{"id":2515,"date":"2024-02-20T07:54:31","date_gmt":"2024-02-20T10:54:31","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2515"},"modified":"2025-12-01T11:37:33","modified_gmt":"2025-12-01T14:37:33","slug":"o-microfone-mudo-e-o-psicanalista-de-chinelo-intervencao-no-atelie-de-pesquisa-em-psicanalise-e-segregacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/20\/o-microfone-mudo-e-o-psicanalista-de-chinelo-intervencao-no-atelie-de-pesquisa-em-psicanalise-e-segregacao\/","title":{"rendered":"O microfone mudo e o psicanalista de chinelo: interven\u00e7\u00e3o no Ateli\u00ea de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2><span style=\"color: #000080;\">O microfone mudo e o psicanalista de chinelo: interven\u00e7\u00e3o no Ateli\u00ea de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><strong>Lilany Pacheco<br \/>\n<\/strong>Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"mailto:lilanypacheco@gmail.com\">lilanypacheco@gmail.com<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Resumo:<\/strong> O presente texto aborda o objeto voz e seu estatuto para a psican\u00e1lise para pensar as contribui\u00e7\u00f5es que ela pode oferecer sobre a leitura dos casos que implicam os discursos racistas e suas consequ\u00eancias para o preto. E, tamb\u00e9m, pensar como o psicanalista pode ir al\u00e9m nas suas contribui\u00e7\u00f5es contra o racismo e seus discursos.<\/p>\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>objeto voz; racismo; psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>THE MUTE MICROPHONE AND THE SANDAL-WEARING PSYCHOANALYST: INTERVENTION IN THE PSYCHOANALYSIS AND SEGREGATION RESEARCH GROUP<\/strong><\/p>\n<p><strong>Abstract:<\/strong> This text addresses the object voice and its status for psychoanalysis in order to consider the contributions it can offer about interpreting cases involving racist discourses and their consequences for black individuals. Additionally, it reflects on how psychoanalysts can further its contributions against racism and its discourses.<\/p>\n<p><strong>Keywords:<\/strong> object voice; racism; psychoanalysis.<\/p><\/blockquote>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Lilany-Pacheco.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"886\" data-large_image_height=\"1181\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2516\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Lilany-Pacheco-768x1024.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"600\" \/><\/a><\/p>\n<p>Agrade\u00e7o o convite para estar aqui, hoje, nesta atividade do Ateli\u00ea de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o, neste momento de concluir os trabalhos sobre o tema &#8220;Racismo e sistema de justi\u00e7a: como a Psican\u00e1lise contribui nesse debate?<em>&#8220;<\/em> e, quem sabe, abrir perspectivas para investiga\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>Na atividade de abertura das atividades do Ateli\u00ea em parceria com o N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Direito \u2013 que girou em torno da seguinte pergunta: \u201cSer v\u00edtima ou r\u00e9u, na sua rela\u00e7\u00e3o com o sistema de justi\u00e7a, faz diferen\u00e7a na forma de tratamento destinada a esses sujeitos?\u201d \u2013, dois aspectos me chamaram a aten\u00e7\u00e3o, al\u00e9m daquele j\u00e1 destacado durante o semestre: a fala de J\u00e9sus Santiago, de que \u00e9 preciso furar o discurso do mestre, e duas pontua\u00e7\u00f5es do convidado Felipe Mata Machado, procurador do Distrito Federal, uma sobre o n\u00e3o dito e, outra, quando ele se refere \u00e0s vestes dos ju\u00edzes, indicando que, em um julgamento, os ju\u00edzes n\u00e3o podem estar de chinelo. Me recordo de ter pensado: ent\u00e3o eles n\u00e3o acreditam no semblante? Em conversas posteriores, J\u00e9sus Santiago lembrou que, no escrito sobre a criminologia, Lacan ressalta exatamente o contr\u00e1rio: os profissionais do Direito s\u00e3o ciosos do semblante, levam a s\u00e9rio demais o parecer ser. E eu pensei: o analista pode estar de chinelo!