{"id":2081,"date":"2023-08-19T06:42:44","date_gmt":"2023-08-19T09:42:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2081"},"modified":"2025-12-01T12:11:10","modified_gmt":"2025-12-01T15:11:10","slug":"a-urgencia-do-falasser-e-a-presenca-sutil-do-analista-qual-encontro-possivel1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/19\/a-urgencia-do-falasser-e-a-presenca-sutil-do-analista-qual-encontro-possivel1\/","title":{"rendered":"A urg\u00eancia do falasser e a presen\u00e7a sutil do analista: qual encontro poss\u00edvel?1"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Laura Rubi\u00e3o<\/strong><br \/>\nPsicanalista, membro da EBP\/AMP<br \/>\n<a href=\"mailto:lauralustosarubiao@gmail.com\">lauralustosarubiao@gmail.com<\/a><\/h6>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O texto explora certas nuances do que se pode conceber como \u201cpresen\u00e7a do analista\u201d em nossa \u00e9poca, diferenciando-a de algumas concep\u00e7\u00f5es tradicionais que evocam o analista como figura neutra, passiva ou desinteressada.\u00a0 Ao contr\u00e1rio, o analista se faz presente como aquele que escolhe estar ao lado da urg\u00eancia do falasser e da solu\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica de cada um frente ao real do gozo.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>analista; urg\u00eancia; gozo; sinthoma.<\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0The text explores certain nuances of what can be conceived as the \u201cpresence of the analyst\u201d in our time, differentiating it from some traditional conceptions that evoke the analyst as a neutral, passive or disinterested figure. On the contrary, the analyst is present as the one who chooses to be beside the urgency of the\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>\u00a0and the symptomatic solution of each one in the face of the real of\u00a0<em>jouissance<\/em>.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>analyst; urgency;\u00a0<em>jouissance; sinthome<\/em>.<strong>\u00a0<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_2082\" style=\"width: 1782px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/TRILHAMENTOS_-_LAURA_RUBIO.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1772\" data-large_image_height=\"1762\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2082\" class=\"wp-image-2082\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/TRILHAMENTOS_-_LAURA_RUBIO-1024x1018.jpg\" alt=\"\" width=\"611\" height=\"607\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2082\" class=\"wp-caption-text\">CAROLINA BOTURA. S\/T<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O XXIV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano tem por t\u00edtulo um dizer que, a partir do modo exclamativo \u2013 \u201cAnalista: Presente!\u201d \u2013, nos conclama a trabalhar o lugar por meio do qual o analista pode se fazer presente nos dias de hoje, tanto na an\u00e1lise quanto fora dela, nas quest\u00f5es de sociedade, como nos aponta Fernanda Otoni Brisset em seu texto de orienta\u00e7\u00e3o, renovando a pertin\u00eancia de recolocarmos a quest\u00e3o de como o analista pode estar \u00e0 altura do horizonte de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Esse t\u00edtulo teve como inspira\u00e7\u00e3o \u2013 certamente n\u00e3o a \u00fanica, conforme nos observou Romildo R\u00eago Barros \u2013 os embara\u00e7os provocados sobre a nossa pr\u00e1tica a partir do acontecimento imprevisto da pandemia, quando, por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias, recorremos aos aparatos tecnol\u00f3gicos para recebermos nossos analisantes. A partir da\u00ed, teve in\u00edcio todo um debate em torno das implica\u00e7\u00f5es decorrentes dessa nova forma de presen\u00e7a virtual do analista na cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Seja no modo virtual, seja no modo presencial, na esfera cl\u00ednica ou pol\u00edtica, no div\u00e3 ou nas institui\u00e7\u00f5es, o lugar de onde o analista pode dizer \u201cPresente!\u201d implicar\u00e1 sempre o regime das sutilezas anal\u00edticas, tal como definido por Miller em seu curso de 2011.