{"id":219,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=219"},"modified":"2025-12-01T12:53:10","modified_gmt":"2025-12-01T15:53:10","slug":"inventar-a-propria-maneira-de-ler1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/inventar-a-propria-maneira-de-ler1\/","title":{"rendered":"Inventar a pr\u00f3pria maneira de ler<sup>[1]<\/sup>\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00e1rcia Mez\u00eancio<br \/>\n<\/strong>A.P. da Escola Brasileira de Psican\u00e1ise\/AMP<br \/>\nMestre em Estudos Psicanal\u00edticos (UFMG)<br \/>\n<span id=\"cloaka215ceb11de3095276c05a8bb847e813\"><a href=\"mailto:marciasouzamezencio@gmail.com\">marciasouzamezencio@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Este artigo traz a leitura, a contextualiza\u00e7\u00e3o e o coment\u00e1rio acerca do artigo de Freud intitulado \u201cSobre o in\u00edcio do tratamento\u201d, publicado em 1913 na s\u00e9rie que ficou conhecida como\u00a0<em>Escritos t\u00e9cnicos<\/em>, e desdobra algumas reflex\u00f5es sobre a transmiss\u00e3o do saber em psican\u00e1lise, remetidas ao momento atual.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:\u00a0<\/strong>in\u00edcio do tratamento; t\u00e9cnica da psican\u00e1lise; leitura do inconsciente; desejo de saber.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>INVENTING YOUR OWN WAY OF READING<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This article presents a reading, contextualization and commentary on Freud&#8217;s article entitled \u201cOn the beginning of treatment\u201d, published in 1913 in the series that became known as\u00a0<em>Technical Writings<\/em>, and unfolds some reflections on the transmission of knowledge in psychoanalysis, referring to the current moment.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>beginning of treatment; psychoanalysis tecnique; reading of the unconscious; desire to know.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"attachment_220\" style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"567\" data-large_image_height=\"567\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-220\" class=\"size-full wp-image-220\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"567\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico.png 567w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico-300x300.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-220\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agrade\u00e7o a oportunidade e o convite para estar aqui e para trabalhar com voc\u00eas um texto apaixonante, como s\u00e3o para mim os escritos de Freud. Sou de uma gera\u00e7\u00e3o que se iniciou na psican\u00e1lise pela obra de Freud e se fascinou com as aberturas que a leitura feita por Lacan tornou poss\u00edveis. O modo de ler de Lacan tornou-a um texto vivo que, como tal, permite que inventemos nossa pr\u00f3pria maneira de ler (MILLER, 1997, p. 249). Se digo paix\u00e3o e fasc\u00ednio, refiro-me \u00e0 paix\u00e3o da ignor\u00e2ncia, a paix\u00e3o colocada em jogo na experi\u00eancia anal\u00edtica, implicada na transfer\u00eancia. \u00c9 pela via do amor e da suposi\u00e7\u00e3o de saber que tudo come\u00e7a, e aqui j\u00e1 me insiro no pr\u00f3prio tema desta li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias s\u00e3o, para mim, um espa\u00e7o privilegiado, eu j\u00e1 disse isso em outras ocasi\u00f5es, por proporcionar retornos sobre textos fundamentais, bem como sobre a nossa pr\u00f3pria trajet\u00f3ria, n\u00e3o sem lan\u00e7ar luz sobre o atual e o contempor\u00e2neo, abrindo portas a uma nova leitura. Retomamos hoje esses escritos de Freud na perspectiva n\u00e3o mais de um retorno a Freud, j\u00e1 empreendido por Lacan \u2013 e quanto a isso \u00e9 importante assinalar ainda uma vez que a s\u00e9rie dos semin\u00e1rios de Lacan, em seu retorno a Freud, se inicia justamente com os \u201cescritos t\u00e9cnicos\u201d \u2013, mas do desafio contempor\u00e2neo de fazer valer a exist\u00eancia do inconsciente em nosso tempo e de que as an\u00e1lises comecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para isso, \u00e9 preciso que uma pergunta se coloque. Mais que uma quest\u00e3o de m\u00e9todo, tamb\u00e9m \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia do inconsciente e de sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise. Nunca \u00e9 demais reafirmar esse princ\u00edpio, levando em considera\u00e7\u00e3o que \u00e9 caracter\u00edstica desse tempo em que praticamos a psican\u00e1lise que existam somente respostas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dominique Laurent, discutindo as implica\u00e7\u00f5es do ensino com o saber e a Escola, salienta a import\u00e2ncia de ensinar os textos fundadores, para manter a transmiss\u00e3o do saber expl\u00edcito da psican\u00e1lise \u2013 e aqui considero a fun\u00e7\u00e3o do Instituto em rela\u00e7\u00e3o a esse ensino. Ela prossegue reafirmando a necessidade de \u201cperseguir a transmiss\u00e3o do saber impl\u00edcito, aquele saber sob transfer\u00eancia, assim como a dimens\u00e3o pol\u00edtica de sua a\u00e7\u00e3o\u201d (LAURENT, 2018, p. 4) No entanto, ela conclui que \u201co ensino faz obst\u00e1culo ao saber, no sentido de Lacan\u201d (LAURENT, 2018, p.5). E defende um saber que n\u00e3o se reduz a uma aprendizagem e que fa\u00e7a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 demanda daqueles que se endere\u00e7am \u00e0 Escola, ou ao