{"id":3626,"date":"2025-03-10T15:04:54","date_gmt":"2025-03-10T18:04:54","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=3626"},"modified":"2025-12-01T09:43:25","modified_gmt":"2025-12-01T12:43:25","slug":"corpos-palavras-e-restos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2025\/03\/10\/corpos-palavras-e-restos\/","title":{"rendered":"Corpos, palavras e restos"},"content":{"rendered":"<h5><strong><em>Musso Greco<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>Psiquiatra e psicanalista<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>E-mail: mussogreco@gmail.com<\/em><\/strong><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA psican\u00e1lise muda, isso n\u00e3o \u00e9 um desejo, mas um fato\u201d. A frase de Miller, em \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d, no X Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, no Rio, em 2016, situa a perspectiva do Inconsciente para o s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Lacan designou esse novo Inconsciente por meio de um neologismo, <em>parl\u00eatre<\/em>, criado a partir da jun\u00e7\u00e3o de <em>parler<\/em> (falar) e <em>l\u2019\u00eatre<\/em> (ser), que evoca <em>par lettre<\/em>, \u201cpela letra\u201d, aludindo ao elemento real transportado no significante pelo ser falante. Distinto do Inconsciente freudiano, essa entidade tem necessariamente um corpo, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 gozo sem corpo, e equivale \u00e0 puls\u00e3o: o corpo falante fala em termos de puls\u00f5es. Nesse sentido, o Inconsciente e o corpo falante s\u00e3o um \u00fanico e mesmo real. Como fica o manejo do corpo falante nos registros Imagin\u00e1rio, Simb\u00f3lico e Real?<\/p>\n<p>No ensino dos n\u00f3s, a afinidade entre o corpo e o Imagin\u00e1rio \u00e9 reafirmada, uma vez que \u00e9 pela via de sua imagem que o corpo participa da economia do gozo. O Imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo. Lacan, no Semin\u00e1rio 16, fala da imagem especular do corpo como uma imagem equivocada e refrat\u00e1ria \u00e0 apreens\u00e3o do gozo do corpo, referindo-se \u00e0 sua insufici\u00eancia cl\u00ednica para se compatibilizar com os orif\u00edcios do corpo.\u00a0O Imagin\u00e1rio pode ser definido, assim, pela cren\u00e7a de que o ser falante possui um corpo \u2013 ou seja, o Imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo que se acredita existir \u2212, mas o corpo vivo do ser falante \u00e9 evanescente e inconsistente, escapa-lhe a todo o tempo. \u00c9 um corpo que <em>se<\/em>\u00a0goza, goza sozinho, sem fazer la\u00e7o.<\/p>\n<p>E como se engancham Simb\u00f3lico e corpo para Lacan? Sobre esse lugar de inscri\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso distinguir o Um do corpo que se apresenta sob a forma de um indiv\u00edduo, e o Um do significante que se repete. Ao dizer, com Lacan, no Semin\u00e1rio 19, <em>\u201cil y a de l\u2019Un!\u201d,<\/em> se introduz na experi\u00eancia anal\u00edtica o Um, indicando que todo significante traz consigo as marcas do gozo Um, e criando uma nova presen\u00e7a do significante e do corpo. <em>Lalangue <\/em>\u2212 um dos conceitos fundamentais do \u00faltimo ensino de Lacan, que adv\u00e9m do dom\u00ednio onomatopaico e materno, constituindo uma forma de satisfa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o depende da significa\u00e7\u00e3o, sustentada pelo mal-entendido e pela homofonia \u2013 \u00e9 o n\u00f3 necess\u00e1rio entre os tr\u00eas registros respons\u00e1veis pela ordena\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o habitado pelo sujeito. A linguagem, tida como elemento estruturante do Inconsciente, n\u00e3o se resume \u00e0 articula\u00e7\u00e3o significante, S<sub>1<\/sub>-S<sub>2<\/sub>, sendo sustentada por <em>lalangue<\/em>, que d\u00e1 ao Inconsciente outro estatuto, de Inconsciente real. O ultim\u00edssimo ensino de Lacan, segundo Miller, em \u201cOs trumains\u201d, luta contra a inadequa\u00e7\u00e3o do Simb\u00f3lico, que \u00e9 visto por ele como \u201cum fator de confus\u00e3o\u201d: \u201c\u00e9 o significante que faz com que n\u00e3o nos achemos