{"id":2147,"date":"2024-02-18T18:15:31","date_gmt":"2024-02-18T21:15:31","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2147"},"modified":"2025-12-01T11:44:01","modified_gmt":"2025-12-01T14:44:01","slug":"o-historiador-do-detalhe-articulacoes-entre-sonho-e-acontecimento-de-corpo1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/18\/o-historiador-do-detalhe-articulacoes-entre-sonho-e-acontecimento-de-corpo1\/","title":{"rendered":"O historiador do detalhe:  articula\u00e7\u00f5es entre sonho e acontecimento de corpo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\"><\/a><\/p>\n<h2><span style=\"color: #333399;\">O historiador do detalhe: articula\u00e7\u00f5es entre sonho e acontecimento de corpo<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><strong>Ana Sanders<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, mestranda em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG<br \/>\n<a style=\"color: #808080;\" href=\"mailto:anasandersb@gmail.com\">anasandersb@gmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo: <\/strong>A contribui\u00e7\u00e3o lacaniana sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o sonho, o trauma e o despertar, para al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o on\u00edrica que ele faz surgir, evidencia um importante paradoxo cl\u00ednico. A leitura de um sonho como acontecimento de corpo, a partir de um caso de uma crian\u00e7a de 8 anos, suscita quest\u00f5es paradigm\u00e1ticas no sentido de uma cl\u00ednica em dire\u00e7\u00e3o ao real.<strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Palavras-chave:<\/strong> sonho; trauma; acontecimento de corpo; despertar.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>THE DETAIL HISTORIAN: ARTICULATIONS BETWEEN DREAM AND BODY EVENT<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Abstract: <\/strong>The lacanian contribution to take the dimension between dream, trauma and awakening, beyond the dream representation that it arises, is necessary to highlight as an important clinical paradox. The reading of a dream as a bodily event, based on a case of an 8-year-old child, raises paradigmatic questions in the sense of a clinic towards the real, of speaking in the contemporary.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong> dream; trauma; bodily event; awakening.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ana-Sanders.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"664\" data-large_image_height=\"886\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2148 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ana-Sanders.png\" alt=\"\" width=\"406\" height=\"542\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sonho e trauma<\/em><\/p>\n<p>Em 1936, o fil\u00f3sofo judeu alem\u00e3o Walter Benjamin (1936\/1987), ao localizar o sil\u00eancio sintom\u00e1tico dos combatentes que retornaram do campo de batalha da Primeira Guerra Mundial, elabora sua c\u00e9lebre formula\u00e7\u00e3o, em seu ensaio \u201cExperi\u00eancia e Pobreza\u201d, afirmando que a arte de narrar hist\u00f3rias e de compartilhar experi\u00eancias estaria em decl\u00ednio. Diante do excesso vivenciado nas trincheiras, os combatentes voltavam mudos e empobrecidos na capacidade de transmitir, atrav\u00e9s da fala, algo dessa experi\u00eancia. Tal experi\u00eancia j\u00e1 havia sido apontada por Freud ao escrever sobre as neuroses de guerra, em 1918, as quais, diferentemente da l\u00f3gica da neurose de transfer\u00eancia, corresponderiam a uma neurose traum\u00e1tica. Assim, o excesso de uma viv\u00eancia pulsional n\u00e3o seria sem consequ\u00eancias para os processos ps\u00edquicos, apontando, dessa