{"id":2955,"date":"2024-08-05T14:35:24","date_gmt":"2024-08-05T17:35:24","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=2955"},"modified":"2025-12-01T14:06:59","modified_gmt":"2025-12-01T17:06:59","slug":"a-anorexia-corpos-nao-aprisionados-pelo-discurso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/08\/05\/a-anorexia-corpos-nao-aprisionados-pelo-discurso\/","title":{"rendered":"A anorexia: corpos n\u00e3o aprisionados pelo discurso"},"content":{"rendered":"<h5><strong>Sandra Maria Espinha Oliveira<\/strong><br \/>\nPsicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\nsandra_espinha@uol.com.br<\/h5>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A anorexia, por se constituir como um sintoma fora do discurso, desvela o que se encontra no cerne da estrutura do sintoma como um gozo irredut\u00edvel ao significante. Ela responde ao modelo de sintoma introduzido no \u00faltimo ensino de Lacan como um modo de gozo, um significante sozinho, uma letra, que fixa o gozo e n\u00e3o entra na estrutura da met\u00e1fora, abstendo-se de passar pelo Outro.<\/p>\n<p>Aprendemos com Freud e Lacan que a entrada no discurso se d\u00e1 ao pre\u00e7o de uma perda de gozo. No Semin\u00e1rio 10, para definir a opera\u00e7\u00e3o primordial que permite a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito dividido, Lacan op\u00f5e \u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>tra\u00e7o<\/em>, que transforma o corpo em significante, a no\u00e7\u00e3o de <em>corte<\/em>, que separa um resto que \u00e9 gozo, um resto-\u00f3rg\u00e3o: o objeto <em>a<\/em> elaborado como uma extra\u00e7\u00e3o corporal, \u00e0 qual ele vai reduzir a dial\u00e9tica da causa. \u00c9 a libra de carne, \u201cpeda\u00e7o carnal arrancado de n\u00f3s mesmos\u201d (LACAN, 1962-63\/2005, p. 237), que \u00e9 aprisionada na dial\u00e9tica significante e fica irrecuper\u00e1vel para sempre. Em torno do vazio deixado por essa perda estrutura-se o funcionamento pulsional. Sem essa cess\u00e3o libidinal do objeto, \u201co gozo que o sujeito experimenta permanece inserido no corpo, ele luta para entrar em um la\u00e7o social, para encontrar um lugar na l\u00f3gica de um discurso\u201d (COSENZA, 2024, p.63).<\/p>\n<p>Os impasses nesse processo de cess\u00e3o do objeto <em>a<\/em> como condi\u00e7\u00e3o de entrada no discurso e no seu funcionamento simb\u00f3lico foram analisados por Laurent e Miller (2005), \u00e0 luz do \u00faltimo ensino de Lacan, a partir das muta\u00e7\u00f5es operadas no discurso do mestre tradicional pelo discurso capitalista, no qual o empuxe ao gozo sem limites tornou-se um imperativo que impregna o la\u00e7o social e revela, em seu avesso, o decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o paterna.<\/p>\n<p>Com a f\u00f3rmula I &lt; <strong>a<\/strong>, Miller e Laurent escrevem esse decl\u00ednio do Ideal e definem o gozo contempor\u00e2neo como um gozo aut\u00edstico, sem Outro, fora da lei da castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Os sintomas contempor\u00e2neos s\u00e3o solu\u00e7\u00f5es alternativas ao sintoma freudiano em resposta a uma falha no processo de inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do gozo ou \u00e0 sua impossibilidade, estando mais pr\u00f3ximos da elabora\u00e7\u00e3o lacaniana do<strong> sinthoma<\/strong> e de sua concep\u00e7\u00e3o do inconsciente real, que fundam a cl\u00ednica psicanal\u00edtica em torno do gozo que escapa ao significante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan escreve a muta\u00e7\u00e3o operada pelo discurso do capitalista sobre o discurso do mestre antigo e o apresenta como um pseudodiscurso que recusa a castra\u00e7\u00e3o e prescinde do la\u00e7o social, deixando de lado as coisas do amor. O mais singular do sujeito, seu mais-de-gozar, encarna-se nos objetos de consumo, que assumem a preval\u00eancia sobre suas refer\u00eancias identificat\u00f3rias, apagam sua divis\u00e3o e o deixam \u00e0 deriva. Os efeitos de estrago produzidos revelam-se nas patologias do excesso nas quais, ao se tentar restituir o gozo ao corpo, o que se assiste \u00e9 \u00e0 sua ru\u00edna.