{"id":2073,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2073"},"modified":"2025-12-01T12:10:05","modified_gmt":"2025-12-01T15:10:05","slug":"tem-alguem-ai1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/tem-alguem-ai1\/","title":{"rendered":"\u00a0Tem algu\u00e9m a\u00ed?1"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Esteban Pikiewicz<\/strong><br \/>\nPsicanalista, membro da EOL\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:epikiewicz@yahoo.com.ar\">epikiewicz@yahoo.com.ar<\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong>\u00a0O autor percorre os textos de Freud e de Lacan buscando elucidar o que estaria implicado na express\u00e3o presen\u00e7a do analista\u201d. Ele destaca a ideia inicialmente desenvolvida por Freud sobre o analista como objeto e retomada por Lacan quanto \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do \u201cdesejo do analista\u201d e do analista enquanto semblante do objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0causa de desejo, vinculando a sua presen\u00e7a ao pr\u00f3prio conceito de inconsciente. Por\u00e9m, acrescenta o autor, trata-se de uma presen\u00e7a real e, nesse sentido, nos reenvia a Lacan para afirmar que h\u00e1, nesse desejo, algo de impuro.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>presen\u00e7a do analista; inconsciente; desejo do analista; objeto<em>\u00a0a<\/em>; real.<\/p>\n<p><strong>IS ANYONE THERE?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract<\/strong>: The author goes through Freud&#8217;s and Lacan&#8217;s texts seeking to elucidate what would be implied in the\u00a0<em>expression.<\/em>: \u201cpresence of the analyst\u201d. He highlights the idea initially developed by Freud about the analyst as object, which is revisited by Lacan regarding the function of the \u201canalyst\u2019s desire\u201d and of the analyst making semblance as \u201c<em>objet a<\/em>\u00a0cause of desire\u201d, linking its presence to the very concept of the unconscious. However, the author adds, it is a real presence and, in this sense, he sends us back to Lacan, to affirm that there is something impure in this desire.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0presence of the analyst; unconscious; analyst&#8217;s desire;\u00a0<em>objet petit a;<\/em>\u00a0real.<strong>\u00a0<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2074\" style=\"width: 615px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/TRILHAMENTOS-_ESTEBAN_PIKIEWICZ-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"605\" data-large_image_height=\"403\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2074\" class=\"wp-image-2074\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/TRILHAMENTOS-_ESTEBAN_PIKIEWICZ-1.jpg\" alt=\"\" width=\"561\" height=\"374\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2074\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. ORA\u00c7\u00c3O<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Do t\u00edtulo e da presen\u00e7a do analista<\/em><\/p>\n<p>O que vou propor \u00e9 um desenvolvimento preliminar, uma aproxima\u00e7\u00e3o ao que foi trabalhado neste semin\u00e1rio sobre a quest\u00e3o da presen\u00e7a e, em particular, da presen\u00e7a do analista. Vou me valer desse termo para tentar vincul\u00e1-lo ao t\u00edtulo desta aula:\u00a0<em>Existe algu\u00e9m a\u00ed?<\/em>\u00a0\u00e9 o t\u00edtulo do livro de um grande poeta argentino, Joaqu\u00edn Giannuzzi (1999), publicado pouco antes de sua morte. O t\u00edtulo assemelha-se a uma significa\u00e7\u00e3o vazia, pois exprime o conjunto de poemas encontrados no livro e n\u00e3o h\u00e1 nenhum poema dentro dele que se intitule assim. O conjunto de poemas, pode-se dizer, circunscreve algo do objeto que \u00e9 o livro, cujo nome \u00e9 o nome pr\u00f3prio do autor. O estilo de Gianuzzi \u00e9 o da ironia, ou humor \u00e1cido, o &#8220;falar&#8221; das coisas cotidianas, insignificantes; da morte, da incerteza, o que se costuma chamar de poesia objetivista.<\/p>\n<p>Agora, a covid-19, como acontecimento, virou nosso cotidiano de cabe\u00e7a para baixo e, portanto, nossa pr\u00e1tica e nossa experi\u00eancia. Isso acentua ainda mais a pergunta: tem algu\u00e9m a\u00ed? A cada vez que se produz o contato entre n\u00f3s por esses meios, ou tamb\u00e9m entre analista-analisando, h\u00e1, de algum modo, uma prepara\u00e7\u00e3o, algo pr\u00e9vio, que se reitera, uma esp\u00e9cie de constata\u00e7\u00e3o ligada a essa insist\u00eancia introdut\u00f3ria nas perguntas \u201cVoc\u00ea me escuta?\u201d, \u201cEles me veem?\u201d, como perguntas sobre esse algu\u00e9m a\u00ed.<\/p>\n<p>Presen\u00e7a: o dicion\u00e1rio diz que se trata da circunst\u00e2ncia de estar ou de existir algo ou algu\u00e9m em determinado lugar. Deriva do latim\u00a0<em>praesentia<\/em>, que descreve esse termo como a qualidade de estar diante. Algo que me parece importante destacar \u00e9 o que se refere \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de algo f\u00edsico, algo que tem uma corporeidade. No dicion\u00e1rio se esclarece que o termo est\u00e1 ligado aos tra\u00e7os de algo ou algu\u00e9m. N\u00e3o tanto ao que o senso comum menciona como a apar\u00eancia, mas sim aos tra\u00e7os. Nessa pandemia, precisamente, em que predomina a coronal\u00edngua, se produz, inversamente, a limita\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a dos corpos.