{"id":2065,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2065"},"modified":"2025-12-01T12:08:45","modified_gmt":"2025-12-01T15:08:45","slug":"as-tccs-e-sua-tentativa-de-reduzir-o-ser-falante-ao-organismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/as-tccs-e-sua-tentativa-de-reduzir-o-ser-falante-ao-organismo\/","title":{"rendered":"As TCCs\u00a0e sua tentativa de reduzir o ser falante ao organismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Margaret Pires do Couto<br \/>\n<\/strong>Aderente da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise.<br \/>\nDoutora em Educa\u00e7\u00e3o pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o\/UFMG e<br \/>\np\u00f3s-doutora em Teoria Psicanal\u00edtica pelo Instituto de<br \/>\nPsicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<br \/>\n<a href=\"mailto:coutomargaret@gmail.com\">coutomargaret@gmail.com<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O artigo discute como a cren\u00e7a na exist\u00eancia de um corpo natural sustenta a tentativa operada pelas Terapias Cognitivas Comportamentais de reduzir o ser falante ao organismo. Trata-se de um corpo que supostamente poder\u00e1 ser quantificado, domesticado e, portanto, adaptado aos ideais da cultura. Ao contr\u00e1rio disso, a psican\u00e1lise nos ensina que um corpo habit\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 um dado biol\u00f3gico. Ele \u00e9 fruto do choque com a linguagem, lugar do gozo.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Corpo; Psican\u00e1lise; Gozo.<\/p>\n<p><strong>The TCC\u2019s and it\u2019s attempt to reduce the speaking being to the organism<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The article discusses how the belief in the existence of a natural body supports the attempt operated by Cognitive Behavioral Therapies (TCC) to reduce the speaking being to the organism. It is a body that supposedly should be quantified, domesticated and, therefore, adapted to the ideals of culture. On the contrary, psychoanalysis teaches us that a habitable body is not a biological datum. It is the fruit of the clash with language, the place of jouissance.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0Body; Psychoanalysis;\u00a0<em>Jouissance<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_2066\" style=\"width: 820px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENCONTROS-_MARGARET_COUTO.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"810\" data-large_image_height=\"1104\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2066\" class=\"wp-image-2066\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/ENCONTROS-_MARGARET_COUTO-751x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"414\" height=\"564\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2066\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA.\u00a0LONGEEUMLUGARQUENAOEXISTE<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um dos modos de recha\u00e7o \u00e0 psican\u00e1lise que temos enfrentado no cotidiano de nossa cl\u00ednica tem ocorrido por meio do encaminhamento em massa, especialmente de crian\u00e7as e adolescentes, para as psicoterapias de orienta\u00e7\u00e3o cognitiva comportamental. Os pais ou respons\u00e1veis relatam que esse direcionamento \u00e9 realizado pelo m\u00e9dico pediatra, por diferentes profissionais da sa\u00fade, como tamb\u00e9m pelos profissionais da educa\u00e7\u00e3o. Com a promessa de efic\u00e1cia, objetividade e rapidez nos resultados, a terapia cognitiva comportamental (TCC) opera uma nova forma de governo da inf\u00e2ncia e da subjetividade.<\/p>\n<p>Constatamos tamb\u00e9m a invas\u00e3o dos ideais adaptativos dessa abordagem terap\u00eautica na forma\u00e7\u00e3o tanto dos profissionais da sa\u00fade como dos profissionais da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A suposi\u00e7\u00e3o de um corpo naturalizado, que existiria de forma independente da linguagem, ancora a tentativa de reduzir o ser falante ao organismo. O fasc\u00ednio provocado no meio m\u00e9dico e educacional por essa proposta terap\u00eautica se verifica em fun\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a que \u00e9 poss\u00edvel se ter o acesso a esse corpo de forma direta e, assim, quantific\u00e1-lo, padroniz\u00e1-lo e adapt\u00e1-lo aos ideais vigentes. A promessa da efic\u00e1cia promove uma verdadeira simplifica\u00e7\u00e3o que exclui o sujeito, o gozo e o real na dif\u00edcil tarefa de habitar um corpo.