{"id":3629,"date":"2025-03-10T15:06:23","date_gmt":"2025-03-10T18:06:23","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=3629"},"modified":"2025-12-01T09:41:41","modified_gmt":"2025-12-01T12:41:41","slug":"corpos-palavras-e-restos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2025\/03\/10\/corpos-palavras-e-restos-2\/","title":{"rendered":"Corpos, palavras e restos"},"content":{"rendered":"<h5><strong><em>Samyra Assad<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>Psicanalista<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>E-mail: samyra@uai.com.br<\/em><\/strong><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que sustenta a formula\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de que uma experi\u00eancia anal\u00edtica, levada ao seu termo, apresenta restos inanalis\u00e1veis? Essa quest\u00e3o, para ser abordada, nos abriria, a princ\u00edpio, pelo menos tr\u00eas perspectivas:<\/p>\n<p>H\u00e1 algo que, inevitavelmente, as palavras n\u00e3o alcan\u00e7am;<\/p>\n<p>O saber n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o direta com a verdade;<\/p>\n<p>O sinthoma.<\/p>\n<p>De algum modo, essas tr\u00eas perspectivas apontam para o que resulta de uma busca da verdade na experi\u00eancia anal\u00edtica, atrav\u00e9s de uma interpreta\u00e7\u00e3o do texto desconhecido de um sintoma ou sofrimento neur\u00f3tico. Podemos dizer que elas apontam para uma deprecia\u00e7\u00e3o da verdade, na medida em que n\u00e3o h\u00e1 verdade que seja toda, h\u00e1 apenas efeitos de verdade, mediante o saber. A verdade varia ao longo de uma experi\u00eancia anal\u00edtica. N\u00e3o a dizer toda traz em si um imposs\u00edvel compat\u00edvel com a ignor\u00e2ncia estrutural que se define pelo pr\u00f3prio recalque, tanto em sua forma mais elaborada no n\u00e3o-saber inerente ao sintoma, quanto no limite insond\u00e1vel entre o estranho e o \u00edntimo no gozo que afeta o corpo. A verdade como imposs\u00edvel, portanto, est\u00e1 do lado do real.<\/p>\n<p>Se Lacan libera a psican\u00e1lise de uma cren\u00e7a no verdadeiro, a perspectiva central que conduziria a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica seria o real. Assim, diz-nos Miller (2014, p. 28-29), \u201cdo lado da palavra, nos encontramos com o real sob a forma do imposs\u00edvel de dizer [&#8230;]. Haver\u00e1 sempre um d\u00e9ficit ligado \u00e0 verdade, sentido e interpreta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a um mais al\u00e9m\u201d. Se verificamos que, numa trajet\u00f3ria anal\u00edtica, depois de um longo percurso, um ponto de basta na busca do sentido, da verdade, adquire um lugar nessa experi\u00eancia, pode-se dizer que o mais al\u00e9m estar\u00e1, ent\u00e3o, fora de uma articula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, ou logicamente anterior a ela.<\/p>\n<p>O final de uma an\u00e1lise demarcar\u00e1 a estrutura de um encontro com o ininterpret\u00e1vel da marca de uma l\u00edngua no corpo primitivo. Se essa marca da l\u00edngua no corpo induz ao efeito de gozo ligado aos tra\u00e7os simb\u00f3licos que trazem significados para o sintoma, uma an\u00e1lise os separa para nos demonstrar que, antes de ter um sentido, um tra\u00e7o simb\u00f3lico teve valor de gozo que repercutiu no corpo como eco de um dizer (LEGUIL, 2022).