<\/p>\n<p>Outra fala que se transformou para mim em um dizer foi quando algu\u00e9m mencionou que os policiais agora t\u00eam microfone em seus uniformes, acionados enquanto fazem as suas abordagens. Alessandro Pereira dos Santos ponderou que isso n\u00e3o resolve, pois o microfone do preto, ao sofrer as abordagens desiguais, \u00e9 mudo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Ainda sobre o microfone, eu gostaria de trazer uma vinheta, um pequeno trecho de um podcast com L\u00e1zaro Ramos ao qual assisti faz tempo e que me veio \u00e0 lembran\u00e7a quando Alessandro mencionou o microfone. L\u00e1zaro enfatiza que n\u00e3o \u00e9 por escolha que ele trabalha constantemente para furar o discurso racista:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">O racista n\u00e3o quer ver que \u00e9 racista. Ent\u00e3o \u00e9 preciso gritar, como em <em>\u00d3 pai \u00f3<\/em>, fazer um filme hist\u00f3rico etc. O racismo \u00e9 t\u00e3o complexo que n\u00e3o vai ser uma linguagem s\u00f3 que vai resolver, a varia\u00e7\u00e3o contempla mais ouvidos. [&#8230;] N\u00e3o adoecer. \u00c9 para sobreviver, sen\u00e3o o racismo vai matar a gente. Diante do discurso racista o sujeito \u00e9 for\u00e7ado a se definir por apenas um adjetivo. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a se definir por um \u00fanico adjetivo. [&#8230;] Ter o microfone na m\u00e3o \u00e9 \u00fatil.<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Al\u00e9m desse podcast, me ocorreu ainda a excelente entrevista de Viola Davis e Pedro Bial, quando ela esteve no Brasil para lan\u00e7amento d#_edn1e seu livro autobiogr\u00e1fico que, diga-se de passagem, foi premiado como melhor audiobook. Ao responder a Bial sobre a experi\u00eancia de fazer o filme <em>A Mulher Rei<\/em>, ela relata que, ao pisar nas terras africanas onde as filmagens foram feitas, aquele lugar, com aquelas caracter\u00edsticas, fez com que retornasse para ela a voz de uma tia-av\u00f3 e, para fazer a personagem, ela se apropriou daquela voz, e saiu da\u00ed a pot\u00eancia de seu personagem.<\/p>\n<p>\u00c9 na dire\u00e7\u00e3o da voz e seu estatuto para a psican\u00e1lise que eu tenho pensado sobre quais contribui\u00e7\u00f5es a psican\u00e1lise pode nos oferecer, ou nos ensinar, sobre a leitura dos casos que implicam os discursos racistas e suas consequ\u00eancias para o preto. E, tamb\u00e9m, pensar como o psicanalista pode ir al\u00e9m nas suas contribui\u00e7\u00f5es contra o racismo e seus discursos, como destacou S\u00e9rgio de Mattos em sua interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o microfone, as m\u00faltiplas linguagens, as m\u00faltiplas vozes nos lembrando que as puls\u00f5es s\u00e3o, no corpo, o eco de um dizer. E, para que isso ressoe, para que isso consoe, \u00e9 preciso que o corpo lhe seja sens\u00edvel. \u00c9 um fato que ele o \u00e9, afirmar\u00e1 Lacan (1975-76\/2007, p. 19) ao abordar o uso l\u00f3gico do <em>sinthoma<\/em>, em seu Semin\u00e1rio 23, e ele o \u00e9 \u201cPorque o corpo tem alguns orif\u00edcios, dos quais o mais importante \u00e9 o ouvido, porque ele n\u00e3o se pode tapar, se cerrar, se fechar\u201d. \u00c9 por esse vi\u00e9s que, no corpo, responde ao que Lacan chamou de voz. Lacan lembra ainda que \u00e9 embara\u00e7oso, que n\u00e3o h\u00e1 apenas o ouvido, e que o olhar lhe faz uma eminente concorr\u00eancia. E eu, de minha parte, hoje, quero colocar a voz no p\u00e1reo.<\/p>\n<p>Ao seguir a pista de Joyce, Lacan pensa que \u00e9 preciso resolver alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o ao que Jacques Aubert (1976\/2007) isola ao comentar Joyce: a fun\u00e7\u00e3o da fona\u00e7\u00e3o e como esta se relaciona ao significante. Esse tema perpassa todo o Semin\u00e1rio 23. Para Lacan, o que permanece em suspenso \u00e9 saber a partir de que momento a signific\u00e2ncia, ao ser escrita, distingue-se dos simples efeitos de fona\u00e7\u00e3o, uma vez que \u00e9 a fona\u00e7\u00e3o que transmite a fun\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do nome, do nome pr\u00f3prio. Isso \u00e9 exemplar nos testemunhos de passe quando neles verificamos, o modo como um sujeito abandona seu nome de gozo e pode pronunciar-se a partir do nome constru\u00eddo como efeito de uma an\u00e1lise. Todos lembramos muito bem do passe de uma colega que o pai a chamava de \u201cmundana\u201d, e ela mostra que a sua an\u00e1lise a fez \u201ccidad\u00e3 