{"id":2165,"date":"2024-02-18T18:39:46","date_gmt":"2024-02-18T21:39:46","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2165"},"modified":"2025-12-01T11:41:48","modified_gmt":"2025-12-01T14:41:48","slug":"corpos-des-amarrados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/18\/corpos-des-amarrados\/","title":{"rendered":"Corpos (des) amarrados"},"content":{"rendered":"<h2><span style=\"color: #333399;\">Corpos (des) amarrados<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><strong>Silvia Coutinho Souza Lima<br \/>\n<\/strong>Psicanalista<br \/>\nEx-aluna do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM\/MG<br \/>\n<a style=\"color: #808080;\" href=\"mailto:silviacslpsi@gmail.com\">silviacslpsi@gmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong> Interroga-se, neste artigo, o que faz o sujeito eleger a via das interven\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas no corpo de maneira radical e ininterrupta. A autora traz poss\u00edveis elementos que podem contribuir para esse modo de vida e cita a hist\u00f3ria de uma influenciadora digital que \u00e9 um exemplo para pensar qual corpo estaria a\u00ed em jogo.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong> corpo; interven\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas; excesso.<\/p>\n<p><strong>(UN) TIED BODIES<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract<\/strong><strong>:<\/strong> In this article, the question is raised about what leads individuals to choose the path of radical and uninterrupted aesthetic interventions on the body. The author presents possible elements that may contribute to this lifestyle and cites the story of a digital influencer as an example to contemplate which body might be at stake.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Keywords:<\/strong> body; aesthetics interventions; excess.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Silvia-Coutinho.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"886\" data-large_image_height=\"968\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2166 aligncenter\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Silvia-Coutinho.png\" alt=\"\" width=\"515\" height=\"563\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Circulando em um shopping center, notei a instala\u00e7\u00e3o de uma cl\u00ednica de est\u00e9tica. Na entrada, observo a seguinte pergunta: \u201co que te incomoda hoje?\u201d \u2013 uma interroga\u00e7\u00e3o que convida as pessoas a se depararem com seus inc\u00f4modos no corpo e se dirigirem a esse local que faz a oferta das supostas solu\u00e7\u00f5es. Dessa forma, esse estabelecimento, estruturado para a venda de bens materiais ou servi\u00e7os como cinema, atra\u00e7\u00f5es de lazer, ag\u00eancia de viagem e loja de c\u00e2mbio, amplia a oferta em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, para al\u00e9m das vestimentas. As academias j\u00e1 s\u00e3o vistas, h\u00e1 muitos anos, como local de pr\u00e1tica de exerc\u00edcios e espa\u00e7o de sa\u00fade. Agora, as portas s\u00e3o abertas para essas cl\u00ednicas de est\u00e9tica, que instigam o olhar do sujeito para sua imagem, sua adequa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao imp\u00e9rio da beleza e ofertam seus servi\u00e7os enquanto as pessoas circulam nesse ambiente, j\u00e1 que, na l\u00f3gica do mercado de consumo, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para pensar, refletir, fazer escolhas, prescindir.<\/p>\n<p>Nas redes sociais, predominam imagens e v\u00eddeos curtos, denominados <em>shorts<\/em>, com explica\u00e7\u00f5es de demonstra\u00e7\u00f5es das mais variadas interven\u00e7\u00f5es para se obter um corpo esculpido sem nenhuma lacuna para a vida real.\u00a0 Gordura, flacidez, cicatriz, estria e celulite s\u00e3o vil\u00f5es que precisam ser combatidos, seja atrav\u00e9s de procedimentos est\u00e9ticos e cirurgias pl\u00e1sticas, seja atrav\u00e9s de exerc\u00edcios f\u00edsicos intensos ou medicamentos para emagrecer. Respostas r\u00e1pidas e universais para resolver os inc\u00f4modos relativos ao corpo, sem espa\u00e7o para a solu\u00e7\u00e3o do um a um, para o <em>long way <\/em>de lidar com imposs\u00edvel de cada corpo falante.