{"id":209,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=209"},"modified":"2025-12-01T12:51:51","modified_gmt":"2025-12-01T15:51:51","slug":"do-sentido-a-satisfacao-do-sintoma1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/do-sentido-a-satisfacao-do-sintoma1\/","title":{"rendered":"Do sentido \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o do sintoma<sup>[1]\/<sup>\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>K\u00e1tia Mari\u00e1s<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \/AMP<br \/>\n<span id=\"cloak1c9885ee409d1b1587eb23637be7194a\"><a href=\"mailto:katiamariasp@gmail.com\">katiamariasp@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>O texto aborda as Confer\u00eancias XVII e XXIII de Freud sobre o sentido dos sintomas e sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas. Nessas confer\u00eancias, ao partir do sentido \u2013\u00a0<em>Sinn<\/em>\u00a0\u2013 para a significa\u00e7\u00e3o, a refer\u00eancia \u2013 a\u00a0<em>Bedeutung<\/em>\u00a0\u2013, Freud vai do sentido ao gozo do sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>sintoma; gozo; puls\u00e3o; sentido; refer\u00eancia; satisfa\u00e7\u00e3o.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FROM MEANING TO SYMPTOM SATISFACTION<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The text addresses Freud&#8217;s XVII and XXIII Conferences on the meaning of symptoms and on the paths of symptom formation. In these conferences, by starting from the meaning \u2013\u00a0<em>Sinn<\/em>\u00a0\u2013 and moving to the signification, the reference \u2013\u00a0<em>Bedeutung<\/em>\u00a0\u2013, Freud goes from the meaning to the\u00a0<em>jouissance<\/em>\u00a0of the symptom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>symptom;\u00a0<em>jouissance<\/em>; drive; meaning; reference; satisfaction.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"attachment_210\" style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/sentido.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"567\" data-large_image_height=\"605\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-210\" class=\"size-full wp-image-210\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/sentido.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"605\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/sentido.png 567w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/sentido-281x300.png 281w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-210\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto que fui encarregada de trabalhar \u00e9 o \u00fanico que n\u00e3o est\u00e1 na s\u00e9rie de textos sobre os fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica publicados nas\u00a0<em>Obras Incompletas<\/em>\u00a0(FREUD, 2017). Ele comp\u00f5e a s\u00e9rie de confer\u00eancias proferidas por Freud a um p\u00fablico de n\u00e3o analistas entre os anos 1915 e 1917, chamadas \u201cConfer\u00eancias Introdut\u00f3rias sobre Psican\u00e1lise\u201d. O que Freud desenvolve ali n\u00e3o deixa de estar referido aos fundamentos da cl\u00ednica e, inclusive, conversa com eles. De qualquer forma, como sugere Miller, o \u201cperder-se um pouco\u201d tem todo seu valor. Para estar bem orientado em um tema anal\u00edtico \u00e9 preciso tamb\u00e9m desorientar-se, quer dizer, n\u00e3o pensar no tema de forma demasiadamente familiar (MILLER, 2011, p. 11). Selecionei algumas passagens da Confer\u00eancia XVII, \u201cO sentido dos sintomas\u201d (<em>Der Sinn der Symptom<\/em>) (FREUD, 1916-17\/1990a), para que possamos extrair o que h\u00e1 de essencial nesse texto e o que podemos aprender com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num primeiro ciclo de confer\u00eancias, Freud se ocupou dos sonhos e dos atos falhos. A fonte desse primeiro ciclo eram as obras da descoberta: \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u201d, a \u201cPsicopatologia da vida cotidiana\u201d e at\u00e9 \u201cO chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente\u201d. O segundo ciclo de confer\u00eancias, presentes na parte III, dentre as quais est\u00e1 \u201cO sentido dos sintomas\u201d, trata dos sintomas neur\u00f3ticos, as neuroses de transfer\u00eancia, como ele ent\u00e3o as chamava: histeria de ang\u00fastia, histeria de convers\u00e3o e neurose obsessiva. A confer\u00eancia XVII \u00e9, ent\u00e3o, uma aplica\u00e7\u00e3o aos sintomas neur\u00f3ticos do que havia sido dito sobre os sonhos e atos falhos. \u00c9 poss\u00edvel constatar que os sintomas s\u00e3o como os sonhos e atos falhos, ou seja, t\u00eam um sentido e podem ser interpretados (MILLER, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse texto j\u00e1 anuncia o que Freud vai complementar na Confer\u00eancia XXIII, intitulada \u201cOs caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas\u201d (<em>Die Wege der Symptombildung<\/em>) (FREUD, 1916-17\/1990a)<em>.