{"id":2518,"date":"2024-02-20T07:59:47","date_gmt":"2024-02-20T10:59:47","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=2518"},"modified":"2025-12-01T11:36:47","modified_gmt":"2025-12-01T14:36:47","slug":"almanaque-on-line-32-entrevista-oscar-ventura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/02\/20\/almanaque-on-line-32-entrevista-oscar-ventura\/","title":{"rendered":"Almanaque On-line 32 entrevista Oscar Ventura"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #333399;\">Almanaque On-line 32 entrevista Oscar Ventura<\/span><\/h3>\n<p><strong><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Araceli-Teixido-1.png\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"886\" data-large_image_height=\"1329\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2695\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Araceli-Teixido-1.png\" alt=\"\" width=\"371\" height=\"500\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>Almanaque On-line: <\/strong>Em seu texto \u201cQuando um sonho desperta Um corpo\u201d, \u00a0h\u00e1 um ensinamento em que clareza e beleza se combinam em uma transmiss\u00e3o. Cito abaixo a frase em quest\u00e3o, e pe\u00e7o que nos fale como o analista pode chegar a esse ponto de \u201cprecis\u00e3o\u201d que voc\u00ea disse e que marca a fineza de uma cl\u00ednica lacaniana:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Se o sonho, para al\u00e9m da sua hist\u00f3ria, abriga tamb\u00e9m um n\u00facleo autista de gozo, \u00e9 ent\u00e3o necess\u00e1rio poder especificar na experi\u00eancia o momento cl\u00ednico que implica a passagem do campo do Outro do significante para o corpo como Outro. (VENTURA, 2020, p. 10)<\/p>\n<p>Em outras palavras, como podemos situar essa distin\u00e7\u00e3o entre o inconsciente \u201cmentiroso\u201d e o inconsciente real na interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos que ocorrem na pr\u00e1tica anal\u00edtica?<\/p>\n<p><strong>Oscar Ventura:<\/strong> Obrigado por esta pergunta, porque me permite continuar interrogando a fun\u00e7\u00e3o que os sonhos desempenham na pr\u00e1tica cl\u00ednica. E permite tamb\u00e9m articular diferentes momentos da obra de Freud e do ensino de Lacan sobre a possibilidade que os sonhos oferecem de produzir uma retifica\u00e7\u00e3o na economia do gozo. Porque, na verdade, o que interessa afinal \u00e9 como dar conta do poder que alguns sonhos t\u00eam de modificar a pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o do sujeito em rela\u00e7\u00e3o ao sonho sonhado.<\/p>\n<p>Nem todos os sonhos que se desenrolam durante um tratamento d\u00e3o essa possibilidade; talvez os mais interessantes sejam aqueles em que se pode localizar uma destitui\u00e7\u00e3o do analista na transfer\u00eancia. Isto \u00e9, se o sonho j\u00e1 implica a transfer\u00eancia, como apontou Freud, se o relato do sonho est\u00e1 dirigido ao Outro. Al\u00e9m disso, podemos colocar desta forma: os sonhos podem permitir uma evapora\u00e7\u00e3o do Outro.<\/p>\n<p>Provavelmente, temos o paradigma desse deslocamento do Outro com o sonho da Inje\u00e7\u00e3o de Irma, \u201co sonho dos sonhos\u201d, como Lacan o chama no Semin\u00e1rio <em>O eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise. <\/em>Ali, o que em \u00faltima inst\u00e2ncia permanece a c\u00e9u aberto, para Freud, \u00e9 um real que se encarna no abismo e no mist\u00e9rio do corpo, um furo que suga toda pretens\u00e3o de sentido que lhe poderia ser concedida. E isso n\u00e3o deixou de ter consequ\u00eancias para o pr\u00f3prio Freud como sonhador e como analisante. N\u00e3o s\u00f3 lhe foi revelada aquela zona indecifr\u00e1vel do sonho, limite de qualquer interpreta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, mas tamb\u00e9m inaugura aquele espa\u00e7o insond\u00e1vel, no qual se funda a sexualidade humana, incluindo aquele \u201ccontinente negro\u201d, como Freud o chamava, para ilustrar o enigm\u00e1tico da sexualidade feminina. A elis\u00e3o do sentido produzida pelo <em>umbigo do sonho<\/em> deixa fora de jogo a <em>Bedeutung<\/em> do falo enquanto tal, e esse movimento d\u00e1 conta da presen\u00e7a de um gozo que n\u00e3o tem nenhuma escrita no campo das representa\u00e7\u00f5es, sejam elas imagin\u00e1rias, sejam simb\u00f3licas.