Instituto, para obter um saber-fazer no mau sentido, ocultando, assim, seu ponto de n\u00e3o saber. Cabe a n\u00f3s operarmos com o furo no saber e acolher a transfer\u00eancia de trabalho que o desejo de saber coloca em funcionamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com essa orienta\u00e7\u00e3o, organizei minha apresenta\u00e7\u00e3o em dois eixos: o coment\u00e1rio do artigo e algumas reflex\u00f5es sobre a transmiss\u00e3o do saber em psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Uma quest\u00e3o de preliminares: no in\u00edcio o mal-entendido<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto de Freud que provoca nossa conversa \u2013 seja por seu t\u00edtulo, \u201cSobre o in\u00edcio do tratamento\u201d, seja por sua proposta (cito Freud (1913\/2017, p. 121): \u201ctentarei reunir algumas dessas regras para o in\u00edcio do tratamento, no intuito de serem utilizadas pelo analista praticante\u201d), ou por seu contexto, a saber, a expans\u00e3o do movimento psicanal\u00edtico e as primeiras dissid\u00eancias \u2013 possibilita in\u00fameras entradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma entrada poss\u00edvel ocorreu-me ao considerar o nosso contexto, a s\u00e9rie na qual essa nossa conversa acontece: Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias, que tamb\u00e9m reverbera com a ideia de um in\u00edcio, ou inicia\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o, e que haveria algo de mal-entendido contido na pr\u00f3pria ideia de transmitir, atrav\u00e9s desses escritos ou dessas li\u00e7\u00f5es, a t\u00e9cnica da psican\u00e1lise. Uma primeira recomenda\u00e7\u00e3o ou advert\u00eancia se coloca. \u00c9 mesmo com ela que Freud abre seu artigo: h\u00e1 limita\u00e7\u00f5es para transmitir as regras do jogo, seja o do xadrez, seja o da an\u00e1lise. \u00c9 preciso a experi\u00eancia, o jogo jogado pelos grandes mestres, no caso do xadrez, ou a de cada um que se coloque o desafio da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, em nosso campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, estamos no nosso elemento, nada como o mal-entendido para come\u00e7ar. Veremos como Miller (1997, p. 246) ressalta a fun\u00e7\u00e3o primordial do mal-entendido e da paix\u00e3o da ignor\u00e2ncia como a paix\u00e3o anal\u00edtica: o princ\u00edpio \u00e9 n\u00e3o compreender. \u00c9 por essa entrada, a do n\u00e3o-saber, que se abre a via das quest\u00f5es, das perguntas, princ\u00edpio de m\u00e9todo fundamental em psican\u00e1lise. \u00c9 o que Lacan (1962-63\/2004) aponta como necess\u00e1rio no plano da experi\u00eancia: colocar todas as perguntas. Isso n\u00e3o quer dizer que tudo possa ser dito. \u00c9 necess\u00e1rio considerar que a \u00e9tica que orienta a an\u00e1lise, sendo a \u00e9tica do bem-dizer, remete ao saber inconsciente, em sua radical singularidade a cada sujeito. Freud igualmente valoriza o princ\u00edpio de come\u00e7ar cada caso como se fosse o primeiro, colocando em suspenso todo saber pr\u00e9vio adquirido atrav\u00e9s de outros casos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito isso, come\u00e7o pela nota de edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Vale lembrar que a palavra central do t\u00edtulo (<em>Einleitung<\/em>) tem o sentido de in\u00edcio, mas que o verbo\u00a0<em>einleiten<\/em>\u00a0tem tamb\u00e9m o sentido de \u201ccolocar em movimento numa determinada dire\u00e7\u00e3o\u201d, o que \u00e9 precisamente uma das principais quest\u00f5es de Freud no texto. (IANNINI; TAVARES, 2017, p. 148)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda na nota de edi\u00e7\u00e3o, lemos que esse texto funciona como b\u00e1scula no conjunto dos chamados \u201cescritos t\u00e9cnicos\u201d de Freud, ao mesmo tempo fechando uma s\u00e9rie e abrindo outra \u2013 o que se observa na Edi\u00e7\u00e3o Standard, na qual ao t\u00edtulo se segue um subt\u00edtulo, reproduzido da edi\u00e7\u00e3o original: \u201cNovas recomenda\u00e7\u00f5es sobre t\u00e9cnica da Psican\u00e1lise I\u201d, sendo o artigo que o antecede justamente chamado \u201cRecomenda\u00e7\u00f5es aos m\u00e9dicos que exercem a psican\u00e1lise\u201d, lido aqui na li\u00e7\u00e3o anterior; na oportunidade, Cristiana Pittella abordou a nuance na diferen\u00e7a de tradu\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo entre as edi\u00e7\u00f5es, referente ao plural no destinat\u00e1rio, bem como a justificativa do endere\u00e7amento das recomenda\u00e7\u00f5es ao \u201cm\u00e9dico\u201d e n\u00e3o, ainda, ao psicanalista, como se consolidar\u00e1 no prosseguimento da obra de Freud.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo na leitura da nota, somos informados tamb\u00e9m de que esse artigo permanece como a principal refer\u00eancia acerca do in\u00edcio do tratamento, encontrando enorme repercuss\u00e3o no movimento psicanal\u00edtico. Tal asser\u00e7\u00e3o parece confirmada no eixo dessas Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u2013 \u201cSobre o in\u00edcio da experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d \u2013 e no tema do ENAPOL que elas antecipam \u2013 \u201cCome\u00e7ar a se analisar\u201d. \u00c9 destacado ainda o interesse de Lacan no que se refere \u00e0s entrevistas preliminares, apresentadas longamente no texto em quest\u00e3o, do qual constituem, a meu ver, o tema central.