{"id":230,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=230"},"modified":"2025-12-01T12:55:04","modified_gmt":"2025-12-01T15:55:04","slug":"a-despatologizacao-lacaniana-e-a-outra1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/a-despatologizacao-lacaniana-e-a-outra1\/","title":{"rendered":"A despatologiza\u00e7\u00e3o lacaniana e a outra<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Francesca Biagi-Chai<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, A.M.E. da \u00c9cole de la Cause Freudienne\/AMP<br \/>\n<span id=\"cloakd0e1058b712e82de384520067cb281b2\"><a href=\"mailto:bia.chai@free.fr\">bia.chai@free.fr<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>A autora examina a concep\u00e7\u00e3o de despatologiza\u00e7\u00e3o, apresentando os argumentos que justificam a oposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 apresentada no t\u00edtulo do texto: a lacaniana e a outra. Se a autora afirma que a institui\u00e7\u00e3o lacaniana despatologiza, \u00e9 porque est\u00e1 concebida segundo a topologia moebiana, regida pelo discurso e pela cl\u00ednica. A despatologiza\u00e7\u00e3o \u201cselvagem\u201d permite equivaler \u201co sentimento de cada pessoa\u201d \u00e0 sua realidade e essa deve, portanto, ser reconhecida como tal. Evidencia-se, assim, a evacua\u00e7\u00e3o do inconsciente e, igualmente, do sintoma.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave<\/strong>: cl\u00ednica; despatologiza\u00e7\u00e3o; gozo; totalitarismo; poder jur\u00eddico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>THE LACANIAN DEPATHOLOGIZATION AND THE OTHER<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0The author examines the concept of depathologization, presenting the arguments that they justify the opposition already presented in the title of the text: the Lacanian and the other. If the author states that the lacanian institution depathologizes, it is because it is conceived according to the Moebian topology, governed by discourse and clinic. &#8220;Savage&#8221; depathologization makes it possible to equate \u201cthe feeling of each person\u201d with his reality and this must therefore be recognized as such. It is evident the evacuation of the unconscious and, equally, of the symptom.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0clinic; depathologization; jouissance; totalitarianism; juridic power.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_231\" style=\"width: 719px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1imagem.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Sofia Nabuco\" data-large_image_width=\"709\" data-large_image_height=\"709\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-231\" class=\"size-full wp-image-231\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1imagem.png\" alt=\"\" width=\"709\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1imagem.png 709w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1imagem-300x300.png 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1imagem-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 100vw, 709px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-231\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Sofia Nabuco<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nDespatologizar a cl\u00ednica \u2013 express\u00e3o ousada \u2013 imp\u00f5e-se em um tempo em que se substitui a refer\u00eancia no significante por aquela que se ancora na busca de um gozo inflacion\u00e1rio. Com efeito, se a opini\u00e3o p\u00fablica at\u00e9 o presente identificava a loucura atrav\u00e9s dos problemas da palavra e da linguagem, ela n\u00e3o consegue detect\u00e1-la no gozo em primeiro lugar.Desse ponto de vista, a sociedade desconhece a loucura; ela tamb\u00e9m desconhece as estruturas cl\u00e1ssicas da neurose. Ela opera uma despatologiza\u00e7\u00e3o selvagem. A isso conv\u00e9m opor uma outra concep\u00e7\u00e3o da despatologiza\u00e7\u00e3o, que eu qualifico de lacaniana: despatologizar n\u00e3o consiste em aplanar a cl\u00ednica, mas manter suas bordas. Que o gozo vem esconder, suplantar a estrutura \u2013 no uso feito, por exemplo, do semblante na supl\u00eancia \u2013 n\u00e3o apaga as arestas do real como tal. O real, testemunha da estrutura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ponto de partida em Lacan<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O momento em que o gozo assume seu valor, seu lugar igual ao significante, marca uma passagem no ensino de Lacan, acentuado como tal por Jacques Alain Miller no Semin\u00e1rio\u00a0<em>Mais,<\/em>\u00a0<em>ainda.