{"id":2117,"date":"2024-02-18T17:34:01","date_gmt":"2024-02-18T20:34:01","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2117"},"modified":"2025-12-01T11:56:58","modified_gmt":"2025-12-01T14:56:58","slug":"constituicao-e-perda-do-campo-da-realidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/18\/constituicao-e-perda-do-campo-da-realidade\/","title":{"rendered":"Constitui\u00e7\u00e3o e perda do campo da realidade"},"content":{"rendered":"<h2><span style=\"color: #333399;\">Constitui\u00e7\u00e3o e perda do campo da realidade<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>1<\/sup><\/a><br \/>\n<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><strong>K\u00e1tia Mari\u00e1s<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"mailto:katiamariasp@gmail.com\">katiamariasp@gmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong> O texto aborda a constitui\u00e7\u00e3o do campo da realidade a partir da extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em> e o modo como se d\u00e1 a perda da realidade na neurose que, por meio da fantasia, busca reparar a realidade. O texto trata tamb\u00e9m de como, na psicose, essa subtra\u00e7\u00e3o do objeto n\u00e3o ocorre, provocando a perda da realidade seguida de uma tentativa de repara\u00e7\u00e3o por meio do del\u00edrio.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> constitui\u00e7\u00e3o da realidade; perda da realidade; neurose; psicose; objeto <em>a.<\/em><\/p>\n<p><strong>CONSTITUTION AND LOSS OF THE FIELD OF REALITY<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract: <\/strong>The text addresses the constitution of the field of reality by the extraction of object <em>a<\/em> as well as the way the loss of reality occurs in neurosis which, through fantasy, seeks to repair reality. The text also deals with how, in psychosis, this subtraction of the object does not happen, causing the loss of reality, followed by an attempt to repair it through delusion.<\/p>\n<p><strong>Keywords: <\/strong>constitution of reality; loss of reality; neurosis; psychosis; object <em>a<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Katia-Marias.jpeg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"819\" data-large_image_height=\"1024\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2118 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Katia-Marias.jpeg\" alt=\"\" width=\"410\" height=\"513\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o <\/em><\/p>\n<p>Para Freud, a condi\u00e7\u00e3o para que a realidade seja constitu\u00edda \u00e9 que algo seja subtra\u00eddo ao sujeito, funcionando como \u00edndice de uma realidade externa. \u00c9 esse vazio subjetivo que organiza e corrige o mundo interno.<\/p>\n<p>O campo da realidade n\u00e3o \u00e9 dado <em>a priori<\/em>, precisa ser constru\u00eddo, pois n\u00e3o depende da percep\u00e7\u00e3o do objeto, n\u00e3o diz respeito a nenhuma realidade exterior, mas refere-se ao objeto perdido.<\/p>\n<p>Em 1895, Freud elabora um projeto, conhecido como \u201cProjeto para uma psicologia cient\u00edfica\u201d, atrav\u00e9s do qual ambiciona apresentar uma psicopatologia nos moldes de uma <em>Naturwissenschaft<\/em>. Ou seja, constr\u00f3i um modelo de aparelho ps\u00edquico que funciona segundo o modelo do arco reflexo e \u00e9 constitu\u00eddo por sistemas de neur\u00f4nios que recebem a quantidade de excita\u00e7\u00e3o e descarregam-na, tornando-se vazios novamente. Freud demonstra a fun\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria do aparelho ps\u00edquico, que \u00e9 a tend\u00eancia a descarregar toda a excita\u00e7\u00e3o que o perturba, negando, dessa forma, seu pr\u00f3prio funcionamento. Mas, como o aparelho deve manter-se funcionando, faz-se necess\u00e1ria a introdu\u00e7\u00e3o de uma fun\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, expressa no princ\u00edpio de const\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Freud apresenta-nos as duas experi\u00eancias fundamentais capazes de desencadear a constitui\u00e7\u00e3o da realidade para o sujeito: as experi\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o e de dor. Ambas as experi\u00eancias s\u00e3o necessidades do organismo e exigem que se realize