{"id":2094,"date":"2024-02-18T16:29:13","date_gmt":"2024-02-18T19:29:13","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2094"},"modified":"2025-12-01T12:02:27","modified_gmt":"2025-12-01T15:02:27","slug":"o-ato-de-leitura-em-psicanalise1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/18\/o-ato-de-leitura-em-psicanalise1\/","title":{"rendered":"O ato de leitura em psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<h2><span style=\"color: #333399;\">O ato de leitura em psican\u00e1lise<a style=\"color: #333399;\" href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><strong>Ram Mandil<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, A.M.E. da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"mailto:rmandil.bhe@terra.com.br\">mandil.bhe@terra.com.br<\/a><\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo: <\/strong>O autor parte da constata\u00e7\u00e3o de que vivemos na era da gest\u00e3o como modelo da a\u00e7\u00e3o, como c\u00e1lculo de proveitos e codifica\u00e7\u00e3o das escolhas, em nome do bem-estar individual ou coletivo. Nesse sentido, ele destaca a import\u00e2ncia de colocar o ato anal\u00edtico em perspectiva, em um tempo no qual se busca tamponar os encontros, cada vez mais frequentes, com a inconsist\u00eancia do Outro. E esclarece que \u00e9 a partir do discurso anal\u00edtico que podemos orientar o debate sobre a ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI em uma nova dimens\u00e3o, levando em conta o contraste entre o simb\u00f3lico como cadeia significante e o simb\u00f3lico definido em rela\u00e7\u00e3o ao furo, ao trauma, ao que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> ato anal\u00edtico; ordem simb\u00f3lica; cadeia signficante; furo.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>THE ACT OF READING IN PSYCHOANALYSIS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract: <\/strong>The author starts from the observation that we live in the era of management as a model of action, as a calculation of profits and codification of choices, in the name of individual or collective well-being. In this sense, he highlights the importance of putting the analytical act into perspective, at a time when we seek to buffer the increasingly frequent encounters with the inconsistency of the Other. And it clarifies that it is from the analytical discourse that we can guide the debate on the symbolic order in the 21st century in a new dimension, taking into account the contrast between the symbolic as a signifying chain and the symbolic defined in relation to the hole, the trauma, the that never ceases to be written.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong> analytical act; symbolic order; signifying chain; hole.<\/p><\/blockquote>\n<p><em><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/RAM-MANDIL.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"886\" data-large_image_height=\"1182\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2095 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/RAM-MANDIL-768x1024.png\" alt=\"\" width=\"396\" height=\"528\" \/><\/a>\u00a0<\/em>O que pode ser o ato anal\u00edtico na \u00e9poca dos protocolos e das diretrizes terap\u00eauticas, em que a a\u00e7\u00e3o ideal consiste em reduzir, ao m\u00ednimo, toda possibilidade de imprevisto? Como observa \u00c9ric Laurent, trata-se de um \u201dideal de a\u00e7\u00e3o calculada\u201d, na medida em que um ato \u00e9 concebido como assimil\u00e1vel ao racioc\u00ednio, como a conclus\u00e3o l\u00f3gica das suas premissas.