{"id":3843,"date":"2025-08-05T06:35:42","date_gmt":"2025-08-05T09:35:42","guid":{"rendered":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/?p=3843"},"modified":"2025-12-01T09:10:10","modified_gmt":"2025-12-01T12:10:10","slug":"ficcoes-de-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2025\/08\/05\/ficcoes-de-crianca\/","title":{"rendered":"FIC\u00c7\u00d5ES DE CRIAN\u00c7A"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cJ\u00e1 aprendemos\u00a0de\u00a0numerosas observa\u00e7\u00f5es incontest\u00e1veis\u00a0a idade precoce em que as\u00a0crian\u00e7as sabem\u00a0como utilizar-se de\u00a0s\u00edmbolos.\u201d\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>(FREUD, 1920\/1984, p. 319)<\/p>\n<p><strong><em>Daniel Roy<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>Membro da \u00c9cole de la Cause Freudienne (ECF)<\/p>\n<p>e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP)<\/p>\n<p><em>E-mail: <\/em>danielroy@wanadoo.fr<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode procur\u00e1-lo com dedal \u2013 e procur\u00e1-lo com cuidado;<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode ca\u00e7\u00e1-lo com garfos e esperan\u00e7a;<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode amea\u00e7ar sua vida com uma a\u00e7\u00e3o de ferrovia;<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode encant\u00e1-lo com sorrisos e sab\u00e3o.<\/p>\n<p>(CARROLL, 1876\/2017)<\/p>\n<p>A fic\u00e7\u00e3o \u00e9 hoje reconhecida por ser, por excel\u00eancia, o modo discursivo sob o qual se inscrevem os filhotes de homem assim que eles se p\u00f5em a <em>parl\u00eatrer<\/em><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> o melhor poss\u00edvel. Durante muito tempo, esse tra\u00e7o serviu para segreg\u00e1-los em um mundo da inf\u00e2ncia celebrado como mundo no qual o imagin\u00e1rio reina como mestre, desprezando realidades da vida. Mas h\u00e1 aqui um <em>deal<\/em><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> que, sob apar\u00eancias humanistas, esconde uma ordem de ferro que exige da crian\u00e7a que ela se identifique a <em>uma<\/em> crian\u00e7a e que, assim, d\u00ea consist\u00eancia a um Outro que se preza por lhe garantir prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A inf\u00e2ncia: territ\u00f3rio ou litoral?<\/strong><\/p>\n<p>L\u00e1 onde a inf\u00e2ncia \u00e9 considerada como zona de prote\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, estaremos lidando com fic\u00e7\u00f5es de fronteira e de territ\u00f3rio, de ataque e de defesa, de pol\u00edcia e de ladr\u00e3o. Ser\u00e1 l\u00edcito ca\u00e7ar a\u00ed os estere\u00f3tipos, denomina\u00e7\u00e3o em voga para designar as identifica\u00e7\u00f5es ideais que o discurso oferece \u00e0s crian\u00e7as do tempo para lhes confeccionar uniformes <em>pr\u00eat-\u00e0-porter<\/em> ou lhes oferecer \u201cfantasias exc\u00eantricas\u201d, com as quais elas podem se vestir para suportar ou enganar a demanda do Outro. Diante da <em>Mini Miss<\/em> de sete anos e do jihadista de quatorze, quem pode ainda pensar a inf\u00e2ncia fora do alcance dos significantes-mestres? O paradoxo \u00e9 maci\u00e7o: quanto mais a crian\u00e7a \u00e9 designada pelo seu <em>eu-sou-uma-crian\u00e7a<\/em>, mais as identifica\u00e7\u00f5es que ela colhe amea\u00e7am entrar em funcionamento como verdade de seu ser.<\/p>\n<p>H\u00e1 um outro modo de considerar a inf\u00e2ncia. N\u00f3s o obtivemos primeiramente de Freud, que situou, no limiar da inf\u00e2ncia, um abismo que ele nomeou \u201camn\u00e9sia infantil\u201d, uma zona de esquecimento, portanto, ou mesmo de n\u00e3o reconhecimento fundamental, <em>Unerkannt<\/em> (MILLER, 2007, p. 237, Nota 7)<em>. <\/em>Em seguida, Lacan faz aparecer, como luz rasante, essa zona litoral, onde n\u00e3o falamos ainda e onde somos falados, de onde se deduz que a crian\u00e7a \u00e9 por excel\u00eancia o <em>falasser<\/em>, por ser o primeiro a habitar essa zona litoral que \u00e9 a inf\u00e2ncia, com a carga para ele de ser tamb\u00e9m o primeiro a poder tomar literalmente esse real \u2013 de ser ao mesmo tempo falado e falante. \u00c0 sua disposi\u00e7\u00e3o, entre fun\u00e7\u00e3o da linguagem e campo da palavra, <em>lal\u00edngua <\/em>se oferece a ele para infiltrar cada fic\u00e7\u00e3o com seus fluxos e refluxos, para criar a\u00ed eros\u00f5es e dep\u00f3sitos aluviais, para povo\u00e1-los com quimeras diversas, <em>Pocket Monsters <\/em>menos enquadrados do que os ditos <em>Pok\u00e9mons<\/em>,<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> que n\u00e3o hesitam em reciclar as significa\u00e7\u00f5es mais uniformizantes. Nessa zona litoral, o estatuto do sujeito muda, pelo \u201cfato de ele se apoiar num c\u00e9u constelado, e n\u00e3o apenas no tra\u00e7o un\u00e1rio, para sua identifica\u00e7\u00e3o fundamental\u201d (LACAN, 1971\/2003, p. 24) \u2013 constela\u00e7\u00e3o que constituem as configura\u00e7\u00f5es significantes, singulares e contingentes, que se realizam na <em>lal\u00edngua.<\/em> O uso das fic\u00e7\u00f5es n\u00e3o se mede a\u00ed pelas verdades que elas conteriam, mas pelo fato de que nelas se declina uma <em>varit\u00e9<\/em> do gozo (LACAN, 1977\/1998), tal como ela se repete e, portanto, se perde ao longo de seus relatos.