{"id":2077,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2077"},"modified":"2025-12-01T12:10:34","modified_gmt":"2025-12-01T15:10:34","slug":"a-presenca-real-na-analise1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/a-presenca-real-na-analise1\/","title":{"rendered":"A presen\u00e7a real na an\u00e1lise1"},"content":{"rendered":"<h6><strong>GILLES CHATENAY<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, AME da ECF\/AMP<br \/>\n<span id=\"cloakbdfb6b0ba07703f1f74d69fab93d8036\"><a href=\"mailto:gilles.chatenay@orange.fr\">gilles.chatenay@orange.fr<\/a><\/span><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong>A partir dos cap\u00edtulos XVI, XVII e XVIII do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 8: A transfer\u00eancia<\/em>, de Jacques Lacan, o texto se prop\u00f5e a delimitar o que realmente est\u00e1 presente em uma an\u00e1lise sobre\u00a0a express\u00e3o \u201cpresen\u00e7a real\u201d.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>presen\u00e7a real; transfer\u00eancia; falo; castra\u00e7\u00e3o, inconsciente.<\/p>\n<p><strong>THE REAL PRESENCE IN THE ANALYSIS<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0From chapters XVI, XVII and XVIII of the\u00a0<em>Seminar 8: The transference<\/em>, by Jacques Lacan, the text proposes to delimit what is really present in an analysis of the\u00a0expression \u201creal presence\u201d.<\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>real presence; transference; phallus; castration, unconscious.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2078\" style=\"width: 985px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/TRILHAMENTOS-_GILLES_CHATENAY.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"975\" data-large_image_height=\"1347\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2078\" class=\"wp-image-2078\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/TRILHAMENTOS-_GILLES_CHATENAY-741x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"467\" height=\"646\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2078\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. S\/T<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Orientei minha leitura dos cap\u00edtulos XVI, XVII e XVIII do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 8: A transfer\u00eancia\u00a0<\/em>pelos termos de &#8220;presen\u00e7a real&#8221; (LACAN, 1960-61, p. 246-58). Tentei delimitar o que realmente est\u00e1 presente numa an\u00e1lise. \u00c9 uma quest\u00e3o crucial, pois se n\u00e3o houvesse a presen\u00e7a do real em uma an\u00e1lise, parece-me que ela seria apenas um jogo de ilus\u00f5es.<\/p>\n<p><strong><em>Signo, s\u00edmbolo, significante<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O cap\u00edtulo que Jacques-Alain Miller intitulou &#8220;A presen\u00e7a real\u201d encerra uma s\u00e9rie na qual Lacan trata do complexo de castra\u00e7\u00e3o e do s\u00edmbolo\u00a0<em>Phi.<\/em>\u00a0No Cap\u00edtulo XVII, ele diz: &#8220;introduzi (&#8230;) o s\u00edmbolo grande\u00a0<em>Phi<\/em>. (&#8230;) este s\u00edmbolo nos \u00e9 indispens\u00e1vel para compreender a incid\u00eancia do complexo de castra\u00e7\u00e3o no que tange \u00e0 transfer\u00eancia\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 233). Deduzo disso que a presen\u00e7a real, para Lacan, nesse Semin\u00e1rio \u2013 isso mudar\u00e1 mais tarde em seu ensino \u2013 tem a ver com o complexo de castra\u00e7\u00e3o, o s\u00edmbolo grande\u00a0<em>Phi\u00a0<\/em>e o dispositivo da transfer\u00eancia. Lacan cita Freud em \u201cAn\u00e1lise finita e infinita\u201d (FREUD, 1937\/1996, p. 225-231): \u201cA mensagem freudiana terminou nesta articula\u00e7\u00e3o, ou seja, que h\u00e1 um termo \u00faltimo (&#8230;) o rochedo \u2013 o termo est\u00e1 no texto \u2013 do complexo de castra\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 226-227). O final de an\u00e1lise encontra um rochedo imposs\u00edvel de ser dissolvido pelo significante, ele trope\u00e7a em um real. \u00c9 preciso notar que Lacan assinala que \u201cTrata-se do complexo de castra\u00e7\u00e3o no homem, bem como na mulher\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 227) que \u201cn\u00e3o se trata das rela\u00e7\u00f5es entre homem e mulher\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 225).