<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> Ele nos lembra que vivemos a era da gest\u00e3o como modelo da a\u00e7\u00e3o, como c\u00e1lculo de proveitos e codifica\u00e7\u00e3o das escolhas, em nome do bem-estar individual ou coletivo. Nesse sentido, \u00e9 importante colocar o ato anal\u00edtico em perspectiva, numa \u00e9poca em que se busca tamponar os encontros, cada vez mais frequentes, com a inconsist\u00eancia do Outro. Assim, podemos dizer que h\u00e1 uma foraclus\u00e3o do ato em muitos dom\u00ednios de nossa cultura que envolvem a tomada de decis\u00f5es, quando se manifesta uma descontinuidade entre o ato e suas premissas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>O ato anal\u00edtico e o ato de leitura do sintoma<\/em><\/p>\n<p>No que diz respeito ao ato de leitura em psican\u00e1lise, na perspectiva do ato anal\u00edtico, vamos nos referir a uma passagem do caso Dora, mais precisamente \u00e0 maneira como Freud trata um de seus numerosos sintomas: sua tosse persistente, sua <em>tussis nervosa<\/em>.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, Freud observa que sua <em>tussis<\/em>, frequentemente acompanhada de um sintoma de afonia, estava diretamente associada \u00e0 presen\u00e7a ou aus\u00eancia do homem para qual ela dirigia seu amor naquele momento. Ele ressalta que os epis\u00f3dios de tosse coincidiam com os deslocamentos que o Sr. K. devia fazer. No entanto, ele sugere que ela precisava encontrar um meio para dissimular a coincid\u00eancia entre seus acessos de tosse e a aus\u00eancia do homem que ela amava em segredo. De toda maneira, segundo Freud (1905[1901]\/1972, p. 37), \u00e9 preciso ler na periodicidade das crises de tosse \u201cum tra\u00e7o de seu significado original\u201d. Logo em seguida, Freud abre uma discuss\u00e3o sobre a causa dos sintomas hist\u00e9ricos. Devemos consider\u00e1-los como sintomas\u00a0\u201csom\u00e1ticos\u201d ou como sintomas \u201cps\u00edquicos\u201d? Mesmo sob a perspectiva do som\u00e1tico, Freud indaga-se em que medida eles s\u00e3o influenciados pelo \u201cpensamento\u201d.\u00a0 Pode-se colocar isso em perspectiva com as recentes elabora\u00e7\u00f5es de Jacques-Alain Miller (2011, p. 56-57), especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diferen\u00e7a que ele estabelece entre um \u201cfen\u00f4meno de corpo\u201d e um \u201cacontecimento de corpo\u201d. Deve-se tomar um acontecimento de corpo como um efeito do impacto do significante, o que implica um desarranjo ou um desvio do que se imaginaria ser \u201co gozo natural do corpo vivo\u201d. Dito de outro modo, deve-se considerar um acontecimento de corpo, no sentido do sintoma, como um efeito da a\u00e7\u00e3o do significante,\u00a0\u201cque opera fora do sentido\u201d. \u00c9 desta a\u00e7\u00e3o do significante que se produz uma met\u00e1fora, ponto de partida para a meton\u00edmia do gozo, na qual se veicula a dial\u00e9tica da significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, vale a pena trazer aqui extrato do texto de Freud (1905[1901]\/1972, p. 44):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Tanto quanto posso ver, todo sintoma hist\u00e9rico [\u2026] n\u00e3o pode se produzir sem uma certa <em>complac\u00eancia som\u00e1tica<\/em> que se manifesta por um processo normal ou patol\u00f3gico num ou sobre um \u00f3rg\u00e3o do corpo. Esse processo s\u00f3 se produz uma vez \u2013 e a capacidade de repetir-se \u00e9 uma das caracter\u00edsticas de um sintoma hist\u00e9rico \u2013 a menos que tenha uma import\u00e2ncia, um <em>significado<\/em> ps\u00edquico. O sintoma hist\u00e9rico n\u00e3o tem esse significado, em si, mas tem o significado que se lhe empresta, soldado a ele, por assim dizer; e em todos os casos o significado pode ser diferente, segundo a natureza dos pensamentos recalcados que estejam lutando por express\u00e3o.<\/p>\n<p>Examinemos uma das interpreta\u00e7\u00f5es que Freud faz da tosse de Dora. Pode-se dizer que ele toma, de in\u00edcio, esse sintoma do lado da meton\u00edmia: como suas queixas contra seu pai persistiam ao mesmo tempo que seus acessos de tosse, Freud (1905[1901]\/1972, p. 44) escreve que foi \u201clevado a pensar que esse sintoma podia ter uma significa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao seu pai\u201d. Por outro lado, Freud (1905[1901]\/1972, p. 44) vai atrair nossa aten\u00e7\u00e3o para o aspecto metaf\u00f3rico do sintoma, sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo sexual, o sintoma como substituto de um prazer sexual: \u201co sintoma significa a representa\u00e7\u00e3o \u2013 a realiza\u00e7\u00e3o \u2013 de uma fantasia de conte\u00fado sexual\u201d.