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O contexto em que Freud escreveu esses artigos \u00e9 o das primeiras dissid\u00eancias e, ent\u00e3o, ele via em risco os princ\u00edpios sobre os quais havia criado sua t\u00e9cnica. Ao longo dessa s\u00e9rie de artigos, bem como ao longo de toda a sua obra, ele deixa claro que n\u00e3o \u00e9 a t\u00e9cnica que define a psican\u00e1lise, podendo esta ser vari\u00e1vel segundo a \u201cprefer\u00eancia pessoal\u201d do analista, desde que os princ\u00edpios anal\u00edticos \u2014 que ele chama as \u201cpedras angulares\u201d da psican\u00e1lise \u2014 sejam tomados em considera\u00e7\u00e3o. Esses fundamentos, ou princ\u00edpios, dos quais Freud far\u00e1 sempre uma defesa intransigente, s\u00e3o a teoria do inconsciente, do conflito ps\u00edquico e do recalque, o reconhecimento da import\u00e2ncia etiol\u00f3gica da sexualidade e do complexo de \u00c9dipo. \u00canfase particular ser\u00e1 dada ao reconhecimento da causalidade ps\u00edquica e sobre o sentido dos sintomas e \u00e0 sua caracter\u00edstica de satisfa\u00e7\u00e3o substitutiva. Especificamente no artigo em quest\u00e3o hoje, Freud (1913\/2017) \u00e9 assertivo: Se o tratamento opera pelo manejo da transfer\u00eancia, com o objetivo de vencimento das resist\u00eancias, est\u00e1 em causa um tratamento anal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que est\u00e1 em jogo nesse esfor\u00e7o de detalhar a t\u00e9cnica: esclarecer seus fundamentos \u00e9ticos e cl\u00ednicos, sem os quais ela n\u00e3o existe ou se justifica. Foi nesse mesmo contexto da defesa da exist\u00eancia da psican\u00e1lise que se deu a cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Psican\u00e1lise (IPA), em 1911. Outro marco no esfor\u00e7o de esclarecer esse ponto foi a publica\u00e7\u00e3o, em 1914, da \u201cHist\u00f3ria do movimento psicanal\u00edtico\u201d, texto que sucede os escritos t\u00e9cnicos, no qual Freud valoriza nas primeiras dissens\u00f5es (Adler e Jung) o abandono dos pilares, dos conceitos necess\u00e1rios \u00e0 fundamenta\u00e7\u00e3o de qualquer t\u00e9cnica da psican\u00e1lise. Trabalhei essas quest\u00f5es detalhadamente em minha Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado, na qual insisto que Freud estava longe de ser ortodoxo e que desenvolveu uma investiga\u00e7\u00e3o exaustiva no sentido de adequar a t\u00e9cnica anal\u00edtica \u00e0s mudan\u00e7as da cl\u00ednica que se apresentavam, j\u00e1 vislumbrando a singularidade, isto \u00e9, n\u00e3o somente a t\u00e9cnica se deveria \u00e0 prefer\u00eancia pessoal do analista, como deveria responder \u00e0s necessidades de cada paciente, estendendo-se a quadros cl\u00ednicos diversos dos casos de neurose para os quais a t\u00e9cnica havia sido inicialmente constru\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00eas puderam ler, ao longo deste artigo, a preocupa\u00e7\u00e3o de Freud com a sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise e um esfor\u00e7o de di\u00e1logo com os bem-intencionados (sempre \u00e9 prudente desconfiar) inovadores: a exist\u00eancia e o modo de funcionar do inconsciente exigem que a psican\u00e1lise responda \u00e0 altura. Em nosso tempo, a psican\u00e1lise tamb\u00e9m corre o risco de deixar de existir e esse \u00e9 um motivo suficiente para nos debru\u00e7armos sobre as quest\u00f5es fundamentais que esses textos nos apresentam e que continuam v\u00e1lidas, mesmo que devam ser atualizadas ao nosso contexto. De toda forma, n\u00e3o farei uma leitura linha a linha, vou partir da premissa de que voc\u00eas leram o texto e vou fazer alguns recortes pontuais para conversarmos e remetermos \u00e0s quest\u00f5es de atualidade na cl\u00ednica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomo a nota de edi\u00e7\u00e3o, que nos informa que o texto foi publicado originalmente em duas partes e que teria tr\u00eas se\u00e7\u00f5es: Sobre o in\u00edcio do tratamento (primeira parte), A quest\u00e3o das primeiras comunica\u00e7\u00f5es e A din\u00e2mica da cura (segunda parte). A edi\u00e7\u00e3o que conhecemos n\u00e3o est\u00e1 dividida em partes ou se\u00e7\u00f5es. Mas essa informa\u00e7\u00e3o pode ser \u00fatil para nossa leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tentativa de considerar que a primeira se\u00e7\u00e3o parece abordar principalmente quest\u00f5es pr\u00e1ticas, estabelecendo as condi\u00e7\u00f5es para o in\u00edcio do tratamento, e que as duas seguintes tratariam de quest\u00f5es cl\u00ednicas, privilegiando as interven\u00e7\u00f5es do psicanalista na dire\u00e7\u00e3o do tratamento, mostra que \u00e9 imposs\u00edvel obter essa divis\u00e3o, mesmo para fins \u201cdid\u00e1ticos\u201d. Pois o que vemos se desdobrarem em quest\u00f5es aparentemente objetivas \u00e9 sua implica\u00e7\u00e3o \u00e9tica no que delas se espera. Assim, as entrevistas preliminares, ou tratamento de ensaio, as determina\u00e7\u00f5es referentes a tempo e dinheiro, o uso do div\u00e3, referido como o \u201ccerimonial da situa\u00e7\u00e3o na qual \u00e9 conduzido o tratamento\u201d, se mostram condi\u00e7\u00f5es decisivas para o engajamento do paciente em um trabalho com o inconsciente, que ultrapassam suas justificativas objetivas, que as colocariam no n\u00edvel de condi\u00e7\u00f5es de um contrato. Vejamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As entrevistas preliminares, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a\u00a0sele\u00e7\u00e3o e o diagn\u00f3stico\u00a0dos