{"id":225,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=225"},"modified":"2025-12-01T12:54:13","modified_gmt":"2025-12-01T15:54:13","slug":"o-metodo-psicanalitico-de-freud-a-lacan-e-retorno1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/o-metodo-psicanalitico-de-freud-a-lacan-e-retorno1\/","title":{"rendered":"O m\u00e9todo psicanal\u00edtico: de Freud a Lacan e retorno<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Paula Pimenta<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<br \/>\n<span id=\"cloakeada3b598b0e30a93c48b9c2da534719\"><a href=\"mailto:paularamos.pimenta@gmail.com\">paularamos.pimenta@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:<\/strong>\u00a0Este artigo se prop\u00f5e a apresentar em detalhes o texto de Miller (1997), intitulado \u201cO m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d, e o texto quase hom\u00f4nimo de Freud (1904[1905]\/2017), intitulado \u201cO m\u00e9todo psicanal\u00edtico freudiano\u201d. O percurso a ser feito partir\u00e1 do texto de Freud, passando pelo de Miller e retornando ao de Freud com a inten\u00e7\u00e3o de promover uma interlocu\u00e7\u00e3o entre eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0m\u00e9todo psicanal\u00edtico; Freud; Lacan; Miller.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THE PSYCHOANALYTIC METHOD: FROM FREUD TO LACAN AND BACK<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This article proposes to present in detail the text by Miller (1997), \u201cThe psychoanalytic method\u201d, and the almost homonymous text by Freud (1904\/2017), entitled \u201cThe freudian psychoanalytic method\u201d. The route to be taken will start from Freud&#8217;s text, passing through Miller&#8217;s and returning to Freud&#8217;s with the intention of promoting an interlocution between them.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:\u00a0<\/strong>psychoanalytic method; Freud; Lacan; Miller.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div id=\"attachment_220\" style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"567\" data-large_image_height=\"567\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-220\" class=\"size-full wp-image-220\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"567\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico.png 567w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico-300x300.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/metodopsicanalitico-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-220\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<em>\u201cO m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d, por S. Freud<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO m\u00e9todo psicanal\u00edtico freudiano\u201d, texto de Freud de 1904, foi escrito em terceira pessoa para ser publicado no livro\u00a0<em>Os fen\u00f4menos compulsivos ps\u00edquicos<\/em>, do m\u00e9dico neurologista alem\u00e3o Leopold Loewenfeld, que se interessou pelas doen\u00e7as nervosas. Em nota de rodap\u00e9 de seu texto sobre o Homem dos Ratos, Freud confessou tomar o livro de Loewenfeld como seu manual padr\u00e3o para a abordagem da neurose obsessiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com as notas de apresenta\u00e7\u00e3o do referido texto de Freud constantes na cole\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>, ele seria \u201ca primeira exposi\u00e7\u00e3o abrangente acerca da t\u00e9cnica psicanal\u00edtica\u201d feita por Freud, aproveitando-se da ocasi\u00e3o para a formaliza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise como t\u00e9cnica terap\u00eautica, uma vez que j\u00e1 ocorria sua expans\u00e3o internacional por meio dos trabalhos do psiquiatra Eugen Bleuler, na Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O editor ressalta a curiosa op\u00e7\u00e3o nominativa de Freud, que designa como \u201carte da interpreta\u00e7\u00e3o\u201d a principal ferramenta t\u00e9cnica de sua jovem ci\u00eancia, em um momento em que se dedicava a faz\u00ea-la ser reconhecida por sua cientificidade no meio m\u00e9dico. Com efeito, vemos que Freud introduz como \u201carte da interpreta\u00e7\u00e3o\u201d o que mais tarde passar\u00e1 a chamar de \u201cassocia\u00e7\u00e3o livre\u201d. Ele assim a descreve por meio de uma analogia mineral\u00f3gica: a \u201carte da interpreta\u00e7\u00e3o tem o m\u00e9rito de, a partir dos min\u00e9rios das ocorr\u00eancias involunt\u00e1rias, representar o teor de metal dos pensamentos recalcados\u201d (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 55). Tal descri\u00e7\u00e3o, como o pr\u00f3prio Freud indica em um momento do texto, n\u00e3o deixa de nos remeter \u00e0 t\u00e9cnica