<\/p>\n<p>Sigmund Freud, mediante o sonho da inje\u00e7\u00e3o de Irma (FREUD, 1900\/1996) \u2014 momento fundador da psican\u00e1lise \u2014, constr\u00f3i todo o aparato ps\u00edquico de tr\u00eas, que, como diz Germ\u00e1n Garcia, \u00e9 um aparato pataf\u00edsico, cuja propriedade \u00e9 a de n\u00e3o existir dentro do tempo e do espa\u00e7o euclidiano.<\/p>\n<p>Nesse momento fundador, ele mostra algo que tem o atributo de ser um atrativo, algo que funciona como um \u00edm\u00e3 e que ele chamou de umbigo do sonho. Trata-se de algo que aparece no limite da decifra\u00e7\u00e3o, pela via da f\u00f3rmula qu\u00edmica da trimetilamina \u2014 ela pr\u00f3pria carente de sentido \u2014 e do que se apresenta mais al\u00e9m como indecifr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dez anos mais tarde, quando j\u00e1 havia feito uma pr\u00e1tica de seu invento, encontra algo hom\u00f3logo ao umbigo do sonho. Estamos falando dos escritos t\u00e9cnicos (FREUD, 1912\/1996). Eu me refiro \u00e0 din\u00e2mica da transfer\u00eancia, onde ele encontra a deten\u00e7\u00e3o nas associa\u00e7\u00f5es em seus pacientes. A\u00ed se faz presente um obst\u00e1culo, no qual Freud constata que se trata da pessoa do m\u00e9dico, sua presen\u00e7a. E, por sua vez, ressalta que \u00e9 nesse momento que h\u00e1 uma maior produ\u00e7\u00e3o transferencial: o amor de transfer\u00eancia como obst\u00e1culo.<\/p>\n<p>Assim, pode-se fazer uma s\u00e9rie de met\u00e1foras do irredut\u00edvel: umbigo do sonho; bate-se em uma crian\u00e7a; o\u00a0<em>Kern<\/em>\/<em>osso<\/em>\u00a0de toda neurose; o gr\u00e3o de areia na p\u00e9rola neur\u00f3tica etc. N\u00e3o s\u00e3o esses conceitos, esses termos ou no\u00e7\u00f5es, os que poderiam se articular, fazer uma ponte, uma conex\u00e3o em sua express\u00e3o, com a presen\u00e7a do analista? Lacan, no<em>\u00a0Semin\u00e1rio 1: os escritos t\u00e9cnicos de Freud (1986),\u00a0<\/em>fala da presen\u00e7a do analista &#8220;a brusca percep\u00e7\u00e3o de algo que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil definir, a presen\u00e7a&#8221; (LACAN, 1953-1954\/1986, p. 54) que \u00e9 seu acontecimento e \u201cfrequentemente tinto de ang\u00fastia (LACAN, 1953-1954\/1986, p. 66). Mas acrescenta que h\u00e1 algo na presen\u00e7a que permite ao paciente tomar consci\u00eancia de um enigma, um mist\u00e9rio. Aqui, nesse semin\u00e1rio, falou-se do enigma do mal, como algo cuja presen\u00e7a, enquanto humana, \u00e9 um mist\u00e9rio. Talvez possamos pensar em algo que remeta \u00e0 marca, uma marca. Lacan acrescenta ainda que h\u00e1 algo do enigma que n\u00e3o se pode experimentar constantemente porque se tornaria insuport\u00e1vel. Diz tamb\u00e9m que o humano vive tentando apagar isso que \u00e9 a presen\u00e7a, e n\u00e3o perceber isso que \u00e9 presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Voltando, se Freud forjou o aparelho ps\u00edquico com seus outros tr\u00eas \u2014 refiro-me ao consciente, pr\u00e9-consciente, inconsciente e, mais tarde, Eu-Isso-Supereu \u2014, sabemos que Lacan nos orienta com seus tr\u00eas: imagin\u00e1rio-simb\u00f3lico-real.<\/p>\n<p>Com esses tr\u00eas pode-se ajustar um pouco essa quest\u00e3o, dizer que a presen\u00e7a do analista d\u00e1 conta de algo que n\u00e3o passa pelo simb\u00f3lico \u2014 ou seja, n\u00e3o h\u00e1 associa\u00e7\u00f5es \u2014 nem pela significa\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria. No entanto, se nos remetemos ao\u00a0<em>Semin\u00e1rio 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>, ali se acentua que a presen\u00e7a do analista \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente (LACAN, 2008, p. 121\u2013123). Podemos pensar se existe uma equival\u00eancia entre manifesta\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o do inconsciente. A manifesta\u00e7\u00e3o parece &#8220;direta&#8221;, sem mecanismos que intervenham. Uma forma\u00e7\u00e3o responde a certas leis. Lacan disse que h\u00e1 que integrar essa presen\u00e7a ao conceito de inconsciente. Eu acrescentaria presen\u00e7a do analista enquanto uma presen\u00e7a real. Vimos, anteriormente, nas \u201cConfer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 psican\u00e1lise: a transfer\u00eancia\u201d, de 1916\u20131917, que Freud situa o analista na qualidade de objeto, de objeto no centro da neurose de transfer\u00eancia. Quer dizer, um Freud muito lacaniano no qual a presen\u00e7a, ent\u00e3o, que \u00e9 inconsciente, na medida em que est\u00e1 inclu\u00edda no pr\u00f3prio conceito de inconsciente, aparece onde imagens e palavras claudicam. Em suma, \u00e9 o que j\u00e1 conhecemos como institui\u00e7\u00e3o do objeto\u00a0<em>a<\/em>, o parceiro essencial do sujeito, a essa altura (<em>Semin\u00e1rio 11<\/em>), causa do desejo.