{"id":3650,"date":"2025-03-10T15:23:02","date_gmt":"2025-03-10T18:23:02","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=3650"},"modified":"2025-12-01T09:28:01","modified_gmt":"2025-12-01T12:28:01","slug":"o-enigma-do-feminino-e-as-mascaras-em-persona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2025\/03\/10\/o-enigma-do-feminino-e-as-mascaras-em-persona\/","title":{"rendered":"O ENIGMA DO FEMININO E AS M\u00c1SCARAS EM PERSONA"},"content":{"rendered":"<h5><strong><em>\u00a0<\/em><em>Mariah Cass\u00e9te<br \/>\n<\/em><em>Doutora em Teoria Pol\u00edtica (UFMG)<br \/>\n<\/em><em>Aluna do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG<br \/>\n<\/em><em>E-mail: mariahlqc@gmail.com<\/em><\/strong><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A posi\u00e7\u00e3o feminina sempre impulsionou a psican\u00e1lise. O que \u00e9 ser mulher? O que quer a mulher? Essas quest\u00f5es estruturam o campo psicanal\u00edtico desde que Freud tomou as hist\u00e9ricas como inspira\u00e7\u00e3o. No texto \u201cSobre a Sexualidade Feminina\u201d (1931\/1996, p. 204), ele destaca o mist\u00e9rio do desenvolvimento feminino, mencionando uma fase pr\u00e9-ed\u00edpica \u201cremota, penumbrosa, quase imposs\u00edvel de ser revivida\u201d. A castra\u00e7\u00e3o feminina resulta de um processo prolongado, marcado por uma liga\u00e7\u00e3o profunda com a m\u00e3e. A aus\u00eancia do falo posiciona a mulher no \u201cn\u00e3o ter\u201d, gerando uma ang\u00fastia intr\u00ednseca que a confronta com um real indiz\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p><em>Nessa experi\u00eancia singular de encontro com a castra\u00e7\u00e3o, a refer\u00eancia f\u00e1lica \u00e9 insuficiente no continente feminino: h\u00e1 um \u201cgozo do corpo, que \u00e9<\/em><em> [&#8230;] <\/em><em>para al\u00e9m do Falo\u201d. (LACAN, 1972-73\/2022, p. 100, grifo nosso). Se h\u00e1 algo do gozo feminino que escapa ao simb\u00f3lico, seria poss\u00edvel dizer que as mulheres seriam mais amigas do real? Essa \u00e9 a quest\u00e3o colocada por J.-A. Miller (2010a, p. 2), sugerindo que, na l\u00f3gica imagin\u00e1ria do falo, o feminino sempre representar\u00e1 o Outro absoluto \u2013 o \u201cmist\u00e9rio absoluto fora do falo\u201d \u2013 a quem n\u00e3o se imputa uma consist\u00eancia defin\u00edvel. Essa falta de subst\u00e2ncia impulsiona uma busca incessante por identifica\u00e7\u00f5es que preencham o vazio. A hist\u00e9rica, ao se perguntar sobre o desejo dos homens por outras mulheres, tenta apaziguar a ang\u00fastia da inconsist\u00eancia, como se as outras guardassem o segredo do feminino. Marie-H\u00e9<\/em><em>l\u00e8<\/em><em>ne Brousse (PASSELANDE, 2012) afirma que essa busca ainda est\u00e1 no campo f\u00e1lico, na tentativa de encontrar um Nome que defina seu lugar e sentido. <\/em><\/p>\n<p><em>O vazio da posi\u00e7\u00e3o feminina pode ser deslocado do \u201cter\u201d para o \u201cser\u201d, trabalhando com a falta e \u201cfabricando um ser com o nada\u201d (MILLER, 2021, p. 5). A rela\u00e7\u00e3o entre mulheres e semblantes torna-se ent\u00e3o um tema central na psican\u00e1lise. Apesar de os semblantes serem fundamentais para o la\u00e7o humano, as mulheres se destacam pela \u201cenorme liberdade com o semblante\u201d (LACAN, 1971\/2009, p. 34). O homem usa semblantes para proteger seu \u201cpequeno ter\u201d, j\u00e1 o semblante feminino \u00e9 a m\u00e1scara da falta. No jogo das apar\u00eancias, as mulheres se aproximam mais do real, usando m\u00e1scaras para sugerir algo que, na verdade, n\u00e3o existe. Encarna-se o falo para mostrar o que n\u00e3o se tem. O problema \u00e9 que a falta de subst\u00e2ncia apavora, levando as mulheres, muitas vezes, a rela\u00e7\u00f5es de devasta\u00e7\u00e3o. H\u00e1, portanto, uma ambival\u00eancia estruturante no feminino e sua rela\u00e7\u00e3o com as m\u00e1scaras: seriam ins\u00edgnias ou fetiches? Como questiona M.