<\/p>\n<p>Lembremos, aqui, a vinheta bem conhecida na qual Freud encontra outra ocasi\u00e3o para interpretar a tosse de Dora. Ele sublinha a insist\u00eancia de Dora ao dizer que a Sra. K. n\u00e3o estava apaixonada por seu pai, mas que apenas estava com ele porque ele era \u201c<em>ein verm\u00f6gender Mann<\/em>\u201d (um homem de posses, rico). Aqui \u00e9 importante seguir, de perto, o texto de Freud (1905[1901]\/1972, p. 45):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Certos pormenores da maneira como ela se expressou \u2013 particularidades que omito aqui, como a maioria das outras partes puramente t\u00e9cnicas do trabalho da an\u00e1lise \u2013 levaram-me a perceber atr\u00e1s desta frase o seu sentido oposto oculto, ou seja, que seu pai era um homem <em>sem r<\/em><em>ecursos<\/em>. [O que em alem\u00e3o \u2013 \u201c<em>ein unverm\u00f6gender Mann<\/em>\u201d \u2013 significa tamb\u00e9m um homem impotente, no sentido sexual do termo.]<\/p>\n<p>O que parece importante n\u00e3o \u00e9 a emerg\u00eancia de uma significa\u00e7\u00e3o escondida, mas a revela\u00e7\u00e3o de uma contradi\u00e7\u00e3o com um valor de significante da falta no Outro. Freud apresenta a contradi\u00e7\u00e3o a Dora: como ela pode insistir, ao mesmo tempo, numa liga\u00e7\u00e3o sexual entre seu pai e a Sra. K. e a impot\u00eancia de seu pai? Pode-se ver aqui que a falta no Outro aponta para um impasse na rela\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 not\u00e1vel como, naquele momento, o fantasma de Dora vem justamente tapar esse furo, ao dizer a Freud que existem muitos outros meios de obter prazer sexual. Nesse momento ela confessa pensar no sexo oral.<\/p>\n<p>Duas dimens\u00f5es do sintoma se fazem a\u00ed presentes: a que \u00e9 apreendida pelo sentido e a que permanece opaca a toda significa\u00e7\u00e3o. Pode-se dizer que o gozo apreendido pelo sentido \u00e9 o que est\u00e1 enquadrado no fantasma. No caso de Dora, Freud (1905[1901]\/1972, p. 45) faz esta observa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A conclus\u00e3o era inevit\u00e1vel no sentido de que, com sua tosse espasm\u00f3dica que, como de h\u00e1bito, se reportava por seu est\u00edmulo excitante a uma c\u00f3cega na garganta, ela pintava para si mesma uma cena de satisfa\u00e7\u00e3o sexual <em>per os<\/em> entre as duas pessoas cujo caso amoroso ocupava t\u00e3o incessantemente sua mente.<\/p>\n<p>Ainda que Freud reconhe\u00e7a no desaparecimento do sintoma, logo ap\u00f3s essa interpreta\u00e7\u00e3o, uma confirma\u00e7\u00e3o de sua tese segundo a qual o sintoma desaparece uma vez sua significa\u00e7\u00e3o revelada, ele tamb\u00e9m deixa margem para um aspecto do sintoma que permanece fora do alcance do sentido. Para Freud, um sintoma n\u00e3o pode ser completamente elucidado pelo sujeito, e \u00e9 justo a\u00ed que reside sua efic\u00e1cia como sintoma. Ali\u00e1s, como esse sintoma da tosse de Dora sempre se mostrou intermitente, Freud encontra a\u00ed uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o de seu desaparecimento. Mas, de fato, ele n\u00e3o parece duvidar que sua dissolu\u00e7\u00e3o decorre desta interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vamos nos referir agora \u00e0 rela\u00e7\u00e3o que Freud estabelece entre o sintoma de tosse de Dora e o seu corpo. Al\u00e9m de ser uma forma de identifica\u00e7\u00e3o com seu pai, pelos espasmos e pelos mucos \u2013 dois elementos de conota\u00e7\u00e3o sexual \u2013, pode-se reconhecer nessa tosse, tal como Freud a analisa, aquilo que J.