{"id":2132,"date":"2024-02-18T17:55:55","date_gmt":"2024-02-18T20:55:55","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2132"},"modified":"2025-12-01T11:53:36","modified_gmt":"2025-12-01T14:53:36","slug":"sera-que-o-racismo-mata-implicacoes-de-uma-clinica-atravessada-pelo-racismo1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/18\/sera-que-o-racismo-mata-implicacoes-de-uma-clinica-atravessada-pelo-racismo1\/","title":{"rendered":"Ser\u00e1 que o racismo mata?  Implica\u00e7\u00f5es de uma cl\u00ednica atravessada pelo racismo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\"><\/a><\/p>\n<h2><span style=\"color: #333399;\">Ser\u00e1 que o racismo mata? Implica\u00e7\u00f5es de uma cl\u00ednica atravessada pelo racismo<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><strong>M\u00f4nica Campos Silva<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"mailto:monica.camposilva@gmail.com\">monica.camposilva@gmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong> Este texto \u00e9 um coment\u00e1rio do caso cl\u00ednico apresentado por Alessandro Pereira Santos no Ateli\u00ea de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o. A partir do t\u00edtulo da atividade, \u201cSer\u00e1 que o racismo mata? Implica\u00e7\u00f5es de uma cl\u00ednica atravessada pelo racismo\u201d, a autora faz um percurso que se inicia respondendo positivamente ao questionamento apresentado e advertindo que h\u00e1 uma mortifica\u00e7\u00e3o subjetiva do sujeito por pr\u00e1ticas racistas. Ao final, marca a posi\u00e7\u00e3o radical do psicanalista que aposta nas solu\u00e7\u00f5es singulares de cada sujeito que apontam para a vida, fazendo assim um contraponto aos discursos e pr\u00e1ticas racistas.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> racismo; mortifica\u00e7\u00e3o subjetiva; posi\u00e7\u00e3o do psicanalista.<\/p>\n<p><strong>DOES RACISM KILL? <\/strong><\/p>\n<p><strong>IMPLICATIONS OF A CLINIC CROSSED BY RACISM<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong> This text is a commentary on the clinical case presented by Alessandro Pereira Santos in the Ateli\u00ea de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o. From the title of the activity, <em>\u201cDoes racism kill? Implications of a clinic crossed by racism\u201d<\/em>, the author follows a path that begins by responding positively to the question presented and warning that there is a subjective mortification of the subject due to racist practices. In the end, it marks the radical position of psychoanalysis that bets on unique solutions for each subject that point to life, thus providing a counterpoint to racist discourses and practices.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong> racism; subjective mortification; position of the psychoanalyst.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Monica-Campos.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"886\" data-large_image_height=\"1181\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2133 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Monica-Campos-768x1024.png\" alt=\"\" width=\"428\" height=\"571\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u00a0<\/em><em>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tomar o sofrimento do negro como algo maci\u00e7o, homog\u00eaneo.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u00a0<\/em>(Alessandro Pereira dos Santos)<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Queria come\u00e7ar com o t\u00edtulo proposto: ser\u00e1 que o racismo mata? Sim, mata! Vemos todos os dias. Mas sugiro aqui dizer que, subjetivamente, h\u00e1 a mortifica\u00e7\u00e3o do sujeito por pr\u00e1ticas racistas.