{"id":3828,"date":"2025-08-05T06:35:43","date_gmt":"2025-08-05T09:35:43","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=3828"},"modified":"2025-11-29T17:37:23","modified_gmt":"2025-11-29T20:37:23","slug":"entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2025\/08\/05\/entrevista\/","title":{"rendered":"ENTREVISTA"},"content":{"rendered":"<h3><strong><em>Com Maria Wilma de Faria \u2013 EBP\/AMP<\/em><\/strong><\/h3>\n<p><strong>Maria Wilma Faria<\/strong>, psicanalista e membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP), \u00e9 diretora da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais (IPSM-MG).<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong>Almanaque On-line<\/strong> interessou-se em lhe perguntar o que \u00e9 uma Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, como ela funciona e quais s\u00e3o os princ\u00edpios da psican\u00e1lise lacaniana que a regem.<\/p>\n<p><strong>Almanaque 35:<\/strong> Comecemos com a pergunta de Lacan, formulada em 1977 em seu texto \u201cAbertura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica de Paris\u201d: \u201cO que \u00e9 a cl\u00ednica psicanal\u00edtica? N\u00e3o \u00e9 complicado. Tem uma base \u2013 \u00e9 o que se fala em uma psican\u00e1lise\u201d.<\/p>\n<p>Como podemos extrair as consequ\u00eancias dessa pergunta no funcionamento da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica da qual se ocupa?<\/p>\n<p><strong>Maria Wilma: <\/strong>Essa afirma\u00e7\u00e3o de Lacan aparentemente parece simples, mas porta uma complexidade. Talvez pud\u00e9ssemos cotejar a resposta com o que ele desenvolve adiante, na \u201cAbertura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica de Paris\u201d, e que est\u00e1 relacionado ao dizer, ao div\u00e3, \u00e0 associa\u00e7\u00e3o (que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o livre assim), enfim: \u201c\u00e9 do inconsciente que se trata\u201d (LACAN, 1977\/2001, p. 6). Nessa \u00e9poca do final de seu ensino, Lacan estava questionando o inconsciente e o designa \u2013 em seu Semin\u00e1rio 24, que estava proferindo\u00a0 \u00e0 \u00e9poca e que tem em seu t\u00edtulo a palavra <em>l\u2019une-b\u00e9vue<\/em> \u2013 como \u201cequ\u00edvoco\u201d. O inconsciente tamb\u00e9m \u00e9 visto como um trope\u00e7o, \u201co espa\u00e7o de um lapso\u201d (LACAN, 1976\/2003, p. 567). Ou seja, o inconsciente \u00e9 real. Ent\u00e3o, nessa alocu\u00e7\u00e3o de Lacan (1977\/2001, p. 8), logo ap\u00f3s uma pergunta que lhe foi dirigida, ele apresenta uma defini\u00e7\u00e3o que nos \u00e9 muito cara: \u201ca cl\u00ednica \u00e9 o real enquanto ele \u00e9 imposs\u00edvel de suportar\u201d.<\/p>\n<p>Esse assunto nos interessa na Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do Instituto, pois lidamos sempre, nos diversos espa\u00e7os de investiga\u00e7\u00e3o e pesquisa dos N\u00facleos, com o ponto de n\u00e3o sentido, com aquilo imposs\u00edvel de ser dito, que est\u00e1 na raiz da linguagem mesma. Poder\u00edamos pensar o real como imposs\u00edvel porque h\u00e1 sempre algo que escapa ao significante, que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. O real, enquanto imposs\u00edvel de suportar e que se apresenta na conting\u00eancia, \u00e9 aquele que leva o <em>falasser<\/em>, com sua dor e com seu corpo, a procurar uma an\u00e1lise, ou mesmo uma institui\u00e7\u00e3o. Cabe ao analista, a partir de sua presen\u00e7a e de seu desejo, se orientar pelo real do gozo, fazendo dele o princ\u00edpio do ato anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Lacan (1977\/2001, p. 9) termina ainda dizendo que \u201cA cl\u00ednica psicanal\u00edtica deve consistir n\u00e3o somente em interrogar a an\u00e1lise, mas em interrogar os analistas, a fim de que eles deem conta do que a pr\u00e1tica deles tem de acaso, o que justifica que Freud tenha existido\u201d.<\/p>\n<p><strong>Almanaque 35:<\/strong> J.-A. Miller, na abertura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica de Tel-Aviv, em 1996, responde \u00e0 pr\u00f3pria pergunta \u2013 O que \u00e9 uma Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica? \u2013 do seguinte modo: \u201cEla \u00e9 feita de seus professores, do seu saber, das suas boas disposi\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas. Ela n\u00e3o \u00e9 nada sem aqueles que chamamos n\u00e3o de estudantes, mas participantes, para indicar o papel ativo que lhes \u00e9 dado\u201d.<\/p>\n<p>A partir dessa afirma\u00e7\u00e3o, como voc\u00ea avalia a estrutura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do IPSM-MG?