<\/em>\u00a0\u00c9 a partir da\u00ed que se pode fazer com que o gozo responda \u00e0 foraclus\u00e3o generalizada. A partir desse momento, Lacan une, ao condens\u00e1-los, significantes da cl\u00ednica at\u00e9 ent\u00e3o separados, fazendo aparecer neologismos equivalentes a uma nova forma de matemas. Assim \u00e9 o termo\u00a0<em>lalangue<\/em>, que se constitui a partir de \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da palavra e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d (LACAN, 1953\/1998). Ser\u00e1 o mesmo com\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>, que tem, diz ele, vantagem em substituir o inconsciente (LACAN, 1975\/2003). E o sintoma toma o nome de\u00a0<em>moterialismo<\/em>\u00a0(LACAN, 1975\/1998). Podemos entrever esse mesmo princ\u00edpio na passagem do supereu ao gozo em si mesmo, aquele do eu (<em>moi<\/em>) ao ego, passando pela dimens\u00e3o megaloman\u00edaca do eu (<em>moi<\/em>) que, na psicose, vem sempre no lugar da imposs\u00edvel subjetiva\u00e7\u00e3o. Esse pr\u00e9-requisito permite nos orientarmos na concep\u00e7\u00e3o da despatologiza\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 qual J.-A. Miller avan\u00e7a atrav\u00e9s do bin\u00e1rio irredut\u00edvel do ser e da ex-sist\u00eancia. Essas duas vers\u00f5es do\u00a0<em>parl\u00eatre,<\/em>\u00a0lado significante e lado objeto, apresentam-se como n\u00e3o segregativas entre as estruturas, embora a estrutura n\u00e3o tenha sido exclu\u00edda.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Consequ\u00eancias do lado do analista<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado analista, a primeira consequ\u00eancia concerne \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. \u00c0s formas conhecidas de interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana (corte, interpreta\u00e7\u00e3o apof\u00e2ntica, equ\u00edvoco) agora se juntam modos de dizer ou de fazer, quando signos discretos da psicose aparecem, signos tais como os que vislumbramos nos consult\u00f3rios dos analistas. Isso d\u00e1 um alcance maior ao dizer de Lacan. O analista \u00e9 um retificador que opera apenas pela sugest\u00e3o; dito de outra forma, ele n\u00e3o imp\u00f5e algo que teria consist\u00eancia, ele se sustenta em ex-sistir (LACAN, 1979). O que faz o verdadeiro ou o falso \u00e9 o peso do analista, que opera por alguma coisa que n\u00e3o constitui a base da contradi\u00e7\u00e3o (LACAN, 1979). Lacan n\u00e3o designa o analista como semblante do objeto\u00a0<em>a<\/em>? Na psicose, fazer apelo \u00e0 l\u00f3gica, por exemplo, para que se produza um assentimento por parte do sujeito, \u00e9 uma das formas poss\u00edveis dessa fun\u00e7\u00e3o do analista (<em>rh\u00e9teur<\/em>). O mesmo acontece quando o analista desliza um significante entre dois S1 independentes. Resta ao sujeito apreend\u00ea-lo como uma nuance que fa\u00e7a as vezes de S2, atenuando o poder e a rigidez da cadeia significante. N\u00e3o se poderia dizer que, na psicose, conv\u00e9m n\u00e3o abordar a quest\u00e3o diretamente (\u201c<em>noyer le poisson<\/em>\u201d) \u2013 em outras palavras, prescindir da localiza\u00e7\u00e3o do falo para se servir dele e se virar com o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0no bolso? Na neurose, conv\u00e9m pescar o peixe, pois esse incomoda. Ele impede o acesso ao objeto\u00a0<em>a<\/em>, aqui, destac\u00e1vel (GONZALES-RENOU; VIGU\u00c9, 2021).