{"id":430,"date":"2011-07-15T07:47:44","date_gmt":"2011-07-15T10:47:44","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=430"},"modified":"2011-07-15T07:47:44","modified_gmt":"2011-07-15T10:47:44","slug":"no-meio-de-todo-caminho-sempre-havera-uma-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2011\/07\/15\/no-meio-de-todo-caminho-sempre-havera-uma-pedra\/","title":{"rendered":"No Meio De Todo Caminho Sempre Haver\u00e1 Uma Pedra"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\" style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"font-size: 14px;\">ROSIMEIRE SILVA<\/strong><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Bom dia a todos! Eu quero come\u00e7ar, como convidada que sou, agradecendo o convite para estar aqui e a todos pela presen\u00e7a e resposta a esse convite. \u00c9 muito bom poder estar aqui. Para mim, que venho das barrancas do S\u00e3o Francisco, do Sert\u00e3o, este lugar, este momento, se constitui como uma vereda, um bom momento, um bom lugar para parar e pensar a vida. No meio do sert\u00e3o, \u00e9 sempre dif\u00edcil, sob o sol escaldante, no meio da terra ressequida, pensar a vida no caminhar dela, da\u00ed a import\u00e2ncia de ter uma vereda, por isso o grande sert\u00e3o tem dois pontos, e \u00e9 vereda tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, considero este momento como um momento de refresco, porque, como coordenadora da pol\u00edtica de sa\u00fade mental da cidade, tenho sido interpelada, todos os dias, v\u00e1rias vezes por dia, a responder algo sobre as drogas, sobre esse novo fen\u00f4meno, essa nova dimens\u00e3o que a toxicomania coloca hoje para a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, infelizmente, nem sempre somos convidados a pensar. E quando ousamos faz\u00ea-lo, n\u00e3o nos recusamos a pensar, n\u00e3o \u00e9 do nosso feitio recuar, pagamos o pre\u00e7o por introduzir, no coro dos aflitos, uma nota dissonante. Ent\u00e3o, estar aqui e poder conversar, conversar com pessoas que querem pensar sobre o assunto, e n\u00e3o se anestesiar com o tema, que \u00e9 o que a droga vem produzindo hoje, uma intoxica\u00e7\u00e3o da sociedade que nos impede de pensar o que isso nos diz sobre n\u00f3s mesmos, \u00e9 muito bom. Henri j\u00e1 introduziu, um pouco, a hist\u00f3ria que nos trouxe aqui. E, de fato, \u00e9 essa a hist\u00f3ria, \u00e0 qual fazemos apenas um acr\u00e9scimo. Ou melhor, dois agradecimentos: primeiro, ao Fred e \u00e0 Helenice e, depois, \u00e0 Cristiane Barreto, por termos dialogado em momentos distintos e delimitado quais eram as preocupa\u00e7\u00f5es de lado a lado. Aos tr\u00eas e ao Henri, nosso obrigado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos l\u00e1. Quero dividir com voc\u00eas um pouco da elabora\u00e7\u00e3o que temos feito dentro da pol\u00edtica de sa\u00fade mental de Belo Horizonte, n\u00e3o sem antes destacar que entendemos que uma pol\u00edtica de aten\u00e7\u00e3o aos usu\u00e1rios de \u00e1lcool e outras drogas n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica que se reduz \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, tampouco da sa\u00fade mental. Mas deve ser fruto de uma a\u00e7\u00e3o intersetorial. Quando o Henri me pergunta o que pensa a Prefeitura, eu posso dizer a todos o que tem sustentado, e n\u00e3o sem dificuldades, a sa\u00fade mental, e que a Prefeitura reflete o que est\u00e1 posto na sociedade. Tem o nosso pensamento e tem o pensamento moralista, dentro dela, e \u00e9 na discuss\u00e3o, no debate, no enfrentamento, no di\u00e1logo cotidiano, que temos constru\u00eddo as possibilidades para continuar a sustentar a pol\u00edtica na qual acreditamos: uma pol\u00edtica n\u00e3o segregativa, como j\u00e1 anunciou o Beneti. Vamos ao texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No meio de todo caminho, sempre haver\u00e1 uma pedra<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\"><em>No meio do caminho tinha uma pedra<\/em><br \/>\n<em>Tinha uma pedra no meio do caminho<\/em><br \/>\n<em>nunca me esquecerei desse acontecimento<\/em><br \/>\n<em>na vida de minhas retinas t\u00e3o fatigadas<\/em><br \/>\n<em>nunca me esquecerei que no meio do caminho<\/em><br \/>\n<em>tinha uma pedra.