{"id":2976,"date":"2024-08-05T14:35:23","date_gmt":"2024-08-05T17:35:23","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=2976"},"modified":"2025-12-01T09:58:14","modified_gmt":"2025-12-01T12:58:14","slug":"editorial-almanaque33","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2024\/08\/05\/editorial-almanaque33\/","title":{"rendered":"Editorial Almanaque#33"},"content":{"rendered":"<h6>Maria Rita Guimar\u00e3es<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se Machado de Assis se ocupou, em 1890, segundo dizem, de escrever uma linda fic\u00e7\u00e3o sobre a inven\u00e7\u00e3o dos almanaques, na qual lhes d\u00e1 o estatuto de \u201coficina da vida\u201d, parece ser que essa estranha palavra, cuja etimologia ainda \u00e9 discutida, evoca um movimento. Ou v\u00e1rios, simult\u00e2neos e\/ou sucessivos, ao longo do Tempo, personagem lindamente escolhido por Machado de Assis em seu conto e escrito dessa maneira, com a letra T mai\u00fascula. Outro exemplo de movimento, acompanhado de almanaque, tomamos de Wassily Kandinsky (1912\/2013, p. 22), quando este escreve para Paul Westheim:<\/p>\n<p>amadureceu em mim o desejo de compilar um livro (uma esp\u00e9cie de almanaque), em que artistas exclusivos deveriam contribuir como autores. [&#8230;] A separa\u00e7\u00e3o daninha de uma arte da outra, de \u201carte\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arte popular, \u00e0 arte infantil, \u00e0 \u201cetnogr\u00e1fica\u201d, \u00e0s s\u00f3lidas paredes erigidas em meio \u00e0s coisas que a meus olhos estavam intimamente relacionadas \u2013 tudo isso tirou de mim a paz.<\/p>\n<p><em>Almanaque<\/em>, a publica\u00e7\u00e3o on-line do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, neste seu n\u00famero 33 homenageia Kandinsky, veste-se com a capa do livro ao qual fez refer\u00eancia como desejo, ainda como um projeto: <em>Almanaque \u201cO cavaleiro Azul\u201d<\/em>. Foi um projeto fulgurante, fa\u00edsca apagada pela primeira guerra mundial dois anos ap\u00f3s seu primeiro n\u00famero, mas suficiente para incendiar, no movimento de renova\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria da arte moderna at\u00e9 nosso tempo.<\/p>\n<p>A revista <em>Almanaque<\/em>, em seu surgimento, tal como falou Simone Souto na conversa mantida conosco, possibilitou o movimento de espalhar pela cidade, pelas institui\u00e7\u00f5es existentes em Belo Horizonte naqueles idos, um forte la\u00e7o: a psican\u00e1lise lacaniana e o Instituto, rec\u00e9m-criado. O compromisso com esse movimento mant\u00e9m-se at\u00e9 nossos dias. Uma mem\u00f3ria que faz a liga\u00e7\u00e3o do passado a um farol que ilumina o futuro. Voc\u00ea certamente se interessar\u00e1 em conhecer esse passado em <em>Encontros<\/em>.<\/p>\n<p>A partir do n\u00famero 33, a revista <em>Almanaque<\/em> estar\u00e1 muito circulante. Cada um de seus leitores a ter\u00e1 na palma da m\u00e3o, tal como o antigo tabloide de cartas enigm\u00e1ticas estampadas, que era impresso e perambulava pela cidade!<\/p>\n<p>Traz uma vers\u00e3o descarreg\u00e1vel: voc\u00ea poder\u00e1 baix\u00e1-la e lev\u00e1-la no celular, exatamente onde a guardou, para leitura posterior. Mas estamos confiantes de que voc\u00ea tamb\u00e9m a visitar\u00e1 no site https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/publicacoes\/almanaque, seu lugar de refer\u00eancia. Outra novidade \u00e9 que, na vers\u00e3o PDF, suas p\u00e1ginas est\u00e3o numeradas.<\/p>\n<p>Uma revista sem \u00edndice prop\u00f5e uma novidade? N\u00e3o sabemos; mas, isso sabemos, \u00e9 que desejamos que voc\u00ea a percorra, que se sinta encorajado a examin\u00e1-la. E \u2013 quem sabe? \u2013 , num outro momento poder\u00e1 at\u00e9 nos dizer algo sobre a revista, at\u00e9 mesmo se a falta de \u00edndice \u201cfez falta\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m importa assinalar que, entre o tempo de trabalho no IPSM-MG e seus efeitos, a publica\u00e7\u00e3o trar\u00e1, a cada n\u00famero, um conte\u00fado que revisitar\u00e1 o tema pesquisado na Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica e nas demais atividades j\u00e1 realizadas, focando a luz em pontos obscuros. Neste n\u00famero, no ritmo dessa proposta, um t\u00edtulo orientar\u00e1 a leitura dos textos que j\u00e1 apresentam o que se extraiu do semestre anterior: o \u00fanico e o espec\u00edfico na experi\u00eancia anal\u00edtica.