{"id":3623,"date":"2025-03-10T15:03:13","date_gmt":"2025-03-10T18:03:13","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=3623"},"modified":"2025-12-01T09:45:35","modified_gmt":"2025-12-01T12:45:35","slug":"o-corpo-esse-outro1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2025\/03\/10\/o-corpo-esse-outro1\/","title":{"rendered":"O corpo, esse Outro<sup>[1]<\/sup>"},"content":{"rendered":"<h5><strong><em>Ram Mandil<br \/>\n<\/em>Psicanalista<\/strong><br \/>\n<strong>Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<\/strong><br \/>\n<strong><em>E-mail<\/em>: rmandil.bhe@terra.com.br<\/strong><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O tema desta atividade \u2013 \u201cO corpo, esse Outro\u201d, a partir de uma sugest\u00e3o de S\u00e9rgio Laia \u2013 se articula ao tema do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, que ir\u00e1 acontecer em S\u00e3o Paulo entre os dias 08 e 10 de novembro. O tema do Encontro, \u201cCorpos aprisionados pelo discurso&#8230; e seus restos\u201d, foi inspirado no \u00faltimo cap\u00edtulo do Semin\u00e1rio 19, de Lacan (1971-72\/2012), <em>&#8230;ou pior<\/em>. Nesse Semin\u00e1rio, Lacan apresenta aspectos fundamentais que ir\u00e3o desembocar nisso que designamos como sendo o seu \u00faltimo ensino. \u00c9 nesse Semin\u00e1rio, por exemplo, que ele constr\u00f3i a tese do \u201cH\u00e1 Um\u201d (<em>Y\u00b4a de l\u00b4Un<\/em>), em que assinala a exist\u00eancia de um gozo \u2013 gozo do corpo, gozo da fala, ou, ainda, gozo do sinthoma \u2013 n\u00e3o articulado ao Outro. Trata-se de um desdobramento e consequ\u00eancia da sua tese de que \u201cN\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d.<\/p>\n<p>Como muitos de voc\u00eas puderam acompanhar, uma discuss\u00e3o foi iniciada a partir de um coment\u00e1rio de J\u00e9sus Santiago a respeito da tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas do termo \u201caprisionado\u201d, que est\u00e1 presente no tema do Encontro \u2013 corpos aprisionados pelo discurso \u2013, uma vez que a palavra <em>attrap\u00e9s<\/em>, no original em franc\u00eas, indica uma rela\u00e7\u00e3o entre corpo e discurso que n\u00e3o necessariamente se expressa na ideia de aprisionamento.\u00a0 Contribui\u00e7\u00f5es de colegas da EBP a esse respeito est\u00e3o dispon\u00edveis no site do Encontro, dando uma dimens\u00e3o da sutileza do debate a respeito das rela\u00e7\u00f5es entre corpo e discurso no ensino de Lacan.<\/p>\n<p>O estatuto do corpo<\/p>\n<p>Sabemos que um dos passos inaugurais de Freud se deu na dire\u00e7\u00e3o da interroga\u00e7\u00e3o sobre o estatuto do corpo a partir da cl\u00ednica da histeria, uma vez que essa cl\u00ednica obriga a considerar o corpo para al\u00e9m de suas vertentes anat\u00f4mica, fisiol\u00f3gica ou biol\u00f3gica.\u00a0 Costumamos n\u00e3o dar a devida aten\u00e7\u00e3o aos esfor\u00e7os de Freud, no in\u00edcio de seu percurso, em procurar convencer os m\u00e9dicos a inclu\u00edrem os efeitos da palavra em sua pr\u00e1tica, efeitos esses que participam, e muitas vezes determinam \u2013 por exemplo, em sua dimens\u00e3o traum\u00e1tica \u2013, o modo como um sujeito faz a sua experi\u00eancia de corpo. Em \u201cO tratamento ps\u00edquico (ou an\u00edmico)\u201d, Freud (1896\/1996, p. 298) observa que uma \u201catitude unilateral da medicina\u201d tende a ver com desconfian\u00e7a qualquer autonomia conferida \u00e0 vida mental na determina\u00e7\u00e3o de efeitos corporais, desconsiderando inclusive o poder das palavras no tratamento das \u201cperturba\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas\u201d tanto da <em>psych\u00e9<\/em>, quanto do corpo. \u00c9 surpreendente ver Freud responder \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es de que qualquer interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica que n\u00e3o derive dos aspectos anat\u00f4micos e fisiol\u00f3gicos deveria ser considerada como sendo da ordem da magia. Ainda hoje, em nosso contexto, surgem acusa\u00e7\u00f5es dessa ordem por parte de personagens midi\u00e1ticos que se arvoram a falar em nome da ci\u00eancia e oferecer um ant\u00eddoto contra o chamado \u201cpensamento m\u00e1gico\u201d.\u00a0 Freud (1896\/1996, p. 297) assume que ser\u00e1 necess\u00e1rio, para uma ampla compreens\u00e3o do que se passa na experi\u00eancia de corpo, que se possa \u201crestituir \u00e0s palavras, pelo menos em parte, o seu antigo poder m\u00e1gico\u201d. Nesse aspecto, ele chama a aten\u00e7\u00e3o para os efeitos sugestivos da palavra e para o modo como esses efeitos dependem da \u201cpersonalidade do m\u00e9dico\u201d. Essas considera\u00e7\u00f5es podem ser vistas como ponto de partida para as suas elabora\u00e7\u00f5es posteriores a respeito da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica e tamb\u00e9m da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 o que Lacan (1971-72\/2012, p. 217) ir\u00e1 assinalar em seu Semin\u00e1rio 19 \u2013 mas n\u00e3o apenas ali \u2013, de que \u201co que se produz ao n\u00edvel do corpo tem a ver com o que se articula pelo discurso\u201d. Em \u201cConsidera\u00e7\u00f5es sobre a histeria\u201d, confer\u00eancia pronunciada ap\u00f3s o Semin\u00e1rio <em>O sinthoma<\/em>, Lacan (1977\/2007, p. 20) ir\u00e1 mais adiante, ao afirmar que n\u00e3o apenas \u201cas palavras fazem corpo\u201d, mas que \u201co uso das palavras numa esp\u00e9cie que tem as palavras \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o\u201d impacta sobre \u201ca sexualidade que reina nessa esp\u00e9cie\u201d, com consequ\u00eancias sobre sua pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o, uma vez que a sexualidade \u201cest\u00e1 inteiramente tomada nessas palavras\u201d.