-A. Miller identifica como sendo os dois n\u00edveis de gozo: o gozo do corpo vivo, na sua dimens\u00e3o autoer\u00f3tica, e o gozo marcado pelo significante. Freud (1905[1901]\/1972, p. 80) d\u00e1 uma boa imagem da rela\u00e7\u00e3o entre os dois: primeiramente, ele descreve a dimens\u00e3o autoer\u00f3tica do sintoma de Dora como a presen\u00e7a, em sua garganta, \u201cde uma irrita\u00e7\u00e3o real e org\u00e2nica\u201d, que funcionava, diz ele, como \u201co gr\u00e3o de areia ao redor do qual a ostra forma sua p\u00e9rola\u201d. Depois, ele precisa: \u201cEsta irrita\u00e7\u00e3o era suscet\u00edvel de fixa\u00e7\u00e3o, pois dizia respeito a uma parte do corpo que, em Dora, conservara acentuadamente sua import\u00e2ncia como zona er\u00f3gena\u201d (FREUD, 1905[1901]\/1972, p. 80). Essa irrita\u00e7\u00e3o convinha para a express\u00e3o de todos seus diferentes estados de excita\u00e7\u00e3o libidinal. Em torno do gr\u00e3o de areia contingencial observa-se a forma\u00e7\u00e3o de um gozo que conflui com o sentido, de um gozo situado na rela\u00e7\u00e3o com o Outro, seja a tosse de Dora entendida como signo da identifica\u00e7\u00e3o com seu pai, seja como representa\u00e7\u00e3o de sua rela\u00e7\u00e3o com o Sr. K., ou, bem, a tosse como representa\u00e7\u00e3o-realiza\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o sexual fantasm\u00e1tica atrav\u00e9s de sua identifica\u00e7\u00e3o com a Sra. K.<\/p>\n<p>Podemos concluir que a leitura do sintoma de Dora pode ser feita em duas dimens\u00f5es: ou se l\u00ea nele a express\u00e3o de uma polifonia de sentido, ou orienta-se a leitura para separ\u00e1-lo de todas suas significa\u00e7\u00f5es. Nessa perspectiva, pode-se dizer, valendo-me aqui da met\u00e1fora freudiana, que a leitura de um sintoma consiste no esfor\u00e7o para ler o gr\u00e3o de areia no interior da p\u00e9rola, o gr\u00e3o de areia em torno do qual a p\u00e9rola se formou.<\/p>\n<p>A met\u00e1fora do gr\u00e3o de areia n\u00e3o deixa de evocar aqui uma outra met\u00e1fora, a que Lacan criou sobre a letra como \u201clitoral\u201d. Um litoral enquanto diferente de uma fronteira, na medida em que ele articula dois lados heterog\u00eaneos, como a terra e o mar. Dito de outro modo, a letra tanto como elemento simb\u00f3lico, quanto um recept\u00e1culo do gozo, aspecto que se torna mais evidente quando ela n\u00e3o est\u00e1 comprometida com o sentido.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>Ler um sintoma, ler o inconsciente<\/em><\/p>\n<p>Interroguemos, agora, a rela\u00e7\u00e3o entre \u201cler um sintoma\u201d e \u201cler o inconsciente\u201d. Em \u201cLer um sintoma\u201d, J.-A. Miller insiste sobre a diferen\u00e7a entre os dois: o sintoma, em sua rela\u00e7\u00e3o com o real, se apresenta como fixa\u00e7\u00e3o, como o que est\u00e1 sempre no mesmo lugar, enquanto se percebe o inconsciente a partir de fen\u00f4menos fugazes, como os sonhos, o lapso, os atos falhos, etc.<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Lembremos aqui algumas das ideias de Jacques Lacan sobre a leitura no discurso psicanal\u00edtico, especialmente a \u00faltima passagem da li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 20,<em> Mais, ainda<\/em>: \u201cA fun\u00e7\u00e3o do escrito\u201d. Sabemos que, nessa passagem do Semin\u00e1rio, ele tem a escrita de James Joyce em mente. Lacan compara o ato de leitura em psican\u00e1lise ao esfor\u00e7o que devemos fazer para ler <em>Finnegans Wake<\/em>. S\u00f3 podemos ler uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente ou um lapso, do mesmo modo como \u00e9 exigida a leitura de <em>Finnegans Wake<\/em>, como um n\u00famero infinito de leituras poss\u00edveis. N\u00e3o se pode l\u00ea-los, sen\u00e3o como mau-lidos ou de maneira obl\u00edqua.<\/p>\n<p>\u201cO de que se trata no discurso anal\u00edtico \u00e9 sempre isto \u2013 ao que se enuncia de significante, voc\u00eas d\u00e3o sempre uma leitura outra que n\u00e3o o que ele significa\u201d, dir\u00e1 Lacan (1972-73\/1985, p. 52). De certa maneira, \u00e9 o que se pode inferir do ato de leitura que Freud fez do sintoma de tosse de Dora. O que se diz, como significante, podia ter uma multiplicidade de sentidos. Logo, isso n\u00e3o tem uma significa\u00e7\u00e3o particular, o que indica, de certo modo, a presen\u00e7a do lugar vazio da significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, na mesma li\u00e7\u00e3o, Lacan introduz uma nova