{"id":248,"date":"2023-08-15T19:24:18","date_gmt":"2023-08-15T22:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=248"},"modified":"2025-12-01T12:59:33","modified_gmt":"2025-12-01T15:59:33","slug":"schreber-ainda-contemporaneo1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2023\/08\/15\/schreber-ainda-contemporaneo1\/","title":{"rendered":"Schreber, ainda contempor\u00e2neo<sep>[1]<\/sep>"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><sup><a id=\"dereferencia1\" contenteditable=\"false\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/54-almanaque-on-line-31\/541-schreber-ainda-contemporaneo#indice1\"><\/a><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/54-almanaque-on-line-31\/541-schreber-ainda-contemporaneo#[1]\" name=\"_ednref1\"><\/a><\/sup><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e9rgio Laia<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, A.M.E. da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<br \/>\n<span id=\"cloakff923f4854a6497074728181236daa76\"><a href=\"mailto:laia.bhe@terra.com.br\">laia.bhe@terra.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/54-almanaque-on-line-31\/541-schreber-ainda-contemporaneo#_ednref1\" name=\"_edn1\"><\/a><\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:\u00a0<\/strong>Este texto procura demonstrar a contemporaneidade do relato publicado por Schreber sobre sua \u201cdoen\u00e7a dos nervos\u201d, bem como da leitura que Freud e Lacan lhe consagraram. Privilegia-se, ent\u00e3o, o que ele experimentou como rompimento da Ordem do Mundo, sua emascula\u00e7\u00e3o e um recurso inventado e designado por ele como \u201cdesenhar\u201d.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave:<\/strong>\u00a0psicose; emascula\u00e7\u00e3o; imagin\u00e1rio; real; ordem simb\u00f3lica; Nome-do-Pai.<\/p>\n<p><strong>SCHREBER, STILL CONTEMPORARY<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:\u00a0<\/strong>This text aims to demonstrate Schreber\u2019s contemporaneity based on his\u00a0<em>Memory<\/em>\u00a0and the commentaries made by Freud and Lacan on this book. It highlights what Schreber experimented as a rupture of the Order of World, an emasculation and a resource invented and called by him as \u201cdrawing\u201d.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong>\u00a0psychosis; emasculation; imaginary; real; symbolic order; Name-of-Father.<\/p><\/blockquote>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_249\" style=\"width: 860px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/aula_inaugural.png\" data-dt-img-description=\"Imagem: Renata Laguardia\" data-large_image_width=\"850\" data-large_image_height=\"1071\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-249\" class=\"size-large wp-image-249\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/aula_inaugural-813x1024.png\" alt=\"\" width=\"813\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/aula_inaugural-813x1024.png 813w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/aula_inaugural-238x300.png 238w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/aula_inaugural-768x968.png 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/aula_inaugural.png 850w\" sizes=\"auto, (max-width: 813px) 100vw, 813px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-249\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Renata Laguardia<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao propor, para Lilany Pacheco, Diretora do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais (IPSM-MG), esta aula com este t\u00edtulo, quis, de in\u00edcio, me servir daquele que p\u00f4de se tornar um \u201ccaso\u201d decisivo para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica das psicoses (FREUD, 1912\/2021; SCHREBER, 1903\/1980) e articul\u00e1-lo \u00e0 pr\u00f3xima Jornada da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP-MG) \u2013\u00a0<em>H\u00e1 algo de novo nas psicoses&#8230; ainda<\/em>. Por\u00e9m, em que uma psicose, marcada claramente pela anula\u00e7\u00e3o, no simb\u00f3lico, desse significante ordenador fundamental que Lacan chamou de Nome-do-Pai, pode ser contempor\u00e2nea deste nosso mundo perpassado muito mais por uma cr\u00edtica (e mesmo uma derrocada) do patriarcado? O que o del\u00edrio schreberiano de procria\u00e7\u00e3o e de filia\u00e7\u00e3o, fortemente marcado por conota\u00e7\u00f5es religiosas e redentoras, pode ser contempor\u00e2neo aos nossos dias atravessados pela descren\u00e7a no Pai, pelo desmantelamento dos ideais e por transforma\u00e7\u00f5es que distanciam a fam\u00edlia do que tradicionalmente se conceberia como sendo uma fam\u00edlia? Por que, tamb\u00e9m, um caso assolado pela persist\u00eancia de um del\u00edrio extraordin\u00e1rio, por alucina\u00e7\u00f5es auditivas e visuais, seria contempor\u00e2neo quando, em nossa cl\u00ednica, as psicoses se apresentam de forma muito mais ordin\u00e1ria e sem essas caracter\u00edsticas com que classicamente eram diagnosticadas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, a persistente contemporaneidade de Schreber j\u00e1 se destacaria pela permanente import\u00e2ncia de seu texto para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica das psicoses. Assim, Schreber ainda seria contempor\u00e2neo porque se trata de um caso incontorn\u00e1vel para cada um de n\u00f3s que sustenta, com a psican\u00e1lise, tratamentos poss\u00edveis para as psicoses ou, valendo-me de um escrito de