{"id":227,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=227"},"modified":"2025-12-01T12:54:37","modified_gmt":"2025-12-01T15:54:37","slug":"despatologizacao-ou-desmedicalizacao-a-forclusao-do-sintoma1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao-a-forclusao-do-sintoma1\/","title":{"rendered":"Despatologiza\u00e7\u00e3o ou desmedicaliza\u00e7\u00e3o: a forclus\u00e3o do sintoma<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Philippe la Sagna<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, A.M.E. da \u00c9cole de la Cause Freudienne<br \/>\n<span id=\"cloak9ff2939273a85420f71e1f75446b1c29\"><a href=\"mailto:plasagna@free.fr\">plasagna@free.fr<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo<\/strong>: Ap\u00f3s a crise do DSM5 e o surgimento fulgurante do Research Domain Criteria (RDoC) na cl\u00ednica, o modelo de patologia para as doen\u00e7as mentais se tornou um \u201ctranstorno\u201d e se enfraqueceu. Nessa nova situa\u00e7\u00e3o, o referente passa a ser os circuitos neuronais associados aos comportamentos que s\u00e3o isolados em \u00e1reas. Um dos efeitos principais e l\u00f3gicos disso \u00e9 a despatologiza\u00e7\u00e3o e a desmedicaliza\u00e7\u00e3o com o apagamento da terap\u00eautica. Hoje, educamos, reabilitamos e visamos o poder de agir, o empoderamento, e realizamos, assim, uma forclus\u00e3o do sintoma t\u00e3o caro \u00e0 psican\u00e1lise, que n\u00e3o visa o seu apagamento, mas sim aquilo que o sujeito sabe fazer com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave<\/strong>: doen\u00e7as mentais; despatologiza\u00e7\u00e3o; desmedicaliza\u00e7\u00e3o; forclus\u00e3o; sintoma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEPATHOLOGIZATION AND DEMEDICALIZATION: THE FORECLOSURE OF THE SYMPTOM<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract<\/strong>: According to the author, after the DSM5 crisis and the emergence of the Research Domain Criteria (RDoC) in the clinic, the pathology model for mental illness became a \u201cdisorder\u201d and weakened. In this new situation, the referent becomes the neuronal circuits associated with behaviors that are isolated in areas. One of the main and logical effects of this is depathologization and demedicalization with the erasure of therapy. Today, we educate, rehabilitate and aim at the power to act, the empowerment, and thus carry out a foreclosure of the symptom so dear to psychoanalysis, that it does not aim at its erasure, but at what the subject knows how to do with it.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords<\/strong>: mental illness; depathologization; demedicalization; foreclosure; symptom.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_228\" style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2_-_image.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Sofia Nabuco \" data-large_image_width=\"567\" data-large_image_height=\"567\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-228\" class=\"size-full wp-image-228\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2_-_image.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"567\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2_-_image.png 567w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2_-_image-300x300.