{"id":212,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=212"},"modified":"2025-12-01T12:52:14","modified_gmt":"2025-12-01T15:52:14","slug":"lembrar-repetir-perlaborar1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/lembrar-repetir-perlaborar1\/","title":{"rendered":"Lembrar, repetir, perlaborar<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Lucia Maria de Lima Mello<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<br \/>\n<span id=\"cloak0738e72285b80e740214b9dfc9104169\"><a href=\"mailto:delimaebp@gmail.com\">delimaebp@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A autora comenta o texto de Freud \u201cLembrar, repetir, perlaborar\u201d, de 1914, \u00e0 luz das modifica\u00e7\u00f5es apresentadas pelo di\u00e1logo com Lacan em 1964 como um suporte para uma releitura a partir do Semin\u00e1rio\u00a0<em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise.<\/em>\u00a0Alguns fragmentos cl\u00ednicos ilustram aspectos da contribui\u00e7\u00e3o lacaniana para a pesquisa.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>lembrar; repetir; puls\u00e3o; inconsciente; transfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>REMEMBERING,\u00a0REPEATING\u00a0AND\u00a0WORKING-THROUGH<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>The author comments on Freud&#8217;s 1914 text, Remember, repeat, work through, in the light of the modifications presented by the dialogue with Lacan in 1964 as a support for a rereading based on the Seminar\u00a0<em>The four fundamental concepts of psychoanalysis<\/em>. Some clinical fragments illustrate aspects of Lacan\u00b4s contribution to research.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>remembering; repeating; drive; unconscious; transfer.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_213\" style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lembrar.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"567\" data-large_image_height=\"649\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-213\" class=\"wp-image-213 size-full\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lembrar.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"649\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lembrar.png 567w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/lembrar-262x300.png 262w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-213\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre os princ\u00edpios gerais dos fundamentos da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica, o texto \u201cLembrar, repetir, perlaborar\u201d (FREUD, 1914\/2022) inicia com uma lembran\u00e7a, uma advert\u00eancia, sobre as profundas\u00a0transforma\u00e7\u00f5es sofridas pela t\u00e9cnica psicanal\u00edtica desde seus prim\u00f3rdios, n\u00e3o apenas incidindo sobre os tr\u00eas verbos, mas no contexto mais amplo dos conceitos que constituem a experi\u00eancia psicanal\u00edtica. As transforma\u00e7\u00f5es alcan\u00e7am os conceitos fundamentais em 1964, no Semin\u00e1rio 11 de Lacan, e prosseguem at\u00e9 seu \u00faltimo ensino. Elucidadas por Miller nos cursos psicanal\u00edticos, dentre outros, encontra-se orienta\u00e7\u00e3o precisa para diferenciar leitura em tr\u00eas consist\u00eancias, Simb\u00f3lico, Imagin\u00e1rio, Real, outra l\u00f3gica antecipat\u00f3ria das surpreendentes mudan\u00e7as operadas pelo mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contarei com algum desses textos, dentre outros, na expectativa de seguir uma vereda j\u00e1 tra\u00e7ada,\u00a0mas indicativa da pesquisa cont\u00ednua orientada por\u00a0um m\u00e9todo renovado atrav\u00e9s das mudan\u00e7as cl\u00ednicas, subjetivas, pol\u00edticas, sociais, ao mesmo tempo em que extrai consequ\u00eancias da parceria com o estranho, sem sentido, do sil\u00eancio das puls\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O lembrar, desde o in\u00edcio da descoberta freudiana, incide\u00a0nas repeti\u00e7\u00f5es,\u00a0o recalcado, os sintomas, as fantasias, sonhos, os atos falhos, viv\u00eancias incompreens\u00edveis. Incid\u00eancia esta que implica tanto o inconsciente, como linguagem, quanto a dimens\u00e3o silenciosa da puls\u00e3o, as chamadas