{"id":2153,"date":"2024-02-18T18:21:08","date_gmt":"2024-02-18T21:21:08","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2153"},"modified":"2025-12-01T11:43:05","modified_gmt":"2025-12-01T14:43:05","slug":"2153-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/18\/2153-2\/","title":{"rendered":"Adeline, uma garotinha reservada[1]"},"content":{"rendered":"<h2><span style=\"color: #333399;\">Adeline, uma garotinha reservada<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><strong>Jacqueline Dh\u00e9ret<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, AME da \u00c9cole de la Cause freudienne\/AMP<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">E-mail: <a style=\"color: #808080;\" href=\"mailto:jacqueline.DHERET@wanadoo.fr\">jacqueline.dheret@wanadoo.fr<\/a><\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong> Este texto discorre sobre a an\u00e1lise de uma menina de sete anos, cujo pai \u00e9 transexual, coloca em cena quest\u00f5es que atravessam a nossa \u00e9poca, ligadas ao que se designou como parentalidade. A crian\u00e7a\u00a0 em seu sil\u00eancio \u00a0\u201cn\u00e3o sabe como fazer com seu pai\u201d. Ao longo das sess\u00f5es, junto \u00e0 analista, ela constr\u00f3i solu\u00e7\u00f5es que a ajudam a suportar seu mal-estar.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Palavras-chave: <\/strong>crian\u00e7a; pai transexual; parentalidade, sil\u00eancio, mal-estar.<\/p>\n<p><strong>ADELINE, A RESERVED LITTLE GIRL<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract: <\/strong>This text discusses the analysis of a seven-year-old girl, whose father is transsexual, and raises issues that permeate our time, linked to what is known as parenthood. The child in his silence \u201cdoes not know what to do with his father\u201d. Throughout the sessions, together with the analyst, she builds solutions that help her cope with her malaise.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Keywords<\/strong>: child; transsexual father; parenthood; silence; malaise.<\/p><\/blockquote>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Jacqueline-Dheret-.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"886\" data-large_image_height=\"1082\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2156 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Jacqueline-Dheret--839x1024.png\" alt=\"\" width=\"383\" height=\"467\" \/><\/a><\/p>\n<p>A garotinha de sete anos e meio, que recebi durante dois anos e revi novamente quando esteve em Lyon, me contou suas preocupa\u00e7\u00f5es. Ela \u201cn\u00e3o sabe como fazer\u201d com seu pai.<\/p>\n<p>Ela veio acompanhada pela m\u00e3e, que explica a situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel que vem enfrentando<\/p>\n<p>h\u00e1 v\u00e1rios anos. O juiz de fam\u00edlia encarregado do div\u00f3rcio dos pais planeja encaminhar o caso ao juiz da inf\u00e2ncia, porque o pai de Adeline, que se afirma transexual,vive um relacionamento com um companheiro. O juiz esteve com os pais e est\u00e1 reticente em permitir que a crian\u00e7a\u00a0 frequente a casa do pai, que est\u00e1 disposto a continuar a ver sua filha. A crian\u00e7a circula entre pai e m\u00e3e e permanece calada.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Adeline deseja, inquestionavelmente, que o pai da crian\u00e7a, seu ex-marido, exer\u00e7a seus direitos de visita, e manifesta a sua desaprova\u00e7\u00e3o com o fato de que \u00e9 o companheiro que fica, na maioria das vezes, respons\u00e1vel pelo que chamamos de parentalidade.<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> \u00c9 principalmente ele que cuida da crian\u00e7a a cada dois finais de semana. A m\u00e3e espera que a analista possa lhe dizer o que deve ser feito por sua filha.<\/p>\n<p>Rapidamente eu compreendi que n\u00e3o estamos num impasse de g\u00eanero:<\/p>\n<p>o discurso da m\u00e3e confirma que o ex-marido, ao se dizer mulher, encontrou uma solu\u00e7\u00e3o para antigos tormentos.