<\/p>\n<p>O estatuto da palavra<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 apenas o estatuto do corpo que ser\u00e1 interrogado a partir da psican\u00e1lise, mas tamb\u00e9m o estatuto da palavra. A men\u00e7\u00e3o, por Freud, de um \u201cpoder m\u00e1gico\u201d das palavras \u00e9 o ponto de partida para uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es sobre os seus efeitos sobre o ser falante. Se, no in\u00edcio, o destaque recai sobre os efeitos de sugest\u00e3o, ser\u00e1 na dimens\u00e3o simb\u00f3lica do sentido que Freud ir\u00e1 apoiar n\u00e3o apenas sua no\u00e7\u00e3o de inconsciente, como tamb\u00e9m de interpreta\u00e7\u00e3o. Sabemos que, por meio do recurso \u00e0 lingu\u00edstica, Lacan ir\u00e1 aprofundar e reorientar a investiga\u00e7\u00e3o sobre os efeitos da palavra, na perspectiva de localizar sua incid\u00eancia na cl\u00ednica, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o a uma conflu\u00eancia entre o gozo e o sentido (<em>j\u00b4oui sense<\/em>). Mas ser\u00e1 a partir do que a cl\u00ednica revela de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que n\u00e3o conflui com o sentido e nem se dissolve a partir da interpreta\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica que Lacan ir\u00e1 considerar os efeitos da palavra sobre os corpos para al\u00e9m da dimens\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o. \u00c9 por essa via que surgem as refer\u00eancias de Lacan \u00e0 palavra n\u00e3o tanto como efeito da combinat\u00f3ria de significantes, mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua materialidade.\u00a0 \u00c9 nesse novo contexto que a palavra, ou a fala, s\u00e3o tomadas, por exemplo, como um \u201cparasita\u201d que assola o falasser.\u00a0 Cito: \u201cA quest\u00e3o \u00e9 antes saber por que um homem dito \u2018normal\u2019 n\u00e3o percebe que a fala \u00e9 um parasita, que a fala \u00e9 uma excresc\u00eancia, que a fala \u00e9 a forma de c\u00e2ncer pela qual o ser humano \u00e9 afligido\u201d (1975-76\/2007, p. 92). Esse car\u00e1ter parasit\u00e1rio da fala a desloca de seu aspecto puramente lingu\u00edstico para conferir-lhe subst\u00e2ncia de ser vivo que interage \u2013 por exemplo, como hospedeiro \u2013 com outro ser vivo. Encontramos aqui uma inflex\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de um corpo tomado pelo discurso, uma vez que, entre corpo e discurso, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o material e vivente. \u00c9 o que justifica o neologismo lacaniano \u2013 <em>mot\u00e9rialisme<\/em>, um materialismo da palavra \u2013 mencionado na \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d, materialismo esse que est\u00e1 implicado na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do sintoma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">\u00c9, se me permitem empregar, pela primeira vez, esse termo, nesse <em>mot\u00e9rialisme<\/em> que reside a tomada do inconsciente [<em>la prise de l\u00b4inconscient<\/em>] \u2013 quero dizer, que o que faz com que cada um n\u00e3o tenha encontrado outros modos de se sustentar a n\u00e3o ser atrav\u00e9s do que chamei h\u00e1 pouco de sintoma. (LACAN, 1975\/1998, p. 8)<\/p>\n<p>O corpo como Outro<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel acompanhar o longo e sinuoso percurso de Lacan visando conferir um estatuto do corpo para al\u00e9m da refer\u00eancia ao organismo, refer\u00eancia essa insuficiente para se considerar o que se revela na cl\u00ednica. Um ponto em comum em todas as elabora\u00e7\u00f5es de Lacan a esse respeito \u00e9 que, para ele, o corpo, enquanto unidade, \u00e9 sempre da ordem do outro, nunca algo imanente ao ser falante. O ponto de partida, como sabemos, \u00e9 a apreens\u00e3o do corpo como imagem do Est\u00e1dio do Espelho, atrav\u00e9s do qual o sujeito encontraria um suporte para ter uma ideia de si como unidade corporal. Trata-se, aqui, do corpo tomado fundamentalmente como forma, de onde deriva um gozo de sua imagem especular. Essa unidade corporal \u2013 sempre problem\u00e1tica \u2013 ser\u00e1 ressignificada a partir da introdu\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de objeto <em>a<\/em>. O corpo fragmentado \u2013 ponto de partida de toda considera\u00e7\u00e3o sobre o corpo \u2013 ser\u00e1 lido na perspectiva de uma \u201cdesordem dos pequenos <em>a<\/em>\u201d (LACAN, 1962-63\/2005, p. 132) e ser\u00e1 por meio de artif\u00edcios que uma unidade corporal poder\u00e1 ser concebida. Lembramos aqui a refer\u00eancia ao Esquema \u00d3tico como um desses aparatos, constitu\u00eddo de espelhos planos e convexos, vasos e flores, de modo a situar o olhar numa posi\u00e7\u00e3o precisa para que se possa ter uma imagem do corpo como unidade aparentemente homog\u00eanea. Toda dificuldade se funda sobre o fato de que, como dir\u00e1 Lacan (1962-63\/2005, p. 134), \u201c\u00e9 a pr\u00f3pria estrutura desses objetos, que os torna impr\u00f3prios para a egoiza\u00e7\u00e3o (<em>mo\u00efsation<\/em>)\u201d. Em outras palavras, toda ideia de si como corpo apoiada sobre a imagem especular deixar\u00e1 uma opacidade, deixar\u00e1 um resto n\u00e3o represent\u00e1vel na imagem refletida, e que ser\u00e1 pass\u00edvel de reativar-se nos encontros com o real.