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser racista \u00e9 algo importante, para que n\u00e3o se reproduza indefinidamente a domestica\u00e7\u00e3o da qual se prov\u00e9m. Osvald de Andrade (2009, p. 282), ao falar sobre o preconceito, dispara: \u201cos ot\u00e1rios se reeducam\u201d. Neste sentido, nos valemos ainda de Neusa Santos Souza (2021), que indica que, no discurso anal\u00edtico, cada negro em particular vai elaborar suas quest\u00f5es \u201cque lhe d\u00ea fei\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias\u201d (SOUZA, 2021). Me parece que \u00e9 fundamental essa coloca\u00e7\u00e3o de Neusa, de cada um&#8230; isso n\u00e3o retira os efeitos mort\u00edferos, nefastos do racismo, mas, de sa\u00edda, n\u00e3o elimina o que h\u00e1 de singular e a poss\u00edvel mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse (2004), ao tratar do tema da devasta\u00e7\u00e3o, tornar-se ou n\u00e3o desejado \u00e9 um ponto fundador, pois o sujeito busca saber o que orienta o desejo no campo do Outro e calcula seu lugar ali. Nessa interlocu\u00e7\u00e3o dos discursos, em que o lugar no campo social para as minorias \u2013 n\u00e3o quantitativamente dizendo \u2013 ganha certa desqualifica\u00e7\u00e3o, penso ser poss\u00edvel ampliar esse ponto para a quest\u00e3o do racismo. A cada caso, em sentido amplo, v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es podem ter efeitos e manter a aliena\u00e7\u00e3o ao discurso racista, criando um campo de segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do racismo, aproximo os efeitos deste em um sujeito, pelo que Miller (2015) diz da devasta\u00e7\u00e3o, como uma pilhagem, um saque, um roubo, que se estende a tudo, sem limites. O caso que Alessandro nos traz aponta os efeitos que se proliferam na vida do sujeito, sua grade de leitura para interpretar o mundo e seu lugar, como modo de responder.<\/p>\n<p>Alessandro nos esclarece que \u00e9 um analista preto e se pergunta se isso traz efeitos para o caso. Ser\u00e1 que essa condi\u00e7\u00e3o do analista trata de dar por entendido? Ou talvez seja o ponto transferencial o que permite a esse sujeito iniciar sua an\u00e1lise. Mas \u00e9 importante mesmo estarmos advertidos de que n\u00e3o h\u00e1 afinidade com o inconsciente de outra pessoa, do analisante ao analista. H\u00e1 uma diferen\u00e7a rigorosa da posi\u00e7\u00e3o analisante e da posi\u00e7\u00e3o do analista em uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Pensando no caso de Alessandro, sabemos que a fantasia, vista como o correspondente e o suporte do desejo, de acordo com Lacan \u00e9 \u201cuma tela sobre o qual o sujeito \u00e9 institu\u00eddo\u201d. E, como comenta Naveau (2011): \u201c\u00e9 uma tela que fecha ao sujeito o acesso ao real e, inversamente, uma janela que abre, para o sujeito, um ponto de vista sobre o real em quest\u00e3o\u201d, ou seja, ela tem a fun\u00e7\u00e3o de v\u00e9u ao mesmo tempo que aponta o que est\u00e1 em jogo para o sujeito.<\/p>\n<p>Assim, a fantasia \u00e9 colocada \u201ccomo o imagin\u00e1rio aprisionado num certo uso significante\u201d (NAVEAU, 2011) no caso em quest\u00e3o o racismo faz a representa\u00e7\u00e3o da subjetividade em jogo. A constru\u00e7\u00e3o da fantasia no tratamento permite a apropria\u00e7\u00e3o, pelo sujeito, do objeto que lhe causa o desejo. Me parece que o analista coloca um bom ru\u00eddo no significante que repete, um equ\u00edvoco, permitindo que algo do gozo ceda ao desejo. Miller (2015) vai dizer da opera\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o como opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, que se dirige a sua vers\u00e3o pequeno <em>a<\/em>, uma formaliza\u00e7\u00e3o determinante da escolha do objeto, mas que a an\u00e1lise n\u00e3o est\u00e1 terminada enquanto o sujeito n\u00e3o ceder ao gozo fixado a essa repeti\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso localizar, mas que n\u00e3o crie uma sutura. Seria aqui poss\u00edvel pensarmos na vacila\u00e7\u00e3o de uma fantasia t\u00e3o consistente e que me parece ser onde o sujeito se alicer\u00e7a, se defende? Como manejar? Pois, enquanto a fantasia encobre a realidade insuport\u00e1vel por meio da cria\u00e7\u00e3o de uma realidade ficcional, a ang\u00fastia sinaliza algo do Real.<\/p>\n<p>Ao que parece, algo do objeto rasga o quadro da fantasia, que j\u00e1 n\u00e3o funciona para que esse sujeito se relacione com o mundo, o que possibilita uma invas\u00e3o de gozo. \u00c9 na an\u00e1lise, sob transfer\u00eancia, que algo pode condescender, algo da fixidez e que comporta um excesso. Encontra-se, assim, uma resposta para o que se experimenta sem media\u00e7\u00e3o, fora do sentido, imposs\u00edvel de suportar.<\/p>\n<p>Deparamo-nos muitas vezes com sujeitos fixados a um modo de responder, sem conseguir dar tratamento ao que excede. Como conduzir o que, embora atravesse a l\u00f3gica civilizat\u00f3ria, a lei, se encontra fora da letra?