pacientes,\u00a0s\u00e3o justificadas pelas\u00a0raz\u00f5es objetivas\u00a0de proteg\u00ea-los de disp\u00eandio in\u00fatil e proteger a psican\u00e1lise do risco de um fracasso se o caso n\u00e3o for indicado \u00e0 interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. No entanto, devem ser conduzidas nas mesmas premissas do tratamento propriamente dito, sendo decisivas para sua \u201cdire\u00e7\u00e3o\u201d, lhe sendo pr\u00e9vias, mas fazendo parte dele, e sendo sua fun\u00e7\u00e3o a de cuidar da instala\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As quest\u00f5es de tempo e dinheiro n\u00e3o se reduzem \u00e0 garantia da ocupa\u00e7\u00e3o, remunera\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia do profissional, mas est\u00e3o implicadas na economia ps\u00edquica do paciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativa ao tempo, a quest\u00e3o da dura\u00e7\u00e3o do tratamento envolve, segundo Freud, o desconhecimento da etiologia das neuroses e o esquecimento da proporcionalidade necess\u00e1ria entre tempo, trabalho e sucesso, o que gera expectativas exageradas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 an\u00e1lise. O que impediria o encurtamento do tempo de tratamento \u00e9 \u201ca atemporalidade dos processos inconscientes e o vagar com que as transforma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas profundas ocorrem\u201d (FREUD, 1913\/2017, p. 130). Esse processo segue seu pr\u00f3prio caminho, e o analista n\u00e3o tem o poder de impor dire\u00e7\u00e3o ou sequ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o irei abordar aqui, por raz\u00f5es de tempo e escolha, a discuss\u00e3o sobre a dura\u00e7\u00e3o do tratamento nos dias atuais e outras vari\u00e1veis no manejo do tempo, sejam aquelas introduzidas por Lacan em rela\u00e7\u00e3o ao tempo l\u00f3gico, sejam as incid\u00eancias das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas sobre a viv\u00eancia contempor\u00e2nea do tempo, que se torna acelerado ou mesmo instant\u00e2neo, como a experi\u00eancia dos atendimentos on-line t\u00eam demonstrado. No que se refere ao tempo de entrada em an\u00e1lise, indico a leitura do argumento de Jorge Assef, no site do ENAPOL.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao dinheiro, Freud lembra de que h\u00e1 poderosos fatores sexuais envolvidos, sendo um assunto tratado na vida cotidiana com dubiedade, pudicidade e hipocrisia. O analista, segundo ele, deve exercer vigorosa oposi\u00e7\u00e3o sobre tal modo de tratamento e enfrentar abertamente essa quest\u00e3o, levando em considera\u00e7\u00e3o a desvaloriza\u00e7\u00e3o do tratamento advinda de se cobrar pouco pela consulta, os inconvenientes do tratamento gratuito, o lucro secund\u00e1rio da doen\u00e7a, entre outros fatores que impactam o sucesso do tratamento. Sobre o aparente investimento excessivo no tratamento, ele \u00e9 taxativo: \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada mais caro na vida do que a doen\u00e7a e \u2013 a estupidez\u201d (FREUD, 1913\/2017, p. 134). Considera\u00e7\u00f5es que seguem v\u00e1lidas e devem ser levadas em conta nos formatos e lugares onde se pratica e aplica a psican\u00e1lise atualmente, bem como nas novas formas de circula\u00e7\u00e3o do dinheiro, que tamb\u00e9m se tornam cada vez mais virtuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o uso do div\u00e3, apresentado como resqu\u00edcio do tratamento hipn\u00f3tico, seria motivado por uma quest\u00e3o pessoal, a saber: o inc\u00f4modo de ser observado por horas por outra pessoa revela-se, na verdade, muito mais uma justificativa de ordem cl\u00ednica \u2013 evitar que, atrav\u00e9s de express\u00f5es faciais que a postura de entregar-se \u00e0 aten\u00e7\u00e3o equiflutuante poderia produzir no analista, se forne\u00e7a material ao paciente para que interprete e se influencie em suas comunica\u00e7\u00f5es, impondo-lhe, ainda, a priva\u00e7\u00e3o do objeto olhar, o que remete \u00e0 quest\u00e3o da opacidade do analista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista recentemente publicada em portugu\u00eas, Miller (2022) reflete sobre as perspectivas atuais e futuras do div\u00e3. Em uma frase que ressoa a Freud, ele diz que n\u00e3o \u00e9 o div\u00e3 (onde Freud colocava a t\u00e9cnica) que define a psican\u00e1lise e aponta como, em seu manejo, \u00e9 crucial levar em conta as singularidades de cada paciente, e que o div\u00e3 pode ser um objeto importante e emblem\u00e1tico das rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem entre paciente e analista, incidindo sobre as fantasias do primeiro. Reflex\u00f5es semelhantes est\u00e3o presentes nesse artigo de Freud, que apresenta exemplos de situa\u00e7\u00f5es e resist\u00eancias dos pacientes \u00e0 submiss\u00e3o ao div\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A entrevista de Miller avan\u00e7a quest\u00f5es sobre o momento atual, atribuindo ao div\u00e3 uma incid\u00eancia sobre a banaliza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a virtual. A perman\u00eancia do div\u00e3 se justifica largamente por encarnar a impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o sexual e o paradoxo de efetivar a presen\u00e7a do corpo e ao mesmo tempo seu despojamento: \u201cDeitar-se no div\u00e3 \u00e9 tornar-se puro falante, fazendo ao mesmo tempo a experi\u00eancia de si como corpo parasitado pela fala, pobre corpo doente da doen\u00e7a dos falantes\u201d (MILLER, 2022, p. 44). O real da presen\u00e7a dos corpos faz-se assim necess\u00e1rio para que o paradoxo permane\u00e7a e o objeto encarnado pelo psicanalista permita que a experi\u00eancia como sujeito se d\u00ea: \u201ccomo falante, sem saber o que quer, nem o que diz, nem mesmo a quem\u201d (MILLER, 2022, p. 43).