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o \u00faltimo ensino de Lacan convoca uma nova refer\u00eancia para se pensar o estatuto do corpo, ou seja, a de se considerar o corpo a partir do gozo, mais precisamente como subst\u00e2ncia de gozo. N\u00e3o se trata aqui do corpo pensado a partir de uma rela\u00e7\u00e3o, o que implicaria um Outro, seja ele imagem ou s\u00edmbolo, mas um corpo considerado a partir de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia enquanto subst\u00e2ncia. Trata-se aqui de um corpo que goza de si pr\u00f3prio, como \u201cuma boca que pudesse beijar a si mesma\u201d, para evocar uma imagem freudiana dos \u201cTr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade\u201d. Em outras palavras, trata-se de um corpo de gozo que n\u00e3o se produz a partir de uma rela\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o est\u00e1 referido ao Outro, nem mesmo ao Outro sexual. O paradigma cl\u00ednico dessa modalidade de gozo \u00e9 o que Freud designou como sendo os restos sintom\u00e1ticos \u2013 restos pois n\u00e3o se dissolvem por meio da interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica quando esta opera pela via do sentido. \u00c9 uma modalidade de gozo n\u00e3o sens\u00edvel ao sentido das palavras ou, como dir\u00e1 Lacan, trata-se de um gozo opaco ao sentido. Tomando-se esse gozo como refer\u00eancia, n\u00e3o se trata de procurar dissolv\u00ea-lo em nome de uma suposta homeostase, mas de reduzi-lo, de localiz\u00e1-lo, de depur\u00e1-lo de seu suporte fantasm\u00e1tico para que novas formas de se haver com ele sejam poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Dar corpo ao gozo<\/p>\n<p>Se, por um lado, o ponto de partida \u00e9 um corpo que goza de si mesmo, quais seriam as condi\u00e7\u00f5es para esse gozo?\u00a0 H\u00e1 aqui uma invers\u00e3o de perspectiva, quando nos perguntamos sobre o que d\u00e1 corpo ao gozo. Se, em Freud, a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional estaria associada a uma mensagem cifrada, e mesmo se, em Lacan, num primeiro momento, as rela\u00e7\u00f5es entre o gozo e o sentido podem ser inscritas em termos de significa\u00e7\u00e3o, uma outra leitura vem \u00e0 tona quando se constata que o gozo \u00e9 impens\u00e1vel sem algo que lhe d\u00ea corpo. Lacan, a certa altura de seu ensino, considera o falo como paradigma do que d\u00e1 corpo ao gozo, ou seja, de um corpo que goza, na medida em que \u00e9 corporificado pelo significante. No Semin\u00e1rio 23, Lacan (1975-76\/2007, p. 16) nos apresenta uma outra perspectiva sobre o gozo f\u00e1lico. O falo \u00e9 aqui referido como sendo a conjun\u00e7\u00e3o entre o corpo \u2013 desse \u201cpedacinho de pau\u201d \u2013 e a fun\u00e7\u00e3o da fala.\u00a0 O \u201cgozo dito f\u00e1lico\u201d \u2013 a express\u00e3o \u00e9 de Lacan, e sabemos que todas as vezes que ele adjetiva um termo com o \u201cdito\u201d, ele expressa alguma reserva em rela\u00e7\u00e3o ao seu uso corrente \u2013 enfim, o gozo dito f\u00e1lico se define a partir do enlace entre o simb\u00f3lico e o real. Trata-se de um gozo negativado pelo significante, distinto, por exemplo, do gozo peniano, que, para Lacan, prov\u00e9m do Imagin\u00e1rio, do gozo da imagem especular do corpo. No entanto, uma nova rela\u00e7\u00e3o entre o falo e o real \u00e9 apresentada nesse Semin\u00e1rio, a partir, inclusive, da quest\u00e3o levantada por Lacan (1975-76\/2007, p. 134) sobre a possibilidade de o falo ser um suporte suficiente para o gozo.\u00a0 Ser\u00e1 a partir dessa interroga\u00e7\u00e3o \u2013 antecipada em outros momentos do seu ensino \u2013 que suas considera\u00e7\u00f5es sobre gozo feminino ganham uma nova leitura e reorientam a pr\u00e1tica anal\u00edtica. Como, por exemplo, considerar uma outra fun\u00e7\u00e3o para o falo, n\u00e3o a da significa\u00e7\u00e3o, mas a da verifica\u00e7\u00e3o, como o que permite dar valor de verdade ao que emerge do real.<\/p>\n<p>O corpo como superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Se consideramos o corpo como aquilo que goza de si mesmo, \u00e9 preciso levar em considera\u00e7\u00e3o, antes de mais nada, que se trata de um corpo marcado pelo significante.\u00a0 Em outras palavras, s\u00f3 haveria gozo do corpo, propriamente dito, a partir da incid\u00eancia do significante. \u00c9 o que, a meu ver, justifica as elabora\u00e7\u00f5es de Lacan sobre o corpo como superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o. Caberia perguntar se, numa era em que se evidencia cada vez mais a inexist\u00eancia do Outro, as marcas, as cicatrizes, as perfura\u00e7\u00f5es, as tatuagens, ou mesmo os procedimentos cir\u00fargicos de toda ordem, inclusive os de redesigna\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o teriam por horizonte fazer do corpo um corpo de gozo. Todos esses procedimentos (obviamente a serem considerados caso a caso) parecem vir em supl\u00eancia a um modo espec\u00edfico de inscri\u00e7\u00e3o corporal, ao qual Freud deu o nome de castra\u00e7\u00e3o \u2013 entendida aqui como marca de uma subtra\u00e7\u00e3o, com valor de delimita\u00e7\u00e3o do gozo do corpo, ao mesmo tempo em que se produz um excedente de gozo referido justamente a essa marca.