{"id":236,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=236"},"modified":"2025-12-01T12:55:54","modified_gmt":"2025-12-01T15:55:54","slug":"clinica-psicanalitica-do-delirio1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/clinica-psicanalitica-do-delirio1\/","title":{"rendered":"Cl\u00ednica psicanal\u00edtica do del\u00edrio<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Laurent Dupont<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, A.M.E. da \u00c9cole de la Cause Freudienne \/AMP<br \/>\n<span id=\"cloake923811f4c404d71bf84ac55e524ce59\"><a href=\"mailto:laurentdupont.mail@gmail.com\">laurentdupont.mail@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo:<\/strong>\u00a0Em a \u201cCl\u00ednica psicanal\u00edtica do del\u00edrio\u201d, Laurent Dupont parte das considera\u00e7\u00f5es freudianas sobre o del\u00edrio no caso Schreber e, ao longo do texto, prop\u00f5e ler o<em>\u00a0todo mundo \u00e9 louco<\/em>\u00a0lacaniano como uma tentativa de cura diante do real. Ao retomar as tr\u00eas etapas da constru\u00e7\u00e3o do del\u00edrio, Dupont lan\u00e7a luz sobre o papel do narcisismo e da sublima\u00e7\u00e3o nesse processo. Nesse sentido, a tese lacaniana do del\u00edrio generalizado aponta, segundo o autor, para uma tentativa de trazer um significante de volta ao furo: \u201ctudo o que o homem constr\u00f3i, inventa, pensa \u00e9 uma forma de lidar, de compensar este furo fundamental da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0del\u00edrio; paranoia; sublima\u00e7\u00e3o; narcisismo; real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PSYCHOANALYTIC DELIRIUM CLINIC<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abstract:<\/strong>\u00a0In the \u201cPsychoanalytic clinic of delirium\u201d, Laurent Dupont starts from freudian considerations about delirium in the Schreber case and, throughout the text, he proposes to read the lacanian \u201ceverybody is crazy\u201d as an attempt to cure the real. By resuming the three stages of delirium construction, Dupont sheds light on the role of narcissism and sublimation in this process. In this sense, the Lacanian thesis of generalized delirium points, according to the author, to an attempt to bring a signifier back to the hole: \u201ceverything that man builds, invents, thinks is a way of dealing with, of compensating for this fundamental hole of not sexual intercourse\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0delirium; paranoia; sublimation; narcissism; real.<\/p>\n<\/blockquote>\n<div id=\"attachment_237\" style=\"width: 860px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/clinica_psicanalise_do_delirio.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"850\" data-large_image_height=\"894\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-237\" class=\"size-full wp-image-237\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/clinica_psicanalise_do_delirio.png\" alt=\"\" width=\"850\" height=\"894\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/clinica_psicanalise_do_delirio.png 850w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/clinica_psicanalise_do_delirio-285x300.png 285w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/clinica_psicanalise_do_delirio-768x808.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 850px) 100vw, 850px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-237\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Proponho pensar sobre esta quest\u00e3o a partir de duas declara\u00e7\u00f5es, sendo a primeira de Freud (1911\/1996, p. 78): \u201cA forma\u00e7\u00e3o delirante, que presumimos ser o produto patol\u00f3gico, \u00e9, na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstru\u00e7\u00e3o\u201d; e a outra, de Lacan (1978\/2010, p. 31): \u201ctodo o mundo (se tal express\u00e3o pode ser