<\/p>\n<p>Isto \u00e9 digno de nota, pois poder\u00edamos ter acreditado, a partir dos desenvolvimentos freudianos sobre ter ou n\u00e3o o p\u00eanis, que o falo estaria no princ\u00edpio da diferencia\u00e7\u00e3o sexual e que o complexo de castra\u00e7\u00e3o seria aquilo pelo qual mulheres e homens se diferenciariam. Mas, antes de entrarmos verdadeiramente na leitura a prop\u00f3sito do complexo de castra\u00e7\u00e3o e do falo, esses cap\u00edtulos tratam de signos, s\u00edmbolos e significantes. Para me orientar na leitura, fiz pequenos esquemas. O signo representa alguma coisa. Eu insisto nessa express\u00e3o\u00a0<em>alguma coisa<\/em>. O signo aponta para alguma coisa, em dire\u00e7\u00e3o ao objeto. Digamos que o signo\u00a0<em>apresenta<\/em>\u00a0o objeto. Esquematizo desta forma:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Signo<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2193<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Objeto<\/p>\n<p>O s\u00edmbolo, ao contr\u00e1rio, vem na aus\u00eancia de alguma coisa &#8211; basta pensar nos primeiros s\u00edmbolos gravados sobre os t\u00famulos, quer dizer, sobre os mortos. O s\u00edmbolo presentifica a aus\u00eancia. Escrevo esta aus\u00eancia com o conjunto vazio, e coloco uma barra entre o s\u00edmbolo e o vazio para marcar que o s\u00edmbolo vem no lugar do vazio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S\u00edmbolo<br \/>\n_________<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2205<\/p>\n<p>O s\u00edmbolo presentifica a aus\u00eancia: \u201caquele buqu\u00ea de flores (&#8230;). Sua presen\u00e7a serve para recobrir o que \u00e9 para se recobrir, (&#8230;) era menos o falo amea\u00e7ado de Eros (&#8230;), que o ponto preciso de uma presen\u00e7a ausente, de uma aus\u00eancia presentificada\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 235). Esse s\u00edmbolo, Lacan o escreve como grande \u03a6. E ele diz que \u201ceste talvez seja, com efeito, o \u00fanico significante a merecer, em nosso registro, e de uma maneira absoluta, o t\u00edtulo de s\u00edmbolo\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 234). \u00a0Escrevo-o assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u03a6<br \/>\n___<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2205<\/p>\n<p>O significante, ele mesmo, vem sob um fundo de aus\u00eancia. Mas como significante, ele chama a dimens\u00e3o do significado \u2013 sen\u00e3o n\u00e3o seria um significante. Entretanto, o sentido s\u00f3 pode surgir como efeito de uma articula\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios significantes, de uma cadeia de significantes \u2013 quando falo, espero que voc\u00eas aguardem at\u00e9 o final das minhas frases para decidirem (mais ou menos) sobre seu sentido, se \u00e9 que elas t\u00eam um sentido. O significante n\u00e3o aponta para o objeto presente, ele n\u00e3o s\u00f3 representa sua aus\u00eancia, mas tamb\u00e9m aponta para outros significantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S1 \u2192 S2<\/p>\n<p>Dito isto, esses esquemas do signo, do s\u00edmbolo e do significante n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o discriminat\u00f3rios quanto poderiam parecer. Por exemplo, na frase que citei, Lacan nos diz que o s\u00edmbolo grande\u00a0<em>Phi\u00a0<\/em>\u00e9 um significante. Ou ainda, que os signos podem funcionar como significantes: basta que eles estejam ordenados em um feixe de \u00edndices que pede interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>A falta de um significante<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O s\u00edmbolo grande\u00a0<em>Phi<\/em>\u00a0\u00e9 um significante, mas um significante bastante singular, pois ele vem &#8220;no lugar onde se produz a falta do significante&#8221; (LACAN, 1960-61\/1992, p. 234).<\/p>\n<p>O que isso quer dizer? Lacan nos d\u00e1 um exemplo cl\u00ednico dessa produ\u00e7\u00e3o com as quest\u00f5es da crian\u00e7a:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>O que \u00e9 correr? O que \u00e9 bater com o p\u00e9? O que \u00e9 um imbecil?<\/em>\u00a0(&#8230;) De que se trata, no momento da pergunta? \u2013 sen\u00e3o do recuo do sujeito com rela\u00e7\u00e3o ao uso do pr\u00f3prio significante, e de sua incapacidade de captar o que quer dizer que haja palavras, que se fale, e que se designe determinada coisa t\u00e3o pr\u00f3xima por esse algo enigm\u00e1tico a que se chama uma palavra ou um fonema. (LACAN, 1960-61\/1992, p. 237)<\/p>\n<p>O momento da pergunta \u00e9 o momento em que a crian\u00e7a experimenta a ruptura radical entre as palavras e as coisas.<\/p>\n<p>Lacan retornou a esse momento da pergunta no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 11,<\/em>\u00a0no qual ele explica que nenhuma resposta pode satisfazer a crian\u00e7a:\u00a0<em>&#8220;ele est\u00e1 me dizendo isso, mas o que ele quer?