<\/p>\n<p>A realidade dos transplantes<\/p>\n<p>Gostaria de fazer uma refer\u00eancia a um procedimento que vem se instaurando como uma realidade da vida contempor\u00e2nea. Me refiro aqui a um momento em que, com o recurso da ci\u00eancia e das novas t\u00e9cnicas da medicina, inaugura-se a era dos transplantes. A no\u00e7\u00e3o de transplante pode ser entendida num sentido amplo, a saber: aquilo que, como ser vivo, estava num lugar e \u00e9 transplantado para outro lugar. Em sua dimens\u00e3o corporal, os transplantes dizem respeito n\u00e3o apenas aos \u00f3rg\u00e3os do corpo, mas tamb\u00e9m aos seus produtos e materiais, como o sangue, por exemplo.<\/p>\n<p>As elabora\u00e7\u00f5es de Lacan a respeito do objeto <em>a<\/em> no Semin\u00e1rio 10 nos permitem fazer uma leitura do que se passa ao n\u00edvel dos transplantes. Se, num primeiro momento, o objeto <em>a<\/em> \u00e9 referido aos objetos naturais do corpo (como, por exemplo, o seio), Lacan observa que esses objetos tamb\u00e9m podem ser objetos fabricados (como, por exemplo, a mamadeira). Nesse \u00faltimo caso, s\u00e3o objetos pass\u00edveis de serem estocados, armazenados, e mesmo colocados em circula\u00e7\u00e3o. Um aspecto determinante dos objetos <em>a<\/em>, sejam os naturais, sejam os fabricados, \u00e9 o seu car\u00e1ter de objeto ced\u00edvel, pass\u00edveis portanto de serem separados, destacados do corpo. Para Lacan, a partir da pr\u00e1tica dos transplantes, a presen\u00e7a desses objetos do corpo, enquanto objetos capazes de serem cedidos, sinalizam um novo per\u00edodo da hist\u00f3ria humana e de seus produtos. Cito aqui uma passagem do Semin\u00e1rio 10, que compreende os anos de 1962 e 63, portanto ainda nos prim\u00f3rdios dos primeiros transplantes de \u00f3rg\u00e3os:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel deixar de evocar, neste momento, no extremo dessas manifesta\u00e7\u00f5es, os problemas que nos ser\u00e3o colocados, inclusive na mais radical essencialidade do sujeito, pela amplia\u00e7\u00e3o iminente, prov\u00e1vel, j\u00e1 iniciada [&#8230;] da realidade dos transplantes [<em>greffe<\/em>, \u201cenxertos\u201d] de \u00f3rg\u00e3os. (LACAN, 1962-63\/2005, p. 341)<\/p>\n<p>Se hoje essa realidade n\u00e3o nos surpreende, Lacan, \u00e0quela altura de seu ensino, n\u00e3o deixa de manifestar sua perplexidade e mesmo seu assombro, chegando a se perguntar at\u00e9 que ponto conv\u00e9m consentir, por exemplo, com a perspectiva de uma \u201cmanuten\u00e7\u00e3o artificial de alguns sujeitos num estado que j\u00e1 n\u00e3o saberemos se \u00e9 vida ou se \u00e9 morte\u201d (LACAN, 1962-63\/2005, p. 341). Para Lacan (1962-63\/2005, p. 342), essa nova realidade sinaliza a emerg\u00eancia \u201cno real\u201d de algo pr\u00f3prio para \u201cdespertar, em termos totalmente novos, a quest\u00e3o da essencialidade da pessoa e daquilo a que ela se prende\u201d. Vemos claramente se produzir uma perturba\u00e7\u00e3o na ordem simb\u00f3lica e a necessidade de uma completa redefini\u00e7\u00e3o jur\u00eddica no momento em que \u201co antigo suporte som\u00e1tico da identidade\u201d, como, por exemplo, a no\u00e7\u00e3o de \u201cpessoa f\u00edsica\u201d, \u00e9 questionado a partir de sua base som\u00e1tica.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o subjetiva dessa nova realidade se manifesta na forma de diversos testemunhos. A meu ver, dois deles se destacam, ambos de pessoas que passaram por transplantes do cora\u00e7\u00e3o. De um lado, o fil\u00f3sofo Jean-Luc Nancy (2006), que em seu livro <em>O intruso<\/em> resume a sua experi\u00eancia com o transplante como a \u201cpassagem de uma nova estranheza\u201d. A presen\u00e7a, em seu corpo, do \u00f3rg\u00e3o de uma outra pessoa d\u00e1 lugar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de \u201cum ego estranho, ao mesmo tempo aberto e fechado\u201d. De outro lado, o escritor Jos\u00e9 Maria Can\u00e7ado, professor da PUC-MG, autor de <em>O transplante \u00e9 um bai\u00e3o de dois<\/em>, no qual faz a op\u00e7\u00e3o de dar o seu testemunho em verso, mais apropriado, segundo ele, para lidar com o desconhecido e com o que n\u00e3o tem sentido. Ele captura assim a experi\u00eancia pela qual iniciou a travessia: \u201cNome nenhum&#8230; nenhum nome \/ nem o meu&#8230; nem o seu\/ neste cora\u00e7\u00e3o\/ nem desin\u00eancia&#8230; nasceu \/ nessa composi\u00e7\u00e3o\/ \u00c9 uma trupe desconhecida\/ que se formou nessa migra\u00e7\u00e3o\u201d (CAN\u00c7ADO, 2005, p. 9).