<\/p>\n<p>Inspirado por Freud, ele vai buscar em Pascal uma orienta\u00e7\u00e3o para o que se entende por \u201ccoisas de fineza\u201d, ou \u201csutilezas\u201d anal\u00edticas, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas de geometria, que s\u00e3o racionalidades, infer\u00eancias e constru\u00e7\u00f5es baseadas em premissas l\u00f3gicas demonstr\u00e1veis pela cadeia das raz\u00f5es. As tais \u201ccoisas de fineza\u201d s\u00e3o aquelas que \u201cse sentem\u201d e devem ser apreendidas \u201csubitamente em um s\u00f3 golpe de vista\u201d (MILLER, 2011, p. 28). Essa apreens\u00e3o s\u00fabita nos envia ao modo como Lacan identifica, em seu \u00faltimo ensino, o rastro do Ics real como\u00a0<em>une b\u00e9vue<\/em>\u00a0(um trope\u00e7o), ou seja, o que irrompe inesperadamente no espa\u00e7o de um lapso e se realiza como acontecimento de dizer, e n\u00e3o como um desdobramento de saber. \u00c9 o que celebra o choque da linguagem sobre o corpo e d\u00e1 lugar a um significante novo, uma inven\u00e7\u00e3o da l\u00edngua. O que importa e se torna genu\u00edno no \u00faltimo ensino de Lacan \u00e9 que a linguagem produz um acontecimento disruptivo no corpo e \u00e9 exatamente essa efra\u00e7\u00e3o que faz brotar o elemento heterog\u00eaneo que n\u00e3o se deixa reabsorver pela estrutura, a qual tece incessantemente a trama do destino.<\/p>\n<p>O analista faz par com essa urg\u00eancia do falasser (LACAN, 1976\/2003, p. 569) e isso nos autoriza a dizer que o analista marca sua presen\u00e7a, tomando partido do inconsciente real. Ele renuncia, desse modo, a encarnar a postura que lhe \u00e9 atribu\u00edda tradicionalmente, a saber, a da \u201cneutralidade benevolente\u201d, sem, tampouco, adotar qualquer postura \u201cativa\u201d, tal como preconizado por Ferenczi.<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Estar presente e n\u00e3o bancar o mestre<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O lugar de onde se pode dizer \u201cPresente!\u201d inclui, portanto, uma sutileza dessa ordem: n\u00e3o operamos mais no campo da neutralidade, que serviria como um ref\u00fagio para o analista, mas tamb\u00e9m n\u00e3o adotamos, como nas psicoterapias, uma postura ativa que refor\u00e7aria o engodo de um lugar de mestria. Essa sutileza evoca, como apontou Freud, uma dificuldade no caminho da pr\u00f3pria psican\u00e1lise, que n\u00e3o se furta em lidar com as irrup\u00e7\u00f5es do n\u00e3o todo, com aquilo que n\u00e3o cede \u00e0 l\u00f3gica da decifra\u00e7\u00e3o e da amplia\u00e7\u00e3o do sentido.<\/p>\n<p>Em seus chamados \u201cArtigos sobre a t\u00e9cnica\u201d, Freud nos d\u00e1 um testemunho vigoroso desse cristal anal\u00edtico, numa \u00e9poca em que ainda trazia ao mundo a novidade da psican\u00e1lise. A partir da densidade de seu projeto cl\u00ednico, ele tratava de diferenciar a arte da psican\u00e1lise das chamadas psicoterapias pautadas na t\u00e9cnica da sugest\u00e3o. Lembremos, por exemplo, retornando ao texto \u201cOs caminhos da terapia anal\u00edtica\u201d, que Freud (1919\/2017) se op\u00f4s radicalmente \u00e0 chamada \u201cpostura ativa\u201d do analista defendida por Ferenczi. Essa t\u00e9cnica tinha um prop\u00f3sito claramente ortop\u00e9dico e foi estabelecida como uma suposta solu\u00e7\u00e3o para momentos em que o trabalho anal\u00edtico parecia se estagnar, sem surtir os efeitos esperados, a saber, os efeitos de amplia\u00e7\u00e3o do sentido e rememora\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito do Ics transferencial.<\/p>\n<p>Em seu coment\u00e1rio, Freud refere-se ao artigo de Ferenczi intitulado \u201cDificuldades t\u00e9cnicas de uma an\u00e1lise de histeria\u201d, no qual relata-se o caso de uma jovem que se mantinha estagnada em rela\u00e7\u00e3o aos avan\u00e7os de sua an\u00e1lise. Ele pr\u00e9-fixou, sem sucesso, o prazo final do tratamento, interrompendo-o prematuramente. A jovem acaba retornando \u00e0 an\u00e1lise com sintomas agravados; foi quando o analista observa a posi\u00e7\u00e3o das pernas crispadas sobre o div\u00e3 em postura masturbat\u00f3ria. Entendendo que esse movimento absorvia a energia ps\u00edquica empobrecendo o material associativo, ele interv\u00e9m proibindo essa postura, o que deu lugar \u00e0s rememora\u00e7\u00f5es de cenas traum\u00e1ticas da inf\u00e2ncia. Desses experimentos cl\u00ednicos, Ferenczi p\u00f4de extrair uma regra geral para o tratamento, que consistia em coibir as tend\u00eancias das atividades autoer\u00f3ticas dos pacientes que acabavam consentindo com a ren\u00fancia a esse tipo de prazer infantil, substituindo-o pelo regime da satisfa\u00e7\u00e3o genital normal.