{"id":2113,"date":"2024-02-18T17:26:51","date_gmt":"2024-02-18T20:26:51","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2113"},"modified":"2025-12-01T11:59:40","modified_gmt":"2025-12-01T14:59:40","slug":"contradicoes-em-um-caso-clinico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/18\/contradicoes-em-um-caso-clinico\/","title":{"rendered":"Contradi\u00e7\u00f5es em um caso cl\u00ednico"},"content":{"rendered":"<div class=\"page-title-head hgroup\">\n<h2 class=\"entry-title\"><span style=\"color: #333399;\">Contradi\u00e7\u00f5es em um caso cl\u00ednico<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>1<\/sup><\/a><br \/>\n<\/span><\/h2>\n<\/div>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><strong>Lucia Mello<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"mailto:delimaebp@gmail.com\">delimaebp@gmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo: <\/strong>A autora comenta o ensaio cl\u00ednico de Freud sobre um caso de paranoia, publicado em 1915, ressaltando as modifica\u00e7\u00f5es conceituais decorrentes dessa pesquisa que abrangem a cl\u00ednica do sujeito, a fantasia fundamental, a puls\u00e3o e fixa\u00e7\u00e3o. Nesse relato cl\u00ednico, Freud extrai consequ\u00eancias da contradi\u00e7\u00e3o entre a teoria que adv\u00e9m de sua pesquisa decorrente do ato de dar a palavra ao paciente.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> paranoia; fantasia fundamental, puls\u00e3o; fixa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>CONTRADITIONS IN A CLINICAL CASE<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract: <\/strong>The author comments on Freud&#8217;s clinical essay on a case of paranoia, published in 1915, highlighting the conceptual changes resulting from this research covering the subject\u2019s clinic, fundamental fantasy, drive and fixation. In this clinical account, Freud draws consequences from the contradiction between the theory derived from his research and the act of giving the patient a voice.<\/p>\n<p><strong>Key words: <\/strong>paranoia; fundamental fantasy; drive; fixation.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Lucia-Mello.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"886\" data-large_image_height=\"1260\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2114 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Lucia-Mello-720x1024.png\" alt=\"\" width=\"458\" height=\"652\" \/><\/a><\/p>\n<p>Comentar o ensaio cl\u00ednico de 1915 intitulado \u201cComunica\u00e7\u00e3o de um caso de paranoia que contradiz a teoria psicanal\u00edtica\u201d provoca surpresa desde seu t\u00edtulo, acarreta indaga\u00e7\u00f5es diversas sobre o tema da paranoia, conduz \u00e0s conex\u00f5es, releituras com outros textos e tanto amplia quanto demonstra o trabalho de Freud seguindo as implica\u00e7\u00f5es do sujeito como categoria operat\u00f3ria na trama dos elementos que constituem sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><em>O caso cl\u00ednico<\/em><\/p>\n<p>Um advogado amigo de Freud o procura com solicita\u00e7\u00e3o de parecer\u00a0 sobre o diagn\u00f3stico de uma jovem de 30 anos,\u00a0 atendendo\u00a0 ainda o pedido de prote\u00e7\u00e3o que esta lhe fizera diante das persegui\u00e7\u00f5es de um homem. Ela relata em ocasi\u00f5es diferentes as experi\u00eancias vividas com um funcion\u00e1rio do instituto onde trabalhava, um homem atraente por quem se sentia interessada, mas que estava impedido de casamento por raz\u00f5es externas. Aceita o convite de encontro na casa onde ele residia e, depois de muita insist\u00eancia, vai visit\u00e1-lo. At\u00e9 ent\u00e3o, ela n\u00e3o havia procurado liga\u00e7\u00f5es com homens, vivendo sozinha com sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Algumas ocorr\u00eancias