{"id":432,"date":"2011-07-15T07:49:38","date_gmt":"2011-07-15T10:49:38","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=432"},"modified":"2011-07-15T07:49:38","modified_gmt":"2011-07-15T10:49:38","slug":"uma-politica-para-alcool-e-drogas-como-podemos-contribuir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2011\/07\/15\/uma-politica-para-alcool-e-drogas-como-podemos-contribuir\/","title":{"rendered":"Uma Pol\u00edtica Para \u00c1lcool E Drogas: Como Podemos Contribuir?"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\" style=\"text-align: justify;\"><em><strong style=\"font-size: 14px;\">CONVERSA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/em><\/h3>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Henri Kaufmanner<\/strong>: Eu gostaria apenas de pontuar algumas quest\u00f5es r\u00e1pidas, antes de passarmos \u00e0 conversa. Tocarei em dois pontos rapidamente para nos aquecermos um pouco. S\u00e3o duas vinhetas cl\u00ednicas que exemplificam bem essas diferen\u00e7as apontadas por Beneti, que diferenciam dois momentos distintos das adi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira, trata-se de uma senhora j\u00e1 idosa. Uma senhora muito interessante, psic\u00f3tica e que est\u00e1 passando um tempo l\u00e1 comigo no consult\u00f3rio. \u00c9 uma senhora que viveu intensamente os anos 70, com boa parte desse receitu\u00e1rio assinalado por Beneti. Um dia, ela me falou sobre seu filho, que tamb\u00e9m penso ser psic\u00f3tico e est\u00e1vel. Ele teria chegado de uma viagem \u00e0 Europa, dizendo-lhe sobre umas drogas novas que teria experimentado na Alemanha, fant\u00e1sticas, segundo ele, e sem efeitos colaterais. Ela, ent\u00e3o, me diz: \u201cFiquei com uma raiva dele, porque eu queria ter experimentado tamb\u00e9m. Fiquei com inveja\u201d. N\u00e3o \u00e9 exatamente uma fala maternal tradicional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na outra vinheta, abro a porta de meu consult\u00f3rio e encontro na sala de espera os pacientes que me esperam, cada um olhando fixamente para seu smartphone e teclando feericamente. Assim, temos pequenos exemplos desses distintos tempos j\u00e1 apontados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sua fala, Rose nos apresenta alguns dados contundentes sobre a dimens\u00e3o do uso de drogas do ponto de vista estat\u00edstico. Surpreende saber qual \u00e9, de fato, a presen\u00e7a da droga em si, e somos levados a pensar que o problema em jogo \u00e9 realmente outro, que existe uma outra quest\u00e3o, e que \u00e9 da ordem da segrega\u00e7\u00e3o. Isso me remete tamb\u00e9m \u00e0 no\u00e7\u00e3o de epidemia, apresentada por Beneti. Ele nos fala da epidemia da passagem-ao-ato homicida. Parece-me, ent\u00e3o, que a dimens\u00e3o epid\u00eamica com a qual nos deparamos refere-se muito mais \u00e0 quest\u00e3o da viol\u00eancia. A partir dos dados que a Rose traz e que s\u00e3o muito contundentes \u2014 eu os achei muito impressionantes \u2014 vemos que h\u00e1 um certo excesso presente nas informa\u00e7\u00f5es sobre o consumo de drogas. A quest\u00e3o realmente parece ser outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma epidemia, e ao que parece, n\u00e3o nesse sentido do uso da droga em si, mas h\u00e1 alguma coisa que se espalha, que contamina, que se dissemina pela sociedade, e que, de alguma forma, aponta no sentido de uma exclus\u00e3o, de uma segrega\u00e7\u00e3o, e que tem como resposta pr\u00e1ticas violentas. \u00c9 como se os aditos, aqueles que, de alguma maneira, ocupam o lugar de resto da sociedade, fossem tratados como nossos terroristas, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 mais um ponto que eu gostaria de assinalar para nossa conversa, aproveitando a refer\u00eancia de Beneti ao discurso capitalista. Podemos delimitar dois circuitos fechados, digamos assim, nesse discurso. O primeiro \u00e9 esse com o qual estamos acostumados a lidar, no qual localizamos essa liga\u00e7\u00e3o direta do sujeito com o objeto ($a). Podemos dizer que a\u00ed reside a ess\u00eancia do capitalismo, quer dizer, o sonho de todo capitalista \u00e9 ter um consumidor que consuma o seu produto de forma incessante. Se eu sou um empreendedor capitalista e tenho um produto, e meu consumidor n\u00e3o consegue ficar sem ele, eu estou realizado. Ent\u00e3o, essa \u00e9 uma quest\u00e3o. \u00c9 interessante porque todas as pr\u00e1ticas, pelo menos a grande maioria das pr\u00e1ticas que, de alguma maneira, tentam intervir no consumo de drogas, subst\u00e2ncias, etc., seguem a l\u00f3gica da abstin\u00eancia, reduzindo a quest\u00e3o das adi\u00e7\u00f5es a um problema de consumo \u2014 o que \u00e9 certamente um equ\u00edvoco. Trata-se, como Rose nos mostra muito bem, de pr\u00e1ticas hip\u00f3critas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se temos o crack e o oxi, se cada vez se produz um resto novo, isso n\u00e3o se d\u00e1 apenas no campo restrito do uso de drogas. Vemos o mesmo acontecer com os computadores, os iphones, as roupas de grife. Eles est\u00e3o circulando e produzindo seus restos piratas. De alguma maneira, a Rose aponta que existe, nessa circula\u00e7\u00e3o, algo que leva essas pessoas a se haver com esses restos da cultura, da cidade, da nossa sociedade. O que n\u00f3s fazemos com nossos restos? Que lugar n\u00f3s damos aos nossos restos? N\u00e3o \u00e9 por acaso que as pr\u00e1ticas sanitaristas retornam, que a epidemiologia e o higienismo ganham espa\u00e7o. Pois, na verdade, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 uma maneira de se lidar com os restos. Como? Excluindo-os? \u00c9 uma tentativa na qual se vem insistindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, na psican\u00e1lise, sabemos, contudo, que h\u00e1 um resto que permanece como um resto. E isso me parece fundamental, fazendo-me pensar no outro circuito fechado do discurso do capitalismo, um vetor que nos interessa muito, esse vetor (S1S2). Eu o chamo de hol\u00f3frase, porque, na verdade, um outro efeito do discurso capitalista \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o, isso que os dois apontaram, dos significantes-mestres singulares de cada sujeito a uma nomea\u00e7\u00e3o holofras\u00edstica. Quando se diz toxic\u00f4manos e se joga todo mundo no mesmo balaio, isso tem efeito de hol\u00f3frase, produz todo um campo sem\u00e2ntico, todo um campo de sentido, toda uma l\u00f3gica que reduz pelo efeito de nomea\u00e7\u00e3o. Sabemos que o mundo hoje funciona assim, todos dentro dessa mesma perspectiva, sob o imperativo de gozo produzido por um nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que n\u00f3s escutamos dos dois apresentadores na mesa de hoje tem a ver com a import\u00e2ncia