<\/p>\n<p>Outra pr\u00e1tica que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o uso do <em>ph\u00e1rmakon<\/em> da moda: Ozempic. Esse medicamento \u00e9 aprovado pela Anvisa para o tratamento de diabetes tipo 2, mas est\u00e1 sendo amplamente utilizado para fins de emagrecimento, de maneira <em>off-label<\/em>.\u00a0 A perda de peso significativa \u00e9 alcan\u00e7ada em poucos dias a partir do est\u00edmulo da produ\u00e7\u00e3o de insulina e a consequente diminui\u00e7\u00e3o de apetite. Trata-se, portanto, de uma sa\u00edda radical para diminuir a fome, em vez de o sujeito se implicar com sua fome, seja ela qual for. O consumo est\u00e1 t\u00e3o significativo que, em junho de 2023, a m\u00eddia divulgou o comunicado do fabricante sobre a prov\u00e1vel aus\u00eancia de disponibilidade do medicamento at\u00e9 o final do ano, devido \u00e0 demanda maior do que o previsto.<\/p>\n<p>O mercado de cirurgias pl\u00e1sticas tamb\u00e9m cresce exponencialmente. Em 2019, O Brasil foi o pa\u00eds com o maior n\u00famero de cirurgias pl\u00e1sticas no mundo. No ano seguinte, o pa\u00eds ficou em segundo lugar, seguindo o campe\u00e3o Estados Unidos. Um dado importante \u00e9 que cresceu muito o uso das redes sociais para a divulga\u00e7\u00e3o do trabalho dos cirurgi\u00f5es e do depoimento das <em>influencers<\/em>, que fazem uso dessa m\u00eddia para divulgar produtos e servi\u00e7os que prop\u00f5em altera\u00e7\u00f5es corporais.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio de excessos de interven\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, medicamentosas e de cirurgias pl\u00e1sticas, fico com as seguintes quest\u00f5es: o que conduz os sujeitos para essas escolhas?; ainda que a amarra\u00e7\u00e3o de cada corpo seja tecida de forma radicalmente singular para cada <em>falasser<\/em>, pode-se pensar em algum estatuto comum que contribua para essa via?; esse modo de vida investido de forma exacerbada no corpo aponta para uma defesa?<\/p>\n<p>Lacan (1975-76\/2007, p. 64), no Semin\u00e1rio 23, afirma que \u201co <em>falasser<\/em> adora seu corpo, porque cr\u00ea que o tem. Na realidade, ele n\u00e3o o tem, mas seu corpo \u00e9 sua \u00fanica consist\u00eancia, consist\u00eancia mental, \u00e9 claro, pois seu corpo sai fora a todo instante\u201d. Dessa forma, Lacan fala da cren\u00e7a desse pertencimento do corpo, do amor-pr\u00f3prio que estabelece fatos na mentalidade do <em>falasser<\/em> e opera no imagin\u00e1rio operando uma borda, um suporte. O sujeito ent\u00e3o se apoia nessa ilus\u00e3o da unidade do corpo e cria suas representa\u00e7\u00f5es, seja sobre sua imagem ou sobre mundo.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante para se pensar o estatuto do corpo refere-se \u00e0s zonas er\u00f3genas, que est\u00e3o abertas no organismo e permitem a integra\u00e7\u00e3o da imagem do corpo e do corpo fragmentado. Assim, as experi\u00eancias de gozo marcadas na boca, \u00e2nus, falo, ouvidos e olhos atuam como grampos, objetos<em> a <\/em>que ancoram a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o corpo. Brousse (2014, p. 10) comenta que \u201cos objetos<em> a<\/em> s\u00e3o objetos que, quando est\u00e3o inseridos no vaso, que \u00e9 a nossa imagem do corpo, florescem, mas quando est\u00e3o fora dela, provocam ang\u00fastia ou horror\u201d. A autora aponta o lugar da beleza na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o corpo. Os objetos<em> a<\/em>, localizados na singularidade da imagem do sujeito, possuem um valor f\u00e1lico, e o belo opera como suporte para integr\u00e1-los e n\u00e3o se reduzirem ao caos do organismo.<\/p>\n<p>Interessante pensar ent\u00e3o que a ilus\u00e3o da unidade, a apropria\u00e7\u00e3o, o movimento da busca pela beleza s\u00e3o fundamentais para que o sujeito contorne sua imagem corporal e tenha uma consist\u00eancia para imprimir suas experi\u00eancias de gozo e uma borda para se relacionar com outros corpos. A quest\u00e3o norteadora aqui \u00e9 o que faz com que esse ponto, que \u00e9 necess\u00e1rio para fazer um v\u00e9u ao real do corpo, tome o sujeito de tal forma que ele faz uma tentativa de se organizar a partir das constantes altera\u00e7\u00f5es no corpo.