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2_-_image-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-228\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Sofia Nabuco<\/p><\/div>\n<p>A quest\u00e3o\u00a0<em>trans<\/em>\u00a0lan\u00e7a luz sobre uma forte tend\u00eancia na psiquiatria e at\u00e9 da medicina: a despatologiza\u00e7\u00e3o generalizada da cl\u00ednica e at\u00e9 mesmo sua desmedicaliza\u00e7\u00e3o. N\u00f3s queremos cuidados, mas n\u00e3o queremos mais \u201cfazer dela uma doen\u00e7a&#8221;. Em seu artigo \u201cLa crise post-DSM\u00a0et la psychanalyse \u00e0 l\u2019\u00e2ge num\u00e9rique\u201d,<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#nota2\">[2]<\/a><a id=\"refer2\"><\/a><\/sup>\u00a0\u00c9ric Laurent (2014) havia apontado o fracasso do DSM-V. Em outro artigo, publicado em\u00a0<em>L&#8217;\u00e9volution psychiatrique<\/em>, ele mostrou a l\u00f3gica do que chamou de &#8220;a grande transla\u00e7\u00e3o cl\u00ednica contempor\u00e2nea\u201d (LAURENT, 2019, p. 57).\u00a0 A crise do DSM levou ao aparecimento fulgurante do Research Domain<a id=\"refer3\"><\/a>\u00a0Criteria\u00a0(RDoC)<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#nota3\">[3]<\/a><\/sup>\u00a0na cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Nessa nova situa\u00e7\u00e3o, toma-se como o referente n\u00e3o mais as doen\u00e7as, patologias ou mesmo pacientes, mas circuitos neuronais correlacionados com dados comportamentais que podem ser isolados em \u00e1reas. Em 2015, Steeves Demazeux, de Bordeaux, e Vincent Pidoux, em um artigo sobre este projeto RDoC, mostraram que o desafio dos RDoCs era abandonar o diagn\u00f3stico. O conceito do RDoC \u00e9 o de formalizar construtos te\u00f3ricos que ser\u00e3o os blocos de constru\u00e7\u00e3o da classifica\u00e7\u00e3o. O projeto \u00e9 apresentado como uma pesquisa, o que o protege de uma verifica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica efetiva. Os &#8220;campos&#8221; de pesquisa nunca deixam de surpreender: medo, circuito de recompensa, avers\u00e3o, adic\u00e7\u00e3o, cogni\u00e7\u00e3o (aten\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria), aos quais acrescentamos \u201cos processos sociais, e os sistemas de ativa\u00e7\u00e3o e de modula\u00e7\u00e3o cerebrais\u201d. Em seu livro\u00a0<em>l&#8217;\u00c9clipse du Symptom<\/em>, S. Demazeux (2019) mostra que o que antecedeu ao DSM, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX nos Estados Unidos, foram estudos estat\u00edsticos sobre a sa\u00fade mental: esses projetos t\u00eam em comum o fato de que eles viram as costas para toda heran\u00e7a da psiquiatria. Eles v\u00e3o ainda mais longe, j\u00e1 que parecem querer abandonar a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de sintoma.<\/p>\n<p>\u00c0 frente desse projeto RDoC est\u00e1 um psic\u00f3logo: Bruce Cuthbert. Em um recente artigo, ele define \u201ca estrutura de trabalho do RDoC\u201d (CUTHBERT, 2021). O essencial \u00e9 o desenvolvimento de uma tabela de entrada dupla. No eixo das ordenadas, est\u00e3o as \u00e1reas j\u00e1 mencionadas aqui, e no das abscissas h\u00e1 amontoados de \u201ccircuitos cerebrais\u201d, os genes, as c\u00e9lulas, e at\u00e9 mesmo as mol\u00e9culas e os\u00a0<em>comportamentos.<\/em><\/p>\n<p>O autor especifica que os \u201cconstrutos\u201d s\u00e3o \u201cconceitos n\u00e3o calcul\u00e1veis\u201d propostos a partir de conjuntos convergentes de dados (CUTHBERT, 2021, p. 78). Para ele, o essencial \u00e9 definir trajet\u00f3rias de desenvolvimento: \u201cA maior parte das doen\u00e7as mentais s\u00e3o dist\u00farbios do desenvolvimento neurol\u00f3gico, a matura\u00e7\u00e3o do sistema nervoso interagindo com uma grande variedade de fatores externos mesmo antes do nascimento\u201d (CUTHBERT, 2021, p. 78). E ele se refere \u00e0 extens\u00e3o das desordens do neurodesenvolvimento (TND):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">A este respeito, para tomar um exemplo, Craddock e Owen propuseram um gradiente para a patologia de neurodesenvolvimento que, de forma cont\u00ednua, parte da defici\u00eancia intelectual e avan\u00e7a para o autismo, a esquizofrenia, o transtorno esquizoafetivo, o transtorno bipolar e a depress\u00e3o unipolar. (CUTHBERT, 2021, p. 84)<\/p>\n<p>Aqui, n\u00e3o h\u00e1 descontinuidade no real onde um sujeito do transtorno poderia entrar sorrateiramente. A abordagem sup\u00f5e uma continuidade entre o normal e o anormal que se torna o substituto do patol\u00f3gico. A abordagem \u00e9 dimensional.