mo\u00e7\u00f5es pulsionais, os destinos da vida e morte tra\u00e7os nos corpos resultando\u00a0atos estranhos em sua vasta extens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ab-rea\u00e7\u00e3o\u00a0servira inicialmente para\u00a0demonstrar a dissimetria entre o afeto e a representa\u00e7\u00e3o. Freud encontra o desafio de traduzir e recompor um sofrimento hist\u00f3rico de fazer cessar a compuls\u00e3o para repetir que, contrariamente ao sintoma que se deslocava rebelde sobre um corpo, mostrava sua consist\u00eancia e coes\u00e3o. Antes de 1914, anunciara um vasto conjunto de experi\u00eancias cl\u00ednicas, que alcan\u00e7avam a sexualidade, a paranoia, a histeria, a fobia, a obsess\u00e3o. O relativo fracasso da palavra para\u00a0preencher as lacunas hist\u00f3ricas ou traum\u00e1ticas exigia\u00a0\u201cfazer as pazes com o recalcado que surge nos sintomas\u201d (FREUD, 1914\/2022, p.157)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazer as pazes com o recalcado implica\u00a0o paciente em uma nova rela\u00e7\u00e3o com a doen\u00e7a, outra posi\u00e7\u00e3o subjetiva para al\u00e9m da queixa inicial, o que exige sua demanda e autoriza\u00e7\u00e3o. Por seu turno, a nova rela\u00e7\u00e3o com a doen\u00e7a dependia do estabelecimento da neurose de transfer\u00eancia mais colaborativa,\u00a0porque vem em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 neurose comum. As substitui\u00e7\u00f5es conhecidas por Freud na esfera sintom\u00e1tica foram\u00a0recurso t\u00e1tico no manejo da transfer\u00eancia, com a proposta da neurose de transfer\u00eancia substituindo a neurose comum, durante uma an\u00e1lise, al\u00e9m da expectativa de certa regulagem das \u201cpuls\u00f5es selvagens\u201d pelo uso da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando lemos Miller (1997) no \u201cDiscurso do m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d, de 1987,\u00a0encontramos em outros termos a import\u00e2ncia das entrevistas preliminares para a localiza\u00e7\u00e3o subjetiva e as coordenadas da verifica\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a poss\u00edvel, posi\u00e7\u00e3o suportada pelo ato \u00e9tico do psicanalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud verificou que a simples nomea\u00e7\u00e3o das resist\u00eancias por seu turno n\u00e3o alcan\u00e7ava supera\u00e7\u00e3o imediaa, porque as mo\u00e7\u00f5es pulsionais alimentavam as resist\u00eancias. \u00a0O dif\u00edcil trabalho conjunto de analista e do analisante, portanto, visaria localizar e superar a incid\u00eancia da puls\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cl\u00ednica o ensinava e um dos grandes m\u00e9ritos freudianos foi n\u00e3o se deter diante dos obst\u00e1culos, prosseguir suas indaga\u00e7\u00f5es e pesquisas atrav\u00e9s de v\u00e1rios enigmas e\u00a0paradoxos. Descobre que o esquecimento podia ser o n\u00e3o reconhecimento de algo vivido,\u00a0a denega\u00e7\u00e3o, marca neur\u00f3tica em rela\u00e7\u00e3o ao desejo, assinalando o mecanismo defensivo que indica e nega a responsabilidade do paciente. Que as lembran\u00e7as encobridoras podem compensar a amn\u00e9sia infantil, al\u00e9m de surgirem isoladas, sem qualquer conex\u00e3o. Podem ocorrer conex\u00f5es\u00a0<em>a posteriori<\/em>\u00a0de afetos precoces e sem sentido. O paciente se lembra de imagem nunca vista ou n\u00e3o se lembra do que ocorreu anteriormente. Os pensamentos podem n\u00e3o retornar como representa\u00e7\u00f5es, mas como atua\u00e7\u00f5es, portanto, o\u00a0paciente repete sem saber que repete e\u00a0experimenta a lembran\u00e7a como alheia ou\u00a0permutada pelas defesas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um fragmento cl\u00ednico ilustra bem um dos impasses apresentados pelo in\u00edcio do tratamento localizados por Freud nessa \u00e9poca e que se reencontra ainda segundo alguns depoimentos dos psicanalistas nas\u00a0pr\u00e1ticas cl\u00ednicas atuais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Uma senhora, de idade mais avan\u00e7ada, repetidas vezes abandonava a casa e o marido, em estados confusionais, fugindo para um lugar qualquer, sem ter consci\u00eancia do motivo de tal \u201cescapada\u201d. Ela