\u00a0Ele n\u00e3o lida bem com a ambiguidade dos semblantes, n\u00e3o se d\u00e1 ao trabalho de brincar com as apar\u00eancias: ele se sabe mulher. Se ele aceitava seu g\u00eanero biol\u00f3gico, se ele se acreditou homossexual, agora ele n\u00e3o duvida mais de sua identidade. Depois do nascimento da filha, ele p\u00f4de confiar a sua perplexidade e a sua desola\u00e7\u00e3o \u00e0quela a quem conhecia desde o final da adolesc\u00eancia e com quem se casou. A m\u00e3e confirma que eram pr\u00f3ximos, \u201cfaziam tudo juntos\u201d, at\u00e9 o nascimento de Adeline.<\/p>\n<p>Para a justi\u00e7a, \u00e9 um brutal encontro com a dissocia\u00e7\u00e3o aqui realizada entre diferen\u00e7a sexual e fun\u00e7\u00e3o parental. Um pai legal que subverte as leis da natureza e uma m\u00e3e que afirma que um pai, mesmo que tenha se tornado mulher, continua sendo um pai. Lembramos que n\u00e3o ocorreu a ningu\u00e9m dizer que essa crian\u00e7a teria agora duas m\u00e3es. O pai de Adeline, que deixou o lar conjugal h\u00e1 v\u00e1rios anos, forma um casal heterossexual est\u00e1vel com seu companheiro, de acordo com o que ele experimenta em seu corpo, a partir de sua imagem.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o fora da norma n\u00e3o \u00e9 um efeito da hegemonia da ci\u00eancia no mundo moderno. O recurso \u00e0 cirurgia de redesigna\u00e7\u00e3o sexual, j\u00e1 praticada por volta dos anos 2000, encontrou na \u00e9poca grande relut\u00e2ncia. Para o pai de Adeline, os tratamentos hormonais e cir\u00fargicos, encontrados no exterior, permitiu-lhe combinar a imagem do seu corpo com o que se apresentava para ele, como uma evid\u00eancia. Supomos que a constru\u00e7\u00e3o dessa certeza, que n\u00e3o corresponde exatamente \u00e0 defini\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica,<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> foi a resposta desse sujeito \u00e0 impossibilidade de integrar o p\u00eanis real, devido \u00e0 <em>Verwerfung<\/em>, quando ela fez irrup\u00e7\u00e3o na crian\u00e7a (LACAN, 1956-57\/1995, p. 429).<\/p>\n<p><em>Construir um vazio<\/em><\/p>\n<p>Adeline est\u00e1 claramente t\u00e3o feliz quanto preocupada com nossos encontros. A partir de um comum acordo, deixamos de lado o burburinho que agita a justi\u00e7a e os agentes sociais. Eu tamb\u00e9m interrompo o gozo voyeurista dos entes pr\u00f3ximos que se manifestam pelo telefone: apenas Adeline e sua m\u00e3e, que a acompanha, ir\u00e3o atravessar a porta do meu consult\u00f3rio. Suas idas e vindas, a espera da m\u00e3e enquanto a filha fala comigo, se encarregam do real insuport\u00e1vel que faz com que os semblantes vacilem: eu respeito Sua m\u00e3e convoca as responsabilidades que um pai deve assumir, mas Adeline, na sua forma de aceitar a minha presen\u00e7a e permanecer em sil\u00eancio, me indica que ela percebe o quanto o significante \u201cpai\u201d \u00e9 apenas uma hip\u00f3tese ligada a um passado. Se ele teve valor de verdade, esse significante n\u00e3o pertence \u00e0 sua l\u00edngua \u00edntima. O que resta \u00e9 que \u201cela se preocupa com seu pai\u201d.<\/p>\n<p>Essa formula\u00e7\u00e3o, complementada por outra, sussurrada \u2013 \u201cN\u00e3o sei como fazer\u2026\u201d \u2013, silenciar\u00e1 o territ\u00f3rio sonoro dos saberes do Outro (MILLER, 2012). Uma vez aberto no espa\u00e7o do tratamento o <em>direito \u00e0 sombra,<\/em> de que nos fala G. Wajcman (2004) em seu <em>Chroniques du regard et de l\u2019intime<\/em>, Adeline tomar\u00e1 o gosto pela palavra.<\/p>\n<p>Que reconstru\u00e7\u00e3o na lingua ela vai operar?<\/p>\n<p>Estamos al\u00e9m do \u00c9dipo, mas a crian\u00e7a n\u00e3o abandona, durante a sess\u00e3o, a nomea\u00e7\u00e3o \u201cmeu papai\u201d; um \u201cpapai\u201d que ela n\u00e3o pode nomear assim na frente de terceiros, quando eles est\u00e3o juntos.<\/p>\n<p>\u00c9 essa vigil\u00e2ncia obrigat\u00f3ria que a menina colocar\u00e1 no centro dos nossos encontros e que ela questionar\u00e1, com um embara\u00e7o subjetivo, se esfor\u00e7ando ao longo das sess\u00f5es em construir pequenas solu\u00e7\u00f5es suport\u00e1veis.