durante os dois momentos amorosos com esse homem atraente promovem, progressivamente, a transforma\u00e7\u00e3o do candidato a namorado em perseguidor. Na primeira, no meio de uma cena de amor, vivida t\u00e3o somente atrav\u00e9s de abra\u00e7os e beijos, ela se assusta com um barulho repentino, pancada ou clique vindo da escrivaninha e pergunta ao namorado qual origem do ru\u00eddo acidental. Na segunda, quando deixa a casa, passa por dois homens na escada, que ao v\u00ea-la, murmuraram alguma coisa entre si. Um deles carregava um objeto embrulhado que parecia uma caixa. Ela come\u00e7a a pensar que se tratava de um aparelho fotogr\u00e1fico e que os homens\u00a0 haviam registrado escondido seu encontro.<\/p>\n<p>O namorado, quando inquirido pessoalmente e atrav\u00e9s de cartas, n\u00e3o oferece respostas convincentes, pelo contr\u00e1rio, lamenta que uma rela\u00e7\u00e3o de in\u00edcio t\u00e3o bonita tenha sido destru\u00edda\u00a0 por esta \u201cinfeliz ideia doentia\u201d. Ela procura o advogado, conta sua experi\u00eancia e mostra-lhe as cartas na tentativa de justificar, comprovar seu depoimento.<\/p>\n<p>Freud acrescenta mais duas interpreta\u00e7\u00f5es produzidas pela jovem, quando esta surpreende o namorado conversando em voz baixa com a chefe do servi\u00e7o, senhora de cabelos brancos, \u201ccomo sua m\u00e3e\u201d , que at\u00e9 ent\u00e3o lhe tratara com carinho. A suspeita se intensifica mais uma vez na certeza de que o homem e a senhora mantinham rela\u00e7\u00f5es e, nessa ocasi\u00e3o, ele relata a aventura amorosa ocorrida anteriormente. Os protestos veementes\u00a0 sobre o que chamou de insinua\u00e7\u00f5es absurdas, principalmente com respeito \u00e0 trai\u00e7\u00e3o mencionada, n\u00e3o conseguiram atenuar as interpreta\u00e7\u00f5es delirantes da jovem.<\/p>\n<p>Freud inicia sua pesquisa examinada na condi\u00e7\u00e3o de caso cl\u00ednico, considerando a natureza da demanda dirigida pelo advogado e confessando de sua parte haver outro interesse al\u00e9m do diagn\u00f3stico. Solicita a presen\u00e7a da jovem e acolhe n\u00e3o apenas a queixa, mas o depoimento do reiterado abuso sofrido e praticado por um homem que, em diferentes situa\u00e7\u00f5es do encontro amoroso, convoca espectadores desconhecidos\u00a0 para registrarem sua cena. Esse homem pretendia envergonh\u00e1-la e as fotos, se reveladas, iriam obrig\u00e1-la a deixar seu emprego. Ela foi induzida a uma liga\u00e7\u00e3o amorosa, mas o perseguidor original, entretanto, ser\u00e1 apenas revelado atrav\u00e9s da leitura de uma\u00a0 aparente contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Quest\u00f5es te\u00f3ricas<\/em><\/p>\n<p>Uma breve resenha dos textos de Freud sobre a paranoia, desde o &#8220;Manuscrito\u00a0 H\u201d,\u00a0 demonstra a interessante progress\u00e3o na pesquisa psicanal\u00edtica derivada da experi\u00eancia cl\u00ednica, constru\u00e7\u00e3o cuidadosa, nem sempre linear, um trabalho ao mesmo tempo rigoroso e sutil decididamente marcado pela incompletude e indaga\u00e7\u00f5es inovadoras.<\/p>\n<p>No \u201cManuscrito H\u201d, de 1895, Freud situa a paranoia, ao lado da loucura obsessiva, como psicose intelectual, diferenciada em parte, da paranoia cr\u00f4nica, modo patol\u00f3gico de defesa diante de uma representa\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel para o Eu, projetando seu conte\u00fado no mundo exterior, v\u00e1lido para todos os tipos de paranoia: querelante, de grandeza, de ci\u00fame, de persegui\u00e7\u00e3o. A ideia delirante \u00e9 uma c\u00f3pia ou o oposto da representa\u00e7\u00e3o recha\u00e7ada e a refer\u00eancia a si mesmo sempre tenta provar que a proje\u00e7\u00e3o est\u00e1 correta.