forma, o fundamento dessa neurose na fixa\u00e7\u00e3o no acontecimento traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>Em 1920, como efeito da cl\u00ednica com os sujeitos que voltavam da guerra, Freud (1920\/2020) retoma os sonhos traum\u00e1ticos em seu car\u00e1ter de exce\u00e7\u00e3o no que concerne ao pressuposto de que todo sonho seria uma realiza\u00e7\u00e3o de um desejo e estaria, portanto, ligado ao princ\u00edpio de prazer; o que ele descobre \u00e9 que existem sonhos que apontam para a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, ou seja, para a repeti\u00e7\u00e3o de um desprazer. Isso porque, neles, o trabalho on\u00edrico se apresenta sob a caracter\u00edstica de reconduzir repetidamente \u201co doente de volta \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de seu acidente, no qual ele desperta com um novo susto\u201d (Freud, 1920\/2020, p. 73). Sob consequ\u00eancia do excesso para o aparelho ps\u00edquico ocorrido na vida em vig\u00edlia, essa experi\u00eancia fornece aos sonhos uma marca da repeti\u00e7\u00e3o, ao impor a experi\u00eancia traum\u00e1tica sem cessar, inclusive durante o sono, como uma tentativa de uma elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Esse retorno, essa fixa\u00e7\u00e3o no trauma, aproxima os sonhos da neurose traum\u00e1tica \u00e0 dimens\u00e3o do real proposta por Lacan.<\/p>\n<p>Nesse sentido, h\u00e1 uma leitura decisiva feita por Lacan ao abordar a teoria dos sonhos em Freud que provocou uma reorienta\u00e7\u00e3o importante para a pr\u00e1tica cl\u00ednica. No Semin\u00e1rio 11, Lacan (1964\/1988) retoma o centro inc\u00f3gnito dos sonhos, o umbigo, para dizer de uma hi\u00e2ncia essencial em um registro de real no inconsciente, que permite que o sujeito possa emergir como efeito de surpresa. No seu \u00faltimo ensino, Lacan (1973-74) prop\u00f5e o neologismo \u201c<em>troumatisme<\/em>\u201d para assinalar que a irrup\u00e7\u00e3o do real produz, como efeito, o furo no simb\u00f3lico, que aponta para o aforismo da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o se escreve. Esse furo pode ser precipitado pelos momentos em que as viv\u00eancias se fragilizam tanto no tecido social, quanto no eixo simb\u00f3lico-imagin\u00e1rio (ou quando os semblantes que organizam a vida do sujeito se fragilizam diante de viv\u00eancias de horror). Essa viv\u00eancia traum\u00e1tica emerge nos sonhos como um a tentativa de dar conta desse real, como marca do imposs\u00edvel na pr\u00f3pria linguagem. Assim, o <em>falasser<\/em> se arranja como pode ao se defender desse furo, ou seja, do real.<\/p>\n<p>Assim, Lacan (1964\/1985) se concentra no instante de despertar de um sonho que ocorre a partir de batidas na porta, no momento que esse pequeno ru\u00eddo chega \u00e0 consci\u00eancia \u2013 n\u00e3o \u00e0 percep\u00e7\u00e3o \u2013, provocando um despertar. No sonho paradigm\u00e1tico de Freud, \u201cPai, n\u00e3o v\u00eas que estou queimando\u201d, a leitura lacaniana destaca que n\u00e3o \u00e9 a realidade que desperta, sendo que a prova disso \u00e9 que o pai continua seu sonho e integra a realidade em sua fic\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, Miller (1996, p. 105) enfatiza que \u201co despertar para a realidade \u00e9 apenas fuga ao encontro com o real, aquilo que se anuncia no sonho quando o sujeito se aproxima, como Freud mesmo o observa, do que ele nada quer saber\u201d. A formula\u00e7\u00e3o de Lacan \u00e9 a de que se desperta para continuar a sonhar quando o sujeito se defronta com um ponto de horror, para continuar a dormir nas pr\u00f3prias fantasias, nas representa\u00e7\u00f5es e nos discursos que tecem a trama da realidade, permitindo manter a continuidade de seu sonho (KORETZKY, 2023). Assim, na Confer\u00eancia \u201cA Terceira\u201d, Lacan (1974\/2011, p. 25) destaca sua leitura dos sonhos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u00c9 um dos sonhos que tenho; eu tenho o direito, assim como Freud, de dar not\u00edcia de meus sonhos a voc\u00eas; contrariamente aos de Freud, os meus n\u00e3o s\u00e3o inspirados pelo desejo de dormir; \u00e9 antes o desejo de despertar que me agita. Mas, enfim, isso \u00e9 particular.