de se produzir um corte nessa nomea\u00e7\u00e3o, abrir a possibilidade para que cada sujeito possa colocar em jogo os seus significantes fundamentais, aquilo que, de alguma maneira, ordena o singular de seu gozo. S\u00e3o par\u00e2metros interessantes para operarmos, pois qual seria, verdadeiramente, o problema em quest\u00e3o, ou quais s\u00e3o as vari\u00e1veis do problema que est\u00e1 em jogo? Acho que \u00e9 uma boa maneira para n\u00e3o reduzirmos a discuss\u00e3o ao consumo. Temos discutido muito isso. Acreditamos que se trata de um problema \u00e9tico, e n\u00e3o de um problema de consumo. Estamos diante de um problema que toca \u00e0 responsabilidade de cada sujeito com seu gozo. Se partimos desse pressuposto, qual seria o problema em quest\u00e3o? Parece-me que a quest\u00e3o da criminalidade est\u00e1 a\u00ed colocada. Toda a discuss\u00e3o, por exemplo, sobre o tr\u00e1fico, sobre a criminaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o criminaliza\u00e7\u00e3o, o uso de droga, parece-me que toda essa discuss\u00e3o da epidemia da viol\u00eancia diz respeito tamb\u00e9m ao estatuto que o consumo de drogas tem em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem, esses s\u00e3o os pontos que eu queria destacar. Est\u00e1 aberta a conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ant\u00f4nio Beneti<\/strong>: Acho que sua fala me ajudou a esclarecer mais essas quest\u00f5es. Se pegarmos o discurso capitalista, n\u00f3s vamos colocar o S1 como toxic\u00f4mano, e o S2, que est\u00e1 com o saber-fazer do mestre antigo, \u00e9 substitu\u00eddo pelo saber da ci\u00eancia. Saber da ci\u00eancia que, no lugar da produ\u00e7\u00e3o, vai produzir os objetos. Se n\u00e3o ficarmos atentos, vamos ter esses objetos sob a forma de drogas para tratar o toxic\u00f4mano, vamos produzir manic\u00f4mios ou institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas para tratar o toxic\u00f4mano, ou objetos institucionais para se tratar o toxic\u00f4mano. \u00c9 aqui que n\u00f3s temos de novo a dimens\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o do sujeito do inconsciente, sua exclus\u00e3o, segrega\u00e7\u00e3o no discurso capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernanda Otoni: Quero agradecer a generosidade da transmiss\u00e3o. Realmente, foi poss\u00edvel nos orientarmos a partir do que o Beneti e a Rose apresentaram, dando um norte para nossa conversa. Chamaram-me a aten\u00e7\u00e3o os n\u00fameros, as estat\u00edsticas e a an\u00e1lise que Rose nos oferece, no sentido de que h\u00e1 um discurso geral que aponta para uma gravidade, embora n\u00e3o seja isso que se verifica nas pesquisas e nas pr\u00e1ticas dos servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu me recordei de uma conversa\u00e7\u00e3o do CIEN, realizada pelo laborat\u00f3rio \u201cEntre as fronteiras das pr\u00e1ticas socioeducativas\u201d, que aconteceu no Morro do Papagaio. Uma das pessoas da comunidade tomou a palavra para desconstruir o discurso de que a favela \u00e9 o lugar da viol\u00eancia. Trouxe-nos a informa\u00e7\u00e3o de que menos de cem pessoas estariam envolvidas com a criminalidade, com ficha na justi\u00e7a, em uma comunidade com milhares de habitantes. Os que est\u00e3o envolvidos com o crime s\u00e3o conhecidos na favela, eles conhecem nomes e endere\u00e7o, etc. Por outro lado, o discurso corrente sobre as favelas n\u00e3o nos deixa saber que as pessoas que moram l\u00e1 andam nas ruas e saem para namorar \u00e0 noite, andam de m\u00e3os dadas, trabalham, estudam\u2026 Ali existe uma comunidade que funciona, apesar do discurso de que ali seria um lugar muito violento. Estou trazendo esse dado, pois aqui tamb\u00e9m temos essa disjun\u00e7\u00e3o entre o discurso e o real da experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fala do Beneti, nesse sentido, me fez pensar que existe um discurso sobre uma periculosidade social epid\u00eamica. E a que serve esse discurso? Se temos que dar uma resposta pol\u00edtica, como o Henri destaca \u2014 raz\u00e3o pela qual nos reunimos aqui hoje \u2014 n\u00f3s ter\u00edamos que decifrar que produto esse discurso da periculosidade tem produzido. Beneti, nesse sentido, nos deixa saber, a partir do que ele anotou no quadro, que os objetos para consumir n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as pedras, mas tamb\u00e9m as cl\u00ednicas, os rem\u00e9dios, etc., etc. Internar, medicar, prender t\u00eam sido algumas das respostas desse discurso moral, e, para tal, coloca-se, no mercado, uma profus\u00e3o de cl\u00ednicas e rem\u00e9dios para tratar essa \u201cepidemia\u201d. Rose perguntou se n\u00e3o estar\u00edamos diante de uma epidemia moral. Ent\u00e3o, haveria um discurso capitalista operando por detr\u00e1s desse discurso sobre uma periculosidade social epid\u00eamica? Eis uma quest\u00e3o, considerando a resposta do discurso anal\u00edtico que aponta outra dire\u00e7\u00e3o para o tratamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra quest\u00e3o colocada por voc\u00ea, Rose, que achei muito interessante, \u00e9 a que se refere ao uso dos intervalos pela equipe do consult\u00f3rio de rua. Queria que voc\u00ea falasse um pouco mais sobre isso. Lacan vai-nos transmitir que o sujeito se apresenta no intervalo entre um significante e outro. Voc\u00ea nos transmite que, entre uma pedra e outra, a equipe faz bom uso do intervalo, procurando estar ali, junto a esses sujeitos, para conversar, pois, ali, o sujeito pode-se apresentar. Queria que voc\u00ea falasse mais um pouco a respeito de como tem acontecido com o consult\u00f3rio de rua, e como esse dispositivo tem operado para escutar e dar a palavra, apostando no sujeito para al\u00e9m do crack.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cristiane Barreto<\/strong>: Eu queria agradecer pelas falas. Para contribuir com a nossa conversa, trouxe o fragmento de um texto do \u00c9ric Laurent que me diz um pouco do que est\u00e1 acontecendo aqui nesta mesa. A presen\u00e7a de trabalhadores da Rede de Sa\u00fade Mental de Belo Horizonte, pessoas que t\u00eam la\u00e7o com a psican\u00e1lise, uns mais, outros menos estreitos, mas o bastante para estarem aqui, me fez pensar sobre o que esta mesa hoje representa. O Laurent [3] vai dizer assim:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px; text-align: justify;\"><em>Teremos que renunciar n\u00e3o somente \u00e0s solu\u00e7\u00f5es do supereu, mas tamb\u00e9m \u00e0s do ideal do eu. N\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o universal, teremos que passar ao m\u00faltiplo, a considerar os efeitos da droga em sua especificidade pr\u00f3pria. Precisamos nos introduzir em uma toler\u00e2ncia com rela\u00e7\u00e3o ao imposs\u00edvel, sem ceder nem \u00e0 resigna\u00e7\u00e3o, nem ao cansa\u00e7o, diante de uma carreira que concerne ao imposs\u00edvel. Isso implica uma mod\u00e9stia ativa dos pol\u00edticos, dos terapeutas, dos psicanalistas, psiquiatras e de todos os que est\u00e3o envolvidos nessa carreira multidisciplinar, a mod\u00e9stia de como abordar este imposs\u00edvel em todas as suas facetas (LAURENT, 2011, p.61).