&#8221;<\/em>\u00a0(LACAN, 1964\/1998, p. 203)<\/p>\n<p><u><\/u>Imagino esse di\u00e1logo:<\/p>\n<p><em>\u2014 O que voc\u00ea quer quando me diz isso?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Eu disse isso porque queria lhe dizer que&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Mas agora, por que voc\u00ea est\u00e1 me dizendo isso?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Eu digo isso porque&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>\u2014 Mas agora, por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 fechamento. No momento em que digo n\u00e3o posso dizer por que agora digo o que digo. A quest\u00e3o subjacente \u00e0s perguntas da crian\u00e7a \u00e9:\u00a0<em>O que voc\u00ea quer?<\/em>\u00a0\u00c9 uma quest\u00e3o sobre o desejo do Outro, e n\u00e3o h\u00e1 nenhum significante do desejo do Outro \u2013 apenas signos. O momento da pergunta \u00e9 o momento em que se experimenta a falta de um significante no Outro que diria sobre seu desejo. Em seu lugar vem o s\u00edmbolo grande\u00a0<em>Phi<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que creio entender por que Alceb\u00edades, que sabe que S\u00f3crates o deseja, \u201cdemanda v\u00ea-lo, quer v\u00ea-lo, como signo\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 232): ele rejeita o s\u00edmbolo grande\u00a0<em>Phi<\/em>\u00a0do falo que apenas presentifica a falta de um significante, o vazio, e pede signos, que apontariam para o objeto, a coisa, o gozo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">E \u00e9 tamb\u00e9m por isso que S\u00f3crates recusa. Pois n\u00e3o h\u00e1 ali mais que um curto-circuito. Ver o desejo como signo n\u00e3o \u00e9, por este fato, aceder ao encaminhamento por onde o desejo \u00e9 tomado em uma certa depend\u00eancia, que\u00a0<em>\u00e9 o que se trata de saber<\/em>. (LACAN, 1960-61\/1992, p. 232)<\/p>\n<p>O questionamento socr\u00e1tico est\u00e1 inteiramente orientado para a descoberta desse caminho: em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de saber. S\u00f3crates pode desejar Alceb\u00edades carnalmente, mas ele dedica sua vida a outro desejo, que \u00e9, eu diria, o desejo de saber.<\/p>\n<p><strong><em>O desejo de saber e o desejo do analista<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Lacan, mais tarde em seu ensino, falar\u00e1 do desejo do analista como desejo de saber. E nesta mesma p\u00e1gina, ele tamb\u00e9m fala do desejo do analista: \u201cVoc\u00eas veem, aqui, iniciar-se o caminho que tento for\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao que deve ser o desejo do analista. Para que o analista possa ter aquilo que falta ao outro, \u00e9 preciso que ele tenha a nesci\u00eancia enquanto nesci\u00eancia\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 232).<\/p>\n<p><a id=\"ref2\"><\/a>O dicion\u00e1rio nos diz que a nesci\u00eancia<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/pesencareal#referencias\">2<\/a><\/sup>\u00a0\u00e9 o estado daquele que n\u00e3o sabe. Lacan \u00e9 l\u00f3gico: s\u00f3 se pode desejar saber se ainda n\u00e3o se sabe. Mas para o analista, \u00e9 preciso pelo menos saber um pouco: &#8220;\u00c9 preciso que ele esteja sob o modo de t\u00ea-lo, que ele tamb\u00e9m n\u00e3o esteja sem t\u00ea-lo,\u00a0<em>que n\u00e3o esteja de forma alguma t\u00e3o nesciente quanto seu sujeito<\/em>\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 232).<\/p>\n<p>Por que ele n\u00e3o deve ser sem t\u00ea-lo, esse quase nada de saber? Lacan nos diz: \u201cPara que o analista possa ter isso que falta ao outro\u201d. Trata-se da transfer\u00eancia, da suposi\u00e7\u00e3o de saber que o analisante faz ao analista, da transfer\u00eancia sobre a qual o analista deve estar advertido. Mas esta suposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 enganosa? Sim e n\u00e3o. H\u00e1 engano na suposi\u00e7\u00e3o de saber dirigida ao analista na medida em que se sup\u00f5e que ele tenha um saber, ele ser\u00e1 suposto ter um saber \u2013 sobre o analisante \u2013 que n\u00e3o deriva apenas de seus ditos: tudo que o analista sabe sobre o analisante, ele constr\u00f3i a partir disso que ele lhe diz e de como lhe diz.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente outro saber que \u00e9 exigido ao analista: aquele que ele produziu em sua pr\u00f3pria an\u00e1lise, ou seja, por um lado, uma percep\u00e7\u00e3o sobre sua fantasia fundamental que lhe permite n\u00e3o interpretar apenas no seu quadro, e, por outro lado, um\u00a0<em>saber fazer a\u00ed<\/em>\u00a0com seu sintoma. E h\u00e1 ainda outro saber que o analista produziu a partir de sua an\u00e1lise: que falta um significante no Outro, que o Outro \u00e9 incompleto e inconsistente, que o Outro da garantia n\u00e3o existe \u2013 o que Lacan escreve S(\u023a).