<\/p>\n<p><em>O historiador do detalhe<\/em><\/p>\n<p>Apresento aqui o caso de Mat\u00e9o, escrito por Carolina Koretsky (2020) e publicado no livro <em>La Conversaci\u00f3n Cl\u00ednica. <\/em>O acesso ao caso em sua constru\u00e7\u00e3o sob transfer\u00eancia e o estilo da analista nos permitem levantar quest\u00f5es importantes para a discuss\u00e3o que se segue. A autora se serve da leitura lacaniana para pensar o sonho pela via do despertar, para al\u00e9m da dimens\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o on\u00edrica, o que nos esclarece sobre o que seria uma orienta\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica pelo real.<\/p>\n<p>Mat\u00e9o, de 8 anos de idade, foi acompanhado pela psicanalista por tr\u00eas anos. Ele \u00e9 filho \u00fanico e vive a maior parte do tempo com a m\u00e3e, uma vez que seu pai havia se mudado por raz\u00f5es de trabalho, mantendo sua presen\u00e7a apenas aos finais de semana. Como demanda inicial, seus pais se queixavam do baixo investimento de Mat\u00e9o em rela\u00e7\u00e3o ao saber escolar.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um epis\u00f3dio importante, a m\u00e3e, atravessada por sua ang\u00fastia, procura an\u00e1lise para Mat\u00e9o. Nesse contexto da entrevista com a m\u00e3e, ficamos sabendo que esta interpela fortemente o filho acerca de seus esquecimentos com as atividades, fazendo-o copiar cinquenta vezes em seu caderno: \u201cn\u00e3o devo esquecer meu dever de casa\u201d. Diante dessa demanda, o menino corre em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 varanda da casa e fica bastante tempo do lado de fora. A m\u00e3e, perplexa, relatou \u00e0 analista seu medo de que Mat\u00e9o pulasse dali. Nessa entrevista, o relato dessa cena permite interrogar a m\u00e3e acerca de outras quest\u00f5es sobre o filho, inclusive sobre\u00a0 um tra\u00e7o persecut\u00f3rio de Mat\u00e9o ligado aos seus colegas de escola, ou sobre a percep\u00e7\u00e3o de um olhar \u201cmau\u201d ao dizer que se sentia seguido na rua.<\/p>\n<p>Em suas elabora\u00e7\u00f5es, a m\u00e3e de Mat\u00e9o recupera o acontecimento do nascimento do filho. Durante o parto, o beb\u00ea estava em risco e foi preciso fazer uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. Nesse ato, o m\u00e9dico fere o rosto de Mat\u00e9o com um bisturi. A m\u00e3e diz \u00e0 analista:\u00a0 \u201cEu dei a vida a uma crian\u00e7a perfeita e me devolvem uma crian\u00e7a ferida\u201d. Sobre as suas inquieta\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao choro incessante da crian\u00e7a, ela associa a dor pela ferida e, por fim, confessa: \u201cEu o teria jogado pela janela\u201d. Em outra cena, ele, aos 4 anos, olha para a m\u00e3e e confronta algo do seu gozo, confronta o desejo materno e o enigma de sua significa\u00e7\u00e3o: \u201cVoc\u00ea vai me matar?\u201d. A m\u00e3e, surpresa, n\u00e3o responde ao filho, deixando um sil\u00eancio. Mat\u00e9o, por sua vez, n\u00e3o encontra o recurso ao sintoma e \u00e0 fantasia como defesa a esse real. Diante disso, a an\u00e1lise de Mat\u00e9o se inicia. O primeiro tempo do trabalho de an\u00e1lise com a psicanalista foi escandido em tr\u00eas eixos sintom\u00e1ticos: a corrida, o \u201cproblema de hipersensibilidade\u201d e os \u201cru\u00eddos\u201d.