{"id":3653,"date":"2025-03-10T15:24:35","date_gmt":"2025-03-10T18:24:35","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=3653"},"modified":"2025-12-01T09:26:42","modified_gmt":"2025-12-01T12:26:42","slug":"o-que-pode-o-clinico-advertido-pela-psicanalise-reflexoes-sobre-o-tema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2025\/03\/10\/o-que-pode-o-clinico-advertido-pela-psicanalise-reflexoes-sobre-o-tema\/","title":{"rendered":"O que pode o cl\u00ednico advertido pela psican\u00e1lise?\u00a0Reflex\u00f5es sobre o tema"},"content":{"rendered":"<h5><em>Patr\u00edcia Regina Guimar\u00e3es<\/em><\/h5>\n<h5><em>Mestre e Doutora em Ci\u00eancias da Sa\u00fade<\/em><\/h5>\n<h5><em>M\u00e9dica do Hospital das Cl\u00ednicas da UFMG<\/em><\/h5>\n<h5><em>Professora do Departamento de Medicina da PUC-MINAS<\/em><\/h5>\n<h5><em>E-mail: patrguimaraes@gmail.com<\/em><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cEstou passando mal essa semana toda&#8230; sentindo muito cansa\u00e7o\u201d<\/em>: Trata-se da fala de paciente do sexo feminino, adulta jovem, acompanhada em servi\u00e7o de refer\u00eancia por doen\u00e7a cr\u00f4nica com comprometimento pulmonar importante. Apresenta limita\u00e7\u00f5es para as atividades cotidianas. Sem ades\u00e3o ao tratamento. Viol\u00eancias diversas desde o primeiro m\u00eas de vida. Tr\u00eas filhos pequenos, o mais velho com seis anos. A queixa de cansa\u00e7o, acompanhada por esfor\u00e7o respirat\u00f3rio, chega associada ao relato de <em>cansa\u00e7o de viver<\/em>.<\/p>\n<p>Assim como o \u201ccansa\u00e7o\u201d, as queixas de dores, desconfortos e males diversos localizados no corpo levam pacientes \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, buscando no organismo a sua origem, e a medicina apresenta um amplo arsenal de investiga\u00e7\u00e3o desse corpo-organismo.<\/p>\n<p>A semiologia m\u00e9dica \u00e9 a disciplina que se ocupa de paramentar o m\u00e9dico com as perguntas certas, que conduzir\u00e3o \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. As v\u00e1rias manobras executadas no corpo, assim como os instrumentos m\u00e9dicos que amplificam seus sentidos, como o estetosc\u00f3pio, levam \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o da patologia, da altera\u00e7\u00e3o. E h\u00e1 um aparato tecnol\u00f3gico diversificado que permite determinar a altera\u00e7\u00e3o, mesmo que microsc\u00f3pica. \u201cOs elementos que o m\u00e9dico utiliza para o diagn\u00f3stico s\u00e3o o exame cl\u00ednico e os exames complementares. O exame cl\u00ednico compreende a anamnese e o exame f\u00edsico\u201d (L\u00d3PEZ, 1990, p. 5).<\/p>\n<p>O \u201colhar cl\u00ednico\u201d, treinado por anos, pretende que as altera\u00e7\u00f5es e doen\u00e7as se revelem ao cl\u00ednico experiente. Mas a pr\u00f3pria cl\u00ednica e o m\u00e9dico j\u00e1 experimentam o decl\u00ednio desse poder a ele atribu\u00eddo, do olhar que penetra o corpo e desvela o mal. Hoje, profissionais da educa\u00e7\u00e3o, o Google, at\u00e9 os vizinhos fazem diagn\u00f3sticos. A cl\u00ednica cedeu lugar \u00e0 tecnologia, que substitui o m\u00e9dico com maior precis\u00e3o. E o mercado das medica\u00e7\u00f5es traz a promessa da cura e al\u00edvio.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos e pacientes acreditam na consist\u00eancia material do corpo, que pode ser palpado, auscultado, percutido, e em um mal-estar que possa ser localizado, circunscrito, diagnosticado e, com isso, curado. Considera-se, para a cura do corpo doente, os efeitos de subst\u00e2ncias sobre essa mat\u00e9ria. Todo o processo acontece quase \u00e0 revelia do sujeito que habita esse corpo.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que na medicina se admitem as particularidades \u2013 as doen\u00e7as manifestando-se de maneira particular nos diferentes corpos. Mas a subjetividade, que se relaciona \u00e0 forma como cada sujeito toma o adoecimento do seu corpo, ainda \u00e9 um campo a ser explorado.