dimens\u00e3o ao ato de ler o inconsciente: a dimens\u00e3o do ler-se. Ele produz uma alegoria da observa\u00e7\u00e3o das abelhas e dos p\u00e1ssaros: por exemplo, se vemos um grupo de p\u00e1ssaros voar baixo, dizemos que uma tempestade se aproxima. Em certa medida, pode-se comparar esta leitura com a leitura do inconsciente, pela vertente do sentido. Mas o que Lacan quer saber \u00e9 se se pode considerar que os p\u00e1ssaros fazem tamb\u00e9m esta leitura de sua maneira especial de voar, como estando em rela\u00e7\u00e3o com a tempestade. Segundo ele, esta \u00e9 a verdadeira quest\u00e3o da leitura do inconsciente. Como j\u00e1 observou J.-A. Miller, a quest\u00e3o \u00e9 saber se n\u00f3s podemos considerar o pr\u00f3prio inconsciente como um leitor, como um int\u00e9rprete. Donde a quest\u00e3o de como ler o inconsciente, visto ser ele um leitor de si mesmo.<\/p>\n<p>Lacan nos faz observar que, no discurso anal\u00edtico, supomos que o sujeito do inconsciente \u00e9 um sujeito que sabe ler. Pode-se supor n\u00e3o apenas que ele sabe ler, mas que ele pode tamb\u00e9m aprender a ler. No entanto, essa li\u00e7\u00e3o conclui de forma enigm\u00e1tica, quando ele afirma que aquilo que o sujeito do inconsciente pode aprender a ler n\u00e3o tem nada a ver \u201ccom o que voc\u00eas possam escrever a respeito\u201d (LACAN, 1972-73\/1985, p. 52). Uma das interpreta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis desta frase \u00e9 que aquilo que o inconsciente pode verdadeiramente aprender a ler, ao longo de uma experi\u00eancia anal\u00edtica, \u00e9 alguma coisa que n\u00e3o pode se escrever. O que n\u00e3o pode se escrever, e sabemos disso atrav\u00e9s do pr\u00f3prio Lacan \u00e9, de fato, a rela\u00e7\u00e3o (<em>rapport<\/em>) sexual entre os <em>falasseres<\/em> (<em>parl\u00eatres)<\/em>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>O escrito para n\u00e3o se ler<\/em><\/p>\n<p>Uma semana antes desta li\u00e7\u00e3o sobre a fun\u00e7\u00e3o da escrita no discurso anal\u00edtico, Lacan havia redigido um Posf\u00e1cio ao livro 11 do seu Semin\u00e1rio <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. Nesse Posf\u00e1cio, h\u00e1 nova refer\u00eancia a James Joyce, como aquele que introduziu a dimens\u00e3o da escrita como n\u00e3o sendo destinada \u00e0 leitura: \u201cum escrito como para n\u00e3o se ler\u201d (LACAN, 1964\/1985, p. 263).<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui um contraponto que deve ser levado em considera\u00e7\u00e3o. No fim da li\u00e7\u00e3o sobre a fun\u00e7\u00e3o do escrito do Semin\u00e1rio 20, Lacan indica uma leitura disso que n\u00e3o pode ser escrito. No entanto, devemos levar em conta que o que n\u00e3o pode ser escrito \u2013 a rela\u00e7\u00e3o sexual como imposs\u00edvel \u2013 deixa uma marca, um tra\u00e7o que abre para a dimens\u00e3o da letra. Lacan o havia assinalado quando introduziu o matema S(\u023a), o significante da falta no Outro. N\u00f3s podemos inferir que este significante pode ser considerado como uma letra, uma letra a ser lida como \u201cum gr\u00e3o de areia\u201d, e n\u00e3o como um significante a espera de uma significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gostaria de me referir aqui a uma passagem de <em>Um retrato do artista quando jovem<\/em>, de James Joyce, na qual se percebe como a letra vem em primeiro plano a cada vez que o sujeito se v\u00ea confrontado com a inconsist\u00eancia do Outro.<\/p>\n<p>Numa passagem dessa obra encontra-se o seguinte di\u00e1logo entre o jovem Stephen Dedalus \u2013 \u201cJames Joyce tentando decifrar seus enigmas\u201d, segundo Lacan \u2013 e Wells, seu colega de classe:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Depois que ele saiu, Wells veio at\u00e9 Stephen e lhe disse:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cDiga-nos uma coisa, Dedalus, voc\u00ea beija sua m\u00e3e antes de ir deitar?\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Stephen respondeu:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cBeijo, sim.