<\/p>\n<p><strong><em>P\u2019titom<\/em><\/strong><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><strong>: um nome novo para a crian\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Tiramos proveito do \u00faltimo ensino de Lacan para liberar a crian\u00e7a dos ideais da inf\u00e2ncia e, para marcar essa ruptura, podemos nos aproveitar de um nome \u2013 <em>p\u2019titom \u2013 <\/em>que vem sob a pena de Lacan, durante sua confer\u00eancia sobre Joyce de junho de 1975, e que nos permite correlacionar a crian\u00e7a e suas fic\u00e7\u00f5es n\u00e3o mais ao <em>verde para\u00edso dos amores infantis<\/em>, mas ao sintoma. A frase \u00e9 a seguinte: \u201cPtom, Pt\u2019homenzim, Pt\u2019homendebem ainda vive, na l\u00edngua que se cr\u00ea obrigada, entre outras l\u00ednguas, a ptomar a coisa coincidente\u201d (LACAN, 1975-76\/2007, p. 158).<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Gra\u00e7as a essa frase, Lacan pode definir o sintoma estritamente\u00a0 como \u201ccoincid\u00eancia\u201d \u2013 \u201cpois \u00e9 o que isso quer dizer\u201d \u2013 e ao mesmo tempo fazer ressoar a coincid\u00eancia fon\u00e9tica do <em>ptom<\/em> com o <em>p\u2019titom<\/em>, a crian\u00e7a, que se revela ent\u00e3o ela mesma como \u201ccoisa coincidente\u201d, como sintoma portanto, junta e disjunta do s\u00edmbolo que ela \u00e9 na civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Coloquemos ent\u00e3o que, para o <em>p\u2019titom<\/em> do s\u00e9culo XXI, filha ou filho de <em>lom<\/em>,<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> as fic\u00e7\u00f5es s\u00e3o o modo mesmo gra\u00e7as ao qual se enodam gozo e significante, sintoma e s\u00edmbolo: desse encontro, desse choque, elas s\u00e3o o cristal. Elas s\u00e3o \u201cmanipula\u00e7\u00f5es linguageiras\u201d, jogo da crian\u00e7a com a linguagem, assim como jogo da l\u00edngua com \u201co vivente que fala\u201d e que ela \u201ctraumatiza\u201d desde antes de sua vinda ao mundo. Isso j\u00e1 se l\u00ea sob a pena de Freud, com a leitura que Lacan prop\u00f5e a respeito do sonho de sua filha Anna e do jogo de seu neto, o jogo do <em>Fort-Da<\/em>.<\/p>\n<p>Assim, o sonho da pequena Anna,<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> com a idade de dezoito meses, j\u00e1 tem estrutura de fic\u00e7\u00e3o, recolhendo significantes \u2013 \u201cAnna Freud, molangos, molangos silvestes, omelete pudim!\u201d (FREUD, 1900\/1996, p. 164)<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> \u2013 ao mesmo tempo furados pela demanda do Outro (pois est\u00e3o sustentados por uma proibi\u00e7\u00e3o enunciada na v\u00e9spera pelas pessoas que estavam com ela) e carregados de gozo. Quanto ao jogo do <em>Fort-Da<\/em>,\u00a0 ele permite \u00e0 crian\u00e7a, aparelhada com um simples carretel, material que \u00e9 \u201calguma coisinha do sujeito que se destaca embora ainda sendo bem dele\u201d, saltar \u201cas fronteiras de seu dom\u00ednio\u201d e come\u00e7ar \u201ca encanta\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1964\/1988, p. 63). Um passo a mais e \u00e9 com a mesma encanta\u00e7\u00e3o \u2013 <em>Fort-Da \u2013<\/em> que a crian\u00e7a se far\u00e1 desaparecer, dando aqui testemunho daquilo que est\u00e1 em jogo nessa primeira manipula\u00e7\u00e3o linguageira: esse objeto, o carretel, \u201c\u00e9 a\u00ed que devemos designar o sujeito\u201d (LACAN, 1964\/1988, p. 63).<\/p>\n<p>Mas a pr\u00e1tica dos jogos eletr\u00f4nicos pelas crian\u00e7as de hoje, pr\u00e1tica que ocasionalmente preocupa pais e especialistas da inf\u00e2ncia, n\u00e3o tem a mesma estrutura disso que reconhecemos como primeiras fic\u00e7\u00f5es: \u00e9 uma conex\u00e3o aparelhada e repetitiva a um dispositivo que se revela especialmente contaminado pelos significantes do Outro (n\u00edveis, combates contra os <em>boss<\/em><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>, pontos de vista<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>, etc.) \u2013 um flerte permanente com diversas zonas proibidas? Associ\u00e1-los n\u00e3o \u00e9 abolir suas diferen\u00e7as: o sonho \u00e9 recolhido por Freud como algo j\u00e1 escrito pela jovem sonhadora; o jogo do <em>Fort-Da <\/em>\u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do menininho diante de uma situa\u00e7\u00e3o complexa, a sa\u00edda de sua m\u00e3e. Por outro lado, um jogo eletr\u00f4nico \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o pr\u00e9-fabricada com significantes do discurso corrente e com imagens que formam uma casca, ou um bando<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>: um bando de imagens que faz agalma, ou o bando das imagens que raptam os significantes para faz\u00ea-los servir a diversos usos traficados. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o duplo uso das imagens no <em>falasser<\/em>? H\u00e1 aqui um vasto mercado de fic\u00e7\u00f5es \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do <em>p\u2019titom<\/em>, mercado que se apresenta sob o modo do \u201cpacote ilimitado\u201d, que \u00e9 o Graal da juventude moderna. Quest\u00f5es surgem: como incluir a\u00ed o \u201ceu\u201d? N\u00e3o \u00e9 a\u00ed onde a m\u00e1quina me aparelha que o \u201ceu\u201d est\u00e1? N\u00e3o sou \u201ceu\u201d o servo do gozo da m\u00e1quina, m\u00e1quina que exige meu apetite, meu olhar, minhas trocas, e exige que eu abandone minha voz para obedecer \u00e0 sua voz? De certa forma, \u00e9 cada crian\u00e7a de hoje que deve responder a essas quest\u00f5es, e cabe aos analistas garantir que n\u00e3o seja em v\u00e3o acompanh\u00e1-las diante dessas quest\u00f5es. S\u00e3o, portanto, das crian\u00e7as em an\u00e1lise que podemos esperar que nos conduzam ao centro desse \u201cgrande mercado de fic\u00e7\u00f5es\u201d, para verificar com elas se encontram a\u00ed algum recurso de semblante e\/ou se elas ficam \u00e0 deriva ao querer ganhar vidas ilimitadas onde nada se perde.