{"id":233,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=233"},"modified":"2025-12-01T12:55:28","modified_gmt":"2025-12-01T15:55:28","slug":"entrevista-com-sergio-de-campos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/entrevista-com-sergio-de-campos\/","title":{"rendered":"Entrevista com S\u00e9rgio de Campos"},"content":{"rendered":"<h6>S\u00e9rgio de Campos<br \/>\nA.M. E. da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/A.M.P.<br \/>\n<span id=\"cloakd878f0eaba69015632db2ef3670ead58\"><a href=\"mailto:sergiodecampos@uol.com.br\">sergiodecampos@uol.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<div id=\"attachment_234\" style=\"width: 1610px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/entrevista.jpg\" data-dt-img-description=\"Imagem: Sofia Nabuco\" data-large_image_width=\"1600\" data-large_image_height=\"900\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-234\" class=\"size-large wp-image-234\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/entrevista-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/entrevista-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/entrevista-300x169.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/entrevista-768x432.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/entrevista-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/entrevista.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-234\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Sofia Nabuco<\/p><\/div>\n<p><strong>Almanaque On-Line<\/strong>: No final do volume 2 de seu livro Investiga\u00e7\u00f5es lacanianas sobre as psicoses \u2013 volume este intitulado \u201cAs psicoses ordin\u00e1rias\u201d (CAMPOS, 2022a) \u2013 voc\u00ea cita Lacan quando ele afirma, a prop\u00f3sito da religi\u00e3o, que a psican\u00e1lise n\u00e3o triunfar\u00e1: ela sobreviver\u00e1 ou n\u00e3o. Podemos ampliar a quest\u00e3o da sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise no que diz respeito ao que temos nos dedicado, atualmente, no Campo Freudiano, a saber, \u00e0 problem\u00e1tica da despatologiza\u00e7\u00e3o. Considerando a tend\u00eancia atual que aponta para a aus\u00eancia de patologias e, em seu lugar, apenas estilos de vida e, ainda, a exig\u00eancia de uma fraternidade que p\u00f5e em marcha a reivindica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de igualdade, somada \u00e0 efic\u00e1cia medicamentosa que irrealiza a patologia, podemos concluir, como voc\u00ea diz, sobre a presen\u00e7a de um novo empuxo higienista da sociedade contempor\u00e2nea. O que voc\u00ea pode nos dizer sobre esse futuro da psican\u00e1lise? Uma vez que o discurso anal\u00edtico n\u00e3o tem nada de universal, como \u00e9 poss\u00edvel salvar a cl\u00ednica do singular, do para o \u201cUm-sozinho\u201d, nesse mar aberto de discursos que insistem em vender e disseminar o \u201cpara-todos&#8221;?<\/p>\n<p><strong>S\u00e9rgio de Campos<\/strong>: Em primeiro lugar, quero agradecer \u00e0 equipe da Almanaque On-line pelo gentil convite para participar desta entrevista, pelas perguntas instigantes formuladas que me colocaram a trabalho e pela oportunidade de conversar com voc\u00eas sobre a cl\u00ednica das psicoses.<\/p>\n<p>Em O triunfo da religi\u00e3o, Lacan (1974\/2005) afirma que a religi\u00e3o triunfar\u00e1, a psican\u00e1lise sobrevir\u00e1 ou n\u00e3o. Desde seu in\u00edcio, Freud enfrentou in\u00fameros obst\u00e1culos no caminho da psican\u00e1lise, a come\u00e7ar pelos seus disc\u00edpulos. Verificamos que, atrav\u00e9s dos tempos, a lista continuou a crescer: a religi\u00e3o, as mais diversas formas de psicoterapias, a psiquiatria biol\u00f3gica, as neuroci\u00eancias, o cognitivismo, a regulamenta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, a ortodoxia e o dogmatismo, os psicanalistas \u2013 imbu\u00eddos pelo esp\u00edrito da sociedade de ajuda m\u00fatua contra o discurso anal\u00edtico (SAMCDA) \u2013, entre outros, e, agora, no contexto de nossa \u00e9poca, a despatologiza\u00e7\u00e3o. Pode-se dizer que a despatologiza\u00e7\u00e3o equivale a pronunciar que n\u00e3o haver\u00e1 mais patologias alusivas \u00e0 psiquiatria cl\u00e1ssica. A despatologiza\u00e7\u00e3o forclui a psicopatologia na promessa de sanar o desequilibro neuroqu\u00edmico com novos medicamentos.