<\/p>\n<p>Lacan aborda o v\u00ednculo devastador do sujeito anor\u00e9xico com seu corpo a partir de uma \u201crecusa do Outro\u201d e por uma economia de gozo sem perdas que gira em torno do objeto nada (COSENZA, 2018, p. 22). Inclu\u00edda entre as novas formas de sintoma, tamb\u00e9m chamados sintomas sociais ou patologias do excesso (COSENZA, 2024, p. 14), a anorexia aponta para a necessidade de se retomar a cl\u00ednica psicanal\u00edtica a partir do real do gozo que se encontra no cerne do sintoma concebido como modo de gozo singular do sujeito.<\/p>\n<p><strong>A anorexia como fracasso da sintomatiza\u00e7\u00e3o da puberdade nas formas neur\u00f3ticas<\/strong><\/p>\n<p>Os relatos dos casos das formas neur\u00f3ticas da anorexia, que t\u00eam seu in\u00edcio na puberdade, isolam os fatores estruturais antecedentes \u00e0 escolha da solu\u00e7\u00e3o anor\u00e9xica como defesa frente aos impasses que uma jovem pode encontrar para se instalar numa posi\u00e7\u00e3o sexuada como mulher e na dial\u00e9tica do desejo entre os sexos, decidindo-se pelo isolamento aut\u00edstico do gozo assexuado que esse sintoma oferece. Entre o caminho da adolesc\u00eancia como sintomatiza\u00e7\u00e3o da puberdade, que sup\u00f5e a passagem pela castra\u00e7\u00e3o e pela perda de gozo, o caminho escolhido pode ser o da recusa do Outro como resposta ao estrago constitu\u00eddo pela rela\u00e7\u00e3o com um desejo absoluto encarnado pelo Outro materno.<\/p>\n<p>O sujeito se apresenta sem recursos diante de uma demanda esmagadora, ilimitada, desse Outro parental, que Lacan descreve como aquele que confunde seus cuidados com o dom de seu amor. Em suas primeiras elabora\u00e7\u00f5es, Lacan concebe a anorexia como a encarna\u00e7\u00e3o radical da irredutibilidade do desejo ao registro da necessidade e aborda a recusa anor\u00e9xica do alimento como uma demanda ao Outro de um signo de amor, um signo de sua pr\u00f3pria falta.<\/p>\n<p>Frente \u00e0s dificuldades para separar-se de seu Outro absoluto, o sujeito encontra na solu\u00e7\u00e3o anor\u00e9xica um tratamento do corpo constitu\u00eddo por uma disciplina radical destinada a exercer um dom\u00ednio sobre si mesmo que acaba por se estender sobre o Outro. Trata-se de uma a\u00e7\u00e3o t\u00edpica da posi\u00e7\u00e3o anor\u00e9xica de controlar o Outro e de angusti\u00e1-lo, tornando-se para este \u201cum objeto imposs\u00edvel de alimentar\u201d (LA SAGNA, 2006, p. 67). A complac\u00eancia perfeccionista do sujeito anor\u00e9xico em rela\u00e7\u00e3o aos ideais parentais, que implica um \u201csim\u201d indiscriminado \u00e0 demanda do Outro tomada como uma ordem a ser executada, \u00e9 acompanhada por um \u201cn\u00e3o\u201d, igualmente indiscriminado, da recusa anor\u00e9xica.<\/p>\n<p>A anorexia se configura como uma tentativa de resposta a uma rela\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel com o Outro, sobretudo com o Outro materno, uma tentativa imagin\u00e1ria de separa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da recusa do alimento, que por n\u00e3o funcionar como uma separa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, acaba por reafirmar a onipot\u00eancia desse Outro. A m\u00e3e se mant\u00e9m como um Outro n\u00e3o castrado, onipresente, do qual \u00e9 imposs\u00edvel se separar para que o sujeito fa\u00e7a a experi\u00eancia de sua pr\u00f3pria falta como irredut\u00edvel ao campo do desejo materno. Na anorexia impera uma lei supereg\u00f3ica absoluta, sem desejo, ou como um \u201cdesejo puro\u201d sem Outro, que se transforma em vontade absoluta de autodomina\u00e7\u00e3o e em puls\u00e3o de morte (COSENZA, 2018, p. 130).