no meio externo uma \u201ca\u00e7\u00e3o espec\u00edfica\u201d para eliminar a excita\u00e7\u00e3o. Essa a\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser realizada por um outro que venha a funcionar como for\u00e7a auxiliar do sujeito. \u00c9, portanto, a elimina\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o decorrente dos est\u00edmulos internos que d\u00e1 lugar \u00e0 viv\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. Toda vez que o estado de excita\u00e7\u00e3o e a percep\u00e7\u00e3o do desprazer reaparecem, a lembran\u00e7a do objeto de satisfa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 reativada em busca da descarga, produzindo, assim a alucina\u00e7\u00e3o. O aparelho ps\u00edquico n\u00e3o distingue entre o que \u00e9 percebido e o que \u00e9 lembrado. Tanto o objeto temido quanto o objeto desejado s\u00e3o apresentados como percebidos, e n\u00e3o lembrados, ou seja, s\u00e3o alucinados.<\/p>\n<p>Como o princ\u00edpio de prazer n\u00e3o \u00e9 capaz de distinguir o objeto real do objeto alucinado, \u00e9 necess\u00e1rio um princ\u00edpio de corre\u00e7\u00e3o que confira ao aparelho ps\u00edquico uma efici\u00eancia m\u00ednima, que ser\u00e1 dada pelo princ\u00edpio de realidade.<\/p>\n<p><em>A perda da realidade<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>O que temos em \u201cNeurose e psicose\u201d (Freud, 1924\/2016a)? Que a neurose seria um conflito entre o Eu e o Isso e, a psicose, um conflito entre o Eu e o mundo exterior. Ou seja, tanto a neurose como a psicose se originam do conflito entre o Eu com as v\u00e1rias inst\u00e2ncias que o controlam, embora haja um fracasso na fun\u00e7\u00e3o do Eu que se esfor\u00e7a em conciliar as exig\u00eancias dessas inst\u00e2ncias. A quest\u00e3o \u00e9 saber como o Eu consegue sair ileso desse conflito.<\/p>\n<p>Vale lembrar que \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d, \u201cO problema econ\u00f4mico do masoquismo\u201d e \u201cO eu e o isso\u201d j\u00e1 haviam sido escritos, o que fez com que Freud pudesse avan\u00e7ar na diferencia\u00e7\u00e3o entre neurose e psicose a partir do conflito entre Eu, Isso e Supereu. Podemos observar que o Eu dividido, ao tentar reconciliar as v\u00e1rias exig\u00eancias feitas a ele, sacrifica uma parte da realidade em graus diferentes. Freud termina o texto \u201cNeurose e psicose\u201d, assim, perguntando sobre o mecanismo an\u00e1logo ao recalcamento que leva o Eu a se desligar do mundo exterior, na psicose.<\/p>\n<p>Em \u201cA perda da realidade na neurose e na psicose\u201d (Freud, 1924\/2016b), escrito poucas semanas depois da conclus\u00e3o de \u201cNeurose e Psicose\u201d, ele avan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a esse \u00faltimo, uma vez que ele est\u00e1 tentando extrair consequ\u00eancias para a nosografia psicanal\u00edtica, baseada no conflito e na divis\u00e3o do Eu.<\/p>\n<p>A perda, ou afrouxamento da realidade, na neurose se d\u00e1 a partir de um recalcamento fracassado da puls\u00e3o. Quando o fator desencadeador de uma neurose \u00e9 conhecido, o sujeito se afasta da experi\u00eancia traum\u00e1tica e a relega \u00e0 amn\u00e9sia. Por qual caminho a neurose procura resolver o conflito? Recalcando a exig\u00eancia pulsional, desvalorizando-a. Freud nos fornece o exemplo da paciente que, apaixonada por seu cunhado, fica abalada com a seguinte ideia no leito de morte da irm\u00e3: \u201cagora ele est\u00e1 livre e pode se casar com voc\u00ea\u201d. Essa cena \u00e9 imediatamente esquecida e, com isso, \u00e9 acionado o processo de regress\u00e3o que leva aos sofrimentos hist\u00e9ricos. A mo\u00e7a recalca a exig\u00eancia pulsional, que \u00e9 o amor pelo cunhado. Haveria uma obedi\u00eancia inicial e uma posterior tentativa de fuga. A neurose n\u00e3o recusa a realidade, apenas n\u00e3o quer saber nada sobre ela; uma parte da realidade \u00e9 evitada por uma esp\u00e9cie de fuga. Na neurose, a \u00eanfase recai sobre o segundo tempo \u2013 o fracasso do recalcamento. Ela se contenta, via de regra, em evitar a parte correspondente da realidade e proteger-se do encontro com ela.