<\/p>\n<p>Sempre que nos referimos ao <em>umbigo do sonho<\/em>, a essa dilui\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es que transcorre no pr\u00f3prio lapso do sonho, pode-se notar, por um lado, a presen\u00e7a do limite de um real que ocorre mais al\u00e9m de qualquer significa\u00e7\u00e3o, e, por outro, uma resposta do corpo, que de uma forma ou de outra \u00e9 o \u00fanico suporte para a experi\u00eancia de um gozo cuja fixa\u00e7\u00e3o \u00e9 inexpugn\u00e1vel, e que d\u00e1 conta, ao mesmo tempo, tanto da vida que ali pulsa, quanto da morte que tamb\u00e9m abriga.<\/p>\n<p>O relato de um sonho sob transfer\u00eancia tem, portanto, duas dimens\u00f5es. Por um lado, a sua estrutura significante, o que o analisante diz sobre ele, o conto que o sonho conta, o cen\u00e1rio que constr\u00f3i, enigm\u00e1tico por vezes, outras mais claro. \u00c9 a parte de verdade que o sonho veicula em seu estatuto de inconsciente transferencial, \u00e9 um conto do Outro e para o Outro. E, nessa dire\u00e7\u00e3o, a verdade mentirosa, mas necess\u00e1ria, se faz ouvir no n\u00edvel do uso que o sujeito faz do que para ele foram as formas pelas quais o significante mordeu e debilitou sua satisfa\u00e7\u00e3o, sempre corro\u00edda pelo parasita da palavra e que produz um sintoma, o de cada um. Nesse n\u00edvel, o que constatamos \u00e9 que o pr\u00f3prio relato do sonho j\u00e1 \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o, alimenta um sentido novo que corre o risco de se metonimizar num infinito est\u00e9ril, a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 o obst\u00e1culo que retorna continuamente. Nessa conjuntura, os atos do analista visam corroer o aparato da fantasia, cora\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina interpretativa e da repeti\u00e7\u00e3o a que submete o sujeito, tamb\u00e9m solid\u00e1ria com a estrutura da fantasia.<\/p>\n<p>Agora, no relato de um sonho, por outro lado, tamb\u00e9m podemos encontrar seu ponto de furo, seu abismo, a garganta de Irma, por exemplo. \u00c9 o ponto no qual o significante se esgota e surge a possibilidade de o corpo responder a esse inomin\u00e1vel com seu acontecimento. Encontrar esse momento, o <em>Kair\u00f3s<\/em> do sonho, se podemos dizer assim, \u00e9 a possibilidade que podemos oferecer \u00e0 transfer\u00eancia para produzir a disjun\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre saber e gozo. \u00c9 o pr\u00f3prio corpo do analista, colocado a servi\u00e7o do corte, que pode permitir ao sujeito percorrer esse territ\u00f3rio onde a aus\u00eancia de sentido faz ressoar outra coisa, que pode ir um pouco mais al\u00e9m do la\u00e7o que faz o significante se solidarizar com a ru\u00edna da repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A.O.: <\/strong>Ainda nesse mesmo texto voc\u00ea trata de um despertar, ligado a um significante novo, fora do sentido, que produz tamb\u00e9m um acontecimento de corpo, no caso, uma gargalhada que toma todo o corpo. Parece ser necess\u00e1rio consentir com esse significante novo e seu estatuto de fora do sentido para que esse encontro com algo do real se efetive. Em \u201cRumo a um significante novo\u201d, Lacan (1977\/1998, p. 11) aponta o chiste e a poesia como formas de fazer ressoar o fora do sentido que desperta e, em <em>A terceira<\/em>, ele diz: \u201cO significante n\u00e3o \u00e9 a letra. O significante se abre para outros \u2013 e a letra \u00e9 morta, ou, o que de mais vivo h\u00e1, pois d\u00e1 acesso ao real.