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A institui\u00e7\u00e3o lacaniana despatologiza<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto uma psicose n\u00e3o est\u00e1 desencadeada, pode-se falar, verdadeiramente, de psicose? A psiquiatria come\u00e7a a\u00ed onde o la\u00e7o social se rompe e onde, no desencadeamento, n\u00e3o h\u00e1 nenhum discurso no qual o sujeito possa se alojar. \u00c9 por isso que a institui\u00e7\u00e3o equivale a uma patologiza\u00e7\u00e3o: \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica que assina a patologiza\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. A quest\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9: como subverter a institui\u00e7\u00e3o e lev\u00e1-la a uma mudan\u00e7a de paradigma que seja isom\u00f3rfica ao tratamento do gozo? Tive a oportunidade de organizar no Centro Hospitalar Paul Guiraud de Villejuif o que relatei em\u00a0<em>Traverser les murs<\/em>\u00a0(BIAGI-CHAI, 2020): uma institui\u00e7\u00e3o concebida segundo a topologia moebiana regida pelo discurso e pela cl\u00ednica, e n\u00e3o pelo lugar e o tempo. Essa topologia que n\u00e3o tem temporalidade \u00e9, desde ent\u00e3o, um apoio contra o deixar cair e a ruptura. Ela participa da despatologiza\u00e7\u00e3o no sentido de que o paciente, seguido por seu psiquiatra, faz uso da institui\u00e7\u00e3o: ela se torna, ent\u00e3o, instrumento. De fato, ele pode solicit\u00e1-la para diferentes modalidades de hospitaliza\u00e7\u00e3o ou acompanhamento fracionado, na medida de seus pr\u00f3prios significantes mestres. \u00c9 evidente, por exemplo, que, em tal contexto, o conceito de reca\u00edda perca todo o seu sentido, assim como os preconceitos que desconsideram a cl\u00ednica, apostando apenas na vontade e n\u00e3o no inconsciente, com o \u00fanico prop\u00f3sito de evitar a transfer\u00eancia.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Despatologiza\u00e7\u00e3o e varia\u00e7\u00f5es da responsabilidade penal<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem d\u00favida, \u00e9 no campo da criminalidade que a despatologiza\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 mais capaz de fazer ressoar na opini\u00e3o p\u00fablica o pr\u00f3prio significado da \u00e9tica da psican\u00e1lise. De fato, as categoriza\u00e7\u00f5es da cl\u00ednica psiqui\u00e1trica avan\u00e7adas como saber j\u00e1 n\u00e3o podem explicar o que preside a passagem ao ato, porque desvinculam o sujeito de seu ato. Extrair a l\u00f3gica de um crime pr\u00f3prio ao sujeito, a saber, o poder da compuls\u00e3o, a tentativa ou n\u00e3o de resistir a ela, o cr\u00e9dito e as respostas dadas aos sinais de alerta pelo entorno, \u00e9 o que se poderia chamar de\u00a0<em>diagn\u00f3stico de gozo<\/em>. A cl\u00ednica n\u00e3o desaparece, mas ela se torna b\u00fassola para interpretar, e n\u00e3o um objetivo a ser alcan\u00e7ado. Unindo o \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d de Lacan a seu \u201cPor nossa posi\u00e7\u00e3o de sujeito, sempre somos respons\u00e1veis\u201d (LACAN, 1966\/1998, p. 873), \u00e9 bem do gozo que se trata na medida em que o gozo cessa apenas na morte f\u00edsica, ele sempre pode ser interrogado. Despatologizar n\u00e3o deve mais ser entendido no sentido comum de uma subtra\u00e7\u00e3o da patologia, mas pode ser elevado \u00e0 altura de um conceito lacaniano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Debate<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ana\u00eblle Lebovits-Quenehen<\/em>: Muito obrigada, Francesca Biagi-Chai. Uma primeira quest\u00e3o muito simples, mas me parece que isso conta muito em seu texto: voc\u00ea pode voltar na oposi\u00e7\u00e3o que faz entre uma despatologiza\u00e7\u00e3o \u201clacaniana\u201d e uma despatologiza\u00e7\u00e3o, poder\u00edamos dizer, \u201cselvagem\u201d?<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Francesca Biagi-Chai<\/em>: A despatologiza\u00e7\u00e3o selvagem est\u00e1 em andamento. N\u00e3o seria isso que atravessa a quest\u00e3o trans que levantamos, na qual se diz que as palavras s\u00e3o fatos jur\u00eddicos e na qual a evacua\u00e7\u00e3o do inconsciente, a evacua\u00e7\u00e3o do sintoma, \u00e9 evidente. E, ao mesmo tempo, dizer isso \u00e9 afirmar que n\u00e3o existe patologia, que o sentimento de cada pessoa vale tanto quanto sua realidade, realidade que deve, desde ent\u00e3o, ser reconhecida como tal. \u00c9 um totalitarismo que faz equivaler a palavra \u00e0 coisa. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade para o sujeito se colocar a quest\u00e3o de sua pr\u00f3pria divis\u00e3o, de seu pr\u00f3prio mal-estar, de uma interroga\u00e7\u00e3o, de uma sutileza. N\u00e3o h\u00e1 mais coisas de fineza, nada mais \u00e9 poss\u00edvel, isso \u00e9 o que o torna totalit\u00e1rio. \u00c9 uma despatologiza\u00e7\u00e3o na medida em que, por exemplo, as associa\u00e7\u00f5es dizem que \u201cn\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio se endere\u00e7ar nem a um psiquiatra nem a um psicanalista, nem a ningu\u00e9m\u201d, porque no fato de encontrar um psiquiatra, um psicanalista, h\u00e1 o risco de patologizar a pessoa. Ent\u00e3o, se se quer mudar de sexo, isso se faz automaticamente; no \u201cautomaticamente\u201d h\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o, um desaparecimento do inconsciente, que \u00e9 evidentemente muito inquietante, selvagem, desde que o sujeito n\u00e3o possa desenvolver, ele mesmo, os significantes de sua pr\u00f3pria mudan\u00e7a, a significa\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a id=\"refer2\"><\/a>Jacques-Alain Miller<\/em>: Sem d\u00favida, \u00e9 suficiente uma declara\u00e7\u00e3o perante as autoridades: \u201cEu sou uma mulher\u201d; e voc\u00ea \u00e9 uma mulher, mesmo se n\u00e3o tocamos no seu corpo.<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-despatologizacao-lacaniana-e-a-outra#nota22\">[2]<\/a><\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Francesca Biagi-Chai<\/em>: Sim, \u00e9 isso. Eu sou isso que eu digo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jacques-Alain Miller<\/em>: Sim! Poder\u00edamos dizer que \u00e9 a partir do momento em que se \u00e9 cidad\u00e3o que isso tem peso. Mas, n\u00e3o! Se falamos isso aos tr\u00eas, quatro anos, todo o mundo se mobiliza. \u00c9 enorme, voc\u00ea tem que se beliscar para acreditar, mas esse \u00e9 o discurso. O Estado de Direito se tornou louco. Em sua interven\u00e7\u00e3o, voc\u00ea leva isso \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias e encontra o ponto de reconstru\u00e7\u00e3o, no qual \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d, mas, em particular, o Estado de Direito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Francesca Biagi-Chai<\/em>: Isso vai muito longe; por exemplo, at\u00e9 nas acusa\u00e7\u00f5es. \u00c9 suficiente que algu\u00e9m tenha sido acusado para que o que foi dito sobre ele seja verdade. N\u00e3o somente o inconsciente desaparece, mas a justi\u00e7a tamb\u00e9m. Todo o percurso desaparece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jacques-Alain Miller<\/em>: N\u00e3o se faz qualquer pergunta e entende-se que o simples fato de que os analistas queiram lidar com isso \u00e9 patologizar. O Estado de Direito n\u00e3o tem nada a fazer com os psic\u00f3logos. Com os m\u00e9dicos, \u00e9 diferente. N\u00e3o se faz qualquer pergunta e entende-se que o simples fato de os analistas quererem tratar do assunto \u00e9 patologizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Francesca Biagi-Chai<\/em>: Eles precisam dos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jacques-Alain Miller<\/em>: Eles precisam de m\u00e9dicos, e isso at\u00e9 o fim de seus dias, mas isso n\u00e3o entra em conta diante do poder do direito, o poder jur\u00eddico. Como isso \u00e9 feito em nosso pa\u00eds, dar as chaves de nossa civiliza\u00e7\u00e3o aos ju\u00edzes? Quando se franqueia os limites do Ocidente, a quest\u00e3o se coloca diferentemente, porque o Estado de Direito n\u00e3o existe: isso protege, de qualquer forma, essas loucuras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Francesca Biagi-Chai<\/em>: Sim, porque \u00e9 totalitarismo contra totalitarismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jacques-Alain Miller<\/em>: O que voc\u00ea traz \u00e9 o totalitarismo jur\u00eddico. O Estado de Direito tem o poder de prend\u00ea-lo ou de lhe impor multa se voc\u00ea n\u00e3o obedece, o que \u00e9 absolutamente espantoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Francesca Biagi-Chai<\/em>: Foi isso que me impressionou, que todo os saberes desaparecem, o saber mesmo desaparece, o trauma desaparece, n\u00e3o h\u00e1 mais trauma. N\u00e3o h\u00e1 mais choque de\u00a0<em>lalangue\u00a0<\/em>sobre o corpo, tudo isso desaparece totalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Jacques-Alain Miller<\/em>:\u00a0<a id=\"refer3\"><\/a>Com a Escola da Causa Freudiana constru\u00edmos uma pequena barragem com duas emendas.