Lacan (1966\/2001, p. 214), sua persistente contemporaneidade se alinha com aquela mesma de Freud pois \u201co texto de Schreber \u00e9 um grande texto freudiano, no sentido de que, antes de ser Freud que o esclare\u00e7a, \u00e9 ele que ilumina a pertin\u00eancia das categorias cunhadas por Freud, sem d\u00favida, para outros objetos\u201d. O pr\u00f3prio Freud (1912\/2021, p. 622) antecipa essa designa\u00e7\u00e3o que lhe far\u00e1 Lacan ao afirmar, no final de seu estudo sobre Schreber, que \u201cna verdade, os \u2018raios divinos\u2019 de Schreber compostos por condensa\u00e7\u00e3o de raios solares, fibras nervosas e espermatozoides s\u00e3o t\u00e3o somente os investimentos libidinais materializados e projetados para fora, e emprestam ao seu del\u00edrio uma concord\u00e2ncia flagrante com nossa teoria\u201d. De fato, como um desses \u201coutros objetos\u201d aludido por Lacan (1966\/2001, p. 214), o funcionamento do aparelho ps\u00edquico concebido por Freud n\u00e3o deixa de se fazer presente quando Schreber (1903\/1980, p. 35) compara \u201ca alma humana [&#8230;] contida nos nervos do corpo\u201d a \u201cfios de linha mais finos\u201d e, assim, por meio das impress\u00f5es externas, \u201cos nervos s\u00e3o levados a vibra\u00e7\u00f5es que, de um modo inexplic\u00e1vel, produzem o sentimento de prazer e desprazer; possuem a capacidade de reter recorda\u00e7\u00f5es das impress\u00f5es recebidas (a mem\u00f3ria humana)\u201d. A contemporaneidade de Schreber tamb\u00e9m pode ser relacionada ainda \u00e0 pr\u00f3pria contemporaneidade de Lacan (1966\/2001, p. 215) pois este \u00faltimo ressalta que \u201co texto de Schreber se verifica como um texto a ser inscrito no discurso lacaniano\u201d ao permitir-lhe \u201cretomar o fio\u201d que o leva \u00e0 \u201caventura freudiana\u201d a partir da \u201ctrincheira aberta\u201d por sua tese de doutorado dedicada \u00e0 psicose paranoica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicado em 1903, sustento tamb\u00e9m que\u00a0<em>Mem\u00f3rias de um doente dos nervos<\/em>\u00a0pode ser lido como uma esp\u00e9cie de vanguarda para sua \u00e9poca e muito mais pr\u00f3ximo de nossos dias. Afinal, entre tantas revela\u00e7\u00f5es realmente impressionantes, encontramos nele o relato de como um homem alem\u00e3o e tradicional, Presidente da Corte de Apela\u00e7\u00e3o de Dresden, que se concebia como tendo \u201cuma natureza tranquila, quase s\u00f3bria, sem paix\u00e3o, com pensamento claro e cujo talento individual se orientava mais para a cr\u00edtica intelectual fria do que para a atividade criadora de uma imagina\u00e7\u00e3o solta\u201d (SCHREBER 1903\/1980, p. 82), foi a princ\u00edpio surpreendido pela ideia de como \u201cdeveria ser realmente bom ser uma mulher se submetendo ao coito\u201d\u00a0 e, algum tempo depois, n\u00e3o sem resistir, a princ\u00edpio, \u00e0 exig\u00eancia de ser transformado em mulher, acabou por consagrar seu corpo a essa emascula\u00e7\u00e3o para, numa copula\u00e7\u00e3o com Deus, poder gerar uma nova ra\u00e7a humana e encontrar alguma solu\u00e7\u00e3o para os males terr\u00edveis que o atormentavam (SCHREBER, 1903\/1980, p. 60, 72-78 e 175-177).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Schreber (1903\/1980, p. 60) sustentava que sua aspira\u00e7\u00e3o inicial de ser uma mulher em uma rela\u00e7\u00e3o sexual seria, em \u201cplena consci\u00eancia\u201d, rejeitada com \u201cindigna\u00e7\u00e3o\u201d por ele, mas acabou por considerar que ela lhe havia \u201csido inspirada por influ\u00eancias externas que estavam em jogo\u201d. Ao abordar o quanto a emascula\u00e7\u00e3o de seu corpo o deixava entregue a violentos ass\u00e9dios sexuais promovidos por Flechsig, chega mesmo a destacar que esse seu primeiro e mais renomado psiquiatra n\u00e3o aparecia a\u00ed como um homem, mas em sua \u201c<em>qualidade de alma<\/em>\u201d (SCHREBER, 1903\/1980, p. 77). Ainda assim, n\u00e3o deixa de afirmar o seguinte: \u201cpode-se imaginar o quanto toda a minha honra, o meu amor-pr\u00f3prio viril, bem como toda a minha personalidade moral se rebelava contra esse plano vergonhoso, quando tive certeza de ter tomado conhecimento dele\u201d (SCHREBER, 1903\/1980, p. 77). Por\u00e9m, tamb\u00e9m relata que, nessa mesma ocasi\u00e3o, foi \u201ctomado por representa\u00e7\u00f5es sagradas sobre Deus e a Ordem do Mundo, e excitado pelas primeiras revela\u00e7\u00f5es sobre as coisas divinas que tinha tido atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o com outras almas\u201d (SCHREBER, 1903\/1980, p. 77). Portanto, \u00e9 a nessa\u00a0<em>excita\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0ou, para utilizar um termo lacaniano, \u00e9 a nesse\u00a0<em>gozo<\/em>\u00a0que Schreber se apoia para ceder sua \u201chonra\u201d, seu \u201camor-pr\u00f3prio viril\u201d e sua \u201cpersonalidade moral\u201d. E, assim, o modo como se consagra, mesmo que n\u00e3o sem resist\u00eancia, a esse\u00a0<em>fora\u00a0<\/em>que lhe afeta o corpo, feminizando-o, me parece ser um marco importante de sua contemporaneidade, na medida em que vivemos hoje em um mundo onde as diferen\u00e7as de g\u00eanero s\u00e3o em geral abordadas como meros efeitos de uma domina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-social e os corpos s\u00e3o cada vez mais convocados a viver o que h\u00e1 de fluido e m\u00faltiplo em seus modos de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um \u00faltimo