dita), todo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d. Assim, \u00e9 poss\u00edvel para n\u00f3s entendermos o\u00a0<em>todo mundo \u00e9 louco\u00a0<\/em>lacaniano como uma tentativa de cura; mas curar o qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud (1911\/1996, p. 78) prop\u00f5e uma constru\u00e7\u00e3o do del\u00edrio em tr\u00eas etapas. Primeiro, a ideia de uma cat\u00e1strofe universal, um processo que \u00e9 realizado de forma silenciosa, deixando o sujeito impossibilitado de dizer algo. Vamos falar de perplexidade, sidera\u00e7\u00e3o. Nenhum significante vem nomear esse colapso, o surgimento de um furo. Segundo tempo freudiano: a libido se desprende de pessoas ou coisas antes amadas (FREUD, 1911\/1996, p. 79), deixando o sujeito em uma solid\u00e3o radical. Esse desprendimento \u00e9 o sinal de uma frouxid\u00e3o tanto do imagin\u00e1rio quanto do simb\u00f3lico: o sil\u00eancio da puls\u00e3o torna-se ensurdecedor, deixando o sujeito fora de tudo. A terceira etapa pode ocorrer no instante exato da segunda: reinvestimento da libido nos objetos de amor anteriores, mas sob a forma de um del\u00edrio. Esta \u00e9 a tentativa de cura:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">O que chama t\u00e3o ruidosamente a nossa aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo de restabelecimento, que desfaz o trabalho da repress\u00e3o, e traz de volta a libido para as pessoas que ele havia abandonado. Na paranoia este processo \u00e9 efetuado pelo m\u00e9todo da proje\u00e7\u00e3o. Foi incorreto dizer que a percep\u00e7\u00e3o suprimida internamente \u00e9 projetada para o exterior, a verdade \u00e9 pelo contr\u00e1rio, como agora percebemos, que aquilo que foi internamente abolido retorna do lado de fora. (FREUD, 1911\/1996, p. 79)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan formula esse ponto da seguinte forma: o que est\u00e1 foraclu\u00eddo do simb\u00f3lico, do exterior, retorna no pr\u00f3prio corpo do sujeito. O del\u00edrio \u00e9, portanto, uma tentativa de trazer um significante de volta ao furo, uma tentativa de localizar o gozo; seja desesperada, v\u00e3 ou eficaz, ela \u00e9 sempre uma tentativa de cura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Querer, portanto, como \u00e9 proposto hoje na psiquiatria, erradicar o del\u00edrio, ou que o sujeito o critique, significa suprimir a \u00fanica tentativa de solu\u00e7\u00e3o que o sujeito consegue estabelecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O que fazer com um del\u00edrio?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud n\u00e3o sustenta o del\u00edrio, ele o analisa, ele o segue ao p\u00e9 da letra e identifica seus detalhes. De fato, um sujeito s\u00f3 pode delirar a partir dos significantes dos quais ele disp\u00f5e. O del\u00edrio, como o sonho ou o desenho na crian\u00e7a, est\u00e1 l\u00e1 para produzir significantes, significantes da l\u00edngua do sujeito. \u201cPorca\u201d \u00e9 o significante a partir do qual Lacan pode construir o caso, seu surgimento testemunha que \u00e9 este e n\u00e3o um outro. H\u00e1, de uma forma ou de outra, uma esp\u00e9cie de escolha do sujeito, uma redu\u00e7\u00e3o ao n\u00facleo de uma cifra\u00e7\u00e3o m\u00ednima do inconsciente a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguir o del\u00edrio ao p\u00e9 da letra, ou seja, l\u00ea-lo sem se deter no sentido que se desprende, leva Freud a formular algumas hip\u00f3teses: todas as constru\u00e7\u00f5es, \u201cas engenhosas erigidas pelo del\u00edrio de Schreber no campo da religi\u00e3o \u2013 a hierarquia de Deus, [&#8230;] podemos avaliar, retrospectivamente a quantidade de sublima\u00e7\u00f5es transformadas em ru\u00ednas pela cat\u00e1strofe do desligamento geral da libido\u201d (FREUD, 1911\/1996, p. 80).