do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Mudemos de lugar, sugere Lacan, e isso sup\u00f5e ou implica que escolhamos falar a l\u00edngua que efetivamente falamos. Imaginamos que escolhemos, ele ironiza, e o que resolve, no final das contas, \u00e9 que criamos essa l\u00edngua. Isso n\u00e3o est\u00e1 reservado \u00e0s frases que a l\u00edngua cria. Criamos uma l\u00edngua \u00e0 medida em que a todo instante damos sentido, uma \u201cm\u00e3ozinha\u201d, e sem isso a l\u00edngua n\u00e3o seria viva: \u201cEla \u00e9 viva porque a criamos a cada instante. \u00c9 por isso que n\u00e3o h\u00e1 inconsciente coletivo. H\u00e1 apenas inconscientes particulares, na medida em que cada um, a cada instante, d\u00e1 uma m\u00e3ozinha \u00e0 l\u00edngua que fala\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 129).<\/p>\n<p>\u201cCada ato de fala, golpe de for\u00e7a de um inconsciente particular, n\u00e3o \u00e9 coletiviza\u00e7\u00e3o do inconsciente?\u201d, \u00e9 a pergunta de Lacan (1975-76\/2007, p. 132) nesse ponto do Semin\u00e1rio 23 citado acima. Penso que essa pergunta \u00e9 fundamental quando nos interessa o modo pelo qual a psican\u00e1lise pode pensar e operar no tocante a quest\u00f5es que dizem respeito \u00e0 coletividade.<\/p>\n<p>Se cada ato de fala \u00e9 um golpe de for\u00e7a de um inconsciente particular, est\u00e1 completamente claro que cada ato de fala pode esperar ser um dizer. E o dizer chega a isso sobre o qual h\u00e1 teoria, a teoria que \u00e9 o suporte de toda esp\u00e9cie de revolu\u00e7\u00e3o, a saber, uma teoria da contradi\u00e7\u00e3o. Podemos dizer muitas coisas diferentes, cada uma sendo, na ocasi\u00e3o, contradit\u00f3ria. E n\u00e3o \u00e9 porque h\u00e1 desarruma\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria que nada tenha sa\u00eddo da\u00ed como constituinte de uma realidade. Ou, como escreveu Jacques Aubert (1976\/2007, p. 167) na apresenta\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio de Lacan, \u201cuma dimens\u00e3o da fala, e os tipos de instaura\u00e7\u00e3o de lugares onde isso fala\u201d.<\/p>\n<p>Caminhei at\u00e9 aqui com Lacan para encontrar o texto de M\u00f4nica Campos Silva (2024), escrito para comentar o trabalho primoroso de Alessandro, e tamb\u00e9m publicado neste n\u00famero de Almanaque. Considerei que o texto de M\u00f4nica ordenou muito bem as atividades do semestre, todas primorosas, como todos n\u00f3s que acompanhamos as atividades desse semestre pudemos testemunhar. Lembrando ainda da apresenta\u00e7\u00e3o de F\u00eddias Siqueira e do coment\u00e1rio de S\u00e9rgio de Mattos.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 pensava em usar o texto de Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse (2004) sobre a devasta\u00e7\u00e3o, intitulado \u201cUma dificuldade na an\u00e1lise das mulheres\u201d, para expor como tenho pensado e tentado articular as contribui\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise no enfrentamento do discurso racista e de outros discursos segregacionistas que reinam em nossa cultura.<\/p>\n<p>Me chamou aten\u00e7\u00e3o que come\u00e7\u00e1ssemos a beirar a quest\u00e3o da devasta\u00e7\u00e3o e do feminino, para al\u00e9m da quest\u00e3o das mulheres e do feminismo, que tamb\u00e9m \u00e9 discurso, para tratar a segrega\u00e7\u00e3o, uma vez que a segrega\u00e7\u00e3o \u00e9, primeiramente, segrega\u00e7\u00e3o do inconsciente e mortifica\u00e7\u00e3o do sujeito, como escreveu M\u00f4nica. Interessa-nos, portanto, pensar a fala e a linguagem que antecedem os discursos l\u00e1 onde reina o vivo da vida!<\/p>\n<p>Me chama aten\u00e7\u00e3o no texto de Brousse a afirma\u00e7\u00e3o de que a devasta\u00e7\u00e3o se articula \u00e0 maneira singular pela qual a linguagem emergiu para um sujeito, nos confins da inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. E ela acrescenta: as linguagens t\u00eam algo em comum, \u00e0s vezes elas guardam a lembran\u00e7a de uma primeira linguagem, diferente daquela que o <em>falasser<\/em> acaba falando, e h\u00e1 a\u00ed uma radicalidade, considerando que todo sujeito falou uma primeira linguagem, mesmo que seja no mesmo idioma que todos falam. Essa emerg\u00eancia pode se dar sob a forma de um insulto, no qual o sujeito \u00e9 convocado a portar um nome cujo conte\u00fado de propriedade se resume apenas ao ato de proferir. E ela diz mais: ele \u00e9 apenas o que se nomeia \u201cfulano\u201d, e s\u00f3 o \u00e9 quando \u00e9 nomeado, conduzindo o sujeito ao ser de objeto que ele foi para o Outro \u2013 nega\u00e7\u00e3o da falta a ser e intima\u00e7\u00e3o a ser um objeto rebotalho.