<\/p>\n<p><strong><em>P\u2019titom<\/em> em an\u00e1lise <\/strong><\/p>\n<p>Nos propomos a examinar essas duas modalidades de funcionamento das fic\u00e7\u00f5es para uma crian\u00e7a em an\u00e1lise: as fic\u00e7\u00f5es como produ\u00e7\u00f5es que seguem o deslocamento do desejo, posto em movimento pelo encontro do sujeito com as diversas modalidades de falta; as fic\u00e7\u00f5es como fixa\u00e7\u00f5es, \u201cfix\u00f5es\u201d, de um gozar em excesso que promove eclos\u00e3o, trauma, fora de sentido e que trazem as marcas dessa ruptura. \u201cIlustra\u00e7\u00e3o e prova\u201d, portanto: ilustra\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 \u201csujeito enfim em quest\u00e3o\u201d nos ditos da crian\u00e7a, ilustra\u00e7\u00e3o que pode valer ocasionalmente para seus pr\u00f3ximos, mas, em primeiro lugar, para ele mesmo; e prova da presen\u00e7a de um real inelimin\u00e1vel, inassimil\u00e1vel, do qual a crian\u00e7a n\u00e3o se protege, ao contr\u00e1rio do que desejam os adultos.<\/p>\n<p>\u00c9 para n\u00f3s a ocasi\u00e3o de nos liberarmos de preconceitos que manteriam a crian\u00e7a afastada do \u201cdado\u201d sexual com o qual os adultos lidam. De certa forma, as crian\u00e7as n\u00e3o teriam as cartas nas m\u00e3os, devido \u00e0 sua imaturidade sexual, imaturidade que se ergueria com a vinda da puberdade, desencadeando a dita crise da adolesc\u00eancia. Mas seria esse realmente o caso? N\u00e3o seria necess\u00e1rio considerar, ao contr\u00e1rio, que a menor fic\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a \u00e9 uma teoria sexual, uma teoria que se edifica sobre o \u201cimpasse sexual\u201d e traz sua marca? Numerosas indica\u00e7\u00f5es de Freud e de Lacan nos colocam nessa via, desde os chistes ditos ing\u00eanuos levantados por Freud at\u00e9 a an\u00e1lise desenvolvida que Lacan faz da observa\u00e7\u00e3o da fobia do pequeno Hans em seu Semin\u00e1rio 4, <em>A rela\u00e7\u00e3o de objeto<\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui dois aspectos distintos. Por um lado, h\u00e1 a inclus\u00e3o do encontro poss\u00edvel, ou mesmo prov\u00e1vel, da crian\u00e7a com \u201cum primeiro gozar\u201d, com uma Coisa que n\u00e3o se inscreve nas coordenadas simb\u00f3licas ou imagin\u00e1rias pr\u00e9vias ou em vias de se elaborar, alguma Coisa que acontece, mas perante a qual nem o sujeito, nem o Outro, podem responder \u201cpresente\u201d. Por outro lado, h\u00e1 o fato de que a crian\u00e7a recebe do Outro o saber, que \u00e9 com os significantes do Outro \u2013 \u201cde um certo tipo de m\u00e3e e de um certo tipo de pai\u201d<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> \u2013 que ela entra no universo dos semblantes. Assim, por um lado, esses significantes trazem a marca do desejo do Outro, mas igualmente o tra\u00e7o de que eles foram forjados em um mundo onde os semblantes do sexo est\u00e3o de alguma forma \u201cem atividade\u201d. \u00c9 o que demonstra Lacan em seu Semin\u00e1rio, <em>&#8230;ou pior<\/em>, quando precisa que os significantes \u201cmenino\u201d e \u201cmenina\u201d, com os quais as crian\u00e7as se distinguem, lhes v\u00eam da distin\u00e7\u00e3o homem-mulher, que se edifica no encontro entre os sexos, com os impasses de gozo que esse encontro comporta. Os significantes se revelam, ent\u00e3o, como que contaminados pelo gozo, tornando v\u00e3 toda tentativa de manter as crian\u00e7as em estado de inferioridade, seja ela cognitiva, seja psicol\u00f3gica ou biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Digamos ent\u00e3o que, se elas t\u00eam as cartas na m\u00e3o, elas t\u00eam tempo livre para estabelecer as regras do jogo, para tentar as diversas permuta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e para deixar as pr\u00f3prias cartas jogarem entre si. S\u00e3o essas as fic\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia, essas duas modalidades reunidas em uma dupla h\u00e9lice a cada vez singular, duas modalidades que vamos examinar de modo artificialmente distinto sob os nomes de \u201cfic\u00e7\u00f5es de tipo Hans\u201d e \u201cfic\u00e7\u00f5es de tipo Alice\u201d.<\/p>\n<p>Mas, antes, vamos esclarecer que elas s\u00f3 podem se distinguir assim a partir da experi\u00eancia anal\u00edtica, onde encontram sua l\u00f3gica na interven\u00e7\u00e3o do psicanalista e na dire\u00e7\u00e3o do tratamento que ele escolhe. Vemos assim Lacan, durante sua elabora\u00e7\u00e3o a respeito do pequeno Hans, lembrar por v\u00e1rias vezes que o pai interv\u00e9m demais, com muita frequ\u00eancia, e que conviria deixar a palavra do menino ir at\u00e9 seu fim. H\u00e1 por tr\u00e1s dessa observa\u00e7\u00e3o toda a concep\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia como elabora\u00e7\u00e3o do sujeito-suposto-saber, concep\u00e7\u00e3o que Jacques-Alain Miller recolheu em sua f\u00f3rmula \u201co inconsciente int\u00e9rprete\u201d, e encontramos frequentemente, no relato dos tratamentos de crian\u00e7as, essa atmosfera interpretativa particular que \u00e9 acompanhada de uma