aspecto da contemporaneidade de Schreber, relacionado a um modo como opera com o imagin\u00e1rio, me surpreendeu, embora, conforme veremos, n\u00e3o deixe de estar associado \u00e0s suas experi\u00eancias com a emascula\u00e7\u00e3o. Assim, vou explicitar um pouco mais, primeiro, o que me permitiu, de in\u00edcio, declarar Schreber ainda como contempor\u00e2neo a n\u00f3s e, em seguida, abordar sua experi\u00eancia com o que Lacan (1958\/1966, p. 571,\u00a0<em>sch\u00e9ma I<\/em>) chamou de \u201cgozo transexualista\u201d. Por fim, procurarei mostrar como ele faz uso da imagem para operar com o real do gozo que lhe toma o corpo, evocando, a meu ver, o que Miller (2006-2007\/2013) destacou como o imagin\u00e1rio no \u00faltimo ensino de Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fratura, desordenamento e reconstru\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao concluir um Congresso da AMP intitulado\u00a0<em>A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI\u00a0<\/em>e anunciar o seguinte,\u00a0<em>Um real para o s\u00e9culo XXI<\/em>, Miller (2014, p. 22) afirma que vivemos um \u201cdesarranjo da ordem simb\u00f3lica\u201d e a \u201cpedra angular\u201d dessa ordem, ou seja, \u201co Nome-do-Pai, se trincou\u201d, na medida em que o capitalismo e a ci\u00eancia colocam radicalmente em quest\u00e3o as refer\u00eancias paternas at\u00e9 ent\u00e3o vigentes. Tamb\u00e9m nos lembra que o pr\u00f3prio Lacan, ao longo de seu ensino, \u201cdepreciou essa fun\u00e7\u00e3o-chave\u201d relacionada ao pai, passando a consider\u00e1-la \u201cnada mais do que um sinthoma, isto \u00e9, a supl\u00eancia de um furo\u201d (MILLER, 2014, p. 22). Por sua vez, esse furo que o Nome-do-Pai n\u00e3o colmata, afeta toda esp\u00e9cie humana, \u201c\u00e9 a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d porque, para os \u201cseres vivos que falam\u201d, h\u00e1 uma \u201ccar\u00eancia de saber concernente \u00e0 sexualidade\u201d (MILLER, 2014, p. 22) e a qualquer proporcionalidade entre os corpos sexuados. A foraclus\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 mais apenas um mecanismo espec\u00edfico das psicoses e que atinge, no simb\u00f3lico, o Nome-do-Pai: quanto \u00e0 inexist\u00eancia de uma proporcionalidade entre os sexos, a essa car\u00eancia de um saber capaz de regular a sexualidade humana como acontece com a dos outros seres vivos n\u00e3o falantes, a esse \u201crebaixamento do Nome-do-Pai\u201d, a foraclus\u00e3o se generaliza e experimentamos, por conseguinte, uma \u201cextens\u00e3o da categoria de loucura a todos os seres falantes\u201d (MILLER, 2014, p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse abalo das refer\u00eancias paternas, bem como a exposi\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m cada vez mais atual, desse furo relativo aos corpos humanos sexuados, fazem Miller (2014, p. 23) declarar que h\u00e1 \u201cuma grande desordem no real\u201d. Essa declara\u00e7\u00e3o me parece mostrar, no \u00e2mbito do que nos tem acontecido, esta \u201cideia-limite\u201d (MILLER, 2014, p. 28) encontrada no \u00faltimo ensino de Lacan (1975-76\/2007, p. 133): \u201co real \u00e9 sem lei\u201d . Esse desordenamento no real e esse destaque \u00e0 trinca (ou \u00e0 fratura) que atinge o Nome-do-Pai como significante fundamental s\u00e3o, como insistirei a seguir, ind\u00edcios importantes do que apresento como a atualidade de Schreber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu livro, a Ordem do Mundo \u00e9 definida como \u201cuma \u2018constru\u00e7\u00e3o prodigiosa\u2019, diante de cuja sublimidade recuam todas as representa\u00e7\u00f5es constru\u00eddas pelos homens e povos, no curso da hist\u00f3ria, sobre suas rela\u00e7\u00f5es com Deus\u201d (SCHREBER, 1903\/1984, p. 47). Em outros termos, a sublimidade da Ordem do Mundo se eleva frente \u00e0s representa\u00e7\u00f5es divino-paternais formuladas historicamente. Mais adiante, a fun\u00e7\u00e3o da Ordem do Mundo \u00e9 articulada \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o do que \u00e9 vivo, na medida em que Schreber (1903\/1984, p. 81, nota 35) a concebe como a \u201crela\u00e7\u00e3o leg\u00edtima\u201d, ou seja, fundada em uma lei, e \u201cque subsiste entre Deus e a cria\u00e7\u00e3o\u201d convocada \u201c\u00e0 vida, dada como algo em si, atrav\u00e9s da ess\u00eancia e das qualidades de Deus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com o que tem de sublime, vital e prodigioso, a Ordem do Mundo foi alvo de um ataque: \u201cocorreu [&#8230;] uma fratura, estreitamente ligada\u201d a seu \u201cdestino pessoal\u201d (SCHREBER, 1903\/1984, p. 48), e Lacan (1958\/1966, p. 558) se vale dessa fratura para localizar \u201cuma desordem provocada na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida no sujeito\u201d. Logo, fraturada a Ordem do Mundo, nada mais fica como antes da vida do sujeito, tudo se desregula e ele sucumbe ao peso da mortifica\u00e7\u00e3o real de seu corpo. Nesse contexto, \u00e9 importante lembrar que Schreber (1903\/1984, p. 49 e 227) atribuiu essa \u201cfratura\u201d a um \u201c<em>assassinato de alma<\/em>\u201d e \u2013 como \u201cas almas eram feitas, segundo sua condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia,\u00a0<em>em conformidade com a Ordem do Mundo<\/em>, apenas para gozar\u201d enquanto \u201co homem ou outras criaturas da Terra\u201d se dedicavam a \u201cuma\u00a0<em>a\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0na