<\/p>\n<p>E o que pensar sobre os corpos nos tempos contempor\u00e2neos? Tempo do saber cient\u00edfico, em que as palavras da fam\u00edlia, da religi\u00e3o e da tradi\u00e7\u00e3o \u2013 que ofertavam ideais, significantes, ancoragem e olhar para esses corpos \u2013 n\u00e3o operam mais? Brousse (2014, p. 13) faz um paralelo do avan\u00e7o cient\u00edfico com o avan\u00e7o da ang\u00fastia, da substitui\u00e7\u00e3o do <em>Ideal do Eu<\/em> para o <em>eu ideal<\/em> :<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cexiste uma esp\u00e9cie de extens\u00e3o do imp\u00e9rio das imagens que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o reguladas pelo mundo do discurso [&#8230;] mas sim pelo imp\u00e9rio da escritura cient\u00edfica, nos processos para modificar o eu ideal, como por exemplo operar o nariz, aumentar ou diminuir os seios, modificar as rugas, etc.\u201d.<\/p>\n<p>Essa decad\u00eancia do <em>Ideal do Eu <\/em>implica ent\u00e3o na decad\u00eancia da linguagem sobre o corpo e sobre o gozo do corpo, o corpo n\u00e3o \u00e9 visto e desvela-se de maneira fragmentada, a unidade corporal n\u00e3o opera.<\/p>\n<p>O sujeito encontraria, assim, nas ofertas das redes sociais, cl\u00ednicas, academias e medicamentos, uma maneira de se apropriar desse corpo? Ficaria na busca da beleza constante como anteparo para o caos do corpo? O corpo que sai fora a todo instante, conforme postulado por Lacan, nesse cen\u00e1rio contempor\u00e2neo de menos consist\u00eancia, sairia ainda mais, e o <em>falasser<\/em> buscaria ent\u00e3o incessantemente essas sa\u00eddas para n\u00e3o se deparar com sua fragmenta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Essas interven\u00e7\u00f5es constantes de modifica\u00e7\u00f5es corporais podem ser pensadas, portanto, como uma defesa dos sujeitos diante do corpo, que \u00e9 esburacado e ca\u00f3tico, n\u00e3o garante a rela\u00e7\u00e3o sexual e \u00e9 marcado por modos de gozo. Al\u00e9m disso, \u00e9 interessante pensar na particularidade do corpo nos tempos atuais da ci\u00eancia e da falha do Ideal, com o impasse na articula\u00e7\u00e3o do corpo que est\u00e1 fora com o corpo imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>E como pensar o estatuto do corpo nas diferentes estruturas cl\u00ednicas? Miller (2010), no texto \u201cEfeito do retorno \u00e0 psicose ordin\u00e1ria\u201d, fala da tripla externalidade que configura a desordem na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida e, portanto, a categoria cl\u00ednica da psicose ordin\u00e1ria. A externalidade social, que se define pela impot\u00eancia na rela\u00e7\u00e3o com a fun\u00e7\u00e3o social, a externalidade subjetiva, marcada pela fixidez no \u00edndice de vazio, e, por fim, a externalidade corporal. Nessa \u00faltima, o sujeito vive a imin\u00eancia do corpo se desfazer e inventa la\u00e7os artificias que possam prender seu corpo a ele mesmo. A pista fundamental para diferenciar do corpo da neurose seria a infinitiza\u00e7\u00e3o da falha presente na rela\u00e7\u00e3o com o corpo. O neur\u00f3tico tem uma estranheza com o corpo, mas est\u00e1 submetido \u00e0 restri\u00e7\u00e3o, ao limite. Dessa forma, o fato de alguns sujeitos que recorrerem \u00e0 pr\u00e1tica ininterrupta de interven\u00e7\u00f5es no corpo pode apontar para essa externalidade do corpo na psicose ordin\u00e1ria? Nesse contexto contempor\u00e2neo, o limite e a restri\u00e7\u00e3o citados por Miller como pontos de diferen\u00e7a do corpo da neurose estariam mais emba\u00e7ados e menos n\u00edtidos? Essa tentativa infinita do <em>falasser <\/em>de prender seu corpo estaria presente de maneira mais expressiva?