prolifera\u00e7\u00e3o ficcional, onde podemos certamente situar o sujeito-suposto-saber na figura de um Outro \u201cbom ouvinte\u201d que traria assim sua garantia de verdade subjetiva \u00e0s constru\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a. Ora, n\u00e3o \u00e9 disso que se trata, mas, como indica Freud, de uma parte de verdade pulsional contida no que ele nomeia \u201cteorias sexuais infantis\u201d, e \u00e9 como impostor que aparecer\u00e1 toda figura que pretenderia ter autoridade, mesmo que simb\u00f3lica, sobre a parte de gozo obscuro que aflige todo <em>falasser<\/em>. H\u00e1 uma dificuldade que n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfica do tratamento com crian\u00e7as, mas que a\u00ed se instala ainda mais insidiosamente quando o praticante permanece preso a uma dimens\u00e3o oracular da fala da crian\u00e7a. A partir disso, a decifra\u00e7\u00e3o das forma\u00e7\u00f5es do inconsciente isola os n\u00f3s de significa\u00e7\u00e3o de onde o sentido se esquiva, como demonstra o coment\u00e1rio de Lacan sobre o pequeno Hans.<\/p>\n<p>\u00c9, portanto, sob outra perspectiva que essa fuga do sentido pode ser acolhida, uma perspectiva \u201cao avesso\u201d,\u00a0 onde ela \u00e9 definida positivamente como fora de sentido, <em>joui-sens<\/em>,<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> perspectiva com a qual o analista se autoriza para cortar no vivo do discurso e fazer sobressair o osso de gozo que a\u00ed se corr\u00f3i: para dar conta disso, contaremos com as m\u00faltiplas rupturas com as quais Alice \u00e9 confrontada no <em>Pa\u00eds da Maravilhas<\/em>, por onde ela se aventurou, e isso gra\u00e7as \u00e0 \u201cHomenagem a Lewis Carroll\u201d pronunciada por Lacan (1966\/2015) em 1966.<\/p>\n<p><strong>Fic\u00e7\u00f5es de tipo Hans<\/strong><\/p>\n<p>Lacan d\u00e1 as coordenadas dessas fic\u00e7\u00f5es, enquanto elas s\u00e3o \u201cpequenos mitos\u201d elaborados por Hans a partir de um certo n\u00famero limitado de elementos significantes, que se permutam \u00e0 medida que se estabelece uma conversa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua entre ele e seu pai a respeito de \u201csua bobagem\u201d,<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> uma fobia de cavalos que se desencadeia aos quatro anos e nove meses de idade. Lacan extrai desse sintoma as duas significa\u00e7\u00f5es polarizantes, \u201cmorder\u201d e \u201ccair\u201d, que se enodam em um primeiro tempo no significante f\u00f3bico <em>cavalo <\/em>e se cristalizam no sintoma f\u00f3bico, e que posteriormente v\u00e3o ser suportados pelas fic\u00e7\u00f5es e fantasmas sucessivos. Essas duas significa\u00e7\u00f5es s\u00e3o, no fundo, os pontos de apoio encontrados por Hans no momento em que um abismo se abre sob seus passos, abismo duplo, Cila e Car\u00edbdis: o nascimento de sua irm\u00e3zinha introduziu um elemento dif\u00edcil de se encaixar no jogo de engodo f\u00e1lico entre ele e sua m\u00e3e; a entrada em jogo do p\u00eanis real tamb\u00e9m n\u00e3o consegue se inscrever na l\u00f3gica imagin\u00e1ria precedente. Lacan (1956-57\/1995, p. 300) insiste em situar essa elabora\u00e7\u00e3o ficcional como \u201ctentativa de articular a solu\u00e7\u00e3o de um problema\u201d, a passagem \u201cde um certo modo de explica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o-com-o mundo do sujeito [&#8230;] para outro modo\u201d necessitado \u201cpela apari\u00e7\u00e3o de elementos diferentes, novos, que v\u00eam contradizer a primeira formula\u00e7\u00e3o\u201d. E precisa que essa novidade exige \u201cuma passagem que \u00e9, como tal, imposs\u00edvel, que \u00e9 um impasse. Isso \u00e9 o que d\u00e1 sua estrutura ao mito\u201d (LACAN, 1956-57\/1995, p. 300).<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o desse tipo de fic\u00e7\u00e3o \u00e9 assim claramente definida por Lacan (1957\/1998, p. 524): elas permitem explorar \u201ctodas as formas poss\u00edveis de impossibilidades encontradas no equacionamento significante da solu\u00e7\u00e3o\u201d&#8230; at\u00e9 encontrar a sa\u00edda singular. Para Hans, ela \u00e9 localizada por Jacques-Alain Miller (1994, p. 16, tradu\u00e7\u00e3o nossa) como a transforma\u00e7\u00e3o \u201ciluminante, [&#8230;] que preside \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o da mordida em desmontagem da banheira\u201d. Ela permite ao jovem menino se extrair da ang\u00fastia central de ser levado com ela, gra\u00e7as \u00e0 opera\u00e7\u00e3o do serralheiro que desenrosca a banheira para fazer dela um lugar do seu tamanho.<\/p>\n<p>Notemos com Lacan que a efic\u00e1cia dessa sa\u00edda, que est\u00e1 bem distante de uma resolu\u00e7\u00e3o ideal do complexo de \u00c9dipo, repousa em duas manipula\u00e7\u00f5es linguageiras que est\u00e3o em a\u00e7\u00e3o nessa \u201cl\u00f3gica de borracha\u201d.<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a> Em primeiro lugar o chiste, que d\u00e1 tamb\u00e9m a essa grande conversa\u00e7\u00e3o sua tonalidade alegre, e isso por causa do pr\u00f3prio Hans, de seu estilo, dir\u00e1 Lacan (1956-57\/1995, p. 301): \u201cjogar com o <em>non-sens<\/em> fundamental de todo uso do sentido\u201d, eis a possibilidade da qual n\u00e3o se priva Hans diante das perguntas ou sugest\u00f5es um pouco insistentes demais do pai.