<\/p>\n<p>Tr\u00eas colegas foram convidados e aceitaram nos dar a m\u00e3o no e em <em>Trilhamentos<\/em>, do que sugere e provoca o t\u00edtulo. J\u00e1 exploramos, pesquisamos e vivenciamos os termos que o comp\u00f5em?<\/p>\n<p>Maria Wilma Faria inicialmente toma a trilha da sinon\u00edmia, buscando nos informar qual acep\u00e7\u00e3o da palavra, afinal, pode corresponder ao \u201cespec\u00edfico\u201d de que falamos no campo da experi\u00eancia anal\u00edtica. Encaminha a quest\u00e3o examinando-a entre o primeiro e \u00faltimo ensinos de Lacan, fundamentando a necessidade cl\u00ednica de \u201csaber que um caso nunca realiza o seu tipo\u201d.<\/p>\n<p>Frederico Feu, sem conhecer o texto de Maria Wilma, come\u00e7a seu escrito dialogando com ele, explorando a distin\u00e7\u00e3o entre o caso cl\u00ednico e o tipo cl\u00ednico. Logo, lan\u00e7a-nos a proposi\u00e7\u00e3o seguinte:<\/p>\n<p>Gostaria de propor, no \u00e2mbito de nossa discuss\u00e3o no IPSM-MG, que a distin\u00e7\u00e3o entre o \u201c\u00fanico\u2019\u201d e o \u201cespec\u00edfico\u201d n\u00e3o recobre inteiramente aquela entre o caso \u00fanico e o tipo cl\u00ednico, especialmente se remetemos o \u201c\u00fanico\u201d ao \u201cUm\u201d, marca de gozo original do <em>falasser<\/em>.<\/p>\n<p>Para conhecer a argumenta\u00e7\u00e3o formulada pelo autor a respeito de sua proposi\u00e7\u00e3o, aceite o convite que ele nos faz e recolha o esclarecedor ensinamento que o texto nos traz.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio de Castro concentra-se no termo \u201c\u00danico\u201d. Apoia-se no que foi escrito por Jacques-Alain Miller na contracapa Semin\u00e1rio 19 para nos trazer \u00e0 reflex\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o do \u00danico ao Um-dividualismo moderno:<\/p>\n<p>Se, por um lado podemos, ao Um-dividualismo, localiz\u00e1-lo na rigidez autorreferida dos identitarismos atuais, por outro, podemos constatar que basta que se inicie uma an\u00e1lise para se verificar que h\u00e1 uma dimens\u00e3o do Outro em cada um que faz voar pelos ares tal aprisionamento.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao \u00fanico e espec\u00edfico, o que nos aporta o texto \u201cA histeria r\u00edgida: a exist\u00eancia da neurose hoje\u201d? Esse rigoroso trabalho de Simone Souto, apresentado na Aula Inaugural do IPSM-MG e na abertura da atividades da EBP-MG em mar\u00e7o de 2024, ajuda-nos a buscar os elementos \u00e0 pergunta levantada, assim como nos traz pontos fundamentais ao estudo do tema proposto para a 27\u00aa Jornada da EBP-MG &#8230; <em>e as neuroses continuam existindo.<\/em> Leitura imprescind\u00edvel, a autora nos tra\u00e7a um percurso desde a hist\u00e9rica freudiana at\u00e9 a hist\u00e9rica de hoje. E o que se pode dizer da hist\u00e9rica de nosso tempo? Nas palavras de Simone Souto:<\/p>\n<p>por mais que a hist\u00e9rica hoje apresente o sintoma sustentado no falo como significante do gozo imposs\u00edvel de negativizar, ela n\u00e3o deixa de demonstrar que o que lhe \u00e9 dado como gozo \u00e9 sempre aquele que n\u00e3o deveria ser, \u00e9 sempre um gozo que n\u00e3o conv\u00e9m se comparado ao \u00fanico gozo que conviria: aquele relativo \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual que ela visa a atingir. Sendo assim, ela se recusa a ser o sintoma de outro corpo, do corpo de um homem, ou seja, aquilo de que ele goza. Portanto, em seu sintoma, ela goza do significante como Um-sozinho, como um corpo que se goza, mas se recusa a fazer passar esse gozo por um outro, coloc\u00e1-lo \u00e0 prova na rela\u00e7\u00e3o com o parceiro.<\/p>\n<p>Ainda na rubrica <em>Encontros,<\/em> atualiza-se um antigo tema, melhor dizer, um antigo debate, atrav\u00e9s de uma pergunta, j\u00e1 tornada cl\u00e1ssica, feita por Silvia Tendlarz, colega da Escuela de la Orientaci\u00f3n Lacaniana (EOL) \u2013 a quem renovamos nossos agradecimentos pela autoriza\u00e7\u00e3o para a publica\u00e7\u00e3o, aqui, desta entrevista \u2013 a \u00c9ric Laurent: \u201cO senhor encontra alguma especificidade na an\u00e1lise com crian\u00e7as?