\u00a0<\/em>O que h\u00e1 entre as duas confer\u00eancias? De que trata essas confer\u00eancias que fazem ponte entre a XVII e a XXIII? Freud introduz a\u00ed o pulsional, a libido, o sexual e o perverso do sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos ao texto: \u201cos sintomas t\u00eam um sentido e se relacionam com as experi\u00eancias do paciente\u201d (FREUD, 1916-17\/1990a, p.305).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos observar que Freud aborda o sujeito em sua singularidade. O sintoma tem um sentido e se relaciona com a experi\u00eancia do sujeito; n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tratar essa experi\u00eancia como sendo da ordem do universal, do para-todos. O sentido deve ser interpretado no caso a caso, no um a um, no singular: \u201cos sintomas neur\u00f3ticos t\u00eam, portanto, um sentido, como as parapraxias e os sonhos e, como estes, t\u00eam uma conex\u00e3o com a vida de quem os produz\u201d (FREUD, 1916-17\/1990a, p. 306).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez, Freud conecta os sintomas \u00e0 vida de quem os produz e n\u00e3o os liga a uma teoria geral, n\u00e3o universaliza os sintomas. Ele situa o sintoma dentro das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, a saber, o lapso, o chiste, o ato falho, o sonho e o sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Freud, nesse momento, o sonho tem um \u201cquerer dizer\u201d, tem um sentido, mas o sonho \u00e9 ef\u00eamero, ao ser interpretado ele se esvai. O sintoma tamb\u00e9m tem um \u201cquerer dizer\u201d, mas ele n\u00e3o \u00e9 ef\u00eamero, ele n\u00e3o se esvai, ao contr\u00e1rio, ele se repete. O car\u00e1ter de repeti\u00e7\u00e3o pode lev\u00e1-lo ao infinito, da\u00ed o termo \u201cos etc\u00e9teras do sintoma\u201d, que foi, ali\u00e1s, t\u00edtulo de um semin\u00e1rio que ocorreu nas XIV Jornadas do Campo Freudiano em Madrid, em 1997 (MILLER, 1997).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud vai tentar tornar a sua descoberta mais compreens\u00edvel escolhendo exemplos de casos n\u00e3o de histeria, mas \u201cde uma outra neurose muito mais extraordin\u00e1ria\u201d, a neurose obsessiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">A neurose obsessiva manifesta-se no fato de o paciente se ocupar de pensamentos em que realmente n\u00e3o est\u00e1 interessado, de estar c\u00f4nscio de impulsos dentro de si mesmo que lhe parecem muito estranhos, e de ser compelido a a\u00e7\u00f5es cuja realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe d\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o alguma, mas lhe \u00e9 totalmente imposs\u00edvel omitir. Os pensamentos (obsess\u00f5es) podem ser, em si, carentes de significa\u00e7\u00e3o, ou simplesmente assunto sem import\u00e2ncia para o paciente. (FREUD, 1916-17\/1990a, p. 306).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses sintomas, geralmente, est\u00e3o desprovidos de sentido, um sentido que n\u00e3o est\u00e1 dado de maneira imediata; ele tem que ser extra\u00eddo. O sintoma aparece como um sentido recalcado, ele aparece como um enigma. O sintoma manifesta-se suportado por um significante cujo significado est\u00e1 recalcado, quer dizer, que n\u00e3o foi comunicado ao Outro ou por ele aceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao afirmar que a realiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o obsessiva n\u00e3o lhe d\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel intuir algo que Freud s\u00f3 vai concluir na Confer\u00eancia XXIII. Esse ciclo de confer\u00eancias vai, portanto, do sentido ao gozo. Se o\u00a0<em>Sentido dos sintomas<\/em>\u00a0trata do sentido,\u00a0<em>O caminho da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas\u00a0<\/em>(FREUD, 1916-17\/1990b, trata da libido, da satisfa\u00e7\u00e3o, do gozo. Entre as confer\u00eancias XVII e XXIII, trata-se exatamente do caminho que vai do sentido ao gozo do sintoma. \u00c9 interessante destacar isso, porque vemos que j\u00e1 existia uma teoria da satisfa\u00e7\u00e3o libidinal, do gozo, antes mesmo de \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d (FREUD, 1920\/2020)<em>.