<\/p>\n<p>Em suas \u00faltimas elabora\u00e7\u00f5es, Lacan (1973-74 <em>apud<\/em> COSENZA, 2018, p. 130) muda a maneira de conceptualizar a rela\u00e7\u00e3o da anor\u00e9xica com o saber ao real\u00e7ar a tese de que \u201cno cerne da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o saber inconsciente n\u00e3o haveria desejo, mas horror ao saber\u201d (COSENZA, 2018, p. 134). Ele acentua a recusa do saber inconsciente como o que causa horror ao sujeito anor\u00e9xico, que pode se deixar morrer para n\u00e3o encontr\u00e1-lo. O saber que absorve a anor\u00e9xica \u00e9 um saber dessubjetivado, ancorado no regime alimentar que sustenta sua solu\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica e a deixa imobilizada e n\u00e3o dividida, servindo para encobrir o encontro com o horror ao saber ligado \u00e0 estrutura do inconsciente como furo no real, sem garantia (COSENZA, 2018, p. 134).<\/p>\n<p>A anor\u00e9xica faz com o Outro o mesmo que ela faz com o alimento, ou seja, ela o recusa. Seu discurso estereotipado em torno da alimenta\u00e7\u00e3o eclipsa sua subjetividade e a afasta do la\u00e7o social. A recusa do Outro tem como efeito o fechamento do inconsciente e se traduz por um saber congelado e vazio. A solu\u00e7\u00e3o anor\u00e9xica tende a eliminar o intervalo entre os significantes de maneira holofr\u00e1stica para excluir o enigma do campo do saber e ali colocar uma certeza absoluta, fora do significante, uma petrifica\u00e7\u00e3o do gozo representada pelo <em>nada<\/em> (COSENZA, 2018, p. 313-314).<\/p>\n<p>A recusa anor\u00e9xica coloca em jogo uma manobra de separa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se produz a partir da assun\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o constitutiva do sujeito no campo do Outro, mas vai contra ela.\u00a0 Para descrever essa pseudossepara\u00e7\u00e3o, que se manifesta no afastamento do sujeito do la\u00e7o social, Domenico Cosenza destaca que a anor\u00e9xica sonha com uma separa\u00e7\u00e3o sem perdas, uma <em>separa\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria<\/em> que n\u00e3o coloca em quest\u00e3o a economia real do gozo que aprisiona o sujeito nas malhas do Outro e n\u00e3o passa pela castra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica (COSENZA, 2018, p. 192).<\/p>\n<p>Em \u201cComplexos familiares\u201d, Lacan (1938\/2003) localiza uma \u201crecusa do desmame\u201d na base da anorexia, associando o decl\u00ednio da imago paterna a patologias ligadas a uma separa\u00e7\u00e3o malsucedida do objeto materno caracterizada pela busca de um gozo pleno e nost\u00e1lgico que reconstitu\u00edsse a experi\u00eancia prim\u00e1ria de reencontro com a imago materna. Mais tarde, ele formular\u00e1 que a anor\u00e9xica \u201ccome nada\u201d, como uma pr\u00e1tica que, pela recusa do alimento, produz um gozo afirmativo autodestrutivo. N\u00e3o se trata, aqui, do mais-de-gozar que caracteriza a satisfa\u00e7\u00e3o discursiva do neur\u00f3tico, que \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o parcial ligada a uma perda. O gozo do nada na anorexia \u00e9 um gozo ilimitado, sem perda, gozo do Um sem Outro, fora da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. O sujeito anor\u00e9xico se recusa a aceitar a perda de gozo causada pela inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de seu corpo no campo do Outro. Ao fazer da castra\u00e7\u00e3o uma priva\u00e7\u00e3o, a anor\u00e9xica positiva o gozo perdido no desmame (SORIA, 2016, p. 29). O gozo fica encapsulado no corpo e fora do discurso.