<\/p>\n<p>Em nosso campo, fomos capazes de avan\u00e7ar uma hip\u00f3tese continu\u00edsta de natureza diferente com o \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d. A ideia era modular a oposi\u00e7\u00e3o do tipo estrutural neurose\/psicose e passar da falta pr\u00f3pria do significante para um exame das conex\u00f5es e a uma cl\u00ednica nodal, borromeana, ou mesmo para uma l\u00f3gica difusa. Mas n\u00e3o \u00e9 nunca uma continuidade baseada na avalia\u00e7\u00e3o dimensional de um d\u00e9ficit em refer\u00eancia ao normal.<\/p>\n<p>A frase de Lacan \u00e9 um falso universal a ser lido \u00e0 luz do n\u00e3o-todo da sexualidade feminina. Lacan, em Vincennes, em 1978, enfatizou que n\u00e3o havia nada de universal no discurso anal\u00edtico. Ele acrescentou que, nesse aspecto, \u201cn\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ensino\u201d. A loucura \u00e9 tamb\u00e9m: \u201censinar, o que n\u00e3o pode ser ensinado\u201d (LACAN, 1979, p. 278). N\u00e3o se trata de dizer, para os RDoCs, que \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d, mas, sim, que \u201ctodo mundo \u00e9 normal\u201d. Em um recente col\u00f3quio em Nantes, um dos participantes (Nicolas Georgieff) sublinhou: \u201cDo lado das \u2018doen\u00e7as\u2019, o modelo de patologia \u2013 que se tornou\u00a0<em>disorder<\/em>\u00a0\u2013 se enfraqueceu. Isso \u00e9 particularmente verdadeiro para os dist\u00farbios reunidos no novo compartimento do \u2018neurodesenvolvimento\u2019, supostos como sendo eminentemente m\u00e9dicos\u201d (GEORGIEFF, 2021).<\/p>\n<p>Para os TNDs, o gen\u00f3tipo substitui o sintoma e substitui a cl\u00ednica. Um dos efeitos principais e l\u00f3gicos dessa desmedicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o apagamento da terap\u00eautica. Hoje, educamos, reabilitamos, visamos o refor\u00e7o do poder de agir \u2013\u00a0<em>empowerment<\/em>\u00a0\u2013 e elogiamos a resili\u00eancia. A doen\u00e7a mental escapa ao psiquiatra, mas tamb\u00e9m ao psic\u00f3logo, que \u00e9 sempre um pouco psi demais tanto para os clientes que n\u00e3o s\u00e3o mais pacientes, como tamb\u00e9m para os seus cuidadores<em>.\u00a0<\/em>Investimos nos pares cuidadores. Realizamos assim uma foraclus\u00e3o do real da doen\u00e7a. A doen\u00e7a, de fato, n\u00e3o \u00e9 um ser; \u00e9 o real da exist\u00eancia do vivente \/ sujeito. Como Lacan (1953\/1998, p. 282) assinalou em 1953 citando a observa\u00e7\u00e3o de Hegel: \u201ca doen\u00e7a [\u00e9] a introdu\u00e7\u00e3o do vivente na exist\u00eancia do sujeito\u201d. A psican\u00e1lise n\u00e3o visa o apagamento do sintoma, mas sim aquilo com que o sujeito se vira, que ele saiba fazer com ele como faz com a sua imagem, que ele o manipule. Atualmente, embaralhamos tudo isso. Essa confus\u00e3o contempor\u00e2nea corre o risco de produzir o que Lacan evocava como os \u201c<em>hollow men<\/em>\u201d (MILLER, 2007), homens com a cabe\u00e7a cheia da palha, com a palha dos circuitos neuronais e dos genes. O psicanalista \u00e9 ent\u00e3o um sintoma do qual queremos prescindir, como de resto. Lacan (1973\/2003, p. 554) afirmava em 1973 \u201cque os tipos cl\u00ednicos decorrem da estrutura\u201d. No entanto, tudo isso n\u00e3o permite que se constituam correlatos na neurose. \u201cOs sujeitos de um tipo n\u00e3o t\u00eam, portanto, qualquer utilidade para os outros do mesmo tipo\u201d (LACAN, 1973\/2003, p. 554).