<\/p>\n<p>Por que raz\u00e3o, ou por que, \u00e9 relevante que, reproduzida essa neurose de transfer\u00eancia, nos encontremos com esse obst\u00e1culo que evidencia, com a presen\u00e7a, que ali n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria ou representa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, me atrevo a enfatizar que, justamente pela via dessa presen\u00e7a real do analista, sugere que n\u00e3o se trata apenas de interpreta\u00e7\u00e3o ali. Ou, pelo menos, tamb\u00e9m deixo como proponho: trata-se \u2014 diria \u2014 de uma opera\u00e7\u00e3o que p\u00f5e em jogo, justamente, as sucessivas defini\u00e7\u00f5es que nos s\u00e3o apresentadas sobre o que \u00e9 interpretar. Ou uma interpreta\u00e7\u00e3o que tem a ver com presen\u00e7a, ou seja, ligar algo ali com as varia\u00e7\u00f5es e voltas que podem ser dadas sobre o que ser\u00e1 interpretar, ou, se preferir, a diferen\u00e7a entre ato e interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se o semin\u00e1rio sobre os conceitos fundamentais da psican\u00e1lise \u00e9 um semin\u00e1rio que tem o car\u00e1ter de dobradi\u00e7a, no qual o ensino de Lacan come\u00e7a a dar uma guinada em torno da conceitua\u00e7\u00e3o desse objeto \u2014 o objeto\u00a0<em>a<\/em>, causa do desejo \u2014, isso se estrutura em torno dessa fun\u00e7\u00e3o que chamamos a fun\u00e7\u00e3o de causa do desejo: o objeto\u00a0<em>a<\/em>, analista. Precisamente, o cap\u00edtulo 10 do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 11<\/em>\u00a0se intitula \u201cA presen\u00e7a do analista\u201d (LACAN, 2008).<\/p>\n<p><em>Presen\u00e7a e amor real<br \/>\n<\/em><br \/>\nPenso que \u00e9 muito interessante sublinhar algumas coisas, como fiapos. Primeiro, Lacan diz que \u00e9 um termo muito bonito, ele o expressa assim. Em segundo lugar, para retomar algo que indiquei antes \u2014 essa presen\u00e7a e a transfer\u00eancia \u2014, Lacan ali come\u00e7a a debater com os p\u00f3s-freudianos sobre a transfer\u00eancia; se nomeiam a transfer\u00eancia como um sentimento, se se trata de ambival\u00eancia, separa-se a transfer\u00eancia da repeti\u00e7\u00e3o, etc. Mas ele enfatiza novamente a quest\u00e3o da transfer\u00eancia e o problema de saber se ali se trata como significa\u00e7\u00e3o \u2014 o amor como algo aut\u00eantico \u2014, nesse ponto m\u00e1ximo suscitado pela presen\u00e7a do analista. Um amor que, poder\u00edamos dizer, n\u00e3o \u00e9 identifica\u00e7\u00e3o, mas que est\u00e1 do lado do real. Ele tamb\u00e9m usa outra palavra, que \u00e9 a palavra ess\u00eancia. Ele a usa apenas uma vez para se referir a algo desse amor e, tamb\u00e9m, \u00e0 presen\u00e7a. O significado de ess\u00eancia \u00e9 interessante. Segundo o dicion\u00e1rio, significa, entre outros significados, algo permanente, invari\u00e1vel, que n\u00e3o muda em rela\u00e7\u00e3o a uma coisa. Trata-se, justamente, de que essa presen\u00e7a \u00e9 a que d\u00e1 testemunho, ou seja, &#8220;h\u00e1 algu\u00e9m ali&#8221; presente. E de que coisa essa presen\u00e7a testemunha? Da perda que \u00e9 origin\u00e1ria, sem compensa\u00e7\u00e3o, sem saldo a favor do sujeito que fala. Algo que, por sua vez, faz a posi\u00e7\u00e3o do analista, um lugar (e o acentua) que \u00e9 muito conflitante.<\/p>\n<p>Vou tentar dizer de outra forma, com no\u00e7\u00f5es que s\u00e3o limites: falta de rememora\u00e7\u00e3o, algo opaco, misterioso na presen\u00e7a; uma falta de significa\u00e7\u00e3o \u2014 mas uma significa\u00e7\u00e3o quase absoluta que \u00e9 o amor \u2014 e que n\u00e3o remete \u00e0 verdade. \u00c9 a transfer\u00eancia como resist\u00eancia, o fechamento do inconsciente enquanto puls\u00e1til. Ou, como Lacan o chama em uma antecipa\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica, um n\u00f3 g\u00f3rdio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nesse limite, o analista, ali em sua opera\u00e7\u00e3o, atua ou n\u00e3o atua? Opera ou n\u00e3o opera? Interv\u00e9m, interpreta? Atrav\u00e9s do eco? Pela resson\u00e2ncia? Por algo que lhe vem de suas pr\u00f3prias marcas, de suas pr\u00f3prias cicatrizes como o analisante que \u00e9 ou o analisante que foi?<br \/>\nInevitavelmente, poderia surgir algo que aparece indiretamente ali, ou ligado ali, no lugar do analista: a pergunta se se trata de algo que implica a fun\u00e7\u00e3o do desejo do analista com um algo a mais.<\/p>\n<p>Porque fun\u00e7\u00e3o, reconhe\u00e7amos, \u00e9 aquilo que, em Lacan, remete a sua ambi\u00e7\u00e3o de ter feito da experi\u00eancia e da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise uma disciplina absolutamente l\u00f3gica, matematiz\u00e1vel, reduzida a f\u00f3rmulas, sem equ\u00edvocos. Mas surge a\u00ed algo interessante, pois, para formular isso, no final do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 11<\/em>, Lacan vai dizer que o desejo do analista \u00e9 impuro (2008, p. 260). Portanto, se o desejo do analista \u00e9 impuro, parece-me que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para n\u00e3o pensar a fun\u00e7\u00e3o do analista como tocada, salpicada de algo de uma impureza.