nele\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, diante da evid\u00eancia da n\u00e3o exist\u00eancia da propor\u00e7\u00e3o sexual para o ser falante, percebemos nos discursos uma fala que \u00e9\u00a0simples conjun\u00e7\u00e3o do Um e do corpo, sem Outro, uma fala que n\u00e3o est\u00e1 ligada a um saber, mas a uma satisfa\u00e7\u00e3o, um enxame de S<sub>1<\/sub> \u2013 sem S<sub>2<\/sub> \u2212, sem o que venha significar o Um que comanda o gozo. Assim, somos colocados diante do paradoxo do Um que dialoga sozinho \u2013 por \u201cdialogar\u201d com o Outro que n\u00e3o existe, ou seja, romper com o Outro \u2212, o Um-sozinho, que, para al\u00e9m do fantasma, permanece com os restos sintom\u00e1ticos de um gozo incur\u00e1vel, ininterpret\u00e1vel e sem sentido, sem se ligar a nada. Que restos s\u00e3o esses? Restos de um discurso, letras, tra\u00e7os que desenham o corpo falante, bordas de gozo, sobras das identifica\u00e7\u00f5es, decanta\u00e7\u00f5es&#8230; Dessas pe\u00e7as soltas que tocam o ser de gozo do ser falante, trata-se de buscar o novo, um saber ler de outro modo o que \u00e9 feito de linguagem e furo, o que volta sempre ao mesmo lugar, o Real.<\/p>\n<p>Se a Psican\u00e1lise muda, diante do Inconsciente real e do Um que dialoga sozinho, muda tamb\u00e9m o psicanalista. Este, diferentemente de uma suposi\u00e7\u00e3o de saber, pode ser, hoje, uma manifesta\u00e7\u00e3o do Inconsciente, um lugar que faz la\u00e7o, uma presen\u00e7a que faz aparecer o que est\u00e1 fora, o que \u00e9 obst\u00e1culo, o que se equivoca. Como indica Lacan, no Semin\u00e1rio 11, o psicanalista \u00e9 uma presen\u00e7a \u201cpass\u00edvel de dar corpo ao Inconsciente real\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h5>Refer\u00eancias<\/h5>\n<h5>MILLER, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. In: <em>Scilicet: <\/em>O corpo falante \u2013 Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2016. p. 19-32.<\/h5>\n<h5>MILLER, J.-A. <em>Os trumains<\/em>. Confer\u00eancia realizada no XII Congresso da AMP, 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/articulos.php?sec=el-tema&amp;sub=Trabalhos-de-orientacion&amp;file=el-tema\/Trabalhos-de-orientacion\/20-03-02_los-trumanos.html. Acesso em: 01 ago. 2023.<\/h5>\n<h5>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. (Trabalho original proferido em 1964).<\/h5>\n<h5>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16<\/em>:\u00a0 De um Outro ao outro. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro; prepara\u00e7\u00e3o de texto de Andr\u00e9 Telles; vers\u00e3o final Angelina Harari e J\u00e9sus Santiago. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. (Trabalho original proferido em 1968-69).<\/h5>\n<h5>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro; vers\u00e3o final de Marcus Andr\u00e9 Vieira; prepara\u00e7\u00e3o de texto de Andr\u00e9 Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012. (Trabalho original proferido em 1971-72).<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Musso Greco Psiquiatra e psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: mussogreco@gmail.com &nbsp; \u201cA psican\u00e1lise muda, isso n\u00e3o \u00e9 um desejo, mas um fato\u201d. A frase de Miller, em \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d, no X Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, no Rio, em 2016,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57652,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40,39],"tags":[],"class_list":["post-3626","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-34","category-trilhamentos","category-40","category-39","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3626","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3626"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3626\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57653,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3626\/revisions\/57653"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3626"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3626"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3626"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}