<\/p>\n<p><strong>Maria Wilma: <\/strong>A estrutura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica se apoia nas Conversa\u00e7\u00f5es Cl\u00ednicas, na retomada das Entrevistas Cl\u00ednicas em institui\u00e7\u00f5es com as quais o IPSM-MG mantem parceria e conv\u00eanio, nos semin\u00e1rios te\u00f3ricos e apresenta\u00e7\u00f5es de casos cl\u00ednicos que os N\u00facleos de Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise desenvolvem. Acolhe, assim, todos aqueles interessados em se aproximar da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Penso que poder\u00edamos seguir de m\u00e3os dadas com Miller, quando ele diz, na mencionada abertura em Tel-Aviv, que, para al\u00e9m dos professores, dos participantes ativos da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, dos amigos, psiquiatras, colegas de outras institui\u00e7\u00f5es, \u00e9 preciso apreender a Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica como um conceito que\u00a0 passa por uma experi\u00eancia, algo que n\u00e3o se d\u00e1 somente pelo ensino na orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, mas pela experi\u00eancia mesma do tratamento psicanal\u00edtico. Entra aqui em jogo tamb\u00e9m a forma\u00e7\u00e3o do psicanalista, aquela necess\u00e1ria, intermin\u00e1vel, apoiada no trip\u00e9 de supervis\u00e3o, an\u00e1lise e estudos te\u00f3ricos, e sustentada pelo desejo. Com isso, pode-se deparar, no trabalho desenvolvido pela Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, com um saber que n\u00e3o se totaliza, pulsante, din\u00e2mico, questionador e que se renova no movimento que a cl\u00ednica que visa o real evidencia. Um trabalho que repousa no \u201creconhecimento de um n\u00e3o-saber irredut\u00edvel \u2013 S(A\/) \u2013 que \u00e9 o pr\u00f3prio inconsciente, o \u00edmpeto para prosseguir um trabalho de elabora\u00e7\u00e3o orientado pelo desejo de uma inven\u00e7\u00e3o do saber\u201d (MILLER, 2020, s. p., tradu\u00e7\u00e3o nossa). De tal forma que temos na Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica o constante esfor\u00e7o de \u201cComo fazer para ensinar o que n\u00e3o se ensina?\u201d (MILLER, 2013, p. 9),\u00a0 e, para isso, conta-se com a experi\u00eancia de cada participante que ali se endere\u00e7a com seu ponto de n\u00e3o saber.<\/p>\n<p><strong>Almanaque 35:<\/strong> Poderia nos falar sobre como voc\u00ea avalia a rela\u00e7\u00e3o da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do Instituto com a cidade?<\/p>\n<p><strong>Maria Wilma: <\/strong>A Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica se faz presente na cidade de uma forma muito viva. Aqui podemos recorrer ao que Lacan (1967\/2003, p. 251) chama, em sua \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967\u201d, de \u201cpsican\u00e1lise em extens\u00e3o, ou seja, tudo o que resume a fun\u00e7\u00e3o de nossa Escola como presentificadora da psican\u00e1lise no mundo\u201d, na medida em que cada um que frequenta os N\u00facleos de Direito, Medicina, Crian\u00e7a, Toxicomania e Alcoolismo, Sa\u00fade Mental, Psicose e\u00a0 o Ateli\u00ea de Segrega\u00e7\u00e3o traz sua experi\u00eancia, apresenta casos e dialoga com outros discursos nos espa\u00e7os da cidade onde a psican\u00e1lise se faz presente, lidando com seus impasses. E esse ponto \u00e9 fundamental para a pr\u00f3pria exist\u00eancia da psican\u00e1lise, uma vez que \u00e9 um desafio, nesses tempos que correm, fazer valer o discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>LACAN, J. Abertura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana \u2013 Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>. n. 30, abr. 2001. (Trabalho original publicado em 1976).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: <em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 248-264. (Trabalho original publicado em 1967).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11. In: <em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 567-569. (Trabalho original publicado em 1976).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. <em>Todo el mundo es loco. Los cursos psicoanaliticos de Jaques-Alain Miller.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Pr\u00e9ambule. In: <em>D\u00e9claration des membres de l\u2019AMP pour se constituer en \u00c9cole Une<\/em>. Buenos Aires, jan\/jul 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.association-mondiale-psychanalyse.org\/declaration\/. Acesso em: 01 mai. 2025.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com Maria Wilma de Faria \u2013 EBP\/AMP Maria Wilma Faria, psicanalista e membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP), \u00e9 diretora da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais (IPSM-MG). \u00a0Almanaque On-line interessou-se em lhe perguntar o que \u00e9 uma Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica, como&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57621,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41,38],"tags":[],"class_list":["post-3828","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-35","category-encontros","category-41","category-38","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3828","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3828"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3828\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57622,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3828\/revisions\/57622"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57621"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3828"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3828"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3828"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}