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, h\u00e1, de modo muito preciso, um jogo das palavras tomado ao p\u00e9 da letra, que vai se revelar inclu\u00eddo ao mesmo tempo na fobia e em sua solu\u00e7\u00e3o. Hans se apoia aqui, e isso n\u00e3o \u00e9 insignificante, em seu livro de imagens, no momento em que exp\u00f5e a seu pai uma de suas teorias sobre a presen\u00e7a de sua irm\u00e3 Anna. Na p\u00e1gina da esquerda, uma cegonha sobre uma chamin\u00e9, representada por um paralelep\u00edpedo vermelho: eis a\u00ed a caixa de beb\u00eas, onde a cegonha os esconde, e que Hans faz equivaler a outras caixas, aos carros de entrega; na outra p\u00e1gina, ao lado, um cavalo que est\u00e1 sendo ferrado. Vai-se demonstrar que essas duas p\u00e1ginas operaram para Hans como dois quadros de uma mini hist\u00f3ria em quadrinhos, na qual estariam condensadas as matrizes significantes de onde partem as s\u00e9ries associativas que informam as fic\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a: a caixa onde nascem \u2013 <em>geboren <\/em>\u2013 as crian\u00e7as se liga, assim, \u00e0 banheira na qual interv\u00e9m o serralheiro que fura a barriga de Hans com sua furadeira \u2013 <em>Bohrer<\/em>.<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>\u00a0 O cavalo que \u00e9 ferrado \u2013 <em>beschlagen<\/em> \u2013 ser\u00e1 o mesmo cavalo que ser\u00e1 chicoteado \u2013 <em>geschlagen<\/em> \u2013 em uma das pequenas fantasias da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Aqui j\u00e1 \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o \u201ctipo Alice\u201d que entra em fun\u00e7\u00e3o: jogo de palavras e jogo de letras d\u00e3o as m\u00e3os e v\u00eam perfurar as fantasias da crian\u00e7a, nutridas pela busca de sentido do pai.<\/p>\n<p><strong>Fic\u00e7\u00f5es de tipo Alice<\/strong><\/p>\n<p>Certamente, Alice \u00e9 uma criatura de fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 ela que \u00e9 a produtora de pequenos mitos como Hans. Mas, precisamente por isso, ela nos permite mais facilmente modificar nosso \u00e2ngulo de vis\u00e3o. Vimos, de fato, como para Hans o jogo literal e sonoro das palavras se alojava no centro mesmo de seu sintoma, e depois de suas fic\u00e7\u00f5es-fantasmas. Nessa perspectiva, a explora\u00e7\u00e3o do sentido do sintoma esbarra na causa do sintoma, admiravelmente identificado por Freud no bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1 de Hans: ele pegou a \u201cbobagem\u201d no dia em que as crian\u00e7as n\u00e3o paravam de dizer <em>wegen<\/em> <em>dem<\/em> <em>Pferd<\/em> (\u201cpor causa do cavalo\u201d) \u2013 express\u00e3o estritamente hom\u00f3fona a <em>W\u00e4gen (dem Pferd<\/em>, ou \u201cve\u00edculos de tra\u00e7\u00e3o animal\u201d) em sua pron\u00fancia vienense: \u201ca pequena palavra <em>wegen<\/em> [\u2018por causa de\u2019] foi o meio que favoreceu a fobia estender-se desde <em>Wagen<\/em> [\u2018ve\u00edculos\u2019], ou <em>W\u00e4gen<\/em> [que se pronuncia exatamente como \u2018<em>wegen<\/em>\u2019]\u201d (FREUD, 1909\/1996, p. 59, Nota 1). Nesse ponto preciso, Lacan (1956-57\/1995, p. 324) indica que \u201cA hi\u00e2ncia da situa\u00e7\u00e3o de Hans \u00e9 inteiramente ligada a esta transfer\u00eancia de peso gramatical\u201d. \u00c9 esse m\u00e9todo que Lewis Carroll vai usar desmedidamente em suas fic\u00e7\u00f5es \u201cAlice\u201d, m\u00e9todo a respeito do qual Lacan (1966\/2004, p. 8) observa esse \u201ctra\u00e7o, a ressaltar que o jogo de palavras em Carroll \u00e9 sempre inequ\u00edvoco\u201d. Essa salutar mal\u00edcia com que ele qualifica o efeito produzido n\u00e3o se deve ao fato de que nada se acrescenta aos significantes al\u00e9m de sua dupla materialidade literal e sonora? N\u00e3o \u00e9 essa materialidade <em>tomada na palavra<\/em> que permite a Lacan (1966\/2004, p. 8) ver nessa obra uma primeira amarra\u00e7\u00e3o dos \u201ctr\u00eas registros \u2013 o simb\u00f3lico, o imagin\u00e1rio e o real \u2013 [&#8230;] jogando em estado puro com sua rela\u00e7\u00e3o mais simples\u201d?<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 definida assim por Lacan em sua homenagem a Lewis Carroll<a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>: h\u00e1 imagens com as quais o autor faz \u201cpuro jogo de combina\u00e7\u00f5es\u201d, isto \u00e9, ele as faz entrar em uma combinat\u00f3ria de tipo simb\u00f3lico, o que n\u00e3o deixa de produzir \u201cefeito de vertigem\u201d.<\/p>\n<p>Esse efeito \u00e9 obtido pelo procedimento que consiste em tomar todos os \u201ccorpos\u201d presentes na sua dimens\u00e3o de imagem em duas dimens\u00f5es e, ao mesmo tempo, em sua dimens\u00e3o f\u00edsica de tr\u00eas dimens\u00f5es, permitindo assim introduzir \u201ctodos os tipos de dimens\u00f5es virtuais\u201d tornadas sens\u00edveis pelas distor\u00e7\u00f5es produzidas por a\u00e7\u00f5es em 3D efetuadas por imagens em 2D, deslocamentos 2D sobre corpos 3D, encontros das imagens e dos corpos na dimens\u00e3o virtual rec\u00e9m-criada. Seria necess\u00e1rio igualmente situar uma quarta dimens\u00e3o, a do tempo, que vem aparecer no texto com as diversas acelera\u00e7\u00f5es, as desacelera\u00e7\u00f5es, e mais fundamentalmente nas rupturas de fase na narra\u00e7\u00e3o, que parecem responder a uma l\u00f3gica \u201ccatastr\u00f3fica\u201d ligada a nenhum sentido e a nenhuma causa. Enfim, s\u00e3o precisamente essas dimens\u00f5es virtuais que perfuram a realidade sens\u00edvel e \u201cfornecem acesso \u00e0 realidade [&#8230;] a mais garantida, aquela do imposs\u00edvel que se torna de repente familiar\u201d. Diremos que Lacan define aqui um real produto estrito de uma fic\u00e7\u00e3o, sem passar pelo mito \u2013 fic\u00e7\u00e3o que enoda ent\u00e3o R, S e I, sem que um dos registros se destine a dominar os outros, a \u201cgerenci\u00e1-los\u201d, a \u201cdomin\u00e1-los\u201d.