vamos aos significantes que indicavam uma modalidade de gozo, seja pela possibilidade de ela se constituir como ancoragem, seja pela aposta de promover algum descolamento. Busc\u00e1vamos extrair, da err\u00e2ncia, uma leitura, na medida em que pud\u00e9ssemos seguir o fio daquelas andan\u00e7as, nos constituindo como lugar de endere\u00e7amento e, a partir da\u00ed, v\u00edamos se era poss\u00edvel apostar na localiza\u00e7\u00e3o de um fio, por vezes roto e pu\u00eddo, daquelas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Certa vez, perguntei a uma mulher o seu nome, ao que, de uma s\u00f3 vez, respondeu: \u201cMaria da Silva. Vim do Maranh\u00e3o depois que me tiraram \u00e0 for\u00e7a pra fazer sexo. Minha irm\u00e3 n\u00e3o conseguiu fazer nada (chora). Meu irm\u00e3o mais velho morreu cortado pra me defender\u201d. Interrogo: \u201cComo voc\u00ea se virou?\u201d. Ela diz: \u201cTomando dist\u00e2ncia. Porque eu meto a faca, se eu voltar \u00e9 pra matar ou morrer\u201d. Em casos assim, tent\u00e1vamos recolher algo que funcionasse como uma esp\u00e9cie de orienta\u00e7\u00e3o vital. Digo a ela: \u201csua vinda foi uma aposta na vida\u201d, apontando, mesmo diante do horror, para a dimens\u00e3o vivificante dessa escolha que se imp\u00f4s.<\/p>\n<p>Era recorrente que aquelas hist\u00f3rias fizessem refer\u00eancia a um antes e um depois de acontecimentos que desfizeram arranjos com os quais seus narradores se sustentavam, deixando-os sem uma rede de prote\u00e7\u00e3o e expostos \u00e0 queda de identifica\u00e7\u00f5es que os ligavam ao Outro, que os inseriam no la\u00e7o social, levando-os, com certa frequ\u00eancia, a desmoronar feito um castelo de cartas diante do sopro de uma infeliz conting\u00eancia. Acontecimentos dessa natureza parecem apontar para o furo de um real traum\u00e1tico, frente ao qual a rua responde como espa\u00e7o para a err\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Tocar em amarra\u00e7\u00f5es t\u00e3o vitais requer um manejo delicado para, por exemplo, n\u00e3o destacar uma identifica\u00e7\u00e3o mort\u00edfera, abrir buracos em estradas acidentadas demais, sob o risco de interdit\u00e1-las. Diante de tamanhas devasta\u00e7\u00f5es, est\u00e1vamos atentos ao que despontava como recurso, orienta\u00e7\u00e3o, extraindo os \u201cpontos cardeais\u201d que o \u201cescrevente\u201d tomava como norteadores naquelas hist\u00f3rias. O que chamamos de \u201cpontos cardeais\u201d s\u00e3o os arranjos e solu\u00e7\u00f5es que apost\u00e1vamos fazer a fun\u00e7\u00e3o de ancoragem diante daquilo que, para cada um, apresentava-se como deriva: pequenas b\u00fassolas que operassem como orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em &#8220;O ex\u00edlio e a identifica\u00e7\u00e3o&#8221;, Cristiane Alberti aborda quest\u00f5es relativas ao ex\u00edlio estrutural do falasser em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linguagem, mas tamb\u00e9m quanto \u00e0 perspectiva mais radical do ex\u00edlio, que nos chamou a aten\u00e7\u00e3o pela proximidade com o que as ruas apresentam: &#8220;Destaquemos aqui que alguns sujeitos est\u00e3o sempre fora de, jamais em casa, um ex\u00edlio existencial, nenhum lugar, parte alguma&#8221; (ALBERTI, C., 2020, n.p.). Entendemos que &#8220;nenhum lugar&#8221;, &#8220;parte alguma&#8221; apontam para uma meton\u00edmia incessante, marca do que n\u00e3o se localiza, excesso de extravio. O que chamamos de err\u00e2ncia relaciona-se a essa deriva pulsional, em que o circuito da fantasia, a formaliza\u00e7\u00e3o de um sintoma, ou mesmo a consist\u00eancia de um del\u00edrio, n\u00e3o se apresentam de forma t\u00e3o localiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>A err\u00e2ncia no ensino de Lacan n\u00e3o possui o estatuto de um conceito nem \u00e9 um tema recorrente em seus semin\u00e1rios. Mas podemos nos ater aqui \u00e0 men\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 feita no t\u00edtulo de seu\u00a0<em>Semin\u00e1rio 21:<\/em>\u00a0<em>les non-dupes