<\/p>\n<p>O paciente do caso apresentado por Alessandro adere ao significante \u201csentimento de indignidade\u201d, dado por um outro. Ele consegue, a partir de uma acusa\u00e7\u00e3o, deslocar e localizar que seu impasse maior \u00e9 o racismo e a invisibilidade que experimenta em fun\u00e7\u00e3o dele. Para a psican\u00e1lise, a indigna\u00e7\u00e3o surge quando o singular \u00e9 rejeitado ou desconhecido e, com isso, algo da \u201cconjuntura \u00edntima do sentimento de vida\u201d (VICENS, 2009) \u00e9 tocado. Nesta via, a indigna\u00e7\u00e3o est\u00e1 finamente ligada \u00e0 dignidade \u2013 como o que n\u00e3o se tem em comum com nenhum outro, diferen\u00e7a, singular, inclassific\u00e1vel \u2013 e \u00e0 indignidade \u2013 como posi\u00e7\u00e3o inicial do sujeito em seus la\u00e7os sintom\u00e1ticos. Ou seja, a indigna\u00e7\u00e3o estaria entre a singularidade e a perda dela, que o sujeito ter\u00e1 que tratar.<\/p>\n<p>Diante do caso trazido por Alessandro, proponho pensar a indigna\u00e7\u00e3o como um afeto que surge quando h\u00e1 um recha\u00e7amento do n\u00facleo do ser, mas que, por outro lado, \u00e9 sua condi\u00e7\u00e3o advertida em rela\u00e7\u00e3o ao Outro, que impulsiona e permite perguntar pela dignidade, ou seja, por sua singularidade perdida, roubada, arrancada. Neste caso, o sujeito diz de sua identifica\u00e7\u00e3o ao lugar de resto, como negro e homossexual (h\u00e1 um efeito segregat\u00f3rio calcado no social). No caso do racismo, e ao ser agredido verbalmente, no que tange \u00e0 cor de sua pele, podemos considerar que, se o nada querer saber mant\u00e9m o sujeito na posi\u00e7\u00e3o de subordinado ao dito do Outro, o rompimento com essa posi\u00e7\u00e3o, por sua vez, como responsabiliza\u00e7\u00e3o decidida, faria vacilar a posi\u00e7\u00e3o vitimada, incluindo o sujeito, o querer saber. Ao \u201cdesconfiar\u201d do gozo do outro e se perguntar pelo seu gozo, permitiria <em>reencadear<\/em> o que saiu da l\u00f3gica simb\u00f3lica. E aqui evitar o pior e a busca de uma solu\u00e7\u00e3o radical.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos pensar que existiria uma forma de dar tratamento ao indigno, ao racismo, ou seja, a partir de uma indigna\u00e7\u00e3o \u201cl\u00facida\u201d que consentiria com uma recusa do gozo do Outro, com a sua inexist\u00eancia, viabilizando uma extra\u00e7\u00e3o de gozo como forma de poder se colocar, engajar, saber de si mesmo, pois a dignidade exige certa recusa de gozo. Isto \u00e9, a indigna\u00e7\u00e3o como rebelar-se, como mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o. De in\u00edcio, o paciente traz a invisibilidade, aliada ao desamparo, \u00e0 censura e julgamento, propiciando um quadro de ang\u00fastia, lan\u00e7ando-o na impot\u00eancia radical.<\/p>\n<p>Para saber do que sofremos, segundo Antoni Vicens (2009), criamos doen\u00e7as. Essa produ\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica permitiria melhor localizar, materializar o sofrimento, concernido, entretanto, por sua pr\u00f3pria dignidade.<\/p>\n<p>Neste contexto, o encontro com o analista pode causar e inaugurar a autoriza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio destino pelo sujeito. Isso porque, no caso, ao melhor situar a demanda, diante do imposs\u00edvel de responder, o sujeito pode, ent\u00e3o, esvazi\u00e1-la e al\u00e7\u00e1-la a um novo saber. Ao tocar o ponto em que o sujeito cristalizou sua defesa, calando-se, mortificando-se, \u00e9 poss\u00edvel tratar o \u00f3dio de si, a assimila\u00e7\u00e3o ao \u00f3dio do outro como parte de si&#8230; \u00c9 preciso, ent\u00e3o, criar a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Assim, a indignidade, o racismo, a senten\u00e7a de um Outro e o aprisionamento podem cair, permitindo a diferen\u00e7a, dar \u00e0 singularidade um lugar. De outra maneira, pode tratar a demanda de repara\u00e7\u00e3o que, uma vez depurada, faz aparecer a verdade do sujeito, o Um do gozo, enla\u00e7ando de uma boa maneira.