por ele exposta quatro anos antes em seu artigo sobre a \u201cInterpreta\u00e7\u00e3o dos Sonhos\u201d e que ele retoma de maneira mais esquem\u00e1tica na \u00faltima d\u00e9cada de seu ensino, em 1932, na Confer\u00eancia XXIX, \u201cRevis\u00e3o da teoria dos sonhos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u201cocorr\u00eancia\u201d (<em>Einfall<\/em>) podemos entender uma ideia ou imagem que se imp\u00f5e \u00e0 pessoa \u2013 neste sentido, conferir a nota de rodap\u00e9 n. 3 na p\u00e1gina 60 da edi\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud\u00a0<\/em>aqui utilizada. As \u201cocorr\u00eancias involunt\u00e1rias\u201d seriam, portanto, toda e qualquer manifesta\u00e7\u00e3o ps\u00edquica espont\u00e2nea, em resposta \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o inicial do psicanalista de que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">[os pacientes] lhe contem tudo que lhes vem \u00e0 cabe\u00e7a, mesmo se acharem n\u00e3o ser importante, ou se acharem que aquilo n\u00e3o vem ao caso, ou que n\u00e3o faz sentido\u201d, enfatizando que \u201cn\u00e3o excluam nenhum pensamento ou nenhuma ocorr\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o pelo fato de lhes parecer vergonhoso ou embara\u00e7oso. (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 54)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sua experi\u00eancia, Freud (1904[1905]\/2017, p. 54) observa que as ocorr\u00eancias involunt\u00e1rias apontam para lacunas nas lembran\u00e7as da narrativa do hist\u00f3rico da doen\u00e7a, o que o leva a afirmar que \u201csem amn\u00e9sia de qualquer tipo n\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3rico da doen\u00e7a neur\u00f3tica\u201d. E acrescenta que, se o psicanalista insiste para o paciente se esfor\u00e7ar em preencher essas lacunas da mem\u00f3ria, o que ele recolhe \u00e9 uma \u201cresist\u00eancia\u201d em tentar reproduzir os eventos ou correla\u00e7\u00f5es esquecidas, denotada, sobretudo, por uma postura cr\u00edtica do narrador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud estabelece, assim, o momento da resist\u00eancia na aplica\u00e7\u00e3o da \u201carte da interpreta\u00e7\u00e3o\u201d como um dos fundamentos de sua teoria da psican\u00e1lise, a servi\u00e7o do recalque (<em>Verdr\u00e4ngung<\/em>), que busca evitar o surgimento de sensa\u00e7\u00f5es de mal-estar naquele que narra. \u201cQuanto maior a resist\u00eancia, maior ser\u00e1 a deforma\u00e7\u00e3o [das forma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas recalcadas (pensamentos ou mo\u00e7\u00f5es)]\u201d (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 55).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Freud inicia seu artigo sobre o m\u00e9todo psicanal\u00edtico trazendo seus antecedentes \u2013 ou seja, o \u201cprocesso cat\u00e1rtico\u201d, proposto por Joseph Breuer, e a amplia\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia obtida atrav\u00e9s da hipnose, sem que haja uma postura de proibi\u00e7\u00e3o sugestiva por parte do m\u00e9dico \u2013, \u00e9 para ressaltar a import\u00e2ncia de sua pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o da \u201carte da interpreta\u00e7\u00e3o\u201d. Ele a apresenta como o \u00fanico caminho \u2013 apesar de mais trabalhoso, em compara\u00e7\u00e3o com a hipnose \u2013 para alcan\u00e7ar o objetivo que o m\u00e9todo psicanal\u00edtico pretende alcan\u00e7ar, o qual ele exprime por v\u00e1rias \u201cf\u00f3rmulas\u201d, equivalentes em sua ess\u00eancia: suspens\u00e3o das amn\u00e9sias, revers\u00e3o de todos os recalques ou \u201ctornar o inconsciente acess\u00edvel ao consciente, o que ocorre atrav\u00e9s da supera\u00e7\u00e3o das resist\u00eancias\u201d (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 56).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, engana-se quem acha que Freud \u00e9 tolo do Real (nos termos lacanianos) e se ilude com uma fantasia de completude. Logo ap\u00f3s a enuncia\u00e7\u00e3o das tais f\u00f3rmulas, ele acrescenta: \u201cMas n\u00e3o podemos esquecer aqui que um estado ideal como esse tamb\u00e9m n\u00e3o existe em uma pessoa normal, e que s\u00f3 raras vezes conseguimos nos aproximar minimamente desse ponto no tratamento\u201d (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 56). Estamos em 1904. Freud n\u00e3o precisou esperar 33 anos para concluir, como faz explicitamente em seus dois textos de 1937 \u2013 \u201cA an\u00e1lise finita e a infinita\u201d e \u201cConstru\u00e7\u00f5es na an\u00e1lise\u201d \u2013 sobre a exist\u00eancia de fen\u00f4menos residuais em uma an\u00e1lise; em outras palavras, sobre o ponto