<\/p>\n<p>Lacan diz que, se se trata do desejo de obter a diferen\u00e7a absoluta, essa diferen\u00e7a absoluta o \u00e9 na medida em que implica tocar, obter a\u00ed algo de uma marca: isso que \u00e9 diferen\u00e7a, mas enquanto absoluta. Parece-me que o absoluto n\u00e3o se refere ao todo, mas a algo \u00e0 parte. Eu diria, \u00e9 isso que, na medida em que \u00e9 absoluto, n\u00e3o \u00e9 permut\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 modific\u00e1vel. O significante, por outro lado, \u00e9 permut\u00e1vel, intercambi\u00e1vel um pelo outro.<\/p>\n<p>A pergunta que me fazia era: n\u00e3o seria essa impureza o que levaria Lacan, nos pr\u00f3ximos dez anos, a deixar e abandonar tudo o que \u00e9 l\u00f3gica, a matematiza\u00e7\u00e3o, discursos, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica anal\u00edtica? N\u00e3o \u00e9 justamente a partir do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 11<\/em>\u00a0que o psicanalista est\u00e1 posto no banco?<\/p>\n<p>Se o semblante \u00e9 aquilo que tem a ver com um vazio e uma significa\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo (\u00e9 a defini\u00e7\u00e3o um pouco mais rudimentar de semblante), ou dito a partir dos tr\u00eas registros, ele implica algo real bordejado, circunscrito, ajustado pelo imagin\u00e1rio\/simb\u00f3lico, a fun\u00e7\u00e3o do analista pela via do desejo acaba por permanecer pelo que ela tem a ver com a presen\u00e7a. Esse limite, essa apari\u00e7\u00e3o, talvez a marca \u2014 e aqui acrescento algo mais \u2014 seja a encarna\u00e7\u00e3o disso, encarnando-se ali como tal. A coisa impura tem a ver com a encarna\u00e7\u00e3o disso.<\/p>\n<p><em>Do estilo como presen\u00e7a encarnada<\/em><\/p>\n<p>Desvio-me um pouco. Eu lhes falei de Giannuzzi, do estilo. E quero me valer de algo da refer\u00eancia ao estilo que Jorge Faraoni havia utilizado; Ricardo Gandolfo tamb\u00e9m falou em um certo momento sobre o estilo, quando se trabalhou no semin\u00e1rio algumas dessas aulas sobre o tema.<\/p>\n<p>Para dizer apenas algumas coisas, certamente, mais tarde, voc\u00eas poder\u00e3o, melhor do que eu, adicionar algumas refer\u00eancias sobre isso, pois meu coment\u00e1rio sobre estilo n\u00e3o \u00e9 exaustivo; do que se trata? A pergunta t\u00e1cita que agora exponho \u00e9: est\u00e1 ou n\u00e3o em jogo o estilo do analista? A fun\u00e7\u00e3o &#8220;desejo do analista&#8221;, estando na veia lacaniana da l\u00f3gica, da matematiza\u00e7\u00e3o, frente a isso, o estilo \u00e9 isso que, me atreveria a dizer, se aproxima dessa outra quest\u00e3o, digamos, &#8220;n\u00e3o l\u00f3gica&#8221;, a presen\u00e7a encarnada; onde a fun\u00e7\u00e3o, em sua pureza, devido \u00e0 impureza, vacila um pouco, n\u00e3o se faz suficiente.<\/p>\n<p>Voltemos ent\u00e3o a nos colocar nesse lugar, no lugar do semblante do objeto\u00a0<em>a<\/em>, n\u00e3o represent\u00e1vel, n\u00e3o significante, mas que, por enquanto, vale como significante, como esclarece Jacques-Alain Miller. A aposta que o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um significante, mas vale como significante, responde a esse af\u00e3 lacaniano da matematiza\u00e7\u00e3o, da l\u00f3gica, das f\u00f3rmulas, mas, diria, marcado por algo que aparece, uma presen\u00e7a, um algo impuro em rela\u00e7\u00e3o a ele. Pode-se dizer que \u00e9 algo a mais, pois \u00e9 encarnado.<\/p>\n<p>Eu vou dizer de outra forma. A fun\u00e7\u00e3o do analista como um significante qualquer, mas ao n\u00edvel do a como presen\u00e7a do analista, encarna\u00e7\u00e3o desse algo, se trata de algu\u00e9m. E, a esse respeito, me apoio em uma frase de Germ\u00e1n Garc\u00eda. Voc\u00ea poder\u00e1 encontr\u00e1-la em um de seus livros (que s\u00e3o uma s\u00e9rie de cursos que Germ\u00e1n deu no norte da Argentina), intitulado\u00a0<em>Derivas analiticas del siglo: ensayos y errores<\/em>\u00a0(2014). \u00c9 um curso de 1988, uma compila\u00e7\u00e3o de todas as aulas em que Germ\u00e1n Garc\u00eda, quando fala do semblante, diz:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201c(&#8230;) quer dizer, como diz Lacan, poder ser um objeto qualquer para depois ter um nome. Se se diz que o analista \u00e9 qualquer um, deve-se dizer tamb\u00e9m que o analista \u00e9 sempre algu\u00e9m, e que algu\u00e9m tem um nome, o \u00fanico tra\u00e7o que o analista p\u00f5e em jogo \u00e9 o de um nome, os demais s\u00e3o postos pelo analisante\u201d (GARC\u00cdA, 2014, p. 45. Tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Se tomarmos esse ponto pela via do estilo, sabe-se que, em linhas gerais, o estilo \u00e9 algo que se trabalha e \u00e9 muito trabalhado no campo da est\u00e9tica, da arte, da literatura, enfim, da cria\u00e7\u00e3o. Mas aceita-se que n\u00e3o se trata tanto do autor em si, do nome pr\u00f3prio, mas da obra, que o estilo esteja em sintonia com o objeto de que se trata.