\u201d (LACAN, 1974\/2023, p. 57). Seria a partir de um significante novo que se conseguiria vivificar a letra morta do sintoma, tornando-o <em>sinthome<\/em>? Como voc\u00ea percebe a fun\u00e7\u00e3o do chiste e da poesia numa cl\u00ednica orientada para o real?<\/p>\n<p><strong>O.V.:<\/strong> Bom, h\u00e1 muitas perguntas na quest\u00e3o, daria para escrever um artigo inteiro, uma investiga\u00e7\u00e3o&#8230; Mas podemos reduzi-las um pouco a quest\u00f5es fundamentais. Vou come\u00e7ar fazendo uma pequena pontua\u00e7\u00e3o sobre o <em>sinthoma<\/em>. \u00c0s vezes tendemos a nos precipitar sobre as contribui\u00e7\u00f5es fundamentais que Lacan nos deixou em seu \u00faltimo ensino. E \u00e9 verdade que esse \u00faltimo ensino \u00e9 fundamental para enfrentar a pr\u00e1tica cl\u00ednica contempor\u00e2nea. A pot\u00eancia cl\u00ednica que da\u00ed emerge nos permite \u00e0s vezes captar algumas quest\u00f5es muito rapidamente, por vezes logo no in\u00edcio da experi\u00eancia, inclusive durante as entrevistas preliminares. Por exemplo, h\u00e1 casos em que podemos vislumbrar a partir do relato, e para al\u00e9m da estrutura cl\u00ednica, incluindo o diagn\u00f3stico, qual \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o que o pr\u00f3prio sujeito tem do seu sintoma, qual \u00e9 tamb\u00e9m a interpreta\u00e7\u00e3o que ele tem do mundo, se o sujeito tem ou n\u00e3o uma fantasia consistente, se a estrutura da fantasia \u00e9 mais perme\u00e1vel, talvez mais fraca, ou se ele n\u00e3o foi capaz de construir esse aparato de interpreta\u00e7\u00e3o que \u00e9 a fantasia. Ou seja, \u00e0s vezes podemos verificar com certa antecipa\u00e7\u00e3o qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que um sujeito estabelece com o real, e qual o tipo de defesas ele articulou para amortecer esse real que o habita.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o nos autoriza a um procedimento repentino de orientar a experi\u00eancia para o imediatismo t\u00e9cnico, se assim posso dizer. \u00c9 necess\u00e1rio tempo para que um sujeito estabele\u00e7a algum tipo de acordo com o imposs\u00edvel, embora \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o do ato anal\u00edtico n\u00e3o falte uma orienta\u00e7\u00e3o para o real em hip\u00f3tese alguma. Digo isso porque \u00e9 importante enfatizar, creio, que o \u00faltimo ensino de Lacan n\u00e3o dispensa o primeiro. Posso dizer de outra forma: \u00e9 necess\u00e1rio que a verdade mentirosa se desdobre, que se produza a constru\u00e7\u00e3o de um mito individual, que a repeti\u00e7\u00e3o seja escandida, para decantar, at\u00e9 onde o sujeito consinta, as estrat\u00e9gias que ele concebeu para se defender, para diz\u00ea-lo rapidamente, da aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a passagem do sintoma ao <em>sinthoma<\/em> \u2013 quando isso ocorre \u2013 se estabelece na medida em que um tratamento se desenrola ao longo do tempo. Al\u00e9m disso, a emerg\u00eancia de um significante novo, mesmo que seja contingente, ainda assim necessita que o sujeito, de alguma forma, esteja decidido a fazer da incerteza um parceiro; \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para que a irrup\u00e7\u00e3o da conting\u00eancia possa escrever-se.<\/p>\n<p>O <em>sinthoma<\/em> implica uma forma de funcionamento subjetivo, coloca a servi\u00e7o da vida pelo menos uma parte do gozo que parasita a exist\u00eancia. Seria interessante clinicamente n\u00e3o confundir o <em>sinthoma<\/em> com a raridade de cada um, com um tra\u00e7o peculiar, mas antes apreender que o <em>sinthoma<\/em> implica uma l\u00f3gica borromeana, onde o gozo vai mudando, e \u00e9 na medida em que um sujeito est\u00e1 advertido da irredutibilidade desse gozo que pode inventar a possibilidade de coloc\u00e1-lo a servi\u00e7o de outra coisa, alguma coisa que n\u00e3o seja sempre solid\u00e1ria com o autismo subjetivo que o gozo implica.