<\/p>\n<p>A reinvindica\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria e o empuxo higienista do \u201cpara-todos\u201d imp\u00f5em o desaparecimento da cl\u00ednica, na qual, antes, um sujeito era acometido por uma enfermidade expressa de maneira singular, e, agora, ele passa a integralizar um grupo constitu\u00eddo de sujeitos de direitos, alinhados a um estilo de vida, cuja finalidade comum \u00e9 a de alcan\u00e7ar o bem-estar e a felicidade. Lacan (1969-70\/1992) j\u00e1 nos advertira no Semin\u00e1rio 17, O avesso da psican\u00e1lise, que existe um pre\u00e7o a se pagar, visto que n\u00e3o h\u00e1 fraternidade sem exclus\u00e3o que se manifesta sob as diversas formas de segrega\u00e7\u00e3o. Lacan assinala que a fraternidade \u00e9 uma ideia rid\u00edcula e n\u00e3o tem fundamento cient\u00edfico, de modo que estamos isolados no campo do um. Com efeito, a fraternidade serve para recobrir a experi\u00eancia da segrega\u00e7\u00e3o, pois, no fundo, tudo que existe na sociedade se baseia na segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A despatologiza\u00e7\u00e3o \u00e9 concebida a partir do contempor\u00e2neo calcado em uma fraternidade ut\u00f3pica, inscrita na reivindica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de uma igualdade universal, a qual apregoa o apagamento das diferen\u00e7as e nas exig\u00eancias de um bem comum \u201cpara-todos\u201d (MILLER, 2022). Ent\u00e3o, o resultado da despatologiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio cl\u00ednico pelo princ\u00edpio jur\u00eddico que vem prometer a utopia da inclus\u00e3o de todos (MILLER, 2022). Logo, sob essa \u00f3tica, espera-se que todo mundo \u00e9 ou possa se tornar normal. Nesse ponto, reside um paradoxo, pois quanto mais todo mundo \u00e9 normal, mais medicamentos s\u00e3o comercializados. Ent\u00e3o, sob o prisma do Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edsticos dos Transtornos Mentais (DSM), numa esp\u00e9cie de nominalismo sem lastro, onde os transtornos mentais aumentam consideravelmente a cada edi\u00e7\u00e3o, constata-se que quanto mais desaparece a cl\u00ednica, mais estreita se torna a faixa entre a normalidade e a enfermidade, de sorte que ao mesmo tempo, todos se tornam normais e pass\u00edveis de serem medicados.<\/p>\n<p>Enfim, o discurso anal\u00edtico, apan\u00e1gio do singular e do \u201cum-sozinho\u201d sem o Outro, se inscreve nas fissuras do discurso dominante e promove a defla\u00e7\u00e3o do gozo. A psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 \u201cpara-todos\u201d e n\u00e3o visa a normalidade. Mas, n\u00e3o nos aflijamos com isso, pois ela visa a satisfa\u00e7\u00e3o para com o sinthoma e n\u00e3o tem a presun\u00e7\u00e3o de salvar o mundo. A psican\u00e1lise se inscreve como um discurso que n\u00e3o seria o do semblante, no qual o real \u00e9 sem lei, visto que ele \u00e9 o resultado da conjun\u00e7\u00e3o entre o significante e o gozo, que adv\u00e9m da ruptura da ordem simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Se, na primeira cl\u00ednica de Lacan, o que escutamos s\u00e3o as significa\u00e7\u00f5es que evocam a compreens\u00e3o sob o nexo causal de uma estrutura cl\u00ednica, cujo gozo est\u00e1 implicado, na segunda cl\u00ednica, a condu\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise, sob o paradigma do\u00a0<em>Il y a de l\u2019Un<\/em>\u00a0\u2013 no que concerne ao postulado de que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual \u2013 n\u00e3o \u00e9 concebida como ontologia do ser, mas como exist\u00eancia do um que se apreende a partir das homofonias, das inanidades sonoras, dos equ\u00edvocos e das jacula\u00e7\u00f5es nas fendas da compreens\u00e3o. Em suma, o ultim\u00edssimo Lacan prop\u00f5e que, no inconsciente, temos uma escrita pass\u00edvel de ser lida pelo analista e pelo analisante, de maneira que a leitura vem substituir a escuta. Assim, a interpreta\u00e7\u00e3o apenas incide sob a condi\u00e7\u00e3o de ser uma leitura a um parl\u00eatre que sabe se ler (MILLER, 2011).