<\/em><br \/>\n<em>(Carlos Drummond de Andrade, 2009, p.267)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s se confrontar, inventar respostas para a quest\u00e3o: \u00e9 poss\u00edvel um novo lugar social para a loucura? \u2014 pergunta que a fez surgir como uma pol\u00edtica \u2014 a Reforma Psiqui\u00e1trica \u00e9, hoje, convocada a responder a outro e novo desafio. Qual o lugar e como responder aos que encontram nas drogas o modo de se experimentar humano? Encontro, vale dizer, nem sempre saud\u00e1vel ou feliz, mas ainda assim um encontro. Um modo de resposta ou solu\u00e7\u00e3o adotada por alguns para tratar o mal-estar, sua falta de lugar. Enfim, uma solu\u00e7\u00e3o, um dos destinos poss\u00edveis para a puls\u00e3o que pode e deve ser assim escutado e tratado. Um modo de resposta que pede \u00e0 sociedade para n\u00e3o recuar diante de uma das express\u00f5es do dano causado pela civiliza\u00e7\u00e3o, sendo ainda capaz de formular a esse mesmo mal respostas solid\u00e1rias, cidad\u00e3s e, sobretudo, singulares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um bom desafio. Ou melhor, um desafio que, para ser verdadeiramente bom e produtivo, deve provocar mais perguntas que respostas, mais d\u00favidas que certezas, menos expertise e mais vida. A pol\u00edtica do mal-estar deve, ao mesmo tempo, ser capaz de ofertar e sustentar uma cl\u00ednica cidad\u00e3, tratando em liberdade e com dignidade os que sofrem e, indo al\u00e9m de si, deve intervir sobre a cultura da exclus\u00e3o que os amea\u00e7a. Uma cl\u00ednica antimanicomial da toxicomania n\u00e3o pode se furtar a questionar os nomes com os quais a sociedade define a drogadi\u00e7\u00e3o e os sujeitos que se intoxicam. Drogado, delinquente, criminoso, pecador ou doente s\u00e3o, sem exce\u00e7\u00e3o, identidades marginais e, como tais, coladas a um destino previamente tra\u00e7ado: fora da cidadania. Desconstruir tais identidades \u00e9 condi\u00e7\u00e3o preliminar para tratar a singularidade de cada experi\u00eancia de drogadi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A articula\u00e7\u00e3o entre a cl\u00ednica e a pol\u00edtica, pressuposto que h\u00e1 algum tempo nos orienta, novamente mostra sua validade. Campos distintos, por\u00e9m conexos, que podem ser mais fecundos se e quando perpassados por uma mesma orienta\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Tratar a drogadi\u00e7\u00e3o, em sua dimens\u00e3o singular, convoca o Estado e a sociedade a adotarem e oferecerem estrat\u00e9gias e recursos de prote\u00e7\u00e3o que reduzam os danos \u00e0 vida, criando dispositivos de suporte necess\u00e1rio a cada situa\u00e7\u00e3o, ampliando, desse modo, as respostas poss\u00edveis para o sofrimento, sem, no entanto, ceder \u00e0 armadilha f\u00e1cil do ecletismo, do vale-tudo. A complexidade e diversifica\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma rede de aten\u00e7\u00e3o precisam de eixo, carecem, sempre, de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se ao Estado e \u00e0 sociedade cabe a tarefa de recusar o ecletismo produtor de excesso de ofertas sem orienta\u00e7\u00e3o, repudiando tamb\u00e9m o atalho reducionista que adequa os sujeitos a um \u00fanico lugar, do lado dos usu\u00e1rios, tamb\u00e9m ocorrem mudan\u00e7as. O convite passa a ser outro: de submisso \u00e0 norma contra a qual se revolta em sua escolha de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, este \u00e9 agora convidado a responder pelo pr\u00f3prio prazer, a encontrar sua medida, seu jeito pr\u00f3prio de minimizar os riscos, aceitando o desafio de \u201cexercer sua liberdade\u201d, como definiu um usu\u00e1rio de crack. Coisa dif\u00edcil de fazer! F\u00e1cil, mesmo, \u00e9 prescrever, ditar e escutar regras para disciplinar o prazer ou gozo, ainda que saibamos de antem\u00e3o que s\u00e3o grandes as chances de fracasso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos s\u00e3o os desafios que espreitam a Reforma Psiqui\u00e1trica, nesse encontro com os usu\u00e1rios de \u00e1lcool e outras drogas. Dentre estes, destaco dois. Primeiro, o desafio e a necessidade de distinguir, no meio da algazarra autorit\u00e1ria e silenciadora, a voz a ser escutada: a do usu\u00e1rio. Discurso ainda ausente no debate sobre a pol\u00edtica, a palavra do usu\u00e1rio deve ser sempre a b\u00fassola a indicar o caminho. E, segundo, o desafio de manter a firmeza necess\u00e1ria para n\u00e3o ceder a press\u00f5es e chantagens pol\u00edticas e sociais ofertando uma pluralidade de servi\u00e7os orientados por \u00e9ticas opostas. Querer conciliar o inconcili\u00e1vel \u00e9 optar pelo atalho. Um tipo de solu\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo simplista e total, que quase sempre camufla diferen\u00e7as em nome de interesses, por vezes, incompat\u00edveis com os interesses p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Pedra No Meio Do Caminho: Epidemia Do Discurso Moral?