<\/p>\n<p>Seria necess\u00e1rio, talvez, diferenciar duas dimens\u00f5es da letra, para esclarecer o que \u00e9 letra morta e o que n\u00e3o \u00e9 \u2013 e que seria letra viva. E para isso \u00e9 importante colocar a lupa sobre o deslocamento que Lacan vai progressivamente operando do sujeito ao <em>falasser<\/em> e do inconsciente a <em>lal\u00edngua<\/em>.<\/p>\n<p>Por um lado, temos um movimento que est\u00e1 inscrito muito cedo no ensino de Lacan, que \u00e9 a mortifica\u00e7\u00e3o do corpo, aquela mordida do significante no vivente de que fala Lacan. Ou seja, a desvitaliza\u00e7\u00e3o que o simb\u00f3lico imprime sobre o corpo e que se solidariza com a letra morta do sintoma, deixando \u00e0 deriva o mais de gozar que se aninha no pr\u00f3prio n\u00facleo do sintoma.<\/p>\n<p>Na transfer\u00eancia, a interpreta\u00e7\u00e3o tem um alcance sobre a letra morta, gra\u00e7as \u00e0 opera\u00e7\u00e3o do sentido, \u00e0 decifra\u00e7\u00e3o como tal. Essa opera\u00e7\u00e3o transferencial n\u00e3o se confunde com o aparecimento de um significante novo. N\u00e3o constitui um arranjo para o funcionamento que o sujeito estabeleceu com o sintoma, o sentido, que \u00e9 infinito, \u00e9 o obst\u00e1culo aqui.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio ter o conceito de <em>lal\u00edngua<\/em> como pano de fundo para dar todo o seu alcance a um significante novo, porque a\u00ed se trata dessa outra dimens\u00e3o, de um encontro diferente sobre o corpo, que \u00e9 logicamente anterior, inaugural, se assim podemos dizer, da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com a vida. Nessa dimens\u00e3o, n\u00e3o se trata da mordida do significante na carne, mas sim do impacto de <em>lal\u00edngua<\/em> sobre o corpo, que n\u00e3o imprime uma letra morta, mas um afeto que marca o tom vital de cada um. Imprime uma letra in\u00e9dita e exclusiva. Um significante novo tem a possibilidade de emergir gra\u00e7as ao equ\u00edvoco de <em>lal\u00edngua<\/em> que cada um pode produzir na experi\u00eancia anal\u00edtica. E esse significante cai da cadeia, n\u00e3o se liga a nada, nenhum S2 pode ser acoplado a esse S1. E \u00e9 na explora\u00e7\u00e3o desse litoral, entre <em>lal\u00edngua<\/em> e o corpo, onde um gozo pode ser articulado como uma letra, por min\u00fascula que seja, sempre \u00e9 insensata, ou seja, fora do sentido. \u00c9 a partir da\u00ed que se pode estabelecer um funcionamento orientado mais pelo afeto que fixou a experi\u00eancia inaugural de gozo do que pelo significante que tenta capt\u00e1-lo. Provavelmente assim se pode instalar na subjetividade uma l\u00f3gica do <em>sinthoma<\/em> que aspire um pouco mais \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com a vida do que ao parasitismo da carne assassinada pelo <em>logos<\/em>.<\/p>\n<p>Por fim, muito brevemente, a fun\u00e7\u00e3o do chiste e da poesia na experi\u00eancia cl\u00ednica. Provavelmente, o que mais nos interessa tanto no chiste como na poesia \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com a resson\u00e2ncia que produzem no corpo. Ou seja, o que podem escrever de esvaziamento, o que j\u00e1 n\u00e3o se pode mais metaforizar ou metonimizar. Do lado do chiste, poder\u00edamos dizer que ele n\u00e3o responde exatamente \u00e0 mesma l\u00f3gica das demais forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, h\u00e1 a\u00ed possibilidades plurais de inven\u00e7\u00f5es de significantes novos que coagulam o sentido, mesmo que ef\u00eamero, para dar lugar a um eco no corpo, sem que o recalcamento, digamos assim, funcione como obst\u00e1culo. Nesse sentido, talvez fosse l\u00edcito dizer, em termos freudianos, que o chiste \u00e9 uma pequena sublima\u00e7\u00e3o, certamente necess\u00e1ria para amenizar a exist\u00eancia. A irrup\u00e7\u00e3o do chiste na transfer\u00eancia \u00e9 sem d\u00favida um momento privilegiado, pois permite um fechamento, um lapso de evapora\u00e7\u00e3o do sentido, anterior \u00e0 emerg\u00eancia do chiste como tal, det\u00e9m-se a significa\u00e7\u00e3o para dar lugar a um breve acontecimento do corpo, o riso, por exemplo, \u00e0s vezes a gargalhada, enfim, nada mais a dizer, fim da sess\u00e3o.