<\/p>\n<p>Freud examina, no \u201cManuscrito K\u201d, \u00a0de 1896, a partir de casos cl\u00ednicos, a no\u00e7\u00e3o de viv\u00eancia prim\u00e1ria, diferenciada da neurose obsessiva. Nesta, o sintoma prim\u00e1rio que se forma, a desconfian\u00e7a, \u00e9 decorrente do mecanismo da recusa e consequente proje\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a na recrimina\u00e7\u00e3o. A lacuna no ps\u00edquico \u00e9 elemento interessante encontrado nessa \u00e9poca e desenvolvido em pesquisas posteriores.<\/p>\n<p>O\u00a0 encontro de Freud com a autobiografia de Schreber, publicada anteriormente\u00a0 em 1903, resultou nas \u201cNotas psicanal\u00edticas sobre um relato autobiogr\u00e1fico de um caso de paranoia\u201d, de 1911, no qual assinala que o del\u00edrio pol\u00edtico-teol\u00f3gico, impregnado nesse caso da ideia de eternidade e o Deus de Schreber com o qual o paciente iria criar uma nova ra\u00e7a de homens, \u00e9 associado aos fen\u00f4menos de linguagem, entre os quais se destacam os fen\u00f4menos de c\u00f3digo e mensagem, al\u00e9m das alucina\u00e7\u00f5es. A partir desse caso cl\u00ednico produz investiga\u00e7\u00f5es substanciais para a chamada \u201cdoen\u00e7a da mentalidade\u201d.<\/p>\n<p>Freud considerava que o del\u00edrio paranoico era resposta e g\u00eanese do conflito\u00a0 homossexual, al\u00e9m de apresentar v\u00e1rias formas de defesas localizadas em Schreber nas frases: \u201ceu, um homem, amo ele, um homem\u201d; o amor invertido em \u00f3dio, porque o perseguidor, uma pessoa amada ou seu representante, torna-se o autor que justifica, no del\u00edrio, o \u00f3dio: \u201ceu n\u00e3o o amo, eu o odeio, porque ele me persegue\u201d.<\/p>\n<p>O retraimento libidinal malsucedido do narcisismo na paranoia encontrar\u00e1 apoio na realidade, e a pesquisa desse caso fundamentar\u00e1, tr\u00eas anos depois, um desenvolvimento mais preciso do conceito de narcisismo.<\/p>\n<p>\u201cComunica\u00e7\u00e3o de um caso de paranoia que contradiz a teoria psicanal\u00edtica\u201d, publicado\u00a0 ap\u00f3s a vastid\u00e3o de seu trabalho sobre Schreber, em um primeiro momento retoma a quest\u00e3o da luta do sujeito contra a intensidade de suas tend\u00eancias\u00a0 homossexuais que remetem a uma escolha narc\u00edsica do objeto. O perseguido, do mesmo sexo, \u00e9 representante de algu\u00e9m que foi amado no passado pelo perseguidor, e sobre ele recai o\u00a0 conjunto das interpreta\u00e7\u00f5es e certezas delirantes. \u201cFreud nos adverte\u00a0 que as an\u00e1lises dos paranoicos nos ensinam que o del\u00edrio se presta a um remendo colocado onde havia surgido uma fissura, uma repara\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o do eu com o mundo exterior\u201d, resultando em defesa bem sucedida, portanto a psicose (CAMPOS, 2022, p. 31).<\/p>\n<p>No caso da jovem paranoica apresentado por Freud, ao mesmo tempo em que ela tenta se libertar das liga\u00e7\u00f5es com a imagem primordial da pr\u00f3pria m\u00e3e atrav\u00e9s do recurso do del\u00edrio paranoico, acusa o namorado de ser suspeito, opondo-se aos argumentos formulados por ele, al\u00e9m de buscar em um advogado apoio para seus del\u00edrios\u00a0 aferrando-se \u00e0 cren\u00e7a de seus julgamentos, embora o perseguidor original resida na \u201cinst\u00e2ncia de cuja influ\u00eancia ela quer escapar\u201d, ou seja, a m\u00e3e. Realiza a dupla l\u00f3gica gramatical proposta por Freud, nega\u00e7\u00e3o e proje\u00e7\u00e3o, presentes na paranoia.<\/p>\n<p>O que parece estranho, comenta Freud, \u00e9 que a jovem consiga defender-se do amor pelo homem com ajuda do del\u00edrio\u00a0 paranoico, embora considere que fantasias e sintomas\u00a0 comportam deslocamentos e substitui\u00e7\u00f5es.