<\/p>\n<p><strong>A.O.<\/strong>: Em seu texto \u201cA presen\u00e7a do analista na psicose ordin\u00e1ria\u201d (CAMPOS, 2023), publicado na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da Almanaque On-line, voc\u00ea localiza que uma das estrat\u00e9gias da neotransfer\u00eancia na opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica faz com que o analista opere como se ele fosse o\u00a0sinthoma, com uma ajuda-contra aquilo que impele o sujeito na dire\u00e7\u00e3o de\u00a0A\u00a0mulher, ou seja, uma ajuda contra o del\u00edrio edificado ali onde o sujeito se depara com o real. Nos parece uma forma de orienta\u00e7\u00e3o em que o analista est\u00e1 avisado de que um del\u00edrio, ao mesmo tempo em que pode ser interpretado como uma tentativa de cura, traz tamb\u00e9m desordem e sofrimento e pode surgir incitando passagens ao ato que colocam o sujeito em risco. Furar a consist\u00eancia e a onipot\u00eancia do Outro \u00e9 uma aposta numa leitura menos invasiva que pode advir, mas, por outro lado, poderia tamb\u00e9m favorecer sintomas depressivos e novos desligamentos? E como voc\u00ea diferenciaria a ajuda-contra do analista da posi\u00e7\u00e3o da psiquiatria contempor\u00e2nea que visa erradicar o del\u00edrio?<\/p>\n<p><strong>S.C.<\/strong>: \u00c9 recomend\u00e1vel a prud\u00eancia na pr\u00e1tica de interven\u00e7\u00f5es ousadas na condu\u00e7\u00e3o de casos de psicoses ordin\u00e1rias, visto que elas podem ocasionar desencadeamentos. A pr\u00e1tica da ajuda-contra aquilo que impele o sujeito em dire\u00e7\u00e3o de A mulher tem a finalidade de fazer vacilar a consist\u00eancia do del\u00edrio e furar a onipot\u00eancia do Outro. Em contrapartida, a ajuda-contra nos casos de desligamentos e sintomas depressivos pode agir a favor de um secretariado por parte do analista que contribua para um novo enla\u00e7amento ou religamentos, como uma identifica\u00e7\u00e3o por parte do sujeito em uma ancoragem que desempenhe um papel social positivo. Ainda no que concerne ao campo das externalidades social, corporal e subjetiva, uma leitura atenta do caso pode fornecer o instante preciso de incluir a ajuda-contra que deve incidir como uma bricolagem, uma pequena inven\u00e7\u00e3o que possa permitir uma extra\u00e7\u00e3o de gozo, impedir ou adiar as err\u00e2ncias, os desligamentos, as passagens ao ato e os desencadeamentos, assim como propiciar supl\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>A.O<\/strong>: Miller (1996) nos diz, em seu texto \u201cCl\u00ednica ir\u00f4nica\u201d, que todos os nossos discursos n\u00e3o passam de defesa contra o real. A isso ele nomeia como cl\u00ednica universal do del\u00edrio, uma perspectiva que voc\u00ea trabalha no volume 1 de seu livro Investiga\u00e7\u00f5es lacanianas sobre as psicoses, volume intitulado \u201cAs psicoses extraordin\u00e1rias\u201d (CAMPOS, 2022b). \u00c9 interessante observar que essa cl\u00ednica se constitui a partir da ironia, mas da \u201cironia infernal da esquizofrenia\u201d, pois \u00e9 s\u00f3 a partir do ponto de vista do esquizofr\u00eanico e de sua ironia que podemos aferir tal cl\u00ednica. Se a ironia esquizofr\u00eanica, diferentemente do humor neur\u00f3tico, nos diz que o Outro n\u00e3o existe e que n\u00e3o h\u00e1 discurso que n\u00e3o seja do semblante, colocamos as seguintes quest\u00f5es: como a ironia pode ser conveniente ao psicanalista para o seu fazer cl\u00ednico? Ele pode tom\u00e1-la como um direcionamento cl\u00ednico frente ao del\u00edrio generalizado? E, por fim, ainda no que se refere \u00e0 esquizofrenia, Miller (2010), em seu texto \u201cEfeito do retorno \u00e0s psicoses ordin\u00e1rias\u201d, afirma que a no\u00e7\u00e3o de psicose ordin\u00e1ria estreita o campo da neurose e amplia o campo da psicose. Atrav\u00e9s de sua pesquisa que culminou na publica\u00e7\u00e3o de seu livro, como voc\u00ea pensa o estatuto contempor\u00e2neo da esquizofrenia?