<\/p>\n<p>Tomemos um exemplo: na \u00e9poca do Natal, ela cria uma hist\u00f3ria em quadrinhos na qual encena a festa, seus preparativos e o ambiente familiar; a refei\u00e7\u00e3o acontece na casa dos av\u00f3s maternos, onde est\u00e3o seu tio, sua tia e seu primo. Um lugar, ao lado do lugar da m\u00e3e, est\u00e1 vazio: \u201cO do papai\u201d. Mas ela o desenha, de p\u00e9, perto da poltrona. Ela o contorna com um c\u00edrculo de onde sai uma flecha que aterrisa no quadrinho seguinte, ao lado de um outro personagem, o de seu companheiro: \u201c\u00c9 para mostrar que papai n\u00e3o est\u00e1 conosco, que ele passa o Natal com Paul\u201d. Ele est\u00e1, contudo, presente para sua filha, na reconstru\u00e7\u00e3o familiar que ela est\u00e1 realizando e ele \u00e9 um homem. A flecha o desloca, no quadrinho seguinte, ao lado de Paul. O imposs\u00edvel de representar diz respeito ao ponto em que o pai se v\u00ea como uma mulher. A astuciosa constru\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de Adeline usa a t\u00e9cnica espec\u00edfica dos quadrinhos para indicar que o ponto de apoio aqui \u00e9 Paul, com quem \u00e9 normal que o pai passe o Natal, j\u00e1 que vivem juntos. Uma narrativa se organiza a partir do significante \u201ccompanheiro\u201d, ao qual a crian\u00e7a soube se ater e\u00a0 se apropriar e que n\u00e3o \u00e9, para ela, sem valor.<\/p>\n<p><em>Endere\u00e7ar-se a Paul para se fazer ouvir pelo pai e encontrar a sua voz <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Paul tem menos m\u00e9rito em cuidar de Adeline nos fins de semana do que em cuidar do \u201cpapai\u201d. Nas sess\u00f5es, a crian\u00e7a vai formulando gradativamente seus medos de ir \u00e0 casa de seu pai quando Paul n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1. Estar cara a cara com o pai \u00e9 dif\u00edcil, n\u00e3o tanto por causa da apar\u00eancia f\u00edsica dele, muito pr\u00f3xima a de uma mulher, mas por sua forma de falar, muito loquaz, sobre sua rela\u00e7\u00e3o com o \u00e1lcool e sobre suas ins\u00f4nias, que a impedem de dormir. \u201cDe manh\u00e3, tenho medo de encontr\u00e1-lo no sof\u00e1 diante da televis\u00e3o\u201d, disse Adeline.<\/p>\n<p>Quando Paul est\u00e1 presente, seu pai se comporta melhor e ela fica mais tranquila porque h\u00e1 \u201cmenos de tudo isso\u201d. Ele se dedica a uma comunica\u00e7\u00e3o a tr\u00eas que evita o preocupante cara a cara. Por exemplo, ele pode dizer, quando Adeline apresenta um resultado escolar: \u201cMuito bom!\u201d; e, em seguida, dirigindo-se ao pai da crian\u00e7a: \u201cVeja, a pequena se vira muito bem em matem\u00e1tica\u201d. Ele \u00e9 o conciliador que se encarrega da vida cotidiana. Adeline pode se endere\u00e7ar a Paul, que transmite suas falas, e essa montagem evita os excessos. Com ele \u00e9 poss\u00edvel bater papo \u201ccom delicadeza\u201d e gentileza. Acima de tudo, ele parece <em>saber fazer<\/em> com o \u201cpapai\u201d<\/p>\n<p>Com o tempo e sem que a analista tenha algo a dizer sobre isso, Adeline dir\u00e1 \u00e0 m\u00e3e que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que ela v\u00e1 com tanta frequ\u00eancia \u00e0 casa do pai. A an\u00e1lise afrouxou o controle de um significante mestre e a voz de Adeline tornou-se mais firme. Ela conseguir\u00e1 dizer o que \u00e9 poss\u00edvel, o que ela n\u00e3o quer por ser muito dif\u00edcil e o que ela demanda. Por exemplo, ela quer ir \u00e0 casa do pai se Paul estiver l\u00e1, n\u00e3o quer mais ir ao restaurante porque \u00e9 obrigada a tomar cuidado para n\u00e3o dizer \u201cpapai\u201d a seu pai, ela quer fazer outras coisas que tornem complicado o exerc\u00edcio do direito de visita do qual sua m\u00e3e n\u00e3o abre m\u00e3o. A maneira como ela formular\u00e1 essas coisas junto \u00e0 m\u00e3e ir\u00e1 esvaziar qualquer \u00edmpeto de envolver servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o infantil e judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Aos poucos, ela limitar\u00e1 a perman\u00eancia na casa do pai e n\u00e3o dormir\u00e1 mais l\u00e1 de forma sistem\u00e1tica. Quando sua m\u00e3e se muda para outra cidade, e antes que o pai e Paul fizessem o mesmo, ela se convida para ir para a casa de uma tia-av\u00f3 paterna, uma figura civilizada desse ramo da fam\u00edlia. \u201cN\u00e3o muito, mas um pouco com papai\u201d, o que a m\u00e3e, o pai e seu companheiro admitir\u00e3o sem muitos problemas.