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUma mod\u00e9stia ativa\u201d, esse \u00e9 um significante importante para n\u00f3s. Esta mesa me parece ser o exerc\u00edcio de uma \u201cmod\u00e9stia ativa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa fala do Laurent est\u00e1 numa confer\u00eancia que ele fez na Bahia, em 2010, cujo t\u00edtulo \u00e9 \u201cPost-War on Drugs\u201d? Como a psican\u00e1lise pode contribuir o debate pol\u00edtico sobre as drogas. Conversando com a Rose, essa semana, falei desse texto \u2014 eu trouxe o livro para dar de presente a ela\u2014 e n\u00e3o resisti em fazer uso dele para ler essa parte. Eu acho que todos aqui est\u00e1vamos com uma esp\u00e9cie de \u201cs\u00edndrome de abstin\u00eancia\u201d, todo mundo queria discutir o tema das drogas j\u00e1 h\u00e1 algum tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho tamb\u00e9m que esta mesa tocou em tr\u00eas pontos fundamentais. Um se relaciona muito de perto com a minha experi\u00eancia, de alguma forma, com as drogas e com os adolescentes infratores do Liberdade Assistida \u2014 programa que coordenei durante oito anos \u2014 no qual a primeira coisa que observamos se aproxima muito de um dado que a Rose apresenta e que est\u00e1 de acordo com a forma certeira como o Beneti enuncia: se podemos falar em epidemia \u2014 e uma epidemia que inclusive a sa\u00fade reconhece a partir dos dados estat\u00edsticos \u2014 s\u00e3o dados de homic\u00eddios entre os jovens que colocam o Brasil ora em 2\u00ba, ora em 6\u00ba lugar, no ranking internacional da viol\u00eancia. Homic\u00eddios de crian\u00e7as e adolescentes das periferias, no entorno dessa viol\u00eancia, tangenciam a quest\u00e3o da droga, envolvendo e agregando uma s\u00e9rie de fatores, como o tr\u00e1fico de armas, a forma\u00e7\u00e3o de gangues, a corrup\u00e7\u00e3o policial, etc. N\u00e3o o uso abusivo da subst\u00e2ncia em si, mas a droga como o objeto em torno do que vem sustentando o discurso do capitalista, enquanto ponto de produ\u00e7\u00e3o, que ultrapassa os ganhos da ind\u00fastria de cosm\u00e9ticos e de armas. \u00c9 isso, a meu ver, que caracteriza o maior \u00edndice de viol\u00eancia no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os n\u00fameros tamb\u00e9m, tanto os registrados nos dois anos em que passei na coordena\u00e7\u00e3o do Programa de Prote\u00e7\u00e3o aos Adolescentes Amea\u00e7ados de Morte, quanto no Liberdade Assistida, n\u00e3o apontavam o uso abusivo de drogas como algo alarmante. Em muitos casos, a fun\u00e7\u00e3o era de tratar ou ofertar um tratamento poss\u00edvel \u00e0 toxicomania, mas a gravidade reca\u00eda sobre outros aspectos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto importante, que faz interlocu\u00e7\u00e3o com o que o Henri comenta, \u00e9 o que o Laurent vai explicar a respeito do Keith Richards, que lan\u00e7ou o livro Life. Acho que todo mundo sabe dessa hist\u00f3ria. Durante 20 anos, ele foi cotado na lista de apostas das pessoas que estavam pr\u00f3ximas de morrer, no ano seguinte, por causa do uso abusivo de drogas. Nesse livro, Life, ele diz que, como outros, ele se salvou porque usou a \u201cnata da nata\u201d, um produto de boa qualidade. O que nos remete ao caso da m\u00e3e e filho citado pelo Henri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que esse \u00e9 um problema contempor\u00e2neo relevante e que atualmente re\u00fane a posi\u00e7\u00e3o em destaque do nosso ex-presidente e at\u00e9 a de juristas pertencentes a uma associa\u00e7\u00e3o internacional, que se posicionam a favor da legaliza\u00e7\u00e3o das drogas. A legaliza\u00e7\u00e3o das drogas tamb\u00e9m abrangeria certo controle a respeito do que se consome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um outro aspecto que surgiu aqui \u2014 que tamb\u00e9m pontuo com o que li como uma certa anedota \u2014 trata-se do epis\u00f3dio de uma discuss\u00e3o de Laurent com um taxista. Diz mais ou menos assim: na ida do aeroporto para casa, depara-se com um grande representante da figura do supereu: o taxista. Todo e qualquer argumento que utilizava, na tentativa de convencer o sujeito de que existia uma forma de tratar, politicamente, com mais \u201c\u00e2nimo e coragem\u201d, a quest\u00e3o dos homeless que circulam pela Europa, fazendo uso de crack, o tal taxista combatia, reafirmando que, para isso, n\u00e3o havia solu\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser elimin\u00e1-los de alguma forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, acho que pegamos esse gancho. Belo Horizonte tem, talvez, uma sorte perigosa, \u00e9 um momento em que vamos ter que p\u00f4r \u00e0 prova algumas coisas do nosso fazer pol\u00edtico. Verificaremos se temos coragem e \u00e2nimo na rede para acolher isso ou n\u00e3o. Porque existe um arcabou\u00e7o de sustenta\u00e7\u00e3o para tratar algumas quest\u00f5es de forma n\u00e3o segregativa, que pode ou n\u00e3o vir a acolher esse tema e os sujeitos com suas drogas, de forma relevante. Queria agradecer n\u00e3o apenas as falas, mas por promovermos esta conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cristina Nogueira<\/strong>: Bom dia! Parab\u00e9ns \u00e0 mesa pelas quest\u00f5es importantes que trouxe. Gostaria de dizer que participei, desde o in\u00edcio, do N\u00facleo de Psican\u00e1lise e Toxicomania do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental, em fun\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m de ter trabalhado na sa\u00fade, inicialmente no Centro Psicopedag\u00f3gico, atual CEPAI, depois no Centro Mineiro de Toxicomania-CMT, por nove anos. Aprendi muito com essa metodologia da cl\u00ednica com a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um caso cl\u00ednico descrito na Curinga (revista da EBP-MG) em que podemos atestar a efic\u00e1cia dos dispositivos: cl\u00ednica m\u00e9dica, hospital-dia, oficinas e a cl\u00ednica do sujeito. Nesse caso, particularmente, h\u00e1 o momento de uma interven\u00e7\u00e3o fundamental. Trata-se de um paciente que fazia uso de crack em determinado momento do tratamento, e, nessa ocasi\u00e3o, na frente do meu consult\u00f3rio, eu o vejo pedindo dinheiro a transeuntes. Fiz uma supervis\u00e3o e disse ao paciente, num momento