errent<\/em>, que joga com a homofonia que remete tanto aos &#8220;n\u00e3o-tolos erram&#8221; quanto \u00e0 pluraliza\u00e7\u00e3o de &#8220;Os Nomes-do-Pai&#8221;, apontando para as solu\u00e7\u00f5es at\u00edpicas que um sujeito pode lan\u00e7ar m\u00e3o para se virar na vida. A tem\u00e1tica da err\u00e2ncia, tal como Lacan a esbo\u00e7a ali (1973-74, in\u00e9dito), pode constituir-se como fio condutor de uma cl\u00ednica que precisa se haver com impasses e solu\u00e7\u00f5es surgidas quando o Nome-do-Pai n\u00e3o se faz estrada principal que orienta os caminhos. Ao contr\u00e1rio, na err\u00e2ncia h\u00e1 a itera\u00e7\u00e3o insistente do Um do gozo desarticulado de um itiner\u00e1rio ou mesmo do que pode se apresentar como montagem da puls\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal err\u00e2ncia se traduz como certo \u201cdesenraizamento\u201d e nos evidencia o que se passa quando um sujeito perde o que poderia ter-lhe sido referenciais, vendo-se ultrapassado pela itera\u00e7\u00e3o do Um do gozo, sem sentido. Os n\u00e3o-tolos, segundo Lacan, s\u00e3o aqueles que se apresentam como errantes, porque se fixariam \u00e0 pretens\u00e3o de seguir sempre a dire\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca que a itera\u00e7\u00e3o comporta, ou mesmo nos mandamentos provenientes do supereu e nas rotas determinadas pelo Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>Fernanda Otoni-Brisset, em \u201cO povo e a peste\u201d, testemunha, de sua pr\u00e1tica na rede p\u00fablica \u201cjunto a pessoas sem renda, sem documentos, sem trabalho, sem fam\u00edlia, sem teto, sem lei, sem raz\u00e3o, sem muita coisa\u201d (OTONI-BRISSET, 2020, n.p.), e situa que eles t\u00eam muito a dizer quando encontram um analista: \u201cDiria que portam sem saber, um saber que n\u00e3o \u00e9 suposto. Um saber a for\u00e7ar suas escolhas, de forma irrecus\u00e1vel\u201d (OTONI-BRISSET, 2020, n.p.). Otoni parece tamb\u00e9m se encontrar com o que nomeamos como a dimens\u00e3o da itera\u00e7\u00e3o presente na err\u00e2ncia, que, em seu texto, tender-se-ia a localizar como \u201cesse saber a for\u00e7ar suas escolhas\u201d (OTONI-BRISSET, 2020, n.p.).<\/p>\n<p>Eis o desafio: como nos incluirmos como destinat\u00e1rios do endere\u00e7amento de um saber que se sabe sozinho, que n\u00e3o \u00e9 suposto? Diante da dimens\u00e3o implac\u00e1vel da itera\u00e7\u00e3o do gozo descolada da suposi\u00e7\u00e3o de saber no Outro, cabe, ao analista, a aposta de fazer incluir nesses circuitos, a fim de se constituir como parceiro, por exemplo, na rela\u00e7\u00e3o com o gozo opaco do Um, que itera, instaurando uma modesta margem de manobra a partir do saber que se recolhe.<\/p>\n<p>Quando Claudionor pergunta meu nome e lhe respondo \u201cClarisse\u201d, ele observa: \u201cOlha! 2 C: Claudionor e Clarisse\u201d. Em seguida, diz que gostaria de escrever um livro com dedicat\u00f3ria para 3 K. Destaco: \u201cVoc\u00ea gosta de letras!\u201d. Ele diz que sim, me mostra uma tatuagem com o 3K, explicando se tratar da inicial dos nomes das tr\u00eas filhas. A letra K surgiu quando aguardava o nascimento de sua primeira filha na maternidade, ao ler uma revista em quadrinhos em que tinha uma mulher chamada Kelly: \u201cFiquei com o K e escolhi o nome de K\u00e9sia pra ela\u201d. Ou seja, esse K ele extrai no momento do nascimento de sua primeira filha, parindo um significante que lhe permitiu ser pai. Desse K, retirado da revista, partir\u00e3o os nomes das demais filhas: K\u00e9sia, Keyla, Kamile \u2014 3K. O que recolhemos dos encontros, que duraram cerca de um ano, nos ensina sobre o uso sinthom\u00e1tico do 3K, inven\u00e7\u00e3o marcada pela tolice de se deixar guiar por essa esp\u00e9cie de Um sozinho, que lhe orienta a deriva, a l\u00f3gica de sua err\u00e2ncia, funcionando \u00e0 semelhan\u00e7a de um itiner\u00e1rio.<\/p>\n<p>Segu\u00edamos aqueles sujeitos em seu ir-e-vir, \u00e0s vezes sem rumo, buscando fazer ressoarem as formas pelas quais eles poderiam se valer de seus pr\u00f3prios arranjos, inventando ou aprimorando modos de lidar com o gozo que itera sempre em suas derivas.