<\/p>\n<p>Freud se mostra bem mais cauteloso quanto ao manejo dos percal\u00e7os transferenciais na an\u00e1lise, inclusive reconhecendo situa\u00e7\u00f5es em que o curso do desenlace de uma cura \u00e9 obstru\u00eddo pela forma\u00e7\u00e3o de \u201cnovas satisfa\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas substitutivas\u201d (FREUD, 1919\/2017, p. 198) que se interp\u00f5em no caminho da an\u00e1lise, bloqueando o rumo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cura. Enquanto Ferenczi pretendia normatizar o corpo tomado pelo excesso de gozo pela via do sentido ed\u00edpico, Freud soube ler esses excessos como uma verdadeira pedra que se imp\u00f5e no caminho de uma an\u00e1lise, a larva do real que n\u00e3o se absorve pelo sentido, persistindo como res\u00edduo sintomal. Esse res\u00edduo pode assumir, na cl\u00ednica, o formato da chamada rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativam que atua como obst\u00e1culo ao desenlace da an\u00e1lise.<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O real e o mist\u00e9rio do corpo falante<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ainda assim, e apesar dos esfor\u00e7os do pr\u00f3prio Freud em reconhecer que a fic\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica n\u00e3o drena todo o impacto do inconsciente real sobre o modo de gozo dos sujeitos, sabemos que a psican\u00e1lise ficou reconhecida como uma esp\u00e9cie de hermen\u00eautica, que teria trazido ao mundo a chave do mist\u00e9rio do corpo hist\u00e9rico recortado pelo significante. O pr\u00f3prio Lacan, nos anos 1950, atribui a Freud a coragem de \u201cinterrogar a vida em seu sentido\u201d por ter sabido desvendar, tal como um iniciado dos antigos mist\u00e9rios, o falo enquanto significante \u00edmpar na regula\u00e7\u00e3o dos impasses da falta a ser (LACAN, 1958\/1998, p. 648-649). Com efeito, a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica dificilmente se separa da suposi\u00e7\u00e3o de um saber incrustado no real do corpo, um saber que conjuga o mist\u00e9rio e seu desenlace atrav\u00e9s da opera\u00e7\u00e3o significante que nos permite reconhecer o desejo articulado \u00e0 trama ficcional na qual se apoia Outro da verdade.<\/p>\n<p>O \u00faltimo ensino de Lacan se empenha em desconstruir, at\u00e9 certo ponto, essa vertente s\u00f3lida do analista int\u00e9rprete que est\u00e1 sempre disposto a correr atr\u00e1s da verdade a partir de uma escuta ancorada na suposi\u00e7\u00e3o de saber. Miller (2012) localiza o modelo do corte como o paradigma da cl\u00ednica no \u00faltimo ensino de Lacan, um corte que fa\u00e7a florescer o\u00a0<em>esp d\u2019un laps<\/em>\u00a0e opere contra a debilidade mental do Ics ficcional.<\/p>\n<p>Sustentar a dignidade \u00e9tica desse ato que visa cernir o imposs\u00edvel a partir da conting\u00eancia \u00e9 a sutileza maior da presen\u00e7a do analista no mundo hoje, e isto acontece em uma dimens\u00e3o que nada tem a ver com passividade ou com a atividade, mas com uma esp\u00e9cie de escolha for\u00e7ada muito particular.<\/p>\n<p>Em seu texto \u201cPonto de basta\u201d, Miller op\u00f5e \u00e0 chamada neutralidade benevolente \u2013 em alus\u00e3o \u00e0 postura cl\u00e1ssica de reclus\u00e3o e isen\u00e7\u00e3o atribu\u00eddas ao analista freudiano \u2013 a quest\u00e3o da escolha que envolve o gosto, o sabor, que est\u00e3o enraizados no corpo, \u201cno gozo do corpo, e no sinthoma\u201d (MILLER, 2018, p. 27).