{"id":3837,"date":"2025-08-05T06:35:43","date_gmt":"2025-08-05T09:35:43","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=3837"},"modified":"2025-11-29T17:49:09","modified_gmt":"2025-11-29T20:49:09","slug":"nota-sobre-o-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2025\/08\/05\/nota-sobre-o-infantil\/","title":{"rendered":"NOTA SOBRE O INFANTIL"},"content":{"rendered":"<h5>Gilson Iannini<br \/>\nPsicanalista<br \/>\nMembro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP)<br \/>\ne da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<br \/>\nProfessor da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas\/UFMG<br \/>\n<em>E-mail<\/em>: gilsoniannini@yahoo.com.br<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Excerto 1: O carro e o tempo parado<\/strong><\/p>\n<p>Homem adulto, profissional bem-sucedido, relata dificuldade recorrente em desfrutar experi\u00eancias prazerosas: festas, viagens, museus, paisagens. Sempre algo estraga: a ansiedade, o medo constante de assaltos, roubos, viol\u00eancias. Na It\u00e1lia ou Fran\u00e7a, teme <em>pickpockets<\/em>; no Brasil, bandidos armados; nos Estados Unidos, terroristas. Vive em estado de alerta. Depois se arrepende. \u201cN\u00e3o curti, de novo\u201d.<\/p>\n<p>Durante uma sess\u00e3o, recorda uma cena infantil: o pai estaciona o carro, deixa o filho sozinho por alguns minutos com a promessa de voltar logo. O menino observa da janela quando dois homens arrombam o ve\u00edculo e levam um objeto do banco da frente. Ningu\u00e9m se fere. Mas alguma coisa se quebra.<\/p>\n<p>Ao narrar a lembran\u00e7a, diz que \u201cnada mais o emociona\u201d. Nem a Torre Eiffel, nem o Coliseu, nem o P\u00e3o de a\u00e7\u00facar. O analista interrompe:<\/p>\n<p>\u2013 <em>Nada?<\/em><\/p>\n<p>\u2013 Me emociono com carro \u2013 responde ele, quase sem pensar.<\/p>\n<p>\u2013 <em>Que carro?<\/em><\/p>\n<p>\u2013 Como assim, que carro? Sei l\u00e1. Qualquer carro, especialmente se for raro!<\/p>\n<p>\u2013 <em>Como aquele em que seu pai te esqueceu?<\/em><\/p>\n<p>Ele consente e se levanta do div\u00e3.<\/p>\n<p><strong>Excerto 2: O desejo escondido<\/strong><\/p>\n<p>Mulher jovem, em an\u00e1lise, queixa-se de vergonha excessiva: dificuldade de falar em p\u00fablico, de se colocar profissionalmente, apesar da boa forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, de expressar o que quer \u2013 seja em situa\u00e7\u00f5es triviais, seja em rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas. Usa met\u00e1foras corporais: diz que \u201cprefere sumir\u201d, \u201cvirar parede\u201d, \u201cser transparente\u201d.<\/p>\n<p>Depois de um sonho de ser impedida de entrar num Col\u00e9gio s\u00f3 para meninas, lembra cenas da inf\u00e2ncia. Pequena, gostava de se esconder \u2013 debaixo da cama, atr\u00e1s da cortina \u2013 para observar a m\u00e3e se vestir. A lembran\u00e7a \u00e9 v\u00edvida: a m\u00e3e de costas, tirando a blusa, o suti\u00e3 no ch\u00e3o, os sapatos de salto. Ela, escondida, assistia em sil\u00eancio. Nunca foi descoberta. Nunca se revelou. Via tudo por essa janela, esse enquadre.<\/p>\n<p>J\u00e1 adulta, repete a cena. Agora, s\u00e3o os parceiros que est\u00e3o \u201cdo outro lado da cortina\u201d: homens casados, ocupados, distantes, imposs\u00edveis. Rela\u00e7\u00f5es em que o desejo nunca se realiza \u00e0 luz do dia, mas apenas como espreita. O escondido virou regra. O objeto se divide entre a face da causa de desejo e a opacidade do gozo.<\/p>\n<p><strong>O tempo freudiano<\/strong><\/p>\n<p>Uma das coisas mais incr\u00edveis da psican\u00e1lise \u00e9 sua teoria do tempo. O inconsciente \u00e9 atemporal, e mesmo assim feito de camadas, ru\u00ednas e tra\u00e7os, em constante movimento. O passado muda r\u00e1pido demais, e \u00e0s vezes isso nos d\u00e1 uma certa vertigem. Mas tem tamb\u00e9m aqueles buracos negros que insistem em nos atrair sempre para as mesmas armadilhas. N\u00e3o \u00e9 isso o inconsciente \u2013 ou pelo menos n\u00e3o s\u00e3o essas suas condi\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>E tem ainda a transitoriedade. Acho dif\u00edcil que algu\u00e9m conteste que \u201cTransitoriedade\u201d n\u00e3o seja um dos mais belos textos de Freud, se n\u00e3o o mais belo. \u201c<em>Verg\u00e4nglichkeit<\/em>\u201d designa aquilo que \u00e9 fugaz, ef\u00eamero, que n\u00e3o dura. Uma boa pergunta seria se o infantil \u00e9 transit\u00f3rio ou n\u00e3o? Se sim, em que consiste a transitoriedade do infantil, que, ao mesmo tempo, insiste em repetir? A frui\u00e7\u00e3o do belo cont\u00e9m uma promessa de felicidade, mas, ao mesmo tempo, a certeza de que o objeto de deleite desmancha no ar. O tempo \u00e9 circular, lembra Freud. Mas ser\u00e3o os ciclos da natureza e suas esta\u00e7\u00f5es? Ou as elipses do sujeito gravitando em torno do objeto que o divide, enquanto ele pr\u00f3prio tamb\u00e9m se divide?