\u00a0 Esse achado se contrap\u00f5e \u00e0s suas hip\u00f3teses anteriores da preval\u00eancia da paranoia nos homens e, como argumento, evoca no plano das fantasias as observa\u00e7\u00f5es sexuais dos pais feitas pelas crian\u00e7as, no complexo parental, e constata que os sintomas embora substitutos n\u00e3o conseguem encerrar os conflitos.<\/p>\n<p>A luta sintom\u00e1tica, portanto, \u00e9 prolongada por novos componentes, e o pr\u00f3prio sintoma sucumbe, torna-se objeto dessa luta opondo-se \u00e0 mudan\u00e7a. A pesquisa conduzida atrav\u00e9s desses novos componentes implicar\u00e1 em v\u00e1rios remanejamentos conceituais, tais como inconsciente, puls\u00e3o, repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na reda\u00e7\u00e3o final do\u00a0 \u00faltimo par\u00e1grafo do texto, Freud sugere que, na pr\u00f3pria experi\u00eancia cl\u00ednica, atrav\u00e9s do exerc\u00edcio de escuta e leitura do caso, reside tanto a contradi\u00e7\u00e3o\u00a0 quanto o argumento, que se serve dessa contradi\u00e7\u00e3o para promover novas investiga\u00e7\u00f5es. Seria a pesquisa o ponto de interesse para al\u00e9m do diagn\u00f3stico, vislumbrado e confessado inicialmente por Freud? A nota final dos tradutores desse texto informa que a contradi\u00e7\u00e3o, nesse caso, \u00e9 apenas aparente, e a argumenta\u00e7\u00e3o freudiana se mant\u00e9m sustentando uma constru\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n<p>Freud verifica a presen\u00e7a de uma in\u00e9rcia ps\u00edquica, encontrada tamb\u00e9m na neurose, que se op\u00f5e \u00e0s mudan\u00e7as. Essa in\u00e9rcia representa um dos fatores que participam da fixidez e repeti\u00e7\u00e3o sintom\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Se rastrearmos o ponto de partida dessa in\u00e9rcia especial ela se revela como express\u00e3o de enodamentos de puls\u00f5es \u2013 estabelecidos muito cedo e dif\u00edceis de desatar \u2013, com impress\u00f5es e com os objetos nelas existentes, atrav\u00e9s de cujos enodamentos\u00a0 se deteve a continuidade\u00a0 do desenvolvimento desses componentes pulsionais. (FREUD, 1915\/2022, p. 95)<\/p>\n<p>O salto nas argumenta\u00e7\u00f5es freudianas \u00e9 imenso a partir desse par\u00e1grafo. At\u00e9 ent\u00e3o, a identifica\u00e7\u00e3o ao objeto amoroso primordial justificava em parte as constru\u00e7\u00f5es delirantes, como em Schreber, mas a fixa\u00e7\u00e3o do sintoma apresenta na cl\u00ednica outros elementos que resistem \u00e0s mudan\u00e7as, o principal deles, na esfera pulsional, diz respeito aos modos de satisfa\u00e7\u00e3o, presentes no jogo entre\u00a0 vida e morte.<\/p>\n<p>Para melhor cernir a import\u00e2ncia dessa quest\u00e3o, buscamos provisoriamente dois pontos de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro ponto de orienta\u00e7\u00e3o, mais imediato, mas dif\u00edcil de determinar, supostamente pode ser localizado no texto \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d, de 1920 \u2013 mais especificamente no posf\u00e1cio de Marco Ant\u00f4nio Coutinho Jorge (2021) \u00e0 edi\u00e7\u00e3o brasileira desse texto pela Aut\u00eantica, que se serve da leitura das constru\u00e7\u00f5es lacanianas, contribuindo assim para o aclaramento de algumas quest\u00f5es relativas ao caso cl\u00ednico:<\/p>\n<ol>\n<li style=\"list-style-type: none;\">\n<ol>\n<li style=\"list-style-type: none;\">\n<ol>\n<li><em>O narcisismo \u00e9 etapa decisiva, necess\u00e1ria, mas insuficiente, na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, implicado na estrutura psic\u00f3tica na forma positiva, no caso da paranoia, e na forma negativa, na esquizofrenia. Freud evidencia o narcisismo diretamente ligado \u00e0 puls\u00e3o sexual, mas manifesto em sua dupla vertente \u2013 vida e morte. O mito de Narciso veicula essa dupla vertente pulsional, visto que a presen\u00e7a do amor e da morte s\u00e3o marcantes tanto na fic\u00e7\u00e3o quanto na realidade.