vida pr\u00e1tica\u201d \u2013 tal assassinato faz como que uma desertifica\u00e7\u00e3o do gozo atinja severamente todo o mundo. Evocando, ent\u00e3o, Lacan (1960\/1966, p. 819) e sua c\u00e9lebre cita\u00e7\u00e3o de um poema de Val\u00e9ry (1921\/1984, p. 28-29), o mundo de Schreber se torna sem vida e v\u00e3o, frente a essa falha que incide sobre o gozo e compromete gravemente tamb\u00e9m toda\u00a0<em>a\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Especificamente para Schreber, tal comprometimento \u00e9 o pr\u00f3prio adoecimento que, durante quase uma d\u00e9cada, o afasta da regularidade de um conv\u00edvio familiar e social, al\u00e9m de impedi-lo de gozar do posto vital\u00edcio, pautado em uma nomea\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel, definida por ordem do rei e que o consagrava como Juiz-Presidente da Corte de Apela\u00e7\u00e3o da cidade de Dresden. Mas essa fratura tem efeitos devastadores tamb\u00e9m sobre a pr\u00f3pria Ordem do Mundo porque, como nos mostra a leitura que Freud (1912\/2021, p. 558) faz do livro de Schreber, devido a tal lacuna, \u201ca exist\u00eancia do pr\u00f3prio Deus parece amea\u00e7ada\u201d, uma vez que os nervos dos seres humanos\u00a0<em>vivos<\/em>\u00a0[&#8230;], no estado de\u00a0<em>uma excita\u00e7\u00e3o extrema<\/em>\u201d passam a exercer \u201cuma atra\u00e7\u00e3o tal sobre os nervos divinos que Deus n\u00e3o consegue mais se livrar deles\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha quest\u00e3o, em termos lacanianos, \u00e9 se n\u00e3o poder\u00edamos ler essa fratura da Ordem do Mundo tamb\u00e9m como a pr\u00f3pria constata\u00e7\u00e3o \u2013 t\u00e3o contempor\u00e2nea \u2013 de uma inexist\u00eancia do Outro que, no entanto, n\u00e3o apaga a presen\u00e7a do Outro como corpo em nossas vidas. Nesse mesmo contexto, tamb\u00e9m indago se n\u00e3o haveria \u2013 nessa\u00a0<em>excita\u00e7\u00e3o extrema dos vivos<\/em>\u00a0demarcada por Schreber \u2013 uma antecipa\u00e7\u00e3o do que hoje vivemos como uma imperiosa exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. Assim, a fratura da Ordem do Mundo experimentada por Schreber se realiza, em nossos dias, para todos, o que n\u00e3o deixa de ressoar a formula\u00e7\u00e3o lacaniana que Miller (2022) nos convidou a tomar como o t\u00edtulo do pr\u00f3ximo Congresso da AMP, em 2024: \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O\u00a0<em>assassinato de alma<\/em>\u00a0\u2013 marca dessa\u00a0<em>fratura<\/em>\u00a0que incidiu sobre a Ordem do Mundo e desestabilizou Schreber, como ser humano, em sua\u00a0<em>a\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>na\u00a0<em>vida pr\u00e1tica<\/em>\u00a0\u2013 envolvia \u201ccircunst\u00e2ncias\u201d que \u201cn\u00e3o est\u00e3o claras\u201d para ele, relacionadas \u00e0 sua vida privada e que precisaram ser exclu\u00eddas do livro para garantir-lhe a publica\u00e7\u00e3o (FREUD, 1912\/2021, p. 582). Logo, segundo Freud, esse \u201cassassinato\u201d poderia ter sido elucidado por fatos que estariam, por exemplo, no Cap\u00edtulo III de\u00a0<em>Mem\u00f3rias de um doente dos nervos<\/em>\u00a0e que foi suprimido para que esse livro fosse publicado. Freud (1912\/2021, p 583), seguindo as pistas liter\u00e1rias deixadas pelo pr\u00f3prio Schreber, particularmente aquelas do poema \u201cManfredo\u201d de Byron, acaba encontrando a men\u00e7\u00e3o a um incesto, mas verifica que, nesse ponto, \u201cse rompe [&#8230;] o curto fio\u201d. Logo ap\u00f3s se deparar com tal ruptura e verificando o quanto uma suposta liga\u00e7\u00e3o com um incesto n\u00e3o se sustenta, passa a se referir \u00e0 expressiva quantidade de polu\u00e7\u00f5es que Schreber tem no curto per\u00edodo quando as visitas di\u00e1rias da esposa no hospital deixam de acontecer e, ent\u00e3o, retoma a \u201csuposi\u00e7\u00e3o\u201d de que \u201co adoecimento\u201d teria a ver com \u201cuma irrup\u00e7\u00e3o de uma mo\u00e7\u00e3o homossexual\u201d da qual o la\u00e7o com a esposa e, tamb\u00e9m, a pr\u00f3pria paranoia seriam uma esp\u00e9cie de defesa: o desejo homossexual perturbaria consideravelmente um homem como Schreber (sobretudo em sua \u00e9poca) e, ent\u00e3o, a paranoia eclodiria como uma tentativa de afast\u00e1-lo dessa perturba\u00e7\u00e3o, embora tamb\u00e9m o abalou consideravelmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freud (1912\/2021, p. 584) n\u00e3o deixa de ressaltar que falta \u201cum conhecimento mais preciso\u201d da \u201chist\u00f3ria de vida\u201d de Schreber para que se pudesse explicar as raz\u00f5es de a \u201cirrup\u00e7\u00e3o da libido homossexual\u201d ter se dado ap\u00f3s sua nomea\u00e7\u00e3o como Presidente da Corte de Apela\u00e7\u00e3o. Ao n\u00e3o encontrar os dados que confeririam mais precis\u00e3o ao que determinaria o \u201cassassinato de alma\u201d e sem conseguir qualquer acesso \u00e0 presen\u00e7a de algum desejo homossexual recusado por Schreber antes do desencadeamento da psicose, Freud (1912\/2021, p. 583) se vale do lugar que o psiquiatra Flechsig, ou seja, um homem, passou a ocupar no del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o desse \u201cdoente dos nervos\u201d, assim como da andropausa que, de algum modo, j\u00e1 poderia afetar-lhe o corpo e a disposi\u00e7\u00e3o sexual, al\u00e9m dos fracassos vividos, juntamente com a esposa, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de filhos. A