<\/p>\n<p>Em muitas situa\u00e7\u00f5es, mesmo se empregando o recurso da tecnologia de ponta e exames sofisticados, n\u00e3o se encontra no corpo-organismo a altera\u00e7\u00e3o que justifique a queixa do paciente. Ou, se encontrada, seu tratamento n\u00e3o traz o al\u00edvio esperado. Outras vezes, as queixas org\u00e2nicas ancoram e delimitam no corpo um mal-estar muito mais difuso, insuport\u00e1vel e mort\u00edfero. Um nome (diagn\u00f3stico) para o que faz sofrer pode ser apaziguador \u2013 \u201c<em>eu sofro disso<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Nesse contexto de crise da cl\u00ednica e diante do paciente que fala da sua dor e do que o faz sofrer, localizando seu mal-estar no corpo-organismo, o que \u00e9 poss\u00edvel para o m\u00e9dico advertido pela psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>O paciente chega \u00e0 consulta apresentando seu corpo como sendo ele mesmo, portador de uma doen\u00e7a. Ele sente e localiza no corpo-organismo seu mal-estar e parece demandar uma resposta t\u00e9cnica que acabe com seu sofrimento. Por outro lado, o m\u00e9dico traz, da sua forma\u00e7\u00e3o, a cren\u00e7a que esse corpo-organismo guarda uma doen\u00e7a em forma de mist\u00e9rio a ser descoberto. E acredita que o arsenal tecnol\u00f3gico ser\u00e1 capaz de localizar, melhor que ele pr\u00f3prio ou que o pr\u00f3prio doente, o mal-estar. Assim, o profissional investe pouco na entrevista m\u00e9dica \u2013 que persegue a doen\u00e7a \u2013 e menos ainda no exame desse corpo. Pede exames que n\u00e3o cumprem a promessa de revelar o mal. As medica\u00e7\u00f5es s\u00e3o experimentadas tantas vezes sem nenhuma l\u00f3gica amparada no racioc\u00ednio cl\u00ednico. E seguem, m\u00e9dico e paciente, nesse desencontro que frustra a ambos.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel o encontro entre o m\u00e9dico e seu paciente e, a partir disso, a produ\u00e7\u00e3o de algo. Atrav\u00e9s do v\u00ednculo, do desejo de saber (do m\u00e9dico) e da suposi\u00e7\u00e3o de saber (do paciente no m\u00e9dico), pode-se operar uma escuta que vai al\u00e9m das queixas org\u00e2nicas, provocando no paciente a busca do seu mal-estar al\u00e9m do corpo. \u00c9 nesse ponto da percep\u00e7\u00e3o de que \u201c<em>n\u00e3o se trata disso<\/em>\u201d \u2013 de uma doen\u00e7a org\u00e2nica \u2013 que se torna poss\u00edvel localizar na dimens\u00e3o ps\u00edquica o desconforto e a elabora\u00e7\u00e3o poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Jacques Lacan (1966\/2001), em seu texto<strong> \u201c<\/strong>O lugar da psican\u00e1lise na medicina\u201d, traz contribui\u00e7\u00f5es importantes para a discuss\u00e3o. Ao diferenciar demanda de desejo, e a estrutura falha entre essas duas dimens\u00f5es, Lacan (1966\/2001, p. 11) chama a aten\u00e7\u00e3o para o que resta, o que fica fora, t\u00e3o familiar aos m\u00e9dicos: \u201cPermita-me assinalar como falha epistemo-som\u00e1tica o efeito que ter\u00e1 o progresso da ci\u00eancia sobre a rela\u00e7\u00e3o da medicina com o corpo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1ria ao m\u00e9dico aten\u00e7\u00e3o ao que h\u00e1 para al\u00e9m daquilo que o paciente apresenta como demanda, imbu\u00eddo do discurso poderoso da ci\u00eancia e do direito \u00e0 sa\u00fade. \u201cIsto porque aquilo que \u00e9 exclu\u00eddo da rela\u00e7\u00e3o epistemo-som\u00e1tica \u00e9 justamente o que o corpo em seu registro purificado vai propor \u00e0 medicina\u201d (LACAN, 1966\/2001, p. 11). A dimens\u00e3o do gozo aparece completamente exclu\u00edda da rela\u00e7\u00e3o epistemo-som\u00e1tica, fora do que pode saber a ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica m\u00e9dica, a perplexidade diante de adolescentes vivendo com doen\u00e7a cr\u00f4nica que n\u00e3o aderiam ao tratamento proposto, numa marcha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, introduziu para esta autora um furo no saber m\u00e9dico e a busca de referencial que trouxesse alguma resposta. Freud (1920\/1996), em \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio de prazer\u201d, introduz para o m\u00e9dico uma dimens\u00e3o importante \u2013 a puls\u00e3o de morte \u2013 para o manejo cl\u00ednico de pacientes que n\u00e3o fazem a op\u00e7\u00e3o pela sa\u00fade. E Lacan (1966\/2001, p. 12) aponta que \u201ca dire\u00e7\u00e3o \u00e9tica \u00e9 aquela que se estende em dire\u00e7\u00e3o ao gozo\u201d, indicando duas balizas: a demanda do doente e o gozo do corpo.