<\/p>\n<p>Nessa linha, M\u00f4nica aproxima os efeitos do racismo em um sujeito pelo que Miller diz da devasta\u00e7\u00e3o como uma pilhagem, um saque, um roubo, que se estende a tudo, sem limites, conduzindo a uma fixidez dada. A invas\u00e3o de gozo decorrente da abertura do sujeito ao Outro que o devasta tem como efeito a sua queda como um \u201ccorpo desfalicizado\u201d. Tomemos como exemplo o que verificamos nas mulheres que s\u00e3o difamadas. No que concerne \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o causada pelos discursos racistas, basta lembrarmos dos corpos negros estendidos no ch\u00e3o ou de tantas outras formas nas quais o negro resta apenas como um corpo e sua cor, sem que o sujeito e sua diferen\u00e7a possam ser inclu\u00eddos na linguagem. Como disse L\u00e1zaro Ramos, ningu\u00e9m \u00e9 ou quer ser definido por um \u00fanico adjetivo.<\/p>\n<p>Sigo um pouco mais com M\u00f4nica (2024, s\/p), por sua vez seguindo Miller em \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Quando o Outro designa o corpo social, se posso dizer, seu gozo, o gozo desse Outro, mant\u00e9m-se como uma abstra\u00e7\u00e3o. Um abstrato, uma fic\u00e7\u00e3o que se apoia no n\u00famero, na massa. [&#8230;] Entretanto, pode ser que o gozo do Outro social ganhe corpo, que o gozo consiga ser identificado no lugar do Outro, que ele n\u00e3o se evapore, que n\u00e3o se torne vol\u00e1til e n\u00e3o se confunda com o esplendor vazio da Coisa. \u00c9 quando, pode-se dizer, ou subentender, ou ser persuadido de que \u201co Outro goza de mim\u201d.<\/p>\n<p>Ainda com M\u00f4nica (2024, s\/p): \u201c\u00c9 preciso lembrar que o racismo tende a reabsorver a tens\u00e3o entre o Um e o Outro, com desprezo pela diferen\u00e7a\u201d. Nesse ponto, importa indicar que, quando n\u00e3o h\u00e1 Outro, h\u00e1 o Um que itera e n\u00e3o cessa de escrever o insulto para o negro, ponto sobre o qual o discurso anal\u00edtico precisa operar e restituir o furo entre o Um e Outro para que, a partir do furo, o negro possa rasurar o nome que o devasta, esvaziar-se do gozo do Outro que o invade e escrever o seu nome pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Como conduzir o que, embora atravesse a l\u00f3gica civilizat\u00f3ria, se encontra fora da letra?, pergunta M\u00f4nica. Ou, como escreveu Laurent (2023, p. 70) em sua apresenta\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio <em>A l\u00f3gica da fantasia<\/em>, como o saber psicanal\u00edtico pode passar ao real? Em <em>A terceira<\/em>, Lacan (1974\/2023, p. 24) esclarece: \u201cO real n\u00e3o \u00e9 o mundo e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar o real por meio da representa\u00e7\u00e3o. [&#8230;] o real n\u00e3o \u00e9 universal [&#8230;]\u201d, e, portanto, para trat\u00e1-lo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel adotar o \u201cpara todos\u201d, como a ci\u00eancia o faz.<\/p>\n<p>Laurent (2022), em \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o: da escuta ao escrito\u201d, esclarece que, se o significante \u00e9 causa de gozo, devemos nos perguntar como esse gozo pode escapar ao autoerotismo do corpo e ainda responder \u00e0 jacula\u00e7\u00e3o interpretativa. Laurent lembra da pergunta de Lacan sobre se a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 um autismo a dois, ponto que nos interessa bastante no contexto das investiga\u00e7\u00f5es deste Ateli\u00ea, uma vez que precisamos nos entregar a uma tarefa de for\u00e7ar o autismo, e poderemos faz\u00ea-lo pela via de <em>lal\u00edngua<\/em>, aquela que o sujeito falou antes de falar qualquer idioma, como Brousse abordou. Laurent acrescenta: <em>lal\u00edngua<\/em> \u00e9 uma tarefa comum \u2013 e podem se valer dela aqueles que descem do salto e usam chinelos, eu diria. O gozo \u00e9 autoer\u00f3tico, mas a l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 