preciso, que ele n\u00e3o era aquele objeto que ele estava se fazendo, e sim um artista. A partir disso, ele buscou internar-se durante dois meses em uma comunidade terap\u00eautica, interrompeu o uso da droga e continuou o tratamento ap\u00f3s sair da interna\u00e7\u00e3o. Ele disse que esses dispositivos \u2014 CMT, fazenda \u2014 foram \u201ctijolos \u00fateis na decis\u00e3o \u00edntima de mudar, que se constr\u00f3i na terapia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu trabalhava no CMT com o J\u00e9sus e o Beneti (respectivos diretores cl\u00ednico e geral da institui\u00e7\u00e3o), o J\u00e9sus falou que n\u00f3s ter\u00edamos que fazer da institui\u00e7\u00e3o um i(a), aludindo \u00e0 import\u00e2ncia de a institui\u00e7\u00e3o ficar num lugar de causar a demanda. Percebemos que \u2014 mas \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o \u2014 e uma pergunta \u2014 o que vem dando for\u00e7a para esses movimentos de interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria talvez seja uma aus\u00eancia de dispositivos e de locais que possam ocupar o lugar de favorecer o surgimento da demanda de tratamento. Por exemplo, na Vara Infracional de Belo Horizonte, vemos os adolescentes iniciando e saindo em fun\u00e7\u00e3o da idade (at\u00e9 18 anos). E aqueles que necessitam de tratamento, mas n\u00e3o aderem ao que \u00e9 ofertado, onde v\u00e3o parar? No CERESP. Alguns psic\u00f3ticos graves, que foram trabalhados no CERSAM, apesar dos esfor\u00e7os da equipe, est\u00e3o hoje na justi\u00e7a comum. Outra quest\u00e3o \u00e9 que h\u00e1 adolescentes que param de se tratar porque n\u00e3o t\u00eam vale-transporte para irem ao tratamento. Tivemos algumas experi\u00eancias atrav\u00e9s do conv\u00eanio da Vara Infracional de Belo Horizonte com a secretaria antidrogas, na execu\u00e7\u00e3o de medidas protetivas 101-VI [4], de programas com a ABRA\u00c7O e com a Associa\u00e7\u00e3o Imagem Comunit\u00e1ria-AIC, que foram interessantes e possibilitaram o tratamento de adolescentes encaminhados pela Vara Infracional, al\u00e9m de toda uma discuss\u00e3o de acompanhamento dos casos com a rede envolvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que voc\u00eas t\u00eam pensado nesse sentido para o adolescente? Em Belo Horizonte, por exemplo, criou-se o mito de que n\u00e3o se pode colocar nos CAPS (perman\u00eancia-dia) o adolescente, porque ele n\u00e3o pode ficar com adulto. Para proteger, tudo bem; mas, por exemplo, existe um CAPS no Rio de Janeiro que trabalha especificamente com tratamento em fun\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool e drogas para jovens (CAPS Raul Seixas). Por que \u00e9 que n\u00e3o podemos ter um CAPS para os adolescentes? \u00c9 nesse sentido que percebemos que h\u00e1 uma aus\u00eancia desses locais que favoreceriam a quest\u00e3o antimanicomial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei se voc\u00eas sabem, eu estou achando que isso vai ser fant\u00e1stico, mas Belo Horizonte vai ser uma das primeiras cidades do Brasil a ter a sa\u00fade no CIA [5]. Mas o que \u00e9 o CIA? \u00c9 um local onde o atendimento ao adolescente que comete um ato infracional \u00e9 imediato. Isso demorou oito anos para ser criado em Belo Horizonte, e \u00e9 modelo nesse sentido. O adolescente comete o ato, \u00e9 levado pela pol\u00edcia, no mesmo local atuam a Promotoria, Defensoria, Judici\u00e1rio e, muitas vezes, ele j\u00e1 sai dali com a Medida aplicada, encaminhado com uma grande celeridade para a Prefeitura. Ent\u00e3o, n\u00f3s vamos ter, a partir do segundo semestre, a presen\u00e7a da Prefeitura dentro do CIA (assist\u00eancia, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o). Estou achando que isso vai ser uma revolu\u00e7\u00e3o, porque muitos desses casos n\u00f3s j\u00e1 estamos discutindo com a Sa\u00fade, mas vai ser uma experi\u00eancia diferente esse atendimento imediato para os jovens logo ao sair de uma audi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu discordo um pouco, em termos, dos dados. Penso que a gravidade, no caso de uso de crack e de thinner, realmente, \u00e9 uma quest\u00e3o s\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Beneti, queria que voc\u00ea falasse um pouco mais sobre esse ponto da morte, porque temos alguns casos que esbarram nesse impasse, em que ao adolescente \u00e9 ofertada toda uma s\u00e9rie de dispositivos da sa\u00fade, e, \u00e0s vezes, ele continua recusando o tratamento, em um movimento mort\u00edfero, seja pelo uso, seja pelo envolvimento com a delinqu\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ant\u00f4nio Beneti<\/strong>: A quest\u00e3o da periculosidade n\u00e3o \u00e9 exclusividade do toxic\u00f4mano, digamos assim, e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o s\u00f3 de discurso. Tem um uso que se faz disso. No caso, a associa\u00e7\u00e3o ao crack, ao uso de crack, \u00e9, vamos dizer assim, muito espetacular, e fatura-se muito em cima disso. Ent\u00e3o, eu acho que a periculosidade \u00e9 inerente ao contempor\u00e2neo, em que esse mais-de-gozar comanda, tanto que a periculosidade est\u00e1 em todos os la\u00e7os, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o da droga. De fato, o discurso capitalista utiliza isso, eu tentei formalizar no quadro, porque o discurso capitalista tem que faturar sempre, inclusive com aquilo que se apresenta como um resto, tamb\u00e9m isso pode ser rent\u00e1vel. Essa \u00e9 a primeira marca\u00e7\u00e3o que eu faria. Ao mesmo tempo, o crack coloca essa dimens\u00e3o espetacular, extraordin\u00e1ria, os crimes s\u00e3o b\u00e1rbaros, s\u00e3o chocantes, ofendem. Ent\u00e3o, o sujeito mata o pai e a m\u00e3e, chega e vai para o motel, s\u00e3o coisas escandalosas\u2026 Essa \u00e9 a primeira marca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda, eu creio que de fato \u00e9 muito interessante o que a Rose nos mostra em termos de dados estat\u00edsticos, porque o discurso de hoje \u00e9 muito sens\u00edvel a isso. Essa \u00e9 uma boa arma para desmontar certas iniciativas do discurso capitalista hoje, em cima da quest\u00e3o da toxicomania, mas eu creio que vai aumentar o uso, o consumo do crack e de outras drogas que vir\u00e3o. Acho que essa dimens\u00e3o, consumo das drogas, vai ser cada vez mais intensa. N\u00e3o tenho uma posi\u00e7\u00e3o otimista de que isso possa diminuir. Acho que n\u00f3s estamos at\u00e9 no in\u00edcio desse consumo. A coisa vai ser muito mais pesada. Eu come\u00e7o a perceber, na minha pr\u00f3pria cl\u00ednica, que n\u00e3o \u00e9 uma cl\u00ednica espec\u00edfica de tratamento de toxic\u00f4manos, a quantidade de sujeitos que usam droga. De fato, quando voc\u00ea pega um jovem, uma crian\u00e7a, que entra nisso, \u00e9 dif\u00edcil sair\u2026 Eu temo que esse consumo possa aumentar muito, mas apresentar uma estat\u00edstica, como voc\u00ea fez, \u00e9 uma boa arma. E desse texto seu eu gostei muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rosimeire Silva<\/strong>: Bom ser elogiada em p\u00fablico. Obrigada!