opaco<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">que insiste ao longo de toda uma an\u00e1lise e ganha, com a an\u00e1lise, algum contorno, alguma localiza\u00e7\u00e3o, mas insiste sem qualquer possibilidade de desligamento ou apagamento: analisa-se, portanto, para se haver com uma satisfa\u00e7\u00e3o que se reitera sem se deixar negativizar, porque ela \u00e9 tamb\u00e9m, mesmo perturbando-os, o que confere vida aos corpos e implica uma parceria da qual n\u00e3o h\u00e1 propriamente como se livrar ou afastar. (LAIA, 2017, p.400)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como solu\u00e7\u00e3o \u00e0 aporia institu\u00edda, Freud enuncia o que se tornou uma c\u00e9lebre passagem de sua obra. Ele diz: \u201co objetivo do tratamento nunca ser\u00e1 algo diferente do que a cura pr\u00e1tica do doente, o estabelecimento de sua capacidade de realizar e de gozar\u201d (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 57). Vale aqui, novamente, real\u00e7ar a observa\u00e7\u00e3o do revisor da edi\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud\u00a0<\/em>aqui utilizada, que aponta o reducionismo da express\u00e3o mais comumente conhecida \u201ctrabalhar e amar\u201d; a justa tradu\u00e7\u00e3o dos termos usados por Freud (<em>leisten<\/em>\u00a0e\u00a0<em>genieBen<\/em>) revela os sentidos de realizar (coisas) e fruir ou gozar (a vida). E segue Freud (1904[1905]\/2017, p. 57): \u201cEm caso de tratamento incompleto ou de resultados imperfeitos desse tratamento, alcan\u00e7amos principalmente uma melhora significativa do estado ps\u00edquico geral do doente, enquanto os sintomas podem continuar existindo, sem, por\u00e9m, estigmatiz\u00e1-lo como doente, mas tendo menor import\u00e2ncia para ele\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u201cresultados imperfeitos\u201d do tratamento relacionam-se tamb\u00e9m, a meu ver, com um fator mencionado por Freud no in\u00edcio do texto. Ele justificava a pertin\u00eancia da mudan\u00e7a do m\u00e9todo cat\u00e1rtico para a \u201carte da interpreta\u00e7\u00e3o\u201d pelo fato desta conseguir se aproximar mais da s\u00e9rie de impress\u00f5es que participavam do surgimento do sintoma, que se revelou plural e n\u00e3o apenas como impress\u00e3o \u00fanica (e traum\u00e1tica), tal como requeria o procedimento cat\u00e1rtico para seu \u00eaxito. Sobre essa \u201cs\u00e9rie de impress\u00f5es\u201d que causavam o sintoma \u2013 o que nos remete \u00e0 sua formula\u00e7\u00e3o posterior de que o sintoma \u00e9 uma \u201csolu\u00e7\u00e3o de compromisso\u201d entre as inst\u00e2ncias do Isso, do Supereu e do mundo externo, ao qual o Eu encontra-se submetido \u2013, Freud (1904[1905]\/2017, p. 52) dir\u00e1 que elas (as impress\u00f5es em s\u00e9rie) s\u00e3o \u201cdif\u00edceis de serem superadas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em acr\u00e9scimo aos aspectos t\u00e9cnicos que justificam a mudan\u00e7a de m\u00e9todo, Freud menciona o uso do div\u00e3 \u2013 que, no texto, ele descreve como \u201ccama de descanso\u201d (e n\u00e3o\u00a0<em>Diwan<\/em>) \u2013 com o prop\u00f3sito de que o analisante poupe \u201ctodo e qualquer esfor\u00e7o muscular, assim como toda impress\u00e3o dos sentidos que possa atrapalhar a concentra\u00e7\u00e3o na sua pr\u00f3pria atividade an\u00edmica\u201d (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 53), diferentemente, por\u00e9m, do contexto da hipnose, sem que necessite fechar os olhos ou que haja qualquer contato com a pessoa do m\u00e9dico. A dificuldade de grande n\u00famero de pessoas neur\u00f3ticas em serem hipnotizadas \u00e9 outro argumento, que se soma aos demais, em favor da institui\u00e7\u00e3o do novo m\u00e9todo da \u201carte da interpreta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a quem ela se destina? A \u201ctodos os quadros sintom\u00e1ticos da histeria multiforme e tamb\u00e9m para todas as forma\u00e7\u00f5es da neurose obsessiva\u201d (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 57). Dentre estes, os mais favor\u00e1veis s\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">os casos cr\u00f4nicos de psiconeuroses com sintomas pouco intempestivos ou potencialmente pouco perigosos, ou seja, inicialmente todos os tipos de neurose obsessiva, de pensamento e atua\u00e7\u00e3o obsessiva, e casos de histeria em que fobias e abulias t\u00eam papel preponderante, mas tamb\u00e9m todas as manifesta\u00e7\u00f5es som\u00e1ticas da histeria, desde que a elimina\u00e7\u00e3o r\u00e1pida dos sintomas, como no caso da anorexia, n\u00e3o se torne a tarefa principal do m\u00e9dico. (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 57)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud estabelece condi\u00e7\u00f5es para a pessoa que ser\u00e1 submetida com sucesso \u00e0 psican\u00e1lise: mostrar um estado ps\u00edquico normal, sem estados de confus\u00e3o ou de depress\u00e3o melanc\u00f3lica; ter determinado grau de intelig\u00eancia natural e de desenvolvimento \u00e9tico, pois as deforma\u00e7\u00f5es marcantes de car\u00e1ter mostram-se fontes de resist\u00eancias insuper\u00e1veis; e faixa et\u00e1ria abaixo do quinto dec\u00eanio pois, do contr\u00e1rio, o tempo necess\u00e1rio para o restabelecimento ser\u00e1 demasiado longo, al\u00e9m de que, aos 50 anos, a capacidade de reverter processos ps\u00edquicos come\u00e7a a fraquejar. Sobre este ponto, cabe lembrar que a expectativa e a qualidade de vida em 1904 encontravam-se bem aqu\u00e9m das atuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, o tempo de dura\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise \u00e9 estimado de seis meses a tr\u00eas anos para os casos muito graves, adoecidos h\u00e1 muitos anos e com total incapacidade produtiva \u2013 p\u00fablico corrente dos psicanalistas, at\u00e9 ent\u00e3o. Fora de sua experi\u00eancia pr\u00e1tica mais comum, Freud estima que o tratamento dos casos mais leves teria uma dura\u00e7\u00e3o bem menor, chegando a \u201cobter um ganho extraordin\u00e1rio em termos de preven\u00e7\u00e3o para o futuro\u201d (Freud, 1904\/2017, p. 58).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cO m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d, por J.-A. Miller<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto de Miller intitulado \u201c<em>O m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d<\/em>\u00a0comp\u00f5e-se pelo estabelecimento de tr\u00eas confer\u00eancias dadas pelo autor em Curitiba em julho de 1987. Ele participa do livro\u00a0<em>Lacan Elucidado: palestras no Brasil<\/em>, publicado dez anos mais tarde, em 1997, como uma colet\u00e2nea das palestras proferidas por Miller no Brasil entre os anos 1981 e 1995.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d \u00e9 o t\u00edtulo do terceiro cap\u00edtulo do referido livro e engloba quatro se\u00e7\u00f5es: a primeira palestra, intitulada \u201cDiscurso do m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d; a segunda, denominada \u201cDiagn\u00f3stico e localiza\u00e7\u00e3o subjetiva\u201d; a terceira, \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao inconsciente\u201d; e uma quarta, designada como \u201cRespostas e quest\u00f5es em aberto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De pronto, Miller introduz um esquema que encadear\u00e1 o desenvolvimento das tr\u00eas confer\u00eancias. Trata-se das finalidades das Entrevistas Preliminares, tempo inicial da pr\u00e1tica anal\u00edtica, que se subdividem em tr\u00eas n\u00edveis: 1. A avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica; 2. A localiza\u00e7\u00e3o subjetiva; e 3. A introdu\u00e7\u00e3o ao inconsciente. Esses n\u00edveis das Entrevistas Preliminares se superp\u00f5em, sem que haja separa\u00e7\u00e3o completa entre eles. Suas interse\u00e7\u00f5es configuram-se no estabelecimento de dois processos subsequentes, que Miller denomina de Subjetiva\u00e7\u00e3o (entre os n\u00edveis 1 e 2) e de Retifica\u00e7\u00e3o (entre os n\u00edveis 2 e 3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segue o esquema, segundo sua nota\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. A avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Subjetiva\u00e7\u00e3o]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. A localiza\u00e7\u00e3o subjetiva<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Retifica\u00e7\u00e3o]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. A introdu\u00e7\u00e3o ao inconsciente<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de se dedicar \u00e0 explana\u00e7\u00e3o de cada um, Miller circunscreve a pr\u00e1tica das Entrevistas Preliminares como o que rege, eticamente, a responsabilidade do analista em responder \u00e0 demanda de an\u00e1lise formulada pelo candidato a analisante. \u201cAceit\u00e1-lo ou recus\u00e1-lo j\u00e1 \u00e9 um ato anal\u00edtico\u201d (MILLER, 1997, p. 224) e, para fundamentar tal ato, \u00e9 preciso saber que, numa an\u00e1lise, nos dirigimos sempre ao sujeito, cuja categoria n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnica, e, sim, \u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua proposta de fazer um \u201cdiscurso do m\u00e9todo\u201d da psican\u00e1lise, deixando as quest\u00f5es em aberto (da\u00ed o t\u00edtulo da quarta se\u00e7\u00e3o), Miller ressalta que a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 sem padr\u00f5es, mas