<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-despatologizacao-lacaniana-e-a-outra#nota33\">[3]<\/a><\/sup>\u00a0Mas ela \u00e9 fr\u00e1gil e pode ser submersa por uma onda. H\u00e1 sempre cantos onde n\u00e3o se atreveram a vir nos buscar, mas a perspectiva \u00e9 verdadeiramente a clandestinidade, como foi o caso para a psican\u00e1lise no Leste \u2013 como na Hungria \u2013, onde se continua a psicanalisar de uma forma muito honrosa. Nosso futuro \u00e9 talvez nas catacumbas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Francesca Biagi-Chai<\/em>: Queremos deixar claro que a identidade n\u00e3o \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que agora identificamos algu\u00e9m a uma pequena parte dele pr\u00f3prio, a uma pequena parte corporal. Somos identificados a um trecho de vida, a um tro\u00e7o de pele, a uma cor de pele&#8230; Tivemos que trabalhar. Esse termo de identidade participa desse desaparecimento do inconsciente e contribui para o totalitarismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">C.\u00a0<em>Dewambrechies-La Sagna<\/em>: As propostas de F. Biagi-Chai me fizeram pensar em uma garota que recebi essa semana, vinte e tr\u00eas anos, assediada por um garoto h\u00e1 oito anos, vindo \u00e0 cl\u00ednica sentindo-se t\u00e3o desesperada ao ponto em que tentou se suicidar. O jovem foi, portanto, condenado com uma suspens\u00e3o e proibi\u00e7\u00e3o de se aproximar dela. Quando a jovem \u00e9 questionada, escutamos que ela v\u00ea esse rapaz em todos os lugares. Ele est\u00e1 em todos os lugares, em cada esquina. E, um dia, ele estava na casa de uma amiga quando ela estava l\u00e1. Ela perguntou a essa amiga como se chamava o rapaz que estava no outro canto da sala. A amiga falou o nome do rapaz. Assim, a jovem apresentou uma queixa contra ele. Ele foi, ent\u00e3o, condenado, apesar de nunca ter falado com ela. Ele provavelmente nunca a seguiu. \u201cMas como voc\u00ea sabe que ele est\u00e1 seguindo voc\u00ea?\u201d. \u201cBem ele tem um Citro\u00ebn vermelho&#8230; ou cinza&#8230;\u201d. Eu disse: \u201cVermelho ou cinza?\u201d. Ela responde: \u201cEle trocou de carro\u201d. Assim, para entrar no del\u00edrio, assistimos a uma remodela\u00e7\u00e3o permanente em fun\u00e7\u00e3o do que \u00e9 do real. Em seguida, tr\u00eas gotas de pirlimpimpim e a jovem logo se sentir\u00e1 melhor. Tudo isso vai ser completamente esquecido. N\u00e3o necessariamente para aquele que foi condenado. Nem por ela, cujo\u00a0<em>status<\/em>\u00a0e mundo mudam. Isso apoia o fato que a terap\u00eautica medicamentosa irrealiza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A.\u00a0<em>Lebovits-Quenehen<\/em>: Esse \u00e9 um ponto muito importante. Na despatologiza\u00e7\u00e3o, o fator da efic\u00e1cia medicamentosa \u00e9 maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>C &#8211; Dewambrechies-La Sagna:\u00a0<\/em>Isto foi importante. Voc\u00ea disse isso, Jacques-Alain Miller, em seu curso uma vez: n\u00f3s esvaziamos os hospitais psiqui\u00e1tricos e isso \u00e9 uma coisa boa, mas ao mesmo tempo n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u00c9 necess\u00e1rio um acompanhamento para essas subjetividades que s\u00e3o completamente reviradas pelo fato de passar de um estatuto a outro. O estatuto de ser assediado n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, o mesmo que o estatuto de estar em plena forma. Seu mundo muda, todos os seus amigos reclamam de voc\u00ea, chamam voc\u00ea, perguntam se voc\u00ea est\u00e1 sendo seguido. Em breve, n\u00e3o vamos lhe perguntar mais nada pois voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 mais nada a responder a esse respeito. Contudo, h\u00e1 todo um universo a ser reconstru\u00eddo de forma diferente, com outros suportes. Eu penso nisso como um exemplo muito recente: ouvi a semana passada \u2013 talvez como alguns de voc\u00eas \u2013 um programa sobre hipocondria na r\u00e1dio France Culture. \u00c9 fascinante, a hipocondria. \u00c9 suficiente dizer \u00e0 pessoa: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 teve ideias como essa?