{"id":2962,"date":"2024-08-05T14:35:23","date_gmt":"2024-08-05T17:35:23","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=2962"},"modified":"2025-12-01T09:55:00","modified_gmt":"2025-12-01T12:55:00","slug":"entrevista-com-eric-laurent-criancas-em-analise1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/08\/05\/entrevista-com-eric-laurent-criancas-em-analise1\/","title":{"rendered":"Entrevista com \u00c9ric Laurent: Crian\u00e7as em an\u00e1lise<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h5><strong><em>\u00c9ric Laurent <\/em><\/strong><\/h5>\n<h6><em>Psicanalista<br \/>\n<\/em><em>Analista Membro da Escola (AME)<br \/>\n<\/em><em>Membro da ECF, EBP, EOL, NEL, NLS<br \/>\n<\/em><em>e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\n<\/em><em>ericlaurent@lacanzan.net <\/em><\/h6>\n<p><strong>Silvia Tendlarz: <\/strong>O senhor v\u00ea alguma diferen\u00e7a entre a an\u00e1lise de crian\u00e7as e a an\u00e1lise de adultos?<\/p>\n<p><strong>\u00c9<\/strong><strong>. Laurent<\/strong>: Em princ\u00edpio eu diria que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre a an\u00e1lise de crian\u00e7as e de adultos, mas, por outra parte, sim, h\u00e1 diferen\u00e7a entre crian\u00e7as e adultos. Houve uma tend\u00eancia, desde o aparecimento da an\u00e1lise de crian\u00e7as nos anos 20, em Viena \u2013 tanto no grupo de Anna Freud, quanto no grupo de Melanie Klein \u2013, de separ\u00e1-las da an\u00e1lise de adultos, com o argumento de que o desenvolvimento e do manejo da palavra no adulto e na crian\u00e7a concretizavam essa diferen\u00e7a. O desenvolvimento da an\u00e1lise do jogo ou a difus\u00e3o da t\u00e9cnica da an\u00e1lise dos desenhos \u2013 os desenhos foram mais utilizados por Anna Freud e o jogo por Melanie Klein \u2013 propuseram algo como uma t\u00e9cnica nova que necessitaria de praticantes especializados. Isso faz com que no movimento psicanal\u00edtico existam tens\u00f5es entre aqueles que praticam an\u00e1lise com crian\u00e7as e aqueles que n\u00e3o praticam. Muitas vezes essa separa\u00e7\u00e3o encobre a diferen\u00e7a de sexos: s\u00e3o as mulheres aquelas que se ocupam das crian\u00e7as, e os homens n\u00e3o. H\u00e1 poucos homens que se ocupam disso \u2013 embora dependa dos pa\u00edses. Essa oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa e pode produzir dentro da sociedade de psican\u00e1lise a realiza\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a entre os sexos. N\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre a an\u00e1lise de crian\u00e7as e adultos pois, qualquer que seja a idade, o sujeito desde o in\u00edcio est\u00e1 estruturado da mesma maneira. Isso significa que o manejo da l\u00edngua n\u00e3o tem nada a ver com a estrutura\u00e7\u00e3o do sujeito como estruturado pelo significante. Na concep\u00e7\u00e3o lacaniana, o fato de que a crian\u00e7a fale, fale muito pouco ou fale de maneira fragmentada, n\u00e3o a impede de estar situada na linguagem como tal. Ainda que haja um dizer sem palavras da crian\u00e7a, este est\u00e1 estruturado como um dizer. \u00c9 precisamente porque Lacan situa de maneira radical o sujeito na linguagem o que permite abordar a crian\u00e7a da mesma maneira. O desenvolvimento da aprendizagem da l\u00edngua n\u00e3o significa uma melhor localiza\u00e7\u00e3o na l\u00edngua. A posi\u00e7\u00e3o radical de Lacan de que o inconsciente est\u00e1 estruturado como uma linguagem permite considerar que, fale ou n\u00e3o, o sujeito est\u00e1 completamente definido por sua localiza\u00e7\u00e3o. Em segundo lugar, durante muito tempo algo que se esqueceu do ensino de Lacan \u00e9 que nem tudo \u00e9 o inconsciente na experi\u00eancia da psican\u00e1lise. Desde Freud, por um lado, est\u00e1 o inconsciente, e, por outro lado, est\u00e1 o Isso (que n\u00e3o est\u00e1 estruturado como uma linguagem). Em \u201cO outro Lacan\u201d, J.