<\/em><\/li>\n<li><em>A repeti\u00e7\u00e3o comparece na cl\u00ednica em dois tempos: em 1914, vinculada \u00e0 puls\u00e3o sexual, \u00e0 fantasia e ao princ\u00edpio do prazer; e, em 1920, a repeti\u00e7\u00e3o mostra sua face oculta, a puls\u00e3o de morte, o real imposs\u00edvel de ser simbolizado, para al\u00e9m, portanto, do princ\u00edpio do prazer.<\/em><\/li>\n<li><em>A fantasia, pass\u00edvel de ser definida como associa\u00e7\u00e3o entre inconsciente e puls\u00e3o de morte, sexualiza a puls\u00e3o de morte e localiza o gozo ilimitado e mort\u00edfero.<\/em><\/li>\n<li><em>Nas psicoses, entretanto, a foraclus\u00e3o impede a opera\u00e7\u00e3o do recalque origin\u00e1rio e a instaura\u00e7\u00e3o da fantasia fundamental. O del\u00edrio \u00e9 o que vem tentar suprir a falta, no caso o vazio de registro, marca qualquer para produzir localiza\u00e7\u00e3o do gozo no sujeito psic\u00f3tico.<\/em><\/li>\n<li><em>Freud concluir\u00e1, em \u201cNeurose e psicose\u201d e em \u201cA perda da realidade na neurose e na psicose\u201d, que h\u00e1 perda da realidade, remendo ou inven\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o de um mudo novo, correlativos \u00e0 onipresen\u00e7a tanto da fantasia, quanto da interpreta\u00e7\u00e3o, nas duas estruturas. A diferen\u00e7a entre essas interpreta\u00e7\u00f5es depender\u00e1 dos recursos subjetivos de cada um.<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p>A segunda orienta\u00e7\u00e3o adv\u00e9m das diferen\u00e7as, anunciadas em 1915 por Freud, entre fantasia e fantasia fundamental. Diferentes das fantasias consideradas como forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, as fantasias primordiais encontradas em todas as crian\u00e7as \u2013 que incluem, al\u00e9m da \u201cobserva\u00e7\u00e3o\u201d da rela\u00e7\u00e3o sexual dos pais, a sedu\u00e7\u00e3o, castra\u00e7\u00e3o \u2013, fazem parte do que Freud considerou como recalque prim\u00e1rio, inacess\u00edvel \u00e0 lembran\u00e7a, suporte do longo trabalho das constru\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Neste ensaio, a import\u00e2ncia do conceito de fantasia fundamental e sua fun\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria na psicose, desenvolvido\u00a0 por outros pesquisadores,\u00a0 \u00e9 mencionado pela primeira vez, e o\u00a0 caso cl\u00ednico apresentado confirma o quanto a fantasia \u00e9 realizada na psicose e imaginarizada na neurose. As investiga\u00e7\u00f5es mais recentes apresentadas pela cl\u00ednica das compensa\u00e7\u00f5es na psicose atrav\u00e9s da fixidez e repeti\u00e7\u00e3o das imagens indel\u00e9veis informa: \u201cPor n\u00e3o ter podido construir uma fantasia fundamental que venha responder ao enigma do desejo do Outro, o sujeito psic\u00f3tico se encontra em uma rela\u00e7\u00e3o de \u00edntima proximidade com um Outro que se apresenta como gozador\u201d (MALEVAL, 2020, p. 199, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p>Feitas essas considera\u00e7\u00f5es, voltemos ao caso cl\u00ednico. A vida aparentemente pac\u00edfica de uma jovem de 30 anos \u00e9 perturbada pela demanda amorosa. Quando o corpo dessa jovem \u00e9 solicitado na resposta \u00e0 demanda amorosa, e na impossibilidade de encontrar palavras ou atos para cernir essa experi\u00eancia, surge a cascata de interpreta\u00e7\u00f5es decididamente marcadas pela certeza. A fixidez de seus julgamentos n\u00e3o d\u00e1 margem para a d\u00favida: as inten\u00e7\u00f5es do Outro s\u00e3o m\u00e1s. O enigma ou o vazio proposto pela rela\u00e7\u00e3o sexual encontra sua resposta absoluta fazendo equivaler imaginariamente realidade e fantasia.