veio ao meu tratamento com uma transfer\u00eancia carinhosa bem formada, aumentando-a de forma espantosamente r\u00e1pida nos primeiros dias, e, ao fim de uma semana, tamb\u00e9m \u201cescapou\u201d de mim antes que eu tivesse tempo de lhe dizer algo que pudesse impedi-la de incorrer nessa repeti\u00e7\u00e3o. (FREUD, 1914\/2022, p. 159)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 muito interessante nesse pequeno relato de 1914 Freud situar\u00a0no significante que reitera, a \u201cescapada\u201d da paciente, considerando a possibilidade de conten\u00e7\u00e3o como manobra cl\u00ednica. Faz lembrar a importante pergunta de Lacan, muitos anos depois: \u201cMas se o ato est\u00e1 na leitura do ato, isto quer dizer que esta leitura \u00e9 simplesmente superposta, e que \u00e9 do ato reduzido\u00a0<em>a posteriori<\/em>\u00a0que ela toma seu valor?\u201d (LACAN, 1967-68, p. 26). O significado n\u00e3o pertence ao mesmo campo do significante. Essa importante quest\u00e3o surge tanto em Freud quanto em Lacan. O ato da leitura a posteriori marca a dist\u00e2ncia entre a compreens\u00e3o e a significa\u00e7\u00e3o vazia de sentido. \u00c9 preciso considerar um gozo que se imiscui tanto na palavra falada quanto nas atua\u00e7\u00f5es e guarda sua deriva e o enigma para o Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sintomas na forma de repeti\u00e7\u00f5es apresentam-se muito variados como que por acaso, um trope\u00e7\u00e3o, uma falha, mas que insistem, v\u00e3o dos pequenos fisgamentos cotidianos at\u00e9 esquecimentos que levam \u00e0 morte, como os que resultam em acidentes. O que est\u00e1 fora da palavra mostra sua insist\u00eancia e requer um trabalho em outro circuito, labor que mereceu, da parte de Freud, o nome de perlabora\u00e7\u00e3o, indicando uma travessia, um percurso atrav\u00e9s de uma experi\u00eancia, longamente investigada na \u201cPsicopatologia da Vida cotidiana\u201d (FREUD, 1901\/1980), que se desdobra, no pr\u00f3prio Freud em 1937, nas constru\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise, que, por analogia \u00e0 met\u00e1fora arqueol\u00f3gica, ressalta a import\u00e2ncia do trabalho com os restos. O curioso \u00e9 que essas repeti\u00e7\u00f5es, embora reiteradas, n\u00e3o possuem registros, o inconsciente n\u00e3o toma nota, o sujeito traz a not\u00edcia de que ocorrem sempre mais uma vez, uma primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud, a partir dos trabalhos com a puls\u00e3o, sobretudo com a libido, a satisfa\u00e7\u00e3o, leva em conta dois tipos de repeti\u00e7\u00e3o. Embora\u00a0fora da linguagem, \u00e9 poss\u00edvel traduzir num tempo posterior, ou seja, introduzir condi\u00e7\u00f5es de legibilidade do ato falho que ele citou mais de uma vez, quando o presidente de uma sess\u00e3o, ao abrir os trabalhos, levanta-se triunfante e diz: \u201ca sess\u00e3o est\u00e1 encerrada\u201d. Mesmo aparentemente fora da linguagem, a frase est\u00e1 dentro do contexto significante, portanto pode ser traduzida, mas nem sempre compreendida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A grande surpresa\u00a0em 1964 foi a retomada\u00a0por Lacan, no Semin\u00e1rio 11,\u00a0do que formalizou nessa \u00e9poca como\u00a0<em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>: inconsciente, repeti\u00e7\u00e3o, transfer\u00eancia e puls\u00e3o. O di\u00e1logo com Freud se apoiou inicialmente no texto \u201cLembrar, repetir, perlaborar\u201d para extrair elementos essenciais visando fundamentar outra modalidade da repeti\u00e7\u00e3o, pesquisa seguidamente renovada conduzida at\u00e9 seu \u00faltimo ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta de Lacan (1964\/1988) situa o inassimil\u00e1vel na forma do trauma que comparece desvelado fora\u00a0do sonho, n\u00e3o como portador do desejo, mas o trauma mostrando na face despida de semblantes, o impacto do real. Para al\u00e9m do traumatismo das situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia, de guerra, que se repetem e buscam o tratamento pelo sentido, h\u00e1 o trauma do real, que acompanha o sujeito para sempre na esfera do fora do sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o retorno dos signos nem a