<\/p>\n<p>Tive conhecimento de uma influenciadora canadense que ficou famosa nas redes sociais por suas escolhas cont\u00ednuas e extremas de cirurgias pl\u00e1sticas. Essa mulher aponta em sua hist\u00f3ria aspectos que podem ser interrogados como paradigm\u00e1ticos desses questionamentos. Ela se nomeia Mary Magdalene, tal como a personagem b\u00edblica, que segundo ela \u00e9 uma prostituta. Est\u00e1 com 25 anos, seu corpo \u00e9 completamente tatuado e a lista de procedimentos est\u00e9ticos \u00e9 imensa: seios pesando 5kg cada, n\u00e1degas enormes, cintura e nariz fin\u00edssimos, l\u00e1bios super grossos e a tentativa de ter a vagina mais gorda do mundo. Suas imagens causam espanto, \u00e9 um exemplo muito extremo de uma falha na apropria\u00e7\u00e3o do corpo e na tentativa de t\u00ea-lo a partir das modifica\u00e7\u00f5es, sem um ponto de basta. Neste ano, ap\u00f3s uma pr\u00f3tese de seio explodir, ela opta por reduzir o tamanho e relata que vai retirar um pouco de seus preenchimentos est\u00e9ticos. Atualmente, possui tr\u00eas contas de Instagram, sendo que em uma se apresenta com o nome Denise (que parece ser seu nome verdadeiro) e outra, com foco art\u00edstico, na qual exp\u00f5e suas produ\u00e7\u00f5es e utiliza a frase \u201ca arte me salvou\u201d. Trago aqui alguns trechos retirados e traduzidos de sua entrevista no podcast \u201cNo Jumper\u201d em setembro de 2021:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Minha fam\u00edlia era mission\u00e1ria e mudava muito, j\u00e1 morei em acampamento, trailer e floresta. Por isso minha personalidade \u00e9 muito estranha. N\u00e3o me sinto canadense, mexicana nem americana, sou apenas Mary[&#8230;] eu posso continuar crescendo, vou continuar crescendo at\u00e9 eu morrer. Eu n\u00e3o me importo, para mim n\u00e3o h\u00e1 um ponto final [&#8230;] meu estilo \u00e9 sempre aleat\u00f3rio, confuso, depende do dia [&#8230;] ningu\u00e9m sabe quem eu sou, tenho uma vida dupla&#8230; quando estou em casa sou como a Madre Teresa, pintando e com os meus animais, quando estou viajando estou sempre b\u00eabada&#8230; voc\u00eas s\u00f3 veem esse lado [&#8230;] gosto da est\u00e9tica das cirurgias e de parecer sexy&#8230; gosto de parecer <em>slutty,<\/em> <em>trashy , cheap, shit<\/em> [&#8230;] Sou uma <em>fake slut<\/em>, n\u00e3o saio por a\u00ed transando [&#8230;]\u00a0 preciso morar l\u00e1, isolada, para descobrir quem eu sou, se eu morar aqui (referindo-se ao local da entrevista, Los Angeles) tenho medo de me perder [&#8230;] para mim \u00e9 como cortar o cabelo (falando sobre as cirurgias), tenho dores na coluna mas acostumei&#8230; Eu gosto e n\u00e3o preciso que ningu\u00e9m entenda&#8230; sou l\u00f3gica, \u00e9 muito simples, fa\u00e7o porque adoro e posso pagar&#8230; se eu n\u00e3o gostar mais \u00e9 s\u00f3 tirar&#8230; n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o s\u00e9rio, as pessoas complicam demais&#8230; apenas fa\u00e7a o que voc\u00ea quer [&#8230;] sou apenas Mary e eu fa\u00e7o que a Mary quer fazer.<\/p>\n<p>Mary relata que \u00e9 a \u00fanica filha mulher e tem tr\u00eas irm\u00e3os mais velhos. Sua fam\u00edlia era mission\u00e1ria, muito religiosa e extremamente r\u00edgida. Fala que esse contexto contribuiu para ela se rebelar. Iniciou com as modifica\u00e7\u00f5es aos 21 anos, \u00e9poca em que trabalhava como <em>stripper<\/em> e acompanhante sexual. Relata que estava em uma fase depressiva e pensava que iria ficar presa a essa vida para sempre. A via das cirurgias pl\u00e1sticas lhe possibilitou uma nova vida e ela se diz muito grata por isso. Ao ser questionada sobre seus objetivos, responde que quer viver da sua arte (inclusive seu site atual fala que em breve sua loja de arte estar\u00e1 aberta), ter um santu\u00e1rio de animais (com os animais vivos, pois \u00e9 vegetariana e tem um apego muito grande a eles) e continuar famosa na plataforma <em>Only Fans<\/em>, de conte\u00fado adulto. Afirma v\u00e1rias vezes que as pessoas a julgam pela sua imagem, mas ela \u00e9 muito mais do que suas cirurgias.<\/p>\n<p>Mary sinaliza assim para uma tentativa desenfreada de fazer um corpo? Suas escolhas de aumentar de maneira extrema suas zonas er\u00f3genas, como seio, bunda, boca e vagina, dizem de uma busca extrema de servir ao gozo do corpo que est\u00e1 mais fora do que dentro? Sua divis\u00e3o entre Maria Madalena e Madre Teresa, puta e beata, pode indicar a divis\u00e3o do corpo real e corpo imagin\u00e1rio? Morar isolada com sua arte e seus animais opera como uma tentativa de solu\u00e7\u00e3o para sua estranheza com ela mesma e com o Outro?