n\u00e3o sem princ\u00edpios \u2013 e se disp\u00f5e a formaliz\u00e1-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7a por esclarecer que quem procura um analista n\u00e3o \u00e9 um sujeito, mas algu\u00e9m que quer ser um paciente. O sujeito \u00e9 um efeito do processo anal\u00edtico e n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 desde antes. Desse modo, Miller diferencia o paciente psiqui\u00e1trico, designado pelos outros (fam\u00edlia, m\u00e9dico, sociedade, inst\u00e2ncias sociais), do paciente da psican\u00e1lise. Este \u00faltimo \u00e9 ativo, \u00e9 ele quem primeiro avalia seu sintoma e pede ao analista um aval para sua autoavalia\u00e7\u00e3o. \u201cEm an\u00e1lise, n\u00e3o h\u00e1 paciente \u00e0 revelia de si mesmo\u201d, sinaliza Miller (1997, p. 223). A autoriza\u00e7\u00e3o do analista quanto \u00e0 autoavalia\u00e7\u00e3o daquele que lhe chega como paciente configura um ato anal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas isso n\u00e3o implica em receb\u00ea-lo em an\u00e1lise. Aqui se institui o contexto das Entrevistas Preliminares que, dentre outras fun\u00e7\u00f5es, levar\u00e1 o paciente-candidato a reformular sua demanda. Sua dura\u00e7\u00e3o \u00e9 vari\u00e1vel, podendo perdurar por um m\u00eas, meses, um ano ou v\u00e1rios, sem, no entanto, se descuidar da especialidade desse tempo que precede \u201ca an\u00e1lise em seu rigor\u201d (MILLER, 1997, p. 224).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, o primeiro n\u00edvel das Entrevistas Preliminares, o da Avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, ter\u00e1 como fun\u00e7\u00e3o o estabelecimento de um diagn\u00f3stico estrutural \u2013 neurose, psicose ou pervers\u00e3o. Diante de uma eventual d\u00favida diagn\u00f3stica \u2013 n\u00e3o t\u00e3o eventual assim, por vez comum de acontecer \u2013, Miller indica que o analista poder\u00e1 recusar a demanda, prolongar o tempo das Entrevistas Preliminares ou assumir um risco mais ou menos calculado. Adverte quanto \u00e0 import\u00e2ncia vital da avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica nos casos de psicose, pois se ela n\u00e3o estiver desencadeada, a an\u00e1lise poder\u00e1 vir a desencade\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cH\u00e1 uma regra segundo a qual devemos recusar a demanda de an\u00e1lise do paciente pr\u00e9-psic\u00f3tico. Se isso n\u00e3o ocorrer, \u00e9 necess\u00e1rio ter o m\u00e1ximo de cuidado para n\u00e3o desencadear a psicose, atrav\u00e9s de qualquer palavra\u201d (MILLER, 1997, p. 226). Essa \u00e9 uma das passagens do texto que o fazem poder ser considerado datado. A express\u00e3o \u201cpr\u00e9-psicose\u201d denota a detec\u00e7\u00e3o de uma estrutura psic\u00f3tica, por\u00e9m n\u00e3o desencadeada. Foi somente 12 anos mais tarde, em 1999, em decorr\u00eancia da s\u00e9rie de conversa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas ocorridas na Fran\u00e7a \u2013 notadamente a Conversa\u00e7\u00e3o de Antibes \u2013, que Miller veio a cunhar o termo \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d para abarcar esses casos. A contraindica\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise para os pacientes de estrutura psic\u00f3tica tamb\u00e9m se mostra anacr\u00f4nica e centrada no modelo do manejo com os pacientes neur\u00f3ticos \u2013 para os quais se aplicam os demais n\u00edveis do esquema esbo\u00e7ado neste texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller aconselha a todo analista ter um saber profundo e extensivo sobre a estrutura psic\u00f3tica e indica os par\u00e2metros dos fen\u00f4menos elementares que devem guiar a avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica desse primeiro n\u00edvel: os fen\u00f4menos de automatismo mental, de automatismo corporal e aqueles concernentes ao sentido e \u00e0 verdade. Em seguida, realiza breves diagn\u00f3sticos diferenciais entre psicose e histeria, psicose e neurose obsessiva e psicose e pervers\u00e3o. Termina ent\u00e3o sua primeira confer\u00eancia, \u201cDiscurso do m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d, estabelecendo a categoria da enuncia\u00e7\u00e3o como um operador pr\u00e1tico para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica e promotora do segundo n\u00edvel da Entrevistas Preliminares, a saber, o n\u00edvel da localiza\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda confer\u00eancia, portanto, intitula-se \u201cDiagn\u00f3stico e localiza\u00e7\u00e3o subjetiva\u201d, e vai abordar o lugar do sujeito na an\u00e1lise. Para diferenciar a cl\u00ednica psicanal\u00edtica, que visa a subjetividade, das demais, objetivas, Miller distingue a