simples reprodu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas a rememora\u00e7\u00e3o agida, n\u00e3o \u00e9 um comportamento. A descoberta freudiana do inconsciente encontra nos fundamentos da cl\u00ednica a experi\u00eancia de uma mem\u00f3ria falha, sempre aberta, repleta de contradi\u00e7\u00f5es. \u00a0A pesquisa lacaniana localiza algo mais que uma mem\u00f3ria, como programas que se desenvolvem sem que o sujeito saiba, um saber paradoxal que n\u00e3o \u00e9 um conhecimento, mas localizado inicialmente apenas pelos seus efeitos, acontecimentos imprevistos, que indicam a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o evidente entre o pensamento e seu limite, fora do conhecimento do sujeito, ou seja, o real inferido atrav\u00e9s de seus efeitos que foi verificado inicialmente por Lacan, como o que retorna sempre ao mesmo lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na repeti\u00e7\u00e3o, portanto, comparecem\u00a0dois n\u00edveis: o primeiro na rede de significantes,\u00a0atualizada, insistentemente, nas diversas formas de automatismo da repeti\u00e7\u00e3o, no\u00a0<em>automaton<\/em>, das biografias, nas hist\u00f3rias, narrativas; e, no segundo, temos a tiqu\u00ea, o acontecimento imprevisto, o inassimil\u00e1vel, o trauma, acontecimento que\u00a0ressoa diretamente sobre um corpo. Esses dois n\u00edveis foram revisitados sob nova leitura a partir da cl\u00ednica freudiana, precisamente no caso do \u201cHomem dos lobos\u201d, numa cena infantil comparando duas realidades sucessivas e antag\u00f4nicas ocorridas na inf\u00e2ncia do paciente\u00a0no terreno da percep\u00e7\u00e3o. A realidade de uma cena que pode ser posta em palavras, e a perplexidade, demarcada pela surpresa, por um instante sem palavras, enigma, alheio ao sujeito do inconsciente como linguagem. \u00a0Nessa cl\u00ednica, as particularidades do estatuto desse inconsciente respondem por realidades surgidas atrav\u00e9s de fen\u00f4menos situados em lugares diversos, como rememora\u00e7\u00e3o e reminisc\u00eancia, o\u00a0que franqueou a elabora\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses diagn\u00f3sticas diversas atrav\u00e9s da minuciosa leitura\u00a0<em>a posteriori<\/em>\u00a0do caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Lacan\u00a0indaga insistentemente, por v\u00e1rios anos, sobre o estatuto do inconsciente freudiano, formaliza progressivamente algo al\u00e9m da atualiza\u00e7\u00e3o\u00a0por substitui\u00e7\u00e3o dos sonhos, atos falhos, chiste, fantasia, sintoma. Algo\u00a0que desloca para o primeiro plano a Outra realidade, a outra cena. Essa outra cena, entretanto, foge ao enquadre fornecido pela fantasia, n\u00e3o \u00e9 uma lacuna a ser preenchida, que retorna a um momento prefixado. \u00c9 um fen\u00f4meno in\u00e9dito, fugidio, alheio a qualquer interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato seguido do coment\u00e1rio de uma\u00a0experi\u00eancia pessoal de Lacan sobre a Outra realidade, a outra cena, \u00e9 colhida em recorte marcante trazido por ele no campo do sonho, quando foi\u00a0despertado do curto sono atrav\u00e9s do qual procurava repouso. Despertado, ele diz, \u201cpor alguma coisa que batia \u00e0 minha porta desde antes que eu n\u00e3o me despertasse\u201d (LACAN, 1964\/1988, p. 58), \u00e9 a partir dessas batidas apressadas que ele iniciava a constru\u00e7\u00e3o de um sonho, que manifestava conte\u00fado diverso das batidas, mas em torno delas, e que reconstitui todo um conjunto de representa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">sei que estou ali, a que horas dormi, e o que buscava com aquele sono. Quando o barulho da batida acontece, n\u00e3o ainda para minha percep\u00e7\u00e3o, mas para minha consci\u00eancia, \u00e9 que minha consci\u00eancia se reconstitui em torno dessa representa\u00e7\u00e3o \u2013 de que eu sei que estou sob a batida do despertar, que estou\u00a0<em>knocked<\/em>, em choque. (LACAN, 1964\/1988, p. 51)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esse fen\u00f4meno, Lacan destaca o barulhinho, o pequeno ru\u00eddo, e, atrav\u00e9s do instante experimentado sobre o choque do despertar, aponta a hi\u00e2ncia, o estranho, que\u00a0evidencia