<\/p>\n<p>Nossos modernos jogos virtuais t\u00eam tudo para invejar as fic\u00e7\u00f5es de \u201ctipo Alice\u201d,\u00a0 que conseguem, com uma maior economia de meios, esses efeitos contrastantes que Lacan (1966\/2004, p. 7) aponta: \u201csem que nos sirvamos de qualquer dist\u00farbio, a obra de Carroll produz um mal-estar que decorre de um j\u00fabilo singular\u201d. Certamente, esses jogos n\u00e3o se privam de se servir de certos transtornos, caro\u00e7os de fantasmas, mas esse mal-estar do qual decorre um gozo bem singular, n\u00e3o \u00e9 isso que os adultos, educadores e pais, t\u00eam tanta dificuldade em suportar no que nos arriscamos a nomear algumas vezes como \u201cv\u00edcio de jogos eletr\u00f4nicos\u201d. Os criadores de jogos eletr\u00f4nicos n\u00e3o s\u00e3o Lewis Carroll, mas s\u00e3o artistas que fazem obras. Que elas estejam infiltradas pelos significantes-mestres do discurso corrente n\u00e3o contraria sua fun\u00e7\u00e3o de sublima\u00e7\u00e3o: toda a for\u00e7a do objeto de arte, em todas as \u00e9pocas, est\u00e1 em se servir dos semblantes para capturar o espectador em sua err\u00e2ncia e fazer sobressair seu valor de gozo.<\/p>\n<p>Com a obra de Lewis Carroll, Lacan (1966\/2004, p. 12) d\u00e1 a ideia de um registro \u00e9pico esvaziado do id\u00edlio que nele se exprime, quando se acrescenta a ele a ideologia, de um registro \u00e9pico a ser situado em correla\u00e7\u00e3o com \u201co \u00e9pico da era cient\u00edfica\u201d. Esse \u00e9pico repousa em \u201cuma dial\u00e9tica materializada\u201d, tal como, precisa Lacan, \u201ca t\u00e9cnica assegura sua preval\u00eancia\u201d, se apoiando na hist\u00f3ria em quadrinho, anunciada pelos \u201cdesenhos com os quais Lewis Carroll estava t\u00e3o empenhado\u201d. E, portanto, esse tipo de fic\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9pica\u201d nos interessa especialmente, porque interessa \u00e0s crian\u00e7as de hoje, que encontram nela recursos outros para al\u00e9m dos \u201ccontos, mitos e lendas\u201d, onde gostar\u00edamos de localizar <em>p\u2019titom<\/em>, e porque ela interessa aos artistas que encontram na t\u00e9cnica, muito mais prevalente hoje, novos meios para materializar dialeticamente a \u201crede mais pura de nossa condi\u00e7\u00e3o de ser: o simb\u00f3lico, o imagin\u00e1rio e o real\u201d.<\/p>\n<p>In\u00fatil, aponta Lacan (1966\/2004, p. 10), querer indexar esse poder das palavras com as quais Alice faz \u201cilustra\u00e7\u00e3o e prova [&#8230;] de uma suposta articula\u00e7\u00e3o infantil, ou mesmo primitiva\u201d. O \u201ccora\u00e7\u00e3o da terra\u201d que Alice explora \u201cn\u00e3o abriga nenhuma caverna\u201d e\u00a0 o pa\u00eds das maravilhas, o para-al\u00e9m do espelho, o casal angustiante de S\u00edlvia e Bruno evadidos das terras de alhures que escaparam do pa\u00eds do al\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o nem mitos, nem mito [&#8230;]. Nem o texto nem o enredo fazem apelo a nenhuma resson\u00e2ncia de significa\u00e7\u00f5es que chamamos de profundas. N\u00e3o evocamos a\u00ed nem g\u00eanese, nem trag\u00e9dia, nem destino. (LACAN, 1966\/2004, p. 10)<\/p>\n<p>N\u00e3o encontramos nessas afirma\u00e7\u00f5es o eco invertido das lamenta\u00e7\u00f5es dos adultos sobre o empobrecimento das imagina\u00e7\u00f5es infantis na \u00e9poca dos jogos eletr\u00f4nicos, esquecidos que est\u00e3o de que seus assuntos cotidianos, tanto quanto os telejornais, saciam as mesmas crian\u00e7as com trag\u00e9dias sem nome, com destinos fulgurantes e com quedas irrevog\u00e1veis, com dial\u00e9ticas de vida e de morte literalmente des-materializadas.<\/p>\n<p><strong>Bricolagens<\/strong><\/p>\n<p>Uma psican\u00e1lise pode permitir a uma crian\u00e7a \u2013<em> p\u2019titom<\/em> do s\u00e9culo XXI \u2013 fazer de seu sintoma fic\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, que ela se deixe morder por ele e que ela leve em conta o que cai dele. Como? Drenando o sentido que se liga a ele, para fazer surgir dele o osso da coincid\u00eancia, do encontro contingente que veio bagun\u00e7ar sua vida, seu corpo, seu pensamento, l\u00e1 onde era esperada, aguardada, temida, a interven\u00e7\u00e3o de algum s\u00edmbolo que tornaria leg\u00edtimo o desejo em sua lei. O pequeno Hans permanece aqui sempre como nosso guia, mas n\u00e3o sem Alice. Hans, convidado pela cegonha sobre sua caixa de beb\u00eas e pelo cavalo que \u00e9 ferrado no pa\u00eds das maravilhas e do outro lado do espelho, descobre a\u00ed um mundo t\u00e3o estranho quanto o col\u00e9gio de Hogwarts, teatro das aventuras do jovem e \u00e1gil Harry Potter: uma m\u00e3e, fonte at\u00e9 ent\u00e3o inesgot\u00e1vel de riquezas, que agora se afasta sempre que ele tenta se aproximar dela; um pai que n\u00e3o pode nem se aborrecer, nem se ferir \u2013 ent\u00e3o que uso fazer dele?; um professor que fala com Deus e gosta de\u00a0 tudo o que ele diz, uma vez que est\u00e1 escrito; uma irm\u00e3zinha montada em um cordeiro; uma cegonha com chap\u00e9u e bengala; duas girafas, uma grita e a outra se encolhe; crian\u00e7as imagin\u00e1rias; calcinhas femininas; um serralheiro que muda a banheira e sua grande furadeira; um serralheiro que desparafusa e torna a parafusar, mas n\u00e3o tudo&#8230; Todo um \u201cmobili\u00e1rio instintual\u201d (LACAN, 1956-57\/1995, p. 409) que faz o que quer e com o qual <em>p\u2019titom <\/em>tenta fazer\u00a0 bricolagens: por que ent\u00e3o seria necess\u00e1rio que ele tivesse a \u00faltima palavra?