<\/p>\n<p>A evapora\u00e7\u00e3o dos corpos<\/p>\n<p>Nos perguntamos os efeitos da \u201cevapora\u00e7\u00e3o do pai\u201d no mundo contempor\u00e2neo, conforme a leitura de Miller (2024a), tamb\u00e9m n\u00e3o estariam sendo acompanhados por uma reconfigura\u00e7\u00e3o da consist\u00eancia dos corpos, n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o aos la\u00e7os sociais \u2013 interagimos hoje mais com pessoas cujos corpos n\u00e3o est\u00e3o presentes \u2013 mas tamb\u00e9m em sua dimens\u00e3o cl\u00ednica. Esse aspecto foi examinado por Didier Sicard, que, em seu livro <em>A medicina sem o corpo<\/em> (<em>La m\u00e9decine sans le corps<\/em>), chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de o m\u00e9dico hoje estar se convertendo cada vez mais num leitor de imagens do corpo, deixando em segundo plano, quando n\u00e3o ignorando, o exame cl\u00ednico a partir do encontro dos corpos.\u00a0 Nesse contexto, ganha toda relev\u00e2ncia o modo como Lacan (1971-72\/2012, p. 220), na \u00faltima li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 19, evoca a escans\u00e3o das entrevistas preliminares como sendo um momento de \u201cconfronta\u00e7\u00e3o de corpos\u201d, como um dado preliminar \u00e0 entrada no discurso anal\u00edtico. E ser\u00e1 justamente a partir do discurso anal\u00edtico que ser\u00e1 poss\u00edvel aferir o modo como o discurso do mestre molda e afeta os corpos.<\/p>\n<p>O corpo considerado a partir de sua consist\u00eancia e de suas bordas<\/p>\n<p>Dois aspectos fundamentais surgem aqui, a meu ver, na considera\u00e7\u00e3o do corpo a partir do discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>De um lado, diante do car\u00e1ter problem\u00e1tico da unidade corporal \u2013 que Lacan assinala, no Semin\u00e1rio 23, como a tend\u00eancia do corpo em sair fora \u2013 surge a quest\u00e3o relativa \u00e0 consist\u00eancia corporal, a saber, sobre o que manteria juntos os elementos do corpo, diante do car\u00e1ter dispersivo do corpo libidinal. Uma primeira resposta de Lacan \u00e9 que essa consist\u00eancia se apoia sobre a rela\u00e7\u00e3o com a imagem do pr\u00f3prio corpo, ou do corpo de um outro, o que confere a esse corpo a sua \u201cunidade mental\u201d (MILLER, 2012, p. 131). \u00a0Por outro lado, essa consist\u00eancia tamb\u00e9m pode ser pensada ao n\u00edvel do simb\u00f3lico, do corpo como m\u00e1quina, sistema, organismo articulado. \u00c9, inclusive, pela via de uma consist\u00eancia simb\u00f3lica do corpo que E. Kantorowicz, em seu livro <em>O corpo duplo do rei<\/em>, apresenta a distin\u00e7\u00e3o na teologia pol\u00edtica medieval entre o corpo f\u00edsico e o corpo m\u00edstico do rei, o primeiro como corpo limitado, perec\u00edvel, e o segundo como corpo \u201cimortal\u201d que se propaga pela eternidade e que se transmite ao longo das gera\u00e7\u00f5es. Essa distin\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica n\u00e3o deixa de ser o fundamento para todo funcionamento institucional.<\/p>\n<p>As elabora\u00e7\u00f5es de Lacan ao final do Semin\u00e1rio 23 a respeito do ego de Joyce tamb\u00e9m podem ser lidas na perspectiva de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a consist\u00eancia corporal. A defini\u00e7\u00e3o de ego ali presente \u2013 como a ideia que algu\u00e9m faz de si como corpo \u2013 interroga a consist\u00eancia corporal em situa\u00e7\u00f5es, como a de Joyce, nas quais essa consist\u00eancia n\u00e3o parece apoiar-se sobre uma rela\u00e7\u00e3o com a imagem do pr\u00f3prio corpo. Para se ter uma ideia de si como corpo, \u00e9 necess\u00e1rio que esse corpo tenha, antes de mais nada, uma consist\u00eancia, consist\u00eancia mental, dir\u00e1 Lacan, que \u00e9 o que, no fundo, permite a algu\u00e9m ter rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio corpo. E, para se ter uma rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio corpo, ele deve ser experimentado como alteridade. Para Lacan, seguindo a pista do Semin\u00e1rio 23, o paradigma dessa rela\u00e7\u00e3o com o corpo \u00e9 a sua adora\u00e7\u00e3o, adora\u00e7\u00e3o essa que pode adquirir formas variadas, mas invariavelmente associada a uma rela\u00e7\u00e3o com a imagem do pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>Bordas do corpo<\/p>\n<p>Em meio \u00e0s considera\u00e7\u00f5es sobre os aspectos implicados na constitui\u00e7\u00e3o da consist\u00eancia corporal \u2013 incluindo-se a\u00ed o sintoma como um elemento determinante dessa consist\u00eancia \u2013, Lacan ir\u00e1 assinalar que a consist\u00eancia \u00e9 algo a ser pensado em termos de superf\u00edcie. Nesse Semin\u00e1rio, ele define a superf\u00edcie como sendo a forma \u201ca mais desprovida de sentido do que, entretanto, se imagina\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 63). Esse aspecto ser\u00e1 determinante para se considerar o corpo como refer\u00eancia de onde procede nossa rela\u00e7\u00e3o com o imagin\u00e1rio. Em \u201cO fen\u00f4meno lacaniano\u201d, confer\u00eancia dada por Lacan em 1974, ao comentar a express\u00e3o \u201cama a ti mesmo\u201d, presente no mandamento \u201cama a teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d, ele afirma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\">o homem \u2013 e foi a\u00ed que tentei fazer meu primeiro trilhamento \u2013 ama a sua imagem como aquilo que lhe \u00e9 mais pr\u00f3ximo, isto \u00e9, seu corpo. Simplesmente, de seu corpo, ele n\u00e3o tem estritamente nenhuma ideia. Ele cr\u00ea que seja \u201ceu\u201d [<em>moi<\/em>]. Cada um cr\u00ea ser ele mesmo. \u00c9 um furo [<em>trou<\/em>]. E depois, do lado de fora, h\u00e1 a imagem. E com essa imagem, ele faz o mundo. (LACAN, 1974\/2014, p. 18)<\/p>\n<p>Vemos aqui que o corpo \u00e9 pensado em termos de superf\u00edcie e furo, o que justifica o recurso \u00e0 topologia uma vez constatada a insufici\u00eancia de se considerar o corpo a partir de sua imagem no espelho.