-A. Miller enfatiza sobre esse aspecto que n\u00e3o foi muito bem-visto durante anos, todo esse aspecto de examinar o Isso e da localiza\u00e7\u00e3o correta da puls\u00e3o durante a an\u00e1lise, que foi uma preocupa\u00e7\u00e3o constante em Lacan e que foi tomada de distintas maneiras segundo a \u00e9poca de seu ensino at\u00e9 a formula\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em>. Isso tem muita import\u00e2ncia para a crian\u00e7a. Devemos distinguir de maneira correta a posi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. A diferen\u00e7a entre a crian\u00e7a e o adulto \u00e9 que a crian\u00e7a tem pais que a apresentam ao analista, e que esses pais n\u00e3o est\u00e3o mortos para ela. A crian\u00e7a manifesta com seus sintomas a verdade do que \u00e9 o discurso familiar sobre ela (discurso de idealiza\u00e7\u00f5es, o que se espera dela, em que lugar est\u00e1 exatamente). Esse discurso sobre ela n\u00e3o \u00e9 o essencial, o essencial \u00e9 a verdade, o ponto de gozo que h\u00e1 em tudo isso. Em seu sintoma, manifesta a articula\u00e7\u00e3o entre o pai e a m\u00e3e, o que foi o desejo que produziu essa crian\u00e7a. A crian\u00e7a \u00e9 produto ou \u00e9 dejeto de um desejo. Lacan dizia que a maneira pela qual o psicanalista pode intervir mais facilmente \u00e9 quando h\u00e1 essa manifesta\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica na crian\u00e7a. O prot\u00f3tipo disso \u00e9 a fobia. Os casos mais interessantes publicados foram sempre casos de fobia: o caso do Pequeno Hans, o caso de Richard de Melanie Klein, o caso de Piggle de Winnicott. Os casos mais desfavor\u00e1veis s\u00e3o quando a crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 sintoma da fam\u00edlia, mas quando ela se apresenta como o objeto do fantasma da m\u00e3e. Nisso h\u00e1 que se distinguir o fantasma e o sintoma como registros distintos da experi\u00eancia. No sintoma o que predomina \u00e9 a fixa\u00e7\u00e3o de uma met\u00e1fora, o gozo que h\u00e1 em palavras congeladas, em ditos que desempenham um papel no destino da crian\u00e7a, ou, como dizia Freud, o sintoma organizado pelo n\u00facleo supereg\u00f3ico. Mas quando a crian\u00e7a \u00e9 o objeto do fantasma da m\u00e3e, o que predomina \u00e9 um gozo que n\u00e3o se articula \u00e0 cadeia significante, um gozo que resiste \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica como tal. \u00c9 muito mais dif\u00edcil conseguir modificar a posi\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e permitir que ela se coloque de outra maneira no discurso da fam\u00edlia. Esses s\u00e3o os casos de psicose, de autismo. Ao mesmo tempo, pode-se dizer que do lado do sujeito como tal, relacionado \u00e0 presen\u00e7a do Outro da palavra que j\u00e1 est\u00e1 no mundo quando se nasce, a crian\u00e7a est\u00e1 na mesma posi\u00e7\u00e3o que o adulto. Mas, em rela\u00e7\u00e3o ao objeto da puls\u00e3o, ao Isso e ao gozo, h\u00e1 diferen\u00e7as entre a crian\u00e7a e o adulto.<\/p>\n<p><strong>Silvia Tendlarz:<\/strong> O senhor acredita que tamb\u00e9m nas crian\u00e7as acontece a neurose de transfer\u00eancia?<\/p>\n<p><strong>\u00c9<\/strong><strong>. Laurent<\/strong>: Sim. As crian\u00e7as t\u00eam transfer\u00eancia. Esse foi o debate entre Anna Freud e Melanie Klein, e foi Melanie Klein quem o abordou de uma maneira satisfat\u00f3ria dizendo que a transfer\u00eancia da crian\u00e7a e do adulto s\u00e3o iguais, e que devem ser tratadas da mesma maneira. Em termos lacanianos, h\u00e1 na crian\u00e7a a possibilidade do Sujeito Suposto Saber. Qualquer pessoa que recebe uma crian\u00e7a em an\u00e1lise v\u00ea muito bem como a crian\u00e7a situa algo do saber no lugar do analista, o que permite a transfer\u00eancia. Sujeito Suposto Saber do que foi dito anteriormente para essa crian\u00e7a em an\u00e1lise e mesmo antes que essa crian\u00e7a iniciasse a an\u00e1lise. O analista \u00e9 a testemunha de que em algum lugar h\u00e1 um suposto saber de tudo o que foi dito. Nesse sentido, existe a estrutura da transfer\u00eancia nas crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Silvia Tendlarz: <\/strong>O senhor encontra alguma especificidade na an\u00e1lise com crian\u00e7as?