<\/p>\n<p>Ao que parece, o sujeito agalmatiza o dejeto e se separa da condi\u00e7\u00e3o de rebotalho: \u201ceu vou com o que eu tenho\u201d. Na constru\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o menos mort\u00edfero, busca-se realizar uma identifica\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida, que permita ao sujeito encontrar seu lugar em uma das m\u00faltiplas rotinas das quais \u00e9 feita a organiza\u00e7\u00e3o social e que t\u00eam por propriedade estabilizar a rela\u00e7\u00e3o do significante e do significado, a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com as grandes significa\u00e7\u00f5es humanas, dando pertencimento. Entretanto, segundo Miller (2010a), n\u00e3o se trata somente de obter uma identifica\u00e7\u00e3o significante do sujeito, sua inscri\u00e7\u00e3o sob um significante mestre: trata-se de desprender do gozo uma parcela que possa constituir objeto, sendo este incialmente objeto de uma narra\u00e7\u00e3o, de um cen\u00e1rio que pode ter lugar de fantasia.<\/p>\n<p>Aqui, gostaria de trazer alguns pontos do texto de Miller intitulado \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d, que permite uma leitura do caso. \u00c9 um artigo que trata de forma preciosa e singular a segrega\u00e7\u00e3o de cada um.<\/p>\n<p>Miller (2010b) diz que a salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos \u00e9 o caminho. \u00c9 tamb\u00e9m a maneira de fazer, de se colocar, de se deslizar no mundo, no discurso, no curso do mundo que \u00e9 discurso. Tudo se passa, segundo Miller (2010b), como se a humanidade tivesse se situado diante dessa escolha: a salva\u00e7\u00e3o pelos ideais ou a salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos. E, como por uma escolha for\u00e7ada, poder-se-ia dizer que ela tivesse sempre escolhido a salva\u00e7\u00e3o pelos ideais at\u00e9 que Freud, o primeiro, lhe tenha aberto outra via, totalmente in\u00e9dita: a da salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos. Podemos pensar assim a quest\u00e3o do racismo, da segrega\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O que \u00e9 o dejeto? Miller (2010b) nos esclarece que \u00e9 o que \u00e9 rejeitado, e especialmente rejeitado ao cabo de uma opera\u00e7\u00e3o por meio da qual s\u00f3 se ret\u00e9m o ouro, a subst\u00e2ncia preciosa a que ela leva. \u00c9 o que cai, \u00e9 o que tomba quando por outro lado algo se eleva. \u00c9 o que se evacua, ou que se faz desaparecer enquanto o ideal resplandece. O que resplandece tem forma. Pode-se dizer que o ideal \u00e9 a gl\u00f3ria da forma, enquanto o dejeto \u00e9 <em>in-forme<\/em>. Ele prevalece sobre uma totalidade da qual ele \u00e9 s\u00f3 um peda\u00e7o, uma pe\u00e7a avulsa. O dejeto teria o estatuto de dignidade como singular, como o que resta.<\/p>\n<p>Quando o Outro designa o corpo social, se posso dizer, seu gozo, o gozo desse Outro, mant\u00e9m-se como uma abstra\u00e7\u00e3o ligada ao ideal. Um abstrato, uma fic\u00e7\u00e3o que se apoia no n\u00famero, na massa. Entretanto, pode ser que o gozo do Outro social ganhe corpo, que o gozo consiga ser identificado no lugar do Outro, que ele n\u00e3o se evapore, que n\u00e3o se torne vol\u00e1til e n\u00e3o se confunda com o esplendor vazio da Coisa. \u00c9 quando se pode dizer, ou subentender, ou ser persuadido de que \u201co Outro goza de mim\u201d. Aqui, a meu ver, conseguimos localizar o racismo, em seu pior, para o sujeito.<\/p>\n<p>Para Miller (2010b), o que salva os psicanalistas \u00e9 ter tido \u00eaxito em fazer de sua posi\u00e7\u00e3o de dejeto o princ\u00edpio de um novo discurso. De ter tido \u00eaxito em sublimar o suficiente sua degrada\u00e7\u00e3o para elev\u00e1-la \u00e0 dignidade de uma pr\u00e1tica, ou seja, de um objeto de troca.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar que, em seu caso, Alessandro adota um m\u00e9todo de provoca\u00e7\u00e3o visando suscitar as demandas, suprimindo os obst\u00e1culos que se poderia qualificar de imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Se o discurso do mestre procede exclusivamente pela identifica\u00e7\u00e3o significante e a identifica\u00e7\u00e3o reina sem divis\u00e3o, deparamos com o sujeito de imediato identificado com seu sintoma e tornando-se o exemplar de uma classe, de uma categoria. De sua parte, o analista, convidado a se identificar com a boa vontade do terapeuta, com a sua fun\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, introduz o sujeito \u00e0 experi\u00eancia psicanal\u00edtica, introduzindo o la\u00e7o social espec\u00edfico que se tece em torno do analista como dejeto, representante do que, do gozo, resta insocializ\u00e1vel.