<\/p>\n<p>Na psicose, h\u00e1 dois passos: primeiramente, o Eu \u00e9 arrancado da realidade; no segundo passo, procura reparar o preju\u00edzo e restabelecer a rela\u00e7\u00e3o com a realidade \u00e0s custas do Isso. H\u00e1, nesse segundo passo, o car\u00e1ter de repara\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m procura compensar a perda de realidade, mas atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de uma nova realidade, que n\u00e3o apresenta mais o mesmo embate da realidade abandonada.<\/p>\n<p>No caso trazido por Freud, a rea\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica teria sido recusar a realidade do fato da morte da irm\u00e3. Haveria, aqui, uma fuga inicial seguida de uma fase ativa de reestrutura\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do del\u00edrio, por exemplo.<\/p>\n<p>A psicose a recusa e procura substitu\u00ed-la. A tarefa da psicose \u00e9 procurar percep\u00e7\u00f5es que correspondam \u00e0 nova realidade pela via da alucina\u00e7\u00e3o. Aqui, a \u00eanfase incide integralmente no primeiro passo \u2013 fuga da realidade \u2013, que \u00e9 patol\u00f3gico e pode levar ao adoecimento.<\/p>\n<p>O segundo passo na neurose e na psicose sustenta-se nas mesmas tend\u00eancias; em ambos os casos, ele serve \u00e0 \u00e2nsia por poder do Isso, que n\u00e3o se deixa intimidar pela realidade. As duas s\u00e3o a express\u00e3o da rebeli\u00e3o do Isso contra o mundo exterior, seu desprazer ou sua incapacidade para se adequar \u00e0 necessidade real.<\/p>\n<p>Neurose e psicose se distinguem muito mais entre si na primeira rea\u00e7\u00e3o introdut\u00f3ria do que na tentativa de repara\u00e7\u00e3o. Freud insiste, de v\u00e1rias formas, em esclarecer que o segundo tempo em ambas as estruturas s\u00e3o parecidos, uma vez que o fracasso est\u00e1 colocado nas duas formas cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a crucial entre neurose e psicose \u00e9 enfraquecida pelo fato de que na neurose n\u00e3o faltam tentativas de substituir a realidade indesejada por uma mais de acordo com o desejo. Isso \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 exist\u00eancia de um mundo de fantasia. \u00c9 desse mundo de fantasia que a neurose retira material para novas forma\u00e7\u00f5es de desejo. Na psicose, o mundo da fantasia desempenha o mesmo papel, configurando o reservat\u00f3rio de onde se recolhem a mat\u00e9ria e o prot\u00f3tipo para a constru\u00e7\u00e3o da nova realidade.<\/p>\n<p>O fant\u00e1stico novo mundo da psicose quer se alojar no lugar da realidade exterior. O da neurose se apoia em uma parte da realidade, assim como a brincadeira da crian\u00e7a, e lhe empresta um significado especial e um sentido secreto, que chamamos simb\u00f3lico. Lacan nos ajuda a compreender esse trecho ao afirmar que a realidade n\u00e3o \u00e9 hom\u00f4nima de realidade exterior. No momento em que desencadeia sua neurose, o sujeito elide, escotomiza, uma parte de sua realidade ps\u00edquica, ou, se podemos dizer, seu <em>id<\/em>. Essa parte \u00e9 esquecida, mas continua a fazer-se ouvir. Mas como? De uma forma simb\u00f3lica. \u00c9 como se o sujeito colocasse um armaz\u00e9m \u00e0 parte na realidade, conservando recursos para uso da constru\u00e7\u00e3o do mundo exterior. O sujeito tenta fazer ressurgir a realidade elidida, num determinado momento, emprestando-lhe uma significa\u00e7\u00e3o particular, um sentido secreto, que chamamos simb\u00f3lico. \u00c9 na medida em que a realidade n\u00e3o \u00e9 plenamente rearticulada de maneira simb\u00f3lica no mundo exterior que h\u00e1, no sujeito, fuga parcial da realidade, incapacidade de enfrentar essa parte da realidade, secretamente conservada (LACAN, 1955-56\/1985, p. 56).<\/p>\n<p>Quando Freud compara o conflito neur\u00f3tico ao conflito psic\u00f3tico, em \u201cA perda da realidade na neurose e na psicose\u201d, ele est\u00e1 afirmando que existe crise ou conflito quando h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o entre a exig\u00eancia pulsional e a considera\u00e7\u00e3o da realidade pelo sujeito. Se, na neurose, o conflito se d\u00e1 pelo retorno da exig\u00eancia pulsional \u00e0 qual o sujeito renunciou em favor da realidade, na psicose o conflito ocorre quando se imp\u00f5e, para o sujeito, a parte da realidade recusada em benef\u00edcio da puls\u00e3o. Isso quer dizer que o conflito se apresenta quando \u00e9 exigida do sujeito psic\u00f3tico uma considera\u00e7\u00e3o parcial da realidade que ele recusa.