<\/p>\n<p>Freud passeia com \u201cum amigo taciturno\u201d e \u201cum jovem poeta\u201d, j\u00e1 famoso \u00e0quela altura. De curiosidade a gente n\u00e3o morre, n\u00e9? \u00c9 claro que descobriram que um era Lou Andreas-Salom\u00e9 (curiosamente disfar\u00e7ada de homem) e, o outro, Rainer Maria Rilke. A \u201cflorescente paisagem de ver\u00e3o\u201d remetia \u00e0s Dolomitas, paisagem alpina do norte da It\u00e1lia. O ver\u00e3o em quest\u00e3o seria o de agosto de 1913, pouco antes da eclos\u00e3o da Grande Guerra. Pelo relato de Freud, escrito uns anos mais tarde, podemos imaginar uma caminhada lenta e meditativa, observando as paisagens paradis\u00edacas das montanhas, em meio a flores e cogumelos. Rilke reclama: essa beleza vai acabar em breve, t\u00e3o logo chegue o inverno. Ele \u00e9 jovem, tem cerca de 36 anos; Freud, perto de completar 60, retruca: mas a beleza est\u00e1 exatamente no fato dessa fugacidade, dessa transitoriedade. A beleza \u00e9 rara e dura pouco. Salom\u00e9, aos 50 anos, prefere ficar em sil\u00eancio. O sil\u00eancio de Lou \u00e9 uma esp\u00e9cie de grito? \u00c0quela altura, Lou era ex-amante, mas eterna musa do poeta, ao mesmo tempo em que era psicanalista e escritora, e fascinava Freud, como havia fascinado Nietzsche outrora. Taciturna e melanc\u00f3lica? Tem certeza, Dr. Freud? N\u00e3o \u00e9 o que a biografia dela sugere.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 prov\u00e1vel que essa caminhada s\u00f3 tenha ocorrido na imagina\u00e7\u00e3o de Freud, e na nossa desde ent\u00e3o. \u00c9 verdade que os tr\u00eas haviam se encontrado, no \u00faltimo Congresso de Psican\u00e1lise antes da eclos\u00e3o da Guerra, ao sop\u00e9 da montanha. Mas suspeito que a conversa tenha ocorrido no sal\u00e3o do hotel, no intervalo entre as mesas e confer\u00eancias, entre x\u00edcaras de caf\u00e9 ou ch\u00e1, biscoitos amanteigados, bolo de chocolate com geleia de damasco&#8230; e charutos. Tudo isso tem cheiro de inf\u00e2ncia&#8230; meio proustiana demais, talvez&#8230;<\/p>\n<p>O que importa \u00e9 que a resposta de Freud \u00e0 revolta do poeta diante da transitoriedade da natureza \u00e9 uma aula sobre as rela\u00e7\u00f5es entre a libido e o luto. Mais do que isso: pouco se nota que Freud estende sua teoria do luto, que se aplicaria n\u00e3o apenas \u00e0 perda de objetos como pessoas ou coisas, mas a fases da vida. Quem atende pacientes idosos, sabe muito bem que parte do tratamento anal\u00edtico tem a ver com a perda, com um trabalho de luto: do corpo que n\u00e3o funciona mais como antes, dos sonhos que n\u00e3o se concretizaram, dos amores perdidos e tamb\u00e9m dos encontrados. Mas tamb\u00e9m dos desejos que, ao se realizarem, levam \u00e0 ru\u00edna. Os exemplos n\u00e3o s\u00e3o poucos. Parece que o infantil emerge como mais clareza quanto mais o corpo decai. Voltam os apelidos, as cenas, traum\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m as opacas cenas de gozo.<\/p>\n<p><strong>O infantil como insist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>O infantil, para Freud, n\u00e3o \u00e9 um tempo perdido. \u00c9 um tempo em suspenso \u2013 fora do tempo, como o inconsciente onde ele se aloja, ou que o desaloja. Essa temporalidade espec\u00edfica \u00e9 formulada em diversos registros. Em \u201cO mal-estar na cultura\u201d, Freud recorre \u00e0 met\u00e1fora arqueol\u00f3gica de Roma como cidade onde as ru\u00ednas de todas as \u00e9pocas coexistem: nada desaparece, tudo sobrevive em camadas superpostas. No ensaio \u201cSobre a transitoriedade\u201d, diante da ang\u00fastia provocada pela efemeridade, ele