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>No come\u00e7o, a associa\u00e7\u00e3o livre<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Definidas essas quest\u00f5es pr\u00e1ticas, mas nem tanto, por onde come\u00e7ar? Em que ponto e com que material?\u00a0Verei-o amanh\u00e3\u2019\u201d (KARDINER, 1979, s\/p).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud diz que \u00e9 indiferente, o paciente escolhe o tema que gostaria de trabalhar. Mas, s\u00f3 que n\u00e3o, como se diz hoje em dia, pois aqui se imp\u00f5e a regra fundamental: o paciente deve comunicar aquilo que lhe ocorrer, sem omitir, com o compromisso de sinceridade plena. Sem escolher, no fim das contas: eis a\u00ed o mal-entendido da regra da associa\u00e7\u00e3o livre. Por isso, desencoraja-se a prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do material da sess\u00e3o, que estaria a servi\u00e7o da resist\u00eancia e n\u00e3o facultaria o engajamento do sujeito na din\u00e2mica do tratamento, impedindo o acesso ao inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplo disso encontramos em uma interven\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica de Freud, relatada por um de seus pacientes, candidato a analista, destacada no site do ENAPOL, na se\u00e7\u00e3o \u201cCita\u00e7\u00f5es\u201d, como um chamado aos praticantes: come\u00e7ar a se analisar e esclarecer a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente: \u201cFreud me parou aqui e disse: \u2018Voc\u00ea preparou este relato?\u2019. \u2018N\u00e3o\u2019, respondi, \u2018mas porque voc\u00ea me pergunta?\u2019. \u2018Porque foi uma apresenta\u00e7\u00e3o perfeita. Quero dizer que foi, como dizemos em alem\u00e3o,\u00a0<em>druckfertig<\/em>\u00a0(\u201cpronto para imprimir\u201d). Verei-o amanh\u00e3\u2019\u201d. (KARDINER, 1979, s\/p)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro exemplo corriqueiro, com o qual nos deparamos frequentemente em nossa cl\u00ednica. O paciente come\u00e7a a sess\u00e3o dizendo: \u201cTive vontade de n\u00e3o vir, pois n\u00e3o pensei em nada durante a semana para falar hoje\u201d. Ao que respondo: \u201cQue bom que veio, assim podemos conversar sem prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via\u201d. Ele come\u00e7a a falar do dia no trabalho e v\u00e1rias quest\u00f5es surgem. Quando corto a sess\u00e3o, ao sair ele diz: \u201cAchei que n\u00e3o sairia nada, mas acabou que deu para \u2018conversar\u2019 muito hoje\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra paciente come\u00e7a a sess\u00e3o dizendo que iria ler o que escreveu, para n\u00e3o se perder e n\u00e3o esquecer o que gostaria de trabalhar naquele dia. Inicia a leitura e, j\u00e1 nas primeiras linhas, o relato escrito \u00e9 deixado de lado, provocado por uma pergunta da analista, que desvia o curso para a associa\u00e7\u00e3o, livre, nesse caso, do roteiro preestabelecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras recomenda\u00e7\u00f5es s\u00e3o detalhadas, como discri\u00e7\u00e3o sobre o tratamento (para evitar resist\u00eancias externas e escoamento dos temas a serem trazidos para a sess\u00e3o). Do lado do analista: encaminhamento das intercorr\u00eancias a outro profissional, aten\u00e7\u00e3o aos sinais de resist\u00eancia, como o sil\u00eancio (manifesta\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia), aos primeiros sintomas ou atos casuais e \u00e0 inclus\u00e3o no tratamento do material dito nas franjas da sess\u00e3o, fora do div\u00e3. E, principalmente, o tema da transfer\u00eancia deve ficar intocado at\u00e9 que ela tenha se transformado em resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas recomenda\u00e7\u00f5es enquadram o desenrolar das entrevistas preliminares, dirigindo-as ao ponto em que, instalada a transfer\u00eancia produtiva, sejam feitas as \u201cprimeiras comunica\u00e7\u00f5es\u201d e se coloque em funcionamento a din\u00e2mica da cura e se mobilize o jogo de for\u00e7as capaz de levantar o recalque e vencer a resist\u00eancia. Miller (1994) traduz essas recomenda\u00e7\u00f5es: uma an\u00e1lise come\u00e7a pela espera do analista, at\u00e9 ser investido pela transfer\u00eancia e situar-se em uma posi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio para interpretar. Lacan (1958\/1998) aponta que Freud reconheceu que a\u00ed estava o princ\u00edpio de seu poder, mas que se arranjava bem com isso, renunciando a fazer uso dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para se come\u00e7ar, ent\u00e3o, \u00e9 preciso a transfer\u00eancia. Miller assevera que esse princ\u00edpio \u00e9 um consenso entre as v\u00e1rias escolas de psican\u00e1lise e de que \u201cAt\u00e9 Lacan havia uma doutrina bastante precisa em rela\u00e7\u00e3o a isto. Primeiro esperar a emerg\u00eancia da transfer\u00eancia para depois interpretar\u201d (MILLER, 1994, p. 