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 poesia, digo coisas muito sint\u00e9ticas. Por um lado, h\u00e1 a poesia que se l\u00ea, incluindo aquela que \u00e9 citada, aquela que pode ser recitada, ou seja, a poesia do Outro, que sem d\u00favida tem um alcance de significa\u00e7\u00e3o pessoal, e que tamb\u00e9m pode inspirar um impedimento do relato an\u00f3dino da hist\u00f3ria. Por que n\u00e3o pensar a poesia como uma possibilidade de corroer, de furar o suposto bom senso da gram\u00e1tica, de explodir a pontua\u00e7\u00e3o, de favorecer a boa forma da aus\u00eancia, de fazer emergir o novo com palavras que n\u00e3o cabem mais ao cancelamento de um sentido, seja ele seu, seja coletivo, comum?<\/p>\n<p>Por outro lado, podemos perguntar-nos sobre uma outra dimens\u00e3o da poesia, aquela que pode destilar a experi\u00eancia de uma an\u00e1lise, aquela que pode brotar de cada encontro com um real que as palavras nunca chegar\u00e3o a nomear como tal. Se, como Jacques-Alain Miller nos anuncia com todo o rigor, <em>o mais fundamental da l\u00edngua \u00e9 que ela se cria ao falar<\/em>, ent\u00e3o nos resta a possibilidade de fazer esse esfor\u00e7o de poesia que tantas vezes citamos, como uma das possibilidades mais aut\u00eanticas dos efeitos que um tratamento anal\u00edtico pode produzir.<\/p>\n<p><strong>A.O.: <\/strong>Por fim, gostar\u00edamos de recuperar um trecho do artigo de nosso colega Ram Mandil \u2013 que est\u00e1 publicado nesta edi\u00e7\u00e3o \u2013 no qual ele se refere ao di\u00e1logo entre Stephen Dedalus e seus colegas em <em>O retrato do artista quando jovem<\/em>.<a href=\"\/revista_almanaque\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> Nesse di\u00e1logo perturbador para Stephen-Joyce, Mandil (2024, s\/p) se interessa em destacar como esse encontro \u201ccom a inconsist\u00eancia do Outro\u201d, \u201ccom o enigma da falta no Outro\u201d, o levou a ignorar o significado da palavra, passando da pergunta sobre a resposta correta para uma \u201csuposta rela\u00e7\u00e3o entre esta palavra e o corpo\u201d, pela materialidade do som da palavra <em>Kiss<\/em>. E Mandil conclui que essa passagem pode nos ajudar a entender o que seria ler um sintoma. Poder\u00edamos pensar que ela tamb\u00e9m condensa algo que nos ilumina sobre o que estaria em jogo ao final da experi\u00eancia psicanal\u00edtica?<\/p>\n<p><strong>O.V.:<\/strong> \u00c9 uma alegria me deparar com o texto do Ram e poder conversar um pouco com ele aqui. N\u00e3o poderia estar mais do que de acordo\u00a0 com o recorte que Ram faz do <em>Retrato de um artista quando jovem. <\/em>Ele \u00e9 uma orienta\u00e7\u00e3o para captar mais claramente o que significa ler um sintoma, um sintagma que pareceria ser compreendido facilmente \u00e0 primeira vista. E, ainda assim, envolve toda uma complexidade.<\/p>\n<p>Ler um sintoma implica, em primeiro lugar, um esfor\u00e7o para nos livrarmos daquilo que convencionalmente chamamos de ler, ou seja, da l\u00f3gica do sentido impl\u00edcita na leitura em termos amplos, isto que pensamos compreender quando ouvimos, ou quando lemos em sentido estrito, algum texto, por exemplo. Esperamos sempre que a retroa\u00e7\u00e3o nos conduza, gra\u00e7as ao ponto capiton\u00ea, a uma significa\u00e7\u00e3o que nos permita continuar deslizando na cadeia significante. Talvez fosse interessante pontuar a diferen\u00e7a que existe entre a cadeia significante e a cadeia borromeana: n\u00e3o vou me demorar nisso, certamente precisaria de muito mais p\u00e1ginas. Mas pode ser uma refer\u00eancia conceitual para poder pensar o deslocamento de uma leitura sujeita \u00e0s leis da linguagem, sob a l\u00f3gica da tr\u00edade edipiana, para uma tr\u00edade RSI, em que a diferen\u00e7a se estabeleceria entre uma interpreta\u00e7\u00e3o, na qual se escuta o sentido, para uma leitura do fora do sentido.