<\/p>\n<p>Cada um tem que inventar sua pr\u00f3pria solu\u00e7\u00e3o, seus regimes de experi\u00eancia. Neste sentido, fazer corte na equival\u00eancia estabelecida entre a condi\u00e7\u00e3o de rebotalho e a de dejeto torna-se a orienta\u00e7\u00e3o, sendo este \u00faltimo o lugar que porta a diferen\u00e7a e a singularidade, o que cada um pode dizer de seu.<\/p>\n<p>Segundo Lebovits-Quenehen (2020), a psican\u00e1lise deve recordar que cada fato \u00e9 acompanhado pelas puls\u00f5es de vida e de morte. A psican\u00e1lise trata de buscar solu\u00e7\u00f5es que apontam para a possibilidade de vida.<\/p>\n<p>Do lado do analista, \u00e9 preciso que este assuma, tamb\u00e9m em ato, a singularidade com que trata seus pacientes. H\u00e1 v\u00e1rias formas de ser racista quando se pretende fazer da fun\u00e7\u00e3o de analista formas de se defender da singularidade do analisante, como real: querendo seu bem, compreendendo-o, tamb\u00e9m crendo que sua normaliza\u00e7\u00e3o no curso da an\u00e1lise constituiria um progresso.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar que o racismo tende a reabsorver a tens\u00e3o entre o Um e o Outro, com desprezo pela diferen\u00e7a. Algo est\u00e1 em jogo em uma an\u00e1lise, de uma responsabilidade que a realidade imp\u00f5e ao sujeito quando \u00e9 praticante, de assumir o risco, sendo necess\u00e1rio orientar-se a partir da singularidade de seus analisantes e da sua pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>ANDRADE, O. <em>Telefonema<\/em>. S\u00e3o Paulo: Globo, 2009.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, M.-H. Uma dificuldade na an\u00e1lise das mulheres: a devasta\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e.\u00a0<em>Latusa \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP-Rio)<\/em>, n. 9, p. 203-218, 2004.<\/h6>\n<h6>CAROZ, G. Conhecer seu \u00f3dio. <em>Almanaque on-line<\/em>, n. 22,\u00a0 2019. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/conhecer-seu-odio\">http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/conhecer-seu-odio<\/a>. Acesso em: 14 dez. 2023.<\/h6>\n<h6>LEBOVITS-QUENEHEN, A. El racismo y el control. <em>Freudiana, garant\u00eda y control: cuestiones de escuela<\/em>, n. 89\/90, 2020.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Comment se revolter. <em>La Cause freudienne<\/em>, n. 75, 2010a.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. A Salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 69, 2010b.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. <em>O osso de uma an\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2015.<\/h6>\n<h6>NAVEAU, P. Fantasia, in: Scilicet. A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI: n\u00e3o \u00e9 mais o que era. Quais as consequ\u00eancias para o tratamento? Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Belo Horizonte: Scriptum, 2011, p.155-157.<\/h6>\n<h6>SOUZA, N. S. <em>Tornar-se negro<\/em>: Ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens\u00e3o social. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2021.<\/h6>\n<h6>VICENS, A. <em>Lacan y la dignidad humana<\/em>. Confer\u00eancia 03\/2009, Granada. 2009. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.icf-granada.net\/2012-04-04-08-33-03\/audios\/99-lacan-y-la-dignidad-humana\">http:\/\/www.icf-granada.net\/2012-04-04-08-33-03\/audios\/99-lacan-y-la-dignidad-humana<\/a>. Acesso em: 14 dez. 2023.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Texto apresentado no Ateli\u00ea de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o do IPSM-MG em 25\/10\/2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 que o racismo mata? Implica\u00e7\u00f5es de uma cl\u00ednica atravessada pelo racismo1 M\u00f4nica Campos Silva Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP monica.camposilva@gmail.com Resumo: Este texto \u00e9 um coment\u00e1rio do caso cl\u00ednico apresentado por Alessandro Pereira Santos no Ateli\u00ea de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o. 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