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristiane, muito obrigada pela \u201cmod\u00e9stia ativa\u201d e pelo presente, eu estava aguardando o texto, ansiosamente, e acho que \u00e9 um bom nome para redu\u00e7\u00e3o de danos, algo que precisamos conhecer melhor. Apesar de j\u00e1 ser uma cinquentona na Holanda, a redu\u00e7\u00e3o de danos, que come\u00e7a na Holanda, na d\u00e9cada de 60, ainda \u00e9 uma novidade extremamente pol\u00eamica no Brasil. \u00c9 dif\u00edcil porque se depara, a todo tempo, com os limites impostos pelo discurso moral, que vai nessa vertente de que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel tratar isso que o sujeito coloca, a sua compuls\u00e3o, pela abstin\u00eancia, pela aus\u00eancia. Uma imposi\u00e7\u00e3o cruel demais, uma exig\u00eancia severa demais. Seria preciso introduzir, de fato, uma toler\u00e2ncia nessa rela\u00e7\u00e3o como medida para se conseguir aproximar daquilo que esse sujeito nos traz. Para que, de fato, ele possa nos trazer alguma coisa, sen\u00e3o, n\u00f3s vamos continuar submetendo o outro a essa prescri\u00e7\u00e3o, castigando esse sujeito e extraindo disso um gozo. O que estamos fazendo \u00e9 isso, porque o que n\u00f3s, enquanto sociedade fazemos, \u00e9 isso, castigar as pessoas. H\u00e1 um imperativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concordo com Beneti, infelizmente, n\u00e3o acho que podemos pensar que o consumo de drogas v\u00e1 reduzir-se, v\u00e1 cair. Fiquei impressionada quando peguei a lista \u2014 acho que o importante dos dados \u00e9 desmontar os mitos, desmistificar algumas verdades que circulam \u2014 mas, quando pegamos a lista do CEBRID, ela \u00e9 imensa, o n\u00famero de drogas \u00e9 imenso, tem uma pluralidade de ofertas. Muitas delas s\u00e3o produto do discurso do capital, s\u00e3o drogas para tratar. Existem muitas pessoas se drogando com novos rem\u00e9dios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernanda, essa foi uma das primeiras surpresas, boas surpresas com o consult\u00f3rio de rua. Consult\u00f3rio de rua \u00e9 um dispositivo super-recente da rede de sa\u00fade mental. \u00c9 um dispositivo que trouxemos para a rede a partir de uma indica\u00e7\u00e3o feita pela pol\u00edtica nacional de \u00e1lcool e outras drogas, estabelecida pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade como uma oferta aos munic\u00edpios e que decidimos implantar. S\u00e3o equipes volantes que atuam no territ\u00f3rio, que v\u00e3o \u00e0 cena do uso, onde o usu\u00e1rio est\u00e1, trabalhar com esse sujeito. Por que fazer isso? Estamos trabalhando numa pol\u00edtica de sa\u00fade, uma rede para acolher efetivamente esse usu\u00e1rio. Ela ainda carece, na cidade de Belo Horizonte, mas n\u00e3o tanto como faz parecer, de alguns servi\u00e7os, mas hoje eu n\u00e3o tenho d\u00favida de que, se tiv\u00e9ssemos muitos CERSAMs, muitos CERSAMIs \u2014 j\u00e1 temos hoje profissionais de sa\u00fade mental em todos os centros de sa\u00fade \u2014 ainda assim, continuar\u00edamos sem conseguir acessar uma parte dessa popula\u00e7\u00e3o. Esta est\u00e1 na rua, fazendo seu uso, e n\u00e3o acessa a rede de sa\u00fade pelas pr\u00f3prias pernas; ou, s\u00f3 acessar\u00e1 a rede e a sa\u00fade, no momento grave da urg\u00eancia. Uma urg\u00eancia cl\u00ednica, n\u00e3o a urg\u00eancia em sa\u00fade mental, seja do lado dos meninos, seja do lado dos que est\u00e3o na Pedreira. Eles s\u00f3 acessam quando alguma coisa, alguma amea\u00e7a real, no corpo, instaura essa dimens\u00e3o do cuidado. Entre os meninos, os adolescentes do Centro, escutamos que a grande maioria acessa a rede de sa\u00fade n\u00e3o pelas quest\u00f5es postas pela droga. S\u00f3 um caso acessou a rede pela quest\u00e3o da droga, no momento de intoxica\u00e7\u00e3o. Fizemos um bom arranjo, um projeto articulando UPA, consult\u00f3rio de rua, e ainda estamos \u201capanhando\u201d desse caso. \u00c9 um caso que nos escapa a todo o tempo. No Centro, os meninos j\u00e1 oferecem uma entrada, acolhem, fazem a roda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Pedreira, escutamos o usu\u00e1rio dizer: \u201cQuando eu t\u00f4 usando crack, n\u00e3o chega perto n\u00e3o\u201d. Por\u00e9m, eles tamb\u00e9m come\u00e7am a dizer: \u201cNum vamos fumar agora n\u00e3o, porque a equipe chegou\u201d. A orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 que, na hora em que eles est\u00e3o usando, vamos \u00e0 Pedreira, s\u00e3o tr\u00eas, quatro usando, um do lado do outro, mas ningu\u00e9m fala com ningu\u00e9m. Naquela hora ali, n\u00e3o d\u00e1, n\u00e3o rola. Mas se rolar de conversar antes do uso, ent\u00e3o a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9: sejam espertos, fa\u00e7am a conversa mais atrativa, vamos ver o que podemos colocar nessa roda. Surgem propostas como, por exemplo, a interven\u00e7\u00e3o e a ades\u00e3o de outros profissionais. Como um dentista que se apresenta e diz: \u201cVamos fazer um trabalho com esses usu\u00e1rios, pois a boca est\u00e1 muito machucada\u201d. O cachimbo do crack \u00e9 feito de lata ou de PVC, esquenta, queima, corta toda a boca, e \u00e9 fonte de muitas doen\u00e7as. O dentista sai do centro de sa\u00fade, vai \u00e0 Boca cuidar da boca. Afinal de contas, lugar de dentista \u00e9 na boca\u2026 Vai conservar com os usu\u00e1rios, dizer: \u201cOlha, vamos pensar um jeito, vamos ver se voc\u00eas v\u00eam pro centro de sa\u00fade\u201d. \u201cQuem sabe, o dentista est\u00e1 aqui, essa coisa rara na sa\u00fade para a popula\u00e7\u00e3o ainda, o dentista veio\u201d. A\u00ed se iniciam alguns movimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro movimento, por exemplo, \u00e9 quando a equipe come\u00e7a a perceber uma curiosidade, especialmente dos adolescentes, sobre as quest\u00f5es relacionadas ao sexo. A vontade de perguntar sobre o sexo. Ningu\u00e9m quer fazer a pergunta em p\u00fablico, ent\u00e3o, criou-se uma caixinha para as perguntas. As perguntas foram deixadas l\u00e1, num outro momento, foram abertas numa roda e dialogadas entre os usu\u00e1rios, essa equipe e quem est\u00e1 em volta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o tinha pensado, Fernanda, mas \u00e9 isto, \u00e9 o intervalo para que o sujeito possa emergir de fato. \u00c9 muito interessante, porque, quando chegamos, houve muita aposta. Escutamos: \u201cComo assim? A equipe vai at\u00e9 a Pedreira? Vai at\u00e9 l\u00e1 no Buraco Quente, na Vila Senhor dos Passos?