<\/p>\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o standard do analista (da neutralidade benevolente) teria sido extra\u00edda, de acordo com Miller, a partir de uma leitura enviesada do cen\u00e1rio da t\u00e9cnica freudiana, sobretudo do que se p\u00f4de ler em um dos conselhos dirigidos aos m\u00e9dicos em 1912, no qual Freud retoma o car\u00e1ter cir\u00fargico da opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, \u201cdeixando de lado toda rea\u00e7\u00e3o afetiva e at\u00e9 mesmo toda simpatia humana, para s\u00f3 ter um \u00fanico objetivo: levar a bom termo sua opera\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER, 2018, p. 29) Esse intervalo que Freud convoca como pressuposto da efetividade do ato anal\u00edtico que n\u00e3o deve se render ao dom\u00ednio imagin\u00e1rio da escolha pautada na identifica\u00e7\u00e3o (via da simpatia humana) p\u00f4de ser interpretado por alguns como postura fria e desumana ou, em \u00faltima an\u00e1lise, estranha ao campo dos afetos \u2013 lembremos da acusa\u00e7\u00e3o dirigida a Lacan de ser indiferente ao afeto \u2013, e, por outros, como consagra\u00e7\u00e3o do \u00eaxito da tal neutralidade benevolente.<\/p>\n<p>Sabemos que Lacan respondeu oportunamente \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de seu pendor formalista, mostrando nunca ter negligenciado o dom\u00ednio dos afetos. \u00c9 certo que ele nos mostra tamb\u00e9m que, para a psican\u00e1lise, esse dom\u00ednio n\u00e3o se coaduna ao campo das emo\u00e7\u00f5es, do calor humano, das humanidades ou desumanidades. O afeto para a psican\u00e1lise diz respeito ao dom\u00ednio do gozo que habita o corpo como lugar da incid\u00eancia do significante que produz uma irrup\u00e7\u00e3o rumo a um significante novo, que ser\u00e1 a inven\u00e7\u00e3o singular de cada analisante:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A hist\u00f3ria de que eu negligenciaria o afeto \u00e9 farinha do mesmo saco. Que me respondam apenas uma coisa: afeto diz respeito ao corpo? Uma descarga de adrenalina \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 do corpo? Que perturba suas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 verdade. Mas em que isso prov\u00e9m da alma? O que isso descarrega \u00e9 pensamento. (LACAN, 1973\/2003, p. 522)<\/p>\n<p>O car\u00e1ter cir\u00fargico do ato anal\u00edtico dispensa o Outro da sustenta\u00e7\u00e3o identificat\u00f3ria imagin\u00e1ria, acionando a dimens\u00e3o do corte que, como nos aponta Laurent, n\u00e3o mais precisa fazer apelo \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de pontua\u00e7\u00e3o que mobiliza o sentido retroativo da cadeia significante em busca de um efeito de verdade. Para nos transmitir o modo incisivo como a interpreta\u00e7\u00e3o pode operar como corte que n\u00e3o mais relan\u00e7a o sentido inconsciente, Laurent (2020, p. 174) retoma Miller:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">N\u00e3o se trata de saber se a sess\u00e3o \u00e9 longa ou curta, silenciosa ou falante. Ou a\u00a0sess\u00e3o \u00e9 uma unidade sem\u00e2ntica, aquela em que S2 vem pontuar a elabora\u00e7\u00e3o\u00a0\u2013 del\u00edrio a servi\u00e7o do Nome do pai \u2013, muitas sess\u00f5es s\u00e3o assim, ou ent\u00e3o a sess\u00e3o\u00a0anal\u00edtica \u00e9 uma unidade assem\u00e2ntica, reconduzindo o sujeito \u00e0 opacidade de seu\u00a0gozo (&#8230;).<\/p>\n<p>Desse modo, resta-nos ler, a partir do \u00faltimo ensino de Lacan, a dimens\u00e3o do mist\u00e9rio como pura cifra de gozo e que n\u00e3o faz apelo a qualquer revela\u00e7\u00e3o. Se cada palavra assume na \u201cbateria significante de lal\u00edngua\u201d uma gama enorme e disparatada de sentidos heter\u00f3clitos, conforme nos \u00e9 esclarecido em \u201cTelevis\u00e3o\u201d (LACAN, 1973\/2003, p. 515) \u2013 tal como, de modo exemplar, nos demonstram os escritos joyceanos \u2013, o que permanece insond\u00e1vel \u00e9 o instante da mordida do significante no gozo, esse instante em que se fisga o afeto, sempre desalojado, numa escrita original que produz uma marca de gozo. Essa escrita se faz por um for\u00e7amento po\u00e9tico, nos diz Laurent, ou seja, por um acontecimento de dizer que, no entanto, n\u00e3o \u00e9 prerrogativa de poetas. Os Analistas da Escola (AE), por nos darem testemunho \u201cd\u2019isso de que se goza\u201d e que acontece no corpo, n\u00e3o se apresentam como um grupo de iniciados, ou seja, como aqueles que, nos antigos cultos de mist\u00e9rio, costumavam compartilhar um segredo em comum.