<\/p>\n<p>Por exemplo, Witold Gombrowicz prop\u00f4s incomodar com estilo. Poder-se-ia dizer que \u00e9 em sua literatura que existe o tra\u00e7o do desconforto, o estilo, mais al\u00e9m do pr\u00f3prio Gombrowicz. Na tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, estilo refere-se a algo que \u00e9 singular, algo que \u00e9 um tra\u00e7o destacado dentro do que \u00e9 um movimento cultural, dentro de um autor, de um momento cultural, uma \u00e9poca.<\/p>\n<p>Isto tamb\u00e9m \u00e9 interessante: h\u00e1 um tra\u00e7o do que poderia ser pensado como o humano, a condi\u00e7\u00e3o disso que, por sua vez, \u00e9 alcan\u00e7ada. H\u00e1 uma est\u00e9tica acabada, n\u00e3o modific\u00e1vel no n\u00edvel do que se alcan\u00e7a no objeto\u00a0<em>a<\/em>rt\u00edstico e que, por sua vez, tem uma aura enigm\u00e1tica, de mist\u00e9rio. Novamente Germ\u00e1n Garc\u00eda vem em meu aux\u00edlio; no mesmo livro, algumas p\u00e1ginas depois, ele diz algo que me parece relacionado comisso do estilo. Se o Real implica esse gozo relativo ao corpo, aproximamo-nos ent\u00e3o da presen\u00e7a como o que ela encarna. Cito Germ\u00e1n Garc\u00eda:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cNo real a pergunta \u00e9 de que goza [enquanto corpo e de que se goza]&#8230; A frase de Lacan \u2018o desejo do analista n\u00e3o \u00e9 um desejo puro\u2019 \u00e9 um desejo conectado a um corpo, a uma subst\u00e2ncia gozante. Quer dizer que o enigma da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 um eco do enigma do pr\u00f3prio gozo do analista\u201d (GARC\u00cdA, 2014, p. 50. Tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Ou seja, haveria um estilo do analista enla\u00e7ado ao nome pr\u00f3prio, que faz o estilo enquanto uma presen\u00e7a. Um tra\u00e7o que tem algo est\u00e9tico, uma forma acabada, singular, e que \u00e9 eco do pr\u00f3prio gozo do analista, \u00e9 uma maneira que encontrei de dar uma volta na frase de Germ\u00e1n. Tens\u00e3o com o Lacan anterior aos\u00a0<em>Semin\u00e1rios 10 e 11<\/em>. Dado que, se Lacan estava extremando esse af\u00e3 l\u00f3gico, matematiz\u00e1vel, de nos propor o inconsciente estruturado como discurso, chegando a preferir um discurso sem palavras, para depois dizer que n\u00e3o h\u00e1 mais do que semblante, vemos que, j\u00e1 no fim do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 19, ou pior<\/em>&#8230;, come\u00e7a a dizer, a assinalar, a situar que h\u00e1 algo a respeito disso que se imp\u00f5e, do que aparece. Nessa inst\u00e2ncia, o chama de um suporte para esse giro dos discursos e nos diz \u201c(&#8230;) fazer desse de-ser o suporte com esse des-ser de ser o suporte&#8230;\u201d (LACAN, 2012 p. 226).<\/p>\n<p>Acrescenta: \u201c(&#8230;) se existe algo que se chame discurso anal\u00edtico, isso se deve a que o analista em corpo, com toda a ambiguidade motivada por esse termo, instala o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0no lugar do semblante. (LACAN, 2012 p. 222)\u201d.<\/p>\n<p>Quer dizer, temos o discurso, o objeto, o semblante e o corpo. Ent\u00e3o, se estou tratando de transmitir, de expor nesses apontamentos, \u00e9 porque me parece que, diante da reformula\u00e7\u00e3o lacaniana \u2014 a partir dos semin\u00e1rios 10 e 11 \u2014, da pr\u00e1tica e da experi\u00eancia anal\u00edtica, surge a pergunta se se trata de um corte. Podemos debater se \u00e9 um corte ou uma continuidade topol\u00f3gica. S\u00e3o debates. Isso porque uma das raz\u00f5es (entre outras) \u00e9 essa encarna\u00e7\u00e3o, esse no corpo (un corps, hom\u00f3fono de encore) que come\u00e7a a ter toda uma presen\u00e7a diferente em nossa pr\u00e1tica, na experi\u00eancia, no ensino, na sua rela\u00e7\u00e3o (se houver) com o lugar do analista. Tamb\u00e9m me atrevo a assinalar que, de modo geral, acostumamo-nos a falar do gozo como pulsional. \u00c9 o mais cl\u00e1ssico entre n\u00f3s. Articulado, certamente, ao objeto. \u00c9 por isso que o analista representa, ou est\u00e1 nesse lugar; ele \u00e9 semblante de objeto. Por isso, temos a parte elabor\u00e1vel desse gozo.<\/p>\n<p>Mas a ideia seria a seguinte: se n\u00e3o \u00e9, precisamente, pelo semblante de objeto\u00a0<em>a<\/em>, a partir dos semin\u00e1rios 20 e 21, que aparece a presen\u00e7a por essa encarna\u00e7\u00e3o nesse lugar e nessa fun\u00e7\u00e3o impura do desejo do analista, que se revela ou se afirma a quest\u00e3o de um gozo que n\u00e3o \u00e9 somente pulsional. Ou, dito de outro modo: se o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0(do qual o analista \u00e9 semblante) \u00e9 o elabor\u00e1vel do gozo, resta ao analista, em presen\u00e7a, ser aquele que encarna o n\u00e3o elabor\u00e1vel do gozo. Se podemos pensar que se possa tocar em algo desse aspecto do gozo, nomear, incidir sobre ele, para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 imprescind\u00edvel a presen\u00e7a. Mesmo que ela n\u00e3o garanta que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>O semblante se vincula, se ajusta, ele implica em si um vazio. Por isso, Miller assinala: \u201c(&#8230;) se Lacan se lan\u00e7ou aos n\u00f3s, foi para tentar lhe dar, fora da articula\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica saussuriana, dar subst\u00e2ncia a esse vazio\u201d (MILLER, 2008).