<\/p>\n<p><em>O imposs\u00edvel de nomear<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>O ponto explosivo diz respeito ao pedido do pai para que a filha o chame pelo seu nome de mulher quando estiverem fora do \u00e2mbito familiar, sendo seu desejo impl\u00edcito de ser chamado de \u201cpapai\u201d apenas em determinadas circunst\u00e2ncias.<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Adeline se op\u00f5e a esse pedido com uma recusa obstinada, mas informul\u00e1vel. Fora de casa, durante as chamadas telef\u00f4nicas na semana, ela ignora o pai quando est\u00e3o em p\u00fablico. Nem um olhar, nem uma palavra! A tal ponto que esse nome feminino, que indica o sexo do qual o pai assumiu a apar\u00eancia, imp\u00f5e sua presen\u00e7a nas sess\u00f5es por n\u00e3o ser jamais pronunciado. Carregado de um excesso de sentido, ele mobiliza a vergonha, tal como um grande segredo. Faz calar e reproduz o Outro ali onde a certeza paterna faz existir A mulher. Est\u00e1 para al\u00e9m das palavras; o risco \u00e9 de que alguma coisa se feche sobre esse Outro absoluto.<\/p>\n<p>Como alojar este nome na l\u00edngua, sem abandonar o significante &#8220;papai&#8221;?<\/p>\n<p>A analista, sens\u00edvel ao estilo da menina, respeita o sil\u00eancio cauteloso com o qual ela envolve as suas afirma\u00e7\u00f5es. Adeline tem uma maneira muito \u00edntima de se endere\u00e7ar a ela, cuidadosa, concentrada e \u00e0s vezes sussurrando; uma forma de guardar as palavras, de cobri-las de sil\u00eancio, at\u00e9 o momento em que ela decide diz\u00ea-las, em sua fragilidade. Ent\u00e3o, ela pode se apoiar nelas, a voz fica mais firme e a analista diz: \u201cSim!\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFalar aqui me ajuda a refletir\u201d, disse a jovem analisante, ansiosa por inventar sua resposta para a certeza paterna.<\/p>\n<p>A analista optar\u00e1 por intervir o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da l\u00edngua do sujeito, do seu estilo, a ponto de dizer baixinho: \u201cE Paul ent\u00e3o, como ele chama o seu pai?\u201d. Ela responde com confian\u00e7a, sem qualquer constrangimento.<\/p>\n<p>Colocar Betty e Paul como um casal n\u00e3o \u00e9 do mesmo registro que colocar o pai sob a vigil\u00e2ncia cuidadosa de Paul.<\/p>\n<p>No espa\u00e7o p\u00fablico, Betty presentifica o horror do corpo materno que Freud (1940[1922]\/1996) disse que se manifesta, para al\u00e9m da priva\u00e7\u00e3o, no ac\u00famulo, na efervesc\u00eancia. Adeline, que est\u00e1 de olho no pai, diz \u201cn\u00e3o\u201d a ele, mas a presen\u00e7a da Coisa provoca uma aniquila\u00e7\u00e3o do ser vivo. A montagem que ela encontrou n\u00e3o se sustenta mais: em p\u00fablico, o significante \u201cpai\u201d torna-se impronunci\u00e1vel, e Betty aparece, em sua inquietante estranheza, como a Medusa.<\/p>\n<p>Alojar Betty na l\u00edngua passa por Paul e essa opera\u00e7\u00e3o reconstr\u00f3i um ponto de opacidade sobre o que \u00e9 ser mulher.<\/p>\n<p><em>Por que minha m\u00e3e me deu um pai como este?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>O desejo, como nos indica J. Lacan, parte do Outro, e essa interrroga\u00e7\u00e3o, que sup\u00f5e para a crian\u00e7a um valor f\u00e1lico, a faz faltante. Em decorr\u00eancia da banaliza\u00e7\u00e3o do nome de Betty, Adeline apresentar\u00e1 uma nova quest\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o estamos mais no <em>tacere<\/em><a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn5\" name=\"_ednref5\"><em><strong>[5]<\/strong><\/em><\/a> do in\u00edcio; no Outro, algo n\u00e3o pode ser dito, e podemos querer saber.