<\/p>\n<p><strong>\u00c9<\/strong><strong>. Laurent:<\/strong> Claro, a especificidade est\u00e1 na divis\u00e3o entre o sintoma e o fantasma.\u00a0 O caso em que a m\u00e3e se articula ao pai produzindo o sintoma como clara articula\u00e7\u00e3o do desejo da m\u00e3e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do pai, ao Nome-do-Pai, \u00e9 diferente de quando essa articula\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre e o desejo da m\u00e3e fica articulado ao gozo da m\u00e3e sem essa media\u00e7\u00e3o. Situar bem essas coisas \u00e9 uma particularidade da an\u00e1lise das crian\u00e7as. Tamb\u00e9m h\u00e1 outra particularidade que \u00e9 o fato daquele que conduz o tratamento deixar-se cegar pela quest\u00e3o do desenvolvimento. Um adulto est\u00e1 supostamente desenvolvido, o que \u00e9 uma suposi\u00e7\u00e3o. O fato de que a crian\u00e7a esteja se desenvolvendo, que haja processos de matura\u00e7\u00e3o, d\u00e1 a ilus\u00e3o de que a estrutura n\u00e3o est\u00e1 constitu\u00edda, que ser\u00e1 constitu\u00edda. Ainda que seja verdade que a crian\u00e7a experimenta seu corpo, os objetos de seu corpo que pode entregar ao outro, objeto oral, anal \u2013 que s\u00e3o os mais conhecidos \u2013, o olhar e a voz, n\u00e3o podemos pensar que tudo se explicaria por uma fase do desenvolvimento. Essa tenta\u00e7\u00e3o sempre foi um perigo: reduzir a posi\u00e7\u00e3o do analista, as dificuldades da an\u00e1lise das crian\u00e7as, ao ponto de vista do desenvolvimento. H\u00e1 um ponto de vista lacaniano do desenvolvimento da crian\u00e7a que \u00e9 a localiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do corpo, da articula\u00e7\u00e3o do sujeito com seu corpo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p><strong>Silvia Tendlarz: <\/strong>E quanto ao final de an\u00e1lise?<\/p>\n<p><strong> Laurent:<\/strong> Como lhe disse anteriormente, h\u00e1 os finais de an\u00e1lise de crian\u00e7as de fato e os finais de an\u00e1lise que devem ocorrer. H\u00e1 grande quantidade de casos em que se vai ao analista de crian\u00e7as para obter um al\u00edvio do sintoma, o que pode se reduzir a um deslocamento do sintoma. Mas deslocar o ponto de vista do que era insuport\u00e1vel j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim. O que seria um final de an\u00e1lise da crian\u00e7a n\u00e3o estaria do lado do sintoma, mas do lado do fantasma. H\u00e1 poucas an\u00e1lises de crian\u00e7a que podemos considerar como terminadas; nem a an\u00e1lise do Pequeno Hans, nem a de Piggle, nem a de Richard s\u00e3o an\u00e1lises terminadas. Creio que \u00e9 algo que h\u00e1 que se produzir. Contudo, h\u00e1 um paradoxo: poder\u00edamos falar de an\u00e1lise terminada depois do encontro com o que \u00e9 o gozo sexual como tal; o paradoxo seria de que, neste momento, uma crian\u00e7a deixa de se definir como crian\u00e7a. No momento no qual se poderia verificar que h\u00e1 uma an\u00e1lise terminada, \u00e9 o momento em que a crian\u00e7a desaparece e o que h\u00e1 \u00e9 o que se chama adulto, algu\u00e9m que se enfrenta com o gozo sexual como tal.<\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<em> Beatriz Esp\u00edrito Santo<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Revis\u00e3o:<em> Maria Rita Guimar\u00e3es<\/em><\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<h6>1 Nossos sinceros agradecimentos a Silvia Elena Tendlarz pela autorizac\u0327a\u0303o para publicac\u0327a\u0303o desta entrevista em Almanaque n. 33. A entrevista encontra-se publicada no blog da autora, disponi\u0301vel em: https:\/\/www.silviaelenatendlarz.com\/entrevista-a-eric-laurent\/.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9ric Laurent Psicanalista Analista Membro da Escola (AME) Membro da ECF, EBP, EOL, NEL, NLS e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) ericlaurent@lacanzan.net Silvia Tendlarz: O senhor v\u00ea alguma diferen\u00e7a entre a an\u00e1lise de crian\u00e7as e a an\u00e1lise de adultos? \u00c9. 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