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Certamente, esta \u00e9 uma doen\u00e7a louca. A imagina\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica mais extravagante n\u00e3o teria conseguido construir nada semelhante [&#8230;] O que \u00e9 posto em a\u00e7\u00e3o, em uma neurose obsessiva, \u00e9 sustentado por uma energia com a qual provavelmente n\u00e3o encontramos nada compar\u00e1vel na vida mental normal. [&#8230;] A possibilidade de deslocar qualquer sintoma para algo muito distante de sua conforma\u00e7\u00e3o original \u00e9 uma das principais caracter\u00edsticas desta doen\u00e7a. (FREUD, 1916-17\/1990a, p. 307)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada mais atual para n\u00f3s do Campo Freudiano: \u201cTodo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d. O obsessivo n\u00e3o percebe o sofrimento de seu sintoma, ele o incorpora t\u00e3o bem \u00e0 sua personalidade que \u00e9 motivo de prazer. Os sintomas obsessivos s\u00e3o prazerosos. O sujeito sofre como um condenado, mas n\u00e3o se queixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a teoria freudiana dos sintomas, tal como est\u00e1 desenvolvida nas confer\u00eancias, sup\u00f5e que uma satisfa\u00e7\u00e3o pode ser substitu\u00edda por outra, sup\u00f5e a possibilidade de substitui\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00f5es. \u00c9 o car\u00e1ter metaf\u00f3rico do sintoma. Freud chama de\u00a0<em>Ersatz<\/em>, uma satisfa\u00e7\u00e3o nova, ou substitutiva, e isso faz pensar que o substituto n\u00e3o tem o mesmo valor que o original. Mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. A satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva \u00e9 t\u00e3o boa quanto a satisfa\u00e7\u00e3o original. N\u00e3o importa o objeto, a finalidade libidinal obt\u00e9m-se custe o que custar e ela \u00e9 sempre a mesma. A puls\u00e3o n\u00e3o conhece o semblante de gozar; a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional \u00e9 um real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro caso apresentado na Confer\u00eancia XVII refere-se a uma mulher com uma a\u00e7\u00e3o compulsiva de proteger o marido impotente. O segundo consiste em um cerimonial de dormir que indica uma encena\u00e7\u00e3o da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual, sustentada por um v\u00ednculo libidinal com o pai. A escolha desses casos talvez se deva ao fato de que Freud se dirigia a uma audi\u00eancia de n\u00e3o praticantes e eram sintomas muito claros, que t\u00eam um sentido evidentemente sexual e se explicam por uma\u00a0<em>Bedeutung<\/em>\u00a0\u2013 termo dif\u00edcil de traduzir por indicar, ao mesmo tempo, \u201csignifica\u00e7\u00e3o\u201d e \u201crefer\u00eancia\u201d \u2013, pela refer\u00eancia a uma experi\u00eancia anterior. A primeira mulher monta sua cena como repeti\u00e7\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o de um evento anterior, traum\u00e1tico para ela. Atrav\u00e9s desses exemplos, Freud vincula o sentido e o libidinal. A\u00a0<em>Bedeutung<\/em>\u00a0\u00e9 uma viv\u00eancia anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomemos o caso: uma mulher de 30 anos de idade, que sofria de graves sintomas obsessivos, realizava, v\u00e1rias vezes por dia, a seguinte a\u00e7\u00e3o obsessiva: corria do seu quarto at\u00e9 um outro c\u00f4modo, se colocava numa determinada posi\u00e7\u00e3o ao lado de uma mesa no meio do aposento, soava a campainha chamando a empregada, lhe dava uma ordem qualquer ou a dispensava sem maiores explica\u00e7\u00f5es e, depois, corria de volta para seu quarto. Freud perguntava: \u201cPor que faz isso? Qual o sentido disto?\u201d. Ela respondia: \u201cN\u00e3o sei\u201d. Certa vez, depois de Freud ter invalidado uma d\u00favida importante, fundamental, ela subitamente soube a resposta e lhe contou o que estava em conex\u00e3o com o ato obsessivo. Freud realiza a seguinte leitura, a partir dos elementos fornecidos pela paciente: h\u00e1 10 anos, na noite de n\u00fapcias, o marido, que era bem mais velho, se mostrou impotente e passou a noite correndo do seu quarto para o quarto da mulher, para renovar sua tentativa, mas sempre sem \u00eaxito. Na manh\u00e3 seguinte, envergonhado perante a empregada que arrumaria seu quarto, pegou um frasco de tinta vermelha e derramou sobre o len\u00e7ol, mas n\u00e3o no exato lugar em que uma mancha viria a calhar. A paciente leva Freud at\u00e9 uma mesa no segundo quarto e mostra-lhe uma grande mancha na toalha. Explicou-lhe que assumia sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mesa de maneira tal que a empregada, ao ser dispensada