<\/p>\n<p>Tomar o corpo como cruzamento espacial de furos e superf\u00edcies no qual o gozo encontraria suporte n\u00e3o \u00e9 da mesma ordem que o pensar como forma, silhueta ou sombra.<\/p>\n<p>\u00c9 por essa via topol\u00f3gica que surge a figura da borda, como o que designa a possibilidade de diferentes conforma\u00e7\u00f5es a partir da zona limite entre o furo e a superf\u00edcie. Sabemos da import\u00e2ncia da considera\u00e7\u00e3o pela borda, por exemplo, na cl\u00ednica do autismo. \u00c9ric Laurent (2014, p. 80) prop\u00f5e, inclusive, a hip\u00f3tese de uma \u201cforaclus\u00e3o do furo\u201d para indicar o que, em alguns casos, se revela como consequ\u00eancia da aus\u00eancia de delimita\u00e7\u00e3o de uma borda para conferir consist\u00eancia ao furo.<\/p>\n<p>Sem entrar na vertente do diagn\u00f3stico, h\u00e1 algo de um tratamento da rela\u00e7\u00e3o com o corpo em termos de borda que encontramos na vida e na obra de Santos Dumont. \u00c9 como se para ele houvesse uma necessidade de se liberar do peso do seu corpo. O sujeito construtor de bal\u00f5es, aquele que conseguiu torna-los dirig\u00edveis, que foi capaz de fazer uma m\u00e1quina mais pesada que o ar levantar voo, n\u00e3o por acaso inclui seu corpo em todos esses inventos. \u00c9 seu corpo que est\u00e1 presente em cada um deles, \u00e9 ele quem se levanta do ch\u00e3o junto com suas inven\u00e7\u00f5es \u2013 como se estivesse movido pela necessidade de tra\u00e7ar uma borda para incluir um vazio, tra\u00e7ar um furo na rela\u00e7\u00e3o entre seu corpo e o mundo. Sua primeira inven\u00e7\u00e3o, como ele mesmo relata, foi a de dependurar um triciclo a petr\u00f3leo nos galhos de uma \u00e1rvore, suspendendo-o a alguns cent\u00edmetros do ch\u00e3o. Cito: \u201c\u00c9 dif\u00edcil explicar meu contentamento ao verificar que, ao contr\u00e1rio do que se dava em terra, o motor do meu triciclo vibrava t\u00e3o agradavelmente que quase parecia parado. Nesse dia come\u00e7ou minha vida de inventor\u201d (SANTOS-DUMONT, 1918\/2015, p. 7).\u00a0 Em outro momento, justificando a constru\u00e7\u00e3o de mesas e cadeiras de sua casa com pernas de 2 m de altura, ele assim ir\u00e1 justificar: \u201cAdoro as alturas. Necessito sentir-me no ar. [&#8230;] N\u00e3o fa\u00e7o nada, n\u00e3o valho nada, nem posso fazer nada quando estou no ch\u00e3o.\u201d<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Do Outro como discurso ao Outro como corpo<\/p>\n<p>Um momento significativo do ensino de Lacan pode ser localizado no Semin\u00e1rio 14, <em>A l\u00f3gica do fantasma<\/em>, em que o estatuto do Outro como tesouro dos significantes, do Outro articulado como discurso, esse Outro come\u00e7a a ter a sua natureza interrogada. No cap\u00edtulo XVI desse Semin\u00e1rio \u2013 \u201cO Outro \u00e9 o corpo\u201d \u2013, Lacan faz uma pergunta que parece demarcar uma nova perspectiva. N\u00e3o se trata de uma pergunta sobre o lugar do Outro, mas sobre sua subst\u00e2ncia. O que seria considerar o Outro como subst\u00e2ncia, como corpo e, por consequ\u00eancia, pensado a partir do volume, submetido \u00e0s leis do movimento e, fundamentalmente, como superf\u00edcie de inscri\u00e7\u00e3o? Cito: \u201co corpo, nossa presen\u00e7a de corpo animal, \u00e9 o primeiro lugar onde colocar as inscri\u00e7\u00f5es\u201d (LACAN, 1966-67\/2023, p. 328, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Se, mais adiante, a superf\u00edcie corporal ser\u00e1 pensada em termos de consist\u00eancia e furo, aqui o corpo enquanto subst\u00e2ncia \u00e9, antes de tudo, um corpo marcado. A marca corporal, como efeito do primeiro significante sobre esse corpo, n\u00e3o \u00e9 a ferida produzida, mas o que da\u00ed se produz como cicatriz, como met\u00e1fora de um corpo marcado.<\/p>\n<p>Um testemunho de passe<\/p>\n<p>Essa perspectiva de um corpo como Outro, marcado pela incid\u00eancia do significante, ser\u00e1 o fundamento, a meu ver, para o que Lacan assinala como sendo um \u201cacontecimento de corpo\u201d, que seria, em \u00faltima an\u00e1lise, o n\u00facleo do sinthoma.<\/p>\n<p>A incid\u00eancia da l\u00edngua sobre o corpo, experimentada como evento traum\u00e1tico, inscreve uma descontinuidade, define um antes e um depois e \u00e9 o que permite a constitui\u00e7\u00e3o do falasser. Trata-se de um acontecimento no qual, para usar uma imagem evocada por Lacan, a l\u00edngua morde o corpo, fixando a\u00ed um gozo de uma vez por todas. O significante aqui n\u00e3o \u00e9 causa do sujeito do discurso, mas causa de gozo, experimentado ao n\u00edvel do corpo como \u201cinstante de encarna\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER, 2011, p. 103).