<\/p>\n<p>Freud (1924\/2016b, p. 284) conclui seu texto afirmando que, para ambas, neurose e psicose, conta n\u00e3o apenas a quest\u00e3o da perda de realidade, mas tamb\u00e9m a de uma substitui\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Vemos que Freud abordou a psicose pela perda da realidade, j\u00e1 Lacan, ao diferenciar a neurose da psicose no que diz respeito \u00e0s perturba\u00e7\u00f5es que elas produzem nas rela\u00e7\u00f5es do sujeito com a realidade, se ocupa menos dessa perda se interessando pela pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do campo da realidade. No caso do psic\u00f3tico, a rela\u00e7\u00e3o profundamente pervertida com a realidade se chama del\u00edrio. \u00c9, portanto, com a realidade exterior que, em certo momento, houve buraco, ruptura, dilacera\u00e7\u00e3o, hi\u00e2ncia. A pr\u00f3pria realidade \u00e9, em primeiro lugar, provida de um buraco, que o mundo fant\u00e1stico vir\u00e1 em seguida cumular.<\/p>\n<p><em>O \u201cn\u00e3o\u201d e o campo da realidade<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>As elabora\u00e7\u00f5es de Freud apresentadas no \u201cProjeto&#8230;\u201d tornam-se mais claras quando lidas com o aux\u00edlio de um outro texto, curto, mas de igual densidade: \u201cA nega\u00e7\u00e3o\u201d (Freud, 1925\/2016), publicado 30 anos depois do \u201cProjeto&#8230;\u201d. Nesse trabalho, Freud apresenta as opera\u00e7\u00f5es primordiais que definem a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito e, consequentemente, seu campo de realidade. Ele mant\u00e9m a hip\u00f3tese de que \u201calgo\u201d deve ser expulso, deve estar fora, deve estar perdido, para que essa perda seja inclu\u00edda, seja aceita pelo sujeito e possa ser, enfim, negada. O esfor\u00e7o a ser feito para assimilar essa opera\u00e7\u00e3o deve se dar num tempo l\u00f3gico, m\u00edtico e n\u00e3o cronol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O principal objetivo do teste de realidade n\u00e3o \u00e9 encontrar na percep\u00e7\u00e3o real um objeto que corresponda ao representado, mas, sim, reencontr\u00e1-lo. Assim, uma precondi\u00e7\u00e3o para o estabelecimento do teste de realidade consiste em que os objetos que outrora traziam satisfa\u00e7\u00e3o real tenham sido perdidos. A condi\u00e7\u00e3o da prova de realidade \u00e9 o objeto perdido: ela exige e for\u00e7a a representa\u00e7\u00e3o a veicular uma falta \u2013 a perda do objeto corresponde \u00e0 abertura do sistema fechado e \u00e0 ascens\u00e3o ao mundo da significa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o processo de nascimento do sujeito e da sua realidade. Trata-se de p\u00f4r \u00e0 prova o exterior pelo interior, da constitui\u00e7\u00e3o da realidade do sujeito na redescoberta do objeto. O objeto \u00e9 reencontrado numa busca, uma vez que n\u00e3o se encontra jamais o mesmo objeto. Ante a impossibilidade de apropria\u00e7\u00e3o do objeto, o sujeito se vale da fantasia.<\/p>\n<p>Nesse texto, Freud apresenta a dupla opera\u00e7\u00e3o primordial \u2013<em> Bejahung <\/em>e <em>Ausstossung,<\/em> afirma\u00e7\u00e3o e expuls\u00e3o \u2013, fundamental para a articula\u00e7\u00e3o dos mecanismos ps\u00edquicos de nega\u00e7\u00e3o, a saber, a <em>Verneinung,<\/em> para a pervers\u00e3o, a <em>Verdrangung<\/em>, para a neurose e a <em>Verwerfung<\/em>, para a psicose.<\/p>\n<p>Freud conclui que \u00e9 pela via do \u201cn\u00e3o\u201d que se pode dizer o \u201csim\u201d. O \u201cn\u00e3o\u201d \u00e9 o certificado de origem, \u00e9 a marca fundamental e distintiva do sujeito. O termo <em>Verwerfung<\/em>, introduzido no texto \u201cA nega\u00e7\u00e3o\u201d, ser\u00e1 traduzido por Lacan como foraclus\u00e3o e definitivamente isolado como sendo a opera\u00e7\u00e3o presente nas psicoses.