<\/p>\n<p><strong>S.C.<\/strong>: Miller, em \u201cCl\u00ednica ir\u00f4nica\u201d \u2013 texto que, embora de 1996, est\u00e1 atual\u00edssimo \u2013, define a cl\u00ednica universal do del\u00edrio como sendo aquela na qual todos os discursos n\u00e3o passam de defesas contra o real. A cl\u00ednica universal do del\u00edrio pode ser examinada do ponto de vista do esquizofr\u00eanico, na medida em que ele n\u00e3o \u00e9 capturado por nenhum discurso e que ele est\u00e1 fora do la\u00e7o social. \u00c9 interessante ressaltar que, se por um lado, na paranoia, o Outro existe \u2013 uma vez que ele \u00e9 consistente, invasivo e real, pois ele cont\u00e9m o objeto a \u2013, por outro, na esquizofrenia, o Outro n\u00e3o existe, j\u00e1 que ele n\u00e3o foi constitu\u00eddo. Pode-se acrescentar que o esquizofr\u00eanico n\u00e3o se defende do real pelo simb\u00f3lico, pois ambos os registros se equivalem, uma vez que se interpenetram em raz\u00e3o de uma falha na cadeia borromeana.<\/p>\n<p>No que concerne \u00e0 ironia, ela se distingue do humor, visto que se, por um lado, o humor se inscreve no Outro e vai ao encontro do sujeito, por outro, a ironia surge no campo do sujeito e vai de encontro ao Outro. Portanto, a ironia \u00e9 uma defesa contra a invas\u00e3o do Outro e ela denuncia que o Outro n\u00e3o existe. A ironia pode ser conveniente ao analista, mas se a neurose fosse curada por ela, n\u00e3o haveria necessidade da psican\u00e1lise. Miller (1996) advoga que a psican\u00e1lise tem uma \u00e9tica ir\u00f4nica, j\u00e1 que ela se fundamenta na inexist\u00eancia do Outro. Assim, o esquizofr\u00eanico, como aquele que se situa em uma exclus\u00e3o interna, nos serve de orienta\u00e7\u00e3o para conceber a cl\u00ednica universal do del\u00edrio, na medida em que o simb\u00f3lico n\u00e3o funciona para se defender do real.<\/p>\n<p>Com isso, o paradigma da esquizofrenia se torna a dire\u00e7\u00e3o para o ultim\u00edssimo Lacan, onde o Outro n\u00e3o existe. De certo modo, Lacan considera que h\u00e1 algo a aprender com o esquizofr\u00eanico para que a psican\u00e1lise possa se situar para al\u00e9m do \u00c9dipo, e foi por essa raz\u00e3o que ele dedicou parte de seu ultim\u00edssimo ensino ao que ele p\u00f4de aprender com James Joyce. O ego de Joyce se constitui sem a imagem do corpo, mas a partir de um enquadramento tra\u00e7ado pela escritura (MALEVAL, 2019). Com efeito, a obra de Joyce e o sinthoma s\u00e3o hom\u00f3logos e a escrita de Joyce prende o imagin\u00e1rio ao enodar o real e o simb\u00f3lico, impedindo o deslizamento de um sobre o outro (LACAN, 1975-76\/2007).<\/p>\n<p>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o, em \u201cCl\u00ednica ir\u00f4nica\u201d, Miller (1996) afirma que a tese universal do del\u00edrio \u00e9 uma tese freudiana. Para Freud, nada deixa de ser sonho. Portanto, se tudo \u00e9 sonho, \u201ctodo mundo \u00e9 louco, isto \u00e9 delirante\u201d. Freud apresenta uma passagem equivalente ao aforisma lacaniano na qual afirma que, em certa medida, somos todos paranoicos, e louco seria aquele que n\u00e3o conseguiu algu\u00e9m para ajud\u00e1-lo a incluir o seu del\u00edrio na realidade (FREUD, 1930\/1980). Ent\u00e3o, se o ultim\u00edssimo ensino de Lacan se encontra com Freud, pelo avesso, como numa banda de Moebius, podemos cotejar um postulado com outro e concluir que, tanto para Freud, quanto para Lacan, o del\u00edrio \u00e9 comum a todos. Por fim, de acordo com Miller (2013), o del\u00edrio \u00e9 universal porque os homens falam e porque habitam a linguagem. Assim, o del\u00edrio lingu\u00edstico lacaniano ocorre porque existe uma inconformidade das palavras \u00e0s coisas, o que significa uma inadequa\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico ao real.