\u00a0 Lacan (1975-76, p. 55) argumentou que a fun\u00e7\u00e3o do sintoma \u00e9 a de operar a nomea\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico: \u201ca nomea\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica coisa no simb\u00f3lico da qual temos certeza de que ela faz furo\u201d. Essa nomea\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante a consist\u00eancia do sistema simb\u00f3lico, mas, sim, seu furo. Isso se op\u00f5e \u00e0 \u201cfutilidade\u201d da ci\u00eancia, \u201cque \u00e9 \u00f3bvio que ela apenas progride pela via \u2013 \u00e9 seu m\u00e9todo, \u00e9 sua hist\u00f3ria, \u00e9 sua estrutura \u2013 s\u00f3 progride pela via de preencher os furos\u201d (LACAN, 1975).<\/p>\n<p><em>Conversa\u00e7\u00e3o<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ang\u00e8le Terrier<\/em>: Obrigada Philippe La Sagna. Voc\u00ea nos apresenta pesquisas na vanguarda da tese \u201cneuro\u201d, na qual h\u00e1 muito claramente uma quest\u00e3o de se livrar de toda no\u00e7\u00e3o de patologia, de sintoma, de diagn\u00f3stico e at\u00e9 mesmo do paciente, a fim de estar interessado apenas em circuitos neurais correlacionados a dados comportamentais, estando a sa\u00fade mental reduzida, portanto, a um quadro de dupla entrada. \u00c9 o que voc\u00ea nomeia como uma despatologiza\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica ou uma desmedicaliza\u00e7\u00e3o. E aqui, por falta de tempo, eu gostaria de ouvir voc\u00ea discutir isso com Herv\u00e9 Castanet, que fala mais sobre a patologiza\u00e7\u00e3o da vida mental.<\/p>\n<p><em>Philippe La Sagna:<\/em>\u00a0Sim, h\u00e1 alguma discuss\u00e3o; embora talvez seja um pouco a mesma coisa. Parece-me que a patologiza\u00e7\u00e3o da vida mental, sobre a qual evocava Herv\u00e9 Castanet, diz respeito, acima de tudo, ao fato de que, a partir do momento em que as neuroci\u00eancias tomaram o poder \u2013 podemos ver isto de uma maneira diferente \u2013, elas abordaram toda a vida mental como sendo suscet\u00edvel a desordens e inventaram, portanto, as doen\u00e7as. Foi isso que colocou o DSM no fosso. Depois de um tempo, eram quatrocentos e cinquenta tipos de doen\u00e7as mentais, o que levou as pessoas a dizer: &#8220;Vamos parar\u201d. Isso parou no dia em que nos perguntamos se o fato das mulheres estarem tristes durante seus per\u00edodos menstruais era uma doen\u00e7a mental ou n\u00e3o. As feministas responderam: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a mental\u201d.<\/p>\n<p>A pergunta que voc\u00ea me fez sobre os furos tamb\u00e9m \u00e9 igualmente importante. O que acontece com os furos na ci\u00eancia? Acredito que a ci\u00eancia da qual falava Lacan e a ci\u00eancia de hoje n\u00e3o t\u00eam muito a ver. \u00c9 preciso entender que a ci\u00eancia, no momento, funciona como uma\u00a0<em>startup<\/em>, tanto no n\u00edvel do financiamento, quanto das publica\u00e7\u00f5es. Os laborat\u00f3rios tamb\u00e9m operam com esse modelo.<\/p>\n<p>O<a id=\"refer4\"><\/a>\u00a0caso Theranos<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#nota4\">[4]<\/a><\/sup>\u00a0\u00e9 um exemplo que est\u00e1 causando um esc\u00e2ndalo no momento. Apesar de se afirmar como ci\u00eancia, ela se verificou completamente manipulada. Estou recebendo em an\u00e1lise alguns cientistas que me dizem como \u00e9 dif\u00edcil fazer pesquisas sem adulterar os resultados para conseguir financiamento. H\u00e1 uma ret\u00f3rica da promessa, como diz Fran\u00e7ois Gonon; \u00e9 preciso levar \u00e0s pessoas a esperan\u00e7a dos amanh\u00e3s que cantam: transplantes de c\u00e9rebro, por exemplo. Estamos quase l\u00e1! Parece-me que isto est\u00e1 de acordo com o que disse Herv\u00e9 Castanet. Para obter amanh\u00e3s que cantem, voc\u00ea inventa coisas que n\u00e3o existem. N\u00e3o \u00e9 mais uma quest\u00e3o de tapar furos, mas de evit\u00e1-los. Esta ci\u00eancia \u00e9 muito mais louca do que a anterior. Antes, quando ela encontrava um furo, tentava respond\u00ea-lo, tampando-o. Agora, quando confrontados com um furo, passam para outra coisa.