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pedra que se imp\u00f4s ao caminho da Reforma: o crack, curiosamente, n\u00e3o \u00e9 o principal anest\u00e9sico adotado para tratar o mal-estar pela maioria dos jovens brasileiros. Ao contr\u00e1rio do que se afirma, os \u00edndices de consumo de crack no Brasil n\u00e3o chegam a 1%. De acordo com o \u00faltimo levantamento realizado pelo CEBRID, 0,7% dos jovens fez uso dessa droga uma \u00fanica vez, ou seja, encontraram no crack, em algum momento de suas vidas, o lenitivo ou a distra\u00e7\u00e3o que buscavam. E 0,2% estabeleceu com o mesmo uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia. O n\u00famero dos que usaram uma \u00fanica vez, de acordo com o professor Elisaldo Carlini, um dos autores da pesquisa, permanece est\u00e1vel sete anos depois (0,7%). Ou seja, em 2011, o \u00edndice de consumo de crack entre jovens est\u00e1 longe de configurar uma epidemia. E, de acordo com o Prof. Carlini, o \u00faltimo levantamento sobre consumo de drogas revela que foi insignificativo o n\u00famero dos que usaram crack mais de 20 vezes. Ainda de acordo com o CEBRID, as drogas mais utilizadas pelos jovens s\u00e3o o \u00e1lcool, seguido pelo tabaco, depois os solventes, maconha, coca\u00edna, crack, anfetam\u00ednicos, ansiol\u00edticos, entre outros. Como se v\u00ea, s\u00e3o as drogas l\u00edcitas os meios mais utilizados para afastar o mal-estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dados do CEBRID coincidem com os levantados pela Equipe de Sa\u00fade da Fam\u00edlia dos adolescentes privados de liberdade. Dispositivo de cuidado criado pela Secretaria Municipal de Sa\u00fade para aten\u00e7\u00e3o aos adolescentes infratores que leva a sa\u00fade ao encontro dos adolescentes, no tempo do cumprimento de uma medida. Entre os adolescentes privados de liberdade, o crack \u00e9 utilizado por menos de 1%, sendo tamb\u00e9m bastante reduzido o n\u00famero de ocorr\u00eancia de crises de abstin\u00eancia de drogas entre estes. E isso indica um modo de uso da maioria desses adolescentes que n\u00e3o se caracteriza como depend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os meninos e meninas em situa\u00e7\u00e3o de rua, p\u00fablico atendido pelo consult\u00f3rio de rua, dispositivo da rede de sa\u00fade mental criado para atender, prioritariamente, crian\u00e7as e adolescentes nessa situa\u00e7\u00e3o e que fa\u00e7am uso de \u00e1lcool e outras drogas, ou seja, vivendo numa dupla situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, a droga utilizada n\u00e3o \u00e9 o crack. O t\u00f3xico que os anestesia \u00e9 o mesmo de 30 anos atr\u00e1s: thinner e lol\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embara\u00e7ados e em conflito com a lei, os novos e pequenos sujeitos do perigo social t\u00eam recebido um duro tratamento para suas quest\u00f5es. O leque de op\u00e7\u00f5es ou de ardis, com os quais nosso tempo tem respondido a esses sujeitos, n\u00e3o os convida a fazer parte da comunidade humana. A resposta que nossa sociedade tem dado ao que escapa \u00e0 norma, aos atos dos adolescentes que transgridem ou perturbam a norma social, tem condenado e conduzido parte de nossos jovens ao encarceramento precoce. Uma realidade que pede den\u00fancia e reivindica oferta de dispositivos capazes de acolher o estrangeiro que habita esses pequenos corpos. Respostas que deem lugar ao mal e \u00e0 loucura de cada um, possibilitando a inven\u00e7\u00e3o de modos singulares de inscri\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a no universal da cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe, ent\u00e3o, indagar aos que sustentam a exist\u00eancia de uma epidemia de crack no pa\u00eds sobre o que est\u00e3o falando ou do que querem falar e quais s\u00e3o suas reais preocupa\u00e7\u00f5es. Ser\u00e3o os perturbadores efeitos da drogadi\u00e7\u00e3o hoje? Ou