<\/p>\n<p>Um testemunho de passe de nossa colega Carolina Koretzky (2024), da ECF, seguido dos coment\u00e1rios de Deborah Gutermann-Jacquet (2024) e de Jacques-Alain Miller (2024b), nos ajudam a esclarecer a no\u00e7\u00e3o de acontecimento de corpo e sua passagem ao sinthoma, bem como a sua rela\u00e7\u00e3o com o desejo do analista. Em seu testemunho, Carolina faz refer\u00eancia a um sintoma corporal persistente, um eczema nas m\u00e3os, que sempre resistiu \u00e0s an\u00e1lises anteriores. Esse sintoma aparece na adolesc\u00eancia, por ocasi\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o dos seus pais. No conflito entre os pais, o eczema \u00e9 a justificativa da qual ela se serve para n\u00e3o \u201cdar uma m\u00e3o ao pai\u201d, num momento de sua fal\u00eancia. Ser\u00e1 a partir de uma interpreta\u00e7\u00e3o do analista que esse sintoma ir\u00e1 desaparecer, dir\u00e1 ela, \u201cradical e definitivamente\u201d. Podemos pensar que o desaparecimento \u201cradical e definitivo\u201d do sintoma \u00e9 o sonho de qualquer analisante no momento em que busca uma an\u00e1lise. A remiss\u00e3o do sintoma pode, inclusive, ser para um analisante um crit\u00e9rio de final de an\u00e1lise, ou seja, de s\u00f3 considerar sua an\u00e1lise conclu\u00edda quando o seu sintoma cessar. Ainda que eventualmente isso possa acontecer, chama a aten\u00e7\u00e3o, nos coment\u00e1rios de Miller, a \u00eanfase que ele d\u00e1, no caso de Carolina, sobre um outro sintoma, n\u00e3o menos corporal, produzido a partir de uma frase de sua m\u00e3e a respeito do seu nascimento. Num momento de urg\u00eancia que antecedeu o seu parto, sua m\u00e3e lhe conta o que ocorreu: \u201cEu fiquei falando com voc\u00ea a noite toda e voc\u00ea quis viver\u201d. \u00c9 daqui que procede o seu sintoma anal\u00edtico, a saber, o de ser uma pessoa determinada, obstinada [<em>s\u00b4acharner<\/em>] na rela\u00e7\u00e3o com o Outro, sobretudo quando se trata de fazer o Outro falar. Essa determina\u00e7\u00e3o, essa obstina\u00e7\u00e3o, se manifesta em sua vida em diversas situa\u00e7\u00f5es. No in\u00edcio, est\u00e1 associada a uma hiperatividade, fonte inclusive de problemas escolares, ou seja, a sua impossibilidade de ficar sentada, de deixar seu corpo permanecer num \u00fanico lugar. Por outro lado, essa determina\u00e7\u00e3o a colocava num estado de estar sempre pronta para partir diante do que lhe soasse como uma amea\u00e7a, inclusive em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demandas amorosas. Isso tamb\u00e9m se refletia em sua pr\u00e1tica anal\u00edtica, como em sua obstina\u00e7\u00e3o em fazer os analisantes sa\u00edrem de seu eventual sil\u00eancio, que ela traduz em termos de uma voracidade em provocar uma palavra.<\/p>\n<p>Em seu coment\u00e1rio, Miller observa que, numa experi\u00eancia anal\u00edtica, a visada n\u00e3o \u00e9 a de provocar uma poss\u00edvel cessa\u00e7\u00e3o do sintoma \u2013 motivo para todos os excessos de um <em>furor curandis<\/em> \u2013, mas de se considerar o que, do sintoma, numa an\u00e1lise, est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com o que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. Sabemos que a express\u00e3o \u201crestos sintom\u00e1ticos\u201d prov\u00e9m de Freud, como aquilo que, ao final da an\u00e1lise, permanece como elemento ativo do sintoma, como o que dele n\u00e3o se dissolve uma vez encontrados seus circuitos e suas raz\u00f5es. A no\u00e7\u00e3o de resto, como itera\u00e7\u00e3o do gozo, pode dar uma conota\u00e7\u00e3o de fracasso da an\u00e1lise, como se s\u00f3 restasse ao analisante a resigna\u00e7\u00e3o ou o protesto. \u00c9 aqui que uma an\u00e1lise revela que, no trato com o real, o que se exige est\u00e1 para al\u00e9m da terap\u00eautica, uma vez tendo sido franqueadas as identifica\u00e7\u00f5es e criadas as condi\u00e7\u00f5es para que o falasser possa destacar-se do seu fantasma fundamental.<\/p>\n<p>A pergunta de uma an\u00e1lise \u00e9 a de saber como esse resto, num primeiro momento associado a um tormento, pode elevar-se \u00e0 dignidade de um sinthoma. Como a pr\u00e1tica anal\u00edtica permite a algu\u00e9m, tomado por uma hiperatividade \u2013 como no caso de Carolina, que n\u00e3o conseguia fazer seu corpo ficar parado num \u00fanico local \u2013, consentir, como analista, a ficar no seu lugar? Como estabelecer uma nova alian\u00e7a entre sua determina\u00e7\u00e3o e o sil\u00eancio do Outro, quando esse sil\u00eancio deixa de ter uma conota\u00e7\u00e3o mort\u00edfera?<\/p>\n<p>Vemos aqui como o desejo do analista n\u00e3o \u00e9 algo que surge de forma desconectada do sintoma, mas que corresponde a um outro modo de se haver com ele, no mais das vezes como condi\u00e7\u00e3o vital para aquele que escolheu tornar-se analista. N\u00e3o deixa de ser surpreendente a observa\u00e7\u00e3o de Miller de que, ao menos no caso de Carolina, praticar a psican\u00e1lise segue sendo uma forma de tratar seu sintoma, de lidar com o que, em sua experi\u00eancia, se revelou como um gozo que se reitera e que n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de negativar. E, podemos pensar que o estilo, como marca pr\u00f3pria de um analista, decorre exatamente dos modos que ele encontra para lidar com o real, modos esses orientados pelo que ele pode extrair de sua experi\u00eancia como analisante.