conduta do paciente da posi\u00e7\u00e3o que ele assume diante de seus atos. \u201cComo vemos, o n\u00edvel descritivo n\u00e3o \u00e9 de muita valia na experi\u00eancia anal\u00edtica. [&#8230;] O essencial \u00e9 o que o paciente diz\u201d (MILLER, 1997, p. 235). Miller demarca a import\u00e2ncia do analista se separar da dimens\u00e3o do fato para entrar na dimens\u00e3o do dito. A isso deve-se acrescentar um segundo passo: questionar a posi\u00e7\u00e3o tomada por quem fala quanto aos pr\u00f3prios ditos. \u201cTrata-se de distinguir entre o dito e a posi\u00e7\u00e3o frente a ele, que \u00e9 o pr\u00f3prio sujeito\u201d (MILLER, 1997, p. 238). Temos, aqui, o princ\u00edpio da localiza\u00e7\u00e3o subjetiva, na an\u00e1lise, pela via da distin\u00e7\u00e3o entre enunciado e enuncia\u00e7\u00e3o, entre o dito e o dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fen\u00f4menos que se passam entre o enunciado, o que se diz, e a enuncia\u00e7\u00e3o, na qual se localiza o sujeito, s\u00e3o decisivos para a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. Desse modo, diante da modaliza\u00e7\u00e3o institu\u00edda pela nega\u00e7\u00e3o \u2013 por exemplo, com o paciente de Freud que enuncia, ap\u00f3s o relato do sonho, \u201cn\u00e3o \u00e9 minha m\u00e3e\u201d \u2013 ou por outra posi\u00e7\u00e3o do sujeito, a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica m\u00ednima \u00e9: \u201cVoc\u00ea o disse, eu n\u00e3o fiz voc\u00ea diz\u00ea-lo\u201d (MILLER, 1997, p. 240), o que aponta para a etapa l\u00f3gica seguinte, da retifica\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem segue sempre em retroa\u00e7\u00e3o; o significante toma seu sentido retroativamente, somente a partir de um segundo significante. Miller o exemplifica com as frases de seu paciente, que primeiro lhe diz: \u201cSou um jo\u00e3o-ningu\u00e9m\u201d; ao que acrescenta: \u201c\u00c9 o que meu pai sempre dizia\u201d, o que modifica o sentido da primeira frase.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sentido do significante \u00e9 dado por retroa\u00e7\u00e3o e o sujeito fala por um cont\u00ednuo processo de cita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">N\u00e3o h\u00e1 unidade da cadeia significante, do ponto de vista da enuncia\u00e7\u00e3o. Uma palavra \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do discurso do outro. \u00c9 a voz do pai que fala quando o sujeito diz \u201ceu n\u00e3o sou nada\u201d. [&#8230;] A cadeia significante \u00e9 polif\u00f4nica, falamos a v\u00e1rias vozes, modificando continuamente a posi\u00e7\u00e3o do sujeito. (MILLER, 1997, p. 243)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto leva Miller a questionar at\u00e9 que ponto o sujeito fala em seu pr\u00f3prio nome. Como m\u00e9todo anal\u00edtico, ele, no entanto, institui a import\u00e2ncia da pontua\u00e7\u00e3o do analista, que fixa a posi\u00e7\u00e3o subjetiva em meio ao deslizamento significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reproduzindo de outra maneira o que exp\u00f4s Freud em seu texto, ao falar das resist\u00eancias que v\u00e3o contra a vontade de restabelecimento do paciente, Miller indica que a modaliza\u00e7\u00e3o do dito pode se dar de tal maneira que uma demanda expl\u00edcita de mudan\u00e7a pode revelar-se a de n\u00e3o mudar. Com isso, estipula uma fun\u00e7\u00e3o essencial para o analista, nas Entrevistas Preliminares: a de mal-entendido, revelado na pergunta que ele dirige ao analisante \u2013 \u201cO que voc\u00ea quer dizer com isso?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Assim, localizar o sujeito consiste em fazer aparecer a caixa vazia onde se inscrevem as varia\u00e7\u00f5es da posi\u00e7\u00e3o subjetiva. \u00c9 como p\u00f4r entre par\u00eanteses o que o sujeito diz e fazer com que ele perceba que toma diferentes posi\u00e7\u00f5es modalizadas para com seu dito. (MILLER, 1997, p. 247)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito \u00e9, portanto, essa caixa vazia que lhe revela \u201ceu n\u00e3o sei o que digo\u201d, fazendo da enuncia\u00e7\u00e3o o pr\u00f3prio lugar do inconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira confer\u00eancia, denominada \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao inconsciente\u201d, retoma a rela\u00e7\u00e3o entre o dito e o dizer para indicar que a \u00e9tica da psican\u00e1lise toca o bem-dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">O analista, separando enunciado e enuncia\u00e7\u00e3o ao reformular a demanda e introduzir o mal-entendido, guia o sujeito para o encontro do inconsciente: leva-o ao questionamento de seu desejo e do que pretende dizer quando fala, fazendo-o assim