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller aponta tamb\u00e9m a demanda como uma forma de entrada em an\u00e1lise, considerando que se h\u00e1 demanda h\u00e1 transfer\u00eancia. Ele indica que Lacan faz uma tor\u00e7\u00e3o ao dizer que a transfer\u00eancia \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o, na medida em que d\u00e1 uma significa\u00e7\u00e3o de inconsciente a esse significante: \u201cSem d\u00favida, para ir at\u00e9 um analista, \u00e9 preciso j\u00e1 ter interpretado seu pr\u00f3prio sintoma, atribuindo a ele uma significa\u00e7\u00e3o inconsciente, ou seja:\u00a0<em>N\u00e3o sei ler isto sozinho<\/em>\u201d (MILLER, 1994, p. 11).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pr\u00e1tica das entrevistas preliminares est\u00e1 em jogo o ato anal\u00edtico e a \u00e9tica da psican\u00e1lise. T\u00e9cnica em psican\u00e1lise \u00e9, lembremos, quest\u00e3o de \u00e9tica, pois \u201cn\u00e3o h\u00e1 cl\u00ednica sem \u00e9tica\u201d e \u201ch\u00e1 \u00e9tica onde h\u00e1 escolha\u201d (MILLER, 1996, p. 113). Nessas \u201centrevistas ditas preliminares, duas coisas s\u00e3o essenciais \u2013 assegurar-se que se est\u00e1 lidando com sintomas do tipo anal\u00edtico e com um sujeito capaz de produzir leituras do inconsciente\u201d. (MILLER, 1994, p. 5). \u00c9 dessa forma que se selecionam, nas palavras de Miller (1996), casos \u00e9ticos, analis\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As entrevistas preliminares servem, ent\u00e3o, para a avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica ou diagn\u00f3stico, essencial para a dire\u00e7\u00e3o do tratamento. Isso tamb\u00e9m segue sendo v\u00e1lido, mas n\u00e3o sem mal-entendidos. Miller j\u00e1 relatava o desconforto dos contempor\u00e2neos, e mesmo de alguns alunos de Lacan, com sua pr\u00e1tica do diagn\u00f3stico e da apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes, que consideravam segregativa. Atualmente, ainda que a pr\u00e1tica do diagn\u00f3stico se ocupe mais de esclarecer a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro e o real, \u00e9 igualmente acusada de segregativa pelos militantes da despatologiza\u00e7\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller (1994, p. 4) detalha que \u201cUm crit\u00e9rio de analisabilidade \u00e9 a capacidade de associa\u00e7\u00e3o livre. O sujeito \u00e9 capaz de estabelecer uma nova rela\u00e7\u00e3o com seu pr\u00f3prio dizer? Para ser analis\u00e1vel, \u00e9 preciso poder dizer sem assumir por conta pr\u00f3pria o que se diz\u201d. Diz ainda que \u201c\u00c9 preciso assegurar-se de uma segunda coisa \u2013 que o candidato \u00e0 psican\u00e1lise \u00e9 capaz de fornecer o texto a ler, a interpretar, e mesmo de o ler de diversas maneiras. \u00c9 isto que chamamos de \u2018entregar-se \u00e0 associa\u00e7\u00e3o-livre\u2019\u201d (MILLER, 1994, p. 4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">A associa\u00e7\u00e3o livre, nos termos de Freud, \u00e9 uma express\u00e3o pela qual tentamos cernir o modo de dizer pr\u00f3prio ao sujeito em an\u00e1lise. \u00c9 muito dif\u00edcil cernir o que \u00e9 este modo de dizer, o modo de dizer analisante. De certo modo, n\u00e3o tomo por minha conta o que digo como analisante \u2013 posso mencionar raivas, desejos, temores, pensamentos em que n\u00e3o me reconhe\u00e7o, os quais eu rejeito. N\u00e3o tenho nada a ver com isto, sou inocente em rela\u00e7\u00e3o a isto, n\u00e3o sou eu. (MILLER, 1994, p. 4)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m servem \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o subjetiva, que equivale \u00e0 subjetiva\u00e7\u00e3o, responsabilidade pelo dizer, pelo gozo e pelo desejo. Onde est\u00e1 o sujeito? Quem fala? Para essa localiza\u00e7\u00e3o, \u201co essencial \u00e9 o que o sujeito diz\u201d. Ao valorizar a fala, um primeiro movimento \u00e9 acionado, trata-se de separar-se da dimens\u00e3o do fato, dos acontecimentos, para entrar na quest\u00e3o do dito; o que prepara um segundo passo: a partir dos ditos localizar o dizer do sujeito, a enuncia\u00e7\u00e3o, quer dizer, questionar a posi\u00e7\u00e3o de quem fala (modaliza\u00e7\u00e3o do dito). \u201cTrata-se de distinguir entre o dito e a posi\u00e7\u00e3o frente a ele, que \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito\u201d (MILLER, 1997, p. 238). O sujeito \u00e9 a caixa vazia onde se inscrevem as modaliza\u00e7\u00f5es do dito, lugar da sua ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, as entrevistas preliminares e a fun\u00e7\u00e3o essencial do mal-entendido que a regra da associa\u00e7\u00e3o livre possibilita servem para que o sujeito minta e assim perceba alguma antinomia na l\u00f3gica de seus ditos. Tal antinomia entre o dito e o dizer, se traduziria como: \u201cEu (o paciente) n\u00e3o sei o que digo\u201d (MILLER, 1997, p. 247). O lugar da enuncia\u00e7\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o o pr\u00f3prio lugar do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">O bem-dizer, para Lacan, \u00e9 a chave da \u00e9tica da psican\u00e1lise, a \u00e9tica do dito e do dizer, antes de um acordo ideal entre o dito e o dizer, trata-se de encontrar uma maneira de dizer que leve em conta a diferen\u00e7a entre o dito e o dizer, e que tamb\u00e9m leve em conta a possibilidade de modificar a posi\u00e7\u00e3o subjetiva a respeito do dito. (MILLER, 1997, p. 249)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos dias atuais, na f\u00f3rmula \u201ceu sou o que digo que sou\u201d, h\u00e1 uma identidade entre o dito e o ser, ou n\u00e3o h\u00e1 um querer dizer por tr\u00e1s do dito. N\u00e3o h\u00e1 lugar