<\/p>\n<p>Miller finaliza seu coment\u00e1rio com um verso do poeta Paul Verlaine, extra\u00eddo do poema \u201cMeu sonho de fam\u00edlia\u201d, que me permito retomar aqui, como figura do que eu chamaria de \u201cmod\u00e9stia anal\u00edtica\u201d, quando, ao final da experi\u00eancia de an\u00e1lise, podemos reconhecer que \u201cn\u00e3o se sai exatamente o mesmo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se sai completamente outro\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h5><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>CAN\u00c7ADO, J. M. <em>O transplante \u00e9 um bai\u00e3o de dois<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum, 2005.<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>FREUD, S. O tratamento ps\u00edquico (ou an\u00edmico). In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. VII, 1996. (Trabalho original publicado em 1896).<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>GUTERMAN-JACQUET, D. Trois questions. <em>La cause du d\u00e9sir. Revue de Psychanalyse<\/em><\/strong><strong>, n. 116, p. 209-211, 2024.<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>KORETZKY, C. Partir\/Arriv\u00e9es.<em> La cause du d\u00e9sir. Revue de Psychanalyse<\/em><\/strong><strong>, n. 116, p. 198-208, 2024.<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>LACAN, J. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 23, p. 6-16, dez. 1998. (Trabalho original proferido em 1975).<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 10<\/em>: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1962-63).<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>LACAN, J. Considera\u00e7\u00f5es sobre a histeria. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 50, p. 17-22, 2007. (Trabalho original proferido em 1977).<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012. (Trabalho original proferido em 1971-72).<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>LACAN, J. O fen\u00f4meno lacaniano. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 68-69, 2014. (Trabalho original proferido em 1974).<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>LACAN, J. <em>Le S\u00e9minaire, Livre XIV<\/em>: La Logique du fantasme. Paris: Seuil &amp; Champ Freudien, 2023. (Trabalho original proferido em 1966-67)<\/strong><strong>.<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>LAURENT, \u00c9. <em>A batalha do autismo<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2014. <\/strong><\/h5>\n<h5><strong>MILLER, J.-A. <em>Sutilezas anal\u00edticas. Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>MILLER, J-A. Parler avec son corps. <em>Mental \u2013 Revue Internationale de Psychanalyse<\/em>, n. 27-28,\u00a0 2012.<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>MILLER, J-A.\u00a0O pai tornado vapor. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 88, p. 18-21, abr. 2024a.<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>MILLER, J-A.\u00a0<\/strong><strong>Commentaire. <em>La cause du d\u00e9sir. Revue de Psychanalyse<\/em><\/strong><strong>, n. 116, p. 212-214, 2024b.<\/strong><\/h5>\n<h5><strong>NANCY, J.-L. <em>El intruso<\/em>. Buenos Aires\/Madrid: Amorrortu, 2006. <\/strong><\/h5>\n<h5><strong>SANTOS-DUMONT, A. <em>O que eu vi, o que n\u00f3s veremos<\/em>. <\/strong><strong>2015. (Trabalho original publicado em 1918). <\/strong><strong>Dispon\u00edvel em:\u00a0 http:\/\/www.portugues.seed.pr.gov.br\/arquivos\/File\/leit_online\/santos_dumond.pdf. Acesso em\u00a0: 01 set. 2024.<\/strong><\/h5>\n<hr \/>\n<h5><\/h5>\n<h5><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003Confer\u00eancia pronunciada em 12 de agosto de 2024, ocasi\u00e3o da Aula Inaugural do IPSM-MG e da Abertura das atividades da EBP-MG, e em prepara\u00e7\u00e3o para o XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.<\/h5>\n<h5><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u2003 Conforme registro indicativo desse mobili\u00e1rio no Museu Casa de Santos Dumont, Petr\u00f3polis, RJ.<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ram Mandil Psicanalista Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: rmandil.bhe@terra.com.br &nbsp; O tema desta atividade \u2013 \u201cO corpo, esse Outro\u201d, a partir de uma sugest\u00e3o de S\u00e9rgio Laia \u2013 se articula ao tema do XXV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, que ir\u00e1 acontecer&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57654,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40,39],"tags":[],"class_list":["post-3623","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-34","category-trilhamentos","category-40","category-39","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3623","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3623"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3623\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57655,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3623\/revisions\/57655"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3623"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3623"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3623"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}