<\/p>\n<p>Jacques-Allain Miller, em\u00a0<em>O parceiro sintoma\u00a0<\/em>(2008), considera o<em>\u00a0sinthoma<\/em>, no \u00faltimo Lacan, como uma constru\u00e7\u00e3o que envolve uma parte de gozo solta e uma parte de gozo apreendido no \u00e2mbito do discurso. Nessa dimens\u00e3o\u00a0<em>sinthom\u00e1tica<\/em>, os itiner\u00e1rios, as montagens, podem ser variados \u2014 s\u00e3o formas de dar lugar \u00e0 err\u00e2ncia inerente ao gozo, que \u00e9 sempre singular.<\/p>\n<p>Ao nos fazermos presentes nas ruas, com a psican\u00e1lise, nos acostamentos e \u201cquebradas\u201d, no burburinho ca\u00f3tico da cidade, \u00e0s margens da rodovia do Nome-do-Pai, aprendemos a garimpar os \u201cpontos cardeais\u201d que podem fazer as vezes de caminhos, conforme S\u00e9rgio Laia nos indica mostrando que as err\u00e2ncias possuem seus pr\u00f3prios m\u00e9todos sinthom\u00e1ticos. Fora da estrada principal, mas tamb\u00e9m n\u00e3o deixando os falasseres imersos na solid\u00e3o do Um-sozinho, podemos encontrar inven\u00e7\u00f5es marcadas por esse norteamento de se fazer tolo de um real, para que se possa dar outro lugar a um gozo que \u00e9 errante e pr\u00f3prio de cada um. Nos casos que acompanhamos, buscamos situar nossa aposta quanto a um norteamento, ainda que esse trabalho n\u00e3o tenha passado, necessariamente, pela constru\u00e7\u00e3o da fantasia ou de uma estabiliza\u00e7\u00e3o via constru\u00e7\u00e3o delirante. Esse norteamento p\u00f4de, em alguns casos, fazer as vezes de um itiner\u00e1rio, acolhendo a err\u00e2ncia do gozo em vez de pretender, em v\u00e3o, cont\u00ea-la. Essa era a parceria a que nos oferec\u00edamos: seguir os ind\u00edcios \u2014 que, com o Lacan do\u00a0<em>Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>, podemos situar como sinthom\u00e1ticos \u2014 daqueles sujeitos que se endere\u00e7avam a n\u00f3s para que lhes escrev\u00eassemos suas hist\u00f3rias errantes.<\/p>\n<p>Seja nas ruas, seja no consult\u00f3rio, a psican\u00e1lise se vale dos desarranjos da rotina; \u00e9 nessa lacuna que relampeja o que mostra a efetividade do discurso anal\u00edtico em sua via de extrair, onde quer que ele se aplique, enuncia\u00e7\u00f5es com efeitos de verdade, ancoragens, deslocamentos, leituras, enfim. Tamb\u00e9m no consult\u00f3rio testemunhamos do mal-estar pr\u00f3prio ao nosso tempo, da itera\u00e7\u00e3o do gozo mais al\u00e9m de qualquer enquadre ou norma, quando a estrada principal do Nome-do-Pai j\u00e1 n\u00e3o faz mais tanto as vezes da grande rodovia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, abordamos a err\u00e2ncia como um dos nomes do real que as ruas, ao mesmo tempo, acolhem e dispersam, mas, na medida em que vivemos em um mundo errante, os pacientes que nos procuram em nossos consult\u00f3rios s\u00e3o tamb\u00e9m tomados por suas pr\u00f3prias err\u00e2ncias, como um sintoma de nossa \u00e9poca. A err\u00e2ncia diz respeito ao que, do gozo, n\u00e3o se normatiza nem se normaliza, n\u00e3o sendo propriamente espec\u00edfica da neurose ou da psicose, embora possa ser mais disruptiva nos contextos em que o Nome-do-Pai n\u00e3o faz as vezes de norteador.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>A sociedade do sintoma,<\/em>\u00a0\u00c9ric Laurent prop\u00f5e que, \u201cquando o la\u00e7o se rompe, a cidade se torna o imp\u00e9rio do vazio, escavado pela escritura, gozo fora do sentido que circula na cidade\u201d (2007, p. 110). As ruas s\u00e3o labirintos por onde o extravio do gozo circula, mas onde ele tamb\u00e9m se enla\u00e7a em arranjos muito singulares, como pude verificar em minha experi\u00eancia de alcan\u00e7ar as ruas com a psican\u00e1lise. Essa presen\u00e7a permitiu-nos testemunhar as formas pelas quais o mais singular de um gozo, que, muitas vezes, d\u00e1 lugar \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o, p\u00f4de se relan\u00e7ar e at\u00e9 encontrar