<\/p>\n<p><strong><em>O signo da falta de significante e a ang\u00fastia<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u201cDe fato, ele tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sem ter um inconsciente. Sem d\u00favida, ele est\u00e1 sempre para al\u00e9m de tudo aquilo que o sujeito sabe, sem poder dizer isso a ele. Ele s\u00f3 pode lhe fazer um signo\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 232). Isso \u00e9 l\u00f3gica: ele n\u00e3o pode dizer com significantes a falta significante. Portanto, ele s\u00f3 pode fazer signo disso. \u201cPois ao signo que h\u00e1 para dar, falta significante (&#8230;) porque \u00e9 aquele que provoca a mais indiz\u00edvel ang\u00fastia\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 232).<\/p>\n<p>Por que a ang\u00fastia? O signo aponta para o objeto. Mas, aqui, trata-se do signo da falta significante: esse signo aponta em dire\u00e7\u00e3o a um vazio. Sartre, por exemplo, falou da ang\u00fastia do sujeito diante de sua liberdade, ou seja, diante de um vazio de determinismo \u2013 em termos lacanianos, diante de uma falta no Outro. Mas eu disse que o signo aponta para o objeto \u2013 qual \u00e9 o objeto aqui em quest\u00e3o? Eu arriscaria, antecipando o ensino de Lacan, que se trata do objeto nada. Dois anos ap\u00f3s o Semin\u00e1rio sobre\u00a0<em>A transfer\u00eancia<\/em>, Lacan far\u00e1 seu Semin\u00e1rio sobre\u00a0<em>A ang\u00fastia<\/em>\u00a0(LACAN, 1962-1963\/2005), no qual ele dir\u00e1 que \u00e9 a presen\u00e7a do objeto que causa a ang\u00fastia, que o objeto \u00e9 causa. Anteriormente, o objeto era o objeto desejado; no Semin\u00e1rio sobre\u00a0<em>A ang\u00fastia<\/em>, o objeto pequeno\u00a0<em>a<\/em>\u00a0torna-se a causa do desejo.<\/p>\n<p>Mas ainda n\u00e3o estamos neste ponto no Semin\u00e1rio sobre a transfer\u00eancia. Nas p\u00e1ginas que comento hoje, com qual objeto o sujeito est\u00e1 lidando?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A an\u00e1lise descobriu (&#8230;) que aquilo com o que o sujeito tem a ver \u00e9 o objeto da fantasia, na medida em que este se apresenta como o \u00fanico capaz de fixar um ponto privilegiado naquilo a que \u00e9 preciso chamar (&#8230;) uma economia regulada pelo n\u00edvel do gozo. (LACAN, 1960-61\/1992, p. 239)<\/p>\n<p>O principal exemplo que temos de que a fantasia fundamental regula a economia de gozo est\u00e1 no artigo de Freud &#8220;Uma crian\u00e7a \u00e9 espancada&#8221; (FREUD, 1919\/1996): os sujeitos confessam dolorosamente a Freud que s\u00f3 atingem o gozo sexual apelando para sua fantasia fundamental.<\/p>\n<p>Mas continuo minha leitura desta p\u00e1gina:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A an\u00e1lise nos ensina tamb\u00e9m que, ao referir a quest\u00e3o ao n\u00edvel do\u00a0<em>que quer ele<\/em>?, do\u00a0<em>que \u00e9 que isso quer l\u00e1 dentro?<\/em>, encontramos um mundo de signos alucinados, e ela (a fantasia) nos representa a prova da realidade como uma forma de experimentar o qu\u00ea? \u2013 a realidade desses signos. (LACAN, 1960-61\/1992, p. 239)<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o sobre o desejo do Outro, e trata-se aqui da realidade dos signos. Retomo a cita\u00e7\u00e3o: \u201cO que est\u00e1 em quest\u00e3o, pois, na prova da realidade, vamos observar bem, \u00e9 certamente controlar uma presen\u00e7a real, mas uma presen\u00e7a de signos\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 240).<\/p>\n<p>Lacan disse que o s\u00edmbolo grande\u00a0<em>Phi<\/em>\u00a0presentificava uma aus\u00eancia (LACAN, 1960-61\/1992).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u03a6<br \/>\n___<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2205<\/p>\n<p>Mas a presen\u00e7a real \u00e9 presen\u00e7a de signos. Como percebermos isso, sen\u00e3o que diante do vazio, diante da aus\u00eancia de significante significado pelo grande\u00a0<em>Phi<\/em>, o sujeito convoca a presen\u00e7a real de signos?