um assunto privado. Ela \u00e9 comum e pode ser usada quando o analista pode fazer outra coisa que n\u00e3o o sentido. Lacan (1972-73\/1985) explora, a partir do Semin\u00e1rio 20, os recursos que, em um for\u00e7amento po\u00e9tico, podem permitir ao analista fazer ressoar outra coisa que n\u00e3o o sentido, fora das regras da linguagem, algo que evoque o gozo da coisa comum. Isso implica o analista, seu corpo, e um batimento que engendre com sua presen\u00e7a real a subst\u00e2ncia significante em sua materialidade e as eventualidades a partir das quais o \u201cser\u201d ganha \u201cexist\u00eancia\u201d, sendo relan\u00e7ado na cadeia significante com um outro nome, um novo significante com poder de voz \u2013 uma fona\u00e7\u00e3o, um microfone.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>F\u00eddias e Alessandro e todos que acompanharam as discuss\u00f5es talvez possam situar nos \u201ccasos\u201d que apresentaram se, em algum momento, verificaram em suas interven\u00e7\u00f5es algo que operou nessa dire\u00e7\u00e3o, aproximando-nos dos dizeres de Freud, cada vez mais pr\u00f3ximo do \u00faltimo ensino de Lacan, de que somente a palavra pode curar o que ela pr\u00f3pria causou.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>AUBERT, J. Apresenta\u00e7\u00e3o no Semin\u00e1rio de Jacques Lacan. In: LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007, p. 166-185. (Trabalho original proferido em 1976).<\/h6>\n<h6>BROUSSE, M.-H. Uma dificuldade na an\u00e1lise das mulheres: a devasta\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e.\u00a0<em>Latusa: Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP-Rio)<\/em>, n. 9, p. 203-218, 2004.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>: Mais, ainda. Tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1972-73).<\/h6>\n<h6>LACAN. J.\u00a0 A terceira. In: LACAN, J.; MILLER, J.-A. <em>A terceira\/ Teoria de lal\u00edngua. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2023. (Trabalho original publicado em 1974).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/h6>\n<h6><em>LAURENT<\/em>, \u00c9. A\u00a0<em>interpreta\u00e7\u00e3o: da escuta ao escrito<\/em>.\u00a0<em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n.\u00a0<em>87<\/em>, 2022.<\/h6>\n<h6><em>LAURENT<\/em>, \u00c9. Acontecimentos pol\u00edticos de corpo.\u00a0<em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 90, 2023.<\/h6>\n<h6>SILVA, M. C. Ser\u00e1 que o racismo mata? <em>Almanaque On-line<\/em>, n. 32, 2024.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Texto apresentado no Ateli\u00ea de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Racismo do IPSM-MG em 25\/10\/2023, como coment\u00e1rio \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de M\u00f4nica Campos nesta mesma data.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Cf.: <a href=\"https:\/\/youtu.be\/2GYVuoILBo4?si=Las6pr06vJXCV2sD\">https:\/\/youtu.be\/2GYVuoILBo4?si=Las6pr06vJXCV2sD<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O microfone mudo e o psicanalista de chinelo: interven\u00e7\u00e3o no Ateli\u00ea de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Segrega\u00e7\u00e3o1 Lilany Pacheco Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise\/AMP lilanypacheco@gmail.com &nbsp; Resumo: O presente texto aborda o objeto voz e seu estatuto para a psican\u00e1lise para pensar as contribui\u00e7\u00f5es que ela pode oferecer sobre a leitura dos casos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57679,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2515","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-32","category-34","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2515","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2515"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2515\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57680,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2515\/revisions\/57680"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57679"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2515"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2515"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2515"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}