figura de Flechsig, em que Freud (1912\/2021, p. 589-590) chega tamb\u00e9m a localizar uma \u201ctransfer\u00eancia\u201d do \u201canseio\u201d vivido com rela\u00e7\u00e3o ao pai e ao irm\u00e3o com uma \u201cintensifica\u00e7\u00e3o er\u00f3tica\u201d, torna-se decisiva para a formula\u00e7\u00e3o da hip\u00f3tese relativa \u00e0 mo\u00e7\u00e3o homossexual da qual a paranoia seria uma defesa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">o motivo do adoecimento foi o surgimento de uma fantasia feminina do desejo (homossexual passiva), que tomara por objeto a pessoa do m\u00e9dico. Contra essa mesma fantasia, ergueu-se parte da personalidade de Schreber, uma intensa resist\u00eancia, e a luta defensiva, que talvez tivesse podido igualmente consumar-se em outras formas, escolheu, por motivos que desconhecemos, a forma do del\u00edrio de persegui\u00e7\u00e3o. Aquele por quem o doente antes ansiava agora se tornava o perseguidor, e o conte\u00fado da fantasia de desejo, o conte\u00fado da persegui\u00e7\u00e3o. (FREUD, 1912\/2021, p. 586)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por sua vez, Lacan (1958\/1966, p. 558) tamb\u00e9m associa o\u00a0<em>assassinato de alma<\/em>\u00a0a \u201cum dano\u201d que Schreber consegue \u201cdesvelar apenas em parte\u201d. Por\u00e9m, o que foi retirado para viabilizar a publica\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Mem\u00f3rias de um doente dos nervos<\/em>\u00a0 (cujo Cap\u00edtulo III serve como refer\u00eancia-vazia por se encontrar literalmente suprimido) passa a ser\u00a0<em>lido\u00a0<\/em>como a instala\u00e7\u00e3o, no livro mesmo, do que foi assassinado, ou seja, da anula\u00e7\u00e3o, em uma psicose, do que Lacan (1969\/2001, p. 373, grifos nossos) chama de\u00a0<em>transmiss\u00e3o<\/em>\u00a0[&#8230;]<em>\u00a0de uma constitui\u00e7\u00e3o subjetiva<\/em>, ou seja, a presen\u00e7a mesma da foraclus\u00e3o se demarca no corpo textual de um livro e, por isso, Lacan (1958\/1966, p. 559) se empenha para mostrar, \u201cna forma mais desenvolvida do del\u00edrio com a qual o livro se confunde [&#8230;] uma estrutura que se verificar\u00e1 similar ao processo mesmo da psicose\u201d. Assim, no que Schreber escreveu como suas Mem\u00f3rias, encontramos o furo da foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai, a presen\u00e7a do que \u00e9 imemor\u00e1vel e n\u00e3o d\u00e1 lugar a qualquer hist\u00f3ria de uma transmiss\u00e3o na qual um sujeito \u00e9 tramado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, vale ainda citar o valor que Lacan (1958\/1966, p. 535) confere \u00e0 \u201ccadeia quebrada\u201d como marca da \u201cirrup\u00e7\u00e3o no real\u201d do \u201cs\u00edmbolo\u201d. Afinal, se tradicionalmente o s\u00edmbolo \u00e9 jun\u00e7\u00e3o de duas partes separadas, essa separa\u00e7\u00e3o, essa ruptura, tamb\u00e9m o constitui, embora seja mais dissimulada pelas estruturas cl\u00ednicas diferentes das psicoses, ou seja, pelas neuroses e pervers\u00f5es. \u00c9 essa presen\u00e7a inelud\u00edvel da quebra de um encadeamento, de uma transmiss\u00e3o subjetiva, de uma hist\u00f3ria, \u00e9 essa separa\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica do s\u00edmbolo que, no entanto, se tenta dissimular e que, ao contr\u00e1rio, nas alucina\u00e7\u00f5es auditivas testemunhadas por psic\u00f3ticos, implica que, \u201cno lugar onde o objeto indiz\u00edvel \u00e9 rejeitado no real, uma palavra (<em>mot<\/em>) se faz escutar [&#8230;] vindo\u00a0<em>no lugar do que n\u00e3o tem nome<\/em>\u201d (LACAN, 1958\/1966, p. 535, grifos nossos). Portanto, esse livro de Mem\u00f3rias do imemor\u00e1vel, de registro do que ficou foraclu\u00eddo de toda inscri\u00e7\u00e3o, \u00e9 essa\u00a0<em>palavra<\/em>\u00a0que, mesmo sem lugar at\u00e9 ent\u00e3o em sua vida subjetiva, Schreber quis fazer ecoar. N\u00e3o foi sem raz\u00e3o que, com a expectativa de a ci\u00eancia futuramente se beneficiar de suas descobertas e como o projeto de retornar \u00e0 sua \u201cvida pr\u00e1tica\u201d de Presidente da Corte de Apela\u00e7\u00e3o, Schreber fez todos os esfor\u00e7os para publicar esse livro que, sobretudo em sua \u00e9poca, n\u00e3o deixava de soar ins\u00f3lito e desconcertante para tais objetivos. Por conseguinte, \u00e9 interessante considerarmos que conseguiu faz\u00ea-lo ser aceito pela editora Oswald Mutze de Leipzig (SANTNER, 1997, p. 18) que, diferente dos objetivos cient\u00edfico-profissionais que o mobilizavam, mas n\u00e3o sem dar-lhe a possibilidade de registro da palavra que n\u00e3o encontrava lugar em sua vida, publicava apenas livros ocultistas e teos\u00f3ficos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan (1958\/1966, p. 564), a partir de sua leitura do livro de Schreber, ressalta que \u201c\u00e9 em torno desse furo onde o suporte da cadeia significante falta ao sujeito\u201d, onde a cadeia se quebra ou, ainda, em termos schreberianos, onde a Ordem do Mundo foi fraturada, \u201cque \u00e9 travada toda a luta onde o sujeito se reconstr\u00f3i\u201d. Nesse contexto, diferente dos p\u00f3s-freudianos que insistiram na hip\u00f3tese freudiana de que, com a paranoia, Schreber se defendia contra a homossexualidade, Lacan (1958\/1966, p. 567) prefere indicar que tal hip\u00f3tese s\u00f3 foi sustentada por Freud porque este, ao redigir e publicar seu estudo sobre tal caso, respectivamente em 1911 e 1912, ainda n\u00e3o havia escrito \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao narcisismo\u201d (1914). Cotejando, ent\u00e3o, o estudo sobre Schreber e as descobertas de Freud a prop\u00f3sito do lugar do narcisismo na economia libidinal e no adoecimento subjetivo (inclusive por suas incid\u00eancias mort\u00edferas), Lacan (1958\/1966, p. 567) considera que, se \u201ca ideia da\u00a0<em>Entmannung<\/em>\u201d, ou seja, da\u00a0<em>emascula\u00e7\u00e3o<\/em>, da feminiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo, deixa de suscitar, com o tempo, a indigna\u00e7\u00e3o de Schreber, \u00e9 porque ele acaba por experiment\u00e1-la como uma invers\u00e3o da experi\u00eancia de que como \u201c<em>sujeito<\/em>\u00a0<em>estava morto<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evocando, ent\u00e3o, de in\u00edcio, a c\u00e9lebre e terr\u00edvel concep\u00e7\u00e3o schreberiana de si como um \u201co primeiro cad\u00e1ver leproso\u201d conduzindo \u201cum cad\u00e1ver leproso\u201d (SCHREBER, 1903\/1984, p. 106), Lacan (1958\/1966, p. 568) a toma como uma \u201cregress\u00e3o do sujeito\u201d, \u201ct\u00f3pica\u201d, \u201cao est\u00e1dio do espelho, na medida em que a rela\u00e7\u00e3o com o outro especular se reduz a\u00ed a seu gume mortal\u201d. Mas Lacan (1958\/1966, p. 568-569) tamb\u00e9m nos mostra que, a essa morte do sujeito, responde \u201cuma pr\u00e1tica transexualista\u201d, na qual Schreber se feminiza e acaba se entregando \u00e0 \u201ccopula\u00e7\u00e3o divina\u201d, que lhe servir\u00e1 de restaura\u00e7\u00e3o da \u201cestrutura imagin\u00e1ria\u201d mais al\u00e9m daquela regress\u00e3o t\u00f3pica que lhe assolou mortiferamente o corpo. Logo, n\u00e3o sem sofrimentos consider\u00e1veis, a emascula\u00e7\u00e3o serve a Schreber para ir al\u00e9m da pr\u00f3pria cadaveriza\u00e7\u00e3o, para tentar ter outro corpo e, desse modo, podemos dizer, como mulher, um Outro diferente daquele que o persegue, assim como outra rela\u00e7\u00e3o com a vida. Nessa dire\u00e7\u00e3o em que o corpo, uma vez emasculado, possa fazer-lhe as vezes de Outro, Schreber mostra-nos tamb\u00e9m o quanto \u00e9 mesmo contempor\u00e2neo ao arco-\u00edris formado pelas cores LGBTQI+.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Imagin\u00e1rio<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito ainda poderia ser apresentado e esclarecido sobre como a emascula\u00e7\u00e3o perturba, toma o corpo de Schreber e ganha um lugar nesse \u201cproblema de solu\u00e7\u00e3o elegante\u201d (LACAN, 1958\/1966, p. 572) no qual as psicoses encontram-se envolvidas. Certamente, em outra ocasi\u00e3o, poderei me dedicar a essa explicita\u00e7\u00e3o. Neste texto, interessa-me agora muito mais focalizar um modo espec\u00edfico de Schreber se posicionar e conceber sua emascula\u00e7\u00e3o. Nesse modo, considero que encontramos um uso do imagin\u00e1rio que n\u00e3o se restringe \u00e0quele de uma reconstru\u00e7\u00e3o do que lhe foi solapado por sua morte como sujeito. Trata-se de um uso que me parece j\u00e1 apontar para a nova concep\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio no \u00faltimo ensino de Lacan, elucidada por Miller (2006-2007\/2012, p. 147-276).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda no per\u00edodo em que a emascula\u00e7\u00e3o era experimentada apenas como uma inj\u00faria ou, mais especificamente, quando os \u201craios divinos\u201d a aludiam como \u201csupostamente iminente\u201d, eles \u201cacreditavam poder zombar\u201d de Schreber dizendo-lhe: \u201c\u2018Miss Schreber\u2019\u201d e, nesse contexto, \u00e9 importante considerar o esclarecimento de Marilene Carone, tradutora brasileira, situado em uma nota de p\u00e9-de-p\u00e1gina, de que, na Alemanha, o termo ingl\u00eas\u00a0<em>Miss<\/em>\u00a0tinha ent\u00e3o um sentido pejorativo, indicando uma mulher solteira cuja reputa\u00e7\u00e3o era duvidosa (SCHREBER, 1903\/1984, p. 136). Nessa mesma ocasi\u00e3o, outras express\u00f5es, segundo Schreber (1903\/1984, p. 136), lhe eram \u201cfrequentemente usadas e repetidas at\u00e9 a exaust\u00e3o\u201d, tais como: \u201c\u2018Voc\u00ea deve ser\u00a0<em>representado<\/em>\u00a0como algu\u00e9m entregue \u00e0 devassid\u00e3o voluptuosa\u2019, etc., etc.\u201d. A palavra\u00a0<em>representado<\/em>\u00a0\u00e9 destacada pelo pr\u00f3prio Schreber (1903\/1984, p. 136), que tamb\u00e9m lhe agrega, em uma nota de p\u00e9-de-p\u00e1gina, um esclarecimento que julgo decisivo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">O conceito de \u201crepresentar\u201d, isto \u00e9, dar a uma coisa ou pessoa outra apar\u00eancia, diferente da que ela tem por sua natureza real (expressando em termos humanos [ou seja, acrescento, fora da l\u00edngua dos nervos e das almas]: \u201cfalsificar\u201d) desempenhou e ainda hoje desempenha um papel muito importante no universo conceitual das almas [&#8230;] Talvez tenha-se chegado \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que, uma vez que se conseguisse criar de um homem uma\u00a0<em>impress\u00e3o\u00a0<\/em>diferente da que corresponde \u00e0s suas caracter\u00edsticas reais, tamb\u00e9m poderia ser poss\u00edvel\u00a0<em>tratar<\/em>\u00a0o homem em quest\u00e3o de acordo com esta impress\u00e3o. Tudo isso se reduz, pois, a um\u00a0<em>auto<\/em>engano, completamente sem valor do ponto de vista pr\u00e1tico, uma vez que o homem, naturalmente, no seu comportamento de fato, e particularmente na linguagem (humana), sempre disp\u00f5e de meios