<\/p>\n<p>Os sintomas s\u00e3o nossas fic\u00e7\u00f5es e \u00e9 com essa l\u00f3gica que um psicanalista pode se formar para permitir \u00e0s crian\u00e7as do s\u00e9culo fazerem uso dela com a mesma destreza, com a mesma alegria que elas demonstram em seus jogos aparelhados com a modernidade t\u00e9cnica. Assim, elas poder\u00e3o, explorando os territ\u00f3rios de seus mitos e o litoral de <em>lal\u00edngua<\/em>, obter de passagem uma certa margem de liberdade, ou de manobra, junto aos objetos do s\u00e9culo, pelo simples fato de dispor de objetos de maior valor, por terem sido isolados, estimados, apreciados, pela exaust\u00e3o de suas fic\u00e7\u00f5es, e daqui em diante dispon\u00edveis para jogos de \u201cdial\u00e9tica materializada\u201d com seus parceiros no jogo da vida.<\/p>\n<p>No meio desta palavra que ele tentava dizer,<\/p>\n<p>No meio de sua alegria e de seu riso loucos,<\/p>\n<p>De repente, muito devagar, ele tinha desaparecido,<\/p>\n<p>Pois o Snark, veja voc\u00ea, era um Boojum.<\/p>\n<p>(CARROLL, 1876\/2017)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcia Bandeira<br \/>\nRevis\u00e3o: Beatriz Esp\u00edrito Santo<\/h6>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>CARROLL, L. <em>A ca\u00e7a ao Snark<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Bruna Beber. Rio de Janeiro: Editora Galera, 2017. (Trabalho original publicado em 1876).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. Associa\u00e7\u00f5es de uma crian\u00e7a de quatro anos de idade. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/em>.\u00a0 Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVIII, 1982. (Trabalho original publicado em 1920).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. IV, 1996. (Trabalho original publicado em 1900).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. An\u00e1lise de uma fobia em um menino de 5 anos (\u201cPequeno Hans\u201d). In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. X, 1996, p. 13-131. (Trabalho original publicado em 1909).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. (Trabalho original proferido em 1964).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 4<\/em>: A rela\u00e7\u00e3o de objeto. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. (Trabalho original proferido em 1956-57).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. A inst\u00e2ncia da letra no inconsciente ou a raz\u00e3o desde Freud. In: <em>Escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 496-533. (Trabalho original publicado em 1957).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 23, p. 6-16, dez. 1998. (Trabalho original proferido em 1975).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Rumo a um significante novo. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 22, ago.\u00a01998. (Trabalho original publicado em 1977).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Lituraterra. In: <em>Outros escritos. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 11-25. (Trabalho original publicado em 1971).<\/h6>\n<h6>LACAN,\u00a0J. Homenagem a Lewis Carroll. <em>Ornicar?<\/em>, v. 1, p. 7-4, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. (Trabalho original publicado em 1966).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. Joyce, o sintoma. In: <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 6<\/em>: O desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016. (Trabalho original publicado em 1958-59).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Pr\u00e9sentation du S\u00e9minaire IV. <em>La Lettre mensuelle<\/em>, n. 128, abr. 1994.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Nota passo a passo. In: LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 237<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Agradecemos a Daniel Roy pela gentil autoriza\u00e7\u00e3o para traduzirmos e publicarmos seu texto nesta edi\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nota do Tradutor: Neologismo criado a partir de \u201c<em>parl\u00eatre<\/em>\u201d, transformado em verbo ao se acrescentar a termina\u00e7\u00e3o \u201cer\u201d, gerando algo como \u201cfalastrar\u201d, em portugu\u00eas.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do T.: Termo utilizado em ingl\u00eas pelo autor; em portugu\u00eas: \u201cacordo\u201d, \u201ccontrato\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nota do Editor.: <em>Pocket Monster<\/em> (\u201cmonstros de bolso\u201d) \u00e9 o nome original dos bonecos japoneses <em>Pok\u00e9mon<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.: Manteremos nesta tradu\u00e7\u00e3o o original em franc\u00eas de \u201c<em>P\u00b4titom<\/em>\u201d, que em portugu\u00eas foi traduzido como \u201cPt\u2019homenzim\u201d. Ver pr\u00f3xima Nota do Editor.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.: No original em franc\u00eas, Lacan diz: \u201c<em>Ptom, p\u2019titom, p\u2019titbonhomme<\/em>\u201d. Cf.: LACAN, J. <em>Le S\u00e9minaire, livre XXIII<\/em>: Le sinthome. Paris: Seuil, 2005. p. 161.