<\/p>\n<p>Visto de um outro \u00e2ngulo, se diria que j\u00e1 n\u00e3o se trata de um s\u00f3 gozo. Sim, do campo do gozo, mas pluralizado. Por isso a quest\u00e3o do corpo e seu mist\u00e9rio falante faz sua apari\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir do texto \u201cA Terceira\u201d (sobre o qual lhes recomendo \u201cLeituras da Terceira\u201d, texto de Gabriela Rodr\u00edguez e outras colegas de La Plata) que encontramos os tr\u00eas registros lacanianos no esquema do n\u00f3 aplanado. Na base de tal esquema, encontramos o objeto\u00a0<em>a<\/em>. Deixando de lado o que, a partir desse esquema, ser\u00e1 o desenvolvimento do ensino de Lacan em torno dos n\u00f3s, me interessa fixar em uma recomenda\u00e7\u00e3o lacaniana nesse texto. Para se referir ao analista, Lacan utiliza figuras e personagens como o palha\u00e7o, o buf\u00e3o. E aconselha a n\u00e3o o imitar e fazer como ele: descontra\u00eddos, naturais, sem presun\u00e7\u00f5es, buf\u00f5es, palha\u00e7os. Por que motivo Lacan incorpora essas figuras do palha\u00e7o, do buf\u00e3o e as relaciona com o analista quando este est\u00e1 formulando um mais al\u00e9m da matematiza\u00e7\u00e3o, do Nome-do-Pai, do falo? A maneira que encontrei de abordar essa pergunta foi atrav\u00e9s disto, que trato de lhes colocar: a presen\u00e7a, o corpo, a encarna\u00e7\u00e3o ali do analista.<\/p>\n<p><em>O gesto inesquec\u00edvel<\/em><\/p>\n<p>Para aproximarmos a responder algo sobre isso, pode-se mostrar com um exemplo muito conhecido e difundido entre n\u00f3s. Um, ao menos assim me parece, que abona o que venho desenvolvendo. \u00c9 o conhecido testemunho de Suzanne Hommel. Esse testemunho exp\u00f5e, no meu entender, que ali se tratou de uma opera\u00e7\u00e3o de Lacan, por sua presen\u00e7a em corpo com esse gesto leve na pele de Suzanne Hommel, quando ela fala repetida e insistentemente de seu sofrimento, de se despertar sempre \u00e0s cinco da manh\u00e3 com a recorda\u00e7\u00e3o atormentadora da Gestapo, do Holocausto, da persegui\u00e7\u00e3o aos judeus. E, quando Lacan salta da cadeira do analista, de modo surpreendente, acaricia suave e levemente sua bochecha, \u00e9 ela quem depois interpreta translinguisticamente Gestapo (do alem\u00e3o) por\u00a0<em>geste \u00e0 peau<\/em>\u00a0\u2014 em franc\u00eas \u201cgesto na pele\u201d.<\/p>\n<p>Gesto lacaniano que \u00e9 bufonesco. Esclarecendo o seguinte: n\u00e3o caiamos rapidamente em pensar que o buf\u00e3o (que tamb\u00e9m tem sua origem, sua inser\u00e7\u00e3o, tal como o menestrel, no popular, para o povo) era somente a divers\u00e3o e o canto na corte. Tamb\u00e9m aliviava os sofredores. Ele ia ou se aproximava do leito dos enfermos, dos enterros, ou do que poderiam ser, nessa \u00e9poca, os enterros. V\u00e1 saber se havia enterros como existem agora. Mas havia algo do buf\u00e3o (como tamb\u00e9m o menestrel) acompanhar ali, em presen\u00e7a, aquele que sofria, no limite da vida. A tal ponto que era a Igreja que se encontrava muito incomodada a respeito dessa fun\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o recorriam a ela. E com uma habilidade que, creio ser atribu\u00edda a Assis, o santo, que se pode, com alguma manobra, captar isso para o interior da religi\u00e3o. Porque o buf\u00e3o cumpria uma fun\u00e7\u00e3o que a religi\u00e3o n\u00e3o cumpria, que tinha a ver com isso da vida que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o gracioso. Ent\u00e3o, recordemos que temos que associar isso tamb\u00e9m ao bufonesco e aos menestr\u00e9is. Como aqueles que tinham o nome pr\u00f3prio como algo singular, relativo a algo corporal, a um tra\u00e7o que os caracterizava. Algo como uma deformidade, ou defeito particular do corpo, e que, com isso, lhes permitia exercer essa fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, teatral, comediante, de cantos, ou seja, uma esp\u00e9cie de um condensado da condi\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o tanto por suas caracter\u00edsticas de brilho, etc. E Suzanne Hommel diz: o gesto de Lacan \u00e9 um gesto de humanidade. Porque introduziu um algo a mais vivo, que ela diz, at\u00e9 hoje, sentir na pele, ainda que o sofrimento, como rememora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o cesse. Mas, para ela, algo ali est\u00e1 amortecido, algo est\u00e1 ali capturado, tocado nesse\u00a0<em>geste \u00e0 peau<\/em>\u00a0que lhe trouxe um mais de vida e um menos de sofrimento iterativo. Creio que esse \u00e9 um gozo que n\u00e3o podemos classificar de pulsional, que se introduz com esse gesto, esse ato de Lacan, mais al\u00e9m do sentido e da l\u00f3gica f\u00e1lica.