<\/p>\n<p><strong><em>O objeto da fantasia e os objetos das fantasias<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Signos de qu\u00ea? Signos \u201cde uma rela\u00e7\u00e3o com outra coisa\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 240). E o que \u00e9 essa outra coisa? \u201c\u00c9 isto o que quer dizer a articula\u00e7\u00e3o freudiana, que a gravita\u00e7\u00e3o de nosso inconsciente diz respeito a um objeto perdido, que jamais \u00e9 sen\u00e3o reencontrado, isto \u00e9, jamais realmente reencontrado\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 240).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Signo<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2193<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Objeto\u00a0<em>a<\/em><\/p>\n<p>Qual \u00e9 esse objeto perdido? \u201cO objeto jamais \u00e9 sen\u00e3o significado&#8221; (LACAN, 1960-61\/1992, p. 240) \u2013 como entender significado aqui? Escolhi l\u00ea-lo assim: do objeto se faz signo. \u00a0Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do sujeito ao significante? No n\u00edvel da cadeia inconsciente lidamos apenas com signos. Trata-se de incitar esse outro a quem me dirijo \u201ca visar da mesma maneira que eu, o objeto ao qual se relaciona determinado signo, fazer dele um signo\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 241).<\/p>\n<p>Como est\u00e1 perdido, j\u00e1 que existe como tal apenas como perdido, estamos sempre lidando apenas com os signos desse objeto. \u201cO objeto verdadeiro, aut\u00eantico, de que se trata quando falamos de objeto (&#8230;) est\u00e1 no horizonte daquilo em torno do que gravitam nossas fantasias\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 241). No horizonte ele n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado. O verdadeiro objeto n\u00e3o \u00e9, estritamente falando, o objeto de nossas fantasias no plural, por exemplo, o chicote f\u00e1lico em &#8220;Uma crian\u00e7a \u00e9 espancada\u201d. O verdadeiro objeto \u00e9 um objeto em torno do qual giram nossas fantasias. Isto parece nos convidar a distinguir o objeto verdadeiro, aut\u00eantico, em torno do qual giram nossas fantasias \u2013 e que n\u00e3o pode ser compartilhado ou intercambiado &#8211; dos objetos colocados em jogo nessas fantasias.<\/p>\n<p>E para distinguir da mesma forma a fantasia fundamental, no singular, que implica esse objeto verdadeiro \u2013 a voz, o olhar, as fezes, o objeto o oral, o fonema, o nada \u2013 dos cen\u00e1rios imagin\u00e1rios fantasm\u00e1ticos que colocam em jogo os signos desse objeto e que podem ser compartilhados. Os cen\u00e1rios e as imagens fantasm\u00e1ticas, ao contr\u00e1rio da fantasia fundamental, podem ser compartilhados e intercambiados e, ali\u00e1s, existe um mercado de fantasias. E, nos diz Lacan (1960-61\/1992, p. 240), existe \u201cum mercado de objetos\u201d, objetos aqui a serem tomados no sentido comum do termo, quer dizer, objetos que se pode intercambiar. O que compramos quando nos oferecem o iPhone mais recente? Compramos um signo, signo de que temos o gozo, mas, al\u00e9m disso, o signo que aponta para o objeto pulsional de nossa fantasia fundamental, mas que n\u00e3o \u00e9 esse iPhone. O mercado de objetos \u00e9 o mercado dos signos do objeto.<\/p>\n<p><strong><em>Grande Phi, signo do desejo<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Esses signos, n\u00f3s podemos desej\u00e1-los, mas qual \u00e9 o signo do desejo? Nesse Semin\u00e1rio, \u00e9 o falo, o grande\u00a0<em>Phi<\/em>.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">De todos os signos poss\u00edveis, n\u00e3o \u00e9 aquele que re\u00fane em si mesmo o signo e o meio de a\u00e7\u00e3o e a pr\u00f3pria presen\u00e7a do desejo como tal? Deixar emergir o falo em sua presen\u00e7a real (&#8230;). [Do desejo] N\u00e3o h\u00e1 signo mais certo (&#8230;). (LACAN, 1960-61\/1992, p. 241)<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 sab\u00edamos disso para o significante e para o s\u00edmbolo, mas acentuo que os signos tamb\u00e9m t\u00eam um efeito em si mesmos, que h\u00e1 uma efici\u00eancia dos signos. No fundo, isso \u00e9 evidente se pensarmos na ind\u00fastria publicit\u00e1ria, cuja \u00fanica produ\u00e7\u00e3o \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de signos, e que se baseia no pressuposto de sua efici\u00eancia.<\/p>\n<p>E o grande\u00a0<em>Phi<\/em>\u00a0\u00e9 seu meio de a\u00e7\u00e3o. Trata-se de tornar estes signos desej\u00e1veis &#8211; como? N\u00e3o h\u00e1 desejo sem falta. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio introduzir a dimens\u00e3o da falta, e como melhor faz\u00ea-lo sen\u00e3o convocando o s\u00edmbolo que presentifica a falta, grande\u00a0<em>Phi<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u03a6<br \/>\n___<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2205<\/p>\n<p>Ao presentificar a falta, grande\u00a0<em>Phi<\/em>\u00a0presentifica o desejo. Retomo a frase de Lacan: \u201cQue o falo venha \u00e0 luz em sua presen\u00e7a real\u201d: atrav\u00e9s do signo ou do s\u00edmbolo grande\u00a0<em>Phi<\/em>, o falo deve vir \u00e0 luz; o sinal ou s\u00edmbolo grande\u00a0<em>Phi<\/em>\u00a0deve estar realmente presente. \u201cDo desejo n\u00e3o h\u00e1 signo mais certo\u201d, e Lacan acrescenta, \u201csob a condi\u00e7\u00e3o de que nada mais haja al\u00e9m do desejo\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 241).<\/p>\n<p>Para que o signo do desejo, o grande\u00a0<em>Phi<\/em>, que \u00e9 um signo da falta no Outro, venha \u00e0 luz em sua presen\u00e7a real, \u00e9 preciso que se rasgue o v\u00e9u dos outros signos, que apontam para o objeto, pretendendo preencher a falta. \u201cDo desejo n\u00e3o h\u00e1 signo mais certo, sob a condi\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o haja al\u00e9m do desejo\u201d. O grande\u00a0<em>Phi<\/em>\u00a0\u00e9 \u201co puro significante do desejo\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 242). O grande\u00a0<em>Phi<\/em>\u00a0foi \u201co \u00fanico significante a merecer, em nosso registro, e de uma maneira absoluta, o t\u00edtulo de s\u00edmbolo\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 234). Por isso \u00e9 um significante, mas um significante da falta de um significante no Outro. Como tal ele \u00e9 indiz\u00edvel, inomin\u00e1vel. Da\u00ed seu funcionamento como signo: dele s\u00f3 se pode fazer signo, em sil\u00eancio, eu diria.<\/p>\n<p><strong><em>A falta no Outro, a rela\u00e7\u00e3o com a linguagem e sua proje\u00e7\u00e3o no \u00f3rg\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Lacan escreve o significante da falta no Outro como S(\u023a). O Outro, neste caso, \u00e9 o lugar do significante \u2013 digamos, a linguagem. Como tal, S(\u023a) escreve a rela\u00e7\u00e3o conflituosa do sujeito com a linguagem &#8211; pensemos no momento da pergunta da crian\u00e7a:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">De que se trata, no momento da pergunta? \u2013 sen\u00e3o do recuo do sujeito com rela\u00e7\u00e3o ao uso do pr\u00f3prio significante, e de sua incapacidade de o que quer dizer que haja palavras, que se fale, e que se designe determinada coisa t\u00e3o pr\u00f3xima por este algo enigm\u00e1tico a que se chama uma palavra ou um fonema. (LACAN, 1960-61\/1992, p. 237)<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A rela\u00e7\u00e3o inominada, porque inomin\u00e1vel, porque indiz\u00edvel, do sujeito com o significante puro do desejo se projetada sobre o \u00f3rg\u00e3o localiz\u00e1vel, preciso, situ\u00e1vel em alguma parte no conjunto do edif\u00edcio corporal. Da\u00ed este conflito propriamente imagin\u00e1rio, que consiste em ver a si mesmo privado, ou n\u00e3o privado, desse ap\u00eandice. (LACAN, 1960-61\/1992, p. 242)<\/p>\n<p>Acontece com o significante da falta no Outro com um grande A, algo an\u00e1logo a isso que aconteceu anteriormente com o objeto imut\u00e1vel e n\u00e3o compartilh\u00e1vel da fantasia fundamental. O objeto da fantasia fundamental foi projetado sobre o objeto localiz\u00e1vel e intercambi\u00e1vel do mercado. O significante da falta no Outro com A mai\u00fasculo, lugar dos significantes, digamos da linguagem, \u00e9 projetado no \u00f3rg\u00e3o do outro com um pequeno a, quer este pequeno outro seja o parceiro do sujeito ou o pr\u00f3prio sujeito. Escrevo essas proje\u00e7\u00f5es com duas pequenas setas:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Objeto pulsional, objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0\u2192\u00a0objeto do mercado<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S(\u023a)\u00a0\u2192 falo imagin\u00e1rio, \u03d5<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A\u00a0\u2192 outro<\/p>\n<p>Antecipemos um pouco: no Semin\u00e1rio sobre\u00a0<em>A ang\u00fastia<\/em>, o objeto que se deseja se tornar\u00e1 causa do desejo, e no Semin\u00e1rio\u00a0<em>De um Outro ao outro\u00a0<\/em>(LACAN, 1968-1969\/2008), o objeto a como causa responder\u00e1 pelo objeto mais-de-gozar, permut\u00e1vel, compartilh\u00e1vel, mercantiliz\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Objeto causa\u00a0\u2192 objeto mais-de-gozar<\/p>\n<p>O que faz os termos \u00e0 esquerda passarem para aqueles \u00e0 direita? O que \u00e9\u00a0<em>colocado em fun\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0nessas proje\u00e7\u00f5es de localiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong><em>A fun\u00e7\u00e3o grande \u03a6<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s t\u00ednhamos o sinal, o s\u00edmbolo e o significante, agora eu apresento a fun\u00e7\u00e3o. Lacan fala da \u201cfun\u00e7\u00e3o \u03a6 do significante falo\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 244), e quando fala do neur\u00f3tico obsessivo, fala de \u201ccolocar em fun\u00e7\u00e3o\u201d e fala do \u201csinal da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 251).