<\/p>\n<p>\u201cPor que minha m\u00e3e me deu um pai assim?\u201d<br \/>\n\u201cUm pai assim, como?\u201d, pergunta a analista.<br \/>\n\u201cSim. Um pai que pensa que \u00e9 uma dama.\u201d<\/p>\n<p>Observamos o uso de uma linguagem refinada, do significante que coloca um v\u00e9u sobre A mulher, aquela que, se existisse, permitiria que a rela\u00e7\u00e3o se inscrevesse. \u201cPapai acredita nisso\u201d, essa \u00e9 a loucura dele.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o desta vez diz respeito ao enigm\u00e1tico desejo da mulher na m\u00e3e. N\u00e3o se trata mais aqui da palavra de amor, nem da esmagadora igualdade da regra, de quem se espera que regule o enigma atrav\u00e9s do exerc\u00edcio dos direitos parentais. Uma lacuna foi cavada, um vazio, que instalou uma respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Adeline precisou de um tempo para resolver o que era insuport\u00e1vel para ela; ela se afastou um pouco do gozo mortificante, construiu um julgamento em sua l\u00edngua. Uma l\u00edngua feita de um prudente respeito pelo del\u00edrio do pai e uma pergunta \u00e0 qual ela responder\u00e1 com outra avalia\u00e7\u00e3o igualmente calculada: \u201cSer\u00e1 que ela se enganou&#8230; quando ela se casou com meu pai?\u201d.<\/p>\n<p>Consideremos essa alega\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria como uma forma de se afastar do significante espl\u00eandido, aquele que diria tudo, para manter aberto o campo do desejo, gra\u00e7as ao apoio dado pela transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma mulher pode se enganar. Sim, na an\u00e1lise podemos descobrir que o \u201ceu n\u00e3o quero saber de nada\u201d do gozo do sintoma passa pelos enganos significantes.<\/p>\n<p>O personagem excepcional na fam\u00edlia materna \u00e9 o av\u00f4. Um intelectual respeitado e admirado pela filha, a qual, desde a adolesc\u00eancia, formava um casal com o pai de Adeline.<\/p>\n<p>Os semblantes que haviam organizado o casamento os colocavam, ela e ele, protegidos da quest\u00e3o sexual. Estamos, sobretudo, no registro da satisfa\u00e7ao dessa mulher em ser o ponto de apoio para o outro e com a aceita\u00e7\u00e3o de uma quase assexualidade que tinha, no entanto, permitido a chegada da crian\u00e7a.<\/p>\n<p><em>E, ent\u00e3o, um dia, eu amarei algu\u00e9m&#8230; <\/em><\/p>\n<p>Na aurora da adolesc\u00eancia, Adeline compartilhou comigo um ponto de sofrimento: quando se \u00e9 uma jovem, gostamos de contar tudo para as melhores amigas. Ela n\u00e3o pode fazer isso.<\/p>\n<p>\u201cNem tudo pode ser dito\u201d, pontua a analista, \u201ce \u00e9 isso que nos permite falar\u2026\u201d. (sil\u00eancio)<\/p>\n<p>\u201cUm dia amarei algu\u00e9m e ent\u00e3o terei que descobrir como falar sobre isso.\u201d (sil\u00eancio)<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 crian\u00e7as que n\u00e3o veem o pai com frequ\u00eancia porque ele est\u00e1 longe. H\u00e1 tamb\u00e9m crian\u00e7as cujo pai est\u00e1 morto e talvez seja dif\u00edcil falar disso. Eu posso falar um pouco sobre meu papai. Em todas as fam\u00edlias tamb\u00e9m se pode ter amigos. Paul e Betty, eles tamb\u00e9m podem ser amigos da fam\u00edlia: escrevemos para eles, convidamos para as grandes ocasi\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o desvela o artif\u00edcio sobre o qual se funda o casamento: o princ\u00edpio da imutabilidade, t\u00e3o caro \u00e0 justi\u00e7a, que nos libertava dos dados naturais, repousa sobre um ponto de eternidade. Constru\u00eddo por fic\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, esse postulado n\u00e3o diz nada sobre os corpos. Na \u00e9poca freudiana, tratava-se de amarrar a quest\u00e3o do nome, da exce\u00e7\u00e3o, \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o do incesto. Hoje percebemos melhor que as leis que pareciam, por um tempo, imut\u00e1veis, baseiam-se, de fato,\u00a0 sobre uma perman\u00eancia que \u00e9 construida simbolicamente.