\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Wells virou-se para os demais camaradas e disse:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cEscutem uma coisa, este camarada aqui est\u00e1 dizendo que beija a m\u00e3e dele todas as noites antes de ir deitar.\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Os outros garotos pararam de jogar e se viraram todos naquela dire\u00e7\u00e3o, pondo-se a rir. Stephen corou e disse:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cN\u00e3o beijo nada.\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Wells disse:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cEscutem voc\u00eas, este camarada aqui est\u00e1 dizendo que n\u00e3o beija a m\u00e3e dele antes de ir deitar.\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Eles todos tornaram a rir. Stephen tentou rir com eles. Sentiu todo seu corpo quente e confuso, de s\u00fabito. Qual era a resposta certa para tal pergunta? Ele tinha dado duas e ainda assim Wells rira. [\u2026] Fora Wells que o empurrara para dentro da valeta na v\u00e9spera [\u2026] Agir assim era uma coisa m\u00e1; todos os camaradas tinham dito. E como a \u00e1gua estava fria e escorregadia! [\u2026]<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O lodo visguento do fosso tinha coberto o seu corpo inteiro; [\u2026] Tentava ainda pensar qual seria a resposta certa. Era direito beijar sua m\u00e3e, ou n\u00e3o era direito beijar sua m\u00e3e? Que significava isso, beijar? Punha-se a cara para cima, assim, para dizer boa noite, e ent\u00e3o a m\u00e3e abaixava o seu rosto. Isso \u00e9 que era beijar. Sua m\u00e3e punha os l\u00e1bios na sua face; os l\u00e1bios dela eram moles e umideciam a face; e faziam um barulhinho diminuto: <em>bift!<\/em> por que as pessoas faziam isso assim com seus rostos? (JOYCE, 1998, p. 17-18)<\/p>\n<p>Nessa passagem, gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de Stephen estar aqui confrontado com a inconsist\u00eancia do Outro, ou melhor, com o enigma da falta no Outro. Qual \u00e9 a resposta certa? O que o Outro quer de mim? \u00c9 interessante notar que esse fragmento \u00e9 seguido de certos acontecimentos de corpo: ele sente seu corpo quente e confuso. Depois ele se lembra do momento em que foi jogado no fosso, o corpo todo coberto com um lodo frio. Mas o que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que Stephen passa da interroga\u00e7\u00e3o sobre a resposta certa para um questionamento sobre a pr\u00f3pria palavra beijar \u2013<em> kiss<\/em>. Ele n\u00e3o se interessa tanto pelo sentido da palavra <em>kiss<\/em>, mas principalmente por uma suposta rela\u00e7\u00e3o entre essa palavra e o corpo, entre essa palavra e o gesto que lhe corresponde. O par\u00e1grafo termina com Stephen associando as letras dessa palavra com a materialidade do som. <em>Kiss<\/em>, ao final, \u00e9 a escrita do som que vem da boca. \u00c9 tamb\u00e9m o meio que ele encontra para cifrar, condensar o gozo no qual fora jogado atrav\u00e9s do enigma insol\u00favel produzido pelo colega. Pode ser que esta passagem nos ajude a compreender o que \u00e9 o ato de ler um sintoma, se o tomamos como \u201co encontro material entre um significante e o corpo, o pr\u00f3prio choque da linguagem sobre o corpo\u201d (MILLER, 2011. p. 58).<\/p>\n<p>Dois pontos podem enriquecer o debate sobre o ato de leitura em psican\u00e1lise. De um lado, acompanhando as elabora\u00e7\u00f5es de J.-A. Miller sobre o estatuto do inconsciente, \u00e9 bastante \u00fatil a distin\u00e7\u00e3o que ele faz entre \u201co inconsciente real\u201d e \u201co inconsciente transferencial\u201d. Essa distin\u00e7\u00e3o d\u00e1 um duplo estatuto ao inconsciente, ou mais, ela permite conceber o inconsciente como um Janus. Nesse sentido, poder-se-ia tomar o inconsciente real como um enxame de S<sub>1<\/sub> (<em>essaim<\/em>) ou como letras que funcionariam como recept\u00e1culos para o gozo fora do sentido. Nosso interesse pela leitura do inconsciente deveria ser contrabalan\u00e7ada pelo que vem da leitura do sintoma. Se existe uma parte do sintoma que responde \u00e0 leitura do inconsciente, o que est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 a possibilidade de ler, no sintoma, o que resta e o que se repete, produzindo um gozo fora do sentido para o sujeito.