<br \/>\n<em>Desconstruindo a TCC<\/em><\/p>\n<p>Encontramos, de acordo com Aflalo (2012), uma alian\u00e7a neo-higienista da psiquiatria biopsicossocial e o ide\u00e1rio da TCC. Nessa alian\u00e7a, a cl\u00ednica psiqui\u00e1trica \u00e9 esvaziada de seu conte\u00fado e a investiga\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica \u00e9 substitu\u00edda pela pr\u00e1tica de question\u00e1rios. Seus m\u00e9todos contribuem para a propaga\u00e7\u00e3o de uma ideologia duvidosa que sustenta um novo racismo cient\u00edfico. A psiquiatria psicobiossocial se faz passar por um humanismo cient\u00edfico, embora seja especialmente uma esp\u00e9cie de biorreligi\u00e3o a servi\u00e7o das TCCs.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o de cinco pontos nos permitir\u00e1 estabelecer as bases da TCC e seus limites te\u00f3ricos:<\/p>\n<p>1. O pretenso cognitivismo das TCCs<\/p>\n<p>Para Laurent (2007), a cogni\u00e7\u00e3o a que se refere o termo terapia cognitivo comportamental n\u00e3o \u00e9 a cogni\u00e7\u00e3o definida pelas chamadas ci\u00eancias cognitivas. Ela n\u00e3o permite estabelecer nenhum la\u00e7o demonstrativo entre a pr\u00e1tica das TCCs e os modelos te\u00f3ricos propostos pelas ci\u00eancias cognitivas. O pretenso cognitivismo das TCCs \u00e9, antes, uma bricolagem te\u00f3rica. As terapias do mesmo nome s\u00e3o, na verdade, uma aplica\u00e7\u00e3o direta e t\u00e9cnica de duas teorias, inclusive opostas em seus princ\u00edpios: a teoria comportamental e a teoria cognitivista. A concep\u00e7\u00e3o da natureza humana n\u00e3o \u00e9 a mesma para os partid\u00e1rios do comportamentalismo e do cognitivismo. Para os primeiros, homem e animal s\u00e3o id\u00eanticos, pois n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre a adaptabilidade do comportamento humano e a do rato em laborat\u00f3rio. O humano seria apenas a soma de comportamentos, haveria apenas o organismo. Para os cognitivistas, o ser humano estaria identificado com um de seus \u00f3rg\u00e3os, o c\u00e9rebro, reduzido ao funcionamento de um computador. O pensamento n\u00e3o passaria de uma soma de programas inform\u00e1ticos e haveria apenas linguagem, por\u00e9m, reduzida a um c\u00f3digo.<\/p>\n<p>Os dois projetos se op\u00f5em fundamentalmente. Entretanto, o que uniu essas duas formas de pensar o ser humano, apesar de suas diferen\u00e7as de origem, foi a rejei\u00e7\u00e3o do humano como um ser de fala. Sua abordagem reducionista lhes permite afirmar que o psiquismo obedece apenas ao determinismo do organismo. Sejam quais forem os ideais em jogo, a etologia do comportamentalismo ou a m\u00e1quina artificial do pretenso cognitivista, nega-se a dignidade do ser falante e a verdade de sua queixa.<\/p>\n<p>2. A falsa ideia da sa\u00fade mental<\/p>\n<p>A cren\u00e7a na exist\u00eancia de uma \u201csa\u00fade mental\u201d \u00e9 uma viga central do edif\u00edcio da TCC. Entretanto, sabemos que \u00e9 imposs\u00edvel definir cientificamente o que seria essa \u201csa\u00fade mental\u201d; ela \u00e9, contrariamente, definida por uma norma moral. Os especialistas da TCC mascaram esse imposs\u00edvel, fazendo da sa\u00fade mental um conceito estat\u00edstico. Substituem a realidade dos fatos pela realidade estat\u00edstica como se os c\u00e1lculos bastassem para fazer existir a realidade do que \u00e9 calculado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s definirem que existe uma norma mental e uma normalidade ps\u00edquica, todos os que dela se afastam, que n\u00e3o se tornaram a m\u00e9dia estat\u00edstica, s\u00e3o os desviantes, portadores de patologias mentais a serem reeducadas.<\/p>\n<p>Assim, os te\u00f3ricos da TCC desconhecem que a condi\u00e7\u00e3o de ser sexuado e mortal do ser falante est\u00e1 na origem de v\u00e1rios sofrimentos \u201cpsi\u201d e que o real do psiquismo, do mental, \u00e9 o gozo.