prop\u00f5e que a perda n\u00e3o anula o valor; ao contr\u00e1rio, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para que o passado atue. O tempo, na economia do inconsciente, n\u00e3o opera por sucess\u00e3o, mas por simultaneidade. \u00c9 o tempo de Roma, feito de camadas e ru\u00ednas, mas ser\u00e1 tamb\u00e9m o tempo de Baltimore, feito de um horizonte mais plano. O inconsciente que aloja \u00e9 Roma, o que desaloja \u00e9 Baltimore. A crian\u00e7a freudiana n\u00e3o \u00e9 figura da inoc\u00eancia, mas da intensidade: corpo polimorfo, disposi\u00e7\u00e3o bissexual, inconsciente como resposta ao enigma da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. O infantil n\u00e3o \u00e9 natureza, nem cultura. \u00c9 entre dois. N\u00e3o \u00e9 uma fase superada. Na verdade, nem exatamente perdida, mas deslocada. Freud n\u00e3o diz apenas que fomos crian\u00e7as \u2013 ele afirma que continuamos sendo. Quem dera fosse a crian\u00e7a idealizada dos poetas aquela que nos espreita nas brechas da mem\u00f3ria. Voltar \u00e0 crian\u00e7a que fomos e que perdemos? Nada mais longe de Freud. N\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a, nem temor, como lembra Lacan em algum lugar. Infantil n\u00e3o \u00e9 a crian\u00e7a. \u00c9 o que escutamos diariamente.<\/p>\n<p>Nos dois excertos cl\u00ednicos apresentados, o infantil n\u00e3o aparece como lembran\u00e7a, mas como operador. No primeiro caso, a cena do pai que abandona momentaneamente o filho no carro, onde ocorre um assalto, n\u00e3o desaparece com o tempo: ela fixa um afeto \u2013 o medo \u2013 e uma posi\u00e7\u00e3o subjetiva \u2013 a de quem est\u00e1 sempre quase sendo roubado. Ou que rouba? Ao mesmo tempo, o fasc\u00ednio desloca-se para o objeto carro. N\u00e3o se trata pura e simplesmente de gosto automotivo \u2013 trata-se da \u00fanica forma de reencontrar o objeto da cena traum\u00e1tica.<\/p>\n<p>No segundo caso, n\u00e3o se trata de trauma. O esconderijo infantil \u2013 debaixo da cama, atr\u00e1s da cortina \u2013 n\u00e3o foi abandonado: foi atualizado. Ele itera, mais do que repete. A paciente itera a posi\u00e7\u00e3o de espectadora envergonhada, engavetando o pr\u00f3prio desejo, cada vez mais invis\u00edvel, quer dizer, \u00e0 luz do dia. Namora homens inacess\u00edveis, n\u00e3o por acaso, mas por estrutura\u00a0 iterativa. A vergonha, nesse ponto, n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo contingente, mas o signo de uma economia de gozo marcada pelo recuo e pela espreita. N\u00e3o apenas o brilho da perda, mas o opaco do gozo.<\/p>\n<p>Ambos os casos demonstram que o infantil n\u00e3o \u00e9 o que passou, mas o que insiste. Freud localiza a\u00ed o cerne do sintoma, a cifra do gozo. As chamadas \u201cteorias sexuais infantis\u201d s\u00e3o um exemplo radical disso: n\u00e3o s\u00e3o erros infantis, mas constru\u00e7\u00f5es dur\u00e1veis, cuja persist\u00eancia molda o modo adulto de desejar. O inconsciente \u00e9, tamb\u00e9m, uma teoria sexual infantil. Ou toda teoria \u00e9 infantil? Como escreveu em 1908, a teoria sexual infantil persiste como matriz de julgamento para todas as experi\u00eancias futuras. A crian\u00e7a que fomos permanece viva na forma como amamos, tememos, olhamos, nos calamos.<\/p>\n<p>Assim, toda an\u00e1lise \u00e9, em alguma medida, a an\u00e1lise do infantil. N\u00e3o da inf\u00e2ncia biogr\u00e1fica, mas de seus restos vivos: cenas fixadas, posi\u00e7\u00f5es gozadas, roteiros inconscientes repetidos, s\u00e9ries iterativas. O infantil n\u00e3o \u00e9 o come\u00e7o, mas o n\u00facleo que resiste ao tempo. E que, por isso, s\u00f3 pode ser lido como se l\u00ea uma ru\u00edna: camada por camada, num presente que se arqueologiza a cada fala. Ou na superf\u00edcie do labirinto em linha reta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gilson Iannini Psicanalista Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) Professor da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas\/UFMG E-mail: gilsoniannini@yahoo.com.br &nbsp; Excerto 1: O carro e o tempo parado Homem adulto, profissional bem-sucedido, relata dificuldade recorrente em desfrutar experi\u00eancias prazerosas: festas, viagens, museus, paisagens. 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