<\/p>\n<p><strong><em>O encontro com um analista hoje, ou como se fazer presente na era do outro que n\u00e3o existe<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A partir da queda dos semblantes e do decl\u00ednio dos ideais, o corpo se imp\u00f5e, cada vez mais, como uma caixa de resson\u00e2ncia para lal\u00edngua, cujo correlato anal\u00edtico \u00e9 o que Miller (2015) chamou de cl\u00ednica acontecimento, mais pr\u00f3xima dos efeitos de gozo do que dos efeitos de verdade. Nela, prepondera o estranhamento do gozo feminino dito\u00a0<em>n\u00e3o todo<\/em>\u00a0sobre o universal do gozo f\u00e1lico; a emerg\u00eancia da equivocidade da letra que faz do ato anal\u00edtico, ele pr\u00f3prio, um acontecimento interpretativo ou, ainda, o modo inaudito como o sexo chega aos seres falantes, produzindo arranjos sinthom\u00e1ticos os mais diversos.<\/p>\n<p><a id=\"ref2\"><\/a>Em todas essas declina\u00e7\u00f5es, o analista pode comparecer, inclusive com seu corpo, dando lugar a uma nova escrita para o gozo opaco do sintoma, que aponta para o \u201clugar de mais ningu\u00e9m\u201d, o lugar do ex\u00edlio de\u00a0<em>lalangue<\/em>\u00a0que testemunha o ponto em que o gaio issaber vem \u201cro\u00e7ar\u201d (<em>piquer<\/em>) o sentido para al\u00e9m de toda compreens\u00e3o. (LACAN, 1973\/2003, p. 525). Nesta dire\u00e7\u00e3o, Laurent segue as indica\u00e7\u00f5es propostas no\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, de 1975-76, para evidenciar que o analista n\u00e3o seria mais visto como essa subjetividade segunda, que se instala no rigor de uma escuta dos efeitos de sentido que fazem brotar a verdade do sujeito em an\u00e1lise, mas como aquele que segue a via do\u00a0<em>sinthome<\/em>, buscando ressoar (<em>res\u00f3n)<\/em>\u00a0no corpo o eco do dizer pulsional. Trazendo seu pr\u00f3prio corpo para a ordem do dia, o analista usa a interpreta\u00e7\u00e3o pela via do equ\u00edvoco que faz vibrar o &#8220;escrito na fala&#8221;, que \u00e9 da ordem n\u00e3o do sentido, mas de\u00a0<em>lalangue<\/em>.\u00a0 Ele j\u00e1 n\u00e3o opera com a raz\u00e3o (<em>raison<\/em>),<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-urgencia-do-falasser#referencias\"><sup>2<\/sup><\/a>\u00a0ou com o Logos do Inconsciente, mas com essa resson\u00e2ncia que &#8220;libera algo do\u00a0<em>sinthome<\/em>&#8221; (LAURENT, 2016, p. 81). Haveria, no que concerne \u00e0 pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, um novo uso da interpreta\u00e7\u00e3o, que opera por um deslocamento da verdade ao gozo.<\/p>\n<p>Para finalizar, gostaria de trazer um breve recorte do testemunho de Veronique Voruz que, no relato \u201cExorcizada pela psican\u00e1lise\u201d, publicado em 2017, conta como cresceu assolada pelo gozo mort\u00edfero que lhe fora transmitido tanto pela av\u00f3, quanto pela m\u00e3e \u2013 ser um monstro a ser exorcizado via religi\u00e3o. Ela nos transmite como conseguiu escapar desse destino s\u00f3rdido pela experi\u00eancia da an\u00e1lise, que promoveu o verdadeiro exorcismo, dando lugar a uma nova escrita para o gozo. Certa vez, quando falava de seu problema\u00a0<em>d\u2019yeux<\/em>\u00a0(doen\u00e7a dos olhos), a analista lhe retorna: &#8220;Ah, sim, agora eu escuto\u00a0<em>Dieu<\/em>\u00a0(Deus)&#8221;. Essa nova escrita depura a ang\u00fastia de ser um monstro aos olhos do Outro, encarando-o de outro modo, em vez de ser vista como tal. O final da an\u00e1lise encaminha-se para essa opera\u00e7\u00e3o de ser arrancada dessa identifica\u00e7\u00e3o. Sua m\u00e3e era alpinista e muito jovem sofreu um terr\u00edvel acidente na montanha, que lhe arrancou uma das pernas. Em um sonho, ela se v\u00ea subindo uma montanha\u00a0<em>\u00e0 l\u2019arrache<\/em>\u00a0(por arrancos\/atalhos), no mesmo cen\u00e1rio do acidente sofrido pela m\u00e3e:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Eu interpreto este sonho de subjetiva\u00e7\u00e3o do acidente de meus pais, dizendo que\u00a0finalmente meu S1 \u00e9\u00a0<em>\u00e0<\/em>\u00a0<em>l\u2019arrache<\/em>. Subindo pelo caminho da montanha,\u00a0<em>\u00e0 l\u00e1rrache\u00a0<\/em>eu me arranco de meu destino de ser uma parte do corpo do Outro. Esse\u00a0significante nomeia o que chamarei de \u201cmeu estilo pulsional\u201d. Estou sempre um\u00a0pouco\u00a0<em>\u00e0 l\u2019arrache<\/em>, mas n\u00e3o me \u00e9 mais necess\u00e1rio arrancar-me do corpo do Outro\u00a0para me separar. (VORUZ, 2017)<\/p>\n<p>Esse fragmento nos mostra como a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana pode se colocar ao lado da urg\u00eancia do falasser, promovendo uma nova escrita para o gozo. No caso de Veronique, o lugar de dejeto com o qual o sujeito se identificar\u00e1 ao longo da vida torna-se um jeito de caminhar que, embora claudicante, \u00e9 o que lhe permite avan\u00e7ar.