<\/p>\n<p>A.\u00a0<em>Terrier:<\/em>\u00a0O que voc\u00ea est\u00e1 destacando \u00e9 o del\u00edrio destas falsas ci\u00eancias. A pergunta que eu estava me fazendo foi baseada nessa cita\u00e7\u00e3o de Lacan que voc\u00ea retomou no final de sua palestra, na qual ele indica que a ci\u00eancia s\u00f3 avan\u00e7a ao preencher furos. \u00c9 realmente uma quest\u00e3o de foracluir o pr\u00f3prio furo do simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>P.\u00a0<em>La Sagna:<\/em>\u00a0Talvez eu n\u00e3o concorde com voc\u00ea porque, se fosse uma quest\u00e3o de foraclus\u00e3o, isso deixaria uma esperan\u00e7a. Tudo o que \u00e9 foraclu\u00eddo no simb\u00f3lico retorna no real, voc\u00ea sabe disso. A foraclus\u00e3o do sujeito da ci\u00eancia, \u00e9 o cientista.<\/p>\n<p>A.\u00a0<em>Terrier<\/em><em>:<\/em>\u00a0Isso retorna, de fato.<\/p>\n<p>P.\u00a0<em>La Sagna<\/em><em>:<\/em>\u00a0Poderia dizer, por exemplo, que a ci\u00eancia forclui o sujeito e, infelizmente, o cientista \u00e9 um sujeito que retorna no real, que diz a si mesmo que n\u00e3o deveria ter feito a bomba at\u00f4mica e que vai atirar uma bala na pr\u00f3pria cabe\u00e7a. Se os furos da ci\u00eancia fossem foraclu\u00eddos, eles retornariam no real. Mas, hoje, os cientistas os ignoram, ou seja, eles entram sorrateiramente por cima deles. Como demonstrava o meu amigo Fran\u00e7ois Gonon, com quem trabalhei por muito tempo, apenas os resultados positivos s\u00e3o publicados. O que importa se, tr\u00eas meses depois, novos resultados s\u00e3o publicados demonstrando a falsidade dos resultados anteriores, se ningu\u00e9m os l\u00ea. Eles aparecem em um pequeno par\u00e1grafo. \u00c9 por isso que eu digo que eles evitam os furos. Isso n\u00e3o \u00e9 mais a ci\u00eancia de Lacan, na qual havia debates, col\u00f3quios. Hoje em dia, n\u00e3o \u00e9 o mesmo real.<\/p>\n<p><em>Herv\u00e9 Castanet:<\/em>\u00a0Em sua palestra, voc\u00ea diz: \u201cestas falsas ci\u00eancias\u201d. Podemos dizer isso em nosso campo, mas, assim que o deixamos, essa declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser ouvida; essa \u00e9 a pr\u00e1tica que \u00e9 valorizada em todos os dispositivos cient\u00edficos atualmente, ou em quase todos. Portanto, a pergunta que fiz a mim mesmo \u00e9 menos porque isso \u00e9 assim, do que questionar como isso p\u00f4de ser poss\u00edvel. Como esse modo de proceder, do qual zombamos sempre, pode hoje prosperar? Aplicando uma epistemologia, por mais rudimentar e eficaz que seja, por exemplo a de Canguilhem, percebe-se que esses argumentos n\u00e3o se sustentam e, apesar de tudo, generalizaram-se a tal ponto que os laborat\u00f3rios, n\u00e3o s\u00f3 na Fran\u00e7a, mas tamb\u00e9m no exterior, s\u00e3o mantidos por esse tipo de ci\u00eancia. Da\u00ed minhas refer\u00eancias ao Coll\u00e8ge de France e \u00e0 Academia de Ci\u00eancias.<\/p>\n<p>Fiquei muito sensibilizado com a observa\u00e7\u00e3o feita anteriormente por J.