\u201d (S\u00e3o os lugares da Pedreira). E as pessoas desacreditando: \u201cAli s\u00f3 vai traficante\u201d. De fato, ali chegam o traficante e a pol\u00edcia; e, hoje, a equipe do consult\u00f3rio de rua. E n\u00e3o s\u00e3o eles que est\u00e3o dizendo, foi a comunidade que me disse. Quando o governo do Estado fez uma interven\u00e7\u00e3o no sentido de limpar, de atender, de forma maci\u00e7a e compuls\u00f3ria, os que l\u00e1 estavam, fomos dialogar com a comunidade para dizer: \u201cOlha, isto n\u00e3o tem nada a ver conosco, \u00e9 importante que voc\u00eas saibam\u201d. Porque a nossa entrada foi toda constru\u00edda e pactuada com essa comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s nos apresentamos antes de chegar, dizendo o que pretend\u00edamos, como \u00e9 que poder\u00edamos ser parceiros, e a\u00ed eles pediram autoriza\u00e7\u00e3o. Eles nos dizem: \u201c\u00c9 muito bacana, porque hoje s\u00f3 tem consult\u00f3rio de rua ali onde a gente sabe que est\u00e1 o traficante, a pol\u00edcia perturbando a nossa vida\u201d. Porque a pol\u00edcia n\u00e3o est\u00e1 ali protegendo a vida de quem l\u00e1 mora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando come\u00e7amos e nos envolvemos em coisas assim, em desafios, \u00e9 bom correr atr\u00e1s e tentar conhecer o que \u00e9 isso. Indo da Pedreira ao PPCAAM, ao Jo\u00e3o XXIII, as equipes v\u00e3o construindo um pouco esse conhecimento da realidade. Eu tinha uma hip\u00f3tese \u2014 e olha que, como muitos, n\u00e3o sou t\u00e3o desavisada das quest\u00f5es sociais \u2014 de que os meninos que sofriam amea\u00e7a de morte pelo tr\u00e1fico eram meninos que estavam devendo para o traficante, que eles estavam amea\u00e7ados em fun\u00e7\u00e3o do seu v\u00edcio e de n\u00e3o terem tido condi\u00e7\u00f5es de quitar o v\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui procurar o PPCAAM, Programa de Prote\u00e7\u00e3o a Crian\u00e7as e Adolescentes Amea\u00e7ados de Morte, e de l\u00e1 me chegou outra informa\u00e7\u00e3o. Eu me apresentei para eles, toda metida, e disse: \u201cGente, como \u00e9 que \u00e9, os meninos est\u00e3o devendo, qual \u00e9 a \u00e9tica do tr\u00e1fico?\u201d Eles me falaram que eu estava muito enganada. Os meninos n\u00e3o chegam ao PPCAAM porque est\u00e3o devendo para o tr\u00e1fico, eles ficam amea\u00e7ados de morte porque est\u00e3o trabalhando para o tr\u00e1fico. Eles sequer usam, a parcela que faz uso de drogas \u00e9 m\u00ednima. Eles est\u00e3o amea\u00e7ados porque est\u00e3o na Boca, a pol\u00edcia d\u00e1 uma batida, toma a droga do menino. Na primeira vez, o traficante faz de conta que n\u00e3o viu, na segunda, na terceira, na quarta, ele quer matar o menino. Ele vai amea\u00e7ar de morte, ou ent\u00e3o a pr\u00f3pria pol\u00edcia. Outra situa\u00e7\u00e3o: a pol\u00edcia faz a batida e o menino entrega o nome do traficante \u2014 \u00e9 a hora que a vida dele vira nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cristina, eu acho que \u00e9 importante mesmo n\u00f3s dialogarmos. Existem dimens\u00f5es que s\u00f3 esta discuss\u00e3o, da forma como ela est\u00e1 posta, vai-nos esclarecer sobre a rela\u00e7\u00e3o com a droga. Os dados que a equipe de sa\u00fade da fam\u00edlia levanta, dos meninos privados de liberdade, a partir de uma pergunta que nos colocamos \u2014 esse dado nos chega do relat\u00f3rio do CIA \u2014 dos meninos que t\u00eam contato com a droga, s\u00e3o informa\u00e7\u00f5es que nos indicam o qu\u00ea? Quais os meninos que usam? Porque, maci\u00e7amente, esses dados n\u00e3o dizem nada, ou podem, simplesmente, ser usados dentro de um certo discurso. Desdobrando os dados, o que vemos \u00e9 que a realidade \u00e9 um pouco diferente e tem outros agravantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O contato com a droga n\u00e3o \u00e9 da ordem do uso para a imensa maioria \u2014 coincide com o que informa o PPCAAM. Ent\u00e3o, acho que \u00e9 importante pensarmos juntos, para n\u00e3o continuarmos trabalhando na m\u00e1xima de que a droga faz o toxic\u00f4mano, pois \u00e9 o toxic\u00f4mano que faz a sua droga. Outra coisa importante tamb\u00e9m \u00e9 lembrar que a rede de tratamento \u00e9 muito mais ampla, tem lugares muito diferenciados e poss\u00edveis para esse tratamento. Temos insistido, nesse di\u00e1logo, para que criemos um dispositivo, que \u00e9 o de conversar sobre os casos antes de prescrever uma medida. Nessa orienta\u00e7\u00e3o, encontramos uma boa sa\u00edda para isso que angustia todos os lares, toda a cidade, sem precisar repetir o que n\u00e3o nos interessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ant\u00f4nio Beneti<\/strong>: A quest\u00e3o da morte, na pergunta da Cristina que n\u00e3o respondi. A morte \u00e9 o limite. E, diante desse limite \u2014 que \u00e9 um limite da palavra \u2014 n\u00f3s temos que fazer algum ato para que possamos restituir algo ao corpo que est\u00e1 em sofrimento, no limite. Diante de um sujeito quase em pele e osso, nada sens\u00edvel a qualquer fala, a nenhuma interven\u00e7\u00e3o verbal, \u00e9 necess\u00e1rio restituir condi\u00e7\u00f5es de vida, para que ele possa seguir uma an\u00e1lise ou um tratamento poss\u00edvel depois, durante anos. De forma que n\u00e3o existem regras, \u00e9 no caso a caso. Se temos uma fam\u00edlia que pode dedicar-se a estar com o sujeito dentro de casa, com todas as medidas m\u00e9dicas, cuidando do corpo, tratando o sujeito, n\u00e3o faz necess\u00e1ria nenhuma interna\u00e7\u00e3o. A interna\u00e7\u00e3o se faz imperativa pelas consequ\u00eancias f\u00edsicas do uso de drogas como o crack.