<\/p>\n<p>O segundo ponto est\u00e1 implicado na oposi\u00e7\u00e3o entre o sujeito considerado como \u201cfalta-a-ser\u201d e o sujeito considerado como um furo. Segundo J.-A. Miller (2012, s\/p), dever-se-ia pensar \u201ca rela\u00e7\u00e3o ou a filia\u00e7\u00e3o, e, portanto, a diferen\u00e7a entre a falta-a-ser e o furo. Com esse furo Lacan queria, em seu \u00faltimo ensino, definir o pr\u00f3prio simb\u00f3lico, defini-lo como furo\u201d.<\/p>\n<p>A partir do discurso anal\u00edtico, podemos orientar o debate sobre a ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI para uma nova dimens\u00e3o, levando em conta o contraste entre o simb\u00f3lico como cadeia significante e o simb\u00f3lico definido em rela\u00e7\u00e3o ao furo, ao trauma, ao que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. Fragmento da an\u00e1lise de um caso de histeria. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago, Vol. VII, 1972, p. 15-116. (Trabalho original publicado em 1905[1901]).<\/h6>\n<h6>JOYCE, J. <em>Retrato do artista quando jovem<\/em>. 4. ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1998.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Trabalho estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1964).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>: Mais, ainda. Tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1972-73).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Lire un sympt\u00f4me. <em>Mental<\/em>, n. 26, jun. 2011.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<em>L\u2019orientation lacanienne: L\u2019\u00catre et l\u2019Un<\/em>. Li\u00e7\u00e3o de 11 de maio de 2012. (In\u00e9dito).<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Uma primeira vers\u00e3o deste texto foi apresentada em <em>The Lacanian Compass<\/em>, 2011-2012, e publicada em <em>La Cause du d\u00e9sir<\/em>, n. 82, , p. 95-102, 2012-2013.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Para esta reflex\u00f5es, remeto ao artigo de \u00c9ric Laurent\u00a0 \u201cLa ilusion del cientificismo, la angustia de los s\u00e1bios\u201d, publicado em 21 de agosto de 2011 em Pipol News n. 51. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.europsychoanalysis.eu\/site\/page\/es\/22\/es\/pipol_news_51_-_08072011#article-box-140\">http:\/\/www.europsychoanalysis.eu\/site\/page\/es\/22\/es\/pipol_news_51_-_08072011#article-box-140<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Sobre esta distin\u00e7\u00e3o, remetemos ao artigo de Miller (2011), \u201cLire un sympt\u00f4me\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ato de leitura em psican\u00e1lise1 Ram Mandil Psicanalista, A.M.E. da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP mandil.bhe@terra.com.br Resumo: O autor parte da constata\u00e7\u00e3o de que vivemos na era da gest\u00e3o como modelo da a\u00e7\u00e3o, como c\u00e1lculo de proveitos e codifica\u00e7\u00e3o das escolhas, em nome do bem-estar individual ou coletivo. Nesse sentido, ele destaca a import\u00e2ncia de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57712,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2094","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-32","category-34","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2094","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2094"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2094\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57713,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2094\/revisions\/57713"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57712"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2094"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2094"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2094"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}