-A. Miller. N\u00e3o ficamos obrigados, de uma certa forma, a estar nos por\u00f5es, nas catacumbas, quando constatamos que todos os dispositivos s\u00e3o desse tipo? Os acad\u00eamicos de psicologia n\u00e3o sonharam sempre com o jaleco branco? Zombamos tanto deles e de sua disciplina, ao nos referirmos ao famoso texto de Canguilhem. De maneira efetiva, suas esperan\u00e7as de pertencer \u00e0 ci\u00eancia generalizaram esses procedimentos. Nossa cr\u00edtica a essas \u201cfalsas ci\u00eancias\u201d, mesmo a nossa zombaria \u2013 porque \u00e9 t\u00e3o triste que temos que colocar um pouco de humor \u2013 n\u00e3o impede que elas tenham efeitos sobre a pr\u00e1tica, mesmo em hospitais. Os textos aos quais me refiro n\u00e3o s\u00e3o marginais; h\u00e1 uma men\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de interven\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Lembro-me de uma apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes para residentes no Hospital Universit\u00e1rio de Marselha (CHU). Ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o, durante uma hora, n\u00f3s tentamos determinar no departamento de geronto-psiquiatria se se tratava de uma dem\u00eancia frontal ou de esquizofrenia. Obviamente, ambas podem coexistir. Uma jovem residente me disse: \u201cMas voc\u00ea passou uma hora discutindo, enquanto uma varredura de\u00a0<em>scan<\/em>, que n\u00e3o custa nada \u2013 era uma \u00e9poca em que havia um d\u00e9ficit de um bilh\u00e3o no AP-HM \u2013 teria lhe esclarecido imediatamente\u201d. Para ela, est\u00e1vamos fazendo a hist\u00f3ria do pensamento.<\/p>\n<p>A.\u00a0<em>Terrier<\/em><em>:<\/em>\u00a0\u00c9 de fato dessa hist\u00f3ria que esta ci\u00eancia gostaria de prescindir.<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Rodrigo Almeida<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0M\u00e1rcia Bandeira<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CUTHBERT, B. N.\u00a0Le cadre de travail des RDoC: faciliter la transition de la CIM et du DSM vers des approches dimensionnelles qui int\u00e8grent les neurosciences et la psychopathologie.\u00a0<em>Annales\u00a0m\u00e9dico-psychologiques<\/em>, v. 179, p. 75-85, 2021. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.em-consulte.com\/article\/1420731\/le-cadre-de-travail-des-rdoc%C2%A0-faciliter-la-transit\">https:\/\/www.em-consulte.com\/article\/ 1420731\/le-cadre-de-travail-des-rdoc% C2%A0-faciliter-la-transit<\/a>. Acesso em: 01 jun. 2023.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. La crise post-DSM\u00a0et la psychanalyse \u00e0 l\u2019\u00e2ge num\u00e9rique.\u00a0<em>Revue\u00a0 la Cause du D\u00e9sir<\/em>, n. 87, 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.cairn.info\/ revue-la-cause-du-desir-2014-2-page-145.htm&gt;. Acesso em\u00a0: 01 jun. 2023.\u00a0.<\/h6>\n<h6>DEMAZEUX, S.\u00a0<em>L&#8217;\u00c9clipse du sympt\u00f4me<\/em>: L\u2019observation clinique en psychiatrie (1800-1950). Paris: Ithaque, 2019.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Intervention au Congr\u00e8s de la Grande Motte de l&#8217;\u00c9cole freudienne de Paris.\u00a0<em>Lettres de l\u2019\u00c9cole freudienne<\/em>, n. 15, p. 69-80, 1975.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. S\u00e9minaire du 15 avril 1975.\u00a0<em>Ornica<\/em><em>r?<\/em>, n. 5, 1975-76.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Lacan pour Vincennes!.\u00a0<em>Ornicar?<\/em>, n. 17-18, 1979.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. In:\u00a0<em>Escritos.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Trabalho original publicado em 1953).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de um primeiro volume dos Escritos. In:\u00a0<em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. (Trabalho original publicado em 1973).