-H. Brousse, teriam algo a dizer sobre um ideal do feminino ou servem como suportes para esconder o que n\u00e3o se sabe e nem se suporta? (PASSELANDE, 2012).<\/em><\/p>\n<p><em>Freud nos convida a buscar na experi\u00eancia, na ci\u00eancia ou na arte meios de avan\u00e7ar sobre o \u201cenigma da feminilidade\u201d. Vejo no filme Persona, de 1966, de Ingmar Bergman (2006), uma excelente fonte para essa busca, ao apresentar a intera\u00e7\u00e3o entre uma atriz que se absteve da fala e uma enfermeira que usa a fala como investiga\u00e7\u00e3o. As duas se isolam em uma casa \u00e0 beira-mar, onde desenvolvem uma rela\u00e7\u00e3o ambivalente de dist\u00e2ncia e complementaridade. O olhar, a voz, os semblantes, assim como gozo e devasta\u00e7\u00e3o, s\u00e3o temas centrais dessa obra visualmente po\u00e9tica e cl\u00e1ssica express\u00e3o do enigma do feminino.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Pr\u00f3logo<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>No pr\u00f3logo de Persona, Bergman estabelece o tom misterioso da narrativa. Em um clima on\u00edrico e sombrio, cenas fragmentadas surgem na tela, culminando em duas faces femininas, projetadas como sombras. As protagonistas s\u00e3o observadas por um menino que, atra\u00eddo, as toca curiosamente. Quem seriam essas figuras enigm\u00e1ticas? Parecidas, mas \u00fanicas. O que essas faces (ou m\u00e1scaras?) ocultam em seu mist\u00e9rio?<\/em><\/p>\n<p><em>Seria a sequ\u00eancia do pr\u00f3logo uma met\u00e1fora do pr\u00f3prio cinema? Janela para nossas inquieta\u00e7\u00f5es mais profundas. A partir do in\u00edcio da narrativa propriamente dita, o espectador se tornar\u00e1 \u2013 assim como o pr\u00f3prio diretor \u2013 testemunha e observador da jornada dessas duas mulheres. O cinema, portanto, \u00e9 apresentado como reflexo do Outro e como reflexo da alma. Alma, ali\u00e1s, \u00e9<\/em><em> o<\/em> <em>nome de uma das protagonistas que dirige incessantemente seus questionamentos a uma outra mulher, Elisabeth, que, em sua vis\u00e3o, deveria portar as respostas que tanto demanda. <\/em><\/p>\n<p><em>Ambas parecem ocupar lugares diferentes na rela\u00e7\u00e3o estabelecida. Em um primeiro momento, \u00e9 poss\u00edvel inclusive separ\u00e1-las em polos distintos: a fala e o sil\u00eancio; a iniciativa e a passividade; a expectativa e a desesperan\u00e7a; a enfermeira e a paciente. No entanto, gradativamente, a narrativa entrela\u00e7a os polos aparentemente opostos em um sem limite, de modo que se perde quaisquer certezas sobre quem de fato ocupa cada posi\u00e7\u00e3o ou imagem do corpo, demarcadas por um t\u00eanue litoral. <\/em><\/p>\n<p><strong><em>A atriz <\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Elisabeth, uma famosa atriz de teatro e cinema, encontra-se, no in\u00edcio da trama, internada como paciente em um hospital. N\u00e3o se sabe o diagn\u00f3stico de seu \u201cproblema\u201d, apenas se revela que abdicou da fala. Em um momento em que atuava no palco, \u00e9 tomada por uma paralisia que retira de si a vontade de continuar representando suas personagens, ou mesmo de representar a si mesma na vida, fora dos palcos. A partir