<\/p>\n<p>Na anorexia, a recusa do gozo recupera-se libidinalmente como gozo da recusa, como uma satisfa\u00e7\u00e3o presente na autodestrui\u00e7\u00e3o, na presentifica\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte no corpo. A recusa \u00e9 o modo de gozo espec\u00edfico da anorexia. O objeto <em>nada<\/em> funciona como defesa contra o gozo invasivo do Outro, mas tamb\u00e9m como causa de n\u00e3o-desejo, causa de um gozo sem limites que devasta o corpo e o faz conviver com a morte.<\/p>\n<p>Para Lacan, o privil\u00e9gio da imagem do corpo pr\u00f3prio sup\u00f5e uma falta. A imagem \u00e9 um v\u00e9u que cobre o vazio introduzido pela castra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se sustenta sem uma carga libidinal por ela regularizada (MILLER, 2008, p. 21). Quando o gozo pulsional n\u00e3o est\u00e1 regulado pela castra\u00e7\u00e3o, como na anorexia, ele surge na imagem como um excesso e perturba a percep\u00e7\u00e3o do corpo pr\u00f3prio, provocando sua dismorfopercep\u00e7\u00e3o, tratando-se de um gozo que, no caso das mulheres, vai al\u00e9m de sua medida f\u00e1lica. Quando a mascarada f\u00e1lica como um modo de tratar o feminino \u2014 como uma forma de fazer um ser com o nada \u2014 falha, estamos no campo do n\u00e3o-todo do gozo feminino. Se o f\u00e1lico n\u00e3o drena tudo o que pode se manifestar de pulsional na mulher (LACAN, 1958\/1998, p. 739), se ela n\u00e3o sofre da amea\u00e7a da castra\u00e7\u00e3o, ela pode construir seu ser despojando-se do ter (LAURENT, 1999). \u00c9 desde essa posi\u00e7\u00e3o feminina que se pode fazer uma rela\u00e7\u00e3o entre o nada essencial da feminilidade e o dar a ver \u201cnada do corpo\u201d para a anor\u00e9xica, o que n\u00e3o significa aus\u00eancia de v\u00e9u, mas a presen\u00e7a do v\u00e9u do horror. Ao contr\u00e1rio da mascarada f\u00e1lica, que suscita o desejo, o v\u00e9u do horror recusa o desejo e remete \u00e0 encarna\u00e7\u00e3o da morte no corpo, que convoca a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o esc\u00f3pica. A tentativa de negativizar o gozo pela via do imagin\u00e1rio falha e o excesso que surge na imagem \u00e9 signo de um real n\u00e3o delimitado pelo significante.<\/p>\n<p>\u00c9 esse excesso de gozo retido no corpo que a anor\u00e9xica trata com o controle r\u00edgido de seu peso e que lhe retorna como culpa e horror. O temor de ganhar peso e a alegria de ser magra revela o car\u00e1ter egossint\u00f4nico do sintoma anor\u00e9xico, que remete ao fracasso da equa\u00e7\u00e3o corpo = falo, \u00e0 qual responde a faliciza\u00e7\u00e3o da magreza nas formas anor\u00e9xicas de tipo hist\u00e9rico.<\/p>\n<p>No \u00faltimo Lacan, a amplia\u00e7\u00e3o do conceito do inconsciente como real abre a possibilidade para interven\u00e7\u00f5es do analista sobre esse real, sem que elas levem necessariamente \u00e0 abertura de sua dimens\u00e3o simb\u00f3lica, embora a aposta de que o sintoma se dialetize esteja sempre presente. Nessa dimens\u00e3o do inconsciente como S<sub>1 <\/sub>sozinho, a opera\u00e7\u00e3o do analista \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o sobre a defesa, orientada pelo real, e n\u00e3o pelo recalque, abrindo-se, por essa via, a possiblidade de distintos usos do psicanalista (EIDELBERG; SHEJTMAN; SORIA, 2004, p. 44).<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, o analista deve se colocar na posi\u00e7\u00e3o de um objeto que se deixa manobrar pela transfer\u00eancia, sem que esta seja uma opera\u00e7\u00e3o passiva. Ele deve evitar o fracasso que constitui o deciframento do sentido frente a um sintoma reduzido ao sem sentido do gozo. Suas interven\u00e7\u00f5es, orientadas pelo real do gozo, devem visar a introdu\u00e7\u00e3o de uma surpresa interna ao pr\u00f3prio discurso do sujeito, com o fim de fazer vacilar as certezas que alimentam o gozo do sintoma e separar o sujeito do lugar de objeto do gozo do Outro. \u00c9 atrav\u00e9s da experi\u00eancia anal\u00edtica, sob transfer\u00eancia e sob os efeitos de escan\u00e7\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es do analista, que, tratando-se de uma estrutura neur\u00f3tica, pode-se restituir \u00e0 palavra o seu poder de isolar, na hist\u00f3ria significante do sujeito, os n\u00facleos de sem sentido em torno dos quais o sintoma anor\u00e9xico se estruturou.