<\/p>\n<p>3. Protocolos e question\u00e1rios: a propaga\u00e7\u00e3o de um cientificismo<\/p>\n<p>O m\u00e9todo dos question\u00e1rios busca garantir que os comportamentos possam ser observados, codificados e quantificados. Desse modo, os comportamentos s\u00e3o reduzidos \u00e0s listas de quest\u00f5es simples, \u00e0s quais s\u00e3o atribu\u00eddos valores num\u00e9ricos. A metodologia se resume \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o do question\u00e1rio com o objetivo de formular quest\u00f5es objetivas e elaborar um protocolo, entendido como um conjunto de perguntas.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica dos question\u00e1rios se afasta muito da experi\u00eancia cl\u00ednica. A cota\u00e7\u00e3o das respostas da avalia\u00e7\u00e3o substitui a qualidade pela quantidade, a descri\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos por n\u00fameros que s\u00e3o organizados em estat\u00edsticas feitas para velar a falha estrutural do saber. Essa m\u00e1quina enlouquecida da avalia\u00e7\u00e3o pretende uniformizar tudo em uma esp\u00e9cie de c\u00f3digo universal.<\/p>\n<p>4. O supermercado dos diagn\u00f3sticos e a demiss\u00e3o da cl\u00ednica<\/p>\n<p>A psiquiatria \u00e9 a \u00fanica disciplina m\u00e9dica em que os diagn\u00f3sticos s\u00e3o estabelecidos com base n\u00e3o na causa real da doen\u00e7a, e sim no efeito que os medicamentos t\u00eam sobre ela. As classifica\u00e7\u00f5es do Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais (DSM) s\u00e3o fabricadas com o mesmo procedimento de avalia\u00e7\u00e3o: s\u00e3o objeto de c\u00e1lculos estat\u00edsticos. O DSM n\u00e3o originou nenhuma verifica\u00e7\u00e3o independente que levasse em considera\u00e7\u00e3o o princ\u00edpio da falseabilidade ou refutabilidade de suas descobertas, princ\u00edpio fundamental de certifica\u00e7\u00e3o de um conhecimento cient\u00edfico de acordo com Karl Popper.<\/p>\n<p>Nessas classifica\u00e7\u00f5es, nunca se trata do sujeito nem da cl\u00ednica do caso. Est\u00e1 em jogo apenas o consenso dos psiquiatras. Trata-se de uma esp\u00e9cie de \u201cditadura do consenso\u201d (AFLALO, 2012), ou seja, o que se leva em conta n\u00e3o s\u00e3o fatos em si, mas sim o consenso dos especialistas, que devem satisfazer tamb\u00e9m as companhias seguradoras para as quais trabalham. Na impossibilidade de verificar os sintomas \u201cpsi\u201d, os especialistas os negociam, mantendo apenas o que pode faz\u00ea-los concordar entre si.<\/p>\n<p>5. Sintoma: um erro cognitivo<\/p>\n<p>As TCCs tentam impor a ideia segundo a qual o sintoma \u201cpsi\u201d \u00e9 um dist\u00farbio, cuja origem seria tripla: falta de aprendizagem, componentes biol\u00f3gicos e sociais, motivo pelo qual se tornou \u201cbiopsicossocial\u201d. H\u00e1 uma opera\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o do sintoma \u201cpsi\u201d por meio de tr\u00eas opera\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>1) Transforma o normal em normativo: esconde o fato que a norma \u201cpsi\u201d, inacess\u00edvel \u00e0 ci\u00eancia, sempre se fundamenta num julgamento de valor, ou seja, decorre da moral.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>2)Transforma o mental em org\u00e2nico: utiliza-se das estat\u00edsticas para assentar o mental com as ferramentas conceituais aplic\u00e1veis ao organismo. Na falta de poder ver o \u00f3rg\u00e3o mental, cujas disfun\u00e7\u00f5es valeriam para todos, a norma do mental \u00e9 fabricada com estat\u00edsticas que se fazem passar por uma verdade universal.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>3) Utiliza-se do artif\u00edcio do c\u00e1lculo estat\u00edstico for\u00e7ando a passagem do patol\u00f3gico para o normal, da doen\u00e7a mental para a sa\u00fade mental. A m\u00e9dia estat\u00edstica se torna a norma estat\u00edstica e, por fim, a normalidade mental.<\/em><\/p>\n<p>Para se tornar avali\u00e1vel, o sintoma \u00e9 transformado numa grande quantidade de itens simpl\u00f3rios. \u00c9 reduzido a pequenas unidades de comportamentos ou de cogni\u00e7\u00f5es, a fim de encontrar uma significa\u00e7\u00e3o constante, facilmente calcul\u00e1vel. O sintoma \u00e9 reduzido a uma quantidade excessiva a ser corrigida. Desse modo, estabelecem listas de sintomas, ou seja, \u201cfaltas observ\u00e1veis de comportamento e de pensamentos\u201d que sempre esbarram nas quest\u00f5es do ser vivo e sexuado. A inefic\u00e1cia dessa fabrica\u00e7\u00e3o de sintomas impele sempre a inventar outros, principalmente ditos de personalidade. Assim, as TCCs trope\u00e7am sempre no problema da persist\u00eancia dos sintomas e das personalidades desviantes, refrat\u00e1rias \u00e0s recompensas dadas para normatiz\u00e1-las ou faz\u00ea-las desaparecer.