<\/p>\n<p>Assim, \u201cQuando n\u00e3o sabemos que nome dar a esse sujeito que n\u00e3o se relaciona com os significantes, e sim com o corpo, o chamamos de\u00a0<em>parl\u00eatre<\/em>\u201d (BRODSKY, 2019, p. 11) \u2013 campo da opacidade do gozo, vacuidade que se trata de produzir na experi\u00eancia anal\u00edtica. \u00c9 poss\u00edvel dizer que nisso se coloca um enigma condensado em um resto, ao qual uma experi\u00eancia anal\u00edtica em seu fim retorna. Como uma irrup\u00e7\u00e3o contingente, notadamente nas imagens dos sonhos de final de an\u00e1lise, tal como nos testemunhos de passe de Deborah Rabinovich e de Clotilde Leguil,<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> permite-se uma leitura da escritura inerente a esse corpo, trazendo, assim, \u201co res\u00edduo encontrado no fim, de seu come\u00e7o enigm\u00e1tico\u201d (LAURENT, 2020, p. 171).<\/p>\n<p>Esse momento contingente conduz ao al\u00edvio da impot\u00eancia do drama neur\u00f3tico pela impossibilidade fixada na estrutura da linguagem (LACAN, 1972\/2003, p. 480).<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> \u00c9 quando o mesmo, que permanece atual, ganha uma nova face, mas contando com um fundo de indetermina\u00e7\u00e3o. Reconhece-se a\u00ed a parte do semblante que toca o real como imposs\u00edvel, o que possibilita um novo uso das marcas de gozo, do qual um sinthoma se encarrega. \u00c9 poss\u00edvel, por exemplo, que o n\u00f3 \u2013 ou arranjo \u2013 do sinthoma surja da pr\u00f3pria experi\u00eancia anal\u00edtica, e, por sua ex-sist\u00eancia, traga o que indica sempre a correla\u00e7\u00e3o \u201ca uma sa\u00edda para fora de\u201d (MILLER, 2022, p. 10), ou seja, que se ultrapassou onde foi preciso ter passado.<\/p>\n<p>Resta apenas \u201ca estranheza do que pode se dizer do amor ao inconsciente tal como ele \u00e9 lido\u201d (LAURENT , 2022, p. 125), esse tra\u00e7o do ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual. Trata-se de uma leitura ap\u00f3s a qual n\u00e3o resta mais nada para ver.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h5><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<h5>BRODSKY, G. <em>Pasiones lacanianas<\/em>. Buenos Aires: Grama, 2019.<\/h5>\n<h5>LACAN, J. O aturdito. In: <em>Outros Escritos. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 448-500. (Trabalho original proferido em 1972).<\/h5>\n<h5>LAURENT, \u00c9. A interpreta\u00e7\u00e3o: da verdade ao acontecimento. <em>Curinga<\/em>, n. 50, jul.\/dez. 2020.<\/h5>\n<h5>LAURENT, \u00c9. Coment\u00e1rio do testemunho de Clotilde Leguil. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 87, abr. 2022.<\/h5>\n<h5>LEGUIL, C. O novo amor, um amor que faz ponto de basta.\u00a0<em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 87, p. 115-125, abr. 2022.<\/h5>\n<h5>MILLER, J.-A. <em>El ultim\u00edsimo Lacan. Los cursos psicoanaliticos de Jacques-Alain Miller<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de St\u00e9phane Verley. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014.<\/h5>\n<h5>MILLER, J.-A. A Ex-sist\u00eancia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 33, jun. 2022.<\/h5>\n<hr \/>\n<h5><\/h5>\n<h5><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u2003 Ver os testemunhos de passe de Deborah Rabinovich, \u201cLas ficciones de la familia en el passe o de las ficciones del an\u00e1lisis a las ficciones del passe\u201d (apresentado em Belo Horizonte em 2017) e \u201cLo necess\u00e1rio y lo imposible\u201d (apresentado nas Jornadas de C\u00f3rdoba, em 26 e 27 de junho de 2015), e o de Clotilde Leguil (2022), \u201cO novo amor, um amor que faz ponto de basta\u201d.<\/h5>\n<h5><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u2003 Trata-se do termo \u201cfix\u00e3o\u201d do real.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Samyra Assad Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: samyra@uai.com.br &nbsp; O que sustenta a formula\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de que uma experi\u00eancia anal\u00edtica, levada ao seu termo, apresenta restos inanalis\u00e1veis? 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