ser\u00e1 o drama real dos que sofrem com a depend\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tratar o uso de crack ou de qualquer outra droga como uma epidemia pode, facilmente, nos conduzir \u00e0 ado\u00e7\u00e3o e autoriza\u00e7\u00e3o de medidas de for\u00e7a, \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es repressivas que, al\u00e9m de precipitar interven\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias de car\u00e1ter higienista, trar\u00e3o pouco ou nenhum al\u00edvio \u00e0 dor dos que, de fato, sofrem com as consequ\u00eancias de uma depend\u00eancia. O tratamento de uma epidemia requer uma a\u00e7\u00e3o imediata e autoriza o Estado a intervir sobre a vida privada, e essas medidas costumam causar mais dor. Caso n\u00e3o se fa\u00e7a o corte, n\u00e3o se entoe a nota dissonante ao coro dos aflitos, a cren\u00e7a na exist\u00eancia de uma epidemia de crack acabar\u00e1 nos conduzindo ao desrespeito \u00e0 democracia e aos princ\u00edpios legais, reguladores do viver comum. \u00c9 preciso cautela na escolha, pois j\u00e1 nos advertiu Guimar\u00e3es Rosa: \u201cquerer o bem com demais for\u00e7a, de incerto jeito, pode estar sendo se querendo o mal, por principiar\u201d (ROSA, 1984, p.16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro dado que chama a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem sido destacado no debate sobre as drogas, ou seja, o n\u00famero dos jovens que estabelecem com as drogas uma rela\u00e7\u00e3o de trabalho. A inser\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes nas redes de tr\u00e1fico foi definida pela ONU como uma grave viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos, como a pior forma de trabalho infantil. E o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses signat\u00e1rios desse tratado, fato que imp\u00f5e a seus governantes e \u00e0 sociedade a tarefa de responder a essa realidade com a urg\u00eancia e a delicadeza necess\u00e1rias. Crian\u00e7as e adolescentes fora da escola, trabalhando para o tr\u00e1fico, retratam uma viol\u00eancia socialmente produzida e sustentada. Trabalhar para o tr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma escolha individual. Mas condi\u00e7\u00e3o intimamente associada \u00e0 mis\u00e9ria e \u00e0 falta de escolhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Crack, Lixo, Cracol\u00e2ndia: O Que Essa Associa\u00e7\u00e3o Indica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O debate que coloca o crack como seu ponto central produz nomea\u00e7\u00f5es, inventa lugares e reedita pol\u00edticas de segrega\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o como resposta para o mal-estar. Entre as nomea\u00e7\u00f5es propostas e os lugares inventados, uma faz eco pelo pa\u00eds: a chamada cracol\u00e2ndia. A imprensa insiste em sua exist\u00eancia, conhece o mapa de sua localiza\u00e7\u00e3o e afirma haver na cidade o lugar que \u00e9 a p\u00e1tria dos craqueiros. As imagens desse pa\u00eds distante\/pr\u00f3ximo, desse lugar \u00eaxtimo \u2014 distante porque ali se conjura e se tenta expiar todo o mal, toda a amea\u00e7a, demarcando a fronteira do inimigo a ser combatido, e pr\u00f3ximo, porque, ainda que se insista e se repita a localiza\u00e7\u00e3o desse lugar como estrangeiro, apartado de n\u00f3s, ele, entretanto, est\u00e1 encravado no corpo da cidade e traz os signos do imundo. Esse peda\u00e7o da cidade tem em comum com seus habitantes tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es: a sujeira, a aus\u00eancia de beleza e a viol\u00eancia. \u00c9 assim em S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m \u00e9 assim em Belo Horizonte. Nesse ponto equidistante, por\u00e9m cravado no corpo da cidade, a sociedade busca conjurar e expiar todo o mal, toda amea\u00e7a, demarcando a fronteira do inimigo a ser combatido. A popula\u00e7\u00e3o desse territ\u00f3rio, seus moradores e os usu\u00e1rios de crack vivem na mesma condi\u00e7\u00e3o: \u00e0 margem de quase todos os direitos sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cracol\u00e2ndias n\u00e3o s\u00e3o lugares em si, s\u00e3o efeito de discurso. Portanto, m\u00f3veis, deslizantes. Hoje, na Pedreira, amanh\u00e3, poder\u00e1 ser na Serra ou em outra favela qualquer da cidade. Essa alcunha preconceituosa, cracol\u00e2ndia, \u00e9, sobretudo, o modo como a