de ent\u00e3o, emudece, abdica de seu papel de atriz, esposa e m\u00e3e e, assim, \u00e9 internada. A enfermeira designada para o caso \u00e9 Alma, uma jovem mulher que fica deslumbrada na presen\u00e7a da atriz. <\/em><\/p>\n<p><em>O of\u00edcio da atriz \u00e9 tamb\u00e9m um campo que remete ao feminino. Afinal, que outro tipo de trabalho permite a participa\u00e7\u00e3o t\u00e3o ativa no jogo de m\u00e1scaras que encobre o vazio? Essa intimidade com os personagens, essa capacidade de ser o que n\u00e3o se tem, certamente torna essas pessoas magn\u00e9ticas aos que testemunham sua atua\u00e7\u00e3o. Chico Buarque (1983), nos versos da m\u00fasica Beatriz, expressa essa captura do outro promovida atrav\u00e9s do enigma da atua\u00e7\u00e3o:<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\"><em>Olha\/ Ser\u00e1 que ela \u00e9 mo\u00e7a\/ Ser\u00e1 que ela \u00e9 triste\/ Ser\u00e1 que \u00e9 pintura\/ O rosto da atriz\/ Se ela dan\u00e7a no s\u00e9timo c\u00e9u\/ Se ela acredita que \u00e9 outro pa\u00eds\/ E se ela s\u00f3 decora o seu papel\/ E se eu pudesse entrar na sua vida<\/em><\/p>\n<p><em>Elisabeth torna-se um \u00ed<\/em><em>m\u00e3 para sua enfermeira. Guardaria a atriz respostas sobre o \u201cser mulher\u201d? \u00c9 ilus\u00f3rio pensar que o desejo produzido pelas m\u00e1scaras levaria \u00e0 descoberta de significantes que resolvem os mist\u00e9rios da vida ou do feminino. M.-H. Brousse (2004) afirma que, quando exposto, o semblante se transforma em mentira, estalando sob os assaltos do real, desqualificando a fala. Talvez a paralisia no palco tenha sido um assalto do real para Elisabeth, que se cala diante da falta de sentido. O sil\u00eancio da atriz pode ser lido como uma encena\u00e7\u00e3o desse vazio que suas m\u00e1scaras ocultam.<\/em><\/p>\n<p><em>No desenrolar da narrativa, somos apresentados a momentos que apontam para a frustra\u00e7\u00e3o de Elisabeth em sua fun\u00e7\u00e3o materna. Ela parece demonstrar uma dificuldade em assumir o papel de m\u00e3e com a mesma desenvoltura que desempenha os outros personagens nos palcos. Quando ainda est\u00e1 internada no hospital, chega a amassar uma fotografia de seu filho. Sua enfermeira Alma, j\u00e1 no final da trama, em um mon\u00f3logo perturbador, como em uma interpreta\u00e7\u00e3o selvagem, diz o que parece ser, de fato, o sentimento de sua paciente em rela\u00e7\u00e3o a ser m\u00e3e: a repulsa dessa posi\u00e7\u00e3o e o arrependimento dessa decis\u00e3o. Ainda assim, em outros momentos, Elisabeth escreve a seu marido, demonstrando interesse no bem-estar de seu filho, alegando, ainda, sentir a falta dele. Em qual encruzilhada Elizabeth se encontra?<\/em><\/p>\n<p><em>Tal ambival\u00eancia parece ser aspecto fundamental na abordagem da posi\u00e7\u00e3o do feminino por J.-A. Miller (2010b, p. 6), segundo o qual encontra-se a mulher na \u201cdist\u00e2ncia subjetiva da posi\u00e7\u00e3o de m\u00e3e. Porque ser uma m\u00e3e [&#8230;], \u00e9 para uma mulher querer se fazer existir como A. Fazer-se existir como A m\u00e3e \u00e9 se fazer existir como A mulher que tem\u201d. Gabriela Grinbaum (2021) tamb\u00e9m expressa essa problem\u00e1tica, ao apontar que o feminino se localiza na disjun\u00e7\u00e3o entre o desejo da m\u00e3e e o desejo de ser m\u00e3e. Seu sil\u00eancio seria uma express\u00e3o da ang\u00fastia perante o vazio de sentido que se vislumbra nessa posi\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p><em>A sa\u00edda pela identifica\u00e7\u00e3o materna n\u00e3o \u00e9 suficiente para aplacar