{"id":2972,"date":"2024-08-05T14:35:23","date_gmt":"2024-08-05T17:35:23","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=2972"},"modified":"2025-12-01T09:55:55","modified_gmt":"2025-12-01T12:55:55","slug":"o-unico-e-o-especifico-na-experiencia-analitica-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/08\/05\/o-unico-e-o-especifico-na-experiencia-analitica-4\/","title":{"rendered":"O \u00fanico e o espec\u00edfico na experi\u00eancia anal\u00edtica"},"content":{"rendered":"<h5>Maria Wilma S. de Faria<\/h5>\n<h6>Psicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP)<br \/>\ne da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\nDiretora da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG<\/h6>\n<p>A psican\u00e1lise, diferentemente de outros campos de saber, traz em seu arcabou\u00e7o uma especificidade, na medida em que n\u00e3o trabalha com categorias e n\u00e3o se ocupa de generaliza\u00e7\u00f5es, uma vez que o real da experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 o que se tem em vista. Orientamo-nos pela pr\u00e1tica anal\u00edtica, na qual se visa o caso a caso, e isso aponta para o fato de que o conhecimento em psican\u00e1lise \u00e9 constru\u00eddo de maneira \u00fanica frente a uma impossibilidade de enquadramento, de totaliza\u00e7\u00e3o ou de generaliza\u00e7\u00e3o. Cada sujeito deve se apresentar ao longo do tratamento com o seu sintoma, sua forma singular e \u00fanica de lidar com o real imposs\u00edvel de suportar.<\/p>\n<p>Pensando o <em>espec\u00edfico<\/em> na experi\u00eancia anal\u00edtica, \u00e9 interessante perguntarmos: quais s\u00e3o os significados dessa palavra? Segundo o Dicion\u00e1rio Houaiss (HOUAISS; VILLAR, 2001), o <em>espec\u00edfico <\/em>\u00e9: \u201cpr\u00f3prio de uma esp\u00e9cie; peculiar; destinado ou pertencente exclusivamente a um indiv\u00edduo ou a um caso, uma situa\u00e7\u00e3o; especial; exclusivo; pr\u00f3prio; inerente\u201d. Tal defini\u00e7\u00e3o cai como uma luva, na medida em que, na especificidade, encontramos aquilo que \u00e9 da ordem tamb\u00e9m de uma unicidade, o mais pr\u00f3prio de cada <em>falasser<\/em>, algo que poder\u00edamos localizar como sendo o <em>sinthoma<\/em>. Para Miller (2013, p. 133), \u201co <em>sinthoma<\/em> \u00e9 o singular em cada indiv\u00edduo\u201d. \u201cO singular \u2018como tal\u2019, n\u00e3o se parece com nada: ele <em>ex-siste<\/em> \u00e0 semelhan\u00e7a, ou seja, ele est\u00e1 fora do que \u00e9 comum\u201d (MILLER, 2009, p. 35).<\/p>\n<p>Se o singular de cada <em>falasser<\/em> nos aproxima dos \u00faltimos tempos do ensino de Lacan, podemos tamb\u00e9m nos servir da particularidade, uma vez que esta abra\u00e7a as categorias e as estruturas cl\u00ednicas presentes no primeiro tempo de seu ensino. N\u00e3o se trata de rejeitar os tipos cl\u00ednicos que herdamos de Freud, de Lacan e da cl\u00ednica psiqui\u00e1trica cl\u00e1ssica, mas de saber que um caso nunca realiza o seu tipo: \u201cQue os tipos cl\u00ednicos decorrem da estrutura, eis o que j\u00e1 se pode escrever, embora n\u00e3o sem flutua\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1973\/2003, p. 554). O Homem dos Ratos, enquanto caso paradigm\u00e1tico, serve como modelo para ilustrar a neurose obsessiva; por\u00e9m, nem todos obsessivos s\u00e3o como Ernst Lanzer. Cada obsessivo opera de acordo com seu gozo de maneira \u00fanica, em que pese o fato de que, como <em>falasser<\/em>, ele esteja tamb\u00e9m em articula\u00e7\u00e3o com o particular e com o universal dessa categoria. Assim, \u201cos sujeitos de um tipo, portanto, n\u00e3o t\u00eam utilidade para os outros do mesmo tipo\u201d (LACAN, 1973\/2003, p. 554).<\/p>\n<p>A cl\u00ednica psicanal\u00edtica preconiza o <em>Um-sozinho<\/em> que habita cada ser falante em sua redu\u00e7\u00e3o e dimens\u00e3o de real. Se a loucura passa a ser generalizada e est\u00e1 posta a cada ser falante, a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana nos convida ao rigor, no sentido de sustentar o estabelecimento de um diagn\u00f3stico diferencial do qual n\u00e3o se pode abrir m\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico diferencial \u00e9 fundamental na condu\u00e7\u00e3o de um tratamento, \u00e9 a b\u00fassola orientadora para o manejo de um caso perante as especiais maneiras dos sujeitos se estruturarem psiquicamente, de saberem fazer com seu sintoma e de se inscreverem no la\u00e7o social. H\u00e1, al\u00e9m disto, desse tratamento poss\u00edvel do \u00fanico e espec\u00edfico em cada sujeito, algo que insiste em n\u00e3o se inscrever e que resta como irredut\u00edvel. Fazer desse resto uma inven\u00e7\u00e3o \u00e9 o que cabe a cada ser falante, independentemente de sua estrutura. Assim, valer a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise \u00e9 um princ\u00edpio\u00a0\u00e9tico.