<\/p>\n<p>O sintoma \u00e9 concebido como um erro que n\u00e3o tem a ver com a verdade, mas como um erro de consci\u00eancia, do cognitivo. Nessa perspectiva, as terapias da TCCs s\u00e3o aprendizagens padronizadas, met\u00f3dicas e breves.<\/p>\n<p>Por fim, encontramos, nesse empuxo \u00e0 quantifica\u00e7\u00e3o e nesse modo de abordagem terap\u00eautica, a tentativa de desembara\u00e7ar-se do sujeito, do gozo e do real. Por outro lado, o sujeito da experi\u00eancia anal\u00edtica demonstra ser intraduz\u00edvel \u00e0s neuroci\u00eancias e ao c\u00f3digo das TCCs e demonstra como a consist\u00eancia do corpo do falasser depende de uma amarra\u00e7\u00e3o singular.<br \/>\n<em>O corpo sinthomatizado e a presen\u00e7a do analista<\/em><\/p>\n<p>No \u00faltimo ensino de Lacan, o corpo \u00e9 abordado em sua vertente de gozo, em sua vertente real para al\u00e9m do campo da imagem. Para se manter unido, necessita estar amarrado aos registros imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico indicando que sua consist\u00eancia n\u00e3o se d\u00e1 naturalmente, ao contr\u00e1rio, precisa sempre de algum artif\u00edcio para se sustentar. Um corpo relativamente habit\u00e1vel, unificado e est\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 um dado biol\u00f3gico. A maneira como esse corpo se mant\u00e9m e a forma pela qual se d\u00e1 a uni\u00e3o entre o corpo, a subst\u00e2ncia gozante e a fala torna-se para Lacan um verdadeiro mist\u00e9rio (LACAN [1972-73]1985).<\/p>\n<p>Como uma caixa de resson\u00e2ncia, o corpo \u00e9 o lugar onde se experimentam os afetos e as paix\u00f5es, muitas vezes desconhecidos pelo ser falante. Denominar o corpo de \u201cfalante\u201d significa dizer que ele \u00e9 traumatizado por essa l\u00edngua primeira, que deixa marcas de gozo. Nele se deposita o gozo, que n\u00e3o \u00e9 subjetivado e nem transformado em enuncia\u00e7\u00e3o, e, por isso, n\u00e3o pode ser apropriado pelo sujeito. Trata-se, portanto, de um corpo parasitado pela linguagem, marcado por signos que evocam a presen\u00e7a muda de um gozo que ultrapassa o registro f\u00e1lico (MILLER, 1999).<\/p>\n<p>Desse modo, o corpo traumatizado por al\u00edngua se difere radicalmente do corpo, supostamente natural e j\u00e1 dado por antecipa\u00e7\u00e3o da TCC. Para as TCCs, o corpo \u00e9 uma m\u00e1quina, regulado por leis naturais, separado do campo da linguagem, do Outro e especialmente do gozo.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, Laurent, em \u201cO avesso da biopol\u00edtica\u201d (2016), discute como o discurso da ci\u00eancia busca identificar o ser falante ao seu organismo, eliminando o gozo. O discurso da evid\u00eancia org\u00e2nica recorre \u00e0 imagem do corpo para fazer desaparecer o real do gozo. O corpo-m\u00e1quina faz par com o corpo-imagem, por um lado, dividindo esse corpo em unidades sempre mais numerosas e mais complexas, e, por outro, fazendo uma falsa imagem unificada, que se reproduz em variadas telas.\u00a0A forma do corpo, bem como a multiplica\u00e7\u00e3o de suas imagens, fascinam e se oferecem como rem\u00e9dio contra a ang\u00fastia contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cA for\u00e7a da imagem em todos os n\u00edveis \u00e9 encarnar, num objeto separado, o que da l\u00f3gica subjetiva escapa \u00e0 representa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se v\u00ea o sujeito, mas se veem as imagens do corpo, de sua forma e de seu funcionamento. Querer reduzir o sujeito ao seu corpo faz parte da tentativa de identificar o ser falante (<em>\u00eatre parlant<\/em>) ao seu organismo\u201d (LAURENT, 2016, p. 16).<\/p>\n<p>Lacan, ao contr\u00e1rio desse discurso da tecnoci\u00eancia, enfatizou a divis\u00e3o entre o sujeito e sua imagem. A ideia de si mesmo como um corpo implica uma cren\u00e7a, a cren\u00e7a de t\u00ea-lo diante do fato que ele, o corpo, escapa o tempo todo.