de sua presen\u00e7a, n\u00e3o podia deixar de ver a mancha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A explica\u00e7\u00e3o de Freud estabelece uma \u00edntima conex\u00e3o entre a cena de sua noite de n\u00fapcias e o ato obsessivo atual. Em primeiro lugar, fica claro que a paciente se identificava com seu marido; ela estava executando o papel dele, imitando suas corridas de um quarto a outro. Al\u00e9m disso, cama e len\u00e7ol foram substitu\u00eddos pela mesa e pela toalha. Mesa e cama, juntas, representam o casamento e, assim, podem facilmente tomar o lugar da outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ato obsessivo tinha um sentido: uma representa\u00e7\u00e3o, uma repeti\u00e7\u00e3o daquela cena importante. Repetindo a cena, corrigia a falha do homem. Servia ao prop\u00f3sito de fazer seu marido superar a desventura passada. Separada h\u00e1 anos, debatia-se com a ideia de divorciar-se legalmente. Contudo, n\u00e3o havia como livrar-se dele. Era for\u00e7ada a permanecer fiel; retirou-se do mundo para n\u00e3o ser tentada. Em sua imagina\u00e7\u00e3o, desculpava-o e engrandecia suas qualidades. O segredo de sua doen\u00e7a consistia em que, atrav\u00e9s da doen\u00e7a, protegia seu marido de coment\u00e1rios maldosos. Atrav\u00e9s do sintoma, a mulher faz o homem e, deste lugar, o protege e o sustenta na plena possess\u00e3o de seus atributos. A leitura freudiana dessa a\u00e7\u00e3o obsessiva se limita a negar ou desmentir a impot\u00eancia do marido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mulher se encontra, desde ent\u00e3o, submetida \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de chamar a empregada para corrigir a cena, convocando o olhar dessa mulher a se colocar sobre uma mancha na toalha da mesa e, assim, mostrando que n\u00e3o haveria de ter vergonha. Toda a cena \u00e9 montada para corrigir a penosa impot\u00eancia do marido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, a interpreta\u00e7\u00e3o do sintoma foi descoberta pela pr\u00f3pria paciente, sem qualquer influ\u00eancia ou interpreta\u00e7\u00e3o do analista, e resultou de uma conex\u00e3o com um acontecimento que n\u00e3o pertencia a um per\u00edodo esquecido da inf\u00e2ncia, mas que ocorre na vida adulta da paciente e permaneceu vivo em sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta que Freud faz ao seu p\u00fablico, nessa confer\u00eancia \u00e9: foi por acaso e sem maior significa\u00e7\u00e3o que chegamos justamente \u00e0 intimidade da vida sexual?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro caso apresentado por Freud na Confer\u00eancia XVII foi comentado por Esthela Solano (1993) e por Elisa Alvarenga (2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cito Elisa Alvarenga (2019, p. 37), a prop\u00f3sito do coment\u00e1rio de Esthela Solano sobre essa cena que esconde algo, tanto quanto revela:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">A mulher, colocando-se no lugar do marido, faz Um com ele, e a partir dessa solidariedade f\u00e1lica, chama a empregada. A que lugar ela \u00e9 convocada? Esta mulher obsessiva recorre a uma Outra mulher, n\u00e3o para interrogar nela o mist\u00e9rio da feminilidade, segundo a estrat\u00e9gia da hist\u00e9rica, mas para tom\u00e1-la como testemunha, como Outro diante do qual a mancha pode ser tomada como um semblante que faz valer seu poder de evoca\u00e7\u00e3o do falo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mancha vela o recuo do marido diante do Outro sexo, tomando um valor de quase fetiche, que restitui ao marido seu ter para que ela possa assegurar, do seu lado o ser. Ela adivinha a posi\u00e7\u00e3o do parceiro e a corrige atrav\u00e9s do seu sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos concordar que esses dois casos de mulheres que Freud classifica como obsess\u00e3o s\u00e3o, na verdade, fragmentos de casos de histeria e \u00e9 o car\u00e1ter de obriga\u00e7\u00e3o dos seus atos,\u00a0<em>Zwang,<\/em>\u00a0presentes nos dois casos descritos, o que o leva a caracterizar tais sintomas como obsessivos. O sentido do ato obsessivo escapa ao sujeito que se encontra, sempre, obrigado a execut\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sentido dos sintomas \u00e9 sempre desconhecido para o doente: \u201c\u00c9 necess\u00e1rio que esse sentido seja inconsciente para que o sintoma possa surgir\u201d. Ou seja, n\u00e3o se formam sintomas a partir dos processos conscientes. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o inconsciente do sintoma. \u201cA constru\u00e7\u00e3o de um sintoma \u00e9 o substituto de alguma outra coisa diferente que est\u00e1 interceptada\u201d (MILLER, 2011, p. 21).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somente o sintoma nos introduz no mais \u00edntimo da vida sexual. Os sintomas servem \u00e0 mesma inten\u00e7\u00e3o: a satisfa\u00e7\u00e3o de desejos sexuais. Para Freud, o uso do sintoma \u00e9 sempre o mesmo \u2013 a satisfa\u00e7\u00e3o sexual ou servir de substituto \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o que falta na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O car\u00e1ter de forma\u00e7\u00e3o de compromisso do sintoma revela a \u00edntima conex\u00e3o entre gozo e defesa. No sintoma, trata-se de obter satisfa\u00e7\u00e3o e de defender-se dessa satisfa\u00e7\u00e3o. Essa conex\u00e3o leva Lacan a deduzir que h\u00e1 algo excessivo no gozo que obriga o sujeito sempre a defender-se do gozo que busca (MILLER, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sintoma encontra sua significa\u00e7\u00e3o (<em>Sinn<\/em>) e sua refer\u00eancia (<em>Bedeutung<\/em>) em seu\u00a0<em>a posteriori<\/em>\u00a0\u2013\u00a0<em>Nachtr\u00e4glichkeit<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo que nos ajuda a entender melhor essa temporalidade, considerando as duas indica\u00e7\u00f5es de Freud \u2013 o\u00a0<em>Sinn\u00a0<\/em>e a\u00a0<em>Bedeutung \u2013,\u00a0<\/em>\u00e9 o fragmento cl\u00ednico que ele descreve como\u00a0<em>pr\u00f3ton pseudos<\/em>, a primeira mentira hist\u00e9rica (FREUD, 1895\/1990c). O sintoma apresentado pela paciente Emma consistia na evita\u00e7\u00e3o de entrar sozinha nas lojas por temer os risos que sua roupa poderia suscitar. A agorafobia eclodiu a partir de uma primeira cena relatada pela jovem como motivo de seu adoecimento, na qual ela, ent\u00e3o com doze anos, fugiu de uma loja ao perceber que dois vendedores riam de sua roupa. Um deles havia atra\u00eddo Emma sexualmente. A an\u00e1lise com Freud promoveu o franqueamento das ideias recalcadas, possibilitando uma rearticula\u00e7\u00e3o dos enlaces associativos. A primeira cena evocou a lembran\u00e7a de uma segunda cena, mais long\u00ednqua, datada de seus oito anos de idade, quando Emma havia sido molestada pelo dono de uma confeitaria. O riso dos vendedores atualizava o sorriso do propriet\u00e1rio da confeitaria que agarrou sua regi\u00e3o genital atrav\u00e9s de seu vestido. Freud enfatiza a temporalidade\u00a0<em>Nachtr\u00e4glich<\/em>\u00a0estruturante das neuroses. Apenas mediante o estabelecimento de um elo entre a cena 1 e a cena 2, portanto\u00a0<em>s\u00f3 depois<\/em>, o acontecimento primeiro adquire seu potencial traum\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ang\u00fastia que leva Emma a erigir um sintoma f\u00f3bico n\u00e3o \u00e9 experimentada na cena em que \u00e9 assediada pelo dono da loja. A significa\u00e7\u00e3o desse evento como traum\u00e1tico ocorre\u00a0<em>a posteriori<\/em>. Apenas com a entrada na puberdade, no intervalo entre as duas cenas, a jovem se confronta com novas formas de satisfa\u00e7\u00e3o a partir do despertar da sexualidade, se deparando com seu desejo, com o real da puberdade, o que acabou por ressignificar suas experi\u00eancias anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem pretender fechar as in\u00fameras quest\u00f5es trazidas pela leitura das Confer\u00eancias freudianas, podemos concluir que o estatuto do sintoma \u00e9 problem\u00e1tico, ou melhor, h\u00e1 o que Lacan chamou de \u201co segredo do sintoma\u201d, na medida em que se trata de um fen\u00f4meno articulado no significante e que tem um sentido. O valor metaf\u00f3rico de satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o encarna e eterniza sua exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o (MILLER, 2008). \u00c9 a voca\u00e7\u00e3o para mover-se, de ser errante, de mudar o objeto para permut\u00e1-lo por outro, para o deslocamento, para a substitui\u00e7\u00e3o da libido que pode lev\u00e1-la, inclusive, para a obra de arte. A libido pode, portanto, ser sublimada ou sintomatizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho de Elisa Alvarenga nos esclarece que, uma vez que a hist\u00e9rica n\u00e3o vai sem o Outro, na medida em que esse Outro muda no decorrer dos tempos, as manifesta\u00e7\u00f5es da histeria tamb\u00e9m mudam. A neurose obsessiva feminina seria, portanto, uma resposta sintom\u00e1tica ou fantasm\u00e1tica, desencadeada por situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas relativas \u00e0s experi\u00eancias do sujeito, tal