<\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller (1996, p. 51) retoma a nota que Lacan (1957-58\/1998, p. 559-560) acrescentou em 1966 a \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento da psicose\u201d, citando uma f\u00f3rmula de dif\u00edcil entendimento: \u201co campo da realidade se sustenta apenas pela extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em> que, entretanto, lhe enquadra\u201d. Ele desenvolve essa frase articulando a dimens\u00e3o libidinal das psicoses ao objeto <em>a<\/em>, ou seja, a realidade est\u00e1 condicionada ao distanciamento, \u00e0 extra\u00e7\u00e3o desse objeto, e \u00e9 exatamente porque \u00e9 extra\u00eddo que ele d\u00e1 \u00e0 realidade seu enquadramento: o do furo. O furo \u00e9 o quadro-realidade, a moldura \u00e9 o enquadre. O sujeito, como sujeito barrado, \u00e9 esse furo, falta-a-ser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/quadradao.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"2224\" data-large_image_height=\"1448\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2119 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/quadradao-1024x667.png\" alt=\"\" width=\"673\" height=\"439\" \/><\/a><\/p>\n<p>A janela da fantasia s\u00f3 \u00e9 constitu\u00edda sob a condi\u00e7\u00e3o de que o objeto <em>a<\/em> seja extra\u00eddo. \u00c9 por isso que falamos que a fantasia \u00e9 enquadramento e, tamb\u00e9m, tela. O termo \u201ctela\u201d, ao mesmo tempo em que faz obst\u00e1culo ao olhar, dissimulando-o, tamb\u00e9m permite que uma imagem se forme. H\u00e1 ainda a fantasia-cena, ou seja, \u00e9 no enquadramento dessa janela, sobre essa tela, que a realidade toma sua significa\u00e7\u00e3o para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Na psicose, a \u201cmorte do sujeito\u201d \u00e9 o que responde \u00e0 n\u00e3o-extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a.<\/em><\/p>\n<p>Tomemos a fun\u00e7\u00e3o de ver: para que o olho exer\u00e7a sua fun\u00e7\u00e3o de ver, ele n\u00e3o pode se ver, ou seja, \u00e9 preciso que ele seja desinvestido libidinalmente para que possa libidinizar o objeto que \u00e9 visto por ele. A vis\u00e3o do campo da realidade esconde o olhar. Na psicose, o que ocorre \u00e9 que o olhar se torna vis\u00edvel precisamente porque, como objeto <em>a,<\/em> ele n\u00e3o se encontra extra\u00eddo do campo da realidade. O que se produz, portanto, quando o objeto <em>a<\/em> n\u00e3o \u00e9 extra\u00eddo, \u00e9 o transporte do olhar para esse ponto no infinito, e \u00e9 isso que o torna vis\u00edvel. A experi\u00eancia da psicose prova que a n\u00e3o-extra\u00e7\u00e3o do objeto \u00e9 correlata da multiplica\u00e7\u00e3o das vozes e da multiplica\u00e7\u00e3o dos olhares (MILLER, 1996).<\/p>\n<p>Lacan \u00e9 exemplar com o caso \u201cEu venho do salsicheiro\u201d. A paciente, ao murmurar \u201cEu venho do salsicheiro\u201d, escuta como resposta: \u201cPorca\u201d.\u00a0 O sujeito n\u00e3o recebe sua mensagem de maneira invertida, como o neur\u00f3tico, mas recebe sua pr\u00f3pria mensagem vinda de fora, vinda do real.<\/p>\n<p>Na neurose, o pai \u00e9 tomado como aquele que agencia a castra\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, pode-se afirmar que a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 o certificado de que ali teve origem o sujeito. A castra\u00e7\u00e3o \u00e9 a expuls\u00e3o, a ren\u00fancia pulsional \u00e0 qual o sujeito se submete, permitindo a afirma\u00e7\u00e3o de um campo de significantes, chamados, por Lacan, de primordiais.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 dito, Freud nos ensina que \u00e9 a partir do \u201cn\u00e3o\u201d que se pode dizer o \u201csim\u201d. Ou melhor, \u00e9 porque o sujeito aceita a castra\u00e7\u00e3o que o seu mundo da realidade se constitui. Com a castra\u00e7\u00e3o, abre-se uma brecha, uma lacuna que divide o sujeito, inserindo-o no campo do desejo, da promessa de um reencontro com o objeto que outrora lhe trouxe satisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 essencialmente o significante do Nome-do-pai que se trata de ser transmitido na neurose.<\/p>\n<p>a psicose, no entanto, n\u00e3o \u00e9 isso que acontece. A cat\u00e1strofe na psicose \u00e9 exatamente porque o pai n\u00e3o foi capaz de transmitir o seu nome, deixando o sujeito \u201clargado\u201d, \u00e0 deriva. A passagem ao ato pode, muitas vezes, ser um tipo de extra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, uma vez que o que temos na psicose \u00e9 a n\u00e3o-extra\u00e7\u00e3o do objeto<em> a.