a inquietude de Elisabeth em rela\u00e7\u00e3o ao feminino. A atriz permanece perdida e emudecida perante o enigma de seu lugar no mundo. Sua enfermeira Alma, parece tamb\u00e9m estar perdida perante esse mesmo mist\u00e9rio. No entanto, o caminho escolhido por ela \u2013 embora tamb\u00e9m esteja situado no campo f\u00e1lico \u2013 \u00e9 de outra ordem. Em vez do sil\u00eancio, a verborragia. Em vez da maternidade, a identifica\u00e7\u00e3o com a Outra. <\/em><\/p>\n<p><strong><em>A hist\u00e9rica<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Como indica Lacan (1971\/2009, p. 118), \u201cnada comunica menos de si do que um dado sujeito que, no final das contas, n\u00e3o esconde nada\u201d. <\/em><\/p>\n<p><em>Alma \u00e9 a enfermeira da atriz e, ao contr\u00e1rio de sua paciente, ela se desnuda a todo instante. Fala sobre si, seus projetos de futuro, sua vida atual, seus amores, seu passado e suas experi\u00eancias. O fato de Elisabeth permanecer em sil\u00eancio parece, inicialmente, causar em Alma o desejo de continuar falando, incessantemente. Vez ou outra, deixa escapar \u2013 como lapsos \u2013 momentos de incerteza ou fissuras pelas quais o vazio pode ser espiado: seja em seu olhar, numa gargalhada ou em l\u00e1grimas inesperadas. Em certos momentos, ainda que de forma caricata, \u00e9 n\u00edtida a din\u00e2mica analista\/analisando que parece se instaurar entre as duas mulheres. <\/em><\/p>\n<p><em>Em uma das cenas iniciais, Alma fala a si mesma: seus planos de casar-se, tornar-se<\/em><em> m\u00e3e<\/em><em> e<\/em><em> \u201cser aquilo que se espera de uma mulher<\/em><em>\u201d. Entretanto, ao se expressar, fica claro um momento de d\u00favida, como se tal projeto de vida n\u00e3o<\/em><em> fosse aquilo que de fato ela deseja seguir, ou como se n\u00e3o<\/em><em> fosse o suficiente. O ser mulher<\/em><em> \u2013 tal como se constitui nas expectativas do Outro<\/em><em> \u2013 vacila na subjetividade da personagem. H\u00e1<\/em><em>, assim, um desespero latente nas palavras de Alma, que n\u00e3o consegue lidar com essa sensa\u00e7\u00e3o de vazio que a domina. \u00c9 como se estivesse perdida e procurasse a m\u00e1scara para tapar a falta que insiste em aparecer. Sua busca, ent\u00e3o, dirige-se \u00e0<\/em><em>quela outra mulher a quem considera portadora dos segredos do feminino. A atriz, que \u00e9 sua paciente, exerce um encantamento sobre a enfermeira, que lhe dirige todas as ang\u00fastias e experi\u00eancias, em busca de uma identifica\u00e7\u00e3o que lhe confira alguma subst\u00e2ncia e apaziguamento, como se essa outra pudesse ter algo a revelar.<\/em><\/p>\n<p><em>Na casa \u00e0 beira do mar, pouco a pouco, Alma se espelha na atriz que, em um primeiro momento, torna-se seu objeto de amor e seu modelo. As roupas vestidas, os gestos e at\u00e9 a forma de usar seu cabelo parece se aproximar gradativamente aos modos de Elisabeth. Essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 narrada de forma bel\u00edssima pela fotografia de Sven Nykvist, que expressa a din\u00e2mica especular estabelecida entre as duas personagens.