imprensa e a cidade localizam e conjuram seu mal em territ\u00f3rios esquecidos pelo Estado. Lugar dos abandonados e pobres, onde lixo e sujeira se acumulam. Lugar onde homens e mulheres, invis\u00edveis \u00e0 cidade, dividem com o lixo um mesmo territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O lixo que cerca os homens e serve de espelho para sua condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, contudo, uma escolha individual. \u00c9 neglig\u00eancia p\u00fablica, \u00e9 hipocrisia social, que v\u00ea, nos corpos, sujeira e degrada\u00e7\u00e3o, sem enxergar, ou melhor, ignorando a responsabilidade que cabe a todos e ao poder p\u00fablico na produ\u00e7\u00e3o e tratamento adequado dos res\u00edduos di\u00e1rios. Eis aqui uma tarefa que nos compete: o trabalho de desconstruir a articula\u00e7\u00e3o significante crack\/lixo, pois sabemos que a mesma, al\u00e9m de evocar uma identifica\u00e7\u00e3o com o dejeto, autoriza a viol\u00eancia e a arbitrariedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada \u00e9poca tem sua pr\u00f3pria droga, afirmam alguns estudiosos. A nossa n\u00e3o poderia ser outra, sen\u00e3o o crack. Ve\u00edculo que conduz ao prazer fugaz e imediato, bem de acordo com o ideal do nosso tempo, que prediz o consumo como um imperativo e uma necessidade inadi\u00e1vel. Uma m\u00e1xima para a nossa sociedade poderia ser assim formulada: consumir, \u00e9 preciso; viver, n\u00e3o \u00e9 preciso. [1] Nessa sociedade de consumidores, diz Bauman,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\"><em>[\u2026] a percep\u00e7\u00e3o e o tratamento de praticamente todas as partes do ambiente social e das a\u00e7\u00f5es que evocam e estruturam tendem a ser orientados pela s\u00edndrome consumista, que, encurtando drasticamente o lapso de tempo que separa o querer do obter, coloca, entre os desejos humanos, a apropria\u00e7\u00e3o, rapidamente seguida pela remo\u00e7\u00e3o de dejetos, no lugar de bens e prazeres duradouros (BAUMAN, 2009, p.109)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou, nos dizeres de Saramago: \u201ccomo tudo na vida, o que deixou de ter serventia deita-se fora. Incluindo as pessoas\u201d (SARAMAGO, 2000, p.130). Noutras palavras: somos uma sociedade produtora de lixo, de restos materiais e sociais, viciada em consumo e em descarte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Pedreira Prado Lopes n\u00e3o \u00e9 a cracol\u00e2ndia, mas continua a ser um bairro pobre, onde a viol\u00eancia \u00e9 cotidiana. E onde, hoje, o uso do crack se faz em p\u00fablico. A fantasia do mal que circula pela cidade diz que o crack \u00e9 pr\u00f3prio daquele lugar. Mas sabemos, ou temos raz\u00f5es para desconfiar, que ele est\u00e1 em todos os lugares: nos becos, nas bocas, nas favelas, mas tamb\u00e9m nos bairros nobres ou da classe m\u00e9dia, nas escolas, nas casas, nas pris\u00f5es. Circula pela cidade, de m\u00e3o em m\u00e3o, ou de boca em boca, e funciona n\u00e3o s\u00f3 como anest\u00e9sico para a dor, ou via de acesso ao prazer solit\u00e1rio e pleno. \u00c9 tamb\u00e9m objeto de trabalho e aditivo do qual alguns lan\u00e7am m\u00e3o, para poder produzir mais e melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O efeito de ades\u00e3o ao ideal capitalista \u00e9 evidente no modo de uso do crack adotado, por exemplo, por pescadores e cortadores de cana-de-a\u00e7\u00facar. No universo dos craqueiros, nem todos o utilizam para se desligar do mundo. Alguns, submetidos a desumanas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, usam crack para melhor se ajustar ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, cada dia mais cruel e impiedoso. Muito bem ajustados \u00e0 engrenagem capitalista, nem por isso esses sujeitos se salvam. Aqui, na Pedreira, encontramos uma vers\u00e3o desse modo de uso: trabalhadores, de \u00e1reas diversas (encrachazados, como brinca a equipe), sobem o morro, no fim do dia de trabalho, em busca de crack. L\u00e1, fazem seu uso, retornam a suas casas e vidas, depois de um breve intervalo entre o labor e o prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossas andan\u00e7as pelos becos e ruas, ao lado de usu\u00e1rios de \u00e1lcool e outras drogas, vamos cuidando, recolhendo palavras, res\u00edduo humano que ajuda a tecer o la\u00e7o, e aprendendo com o que a realidade nos