<\/p>\n<p>Hoje, trata-se de assegurar a continuidade de outra forma, o que pode ser respondido pelo discurso anal\u00edtico ao dar cr\u00e9dito \u00e0 linguagem do sujeito, aos fundamentos ainda que incertos que lhe d\u00e3o abrigo, na l\u00edngua comum.<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: <\/strong>Let\u00edcia Mello<\/h6>\n<h6><strong>Revis\u00e3o:<\/strong> Tereza Facury<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CHAUMONT, O. <em>D\u2019un corps \u00e0 l\u2019autre<\/em>. Paris: Robert Laffont, 2013.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. A cabe\u00e7a de Medusa. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVII, 1996, p. 289-290. (Trabalho original publicado em 1940[1922]).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 4<\/em>: A rela\u00e7\u00e3o de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. (Trabalho original proferido em 1956-57).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. A crian\u00e7a e o saber. <em>CIEN-Digital<\/em>, n. 11, jan. 2012.<\/h6>\n<h6>WAJCMAN. G. <em>Fen\u00eatre<\/em>: Chroniques du regard et de l\u00b4intime. Paris: Verdier, 2004.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Publicado originalmente em: <em>Brochure des textes du colloque de mai<\/em>: Le d\u00e9sir e la loi. 2013. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/ccbcn.info\/xv-conversacion\/docs\/biblio\/BrochureColloqueMai.pdf\">http:\/\/ccbcn.info\/xv-conversacion\/docs\/biblio\/BrochureColloqueMai.pdf<\/a>. Acesso em: 01 jan. 2023.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Em 1990, o termo \u201cparentalidade\u201d foi introduzido no vocabul\u00e1rio comum e tornou-se um termo referencial de a\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Permite \u201crepensar\u201d a perturba\u00e7\u00e3o das formas de fam\u00edlia, mas abre tamb\u00e9m esse campo aos cognitivos-comportamentais, que agora querem acompanhar nossas vidas. Atualmente, multiplicam-se os ateli\u00eas de parentalidade que visam capacitar os pais em dificuldades, o desenvolvimento de compet\u00eancias parentais, etc.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> \u201cTranstornos precoces de identidade de g\u00eanero\u201d. Outros exemplos cl\u00ednicos mostram que essa\u00a0 certeza, assim que toma forma, \u00e9 interpretada como arcaica, j\u00e1 presente na inf\u00e2ncia.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Olivia Chaumont (2013, tradu\u00e7\u00e3o nossa), em seu livro\u00a0 <em>D\u2019un corps \u00e0 l\u2019autre<\/em>, diz, sobre sua filha, que esta, hoje em dia uma adulta, ainda a chama de \u201cpai\u201d. \u201cPara que ela se sinta confort\u00e1vel em p\u00fablico\u201d, acrescenta Olivia, \u201ceu fico em segundo plano\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> <em>Tacere<\/em>: termo em latim que significa \u201cficar em sil\u00eancio\u201d.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adeline, uma garotinha reservada1 Jacqueline Dh\u00e9ret Psicanalista, AME da \u00c9cole de la Cause freudienne\/AMP E-mail: jacqueline.dheret@wanadoo.fr Resumo: Este texto discorre sobre a an\u00e1lise de uma menina de sete anos, cujo pai \u00e9 transexual, coloca em cena quest\u00f5es que atravessam a nossa \u00e9poca, ligadas ao que se designou como parentalidade. A crian\u00e7a\u00a0 em seu sil\u00eancio \u00a0\u201cn\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57690,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2153","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-32","category-34","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2153","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2153"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2153\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57691,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2153\/revisions\/57691"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2153"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2153"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2153"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}