<\/p>\n<p>A partir de um simples caso cl\u00ednico, com elementos colhidos em poucas entrevistas, Freud constr\u00f3i pontes que franqueiam a leitura de uma experi\u00eancia in\u00e9dita e permitem que a psican\u00e1lise ilumine detalhes despercebidos na passagem das identifica\u00e7\u00f5es para o circuito pulsional e seus modos misteriosos de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O enorme trabalho de investiga\u00e7\u00e3o que marcou sua incid\u00eancia sobre o narcisismo e as identifica\u00e7\u00f5es, at\u00e9 permitir acesso\u00a0 ao sil\u00eancio pulsional, requereu muitos anos de pesquisa de Freud, retomados por Lacan e Miller, que, no campo freudiano, fazem da contradi\u00e7\u00e3o fonte renovada de trabalho.<\/p>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es subjetivas e seu elemento invariante, que nesse ensaio cl\u00ednico Freud nomeou como fixa\u00e7\u00e3o, ou in\u00e9rcia especial, se repete na hist\u00f3ria singular e na cl\u00ednica em geral, decorre da experi\u00eancia \u00edmpar, em torno de um vazio, lugar da cria\u00e7\u00e3o de algo sempre novo\u2026 ainda.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>CAMPOS, S. de. <em>Investiga\u00e7\u00e3o lacaniana das psicoses<\/em>: As psicoses extraordin\u00e1rias. Vol. 1. Belo Horizonte: Topol\u00f3gica, 2022.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Manuscrito H: Paranoia (24.01.1895). In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud: <\/em>Neurose, Psicose, Pervers\u00e3o. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016. (Trabalho original publicado em 1895).<\/h6>\n<h6><em>\u00a0<\/em>FREUD, S. Manuscrito K: As neuroses de defesa (01.01.1896). In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud: <\/em>Neurose, Psicose, Pervers\u00e3o. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016. (Trabalho original publicado em 1896).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2021. (Trabalho original publicado em 1920).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Comunica\u00e7\u00e3o de um caso de paranoia que contradiz a teoria psicanal\u00edtica. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Neurose, psicose e pervers\u00e3o. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2022. (Trabalho original publicado em 1915).<\/h6>\n<h6>JORGE, M. A. C. Posf\u00e1cio \u2013 Incid\u00eancias cl\u00ednicas: o terceiro\u00a0 passo de Freud. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2021.<\/h6>\n<h6>MALEVAL, J. C. <em>Coordenadas para la psicosis ordin\u00e1ria<\/em>. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2020.<\/h6>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Texto apresentado em Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise, atividade da diretoria de Ensino do IPSM-MG, em 05\/12\/2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contradi\u00e7\u00f5es em um caso cl\u00ednico1 Lucia Mello Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP delimaebp@gmail.com Resumo: A autora comenta o ensaio cl\u00ednico de Freud sobre um caso de paranoia, publicado em 1915, ressaltando as modifica\u00e7\u00f5es conceituais decorrentes dessa pesquisa que abrangem a cl\u00ednica do sujeito, a fantasia fundamental, a puls\u00e3o e fixa\u00e7\u00e3o. Nesse relato cl\u00ednico,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57706,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2113","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-32","category-34","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2113","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2113"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2113\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57707,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2113\/revisions\/57707"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57706"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}