\u201d. A resposta vem, esclarecedora e orientadora, no sentido cl\u00ednico: \u201cClaro, a especificidade est\u00e1 na divis\u00e3o entre o sintoma e o fantasma\u201d.<\/p>\n<p>Outro dado que surpreende \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o \u2013 conhecida, por\u00e9m pouco comentada \u2013 de Laurent:<\/p>\n<p>Isso faz com que no movimento psicanal\u00edtico existam tens\u00f5es entre aqueles que praticam an\u00e1lise com crian\u00e7as e aqueles que n\u00e3o praticam. Muitas vezes essa separa\u00e7\u00e3o encobre a diferen\u00e7a de sexos: s\u00e3o as mulheres aquelas que se ocupam das crian\u00e7as, e os homens n\u00e3o. H\u00e1 poucos homens que se ocupam disso \u2013 embora dependa dos pa\u00edses. Essa oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa e pode produzir dentro da sociedade de psican\u00e1lise a realiza\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a entre os sexos.<\/p>\n<p><em>O que se conversou<\/em> poderia se acompanhar por uma interroga\u00e7\u00e3o. Efetivamente, perguntar pelo que, na Conversa\u00e7\u00e3o da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG, realizada a cada semestre, se trabalhou, debateu e foi transmitido atrav\u00e9s dos casos cl\u00ednicos, \u00e9 assunto que toca a comunidade anal\u00edtica. O texto aqui publicado nesta rubrica d\u00e1 provas disso. Sem os casos cl\u00ednicos \u2013 retirados em raz\u00e3o da confidencialidade \u2013, podemos acompanhar o desenvolvimento te\u00f3rico realizado por Sandra Espinha, sobre \u201cA anorexia: corpos n\u00e3o aprisionados pelo discurso\u201d, texto que \u00e9, ali\u00e1s, uma \u00f3tima refer\u00eancia para a prepara\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, a se realizar em novembro deste ano.<\/p>\n<p>Por fim, <em>De uma nova gera\u00e7\u00e3o<\/em> comparece no <em>Almanaque<\/em> trazendo uma pergunta:\u00a0 O que \u00e9 a psicose ordin\u00e1ria? A pergunta de Fabiana Peralva Lima justifica-se com o seguinte par\u00e1grafo:<\/p>\n<p>Conversa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas pautadas em casos que apresentavam, para o analista, dificuldades e limita\u00e7\u00f5es na defini\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica apontavam para algo novo na cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Casos em que n\u00e3o se reconheciam sinais claros de uma neurose e nem tampouco sinais positivos e evidentes de psicose, como alucina\u00e7\u00f5es e del\u00edrios, faziam ru\u00eddo \u00e0 \u00e9poca. Foram tr\u00eas valiosos encontros na Fran\u00e7a cujas elabora\u00e7\u00f5es culminaram na defini\u00e7\u00e3o do termo \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s psicoses extraordin\u00e1rias e cl\u00e1ssicas nas suas apresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Deixamos o convite: vamos \u00e0 leitura deste <em>Almanaque<\/em> 33?<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6>ASSIS, J. M. M. de.\u00a0Como se inventaram os almanaques. <em>In: Obra completa<\/em>. Organizada por\u00a0Afr\u00e2nio Coutinho.\u00a0Rio de Janeiro:\u00a0Nova Aguilar,\u00a02004. (Texto originalmente publicado em 1890).<\/h6>\n<h6>KANDINSKY, W.; MARC, F. (Eds.). <em>Almanaque \u201cO cavaleiro Azul\u201d (Der Blaue Reiter)<\/em>. Organiza\u00e7\u00e3o de Jorge Schwartz; tradu\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1via Bancher. S\u00e3o Paulo: Editora Edusp \/ Museu Lasar Segall, 2013. (Texto originalmente publicado em 1912).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Rita Guimar\u00e3es &nbsp; Se Machado de Assis se ocupou, em 1890, segundo dizem, de escrever uma linda fic\u00e7\u00e3o sobre a inven\u00e7\u00e3o dos almanaques, na qual lhes d\u00e1 o estatuto de \u201coficina da vida\u201d, parece ser que essa estranha palavra, cuja etimologia ainda \u00e9 discutida, evoca um movimento. 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