<\/em> A presen\u00e7a do objeto<em> a<\/em> no real \u2013 olhar ou a voz \u2013 deve ser apreendida em um movimento de retorno.<\/p>\n<p>O que Freud prop\u00f5e \u00e9 que a satisfa\u00e7\u00e3o libidinal seja subtra\u00edda ao sujeito para que seu organismo funcione. Um objeto tem, necessariamente, que estar fora para que a realidade seja constitu\u00edda. Em primeiro lugar, a realidade se constitui como desinvestida pela libido e, em segundo lugar, essa realidade s\u00f3 se constitui como realidade se ela \u00e9 furada. Um peda\u00e7o da realidade lhe foi arrancado e \u00e9 este peda\u00e7o da realidade que a libido investe. Deve haver uma perda subjetiva para que o mundo interno seja organizado, caso contr\u00e1rio, o sujeito \u201ccair\u00e1 sob o golpe da <em>Verwerfung<\/em>\u201d. A <em>Verwerfung<\/em> \u00e9 a aus\u00eancia absoluta da opera\u00e7\u00e3o de subtra\u00e7\u00e3o, \u00e9 a consequ\u00eancia ps\u00edquica da n\u00e3o-opera\u00e7\u00e3o <em>Bejahung-Ausstossung<\/em>, deixando o sujeito fora do universo simb\u00f3lico, preso do lado de fora, foraclu\u00eddo, preso no mundo da psicose. A import\u00e2ncia dessa opera\u00e7\u00e3o, constitutiva do campo da realidade de um sujeito, \u00e9 o certificado de que, naquele sujeito, houve a transmiss\u00e3o de um pai.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>FREUD, S. Projeto para uma psicologia cient\u00edfica. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. I, 1990, p. 387-401. (Trabalho original publicado em 1950[1895])<\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>FREUD, S. Neurose e psicose. In: <em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Neurose, psicose, pervers\u00e3o. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016a, p. 271-278. (Trabalho original publicado em 1924).<\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>FREUD, S. A perda da realidade na neurose e na psicose. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud: <\/em>Neurose, Psicose, Pervers\u00e3o. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016b, p. 279-286. (Trabalho original publicado em 1924).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. A nega\u00e7\u00e3o. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud: <\/em>Neurose, Psicose, Pervers\u00e3o. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2016, p. 305-314. (Trabalho original publicado em 1925).<\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 3<\/em>: As psicoses. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1955-56).<\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>LACAN, J. De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose. In: <em>Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 537-590. (Trabalho original proferido em 1957-58).<\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>MILLER, J-A. Mostrado em Pr\u00e9montr\u00e9. In: <em>Matemas I<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.<\/h6>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Texto apresentado em Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise, atividade da diretoria de Ensino do IPSM-MG, em 17\/10\/2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Constitui\u00e7\u00e3o e perda do campo da realidade1 K\u00e1tia Mari\u00e1s Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP katiamariasp@gmail.com Resumo: O texto aborda a constitui\u00e7\u00e3o do campo da realidade a partir da extra\u00e7\u00e3o do objeto a e o modo como se d\u00e1 a perda da realidade na neurose que, por meio da fantasia, busca reparar a realidade.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57704,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2117","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-32","category-34","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2117","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2117"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2117\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57705,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2117\/revisions\/57705"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57704"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}