<\/p>\n<p>O outro exemplo, no qual vou me apoiar e vou resumir brevemente, talvez voc\u00eas o conhe\u00e7am. \u00c9 um dos testemunhos de Berta Mildner, publicado na revista Lacaniana. Mildner explica que, ao longo de sua experi\u00eancia, sempre teve imbr\u00f3glios com o corpo. Fazia dos livros um recurso permanente, ao saber exposto neles, e que se manifestava nela como altera\u00e7\u00f5es da respira\u00e7\u00e3o. Uma respira\u00e7\u00e3o constantemente agitada. E que, diante da insist\u00eancia disso, h\u00e1 uma interven\u00e7\u00e3o do analista que lhe disse: \u201cesse saber n\u00e3o lhe serve para nada\u201d (MILDNER, 2017, p. 59). Primeiro ela o localiza assim. Sil\u00eancio. Sil\u00eancio do analista.<\/p>\n<p>Quer dizer, fazer sentir uma presen\u00e7a ali pelo sil\u00eancio. Ela assinala que o efeito disso \u00e9 uma grande e intensa ang\u00fastia. Apontamos, de passagem, que j\u00e1 falamos disso. Lacan afirma, em \u201cA Terceira\u201d, sobre a ang\u00fastia como sintoma tipo articulado ao corpo. E Mildner diz: \u201csepara\u00e7\u00e3o m\u00e1xima entre o corpo e as palavras\u201d (2017 p. 59). E s\u00f3 uma recorda\u00e7\u00e3o. A \u00faltima das lembran\u00e7as encobridoras \u00e9 produto de um relato do Outro materno. Ela era muito pequena, com crise de bronquite e agita\u00e7\u00e3o. Corre \u00e0s emerg\u00eancias m\u00e9dicas. Diante dessa recorda\u00e7\u00e3o, ela chora e chora e n\u00e3o h\u00e1 mais que choro. Sem parar. H\u00e1 uma interven\u00e7\u00e3o nesse relato, de um pediatra \u2014 nessa recorda\u00e7\u00e3o materna \u2014 que recomenda algo absolutamente natural: ar livre, que respire ar livre, ar fresco. Uma segunda interven\u00e7\u00e3o do analista, ela diz: \u201cA interven\u00e7\u00e3o do analista foi nomear isso como o trauma\u201d (MILDNER, 2017, p. 60). O que diz Mildner em seu trabalho? H\u00e1 queda de todo sentido, esvaziamento do sentido, um vazio, mas com um nome. Surge-lhe uma imperiosa ang\u00fastia, uma vontade de ir ver o analista e lhe falar, como retorno transferencial. \u00c9 muito interessante porque ela diz que, no meio da sess\u00e3o, levanta-se bruscamente do div\u00e3, senta-se diante do analista e lhe fala da l\u00f3gica do seu fantasma, do analista como objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0olhar, o \u201cdizer silencioso\u201d (MILDNER, 2017, p. 60). E que, tratando de recuperar o analista-olhar, mais e mais&#8230; surpresa. Aqui surge o interessante, que ela ressalta. Frente a frente ao analista, Mildner ressalta que lhe parecia a pura presen\u00e7a do corpo, de olhos fechados, analista angustiado. Poder\u00edamos dizer apari\u00e7\u00e3o, pura presen\u00e7a do analista enquanto corpo, olhos fechados: \u201cencontrei o analista fazendo semblante do acontecimento de corpo (MILDNER, 2017, p. 60)\u201d. E, depois, outra surpresa. Cito: \u201cSa\u00ed da sess\u00e3o com uma vitalidade desconhecida, plus de vida, sem Outro, que transformaria o modo de viver o corpo\u201d (MILDNER, 2017, p. 60).<\/p>\n<p>Nenhum sentido, efeito de um outro enodamento, um vazio de significa\u00e7\u00e3o. E dir-se-ia \u201ctudo\u201d (o tudo \u00e9 ir\u00f4nico) pela presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Me vali da no\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a do analista e de todas essas derivadas, que entendo ter uma caracter\u00edstica inconclusa, insuficiente, porque abre muitas pontas: marca, objeto, semblante, interpreta\u00e7\u00e3o, opera\u00e7\u00e3o, encarna\u00e7\u00e3o, fun\u00e7\u00e3o do desejo do analista impuro, o corpo, etc. Por\u00e9m, em todo caso, me surgia a pergunta se podemos fazer como Lacan diz: \u201cnatural\u201d, sejam naturais, sejam soltos, palha\u00e7os, buf\u00f5es. Ou como tamb\u00e9m diz no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 21, \u201cLes non dupes-errent\u201d<\/em>: recome\u00e7o.<\/p>\n<p>Voltaria ao t\u00edtulo: Tem algu\u00e9m a\u00ed? Por que volto ao t\u00edtulo? Porque, com essa no\u00e7\u00e3o da qual me vali, presen\u00e7a do analista, para aproximar-me desse limite, desse lugar limite, disso que n\u00e3o se pode elaborar, dessa opacidade, desse gozo mais al\u00e9m, mais al\u00e9m do Nome-do-Pai, podemos colocar os nomes que voc\u00eas quiserem&#8230; Minha pergunta, ent\u00e3o, \u00e9: o que a\u00ed se pode obter da an\u00e1lise como marca disso? Germ\u00e1n Garc\u00eda disse por a\u00ed que a marca e\/ou as marcas de uma an\u00e1lise s\u00e3o as cicatrizes da experi\u00eancia. Ou, sen\u00e3o, como diria \u00c9ric Laurent, enquanto o \u201cinesquec\u00edvel\u201d dela. Como Suzanne Hommel o testemunha. \u00c9 inesquec\u00edvel. Algo ali \u00e9 inesquec\u00edvel. Ou, se a marca ou as marcas dizem respeito a esse gozo indecifr\u00e1vel, \u201cfazer-se uma conduta com seu gozo\u201d (OSCAR, 2012, p. 100).