<\/p>\n<h6><strong>Entrevista realizada por:<\/strong>\u00a0Giselle Moreira, K\u00e1tia Mari\u00e1s, Lilany Pacheco e Rodrigo Almeida.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CAMPOS, S. de.\u00a0<em>Investiga\u00e7\u00f5es lacanianas sobre as psicoses<\/em>. Volume 2: As psicoses ordin\u00e1rias. Belo Horizonte: Topol\u00f3gica, 2022a.<\/h6>\n<h6>CAMPOS, S. de.\u00a0<em>Investiga\u00e7\u00f5es lacanianas sobre as psicoses<\/em>. Volume 2: As psicoses extraordin\u00e1rias. Belo Horizonte: Topol\u00f3gica, 2022b.<\/h6>\n<h6>CAMPOS, S. de.\u00a0A presen\u00e7a do analista na psicose ordin\u00e1ria.\u00a0<em>Almanaque On-line<\/em>, n. 30, mar. 2023. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/\">http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/<\/a>a-presenca-do-analista-na-psicose-ordinaria. Acesso em: 22 jun. 2023.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXI, 1980. p. 74-171. (Trabalho original publicado em 1930).<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 17<\/em>: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original proferido em 1969-70).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O triunfo da religi\u00e3o. In:\u00a0<em>O triunfo da religi\u00e3o, precedido de Discurso aos cat\u00f3licos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1974).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. A escrita do ego. In:\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/h6>\n<h6>MALEVAL, J.-C. Appr\u00e9hension de la psychose ordinaire. In:\u00a0<em>Rep\u00e8res pour la psychose ordinaire<\/em>. Paris: Navarin, 2019,\u00a0 p. 41.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Cl\u00ednica Ir\u00f4nica. In:\u00a0<em>Matemas I<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 190-199.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Efeito do retorno \u00e0 psicose ordin\u00e1ria.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online &#8211; Nova s\u00e9rie,\u00a0<\/em>v. 1, n. 3, 2010. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_3\/\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_3\/<\/a>\u00a0efeito_do_retorno_psicose_ordinaria.pdf. Acesso em: 22 jun. 2023.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0<em>O ser e o Um. Li\u00e7\u00e3o<\/em><em>\u00a0<\/em>de 23 de mar\u00e7o de 2011. 2011. (Texto in\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Momento de concluir. In:\u00a0<em>El ultim\u00edsimo Lacan<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/h6>\n<h6>MILLER J.-A. Todo mundo \u00e9 louco. AMP 2024.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 85, p. 8-17, dez. 2022.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio de Campos A.M. E. da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/A.M.P. sergiodecampos@uol.com.br Almanaque On-Line: No final do volume 2 de seu livro Investiga\u00e7\u00f5es lacanianas sobre as psicoses \u2013 volume este intitulado \u201cAs psicoses ordin\u00e1rias\u201d (CAMPOS, 2022a) \u2013 voc\u00ea cita Lacan quando ele afirma, a prop\u00f3sito da religi\u00e3o, que a psican\u00e1lise n\u00e3o triunfar\u00e1: ela sobreviver\u00e1 ou n\u00e3o.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57797,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-233","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=233"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57798,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233\/revisions\/57798"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57797"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}