<\/em><\/p>\n<p><em>A din\u00e2mica entre ambas pode ser vista como uma encena\u00e7\u00e3o do discurso hist\u00e9rico, pelo qual Alma tenta revelar a verdade do desejo da outra, questionando sua pr\u00f3pria identidade. Sua posi\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica se manifesta tanto na ang\u00fastia frente ao sil\u00eancio de Elisabeth, quanto na oscila\u00e7\u00e3o entre identifica\u00e7\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela que ela cuida, revelando um discurso que procura incessantemente um saber que nunca ser\u00e1 pleno. Assim, a enfermeira mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o ambivalente com seu objeto de amor, caracterizada por um duplo movimento de destitui\u00e7\u00e3o (ao apontar a falta na outra) e de devo\u00e7\u00e3o (ao atribuir a essa outra um infal\u00edvel referencial identificat\u00f3rio). Essa forma de lidar com a falta pode, no entanto, reverter em devasta\u00e7\u00e3o, quando ela sente n\u00e3o ser mais amada.<\/em><\/p>\n<p><em>A precariedade da identifica\u00e7\u00e3o revela a fragilidade da busca de Alma. Ao ler escondida uma carta de Elisabeth para seu marido, Alma se sente exposta e tra\u00edda pelas impress\u00f5es negativas da atriz. A devo\u00e7\u00e3o ent\u00e3o se transforma em agressividade. A atriz, antes vista como espelho, ou por causa dessa rela\u00e7\u00e3o especular, agora se torna alvo das frustra\u00e7\u00f5es de Alma, que continua a enfrentar o vazio que rompe suas m\u00e1scaras.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>A \u201coutra para si mesma\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Elisabeth e Alma, duas mulheres que investigam em si e na outra aquilo a que suas faltas n\u00e3o s\u00e3o capazes de responder. O manejo de seus semblantes vacila sob as investidas do real. Essa aus\u00eancia de um termo para dizer A Mulher deixa indeterminada uma identifica\u00e7\u00e3o especificamente feminina. Uma jornada de perdas: perde-se a identidade, o nome, as m\u00e1scaras, no caminho em dire\u00e7\u00e3o ao gozo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio \u2013 que Lacan denomina de o \u201cOutro gozo\u201d e que Dominique Miller (2021, p. 7) expressa como uma \u201cestranheza que as carrega\u201d. <\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o h\u00e1 caminhos definidos para abordar o feminino, mas Persona pode contribuir para o que est\u00e1 justamente nesse inescap\u00e1vel (des)encontro entre as duas protagonistas e na impossibilidade da identifica\u00e7\u00e3o com a Outra. A cada tentativa de fus\u00e3o, uma quebra. A cada palavra, uma falta de sentido. O desafio enfrentado \u00e9, portanto, o reconhecimento dessa Outra que existe em si mesma, desse gozo estrangeiro inomin\u00e1vel, mas que, ainda assim, \u00e9 constitutivo do ser. Alma e Atriz permanecem nessa dualidade entrela\u00e7ada, assim como cada mulher, uma a uma, tem de se haver com a falta no Outro \u2013 S(<\/em><em>\u023a<\/em><em>). A mulher experimenta um tipo de alteridade ou diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a si mesma, uma esp\u00e9cie de opacidade interna, porque o gozo feminino n\u00e3o \u00e9 completamente acess\u00edvel ao saber ou \u00e0 consci\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p><em>A beleza de Persona \u00e9 conseguir construir na tela um universo entre as protagonistas que escapa \u00e0s palavras, mas que invade, transborda e devasta para al\u00e9m daquilo que a linguagem pode significar. Ao longo das d\u00e9cadas, muitos ousaram decifrar o mist\u00e9rio de Persona, apresentando teorias para explicar a natureza da rela\u00e7\u00e3o entre as duas mulheres, suas ang\u00fastias e destinos. Por\u00e9m, prefiro destacar a interpreta\u00e7\u00e3o de Susan Sontag (1987), que n\u00e3o busca decifrar, mas, sim, abra\u00e7ar a pot\u00eancia dessa dualidade entre m\u00e1scara e pessoa, discurso e sil\u00eancio, alma e performance. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<h5><strong><em>Refer\u00eancias <\/em><\/strong><\/h5>\n<h5><em>BEATRIZ. [Compositor e int\u00e9rprete]: Chico Buarque e Edu Lobo. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 1983. <\/em><\/h5>\n<h5><em>BROUSSE, M.-H. Uma dificuldade na an\u00e1lise das mulheres: a devasta\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e.\u00a0Latusa \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n. 9, p. 203-218<\/em><\/h5>\n<h5><em>FREUD, S. Sexualidade feminina. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XXI, 1996, p. 239-254.\u00a0 (Trabalho original publicado em 1931).\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/h5>\n<h5><em>GRINBAUM, G. Una mujer sin maquillaje. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2021.<\/em><\/h5>\n<h5><em>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 18: De um discurso que n\u00e3o fosse semblante. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. (Trabalho original proferido em 1971).<\/em><\/h5>\n<h5><em>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 20: Mais, ainda. Tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2022. (Trabalho original proferido em 1972-73).<\/em><\/h5>\n<h5><em>MILLER, D. As duas margens da feminilidade. In: ANTELO, Marcela; GURGEL, Iordan (org.). O feminino infamiliar: dizer o indiz\u00edvel. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2021. p. 251-261.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/h5>\n<h5><em>MILLER, J.-A. Mulheres e semblantes I.\u00a0Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online Nova S\u00e9rie, ano 1, n. 1, mar. 2010a. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_1\/mulheres_e_semblantes_i.pdf. Acesso em: 24 nov. 2024.<\/em><\/h5>\n<h5><em>MILLER, J.-A. Mulheres e semblantes II.\u00a0Op\u00e7\u00e3o Lacaniana Online Nova S\u00e9rie, ano 1, n. 1, mar. 2010b. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_1\/mulheres_e_semblantes_ii.pdf. Acesso em: 24 nov. 2024.<\/em><\/h5>\n<h5><em>PASSELANDE, A. O que \u00e9 uma mulher? Entrevista com Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse. Latusa Digital, ano 9, n. 49, p. 1-39, 2012.<\/em><\/h5>\n<h5><em>PERSONA. Dire\u00e7\u00e3o: Ingmar Bergman. Produ\u00e7\u00e3o: Ingmar Bergman. Su\u00e9cia: Vers\u00e1til Home Video, 2006. 1 DVD.<\/em><\/h5>\n<h5><em>SONTAG, S. A vontade radical. S\u00e3o Paulo: Editora Schwarcz Ltda., 1987.<\/em><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Mariah Cass\u00e9te Doutora em Teoria Pol\u00edtica (UFMG) Aluna do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG E-mail: mariahlqc@gmail.com &nbsp; A posi\u00e7\u00e3o feminina sempre impulsionou a psican\u00e1lise. O que \u00e9 ser mulher? O que quer a mulher? Essas quest\u00f5es estruturam o campo psicanal\u00edtico desde que Freud tomou as hist\u00e9ricas como inspira\u00e7\u00e3o. No texto \u201cSobre a Sexualidade Feminina\u201d (1931\/1996,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57636,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40,36],"tags":[],"class_list":["post-3650","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-34","category-de-uma-nova-geracao","category-40","category-36","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3650"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3650\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57637,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3650\/revisions\/57637"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57636"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}