<\/p>\n<p>1) Durante as primeiras entrevistas, Mat\u00e9o conta, entusiasmado,\u00a0 detalhes sobre as corridas de atletismo que fazia. No entanto, em seus relatos, denunciava um ponto de sua ang\u00fastia, j\u00e1 que, para ele, de nada adiantava ser bem colocado se n\u00e3o fosse o primeiro. Nesse sentido, a analista escuta nesses relatos at\u00e9 que ponto sua pr\u00f3pria exist\u00eancia era tamb\u00e9m uma corrida contra um desejo de morte que ele carregava, mas que mantinha afastado enquanto corria, em um circuito incessante, no qual a morte pairava sobre ele. Ent\u00e3o, como manejo da analista, a manobra poss\u00edvel se estreitou para afrouxar o v\u00ednculo com a exig\u00eancia mort\u00edfera, enquanto era preciso respeitar o valor de solu\u00e7\u00e3o desse sintoma.<\/p>\n<p>2) Mat\u00e9o apresentava sua rela\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com os outros no ambiente da escola. Em seus relatos, era tomado por um sentimento de injusti\u00e7a diante do que lhe pareciam ofensas e insultos vindos do outro. O nome encontrado pela crian\u00e7a para seu choro incontrol\u00e1vel e para a dor por estar com os outros foi: \u201cproblema de hipersensibilidade\u201d. Assim, a analista pode permitir vacilar o Outro, diluindo as significa\u00e7\u00f5es de suas m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>3) A psicanalista pontua os \u201cru\u00eddos\u201d que a crian\u00e7a localiza terem se iniciado aos 4 anos de idade e que se estruturavam como um fen\u00f4meno alucinat\u00f3rio restrito ao adormecer. Esses \u201cru\u00eddos\u201d ocorrem no per\u00edodo em que emerge o sil\u00eancio insuport\u00e1vel quanto ao enigma de significa\u00e7\u00e3o do discurso materno. Como uma solu\u00e7\u00e3o para apazigu\u00e1-lo, ele muda de quarto para um outro mais pr\u00f3ximo da rua e passa a dormir devido aos barulhos que abafam os seus \u201cru\u00eddos\u201d. Assim, Mat\u00e9o, sob transfer\u00eancia, p\u00f4de ir encontrando solu\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias para aquilo que o invadia.<\/p>\n<p>J\u00e1 em outro tempo de sua an\u00e1lise, Mat\u00e9o encontra uma solu\u00e7\u00e3o diferente da corrida infinita e essa outra solu\u00e7\u00e3o surge a partir da hist\u00f3ria das grandes guerras, uma das paix\u00f5es de seu pai. Mat\u00e9o passa a colecionar tanques e carros blindados e se interessa por conhecer minuciosamente os seus modelos e seus detalhes. Com interesse destacado pela hist\u00f3ria, a crian\u00e7a passa a ter uma liga\u00e7\u00e3o mais viva com o saber. Em uma sess\u00e3o, Mat\u00e9o relata um sonho: \u201cEra um campo de batalha. Eu estava com outros soldados e dei ordem para me executar! Foi estranho! Eu mesmo ordenei minha pr\u00f3pria morte. Eu mandei executar minha morte. E ent\u00e3o eu morria\u201d.<\/p>\n<p>Seu relato de sonho n\u00e3o produziu uma ang\u00fastia pavorosa, nem o sono interrompido, mas ele diz que teria mudado a sua vida. Mat\u00e9o conta que seu sonho lhe serve muito, j\u00e1 que o sentiu no seu pr\u00f3prio corpo. Para a analista, ele diz: \u201cEu sei o efeito de receber uma bala no corpo. Senti verdadeiramente no meu pr\u00f3prio corpo o que \u00e9 morrer\u201d. A analista nomeia esse saber como um saber imposs\u00edvel, mas acrescenta que esse sonho o permitiu falar em an\u00e1lise algo sobre esse corpo ferido (como significante da m\u00e3e com a ferida no parto e suas consequ\u00eancias para ela). N\u00e3o se trata, nesse caso, de um saber enciclop\u00e9dico, como o saber