de fazer valer suas caracter\u00edsticas reais contra a \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d intencionada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Verificamos que a emascula\u00e7\u00e3o imposta a seu corpo, mesmo implicando-lhe transforma\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias de gozo reais, n\u00e3o deixa de lhe ser, tamb\u00e9m, o que a l\u00edngua dos nervos concebe como \u201crepresenta\u00e7\u00e3o\u201d e, os humanos, \u201cfalsifica\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0 Ela se comp\u00f5e, portanto, como um \u201c<em>auto<\/em>engano\u201d o faz colocar-se \u201ccontra a \u2018representa\u00e7\u00e3o\u2019 intencionada\u201d. Nessa via contr\u00e1ria, nessa leitura do que pode existir de\u00a0<em>falso<\/em>\u00a0no que experimenta\u00a0<em>realmente<\/em>\u00a0como imposto, considero que Schreber se confere algum uso do\u00a0<em>benef\u00edcio da d\u00favida<\/em>\u00a0e, assim, utiliza um recurso decisivo, a meu ver, para o tratamento das psicoses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa possibilidade de ir contra, n\u00e3o sucumbir e, sobretudo, encontrar outro destino para o que lhe imposto parece-me se consolidar ainda mais com o que, segundo a concep\u00e7\u00e3o das almas, \u00e9 o \u201cdesenhar\u201d: trata-se do \u201c\u2018uso consciente da imagina\u00e7\u00e3o, com o objetivo de produzir imagens (predominantemente imagens mnem\u00f4nicas) que depois s\u00e3o vistas pelos raios\u2019\u201d (SCHREBER, 1903\/1984, p. 222). Assim, frente ao \u201cmart\u00edrio espiritual\u201d que lhe \u201cera proporcionado pelo falat\u00f3rio idiota das vozes\u201d, ele se permite\u00a0<em>desenhar<\/em>, tornar \u201cvis\u00edvel\u201d em sua \u201ccabe\u00e7a ou tamb\u00e9m fora dela\u201d, de forma que essas vozes passam a ter \u201ca impress\u00e3o\u201d de que os \u201cobjetos e fen\u00f4menos\u201d assim desenhados \u201crealmente existiram\u201d e, como essa imposi\u00e7\u00e3o vinda das vozes e os nervos s\u00e3o experimentados como\u00a0<em>milagres<\/em>, ele chega a chamar o procedimento do desenho de \u201cmilagre \u00e0s avessas\u201d (SCHREBER, 1903\/1984, p. 223). Importante esclarecer que n\u00e3o se trata do desenho como o que se registra ou se esbo\u00e7a, com finalidade art\u00edstica ou n\u00e3o, mas de uma esp\u00e9cie de proje\u00e7\u00e3o ou duplica\u00e7\u00e3o, em imagens, do que se est\u00e1 fazendo ou se pode fazer. Nos termos mesmos de Schreber (1903\/1984, p. 223):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">Posso me \u201cdesenhar\u201d em outro lugar, diferente daquele no qual eu de fato estou; por exemplo, enquanto me sento ao piano, estar ao mesmo tempo no quarto ao lado em frente ao espelho, com roupas femininas [&#8230;], criar para mim mesmo e para os raios, quando estou deitado na cama \u00e0 noite, a impress\u00e3o de que meu corpo \u00e9 dotado de seios e de \u00f3rg\u00e3os sexuais femininos. Desenhar um traseiro no meu corpo [&#8230;] tornou-se para mim um h\u00e1bito de tal forma que eu o fa\u00e7o quase involuntariamente toda vez que me inclino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para uma elucida\u00e7\u00e3o de como esse uso do imagin\u00e1rio chega a permitir-lhe n\u00e3o sucumbir ao que lhe \u00e9 imposto, vale citar o modo com que por vezes lidava com os \u201cp\u00e1ssaros miraculados\u201d cujas vozes, em outras circunst\u00e2ncias, exigiam-lhe trabalhar at\u00e9 a exaust\u00e3o para respond\u00ea-las e decifr\u00e1-las: \u201cfazendo tro\u00e7a\u201d com tais aves, ele fazia com que aparecessem em sua cabe\u00e7a a \u201cpr\u00f3pria imagem\u201d desses p\u00e1ssaros \u201csendo devorados por um gato\u201d (SCHREBER, 1903\/1984, p. 224). Com isso, parece-me que ele acede a outro gozo, bem diferente daquele que lhe era imposto e o devastava \u201ca satisfa\u00e7\u00e3o produzida por esta atividade \u00e9 realmente grande\u201d, sobretudo ao conseguir \u201cobter do modo mais f\u00e1cil poss\u00edvel as imagens desejadas\u201d, de forma que a \u201cvis\u00e3o de imagens atua [&#8230;] de um modo purificador sobre os raios, e eles\u201d, assim, o \u201cpenetram [&#8230;] sem a viol\u00eancia destrutiva que lhes \u00e9 peculiar\u201d (SCHREBER, 1903\/1984, p. 225).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Miller (2006-2007\/2012, p. 258), no ultim\u00edssimo ensino de Lacan, uma an\u00e1lise implica \u201cultrapassar\u00a0a hi\u00e2ncia entre o imagin\u00e1rio e o real\u201d.\u00a0Nesse ultrapassamento, o corpo tem uma fun\u00e7\u00e3o decisiva: \u201cno sil\u00eancio do real, e enquanto sempre se tem que desconfiar do simb\u00f3lico que mente, s\u00f3 resta o recurso ao imagin\u00e1rio, isto \u00e9, ao corpo\u201d (MILLER, 2006-2007\/2012, p. 259).\u00a0Vimos que a emascula\u00e7\u00e3o de Schreber toma seu corpo como uma sa\u00edda frente ao furo da foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai no simb\u00f3lico, mas, ainda assim, ele sucumbe a tal furo.\u00a0Ela tamb\u00e9m lhe confere alguma voz para responder ao sil\u00eancio do real do gozo que lhe toma o corpo,\u00a0esse sil\u00eancio que, no entanto, parece ser almejado na medida em que Schreber insiste na exausta\u00e7\u00e3o que lhe provoca o falat\u00f3rio das vozes e, nesse contexto, seu livro destemido e perturbador me parece ser um modo de ele se fazer escutar nessa que seria a\u00a0<em>sua\u00a0<\/em>voz.