<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. La grande translation clinique\u00a0contemporaine.\u00a0<em>L&#8217;\u00e9volution psychiatrique<\/em>. 2013. Dispon\u00edvel em: https:\/\/levolutionpsychiatrique.fr\/activites-scientifiques\/les-colloques-lanteri-laura\/3e-colloque-lanteri-laura-histoire-epistemologie-et-psychopathologie-la-clinique-a-lepreuve-du-contemporain\/eric-laurent-la-grande-translation-clinique-contemporaine\/&gt;. Acesso em\u00a0: 01 jun. 2023.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. La crise post-DSM\u00a0et la psychanalyse \u00e0 l\u2019\u00e2ge num\u00e9rique.\u00a0<em>Revue\u00a0 la Cause du D\u00e9sir<\/em>, n. 87, 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.cairn.info\/revue-la-cause-du-desir-2014-2-page-145.htm&gt;. Acesso em\u00a0: 01 jun. 2023.<\/h6>\n<h6>GEORGIEFF, N.\u00a0<em>La psychiatrie<\/em>: une m\u00e9decine sans\u00a0<em>maladies?<\/em>\u00a0Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.ch-le-vinatier.fr\/actualites-23\/la-psychiatrie-une-medecine-sans-maladies-951.html?cHash=4bba4d93f41da1a11697433871b582f1.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<em>L&#8217;orientation lacanienne. Le tout dernier Lacan<\/em>. Curso de 02 de maio de 2007. (In\u00e9dito). Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/jonathanleroy.be\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/2006-2007-Le-tout-dernier-Lacan-JA-Miller.pdf&gt;. Acesso em\u00a0: 01 jun. 2023.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#refer1\">[1]<\/a><a id=\"nota1\" contenteditable=\"false\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#refer1\"><\/a>\u00a0Texto originalmente publicado em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.librairielaruelle.com\/listeliv.php?form_recherche_avancee=ok&amp;editeur=Revue%20Quarto&amp;collection=Revue%20Quarto&amp;base=paper\"><em>Revue Quarto<\/em><\/a>, n. 131, jun. 2022<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#refer2\">[2]<\/a><a id=\"nota2\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a>\u00a0N.T.: Em portugu\u00eas, \u201cA crise p\u00f3s-DSM e a psican\u00e1lise na era digital\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#refer3\">[3]<\/a><a id=\"nota3\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#_ednref2\" name=\"_edn2\"><\/a>\u00a0O RdoC \u00e9 um projeto de pesquisa do Instituto de Sa\u00fade Mental dos EUA iniciado em 2009 cujo objetivo \u00e9 formalizar um novo sistema diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico que seja capaz de alinhar as classifica\u00e7\u00f5es do DSM \u00e0s descobertas em gen\u00f4mica e neuroci\u00eancia.<\/h6>\n<h6><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/despatologizacao-ou-desmedicalizacao#refer4\">[4]<\/a><a id=\"nota4\"><\/a>\u00a0N.T.: Theranos \u00e9 uma empresa de tecnologia de testes de sangue que se destina a ser usada em pacientes reais para diagnosticar uma infinidade de doen\u00e7as. A empresa controlada por uma empresa de biotecnologia, seguiu sem amplo estudo de avalia\u00e7\u00e3o. Confrontados por outra empresa seus dados se mostraram inconsistentes. (Cf.:\u00a0<a href=\"https:\/\/setorsaude.com.br\/o-escandalo-theranos-pode-ser-apenas-o-comeco\/\">https:\/\/setorsaude.com.br\/o-escandalo-theranos-pode-ser-apenas-o-comeco\/<\/a>)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Philippe la Sagna Psicanalista, A.M.E. da \u00c9cole de la Cause Freudienne plasagna@free.fr Resumo: Ap\u00f3s a crise do DSM5 e o surgimento fulgurante do Research Domain Criteria (RDoC) na cl\u00ednica, o modelo de patologia para as doen\u00e7as mentais se tornou um \u201ctranstorno\u201d e se enfraqueceu. 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