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental diferenciar escuta e leitura. Se quis\u00e9ssemos esquematizar isso, reduzi-lo, poder\u00edamos dizer que, do lado da escuta enquanto tal, estamos sempre mais ou menos sujeitos ao territ\u00f3rio do sentido, enquanto, do lado da leitura, nos encontramos com a letra, com a materialidade da letra, o que implica uma dilui\u00e7\u00e3o do campo do sentido em favor de uma cifra de gozo. Tamb\u00e9m podemos pens\u00e1-lo a partir do bin\u00f4mio som-sentido, o som como tal implica, em sua materialidade, uma deten\u00e7\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o, um basta, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 um ponto capiton\u00ea, que n\u00e3o permite a extens\u00e3o da meton\u00edmia. E esse ponto de parada est\u00e1 ancorado n\u00e3o no Outro da linguagem, mas no corpo como Outro. Ram Mandil (2024, s\/p) explica-o claramente nessa vicissitude de Stephen com seus amigos, quando, destacando o impacto do encontro com o desejo do Outro, ele nos conta como esse encontro \u201ccom a inconsist\u00eancia do Outro, com o enigma da falta no Outro\u201d, o levou a ignorar o significado da palavra, passando da \u201cpergunta sobre a resposta correta\u201d para uma \u201csuposta rela\u00e7\u00e3o entre esta palavra e o corpo\u201d, pela materialidade do som da palavra <em>Kiss<\/em>.<\/p>\n<p>Vemos, nessa sequ\u00eancia, como o corpo de Stephen \u00e9 o local de um acontecimento, em busca da resposta correta, a resposta correta seria aquela que fizesse sentido, com o riso compartilhado, ao qual Stephen n\u00e3o tem acesso. E precisa primeiro desfazer todo o aparato da linguagem, toda a confus\u00e3o da pergunta sobre se era certo ou n\u00e3o beijar sua m\u00e3e, para concluir:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Que significava isso, beijar? Punha-se a cara para cima, assim, para dizer boa noite, e ent\u00e3o a m\u00e3e abaixava o seu rosto. Isso \u00e9 que era beijar. Sua m\u00e3e punha os l\u00e1bios na sua face; os l\u00e1bios dela eram moles e umedeciam a face; e faziam um barulhinho diminuto: <em>bift! <\/em>[&#8230;]\u201d (JOYCE, 1916\/1998, p. 18).<\/p>\n<p>Talvez tudo se reduza a esse <em>bift!<\/em>, a essa sonoridade que pode ter a possibilidade de nos fazer apreender a articula\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, a disjun\u00e7\u00e3o entre o corpo e a palavra.<\/p>\n<p>Ora, a experi\u00eancia de uma an\u00e1lise n\u00e3o est\u00e1 isenta do fato de que o tratamento do sintoma deve passar pela dial\u00e9tica do desejo e pela pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o que a m\u00e1quina do inconsciente produz. Passar por a\u00ed \u00e9 o que permite, ao fim e ao cabo, desalojar os impasses da verdade que a decifra\u00e7\u00e3o nos oferece. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o que nos guia para um mais al\u00e9m, onde reside em \u00faltima inst\u00e2ncia o trauma fundamental da l\u00edngua, a fixidez de um gozo irredut\u00edvel e a opacidade, radicalmente indecifr\u00e1vel, de um real que n\u00e3o tem nem causa nem lei a que se submeter.<\/p>\n<p>E, sim, esse \u00e9 o territ\u00f3rio por onde transitam, sempre de forma diferente, os finais da an\u00e1lise.<\/p>\n<h6><strong>Respons\u00e1veis pela entrevista<\/strong>: Ana Helena Souza, Giselle Moreira, Lilany Pacheco, Maria Rita Guimar\u00e3es e Patr\u00edcia Ribeiro<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Ana Helena Souza<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o:<\/strong> M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>JOYCE, J<em>. Retrato do artista quando jovem<\/em>. 