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No del\u00edrio, pode haver uma tentativa de cura atrav\u00e9s de uma forma de sublima\u00e7\u00e3o. Isso est\u00e1 relacionado com o fato de que, por causa do desinvestimento da libido nas pessoas amadas, o retorno a elas \u00e9 feito de in\u00edcio pelo eu do sujeito: \u201ca libido liberada vincula-se ao eu e \u00e9 utilizada para o engrandecimento deste\u201d (FREUD, 1911\/1996, p. 79) e visa \u00e0 amplifica\u00e7\u00e3o desse eu condenado ao caos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan fala nesse del\u00edrio de grandeza, da\u00a0<em>fun\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0que visa a ocorr\u00eancia do del\u00edrio no caso do Presidente Schreber. H\u00e1, portanto, uma localiza\u00e7\u00e3o feita por Freud de uma colagem, ao mesmo tempo uma tentativa de cura por um refor\u00e7o do narcisismo e o recurso a uma forma de sublima\u00e7\u00e3o, ambos se sobrep\u00f5em, soldados um ao outro: numa tentativa de colocar em forma o que Lacan nomeia de o sinthoma em Joyce: escabelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud (1911\/1996, p. 83) tamb\u00e9m argumenta que \u201cpodemos considerar a fase de alucina\u00e7\u00f5es violentas como uma luta entre a repress\u00e3o e uma tentativa de restabelecimento que busca devolver a libido a seus objetos\u201d. Assim, Freud mostra tr\u00eas tempos no estabelecimento do del\u00edrio: 1) colapso do mundo, deixando o sujeito fora do sentido, silencioso, sem recurso poss\u00edvel tanto em rela\u00e7\u00e3o ao simb\u00f3lico quanto ao imagin\u00e1rio. 2) Fase de agita\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria, \u201co que \u00e9 abolido retorna do exterior\u201d. 3) O del\u00edrio \u00e9 uma tentativa de cura na medida em que tenta restaurar o sentido e permitir o reinvestimento nos objetos. E Freud acrescenta essa frase de uma atualidade fulgurante: \u201cMas \u00e9 essa tentativa de cura que os observadores consideram ser a pr\u00f3pria doen\u00e7a\u201d. Muito pouco mudou hoje em rela\u00e7\u00e3o a essa observa\u00e7\u00e3o, o del\u00edrio \u00e9 visto menos como uma tentativa de cura do que como uma produ\u00e7\u00e3o a se erradicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O del\u00edrio testemunha um colapso do imagin\u00e1rio e do recurso ao significante S1, sozinho, n\u00e3o ligado a um S2, como tentativa de lidar com o que retorna no corpo Um que deixa o sujeito desamparado. Mas esse significante S1 frequentemente n\u00e3o fornece ao sujeito nenhum significado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que acontece com ele, ao contr\u00e1rio, ele \u00e9 o tra\u00e7o do furo radical de qualquer sujeito confrontado com o real. A elabora\u00e7\u00e3o delirante \u00e9, portanto, neste momento, uma tentativa de remendar o desenlace imagin\u00e1rio. Algumas vezes, esta solu\u00e7\u00e3o pode operar uma nomea\u00e7\u00e3o, como em Joyce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi em 1978, em seu \u00faltimo ensino, que Lacan (1978\/2010, p. 31) formulou: \u201cComo fazer para ensinar o que n\u00e3o se ensina? Foi por a\u00ed que Freud caminhou. Ele considerou que n\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m de sonho, e que todo mundo (se tal express\u00e3o pode ser dita), todo mundo \u00e9 louco, ou seja, delirante\u201d.\u00a0 Se a met\u00e1fora paterna \u00e9 respons\u00e1vel pela rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro e por sua aliena\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, a partir do Semin\u00e1rio XI, Lacan traz \u00e0 tona, com o objeto\u00a0<em>a<\/em>, a quest\u00e3o sob o \u00e2ngulo da separa\u00e7\u00e3o, da extra\u00e7\u00e3o. Seja em rela\u00e7\u00e3o ao S1 sozinho, falha de significantiza\u00e7\u00e3o do gozo, seja de defesa contra o real. Nos dir\u00e1 Jacques-Alain Miller (1990): retorno de gozo para o lugar do Outro na paranoia, retorno de gozo generalizado no n\u00edvel do corpo na esquizofrenia, o retorno do gozo, localizado, mas deslocado no corpo como Outro no fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O del\u00edrio generalizado seria uma defesa contra o real. Quanto mais Lacan avan\u00e7a em seu ensino, mais ele apresenta essa no\u00e7\u00e3o de que tudo \u00e9 sonho, tudo \u00e9 del\u00edrio, tudo \u00e9 semblante. Em rela\u00e7\u00e3o a qu\u00ea? Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe, que n\u00e3o se inscreve, que n\u00e3o pode se inscrever. Nada \u00e9 pr\u00e9-estabelecido, nada \u00e9 programado para permitir o encontro. Lacan (1978, p. 8) dir\u00e1 que a psican\u00e1lise, nesse sentido, \u00e9 em si mesma um del\u00edrio: \u201cA psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia. Ela n\u00e3o tem estatuto de ci\u00eancia, ela s\u00f3 pode estar \u00e0 espera, a esperar por isso. \u00c9 um del\u00edrio \u2013 um del\u00edrio que se espera que comporte uma ci\u00eancia\u201d. Lacan vai dizer que o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0\u00e9 um semblante, que o amor \u00e9 um semblante, que a verdade \u00e9 uma mentira&#8230; tudo isso em rela\u00e7\u00e3o a esse real que n\u00e3o \u00e9 nem apreens\u00edvel pelo imagin\u00e1rio, nem pelo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo o que o homem constr\u00f3i, inventa, pensa \u00e9 uma forma de lidar, de compensar esse furo fundamental da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. Lacan (1972-73\/2008, p. 149) chega ao ponto de dizer que \u201cA linguagem, sem d\u00favida, \u00e9 feita de lal\u00edngua. \u00c9 uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber sobre lalangue\u201d. A pr\u00f3pria linguagem \u00e9 um del\u00edrio. Assim, o sujeito, na imaturidade de seu nascimento, nesse momento em que se trata apenas de uma subst\u00e2ncia gozante, experimenta de forma radical a aus\u00eancia de um programa, de rela\u00e7\u00e3o com o Outro nesse primeiro encontro com o significante, mordida do significante no corpo, marca que deixa um tra\u00e7o indel\u00e9vel, marca Um, essa que Jacques-Alain Miller (2011) diz em\u00a0<em>O Ser e o Um<\/em>: \u201c\u00c9 o Um do significante\u201d. Este Um \u00e9 apagado pela a\u00e7\u00e3o da linguagem que faz emergir o ser. Em \u201cJoyce, o Sinthoma\u201d, Lacan (1975\/2003, p. 561) diz desta forma: \u201cA fala, \u00e9 claro, define-se a\u00ed por ser o \u00fanico lugar em que o ser tem um sentido\u201d. O ser tamb\u00e9m \u00e9 um semblante, o ser tamb\u00e9m \u00e9 um del\u00edrio, uma elucubra\u00e7\u00e3o sobre esse tra\u00e7o inicial, esse traumatismo inicial de\u00a0<em>lalangue<\/em>, e \u00e9 esta a marca, o tra\u00e7o da exist\u00eancia do sujeito, o qual itera. Isto \u00e9 trans-estrutural. Todos s\u00e3o delirantes porque a partir desta marca, esta mordida no corpo pelo Um do significante, cada sujeito ser\u00e1 elaborado, elucidado, constru\u00eddo. Essa marca, esse encontro inicial, \u00e9 imposs\u00edvel de dizer porque o real n\u00e3o pode ser dito, s\u00f3 pode ser definido, unicamente com base na l\u00f3gica, no equ\u00edvoco, no que se itera no sujeito. \u00c9 por isso que os testemunhos de passe n\u00e3o dizem o real, como tal eles s\u00e3o fic\u00e7\u00f5es, contam como cada um, um a um, tem sido capaz de desconstruir suas fic\u00e7\u00f5es, suas identifica\u00e7\u00f5es, sua rela\u00e7\u00e3o com o objeto, em suma, seus del\u00edrios. Isso \u00e9 o que permitiu a Jacques-Alain Miller dizer que, tendo sido o passe feito uma vez, todos os escabelos foram queimados, restam os escabelos do passe: a ultrapassagem.