a oposi\u00e7\u00e3o entre realidades diferentes. Algo muito diverso do que pode ocorrer na esfera dos sintomas e das fantasias ainda no circuito das repeti\u00e7\u00f5es que surpreendem o sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A amplitude dos fen\u00f4menos na repeti\u00e7\u00e3o entre realidades disjuntas foi evocada em Freud, no jogo do carretel no qual, ao lado da brincadeira da crian\u00e7a, surge o salto sobre o fosso que separa a borda do ber\u00e7o, salto que inscreve a falta no seio da representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica diferenciadora da aus\u00eancia &#8211; presen\u00e7a do Outro e localiza a ang\u00fastia em outra dimens\u00e3o. A repeti\u00e7\u00e3o na brincadeira infantil, como os casos cl\u00ednicos o demonstram, pode indicar uma lacuna a ser preenchida por uma palavra, mas o acontecimento imprevisto, sem sentido, na cena do sonho evocada por Lacan, tem a\u00e7\u00e3o de corte, surpresa, perplexidade, porque sem nome, indicativa do choque com o real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mudan\u00e7as para os fundamentos da cl\u00ednica decorrentes do \u201csimples\u201d exame do estatuto do inconsciente, a partir da outra modalidade de repeti\u00e7\u00e3o, repercutem at\u00e9 a atualidade e ampliam a chance de trabalho com os dif\u00edceis casos cl\u00ednicos atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A import\u00e2ncia do Semin\u00e1rio 11 de Lacan no di\u00e1logo com o texto \u201cLembrar, repetir, perlaborar\u201d\u00a0reside em reordenar os fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica a partir de nova perspectiva, considerando o real como experi\u00eancia do inassimil\u00e1vel, tarefa\u00a0que prosseguir\u00e1 at\u00e9 seu \u00faltimo ensino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, demarca a diferen\u00e7a\u00a0entre dois tipos de repeti\u00e7\u00e3o propostas por Freud e Lacan: a que concerne \u00e0 biografia, \u00e0 hist\u00f3ria, ao que pode ser lembrado e associado aos modos diversos de satisfa\u00e7\u00e3o, desconhecidos, mas pass\u00edveis de leitura\u00a0<em>a posteriori<\/em>. J\u00e1 o encontro com o acaso, o imprevisto, ou imprevis\u00edvel, situar\u00e1 novamente a sess\u00e3o anal\u00edtica entre repeti\u00e7\u00e3o e surpresa, em que o lapso convoca seu uso, e n\u00e3o sua interpreta\u00e7\u00e3o; o acontecimento imprevisto repete como um raio que atinge um corpo, fora da apreens\u00e3o pelas palavras. Esse outro tipo de repeti\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m de dupla forma, separa o gozo inclu\u00eddo na cadeia de linguagem, como defesa, e o gozo fora da lei significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sutileza de Lacan impressiona porque chama aten\u00e7\u00e3o para a radicalidade da repeti\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es cotidianas, aparentemente simples, que foram assinaladas anteriormente por Freud como a dimens\u00e3o l\u00fadica, ou seja, a repeti\u00e7\u00e3o demanda o novo, mas a modula\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas deslizamento da aliena\u00e7\u00e3o do seu sentido. O verdadeiro segredo do l\u00fadico \u201c\u00e9 a diversidade mais radical que constitui a repeti\u00e7\u00e3o em si mesma\u201d (LACAN, 1964\/1988, p. 62).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um coment\u00e1rio de Zenoni (2022) ilumina essa radicalidade, ao lembrar a frase \u201co sujeito \u00e9 sempre feliz\u201d: todo acidente, acaso, reencontro, tudo \u00e9 bom para a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o porque ela se repete. O bom para a puls\u00e3o se justifica porque o gozo n\u00e3o conhece seu contr\u00e1rio, tal como ocorre com o desejo. A ren\u00fancia ao gozo \u00e9 tamb\u00e9m um gozo enquanto um desejo realizado, \u00e9 o oposto de um desejo n\u00e3o realizado. A marca de gozo, sempre a mesma, restar\u00e1 como irredut\u00edvel, inelimin\u00e1vel. O interessante \u00e9 o convite ao trabalho que pode tocar um\u00a0<em>falasser<\/em>, advindo dos paradoxos da repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse convite ao trabalho tem no depoimento de Marcos Andr\u00e9 Vieira (2019) esclarecimento