\u00a0<em>\u201c<\/em>O falasser adora seu corpo, porque cr\u00ea que o tem. Na realidade, ele n\u00e3o o tem, mas seu corpo \u00e9 sua \u00fanica consist\u00eancia, consist\u00eancia mental, \u00e9 claro, pois seu corpo sai fora a todo instante\u201d (LACAN [1975-1976], 2007 p. 64).<\/p>\n<p><a id=\"ref1\"><\/a>\u00c9 o que nos ensina Samantha, uma garota de 12 anos que, ap\u00f3s ter passado por uma TCC e serem constatados problemas relativos ao corpo, nomeados desordem do movimento postural-ocular e d\u00e9ficit de integra\u00e7\u00e3o, chega \u00e0 an\u00e1lise. Tratado como um caso de um organismo defeituoso, como um transtorno, nada do corpo, como caixa de resson\u00e2ncia do gozo de lal\u00edngua, \u00e9 vislumbrado nesse tratamento. Como consequ\u00eancia, seu modo singular de vivifica\u00e7\u00e3o e amarra\u00e7\u00e3o desse corpo vacilante, que amea\u00e7ava escapar o tempo todo, foi desconsiderado. \u00c9 durante o tratamento anal\u00edtico que Samantha inventa uma solu\u00e7\u00e3o validada pela analista: ela passa a se utilizar do cosplay<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tccs#i\"><sup>1<\/sup><\/a>, um recurso imagin\u00e1rio que lhe permitiu dar consist\u00eancia ao seu corpo e proteg\u00ea-lo de um gozo devastador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>AFLALO, A.\u00a0<strong>O assassinato frustrado da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2012.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-1973)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 20<\/strong>: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976)\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro 23<\/strong>: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. As TCCs n\u00e3o fazem parte do programa cognitivo. In:\u00a0<strong>A sociedade do sintoma<\/strong>: a psican\u00e1lise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. El cognitivismo o el cuerpo sinthomatizado. In:\u00a0<strong>Blog-Note del sintoma<\/strong>. Buenos Aires: Tres Haches, 2006.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. El atravesamiento del sistema de la ci\u00eancia. In:\u00a0<strong>El goce sin rostro<\/strong>. Buenos Aires: Tres Haches, 2010.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. O falasser pol\u00edtico. In:<strong>\u00a0O avesso da biopol\u00edtica<\/strong>: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2006.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0\u00a0<strong>Elementos de biologia lacaniana<\/strong>. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 MG, 1999.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a id=\"i\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tccs#ref1\">1.\u00a0<em>Cosplay\u00a0<\/em>\u00e9 um termo em ingl\u00eas, formado pela jun\u00e7\u00e3o das palavras\u00a0<em>costume<\/em>\u00a0(fantasia) e\u00a0<em>roleplay<\/em>\u00a0(brincadeira ou interpreta\u00e7\u00e3o). \u00c9 considerado um hobby no qual os participantes se fantasiam de personagens fict\u00edcios da cultura pop japonesa.<\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tccs#ref1\">\u00a0<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Margaret Pires do Couto Aderente da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o\/UFMG e p\u00f3s-doutora em Teoria Psicanal\u00edtica pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. coutomargaret@gmail.com &nbsp; Resumo:\u00a0O artigo discute como a cren\u00e7a na exist\u00eancia de um corpo natural sustenta a tentativa operada&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57722,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-2065","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2065","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2065"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2065\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57723,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2065\/revisions\/57723"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57722"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2065"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2065"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2065"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}