<sup><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/clinica-psicanalitica#nota2\">[2]<\/a><a id=\"ref2\"><\/a><\/sup>\u00a0Recordo essa defini\u00e7\u00e3o de escabelo por Jacques-Alain Miller (2016): aquilo em que se sobe para se fazer bonito e para se tornar belo, para se empurrar para cima, o cruzamento do narcisismo e da sublima\u00e7\u00e3o. Aqui vemos ressurgir os dois pontos de refer\u00eancia freudianos, o narcisismo e a sublima\u00e7\u00e3o, no que concerne a Schreber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O del\u00edrio universal seria, portanto, uma tentativa de cura diante do real, do furo trans-estrutural da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Rodrigo Almeida<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong>\u00a0Giselle Moreira<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S.\u00a0<em>Notas psicanal\u00edticas sobre um relato autobiogr\u00e1fico de um caso de paranoia<\/em><em>\u00a0<\/em>(dementia paranoides). In:\u00a0<em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XII, 1996. (Trabalho original publicado em 1911).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J., L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre. Ornicar?, n. 14, 1978.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Joyce, o Sinthoma. In:\u00a0<em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. (Trabalho original publicado em 1975).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 20: Mais, ainda.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1972-73).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Transfer\u00eancia para Saint Denis? Di\u00e1rio Ornicar Lacan a favor de Vincennes!\u00a0<em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 65, 2010. (Trabalho original redigido em 1978).<a id=\"nota1\"><\/a>\u00a0<a id=\"nota1\"><\/a><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Algumas reflex\u00f5es sobre o fen\u00f4meno psicossom\u00e1tico. In: WARTEL, R. et al.\u00a0<em>Psicossom\u00e1tica e psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1990, p. 87-97.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A.\u00a0<em>L\u2019orientation lacanienne. L\u2019\u00eatre et l\u2019Un, enseignement prononc\u00e9 dans le cadre du d\u00e9partement de<\/em><em>\u00a0psychanalyse de l\u2019universit\u00e9 Paris VIII, le\u00e7on du 16 mars 2011<\/em>. 2011. (Texto in\u00e9dito).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. In<em>: X Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro, 2016. Dispon\u00edvel em: www.congressoamp2016.com\/uploads\/ Acesso em: 18 jan. 2023.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/clinica-psicanalitica#ref1\">[1]<\/a>\u00a0Publicado originalmente em franc\u00eas em\u00a0<em>L\u2019hebdo\u2013Blog<\/em>, n. 136, em 6 de maio de 2018. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.hebdo-blog.fr\/clinique-psychanalytique-delire\/<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/clinica-psicanalitica#ref2\">[2]<\/a>\u00a0No original:\u00a0<em>l\u2019outrepasse<\/em>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Laurent Dupont Psicanalista, A.M.E. da \u00c9cole de la Cause Freudienne \/AMP laurentdupont.mail@gmail.com Resumo:\u00a0Em a \u201cCl\u00ednica psicanal\u00edtica do del\u00edrio\u201d, Laurent Dupont parte das considera\u00e7\u00f5es freudianas sobre o del\u00edrio no caso Schreber e, ao longo do texto, prop\u00f5e ler o\u00a0todo mundo \u00e9 louco\u00a0lacaniano como uma tentativa de cura diante do real. Ao retomar as tr\u00eas etapas da&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57799,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-236","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=236"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/236\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57800,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/236\/revisions\/57800"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57799"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}