<\/p>\n<p>Outra maneira de dizer o que poderia se esperar, entre outras coisas, da experi\u00eancia de uma an\u00e1lise, eu encontrei na poesia de Joaqu\u00edn Giannuzzi, de quem lhes falei no princ\u00edpio e que me impulsionou a intitular a exposi\u00e7\u00e3o \u201cTem algu\u00e9m a\u00ed?\u201d. Eu a transmito com um poema que lerei a voc\u00eas, porque entendo que expressa algo disso que apresentei. Chama-se \u201cUma palavra virgem\u201d:<\/p>\n<p><em>S\u00f3 ela sobreviveu<\/em><br \/>\n<em>de um texto que esqueci. Desde ent\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>\u00e9 presen\u00e7a musical em minha cabe\u00e7a.<\/em><br \/>\n<em>Era-me desconhecida e, no entanto,<\/em><br \/>\n<em>mantive fechado o dicion\u00e1rio<\/em><br \/>\n<em>onde segue esperando, em estado puro,<\/em><br \/>\n<em>para entregar-me seu segredo. Deste modo<\/em><br \/>\n<em>preferi livr\u00e1-la da servid\u00e3o do significado<\/em><br \/>\n<em>e criar-lhe um para\u00edso contra o conhecimento.<\/em><br \/>\n<em>Resgatada<\/em><br \/>\n<em>do contexto e da confus\u00e3o conservo-a<\/em><br \/>\n<em>como uma joia pessoal.<\/em><br \/>\n<em>Agora, nas noites de ins\u00f4nia,<\/em><br \/>\n<em>quando o nome das coisas cai na fadiga<\/em><br \/>\n<em>apalpo-a e saboreio<\/em><br \/>\n<em>como a uma mulher amada na escurid\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>Somente seu som, sem identidade, sem assunto,<\/em><br \/>\n<em>percorre sussurrando minhas entranhas:<\/em><br \/>\n<em>hip\u00e1lage, hip\u00e1lage, hip\u00e1lage.<\/em><br \/>\n<em>Algo deve haver ali dentro que resiste<\/em><br \/>\n<em>como um desconhecido gozo triunfante.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Tradutores:<\/strong>\u00a0J\u00f4natas Cass\u00e9te e Luciana Romagnolli<\/h6>\n<h6><strong>Revisora:<\/strong>\u00a0Renata Mendon\u00e7a<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1900). A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos.\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud.<\/strong>\u00a0v. IV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1912). A din\u00e2mica da transfer\u00eancia.\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, v. XII,.<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1917). Confer\u00eancias introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise.\u00a0<strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud.<\/strong>\u00a0v. XVI, Rio de Janeiro: Imago, 1996.<\/h6>\n<h6>GIANUZZI, J.\u00a0<strong>Obra completa.<\/strong>\u00a0Buenos Aires: Ediciones del Dock, 1999.<\/h6>\n<h6>GARC\u00cdA, G.\u00a0<strong>Diversiones psicoanal\u00edticas.<\/strong>\u00a0Buenos Aires: Otium Ediciones, 2014.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio. Livro 19:\u2026 ou pior<\/strong>. Zahar: Rio de Janeiro, 2012.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro I: os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/strong>\u00a0(1953-54), 3\u00aa Edi\u00e7\u00e3o, Rio de Janeiro: Zahar, 1986.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<strong>O semin\u00e1rio, livro XI: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/strong>\u00a0(1964). Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>MILDNER, B.\u00a0<strong>De la resoluci\u00f3n matem\u00e1tica al r\u00e9gimen del encuentro.<\/strong>\u00a0Lacaniana, 22, Buenos Aires: Grama, abril 2017.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<strong>Sutilezas Anal\u00edticas. Buenos Aires: Paid\u00f3s<\/strong>, 2008, li\u00e7\u00e3o de 8 de abril, p.246.<\/h6>\n<h6>OSCAR, Z.\u00a0<strong>Los decires del amor.<\/strong>\u00a0Buenos Aires: Grama, 2012.<\/h6>\n<h6>RODRIGUEZ, G.\u00a0<strong>Lecturas de la Tercera.<\/strong>\u00a0Buenos Aires: Tres Haches, 2019.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a id=\"referencia\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/tem-alguem-ai#ref1\">1. Publicado em:\u00a0 Vaschetto, E.,Faraoni,J.(coord.)\u00a0 \u00bfPodemos vivir en una civilizaci\u00f3n sin Dios? Segundas Marcas. Seminarios de Psicoan\u00e1lisis. Barcelona:Xoroi Edicions, 2021\u00a0<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esteban Pikiewicz Psicanalista, membro da EOL\/AMP epikiewicz@yahoo.com.ar &nbsp; Resumo:\u00a0O autor percorre os textos de Freud e de Lacan buscando elucidar o que estaria implicado na express\u00e3o presen\u00e7a do analista\u201d. Ele destaca a ideia inicialmente desenvolvida por Freud sobre o analista como objeto e retomada por Lacan quanto \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do \u201cdesejo do analista\u201d e do&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57726,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-2073","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2073","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2073"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2073\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57727,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2073\/revisions\/57727"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57726"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}