\u201d. \u201cOh, sim, desde os vinte anos\u201d. \u201cEscreva suas ideias em um caderno\u201d. A pessoa escreve: \u201cEu tive um tumor cerebral aos vinte anos\u201d, e lhe respondemos: \u201cVoc\u00ea pode ver que esse tumor n\u00e3o avan\u00e7a t\u00e3o r\u00e1pido\u201d. E \u00e9 suficiente tamb\u00e9m dizer aos hipocondr\u00edacos para n\u00e3o irem ao Google com a ideia de que, se n\u00e3o forem verificar, talvez fiquem um pouco menos doentes. Todos os estudantes de medicina t\u00eam todos os sintomas, est\u00e3o doentes; isso faz parte das coisas habituais\u201d, proferem esses especialistas que trabalham em grandes servi\u00e7os, tendo consultas em grandes servi\u00e7os parisienses. Eles ousaram falar assim sobre o problema da hipocondria; embora os hipocondr\u00edacos, quando sofrem de hipocondria, s\u00e3o pessoas que se torturam muito.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0K\u00e1tia Mari\u00e1s<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. In:\u00a0<em>Escritos.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Trabalho original publicado em 1953).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. A ci\u00eancia e a verdade. In:\u00a0<em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Texto original publicado em 1966).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 23, p. 6-16, dez. 1998. (Trabalho original publicado em 1975).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Joyce, o sintoma. In:\u00a0<em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.\u00a0(Trabalho original publicado em 1975).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Une pratique de bavardage. Le S\u00e9minaire, livre XXV, \u201cLe moment de conclure\u201d, le\u00e7on du 15 novembre 1977.\u00a0<em>Ornicar?<\/em>, n. 19, 1979.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">GONZALES-RENOU B.; VIGU\u00c9, L. Conversation avec Francesca Biagi-Chai.\u00a0<em>Horizon<\/em>, n. 66, L\u2019Envers de Paris, 2021.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">BIAGI-CHAI, F.\u00a0<em>Traverser les murs. La folie, de la psychiatrie \u00e0 la psychanalyse<\/em>. Paris: Imago, 2020.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-despatologizacao-lacaniana-e-a-outra#refer1\">[1]<\/a><a id=\"nota11\"><\/a>\u00a0Texto originalmente publicado na revista\u00a0<em>Quarto 131,\u00a0<\/em><em>Ravages du bien-\u00eatre<\/em>, de junho de 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-despatologizacao-lacaniana-e-a-outra#refer2\">[2]<\/a>\u00a0<a id=\"nota22\"><\/a>Proposta estabelecida por G. Poblome, \u00c9. Zuliani e P. Fari. N\u00e3o relido pelo autor.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/a-despatologizacao-lacaniana-e-a-outra#refer3\">[3]<\/a><a id=\"nota33\"><\/a>\u00a0A Escola da Causa Freudiana prop\u00f4s duas emendas de \u201cseguran\u00e7a jur\u00eddica\u201d que o Senado introduziu e que a Comiss\u00e3o Mista Parit\u00e1ria manteve em seu texto na sua forma atual.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francesca Biagi-Chai Psicanalista, A.M.E. da \u00c9cole de la Cause Freudienne\/AMP bia.chai@free.fr Resumo:\u00a0A autora examina a concep\u00e7\u00e3o de despatologiza\u00e7\u00e3o, apresentando os argumentos que justificam a oposi\u00e7\u00e3o j\u00e1 apresentada no t\u00edtulo do texto: a lacaniana e a outra. Se a autora afirma que a institui\u00e7\u00e3o lacaniana despatologiza, \u00e9 porque est\u00e1 concebida segundo a topologia moebiana, regida pelo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57795,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-230","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/230","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=230"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/230\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57796,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/230\/revisions\/57796"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}