que constr\u00f3i sobre as guerras, mas um saber que se apoia em um acontecimento de corpo, algo que \u00e9 experimentado no corpo durante o sonho, do qual ele extrai, de forma discreta, um lugar de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Sonho como acontecimento de corpo<\/em><\/p>\n<p>No caso de Mat\u00e9o, \u00e9 poss\u00edvel localizar no sonho os significantes traum\u00e1ticos de seu nascimento, como as primeiras marcas vivenciadas diretamente no corpo, colocando em quest\u00e3o: o sonho serve para qu\u00ea? O estatuto do sonho se constitui como uma forma\u00e7\u00e3o inconsciente, ainda que n\u00e3o lhe seja atribu\u00eddo um saber enigm\u00e1tico para se decifrar. Mat\u00e9o faz do sonho uma produ\u00e7\u00e3o de sua an\u00e1lise e pode se servir de sua fun\u00e7\u00e3o para deslocar o desejo de morte materno em sua elucubra\u00e7\u00e3o. O sonho d\u00e1 ao sujeito uma posi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o, uma poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o para a cess\u00e3o do gozo mort\u00edfero. Da pergunta sem resposta \u2013 \u201cVoc\u00ea vai me matar?\u201d \u2013, que o suspende em uma posi\u00e7\u00e3o de assujeitamento, foi poss\u00edvel deslocar para o que surge no sonho. Mat\u00e9o pode responder \u00e0 pergunta com um \u201cmate-me\u201d, e, assim, tenta se encarregar disso que chega pelo Outro, tomando um horizonte duplo de morte e renascimento do sujeito.<\/p>\n<p>Koretzky (2020, p. 133) relata que \u201ca crian\u00e7a, objeto meton\u00edmico do corpo da m\u00e3e, \u00e9 o \u00fatero ferido da m\u00e3e, a testa ferida pelo bisturi. Mas no sonho, a bala que ele mesmo encomenda e que o atravessa, o torna mais vivo\u201d. Assim, ao experimentar a morte em seu corpo, o sujeito se posiciona de modo menos mort\u00edfero para diz\u00ea-lo. As marcas deixadas por <em>lal\u00edngua<\/em> no corpo aparecem nos sonhos, em todo tipo de trope\u00e7o e em diversas formas de dizer, como anuncia Lacan para tomar a dimens\u00e3o do inconsciente pelo equ\u00edvoco. Desse modo, o sonho no caso em tela pode se colocar de modo emblem\u00e1tico como um acontecimento de corpo.<\/p>\n<p>O despertar funcionaria como uma borda t\u00f3pica e temporal entre a cena do sonho e da realidade, operando como um limiar que marca um antes e um depois, para que possa anunciar: \u201cisso aconteceu\u201d (KORETZKY, 2023, p. 56). A formula\u00e7\u00e3o de que se desperta para continuar sonhando possibilita tomar o sonho pela fantasia e pela representa\u00e7\u00e3o, no pr\u00f3prio tecido da realidade. Na psicose, se constata que os limites entre o sonho e a vig\u00edlia parecem incertos, assim, o despertar n\u00e3o opera separando as cenas do sonho e da realidade, como fuga do despertar para o horror do real. Dessa forma, o sonho se coloca como \u201cisso \u00e9 tudo\u201d, e n\u00e3o como se tivesse uma outra cena. Na aus\u00eancia de fantasia, \u00e9 o del\u00edrio que se apresenta, por isso a interpreta\u00e7\u00e3o delirante que surge pode vir justificar o real encontrado. Como no caso apresentado, o sonho j\u00e1 parece fazer a interpreta\u00e7\u00e3o em si. Percebe-se, assim, o sonho menos endere\u00e7ado ao analista, em busca de sentido na interpreta\u00e7\u00e3o sob transfer\u00eancia, mas sim, ao analista como testemunha.