<\/p>\n<p>Ao m\u00e9dico atento ao inconsciente e \u00e0 dimens\u00e3o do gozo \u00e9 poss\u00edvel, a partir da escuta do paciente, ocupar uma posi\u00e7\u00e3o diferente daquela <em>de quem demanda<\/em> (o tratamento). Roberto Assis Ferreira discutiu, em 2013, em uma aula dada na Faculdade de Medicina da UFMG sobre a rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente na adolesc\u00eancia, os lugares que o m\u00e9dico pode ocupar diante do paciente. Ele adverte para a import\u00e2ncia de ocupar o lugar <em>de quem n\u00e3o sabe<\/em>, fazendo surgir, a partir do v\u00ednculo, o saber que est\u00e1 com o paciente (FERREIRA; CUNHA, 2014). Apresentou tamb\u00e9m, citando Miller (2012, p. 98), o \u201cm\u00e9dico-passador\u201d, que seria aquele que \u00e9 capaz de sustentar uma escuta at\u00e9 que algo surja, localizando o sofrimento em outro campo, que n\u00e3o seja o org\u00e2nico, tornando poss\u00edvel uma transfer\u00eancia de cuidado que leve o paciente a um trabalho anal\u00edtico com outro profissional.<\/p>\n<p>Aqui outro ponto surge: a ang\u00fastia do profissional diante dessa posi\u00e7\u00e3o despretensiosa e modesta da escuta ativa. A discuss\u00e3o do caso com a equipe, ou melhor, a conversa\u00e7\u00e3o, poderia ser um espa\u00e7o de apoio para o profissional que se angustia. Mas esse dispositivo n\u00e3o \u00e9 suficiente para dar conta de algo que toca o m\u00e9dico de forma singular, apontando para a pr\u00f3pria an\u00e1lise, ou para a supervis\u00e3o do caso, como uma possibilidade.<\/p>\n<p>Diante dessa reflex\u00e3o, uma dire\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para m\u00e9dicos e estudantes de medicina seria cuidar do corpo-organismo, que pode mesmo adoecer, mas estar atento ao que se apresenta de outra ordem. O \u201cm\u00e9dico-passador\u201d poderia estar ao lado \u2013 que \u00e9 da posi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica \u2013, nesse percurso do paciente na dire\u00e7\u00e3o do seu tratamento em outro campo profissional.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m seria poss\u00edvel tomar a psican\u00e1lise como <em>a \u00faltima flor da medicina<\/em>, seguindo na dire\u00e7\u00e3o que Lacan (1966\/2001, p. 14) aponta: \u201cSe o m\u00e9dico deve continuar a ser alguma coisa que n\u00e3o a heran\u00e7a da sua fun\u00e7\u00e3o antiga, que era uma fun\u00e7\u00e3o sagrada, \u00e9 a meu ver, prosseguir e manter em sua pr\u00f3pria vida a descoberta de Freud\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/h5>\n<h5>FERREIRA, R. A.; CUNHA, C. F. Rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente na adolesc\u00eancia. <em>Revista M\u00e9dica de Minas Gerais<\/em>. n. 24, p. S80-S86, 2014.<\/h5>\n<h5>FOUCAULT, M. <em>O nascimento da cl\u00ednica<\/em>. Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 2008. (Trabalho original publicado em 1963).<\/h5>\n<h5>FREUD, S. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVII, 1996. (Trabalho original publicado em 1920).<\/h5>\n<h5>LACAN, J. O lugar da psican\u00e1lise na medicina. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 32, p. 8-14, dez. 2001. (Trabalho original publicado em 1966).<\/h5>\n<h5>L\u00d3PEZ, M. Introdu\u00e7\u00e3o ao diagn\u00f3stico cl\u00ednico. In: L\u00d3PEZ, M.; MEDEIROS, J. L. (Orgs.). <em>Semiologia M\u00e9dica<\/em>: as bases do diagn\u00f3stico cl\u00ednico. 3. ed. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Livraria Atheneu Editora; Belo Horizonte: Livraria Interminas, 1990. p. 3-19.<\/h5>\n<h5>MILLER, J.-A. <em>Embrollos del cuerpo<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patr\u00edcia Regina Guimar\u00e3es Mestre e Doutora em Ci\u00eancias da Sa\u00fade M\u00e9dica do Hospital das Cl\u00ednicas da UFMG Professora do Departamento de Medicina da PUC-MINAS E-mail: patrguimaraes@gmail.com &nbsp; \u201cEstou passando mal essa semana toda&#8230; sentindo muito cansa\u00e7o\u201d: Trata-se da fala de paciente do sexo feminino, adulta jovem, acompanhada em servi\u00e7o de refer\u00eancia por doen\u00e7a cr\u00f4nica com&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57634,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40,36],"tags":[],"class_list":["post-3653","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-34","category-de-uma-nova-geracao","category-40","category-36","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3653"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3653\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57635,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3653\/revisions\/57635"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57634"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}