<\/p>\n<p>No que se refere ao real em jogo no sintoma, o manejo da transfer\u00eancia, tanto com o sujeito, quanto com seus pais, visa produzir efeitos anal\u00edticos identific\u00e1veis por uma cess\u00e3o do gozo ao poder alienante da fala. O encontro com o real da ang\u00fastia, que pode ativar uma demanda anal\u00edtica no sujeito e sintomatizar a ang\u00fastia dos pais (COSENZA, 2018, p. 350), deve, no entanto, ser calculado com delicadeza.<\/p>\n<p><strong>A anorexia na estrutura psic\u00f3tica de tipo melanc\u00f3lico<\/strong><\/p>\n<p>Nas formas psic\u00f3ticas da anorexia, a recusa do Outro pode conjugar-se com um Outro que recusa. \u201cSer a recusa do Outro\u201d pode tornar-se o programa pulsional do sujeito, revelando-se em passagens ao ato autodestrutivas e em opera\u00e7\u00f5es de desligamento do Outro que o deixam \u00e0 deriva. Na falta de que o desejo da m\u00e3e seja metaforizado pelo Nome-do-Pai, o sujeito pode encontrar, no ponto devastador de sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro materno, seu ser de dejeto.<\/p>\n<p>Se o mito freudiano do pai primevo d\u00e1 conta da passagem do pai vivo ao pai morto, significante, a presen\u00e7a real do alimento na solu\u00e7\u00e3o anor\u00e9xica pode ser um \u00edndice de que o pai n\u00e3o se tornou um significante para o sujeito. Ele pode se identificar com o objeto perdido em uma posi\u00e7\u00e3o melancolizada, quando o amor pelo objeto se refugia no eu e o \u00f3dio entra em a\u00e7\u00e3o sobre esse objeto, fazendo-o sofrer e tirando satisfa\u00e7\u00e3o s\u00e1dica de seu sofrimento (FREUD, 1917\/2010 <em>apud<\/em> FERREIRA, 2014, p. 124). Frente \u00e0 foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai e a consequente n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o corporal do objeto, que se manifestam na mortifica\u00e7\u00e3o extrema do corpo e na fragmenta\u00e7\u00e3o estrutural da imagem, a solu\u00e7\u00e3o anor\u00e9xica pode ser lida como uma identifica\u00e7\u00e3o com o pai primevo como detentor de um gozo ilimitado, como formulado por Freud (1914-15\/2000).<\/p>\n<p>O \u201ccomer nada\u201d torna-se uma opera\u00e7\u00e3o de nada ceder ao Outro para reter na boca o gozo prim\u00e1rio n\u00e3o incorporado pela estrutura significante, em uma regress\u00e3o nost\u00e1lgica em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 fus\u00e3o com esse primeiro objeto m\u00edtico de satisfa\u00e7\u00e3o que \u00e9 a m\u00e3e como <em>Das Ding<\/em> e \u201cfator de morte\u201d (LACAN, 1938\/2003, p. 41).<\/p>\n<p>As refer\u00eancias ao estranhamento que causa o olhar-se no espelho, em que o sujeito encontra sempre uma distor\u00e7\u00e3o, revelam o retorno, na imagem, da reten\u00e7\u00e3o no corpo do objeto n\u00e3o extra\u00eddo do corpo do Outro. O que se presentifica na imagem \u00e9 o eu sem seu revestimento narc\u00edsico e identificado ao objeto, \u00e9 o pr\u00f3prio olhar do sujeito como objeto n\u00e3o separado do olhar de seu Outro primordial, que encarna em seu corpo a ferocidade sem limites do supereu. H\u00e1 sempre algo em excesso a ser eliminado do corpo e que visa destruir o elemento estranho, <em>Unheimlich<\/em>, da imagem corporal (COSENZA, 2024, p. 184-185), mortificando-a. \u00c9 o gozo da vida que retorna ali aonde o recurso \u00e0 imagem n\u00e3o \u00e9 suficiente para aprision\u00e1-lo. O real inomin\u00e1vel de seu ser de dejeto retorna no espelho e pode ser nomeado atrav\u00e9s de autoinj\u00farias.