para o mal-entendido ou para um questionamento ou interpreta\u00e7\u00e3o. Dessa forma, o discurso anal\u00edtico n\u00e3o encontra seu lugar de incid\u00eancia: introduzir o sujeito no inconsciente atrav\u00e9s da localiza\u00e7\u00e3o e retifica\u00e7\u00e3o subjetiva. J\u00e1 em 2002, nas \u201cIntui\u00e7\u00f5es milanesas\u201d, Miller (2011) alertava que o ato do psicanalista est\u00e1 sob amea\u00e7a. Por esse motivo, a pergunta sobre como come\u00e7am as an\u00e1lises \u00e9 decisiva para o futuro do ato anal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Silvia Salman (2022, p. 6), repercutindo essa reflex\u00e3o de Miller, mais atual do que nunca, sobre a degrada\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o do analista, avalia que \u201co sentimento de desvaloriza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise surge do fato de n\u00e3o ser captada a partir de um desejo de verdade, mas de uma demanda de aten\u00e7\u00e3o pessoal\u201d. E se pergunta como fazer frente \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o do discurso anal\u00edtico e \u201cfazer surgir o desejo de verdade ali onde s\u00f3 se espera aten\u00e7\u00e3o personalizada que faz prevalecer o narcisismo social e a primazia do eu, em detrimento do mist\u00e9rio do corpo que fala\u201d (SALMAN, 2022, p. 6). Sugere o interesse de se examinar e formalizar os in\u00edcios de an\u00e1lise, pois \u201cFazer prevalecer o anal\u00edtico a cada encontro \u00e9 n\u00e3o cessar de fazer emergir um voc\u00ea disse algo \u2018que \u00e9 diferente do que queria dizer\u2019\u201d (SALMAN, 2022, p. 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E quanto ao ensino? O que afinal se transmite?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No curso da prepara\u00e7\u00e3o do texto para minha apresenta\u00e7\u00e3o hoje, encontrei resson\u00e2ncias com o que eu pretendia abordar aqui, para concluir, condensadas no coment\u00e1rio sobre a aula inaugural no ICP-RJ, feito pelos alunos Diogo Pereira de Sousa e Samantha de Moura Ribeiro, que vou ler para voc\u00eas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">A aula inaugural se prop\u00f4s a introduzir o tema da entrada em an\u00e1lise, estabelecendo uma conversa com o XI ENAPOL que acontecer\u00e1 em setembro\/2023. Como circunscrever o momento em que uma an\u00e1lise se inicia, aquele que marcaria o in\u00edcio do trabalho pelo analisante? Seria esse um ato do analista? Seria ato do analisante? Talvez a resposta venha, como de praxe, a posteriori e\u00a0<em>in casu<\/em>, quando olhando para tr\u00e1s \u00e9 poss\u00edvel pin\u00e7ar o momento em que um n\u00e3o-saber surgiu, atrav\u00e9s da manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente. Como nos lembra Laurent, h\u00e1 algo da incid\u00eancia de uma verdade que passa a implicar o analisante em sua mensagem e o situa de outra forma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua demanda. Com isso em mente, gostar\u00edamos de lan\u00e7ar uma provoca\u00e7\u00e3o: haveria um ponto de encontro (ou desencontro) entre a entrada em an\u00e1lise e a entrada numa escola de psican\u00e1lise? Em uma an\u00e1lise, cabe ao analista escutar e fazer ressoar, seguir o analisante &#8220;destacando os significantes que pesam\u201d. Contudo, para que as pontua\u00e7\u00f5es tenham efeito, produzindo quedas e aberturas, \u00e9 necess\u00e1rio um consentimento do analisante, um deixar-se ir, que tamb\u00e9m \u00e9 dar de si. Seria esse consentimento a transfer\u00eancia, seria ele precedente a ela ou viria dela? E na entrada em uma escola do que se trata? (SOUSA; RIBEIRO, 2023, s\/p)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 por estar tamb\u00e9m em torno dessas quest\u00f5es da transmiss\u00e3o, da Escola e da transfer\u00eancia de trabalho, que me \u00e9 imposs\u00edvel conversar sobre esse texto, sem me colocar essas e outras perguntas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ensinar algo sobre a psican\u00e1lise e sua t\u00e9cnica?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suas observa\u00e7\u00f5es sobre o ensino da psican\u00e1lise nas universidades, Freud (1919[1918]\/1976, p. 219) se refere \u00e0 impossibilidade de sua transmiss\u00e3o integral em aulas te\u00f3ricas, invocando a necessidade \u201cpara finalidades de pesquisa\u201d de acesso ao material cl\u00ednico, por meio de ambulat\u00f3rio ou hospital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais que as recomenda\u00e7\u00f5es, indica\u00e7\u00f5es, pretensamente pragm\u00e1ticas, sabemos estar diante de um imposs\u00edvel. Se Freud assinalava o imposs\u00edvel de psicanalisar, incluindo a psican\u00e1lise entre as profiss\u00f5es imposs\u00edveis ao lado das de educar e governar, Lacan afirmava o imposs\u00edvel do ensino da psican\u00e1lise e apostava em sua transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pergunta puxa outra, e outra&#8230; esse \u00e9 mesmo o m\u00e9todo da psican\u00e1lise, que coloca em jogo o que Miller indicava como paix\u00e3o da ignor\u00e2ncia, n\u00e3o h\u00e1 saber todo, n\u00e3o h\u00e1 transmiss\u00e3o toda. Talvez o que se transmita, afinal, seja mesmo uma quest\u00e3o, na melhor das hip\u00f3teses, um desejo de saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 pela transfer\u00eancia de trabalho que se entra na Escola e \u00e9 ela que faculta a transmiss\u00e3o, a \u201cinventar a pr\u00f3pria maneira