como Freud j\u00e1 havia postulado na Confer\u00eancia XVII \u2013 resposta essa que encobre uma posi\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1978, Lacan manifestava sua incerteza quanto \u00e0 exist\u00eancia da neurose hist\u00e9rica, mas afirmava a exist\u00eancia da neurose obsessiva, que teria sido descrita por Freud como um dialeto da histeria e seria, sim, a neurose contempor\u00e2nea por excel\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Diante do decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna enquanto autoridade e de um Outro que se apresenta inconsistente, os sujeitos se identificam e se coletivizam sob certos S1 que nomeiam modos de gozo sob os quais sujeitos hist\u00e9ricos, divididos, se alojam, identificando-se a um tra\u00e7o que tampa sua divis\u00e3o subjetiva e lhes imp\u00f5e diversas formas de compuls\u00e3o; amorosa, toxic\u00f4mana, alimentar, para comprar, endividar-se, etc. O imperativo de gozo leva a novas formas sintom\u00e1ticas que podem ser pensadas como novas roupagens para a neurose. (ALVARENGA, 2019, p. 26-27)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, s\u00e3o sujeitos que, devido \u00e0 maior dificuldade de subjetiva\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o, apresentam, por sua vez, dificuldade tamb\u00e9m de dar sentido aos seus sintomas, o que nos leva a pensar a cl\u00ednica a partir do uso que o sujeito faz dos sintomas, como cada sujeito amarra seu gozo ou, ainda, seria uma cl\u00ednica dos modos de gozo.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ALVARENGA, E.\u00a0<em>A neurose obsessiva no feminino.<\/em>\u00a0Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2019.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Confer\u00eancias introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise (O sentido do sintoma). In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVI, 1990a, p. 305-322. (Trabalho original publicado em 1916-17).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Confer\u00eancias introdut\u00f3rias sobre psican\u00e1lise (O caminho da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas). In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVI, 1990b, p. 419-439. (Trabalho original publicado em 1916-17).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. A proton pseudos \u2013 a primeira mentira hist\u00e9rica. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. I, 1990c, p. 474-478. (Trabalho original publicado em 1895).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. In:\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<em>.<\/em>\u00a0In:\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020. (Trabalho original publicado em 1920).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. S\u00edntoma, saber, sentido y real. Los etc\u00e9teras del s\u00edntoma.\u00a0<em>Rev.<\/em>\u00a0<em>Folhas<\/em>, n. 5\/6, set. 1997.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. El partenaire-s\u00edntoma. In:\u00a0<em>Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2008.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Semin\u00e1rio sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 60, 2011.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SOLANO-SUAREZ, E. N\u00e9vrose obsessionnelle et f\u00e9minit\u00e9<em>.\u00a0<\/em><em>La Cause freudienne,\u00a0<\/em>n.24, p. 16-19, 1993.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/do-sentido-a-satisfacao-do-sintoma#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado nas 59\u00aa Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise do IPSM-MG, em 13 de junho de 2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>K\u00e1tia Mari\u00e1s Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \/AMP katiamariasp@gmail.com Resumo:\u00a0O texto aborda as Confer\u00eancias XVII e XXIII de Freud sobre o sentido dos sintomas e sobre os caminhos da forma\u00e7\u00e3o dos sintomas. Nessas confer\u00eancias, ao partir do sentido \u2013\u00a0Sinn\u00a0\u2013 para a significa\u00e7\u00e3o, a refer\u00eancia \u2013 a\u00a0Bedeutung\u00a0\u2013, Freud vai do sentido ao gozo do&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57781,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-209","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=209"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57782,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209\/revisions\/57782"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57781"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}