\u00a0Logo, a emascula\u00e7\u00e3o,\u00a0nesse caso, n\u00e3o deixa de ser, \u00e0s avessas,\u00a0uma consagra\u00e7\u00e3o, mesmo que delirante, aos referenciais paternos.\u00a0N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que, evocando esse recurso paterno que \u00e9 o falo, Lacan (1958\/1966, p. 566) nos brindou com uma interpreta\u00e7\u00e3o que se aplica \u00e0 emascula\u00e7\u00e3o schreberiana: \u201cna falta de poder ser o falo que falta \u00e0 m\u00e3e, resta-lhe a solu\u00e7\u00e3o de ser a mulher que falta aos homens\u201d. Ora, a inven\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>desenhar<\/em>\u00a0nos aponta para outra via e, mesmo que n\u00e3o tenha sido t\u00e3o trilhada quanto aquela da emascula\u00e7\u00e3o, implica o corpo e me parece oferecer a Schreber uma oportunidade muito mais satisfat\u00f3ria para \u201csuperar\u201d, como formula Miller (2006-2007, p. 259) \u201ca hi\u00e2ncia entre o imagin\u00e1rio e o real\u201d. Nesse contexto, se a consagra\u00e7\u00e3o delirante ao pai na emascula\u00e7\u00e3o ganha mais corpo que o desenhar, \u00e9 porque, possivelmente, Schreber habitava um mundo ainda muito centrado nas ins\u00edgnias paternas e, assim, o recurso ao desenho, no modo como ele o inventa e pratica, soa mais contempor\u00e2neo ao nosso mundo desabitado do que \u00e9 paternalmente ordenado.<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, S. Observa\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre um caso de paranoia (<em>dementia paranoides<\/em>) descrito com base em dados biogr\u00e1ficos (caso Schreber). In:\u00a0<em>Hist\u00f3rias cl\u00ednicas:\u00a0<\/em>cinco casos paradigm\u00e1ticos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2021, p. 539-630. (Trabalho original publicado em 1912).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, L. D\u2019une question pr\u00e9liminaire \u00e0 tout traitement possible de la psychose. In:\u00a0\u00a0<em>\u00c9crits<\/em>. Paris: Seuil, 1966, p. 531-583. (Trabalho original publicado em 1958).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Subversion du sujet et dialectique du d\u00e9sir dans l\u2019inconscient freudien. In:\u00a0\u00a0<em>\u00c9crits<\/em>. Paris: Seuil, 1966, p. 793-827. (Trabalho original proferido em 1960).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Pr\u00e9sentation des \u201cM\u00e9moires d\u2019un n\u00e9vropathe\u201d. In:\u00a0<em>Autres \u00e9crits<\/em>. Paris: Seuil, 2001, p. 213-217. (Trabalho original publicado em 1966).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J. Note sur l\u2019enfant. In:\u00a0<em>Autres \u00e9crits<\/em>. Paris: Seuil, 2001, p. 373-374. (Trabalho original escrito em 1969).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A.\u00a0<em>El\u00a0<\/em><em>ultim\u00edsimo Lacan<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012. (Trabalho original proferido em 2006-2007).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. O real no s\u00e9culo XXI. Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do IX Congresso da AMP. In: MACHADO, O.; RIBEIRO, V. A. (org).\u00a0<em>Scilicet<\/em>: o real no s\u00e9culo XXI. Belo Horizonte: Scriptum\/Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2014, p. 21-32.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, J.-A. Tout le monde est fou \u2013 AMP 2024.\u00a0<em>La cause du d\u00e9sir<\/em><em>. Revue de Psychanalyse,<\/em>\u00a0Paris, n. 112, p. 48-57, nov. 2022.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SANTNER, E. L.\u00a0<em>A Alemanha de Schreber<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SCHREBER, D. P. Mem\u00f3rias de um doente dos nervos. Rio de Janeiro: Graal, 1984. (Trabalho original publicado em 1903).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">VAL\u00c9RY, P. Esbo\u00e7o de uma serpente. In: CAMPOS, A.\u00a0<em>Paul Val\u00e9ry<\/em>: a serpente e o pensar. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1984, p. 26-57. (Poema original publicado em 1921).<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/54-almanaque-on-line-31\/541-schreber-ainda-contemporaneo#dereferencia1\">[1]<\/a>\u00a0Aula inaugural do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG proferida em 6 de mar\u00e7o de 2023.<a id=\"indice1\"><\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio Laia Psicanalista, A.M.E. da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP laia.bhe@terra.com.br Resumo:\u00a0Este texto procura demonstrar a contemporaneidade do relato publicado por Schreber sobre sua \u201cdoen\u00e7a dos nervos\u201d, bem como da leitura que Freud e Lacan lhe consagraram. Privilegia-se, ent\u00e3o, o que ele experimentou como rompimento da Ordem do Mundo, sua emascula\u00e7\u00e3o e um recurso inventado e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57807,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-248","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-31","category-26","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/248","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=248"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/248\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57808,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/248\/revisions\/57808"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=248"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=248"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=248"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}