<\/p>\n<p>Ao fazer um uso pr\u00f3prio do interesse do pai pelas grandes guerras, a elabora\u00e7\u00e3o de Mat\u00e9o tem uma fun\u00e7\u00e3o importante que surge no sonho. Desse modo, ele pode dar lugar \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de sua paix\u00e3o pela hist\u00f3ria e por um saber que pode ser singular para ele, que ele nomeia \u201cgosto pelo detalhe\u201d. O sonho pode emergir como acontecimento, algo da ordem de uma <em>tiqu\u00ea<\/em>, de uma conting\u00eancia, e n\u00e3o de um <em>automaton<\/em>, pela repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como trazido anteriormente, se o sonho corresponde ao desejo de dormir, o caso cl\u00ednico de Mat\u00e9o, em cujo sonho os significantes traum\u00e1ticos s\u00e3o deslocados, tamb\u00e9m permite que o sujeito possa continuar a \u201cdormir\u201d melhor. Para Mat\u00e9o, o corpo afetado pelo trauma n\u00e3o \u00e9 aquele atingido pelo bisturi, mas pela incid\u00eancia da l\u00edngua. Se o verdadeiro n\u00facleo traum\u00e1tico \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua, o trauma n\u00e3o deve ser apreendido aqui a partir do vivido, nem mesmo do sentido e da hist\u00f3ria. O significante n\u00e3o se introduz aqui como um elemento simb\u00f3lico que ordena e negativiza o gozo, mas como uma \u201cpot\u00eancia de desordem\u201d num registro do real.<\/p>\n<p>Desse modo, o caso foi trazido na elabora\u00e7\u00e3o deste trabalho para levantar a quest\u00e3o do despertar, proposto no \u00faltimo ensino de Lacan, como um paradoxo para uma orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica em sua dimens\u00e3o do real e que tamb\u00e9m permita apontar efeitos importantes para a cl\u00ednica com crian\u00e7as.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>BENJAMIN, W. O narrador. In: <em>Obras escolhidas<\/em>: Magia e T\u00e9cnica, Arte e Pol\u00edtica. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1987. (Trabalho original publicado em 1936).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020. (Trabalho original publicado em 1920).<\/h6>\n<h6>KORETZKY, C. <em>O despertar<\/em>. Belo Horizonte: Ed. Aut\u00eantica. 2023.<\/h6>\n<h6>KORETZKY, C. El historiador del detalle. In.: MILLER, J.-A. <em>La conversaci\u00f3n cl\u00ednica<\/em>. Olivos: Grama Edciones, 2020.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>Le S\u00e9minaire, livre 21<\/em>: Les non-dupes errent. 1973-1974. (Trabalho in\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Trabalho estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1964).<\/h6>\n<h6>LACAN. J.\u00a0 A terceira. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 62, dez. 2011. (Trabalho original publicado em 1974).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Despertar. In: <em>Matemas I<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Texto apresentado no N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as do IPSM-MG, em 04\/10\/2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O historiador do detalhe: articula\u00e7\u00f5es entre sonho e acontecimento de corpo1 Ana Sanders Psicanalista, mestranda em Estudos Psicanal\u00edticos pela UFMG anasandersb@gmail.com Resumo: A contribui\u00e7\u00e3o lacaniana sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o sonho, o trauma e o despertar, para al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o on\u00edrica que ele faz surgir, evidencia um importante paradoxo cl\u00ednico. A leitura de um sonho&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57692,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2147","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-32","category-34","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2147"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2147\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57693,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2147\/revisions\/57693"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57692"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}