algum lugar no coletivo em uma renovada, embora muitas vezes l\u00e1bil, forma de la\u00e7o social dessegregativo (LAIA, 2020). Um la\u00e7o que, intermitentemente, pode se enganchar e se desconectar do Outro, compondo diferentes solu\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias. Nas ruas ou no consult\u00f3rio, nossa tarefa consiste em instalar pequenas brechas porosas \u00e0 passagem das opera\u00e7\u00f5es singulares de cada sujeito, que portam a vitalidade de uma a\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica extensiva ao campo social. Situado na conjun\u00e7\u00e3o entre a cl\u00ednica e a pol\u00edtica, o analista tem como incumb\u00eancia apostar na emerg\u00eancia da diferen\u00e7a, na abordagem dessegregativa do gozo errante, na diversi-cidade dos la\u00e7os, tornando-se \u201caquele que segue\u201d as solu\u00e7\u00f5es at\u00edpicas (LAURENT, 2018).<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6>ALBERTI, C. O ex\u00edlio e a identifica\u00e7\u00e3o. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2020\/10\/19\/o-exilio-e-a-identificacao\/. \u00daltimo acesso em 09\/04\/2021.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1973-74).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 21:\u00a0<em>les non dupes-errent<\/em><\/strong>. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-76).\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.<\/h6>\n<h6>LAIA, S. O ventr\u00edloquo e a biruta anal\u00edtica: das vers\u00f5es do corpo falante&#8230; no momento de conclui. In:\u00a0<strong>Curinga<\/strong>. N\u00ba 49, 2020.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9.\u00a0<strong>A sociedade do sintoma<\/strong>. Rio de Janeiro: Contracapa, 2007.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. Disrup\u00e7\u00e3o do gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia. In:\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>. Revista Internacional Brasileira de Psican\u00e1lise, n. 79. S\u00e3o Paulo, 2018.<\/h6>\n<h6>LUTTERBACH-HOCLK, A. L. Sobre o m\u00e9todo e o objeto. In: LUTTERBACH-HOLCK, A. L.; GROVA, T. [orgs.]\u00a0<strong>Ao p\u00e9 da letra: leituras e escrituras na cl\u00ednica psicanal\u00edtica.\u00a0<\/strong>Rio de Janeiro: Subversos, 2014.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Le partenaire-s\u00edntoma.\u00a0<strong>Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2008.<\/h6>\n<h6>OTONI-BRISSET, F. O. O povo e a peste. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/lalibertaddepluma.org\/fernanda-otoni-\">http:\/\/lalibertaddepluma.org\/fernanda-otoni-<\/a>\u00a0brisset-o-povo-e-a-peste\/. \u00daltimo acesso em: 09\/04\/2021.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a id=\"i\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sobre-certa-presenca#ref1\">1.<\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/sobre-certa-presenca#ref1\">\u00a0Tese defendida pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 2020, que teve como orientadores Heloisa Caldas e S\u00e9rgio Laia.<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clarisse Boechat Psicanalista, doutora pelo Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise da UERJ clarisse.boechat@gmail.com Resumo:\u00a0Retomo, neste texto, quest\u00f5es que surgiram da experi\u00eancia de trabalho nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, entre 2012 e 2019, e os ensinamentos que pude extrair da\u00ed, destacando especialmente a err\u00e2ncia que as ruas me apresentaram como um dos nomes&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57720,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-2061","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2061"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2061\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57721,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2061\/revisions\/57721"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57720"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}