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do T.: \u201cNo original, \u2018<em>uom<\/em>\u2019 e \u2018<em>u. o. m<\/em>\u2019 s\u00e3o respectivamente <em>lom<\/em> e <em>l. o. m<\/em>. Homofonicamente esses termos, em franc\u00eas, referem-se \u00e0 <em>homme<\/em> (\u2018homem\u2019)\u201d. Cf.: Nota do Tradutor, em LACAN, 1975-76\/2007, p. 165.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.: Cf.: \u201cO sonho da pequena Anna\u201d, em: LACAN, 1958-59\/2007, p. 73-92.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.: No original deste texto, Daniel Roy apresenta esse trecho conforme a edi\u00e7\u00e3o francesa de \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u201d: \u201c<em>Anna Freud, fraises, grosses fraises, flan, bouillie<\/em>\u201d. No original em alem\u00e3o, Freud escreve: \u201c<em>Anna Feud, Er(d)beer, Hochbeer Eier(s)peis, Papp<\/em>!\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do T.: Em ingl\u00eas no texto original, em portugu\u00eas, \u201cchefes\u201d; Daniel Roy se refere aqui aos NPC, \u201cpersonagens n\u00e3o jog\u00e1veis\u201d por nenhum jogador real, mas controlados por IA, que desafiam os jogadores reais durante as partidas de jogos eletr\u00f4nicos.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.: Igualmente referente a jogos eletr\u00f4nicos: os pontos de vista, ou perspectivas de c\u00e2mera, escolhidos por cada jogador, referem-se \u00e0 forma como ele interage com o mundo durante o jogo, afetando sua experi\u00eancia de uso e sua estrat\u00e9gia na partida.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.: Novamente, uma refer\u00eancia ao mundo dos jogos eletr\u00f4nicos: as <em>gangs<\/em> s\u00e3o grupos que se juntam para as partidas <em>on-line<\/em>. Aqui o autor joga com a homofonia entre a palavra inglesa \u201c<em>gang<\/em>\u201d, \u201cgangue\u201d ou \u201cbando\u201d em portugu\u00eas, e a palavra francesa \u201c<em>guangue<\/em>\u201d, \u201ccasca\u201d em portugu\u00eas. No original: \u201c&#8230;<em>la gangue, ou le gang<\/em>&#8230;\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.: Daniel Roy faz aqui uma alus\u00e3o \u00e0 passagem da \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d, em que Lacan (1975\/1998, p. 15) alude ao fato de Hans ter feito os sintomas que fez \u201cgra\u00e7as ao fato de que tem um certo\u00a0tipo\u00a0de pai e um certo\u00a0tipo\u00a0de m\u00e3e\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do T.: <em>Joui-sens<\/em>: palavra composta formada pelo verbo \u201cgozar\u201d no imperativo, \u201c<em>joui<\/em>\u201d, e pelo substantivo \u201csentido\u201d, \u201c<em>sens<\/em>\u201d, e que produz uma homofonia com a palavra \u201c<em>jouissance<\/em>\u201d, que quer dizer \u201cgozo\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.: \u201c<em>Dummheit<\/em>\u201d no original de Freud em alem\u00e3o, traduzido em portugu\u00eas por \u201cbobagem\u201d (FREUD, 1909\/1996); no Semin\u00e1rio 4 (LACAN, 1956-57\/1995) tamb\u00e9m aparece traduzido por \u201cbobagem\u201d, do original \u201c<em>b\u00eatise<\/em>\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><sup>[16]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.: Cf. \u201cEnsaio de uma l\u00f3gica de borracha\u201d (LACAN, 1956-57\/1995, p. 397): \u201cComo a topologia \u00e9 uma geometria de borracha, trata-se aqui, tamb\u00e9m, de uma l\u00f3gica de borracha.\u201d<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup>[17]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N. do E.\u00a0: Na tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas do caso Hans optou-se por \u201cbroca\u201d (FREUD, 1909\/1996); no Semin\u00e1rio 4 em portugu\u00eas optou-se por \u201cbroca ou furadeira\u201d (LACAN, 1956-57\/1995, pp. 341 e 370).<\/h6>\n<h6><a href=\"\/revista_almanaque\/#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup>[18]<\/sup><\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nota do Autor: Nos referiremos ao extraordin\u00e1rio trabalho de nossa colega Sophie Marret, publicado em <em>Ornicar<\/em>?, n. 50, sob o t\u00edtulo \u201cLacan sur Lewis Carroll\u201d.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; \u201cJ\u00e1 aprendemos\u00a0de\u00a0numerosas observa\u00e7\u00f5es incontest\u00e1veis\u00a0a idade precoce em que as\u00a0crian\u00e7as sabem\u00a0como utilizar-se de\u00a0s\u00edmbolos.\u201d\u00a0 (FREUD, 1920\/1984, p. 319) Daniel Roy[1] Membro da \u00c9cole de la Cause Freudienne (ECF) e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP) E-mail: danielroy@wanadoo.fr &nbsp; Voc\u00ea pode procur\u00e1-lo com dedal \u2013 e procur\u00e1-lo com cuidado; Voc\u00ea pode ca\u00e7\u00e1-lo com garfos e esperan\u00e7a;&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57629,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[41],"tags":[],"class_list":["post-3843","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-35","category-41","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3843","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3843"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3843\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57630,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3843\/revisions\/57630"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57629"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}