perceber que h\u00e1 sempre uma boca mal-entendida. (MILLER, 1997, p. 250)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs entrevistas preliminares n\u00e3o s\u00e3o apenas uma investiga\u00e7\u00e3o para localizar o sujeito, mas tamb\u00e9m a mudan\u00e7a efetiva de sua posi\u00e7\u00e3o [&#8230;] algu\u00e9m que se refere ao que disse guardando dist\u00e2ncia do dito\u201d (MILLER, 1997, p. 250). Esse processo se constitui em uma retifica\u00e7\u00e3o subjetiva. Ela \u00e9 alcan\u00e7ada por meio da localiza\u00e7\u00e3o subjetiva, a partir da qual o sujeito passa a aceitar a associa\u00e7\u00e3o livre (dizendo nos termos do Freud de 1904, a \u201carte da interpreta\u00e7\u00e3o\u201d), a falar sem censurar o que diz buscando o sentido, a abandonar a posi\u00e7\u00e3o de mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller (1997, p. 253) precisa que o essencial para abrir o que chamou de \u201cespa\u00e7o anal\u00edtico\u201d \u00e9 o sujeito. E o define da seguinte maneira: \u201co sujeito \u00e9 a pr\u00f3pria perda, jamais cont\u00e1vel em seu pr\u00f3prio lugar, ao n\u00edvel f\u00edsico, ao n\u00edvel da objetividade. Neste n\u00edvel ele n\u00e3o existe, e \u00e9 responsabilidade do analista produzi-lo num outro, que lhe seja apropriado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E segue, mais \u00e0 frente: \u201cA introdu\u00e7\u00e3o ao inconsciente \u00e9, na realidade, uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 falta-a-ser. O sujeito \u00e9 esta falta-a-ser, n\u00e3o tem subst\u00e2ncia, existe apenas como a tor\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas tempos\u201d (MILLER, 1997, p. 254). E: \u201cLacan chamou retifica\u00e7\u00e3o subjetiva \u00e0 passagem do fato de queixar-se dos outros para queixar-se de si mesmo\u201d (MILLER, 1997, p. 255).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller (1997) observa que, no per\u00edodo mais avan\u00e7ado de seu ensino, no entanto, Lacan n\u00e3o fala tanto de retifica\u00e7\u00e3o subjetiva, mas da histeriza\u00e7\u00e3o do sujeito. O sujeito hist\u00e9rico \u00e9 aquele que se v\u00ea dividido em rela\u00e7\u00e3o ao significante-mestre (S<sub>1<\/sub>), tomando dist\u00e2ncia de todo dito, o que lhe propicia a perda de um ponto de refer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como conclus\u00e3o, recapitula o percurso realizado com as tr\u00eas confer\u00eancias, tendo introduzido o sujeito a partir do tema da enuncia\u00e7\u00e3o, fazendo aparecer ele mesmo como vazio, configurando o drama da falta-a-ser, com o qual o sujeito neur\u00f3tico tem que se haver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E retorno&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para um ensaio de interlocu\u00e7\u00e3o entre os textos, dois temas podem ser ressaltados e ser\u00e3o expostos a seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. Tanto Freud quanto Miller se fazem a pergunta sobre quem poderia se beneficiar do processo anal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud, em sintonia com seu receio quanto a se tomar sujeitos psic\u00f3ticos em an\u00e1lise, estabelece a estrutura neur\u00f3tica, que engloba os tipos cl\u00ednicos da histeria e da neurose obsessiva, como o p\u00fablico-alvo da an\u00e1lise. N\u00e3o recuando, no entanto, diante dos casos graves, \u201cadoecidos h\u00e1 muitos anos e com total incapacidade produtiva\u201d (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 58) como seu p\u00fablico majorit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pensamento freudiano dos prim\u00f3rdios de sua elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica est\u00e1 \u00e0s voltas com o mecanismo do recalque e as resist\u00eancias do aparelho ps\u00edquico que venham a proteger o Eu do mal-estar promovido pelo ressurgimento das lembran\u00e7as reprimidas. Ora, sabemos ser este um mecanismo de funcionamento neur\u00f3tico, com o recalcamento sendo seu mecanismo de defesa primordial \u2013 e a negativa um modo de contorn\u00e1-lo, assim como as demais manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente (as modalidades de equ\u00edvocos pelo falar, pelo agir ou pelo ler, os chistes e os sonhos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Miller (1997, p. 226), ao dizer da \u201cregra segundo a qual devemos recusar a demanda de an\u00e1lise do paciente pr\u00e9-psic\u00f3tico\u201d, ou seja, de estrutura psic\u00f3tica, mesmo em 1987 n\u00e3o parece estar menos advertido quanto aos benef\u00edcios que a psican\u00e1lise possibilita ao sujeito psic\u00f3tico. Mas n\u00e3o nos termos da retifica\u00e7\u00e3o subjetiva, que \u00e9 seu prop\u00f3sito com as