traz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Extra\u00edmos da pr\u00e1tica cotidiana pontos de orienta\u00e7\u00e3o. Identificamos tra\u00e7os de diferen\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o com as drogas: efeitos e modos de uso. Aprendemos a reconhecer as drogas presentes em cada territ\u00f3rio e os cen\u00e1rios que propiciam ou que se criam no momento do uso. Com as crian\u00e7as e adolescentes, por exemplo, identificamos um tra\u00e7o comum e sempre destacado nos estudos sobre popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua: o uso da droga como um momento de conv\u00edvio e troca. Em torno do thinner e do lol\u00f3, as crian\u00e7as e adolescentes de rua, assim como os adultos de rua fazem com o \u00e1lcool, se juntam, se conectam, dividem hist\u00f3rias e superam a solid\u00e3o da vida nas ruas. A droga, nesse cen\u00e1rio, aparece como rem\u00e9dio para a dor singular, mas tamb\u00e9m como ant\u00eddoto contra a solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa cena de uso de drogas, trabalhamos usando a disposi\u00e7\u00e3o para o la\u00e7o a favor de um tratamento poss\u00edvel, ou seja, estimulamos o conv\u00edvio entre eles e a cidade, introduzindo na roda outros objetos: tinta, pincel, ingresso de cinema, circo, passeio, atividades, como modos substitutivos de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, e convidamos a outros la\u00e7os com a vida, com o mundo, com o Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse tem sido o momento mais ameno, mais f\u00e1cil. A dificuldade com essas crian\u00e7as n\u00e3o \u00e9 dada pela depend\u00eancia do thinner ou do lol\u00f3. N\u00e3o \u00e9 ditada pela droga, mas pelo osso da vida. Sem redes, equilibrando-se sobre o abismo da desprote\u00e7\u00e3o, \u201calimentando-se de blues\u201d (HOLLANDA, 1984), esses meninos e meninas atiram pedras, ficam nus, caem, riem, s\u00e3o amea\u00e7ados de morte, esquivam-se ao contato, \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o, e resistem a abandonar o la\u00e7o com a rua e seus perigos. Dizem: \u201cpr\u00e1 casa n\u00e3o volto\u201d. O n\u00f3 dessa experi\u00eancia passa pela conquista de uma morada para o cidad\u00e3o que tamb\u00e9m acolha as quest\u00f5es do sujeito. Encontrar a via de retorno a casa e \u00e0 fam\u00edlia, sem tolas imposi\u00e7\u00f5es de adequa\u00e7\u00e3o ao que fracassou (a fam\u00edlia) e sem tampouco precipitar a sa\u00edda, enxergando casa onde h\u00e1 apenas simulacro desta, teto e cama, sem singularidade e afeto, tra\u00e7os marcantes da institucionaliza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as, tem-se mostrado uma dificuldade real. A sa\u00edda aqui pede recursos de outras pol\u00edticas, demanda o trabalho em rede, efetivo e potente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o crack, a hist\u00f3ria \u00e9 outra. \u201cQuando uso isto aqui, n\u00e3o gosto de nada, n\u00e3o\u201d, palavras de um usu\u00e1rio que demarcam o momento em que a abordagem n\u00e3o \u00e9 bem-vinda. Gozo solit\u00e1rio, breve, desconectado do Outro, mesmo quando pr\u00f3ximo, cuja possibilidade de entrada passa pelo adiamento de outra experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o, gerando um intervalo que tamb\u00e9m \u00e9 redu\u00e7\u00e3o de danos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na estrat\u00e9gia de reduzir os danos, a sa\u00fade vai aprendendo a medida da satisfa\u00e7\u00e3o com cada sujeito, oferecendo a cada um recursos parciais, pequenas estrat\u00e9gias que convidam a outro modo de cuidado de si. Deixando a droga \u00e0 margem, cria chances para o sujeito, distra\u00edda, disfar\u00e7ada ou decididamente, fazer perguntas, pedir ajuda, aceitar o la\u00e7o com o Outro e se deixar acompanhar. Buscar o la\u00e7o \u00e9 orienta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nesse cen\u00e1rio. E aqui tiramos partido do intervalo. Entre uma pedra e a pr\u00f3xima, a acolhida e a conversa com a equipe, eis que surge uma novidade: a institui\u00e7\u00e3o, pelos usu\u00e1rios, da regra fundamental. \u201cN\u00e3o fumar, para conversar\u201d. \u00c9 preciso falar, colocar palavras, e n\u00e3o pedras, sobre o vazio, para fazer margem e circunscrever o gozo. A equipe se posiciona e trabalha buscando dilatar o tempo, fazendo mais atrativa e interessante a conversa que enla\u00e7a