<\/p>\n<p>O amor ao pai transforma-se em um \u00f3dio de intensidade desmedida, acompanhado por sentimentos de rancor e vingan\u00e7a. A perda do lugar de onde o sujeito se via como amado retorna como puro \u00f3dio voltado contra si mesmo, que pode forcluir o amor. O sujeito se identifica com o furo deixado pela aus\u00eancia do pai e passa a dirigir contra si mesmo o \u00f3dio \u00e0quele que o abandonou, encarnando o supereu que trata sadicamente o sujeito como um objeto (FREUD, 1917\/2010). Quando o eu perde o revestimento narc\u00edsico, i(a), que um S<sub>1<\/sub> lhe fornecia como supl\u00eancia, evidencia-se o seu estatuo de objeto <em>a <\/em>como dejeto, como buraco no simb\u00f3lico, equivalente \u00e0 forclus\u00e3o do Nome-do-Pai, buraco por onde se esvai a libido corporal. O que surge \u00e9 esta dor profunda, uma tristeza profunda, que torna a vida vazia e sem sentido. A sombra do objeto recai sobre o eu (FREUD, 1917\/2010).<\/p>\n<p>Destaca-se, nas formas anor\u00e9xicas ligadas a uma estrutura psic\u00f3tica de tipo melanc\u00f3lico, a posi\u00e7\u00e3o da analista, que, pela perman\u00eancia de sua presen\u00e7a, n\u00e3o deixa cair o sujeito e o coloca ao abrigo de seu empuxo autodestrutivo. O analista n\u00e3o deve recuar frente \u00e0 gravidade do sintoma e n\u00e3o responde a esta pela ang\u00fastia nem pela indiferen\u00e7a, mas manejando a transfer\u00eancia de forma a evitar se instalar no lugar desse Outro cruel que maltrata o sujeito, favorecendo a abertura de caminhos para outros pontos de estabiliza\u00e7\u00e3o paralelos a um sintoma alimentar de dimens\u00f5es mais reduzidas.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Um amor que n\u00e3o contempla a dimens\u00e3o da falta produz uma distor\u00e7\u00e3o radical da rela\u00e7\u00e3o da mulher com o n\u00e3o-todo do gozo feminino que pode, ent\u00e3o, transformar-se no sem limites do gozo anor\u00e9xico. No \u00faltimo Lacan, o n\u00e3o-todo do gozo feminino ser\u00e1 generalizado pela afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o-todo real do gozo do <em>falasser\u00a0<\/em>se resolve pelo Nome-do-Pai. Para al\u00e9m da sexua\u00e7\u00e3o ed\u00edpica, Lacan prop\u00f5e uma sexua\u00e7\u00e3o fundada sobre o real da estrutura, ali onde \u201cn\u00e3o h\u00e1 Nome-do-Pai, a menos que cada sujeito o coloque no lugar\u201d (SKRIABINE, 2006, p. 58, tradu\u00e7\u00e3o nossa) atrav\u00e9s da lei particular que cada um encontra em seu <em>sinthoma<\/em>.<\/p>\n<p>O Nome-do-Pai como <em>sinthoma<\/em> vai mais al\u00e9m do pai freudiano e define-se como fun\u00e7\u00e3o de nomea\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o, nem la\u00e7o com o Outro, mas la\u00e7o entre o sentido e o real. Como <em>sinthoma<\/em>, ele \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o que faz manterem juntos, para cada sujeito, um por um, os registros do Real, do Simb\u00f3lico e do Imagin\u00e1rio, e permite fazer consistir uma realidade sem exist\u00eancia, na qual se desenvolve o la\u00e7o social no campo dos discursos (SKRIABINE, 2006). Fazer consistir uma realidade que n\u00e3o tem nenhuma exist\u00eancia intr\u00ednseca, uma vez que ela n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um v\u00e9u tecido de imagin\u00e1rio e de simb\u00f3lico que recobre o real, \u00e9 necess\u00e1rio para que o ser falante se proteja do real insuport\u00e1vel que se esquiva do significante e da imagem (SKRIABINE, 2006). \u00c0 essa generaliza\u00e7\u00e3o da forclus\u00e3o do Nome-do-Pai, introduzida pelo gozo feminino, vai corresponder uma cl\u00ednica orientada pelo real e pela singularidade do gozo <em>sinthom\u00e1tico. <\/em><\/p>\n<p>A