confer\u00eancias realizadas sobre o m\u00e9todo psicanal\u00edtico. Para haver a retifica\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso o mecanismo do recalque; em outros termos, da cl\u00ednica estrutural, \u00e9 preciso estar diante de um sujeito neur\u00f3tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Ao descrever as condi\u00e7\u00f5es para o paciente ser submetido com sucesso \u00e0 an\u00e1lise, Freud aponta que \u201cas deforma\u00e7\u00f5es marcantes de car\u00e1ter se mostram fontes de resist\u00eancias insuper\u00e1veis\u201d (FREUD, 1904[1905]\/2017, p. 58). Buscando elucidar a afirmativa de Freud com o texto de Miller, temos que este autor indica que o \u201cverdadeiro perverso\u201d, aquele que se enquadra na estrutura cl\u00ednica da pervers\u00e3o, n\u00e3o procura nem entra em an\u00e1lise por n\u00e3o querer prestar conta a nenhum Outro (MILLER, 2017, p. 255). O perverso n\u00e3o se divide quanto ao gozo, \u201cele sabe tudo o que h\u00e1 para se saber sobre o gozo\u201d (MILLER, 2017, p. 229), e acrescenta que \u201co verdadeiro perverso, muitas vezes, escapa \u00e0 sua pr\u00f3pria an\u00e1lise e se autoriza a analisar, por iniciativa pr\u00f3pria, porquanto julga ter o mais importante saber, o do gozo\u201d (MILLER, 2017, p. 229).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u201cas deforma\u00e7\u00f5es marcantes de car\u00e1ter\u201d de que fala Freud s\u00e3o tomadas como indicativas de uma estrutura perversa, podemos entender, pela via da elabora\u00e7\u00e3o de Miller, porque haveria, em alguns sujeitos, \u201cfontes de resist\u00eancias insuper\u00e1veis\u201d \u00e0 an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por estarem circunscritos a momentos diferentes da elabora\u00e7\u00e3o da teoria psicanal\u00edtica \u2013 1904 e 1987 \u2013, os textos de Freud e de Miller sobre o \u201cm\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d apresentam pontos comuns e outros d\u00edspares, demarcados pela inser\u00e7\u00e3o temporal pr\u00f3pria a cada um. Este \u00faltimo aspecto relan\u00e7a os dois textos, conjuntamente, ao descompasso com elabora\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas mais atuais, como o mencionado sintagma \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d, bem como a formaliza\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica iluminada pelos elementos epist\u00eamicos apresentados pelo chamado \u201cultim\u00edssimo Lacan\u201d. N\u00e3o obstante, os textos aqui apresentados conservam a b\u00fassola orientadora para a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica, evidenciando a posi\u00e7\u00e3o do analista na transfer\u00eancia ao tomar sob sua condu\u00e7\u00e3o um tratamento psicanal\u00edtico.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S.\u00a0O m\u00e9todo psicanal\u00edtico freudiano. In:\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Vol. 6. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017, p. 51-58. (Trabalho original publicado em 1904 [1905]).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAIA, S. Posf\u00e1cio. Orienta\u00e7\u00e3o freudiana. In:\u00a0<em>Obras Incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Vol. 6. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017, p. 383-401.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. O m\u00e9todo psicanal\u00edtico. In:\u00a0<em>Lacan Elucidado<\/em>: palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 219-284.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-metodo-psicanalitico#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0Texto apresentado nas 59\u00aa Li\u00e7\u00f5es Introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise do IPSM-MG, em 14 de mar\u00e7o de 2023.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paula Pimenta Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP paularamos.pimenta@gmail.com Resumo:\u00a0Este artigo se prop\u00f5e a apresentar em detalhes o texto de Miller (1997), intitulado \u201cO m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d, e o texto quase hom\u00f4nimo de Freud (1904[1905]\/2017), intitulado \u201cO m\u00e9todo psicanal\u00edtico freudiano\u201d. O percurso a ser feito partir\u00e1 do texto de Freud, passando pelo de Miller e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57791,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-225","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=225"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57792,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225\/revisions\/57792"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57791"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}