uns aos outros, permitindo que a palavra circule e crie possibilidades para que um pedido ou um convite ao tratamento encontrem condi\u00e7\u00f5es para acontecer. E isso confirma que o contr\u00e1rio da depend\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a abstin\u00eancia, mas a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 assim, na semeadura e coleta di\u00e1ria no campo de trabalho, com palavras e artefatos distintos, que se tecem os la\u00e7os entre usu\u00e1rio, equipe e moradores do territ\u00f3rio, possibilitando a quem deseja e pede acessar as redes para escapar \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, seja pelo gozo irrefreado do objeto ou pela viol\u00eancia que envolve seu consumo e com\u00e9rcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos aprendido, a cada dia e com cada usu\u00e1rio, que o que toca a flor da pele, [2] convulsiona, aperta o peito e faz delirarem meninos, mendigos, malucos, bandidos, santos, padres e ju\u00edzes n\u00e3o pede mais rem\u00e9dio, pede pensamento. Solicita mais poesia, mais arte, mais cultura, mais sublima\u00e7\u00e3o, contornos e direitos. Grades e pris\u00f5es s\u00e3o dispens\u00e1veis. Para o humano, o que produz humanidade n\u00e3o \u00e9 a grade, mas o Outro: seu desejo, seu corpo, cheiro, suas palavras, seu afeto e aconchego. \u00c9 o la\u00e7o com o outro e com a rede \u2014 inven\u00e7\u00e3o que se faz com homens, ideias e afetos para fazer caber homens, ideias e afetos \u2014 o que permite a constru\u00e7\u00e3o de sa\u00eddas poss\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluindo: \u201cEnquanto todo mundo espera a cura do mal, e a loucura finge que isto tudo \u00e9 normal, eu finjo ter paci\u00eancia\u201d (LENINE; FALC\u00c3O, 2000).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que fez surgir uma pol\u00edtica p\u00fablica de aten\u00e7\u00e3o aos portadores de sofrimento mental foi a ousadia de pensar diferente do estabelecido, num momento em que isso era uma ofensa mais grave do que hoje. Al\u00e9m do questionamento \u00e0 institui\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, tida como insubstitu\u00edvel, pensar diferente do que propunha o Estado, naquele momento pol\u00edtico, podia ter consequ\u00eancias muito diversas e mais duras que a mera diferen\u00e7a de ideias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensar o inexistente, a sociedade sem manic\u00f4mios, desej\u00e1-la real num futuro que fosse a consequ\u00eancia de nosso presente e a substitui\u00e7\u00e3o rigorosa e efetiva de nosso passado antecedeu toda e qualquer condi\u00e7\u00e3o de fazer existir um novo locus para uma pr\u00e1tica democr\u00e1tica e viva de trato e rela\u00e7\u00e3o com a loucura. Portanto, foi da for\u00e7a de uma ideia, de uma proposi\u00e7\u00e3o desconcertante, vinda de um lugar n\u00e3o autorizado socialmente como produtor de pensamento \u2014 o movimento social \u2014 que um acontecimento hist\u00f3rico se forjou e se inscreveu como condi\u00e7\u00e3o de vida a ser inventada na liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patrim\u00f4nio de uma luta e fonte renov\u00e1vel de recursos que a permite ir al\u00e9m e enfrentar obst\u00e1culos, cuja valoriza\u00e7\u00e3o e defesa se fazem necess\u00e1rias, num tempo que busca, por diferentes estrat\u00e9gias, reduzir a tudo e a todos \u00e0 dimens\u00e3o de algo a ser contabilizado, medido. Um tempo no qual todo excesso, n\u00e3o importa se de vida, de desejo, sonho, tristeza ou dor, deve ser reduzido ao padr\u00e3o da norma, deve ser enquadrado, anestesiado, silenciando toda pergunta. Eis aqui um sutil obst\u00e1culo ou desafio posto no caminho da Reforma Psiqui\u00e1trica e da psican\u00e1lise: a redu\u00e7\u00e3o do homem a um objeto contabiliz\u00e1vel e do psiquismo \u00e0s rea\u00e7\u00f5es neuronais ou bioqu\u00edmicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ac\u00famulo \u00e9tico\/pr\u00e1tico e te\u00f3rico constru\u00eddo pela Reforma Psiqui\u00e1trica tenta alcan\u00e7ar os novos sujeitos do perigo social: os cidad\u00e3os que fazem uso ou abusam de drogas l\u00edcitas e il\u00edcitas. A pol\u00edtica que ousou romper com a exclus\u00e3o e a segrega\u00e7\u00e3o, como modos de respostas \u00e0 loucura, toma posi\u00e7\u00e3o e busca responder \u00e0s quest\u00f5es postas pelos que encontraram nas