<\/p>\n<p>A cl\u00ednica do neur\u00f3tico obsessivo me parece falar particularmente da \u201cda ativa\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica\u201d, digamos, da faliciza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A formula\u00e7\u00e3o do segundo termo da fantasia do obsessivo faz, precisamente, alus\u00e3o ao fato de que os objetos s\u00e3o para ele, enquanto objetos de desejo, colocados em fun\u00e7\u00e3o de certas equival\u00eancias er\u00f3ticas \u2013 aquilo que temos o h\u00e1bito de assinalar, ao falar da erotiza\u00e7\u00e3o de seu mundo, em especial de seu mundo intelectual. (LACAN, 1960-61\/1992, p. 250)<\/p>\n<p>Lacan escreve a fantasia do obsessivo da seguinte forma:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(\u023a)\u00a0\u25ca \u03a6 (a, a&#8221;, a&#8221;, a&#8221;&#8217;, &#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(LACAN, 1960-61\/1992, p. 248)<\/p>\n<p>Ele especifica que o\u00a0<em>poin\u00e7on<\/em>\u00a0pode ser lido como\u00a0<em>desejo de<\/em>. Eu li desta maneira: recuando diante da falta no Outro, face ao A barrado, o sujeito obsessivo deseja os objetos de seu mundo na medida em que eles s\u00e3o falicizados.<\/p>\n<p><em>Na medida<\/em>\u00a0em que s\u00e3o falicizados, porque sua\u00a0<em>falicidade<\/em>\u00a0\u00e9 medida:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;) o j \u00e9 justamente aquilo que \u00e9 subjacente \u00e0 equival\u00eancia instaurada entre objetos no plano er\u00f3tico. O j \u00e9, de alguma maneira, a unidade de medida, onde o sujeito acomoda a fun\u00e7\u00e3o<em>\u00a0a<\/em>, ou seja, a fun\u00e7\u00e3o dos objetos de seu desejo. (LACAN, 1960-61\/1992, p. 250)<\/p>\n<p>Medida, equival\u00eancia: esses objetos s\u00e3o objetos do mercado:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">(&#8230;)\u00a0<em>tantos ratos, tantos florins<\/em>, n\u00e3o passa de uma ilustra\u00e7\u00e3o particular da equival\u00eancia permanente de todos os objetos naquilo que \u00e9 uma esp\u00e9cie de mercado (&#8230;). Ela se inscreve (&#8230;) numa esp\u00e9cie de unidade comum de padr\u00e3o-ouro. O rato simboliza, ocupa propriamente o lugar daquilo a que chamo j, na medida em que ele \u00e9 uma certa forma de redu\u00e7\u00e3o de \u03a6, e mesmo a degrada\u00e7\u00e3o deste significante. (LACAN, 1960-61\/1992, p. 250)<\/p>\n<p>\u00c0s proje\u00e7\u00f5es que j\u00e1 escrevi, acrescento uma:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u03a6\u00a0\u2192\u00a0\u03c6<\/p>\n<p>E Lacan acrescenta \u2013 trata-se sempre do obsessivo \u2013: \u201ca fun\u00e7\u00e3o \u03a6 do falo, enquanto oculta por tr\u00e1s de sua negocia\u00e7\u00e3o no n\u00edvel da fun\u00e7\u00e3o do j (LACAN, 1960-61\/1992, p. 254). Mas \u03a6 representa \u201ca fun\u00e7\u00e3o do falo em sua generalidade, para todos os sujeitos que falam\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 251).<\/p>\n<p><strong><em>A presen\u00e7a real<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O s\u00edmbolo grande \u03a6 tem a ver com a presen\u00e7a real: \u201cSabemos qual \u00e9 a dificuldade do manejo do s\u00edmbolo \u03a6 na sua forma desvelada. (&#8230;) o que ele tem de insuport\u00e1vel \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 simplesmente um signo e significante, mas presen\u00e7a do desejo. \u00c9 a presen\u00e7a real\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 244).<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o \u00e9 simplesmente signo e significante: n\u00e3o \u00e9 simplesmente imagin\u00e1rio, nem simb\u00f3lico: ele \u00e9 real, presen\u00e7a real, real da presen\u00e7a do desejo. \u201cEsta presen\u00e7a real, trata-se, no entanto, de situ\u00e1-la em alguma parte, e num outro registro que n\u00e3o o do imagin\u00e1rio. (&#8230;) que podemos entrever que o desejo vem habitar o lugar da presen\u00e7a real\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 256).<\/p>\n<p>\u201cMas ent\u00e3o por que o falo, neste lugar e neste papel?