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Elisa Alvarenga<\/strong>: Queria agradecer essa iniciativa do Henri e as falas do Beneti e da Rose, que, de alguma forma, me ajudaram a pensar sobre a experi\u00eancia que vivemos no Instituto Raul Soares, na enfermaria de mulheres. S\u00e3o muitas usu\u00e1rias de crack, e uma coisa que me impressiona muito nessa experi\u00eancia \u00e9 que n\u00e3o existem duas iguais, s\u00e3o sempre totalmente diferentes. Interessou-me essa possibilidade diagn\u00f3stica que o Beneti aponta: temos as neur\u00f3ticas, aquelas cuja pol\u00edtica \u00e9 perder tudo, que jogam tudo que t\u00eam fora \u2014 fam\u00edlia, vida amorosa, trabalho, filhos; temos as psic\u00f3ticas, com v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es diferentes da droga, no caso delas; e temos aquelas das quais realmente n\u00e3o sabemos muito bem qual \u00e9 a estrutura, mas para as quais a droga \u00e9 totalmente indispens\u00e1vel. Isso que a Rose disse tamb\u00e9m, das que usam para trabalhar, n\u00f3s temos v\u00e1rias mulheres que, como s\u00e3o pau para toda obra, usam a droga para trabalhar, para poder conseguir dinheiro para os filhos. Enfim, temos todos esses usos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o Beneti fala da quest\u00e3o dos homic\u00eddios, eu acho que o problema maior que temos \u00e9 o pouco valor da vida hoje em dia, parece que a vida n\u00e3o vale nada. Ent\u00e3o, o problema \u00e9 a droga, \u00e9 a viol\u00eancia, \u00e9 a sociedade capitalista. O que \u00e9 a sociedade capitalista em \u00faltima inst\u00e2ncia? \u00c9 um imperativo de gozo, ou, em \u00faltima an\u00e1lise, se voltarmos a Freud, como faz a Rose, \u00e9 puls\u00e3o de morte, quer dizer, n\u00e3o existe uma solu\u00e7\u00e3o que v\u00e1 retornar para o grande \u201cI\u201d, como aponta o Beneti, no in\u00edcio, ou seja, n\u00e3o existe uma solu\u00e7\u00e3o fundamentalista de que possamos lan\u00e7ar m\u00e3o para come\u00e7ar a atacar o problema. Ent\u00e3o, vai ter que ser um problema tratado caso a caso. Nesse sentido, eu queria dar uma not\u00edcia. N\u00e3o sei se voc\u00eas est\u00e3o sabendo que a ONU reconheceu a Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise como ONG Consultante Especial. Isso significa que o que estamos fazendo aqui em dimens\u00e3o micro, quer dizer, a Prefeitura conversar com o Instituto, para pensarmos numa pol\u00edtica, a ONU tamb\u00e9m est\u00e1 fazendo, ao reconhecer a AMP como uma consultora que pode ajudar a pensar os problemas da atualidade. Nesse sentido, estou levando \u00e0 AMP-Am\u00e9rica \u2014 que \u00e9 a parte da AMP composta das tr\u00eas escolas da Am\u00e9rica \u2014 uma proposta de pensar numa pol\u00edtica para as drogas. N\u00e3o sei nem se a melhor express\u00e3o seria pol\u00edtica para as drogas, mas uma pol\u00edtica para a viol\u00eancia; enfim, uma pol\u00edtica para essa desvaloriza\u00e7\u00e3o da vida diante da qual estamos hoje, e que s\u00f3 podemos tratar no um a um, me parece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Wellerson Alkmim<\/strong>: Parab\u00e9ns \u00e0 mesa, ao belo texto da Rose e \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Beneti, que foi muito esclarecedora. Outro dia, eu recolhi duas quest\u00f5es importantes de uma interven\u00e7\u00e3o do Pol\u00edbio. Ele apresenta uma s\u00e9rie de dados. O Beneti tem raz\u00e3o, o uso do dado \u00e9 importante porque tem toda uma pol\u00edtica de avalia\u00e7\u00e3o em curso. Em sua interven\u00e7\u00e3o, Pol\u00edbio destaca duas coisas que eu gostaria de submeter \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o desta mesa. Primeiro, ele fala de algo que Beneti corrobora hoje, que \u00e9 a quest\u00e3o da criminaliza\u00e7\u00e3o do uso e do tr\u00e1fico de drogas, principalmente, e que tem muito mais a ver com a rela\u00e7\u00e3o comercial, econ\u00f4mica, com o tr\u00e1fico e com o traficante, do que propriamente com a intoxica\u00e7\u00e3o. Assim, temos um deslocamento que eu acho importante destacar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda coisa, que tamb\u00e9m foi apontada por Beneti, s\u00e3o as novas formas de respostas sanit\u00e1rias, respostas higienistas. Essas respostas t\u00eam um nome, t\u00eam uma cara, s\u00e3o as comunidades terap\u00eauticas. Sei que existe um movimento importante, inclusive oficial, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es das comunidades terap\u00eauticas, que hoje usam uma outra nomea\u00e7\u00e3o para algo que tinha uma significa\u00e7\u00e3o diferente h\u00e1 50 anos. Eu queria saber se a Rose podia trazer alguma informa\u00e7\u00e3o, algum dado de como est\u00e1 essa discuss\u00e3o. O Pol\u00edbio aponta que, se esse \u00e9 um movimento que n\u00e3o conseguimos conter, pelo menos o poder p\u00fablico pode intervir para regulamentar a forma de funcionamento dessas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e9rgio de Castro: Inicialmente, quero agradecer as interven\u00e7\u00f5es de Rose e Beneti, muito agudas e interessant\u00edssimas. Elas me fizeram lembrar uma entrevista recente, do dia 18 de agosto de 2011, de Jacques-Alain Miller ao jornal Franc\u00eas Le Point, que, com certeza, j\u00e1 deve estar circulando mais amplamente [6], em que ele elege ou indica quase como um paradigma do sujeito contempor\u00e2neo, o sujeito da adi\u00e7\u00e3o, o toxic\u00f4mano. Isso me impressionou muito, o alcance e a amplitude da quest\u00e3o com a qual n\u00f3s vamos lidar, e vamos lidar cada vez mais, e numa escala cada vez maior. Nessa entrevista, Miller indica como fundamento para isso a tend\u00eancia contempor\u00e2nea de tudo quantificar e avaliar. Ele vai dizer: o fundamento da quantifica\u00e7\u00e3o \u00e9 o Um, e essa preval\u00eancia do \u201cUm-todo-s\u00f3\u201d que n\u00f3s vemos tendo um alcance cada vez mais amplo e radical no mundo contempor\u00e2neo. E o modelo desse \u201cUm-todo-s\u00f3\u201d com seu gozo, por excel\u00eancia, vai ser o toxic\u00f4mano. Nesse sentido, lembra tamb\u00e9m Miller, nessa entrevista, tudo pode se tornar droga: o uso do smartphone, a pr\u00e1tica de um esporte, etc. Da\u00ed o sujeito toxic\u00f4mano, o sujeito da adi\u00e7\u00e3o como paradigma do sujeito contempor\u00e2neo \u2014 ele n\u00e3o usa esse termo. A contrapartida do tudo quantificar a partir do Um \u00e9 a viol\u00eancia, que n\u00e3o \u00e9, portanto, uma exclusividade de certas condi\u00e7\u00f5es brasileiras, ainda que ela se manifeste de maneiras pr\u00f3prias e espec\u00edficas em cada sociedade, cada circunst\u00e2ncia e cada pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa mesma entrevista, Miller toma o ato terrorista e assassino do noruegu\u00eas, que assassinou setenta e tantos jovens [7]. Ele se refere \u00e0quele epis\u00f3dio como um espelho do mundo contempor\u00e2neo, baseado nesse sujeito, do Um inteiramente s\u00f3 com o seu consumo, com seu gozo, visto que ele mata sozinho. Ricardo Seldes, nosso colega argentino, que esteve conosco h\u00e1 uma ou duas semanas, em nossas Jornadas de Cart\u00e9is, nos lembrou disso tamb\u00e9m. Cada pa\u00eds, cada sociedade, cada circunst\u00e2ncia com modalidades pr\u00f3prias de passagem-ao-ato, de tend\u00eancia homicida, como observou tamb\u00e9m Beneti hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso tudo me veio \u00e0 cabe\u00e7a para lembrar a dimens\u00e3o da quest\u00e3o que n\u00f3s temos pela frente e com a qual vamos nos haver cada vez mais. A lembran\u00e7a da express\u00e3o de Laurent, que Cristiane Barreto nos trouxe: \u201cmod\u00e9stia ativa\u201d, pode nos orientar diante dessa imensid\u00e3o, visto que n\u00e3o