\u00a0<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1919). Os caminhos da terapia anal\u00edtica. In:\u00a0<strong>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/strong>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica Editora, 2017.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958). A significa\u00e7\u00e3o do falo. In:\u00a0<strong>Escritos<\/strong>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1973). Televis\u00e3o. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong><em>.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1976). Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11. In:\u00a0<strong>Outros Escritos<\/strong><em>.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<h6>LAURENT, E.\u00a0<strong>O avesso da biopol\u00edtica. Uma escrita para o gozo<\/strong><em>.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. A interpreta\u00e7\u00e3o: da verdade ao acontecimento.\u00a0<strong>Revista Curinga<\/strong>. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n. 50, jul.\/dez. 2020.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>Sutilezas anal\u00edticas<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A.\u00a0<strong>El ultim\u00edssimo Lacan<\/strong>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Ponto de basta.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana \u2013 Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/strong>, n. 79, jul. 2018.<\/h6>\n<h6>VORUZ, V. Exorcizada pela psican\u00e1lise.\u00a0<strong>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong>, n. 75\/76, maio 2017.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a id=\"referencias\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-urgencia-do-falasser#ref1\">1. Aula Inaugural proferida no Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais em 08\/08\/2022.<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-urgencia-do-falasser#ref2\">2. Conferir nota do tradutor do livro\u00a0<em>O avesso da biopol\u00edtica. Uma escrita para o gozo<\/em>, em que se esclarece a asson\u00e2ncia em franc\u00eas entre os termos\u00a0<em>raison<\/em>\u00a0e\u00a0<em>r\u00e9zon<\/em>, inventado pelo poeta Fran\u00e7ois Ponge e utilizado por \u00c9ric Laurent em sua leitura do\u00a0<em>Semin\u00e1rio 23<\/em>. Aqui, a solu\u00e7\u00e3o do tradutor foi pelo neologismo \u201cressonar\u201d, para transmitir a ideia de que o significante pulsa (ressoa) no corpo.<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laura Rubi\u00e3o Psicanalista, membro da EBP\/AMP lauralustosarubiao@gmail.com Resumo:\u00a0O texto explora certas nuances do que se pode conceber como \u201cpresen\u00e7a do analista\u201d em nossa \u00e9poca, diferenciando-a de algumas concep\u00e7\u00f5es tradicionais que evocam o analista como figura neutra, passiva ou desinteressada.\u00a0 Ao contr\u00e1rio, o analista se faz presente como aquele que escolhe estar ao lado da urg\u00eancia&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57730,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-2081","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-30","category-27","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2081","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2081"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2081\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57731,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2081\/revisions\/57731"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57730"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2081"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2081"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2081"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}