de ler\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao texto do inconsciente trata-se de \u201cproduzir uma certa dist\u00e2ncia de si para ler-se de outro modo\u201d (SALMAN, 2022, p. 6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluo, com Miller (1994, p. 3), que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Este enunciado indiz\u00edvel, causa do sintoma, \u00e9 a partir de ent\u00e3o assimil\u00e1vel a um enunciado escrito no sujeito e que ele n\u00e3o poderia l\u00ea-lo como se deve. Isto que Freud chamou de inconsciente, \u00e9 estritamente equivalente a um texto escrito indecifr\u00e1vel, subsistindo como os hier\u00f3glifos antes que Champollion viesse a l\u00ea-los e \u2013 para usar os termos que Lacan tomou emprestados de Saussure, mas que n\u00e3o eram ignorados pelos estoicos \u2013 subsistindo como significantes sem significados. Nesse sentido, Lacan p\u00f4de dizer que o inconsciente \u00e9 acima de tudo algo que se l\u00ea.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Sobre o ensino da psican\u00e1lise nas universidades. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVII, 1976. (Trabalho original publicado em 1919[1918]).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S.\u00a0Sobre o in\u00edcio do tratamento.<em>\u00a0<\/em>In:\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Vol. 6. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017. (Trabalho original publicado em 1913).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">IANNINI, G.; TAVARES, P. H. Nota de Edi\u00e7\u00e3o. In:\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Vol. 6. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">KARDINER, A.\u00a0<em>Mi an\u00e1lisis con Freud<\/em>. M\u00e9xico: Ed. Joaqu\u00edn Mortiz, 1979. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/\">https:\/\/enapol.com\/xi\/pt\/<\/a>\u00a0bibliografia-2\/primeira-parte\/citacoes\/. Acesso em: 10 abr. 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder. In:\u00a0<em>Escritos.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Zahar, 1998. (Texto original publicado em 1958).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 10<\/em>: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. (Trabalho original proferido em 1962-63).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, D. A psican\u00e1lise e seu ensino expl\u00edcito.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 79, p. 3-5, 2018.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A<em>.<\/em>\u00a0N\u00e3o h\u00e1 cl\u00ednica sem \u00e9tica. In:\u00a0<em>Matemas I<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. O m\u00e9todo psicanal\u00edtico. In:\u00a0<em>Lacan Elucidado<\/em>: palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Intui\u00e7\u00f5es milanesas.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online nova s\u00e9rie,<\/em>\u00a0ano 2, n. 5, nov. 2011. Dispon\u00edvel em: www.opcaolacaniana.com.br. Acesso em: 21 jun. 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. O div\u00e3. S\u00e9culo XXI. Amanh\u00e3, a mundializa\u00e7\u00e3o dos div\u00e3s? Em dire\u00e7\u00e3o ao corpo port\u00e1til.<em>\u00a0Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 84, p. 43-44, 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A.\u00a0<em>Come iniziano le analisi?<\/em>. 1994. Dispon\u00edvel em: enapol.com\/xi\/wp-content\/uploads\/2023<em>.\u00a0<\/em>Acesso em: 10 abr. 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SALMAN, S. A crescente decomposi\u00e7\u00e3o do discurso anal\u00edtico.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 85, p. 5-7, 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SOUSA, D. P.; RIBEIRO, S. M. Sobre a aula inaugural<em>.\u00a0<\/em><em>Boletim Eletr\u00f4nico da EBP Rio e ICP-RJ<\/em>, n.\u00a0 2, abr. 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/inventar-a-propria-maneira-de-ler#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0O presente artigo foi apresentado em 11\/04\/2023, no contexto das 59\u00aa Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias do IPSM-MG. Agrade\u00e7o \u00e0s coordenadoras Lucia Mello e Luciana Silviano Brand\u00e3o pelo convite.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rcia Mez\u00eancio A.P. da Escola Brasileira de Psican\u00e1ise\/AMP Mestre em Estudos Psicanal\u00edticos (UFMG) marciasouzamezencio@gmail.com Resumo:\u00a0Este artigo traz a leitura, a contextualiza\u00e7\u00e3o e o coment\u00e1rio acerca do artigo de Freud intitulado \u201cSobre o in\u00edcio do tratamento\u201d, publicado em 1913 na s\u00e9rie que ficou conhecida como\u00a0Escritos t\u00e9cnicos, e desdobra algumas reflex\u00f5es sobre a transmiss\u00e3o do saber em&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57787,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-219","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/219","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=219"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/219\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57788,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/219\/revisions\/57788"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57787"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=219"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=219"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=219"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}