recusa anor\u00e9xica pode encobrir uma estrutura cl\u00ednica e dificultar o estabelecimento de um diagn\u00f3stico estrutural, que s\u00f3 pode ser feito sob transfer\u00eancia e pode exigir um longo tempo de tratamento. Ela n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel a uma estrutura, mas existe como formas singulares de anorexia nas diferentes estruturas cl\u00ednicas, exercendo \u201cfun\u00e7\u00f5es diferenciadas para o sujeito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias espec\u00edficas que a estrutura comporta para ele\u201d (COSENZA, 2018, p. 169).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>1. Texto apresentado na 29a Conversac\u0327a\u0303o da Sec\u0327a\u0303o Cli\u0301nica do IPSM-MG em 29 de junho de 2024. As refere\u0302ncias aos casos cli\u0301nicos foram extrai\u0301das do presente texto aqui publicado. Nossos agradecimentos a\u0300 autora pelo desafio de uma nova escrita.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>COSENZA, D. A recusa na anorexia. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2018.<\/h6>\n<h6>COSENZA, D. Cl\u00ednica do excesso: derivas pulsionais e solu\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas na psicopatologia contempor\u00e2nea. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2024.<\/h6>\n<h6>EIDELBERG, A.; SHEJTMAN, F.; SORIA, N. La manobra de la transferencia y los usos del psicoanalista en anorexias y bulimias. In: EIDELBERG, A. et al. C\u00f3mo tratan los psicoanalistas las anorexias y bulimias? Buenos Aires: De Bucle, 2004.<\/h6>\n<h6>FERREIRA, M. de F. A dor moral na melancolia. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2014.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Neuroses de transfer\u00eancia: uma s\u00edntese. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 2000. (Trabalho original redigido em 1914-1915).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Luto e Melancolia. In: Obras Completas. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, Vol. 12, 2010, p. 128-144. (Trabalho original publicado em 1917).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Le S\u00e9minaire, livre 21: Les non-dupes errent. 1973-74. (Trabalho in\u00e9dito).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 734-745. (Trabalho original publicado em 1958).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Os complexos familiares. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. (Trabalho original publicado em 1938).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 10: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1962-63).<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. Posi\u00e7\u00f5es femininas do ser. Buenos Aires: Tres Haches, 1999.<\/h6>\n<h6>LA SAGNA, C. D. L\u2019anorexie vraie de la jeune fille. La Cause freudienne, n. 63, jun. 2006.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A.\u00a0El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. imagem do corpo em psican\u00e1lise. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, n. 52, p. 17-27, set. 2008.<\/h6>\n<h6>SORIA, N. Acerca de la anorexia melanc\u00f3lica. In: Psicoanalisis de la anorexia y la Bulimia. Buenos Aires: Del Bucle, 2016.<\/h6>\n<h6>SKRIABINE, P. La clinique diff\u00e9rentielle du sympt\u00f4me.\u00a0 Quarto \u2013 Revue de psychanalyse, n. 86: L\u2019invention sinthomatique, p. 58-64, abr. 2006.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandra Maria Espinha Oliveira Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) sandra_espinha@uol.com.br Introdu\u00e7\u00e3o A anorexia, por se constituir como um sintoma fora do discurso, desvela o que se encontra no cerne da estrutura do sintoma como um gozo irredut\u00edvel ao significante. 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