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica psicanal\u00edtica de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana tem tamb\u00e9m como espec\u00edfico fazer existir o sujeito! Procuramos localizar, em cada caso, o \u201cdivino detalhe\u201d, a forma de funcionar do <em>falasser<\/em>. Interessa \u00e0 psican\u00e1lise o para al\u00e9m das multiplica\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas de tipos cl\u00ednicos que proliferam por todos os lados \u2013 anor\u00e9xicos, bul\u00edmicos, toxic\u00f4manos, hiperativos, deprimidos. Tais apresenta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas s\u00e3o compat\u00edveis com a nossa \u00e9poca, pelas quais o discurso da ci\u00eancia, com seu pragmatismo de adapta\u00e7\u00f5es, prescri\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es, busca reduzir o corpo ao organismo, desconhecendo, assim, sua dimens\u00e3o pulsional e de gozo.<\/p>\n<p>\u201cO que Lacan chama de <em>sinthoma<\/em> \u00e9, por excel\u00eancia, o conceito singular, cuja extens\u00e3o \u00e9 t\u00e3o somente o indiv\u00edduo\u201d (MILLER, 2009, p. 38)\u201d. Assim, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel comparar ningu\u00e9m a n\u00e3o ser a si mesmo, de tal sorte que a singularidade de cada caso compreende o que \u00e9 incompreens\u00edvel e incompar\u00e1vel. O instante de ver est\u00e1 relacionado ao singular do caso; assim, desde a primeira entrevista, a forma como se localiza o nome de gozo do <em>falasser<\/em> tem a ver com esse instante de ver, com como cada analista \u201cencarna\u201d (MILLER, 2009, p. 40) sua presen\u00e7a e faz do encontro um acontecimento de corpo.<\/p>\n<p>O discurso do analista, portanto, diferentemente dos outros discursos, \u00e9 o \u00fanico que exclui a domina\u00e7\u00e3o, uma vez que, em seu lado superior esquerdo, h\u00e1 um elemento que \u00e9 \u201ccausa de desejo\u201d: ali o analista se faz semblante e o saber se encontra apenas enquanto suposto. O discurso anal\u00edtico nada tem de universal, n\u00e3o \u00e9 para todos, e sim \u201cpara o <em>Um-sozinho<\/em>\u201d (MILLER, 2022).<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m \u00fanico da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, enquanto \u00e9tica, o n\u00e3o recuar, o n\u00e3o retroceder do ato anal\u00edtico, da arte da escuta, de \u201cseguir\u201d o <em>falasser<\/em> em suas pequenas grandes inven\u00e7\u00f5es, do desafio do analista se oferecer como objeto, sempre resto e causa, para que uma transfer\u00eancia opere, permitindo um endere\u00e7amento. Enfim, \u00e9 uma arte, e trata-se de, \u201cdo ponto de vista singular, fazer reinar um deixar ser: deixar ser aquele que se entrega a voc\u00ea (analista), deix\u00e1-lo ser na sua singularidade\u201d (MILLER, 2009, p. 36).<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>HOUAISS, A.; VILLAR, M. <em>Dicion\u00e1rio Houaiss da L\u00edngua Portuguesa<\/em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de um primeiro volume dos Escritos. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 553-556. (Trabalho original publicado em 1973).<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. O inconsciente e o sinthoma. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 55, 2009.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. <em>El ultim\u00edsimo Lacan. Los cursos psicoanaliticos de Jacques-Alain Miller<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Todo mundo \u00e9 louco \u2013 AMP 2024. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 85, p. 8-18, dez. 2022.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Wilma S. de Faria Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) Diretora da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG A psican\u00e1lise, diferentemente de outros campos de saber, traz em seu arcabou\u00e7o uma especificidade, na medida em que n\u00e3o trabalha com categorias e n\u00e3o se ocupa de generaliza\u00e7\u00f5es, uma&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57664,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[35,39],"tags":[],"class_list":["post-2972","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-33","category-trilhamentos","category-35","category-39","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2972","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2972"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2972\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57665,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2972\/revisions\/57665"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2972"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2972"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2972"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}