\u00a0 Fazer \u201co que a Mary quer\u201d aponta para a externalidade de um corpo que opera com o imperativo do gozo? Ao falar do seu estado depressivo antes de suas mudan\u00e7as no corpo e de como esse novo momento lhe trouxe certa organiza\u00e7\u00e3o, pode-se pensar que a radicalidade das cirurgias pl\u00e1sticas, at\u00e9 certo ponto tiveram um efeito de amarrar seu corpo? Seu \u201ccorpo Mary\u201d, que lhe define, foi a solu\u00e7\u00e3o do momento? Seu outro corpo, que antes servia ao Outro, agora passa a servir a seu gozo? Se antes ela era uma prostituta, com o novo corpo ela suporta ent\u00e3o parecer uma?<\/p>\n<p>Pode-se pensar ent\u00e3o que o <em>falasser<\/em>, ao operar de maneira extrema essas interven\u00e7\u00f5es no corpo, seja atrav\u00e9s de medicamentos e atividades f\u00edsicas, seja atrav\u00e9s de procedimentos cir\u00fargicos e est\u00e9ticos, aponta para uma maior fragilidade no trabalho de amarra\u00e7\u00e3o de seu corpo? Essa via da busca incessante por um corpo que supostamente seja uma unidade consistente aponta para a hip\u00f3tese de corpos cada vez mais desamarrados e imersos no gozo, recha\u00e7ados da palavra e operando no gozo do Um?<\/p>\n<p>Cabe ao analista escutar como cada sujeito poder\u00e1 tratar da elabora\u00e7\u00e3o do seu corpo, que, ao lhe pertencer, em alguma medida possibilita uma borda para se situar com seu gozo e n\u00e3o ficar totalmente submetido aos objetos <em>a<\/em> que est\u00e3o fora. A orienta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise \u00e9 acompanhar esses sujeitos na inven\u00e7\u00e3o do saber fazer com o real, considerando as amarra\u00e7\u00f5es singulares da cl\u00ednica borromeana. Mary quase perdeu a vida em procedimentos cir\u00fargicos e seguiu at\u00e9 quase literalmente explodir. Parece que est\u00e1 iniciando um novo caminho de amarrar um corpo que seja diferente, corpo da Denise que \u00e9 artista e que pode expressar em suas produ\u00e7\u00f5es os buracos, o horror, os fragmentos, o imposs\u00edvel.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>BROUSSE, M. H. Corpos lacanianos: novidades contempor\u00e2neas sobre o est\u00e1dio do espelho. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online<\/em>, ano 5, n. 15, nov. 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_15\/Corpos_lacanianos.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_15\/Corpos_lacanianos.pdf<\/a>&gt;. Acesso em: 04 set. 2023<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Efeito do retorno \u00e0 psicose ordin\u00e1ria. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online \u2013 Nova s\u00e9rie, <\/em>v. 1, n. 3, nov. 2010. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_3\/efeito_do_retorno_psicose_ordinaria.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_3\/efeito_do_retorno_psicose_ordinaria.pdf<\/a>&gt;. Acesso em 15 ago. 2023.<\/h6>\n<h6>NO JUMPER. <em>The Mary Magdalene Interview<\/em>. 2021. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/podtail.com\/pt-BR\/podcast\/no-jumper\/the-mary-magdalene-interview-plastic-surgery-world\/\">https:\/\/podtail.com\/pt-BR\/podcast\/no-jumper\/the-mary-magdalene-interview-plastic-surgery-world\/<\/a>&gt;. Acesso em 23 out. 2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Corpos (des) amarrados Silvia Coutinho Souza Lima Psicanalista Ex-aluna do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM\/MG silviacslpsi@gmail.com Resumo: Interroga-se, neste artigo, o que faz o sujeito eleger a via das interven\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas no corpo de maneira radical e ininterrupta. A autora traz poss\u00edveis elementos que podem contribuir para esse modo de vida e cita a hist\u00f3ria&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57686,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2165","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-32","category-34","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2165","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2165"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2165\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57687,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2165\/revisions\/57687"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57686"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2165"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2165"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2165"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}