drogas a via para escapar ao mal-estar, sem ceder \u00e0 demanda social que demoniza e criminaliza uma experi\u00eancia eminentemente humana. Seu encontro com os usu\u00e1rios de \u00e1lcool e outras drogas ter\u00e1 mais chances de \u00eaxito, caso saibamos, todos, tirar proveito de um dos aprendizados da cl\u00ednica com a loucura em liberdade, que \u00e9 a capacidade de saber ver al\u00e9m do que o olho da raz\u00e3o \u00e9 capaz de captar, para escutar a verdade do desejo de cada um de n\u00f3s. Essa \u00e9 nossa real expertise e \u00e9 o que de melhor temos a oferecer aos novos e antigos dem\u00f4nios. N\u00e3o \u00e9 mais t\u00e9cnica, e sim mais vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presente e o destino da Reforma Psiqui\u00e1trica e dos que fazem uso de \u00e1lcool e outras drogas nos convocam a tomar posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A n\u00f3s: militantes da causa e descoberta freudiana e da luta contra todos os manic\u00f4mios; a n\u00f3s, meio tortos, que nascemos com a sina de n\u00e3o nos furtamos de tentar ajustar um mundo torto; que nos recusamos a ser reduzidos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de servidores de uma normaliza\u00e7\u00e3o do homem, que n\u00e3o recuamos da posi\u00e7\u00e3o de testemunhas de uma pr\u00e1tica e de um pensamento de insubmiss\u00e3o, em que solidariedades se buscam, na constru\u00e7\u00e3o de um tempo melhor, terminamos lembrando o que nos ensina Freud: \u201c[\u2026] a vida, tal como a encontramos, \u00e9 \u00e1rdua demais para n\u00f3s; proporciona-nos muitos sofrimentos, decep\u00e7\u00f5es e tarefas imposs\u00edveis\u201d (FREUD, 1929, p.93). E pede-nos, acrescentamos com Guimar\u00e3es Rosa, coragem. Coragem, para viver e seguir fazendo valer nosso desejo, a despeito de todas as pedras no meio de nossos caminhos.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia po\u00e9tica. 64.ed. Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo: Ed. Record, 2009.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">BAUMAN, Zygmunt. Vida l\u00edquida. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">HOLLANDA, Chico Buarque de. O que ser\u00e1 (a flor da pele). In: ______. Meus caros amigos. S\u00e3o Paulo: Phonogram, 1976. Vinil.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. Brejo da cruz. In: ______. Chico Buarque. S\u00e3o Paulo: Universal, 1984. Vinil.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">CEBRID. Centro Brasileiro de Estudos sobre Drogas Psicotr\u00f3picas. V levantamento sobre consumo de drogas psicotr\u00f3picas entre estudantes do ensino fundamental e m\u00e9dio da rede p\u00fablica das 27 capitais. 2004.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, Sigmund. (1929) O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p.75-171. (Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXI.)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LENINE; FALC\u00c3O, Dudu. Paci\u00eancia. In: LENINE. Na press\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Sony BMG Brasil, 2000. CD, digital, est\u00e9reo. Acompanha livreto.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">PESSOA, Fernando. Palavras de p\u00f3rtico. In: ______. Poesias. Porto Alegre: L&amp;PM Editores, 2007.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ROSA, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es. Grande sert\u00e3o: veredas. 16.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">SARAMAGO, Jos\u00e9. A caverna. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2000.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[1] Par\u00e1frase dos versos: \u201cnavegar \u00e9 preciso; viver n\u00e3o \u00e9 preciso\u201d, de Fernando Pessoa (PESSOA, 2007).<br \/>\n[2] Refer\u00eancia \u00e0 can\u00e7\u00e3o \u201cO que ser\u00e1 (a flor da pele)\u201d, de Chico Buarque de Hollanda (1976).<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Rosimeire Silva<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Psic\u00f3loga, coordenadora de sa\u00fade mental de Belo Horizonte. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak20bbbb52d8cecfa8ece32da9fbd00d94\"><a href=\"mailto:Silva-rosemeire2004@ig.com.br\">Silva-rosemeire2004@ig.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ROSIMEIRE SILVA Bom dia a todos! 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