4. ed. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1998. (Trabalho original publicado em 1916).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Rumo a um significante novo. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 22, p. 6-15, ago. 1998. (Trabalho original proferido em 1977).<\/h6>\n<h6>LACAN. J.\u00a0 A terceira. In: LACAN, J.; MILLER, J.-A. <em>A terceira\/ Teoria de lal\u00edngua. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2023. (Trabalho original publicado em 1974).<\/h6>\n<h6>MANDIL, R. O ato de leitura em psican\u00e1lise. <em>Almanaque On-line<\/em>, n. 32, 2024.<\/h6>\n<h6>VENTURA, O. Quando um sonho desperta Um corpo. <em>6 + Um \u2013<\/em> <em>Papers 06<\/em>, p. 10-13, 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/el-tema\/papers\/papers_006-pt.pdf\">https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/el-tema\/papers\/papers_006-pt.pdf<\/a>. Acesso em: 24 nov. 2023.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Depois que ele saiu, Wells veio at\u00e9 Stephen e lhe disse:<br \/>\n<em>Diga-nos uma coisa, Dedalus, voc\u00ea beija sua m\u00e3e antes de ir deitar?<br \/>\n<\/em>Stephen respondeu:<br \/>\n<em>Beijo, sim.<br \/>\n<\/em>Wells virou-se para os demais camaradas e disse:<br \/>\n<em>Escutem uma coisa, este camarada aqui est\u00e1 dizendo que beija a m\u00e3e dele todas as noites antes\u00a0\u00a0 de ir deitar.<br \/>\n<\/em>Os outros garotos pararam de jogar e se viraram todos naquela dire\u00e7\u00e3o, pondo-se a rir. Stephen corou e disse:<br \/>\n<em>N\u00e3o beijo nada.<br \/>\n<\/em>Wells disse:<br \/>\n<em>Escutem voc\u00eas, este camarada aqui est\u00e1 dizendo que n\u00e3o beija a m\u00e3e dele antes de ir deitar.<br \/>\n<\/em>Eles todos tornaram a rir. Stephen tentou rir com eles. Sentiu todo seu corpo quente e confuso, de s\u00fabito. Qual era a resposta certa para tal pergunta? Ele tinha dado duas e ainda assim Wells rira. [\u2026] Fora Wells que o empurrara para dentro da valeta na v\u00e9spera [\u2026] Agir assim era uma coisa m\u00e1; todos os camaradas tinham dito. E como a \u00e1gua estava fria e escorregadia! [\u2026]<br \/>\nO lodo visguento do fosso tinha coberto o seu corpo inteiro [\u2026]. Tentava ainda pensar qual seria a resposta certa. Era direito beijar sua m\u00e3e, ou n\u00e3o era direito beijar sua m\u00e3e? Que significava isso, beijar? Punha-se a cara para cima, assim, para dizer boa noite, e ent\u00e3o a m\u00e3e abaixava o seu rosto. Isso \u00e9 que era beijar. Sua m\u00e3e punha os l\u00e1bios na sua face; os l\u00e1bios dela eram moles e umedeciam a face; e faziam um barulhinho diminuto: <em>bift!<\/em> porque as pessoas faziam isso assim com seus rostos.<br \/>\n(JOYCE, 1916\/1998, p. 17-18.)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Almanaque On-line 32 entrevista Oscar Ventura Almanaque On-line: Em seu texto \u201cQuando um sonho desperta Um corpo\u201d, \u00a0h\u00e1 um ensinamento em que clareza e beleza se combinam em uma transmiss\u00e3o. Cito abaixo a frase em quest\u00e3o, e pe\u00e7o que nos fale como o analista pode chegar a esse ponto de \u201cprecis\u00e3o\u201d que voc\u00ea disse e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57677,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2518","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-32","category-34","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2518"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2518\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57678,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2518\/revisions\/57678"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57677"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}