fundamental sobre os efeitos de uma an\u00e1lise. O psicanalista se exp\u00f4s ao risco da viol\u00eancia em evento no qual compareceu, acompanhado de seus filhos, \u00e0 favela da Mar\u00e9, local onde desenvolveu longo trabalho cl\u00ednico que resultou em v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es de pesquisa. Na entrada foi interrogado, em cena que se repetiu, por dois adolescentes fortemente armados. Da cena, resta a sensa\u00e7\u00e3o de estranheza. Ap\u00f3s interven\u00e7\u00e3o de seu analista, encontra a evid\u00eancia, na repeti\u00e7\u00e3o, do desejo inconsciente, que exp\u00f5e, por seu turno, um gozo ligado ao perigo que carregava, um real acompanhado do afeto: \u201cQuando algu\u00e9m se depara com a estranheza de sua repeti\u00e7\u00e3o, o gozo que a alimenta pode se deslocar\u201d (VIEIRA, 2019, p. 32). Trata-se, nesse caso, do inconsciente como efeito de leitura do que se fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho cl\u00ednico a partir do remanejamento de conceitos fundamentais\u00a0n\u00e3o corresponde a uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber, mas opera como instrumento\u00a0para \u201crenovar nossa pr\u00e1tica no mundo\u201d (MILLER, 2014, p. 21), considerando a possibilidade de lidar com as conting\u00eancias que atingem incessantemente um\u00a0<em>falasser<\/em>\u00a0e a responsabilidade implicada na extimidade da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Psicopatologia da vida cotidiana. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. VI, 1980. (Trabalho original publicado em 1901).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Lembrar, repetir, perlaborar. In:\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>. Vol. 6. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2022. (Trabalho original publicado em 1914).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 15<\/em>: O ato psicanal\u00edtico. 1967-68. (In\u00e9dito).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. (Trabalho original proferido em 1964)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. O m\u00e9todo psicanal\u00edtico. In:\u00a0<em>Lacan Elucidado<\/em>: palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 219-284.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. O real no s\u00e9culo XXI. Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do IX Congresso da AMP. In: MACHADO, O.; RIBEIRO, V. A. (Org.).\u00a0<em>Scilicet<\/em>: o real no s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte: Scriptum\/Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2014, p. 21-32.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">VIEIRA, M. A. Extimidades.\u00a0<em>Correio Express \u2013 Revista Eletr\u00f4nica da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 82, 2019. Dispon\u00edvel em: www.ebp.org.br\/correio_express. Acesso em: 27 jun. 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ZENONI, A. La r\u00e9p\u00e9tition, de Freud a Lacan.\u00a0<em>Quarto<\/em>, n. 131, jun. 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/lembrar-repetir-perlaborar#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Trabalho apresentado nas 59\u00aa Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise do IPSM-MG, em 30 de maio de 2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucia Maria de Lima Mello Psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP delimaebp@gmail.com Resumo:\u00a0A autora comenta o texto de Freud \u201cLembrar, repetir, perlaborar\u201d, de 1914, \u00e0 luz das modifica\u00e7\u00f5es apresentadas pelo di\u00e1logo com Lacan em 1964 como um suporte para uma releitura a partir do Semin\u00e1rio\u00a0Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise.\u00a0Alguns fragmentos cl\u00ednicos ilustram aspectos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57783,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-212","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=212"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57784,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/212\/revisions\/57784"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57783"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}