\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 257) \u2013 pois h\u00e1 &#8220;outros signos do desejo\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 257). \u201cO falo se apresenta no n\u00edvel humano, entre outros, como o signo do desejo. \u00c9 tamb\u00e9m o seu instrumento, e tamb\u00e9m sua presen\u00e7a\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 257).\u00a0<em>\u00a0<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>No n\u00edvel humano,<\/em>\u00a0ou seja, n\u00e3o se refere apenas ao perverso de quem Lacan fala nessas p\u00e1ginas. \u201cO que ele designa n\u00e3o \u00e9 nada que seja signific\u00e1vel diretamente. \u00c9 aquilo que est\u00e1 al\u00e9m de toda significa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e, especialmente, a presen\u00e7a real\u201d (LACAN, 1960-61\/1992, p. 258).<\/p>\n<p>E, como se trata da presen\u00e7a real na an\u00e1lise, e como essa n\u00e3o pode ser concebida sem a transfer\u00eancia ao analista \u00e0 qual responde o desejo do analista, eu me arriscaria que a presen\u00e7a real, na an\u00e1lise, est\u00e1 situada de forma privilegiada na emerg\u00eancia do desejo do analista, em suas interpreta\u00e7\u00f5es, suas escans\u00f5es, seus cortes&#8230; ou em seu sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Beatriz Esp\u00edrito Santo<\/h6>\n<h6><strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Tereza Facury<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1937). An\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel. In:\u00a0<strong>Obras completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 231-270.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1919). Uma crian\u00e7a \u00e9 espancada. In:\u00a0<strong>Obras completas de Sigmund Freud<\/strong>. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 193-218.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1960-61).\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 8: A transfer\u00eancia<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1962-1963)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 10: A ang\u00fastia<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1964)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1968-1969)\u00a0<strong>O Semin\u00e1rio, livro 16: De um Outro ao outro<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a id=\"referencias\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/pesencareal#ref1\">1.\u00a0<span class=\"TextRun SCXW72728082 BCX8\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SCXW72728082 BCX8\">Texto originalmente publicado em\u00a0<\/span><\/span><span class=\"TextRun SCXW72728082 BCX8\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SpellingErrorV2Themed SCXW72728082 BCX8\">Ironik<\/span><span class=\"NormalTextRun SCXW72728082 BCX8\">,<\/span><\/span><span class=\"TextRun SCXW72728082 BCX8\" lang=\"PT-BR\" xml:lang=\"PT-BR\" data-contrast=\"auto\"><span class=\"NormalTextRun SCXW72728082 BCX8\">\u00a0n.33, boletim da UFORCA<\/span><\/span><\/a>.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/pesencareal#ref2\">2. Caracter\u00edstica de n\u00e9scio, de quem n\u00e3o sabe ou n\u00e3o possui conhecimento para compreender alguma coisa. Alguns estudiosos diferem nesci\u00eancia de ignor\u00e2ncia, sendo a \u00faltima relacionada a falta de conhecimento para compreender algo que se deveria saber. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.dicio.com.br\/nesciencia\/. Acesso em: 19 out. 2022.<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GILLES CHATENAY Psicanalista, AME da ECF\/AMP gilles.chatenay@orange.fr &nbsp; Resumo:\u00a0\u00a0\u00a0A partir dos cap\u00edtulos XVI, XVII e XVIII do\u00a0Semin\u00e1rio 8: A transfer\u00eancia, de Jacques Lacan, o texto se prop\u00f5e a delimitar o que realmente est\u00e1 presente em uma an\u00e1lise sobre\u00a0a express\u00e3o \u201cpresen\u00e7a real\u201d. Palavras-chave:\u00a0presen\u00e7a real; transfer\u00eancia; falo; castra\u00e7\u00e3o, inconsciente. THE REAL PRESENCE IN THE ANALYSIS\u00a0 Abstract:\u00a0From chapters&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57728,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-2077","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2077","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2077"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2077\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57729,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2077\/revisions\/57729"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57728"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}