adianta falarmos de retorno aos ideais, de ex\u00e9rcito da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Miriam Abou-Yd<\/strong>: No dia 18 de maio passado, comemoramos os 50 anos do livro Hist\u00f3ria da Loucura e, curiosamente, a \u00faltima ala do desfile representava que a hist\u00f3ria n\u00e3o tinha terminado. S\u00f3 que era no bom sentido, ela n\u00e3o tinha terminado porque t\u00ednhamos constru\u00eddo uma rede substitutiva. Claro que Foucault iria apontar todos os nossos furos. No entanto, passados alguns meses, desde 18 de maio, estamos vendo que a hist\u00f3ria realmente n\u00e3o acabou, o preconceito n\u00e3o acabou. Na verdade, ele se deslocou: a mudan\u00e7a que estamos vendo \u00e9 a de que o perigoso assassino j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o psic\u00f3tico, o perigoso assassino agora \u00e9 o usu\u00e1rio de crack, o usu\u00e1rio de drogas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando, h\u00e1 alguns anos, abr\u00edamos os jornais, v\u00edamos, o tempo todo, essa hist\u00f3ria de que um louco, um psic\u00f3tico, havia matado v\u00e1rias pessoas. Naquela \u00e9poca, o louco, assassino, violento e incapaz, eram os psic\u00f3ticos; agora, esse sujeito louco, assassino, incapaz, \u00e9 o usu\u00e1rio de droga, de crack. Concordo com Beneti que est\u00e1 come\u00e7ando, mas com uma rapidez muito grande, a associa\u00e7\u00e3o de discursos que nossa sociedade est\u00e1 conseguindo fazer em torno dessa concep\u00e7\u00e3o, dessa nomea\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio de drogas como esse p\u00e1ria a ser exclu\u00eddo do nosso campo. Esse discurso est\u00e1 muito potente, muito poderoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concordo que existe todo um movimento, que o capitalismo pressiona para que se construa, e que n\u00f3s tamb\u00e9m o elegemos para que tal aconte\u00e7a, e tem tamb\u00e9m, como disse o S\u00e9rgio, uma peculiaridade que \u00e9 brasileira. Por exemplo, quando vemos, h\u00e1 dois anos e pouco, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria tentar questionar a reforma psiqui\u00e1trica, justamente nesse ponto de onde a quest\u00e3o do \u00e1lcool e drogas n\u00e3o estava colocada \u2014 isso nos abala, mas n\u00e3o tanto. T\u00ednhamos com o que responder. O que vai acontecer em seguida, justamente no per\u00edodo de elei\u00e7\u00e3o presidencial, \u00e9 que eles come\u00e7am a bater numa tecla que \u00e9 realmente o nosso ponto fraco, a quest\u00e3o do \u00e1lcool e das drogas. Tanto o discurso da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psiquiatria quanto o discurso do Serra estavam voltados para essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente, tivemos o segundo turno nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Digo infelizmente porque isso significou perder um pouco aquilo que poderia distinguir o PT da proposta do Serra, que foi o tema do aborto. Acredito que todos se lembrem de que, durante o primeiro turno, veio \u00e0 tona a quest\u00e3o do aborto. E, no segundo turno, alguns acordos pol\u00edticos tiveram que ser feitos, e \u00e9 a\u00ed que entram em cena a quest\u00e3o das comunidades terap\u00eauticas e tudo aquilo que elas representam. Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a exist\u00eancia da comunidade terap\u00eautica, \u00e9 toda a concep\u00e7\u00e3o que as comunidades terap\u00eauticas representam e tamb\u00e9m o acordo feito pelo Governo Dilma com todas as igrejas brasileiras, sendo que todas elas t\u00eam comunidades terap\u00eauticas. Ent\u00e3o, isso \u00e9 muito complicado, pois, nessa composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as nacionais, n\u00f3s estamos perdendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse momento, o Governo Federal, devido a esse acordo feito no segundo turno, tamb\u00e9m come\u00e7a a esbo\u00e7ar e apresentar uma pol\u00edtica totalmente diversa da pol\u00edtica que n\u00f3s defendemos. Temos ainda um outro problema grave que \u00e9 a privatiza\u00e7\u00e3o do SUS, as OSs, as OSCIPs, as PPPs \u2014 parcerias p\u00fablico-privadas que tamb\u00e9m nos fragilizam muito, em qualquer proposta que venhamos a apresentar. E o que incomoda muito \u00e9 o sil\u00eancio dos descontentes. Eu ouvi aqui um discurso dos descontentes com essa situa\u00e7\u00e3o, acredito que todos n\u00f3s sejamos os descontentes, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica que vem sendo colocada, ao discurso que est\u00e1 sendo veiculado no Brasil. Fica ent\u00e3o um apelo. At\u00e9 ent\u00e3o poucos setores t\u00eam-se posicionado publicamente contra essa mar\u00e9 que vem vindo contra n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos alguns textos, um \u00e9 do Lancetti [8], o outro \u00e9 do Dartiu [9]. Isso \u00e9 pouco, tr\u00eas ou quatro artigos nacionais que tiveram uma certa divulga\u00e7\u00e3o, poucos. Quando conversamos com alguns deputados, senadores, todos eles concordam, mas n\u00e3o falam. H\u00e1 alguma coisa que est\u00e1 dificultando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fica aqui um apelo. A psican\u00e1lise tem uma boa veicula\u00e7\u00e3o na m\u00eddia, acho que isso \u00e9 importante, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ela tem essa representa\u00e7\u00e3o, ela fez por merecer. Temos aqui pessoas que poderiam posicionar-se mais publicamente, para termos coragem mesmo de romper com esse fluxo. Acredito que d\u00ea tempo, est\u00e1 no in\u00edcio, est\u00e1 violento, est\u00e1 dif\u00edcil, mas vamos correr o risco. Se n\u00e3o fizermos isso, n\u00e3o teremos participado de uma linda hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m teremos participado da derrocada dessa hist\u00f3ria. Eu n\u00e3o tenho d\u00favida disso. Fica aqui o apelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Wilma: Eu n\u00e3o sei se sou otimista demais, mas acho que a pol\u00edtica de \u00e1lcool e drogas avan\u00e7ou. At\u00e9 2002, n\u00e3o t\u00ednhamos nenhum CAPS \u00e1lcool e drogas com uma proposta pol\u00edtica para este pa\u00eds. N\u00f3s v\u00edamos alco\u00f3latras e toxic\u00f4manos nas urg\u00eancias, \u00e0 merc\u00ea das fazendas e das comunidades, por falta de um orientador, de um princ\u00edpio, de uma pol\u00edtica de fato. Agora precisamos avan\u00e7ar, acreditar na pol\u00edtica do CAPSad, e \u00e9 nesse sentido que Belo Horizonte tem que se debru\u00e7ar sobre esse problema. Eu acho \u00f3tima essa oportunidade de estarmos aqui para poder dizer que dois CAPS para atender uma cidade com tr\u00eas milh\u00f5es de habitantes \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil. Por mais que se saiba do atravessamento do discurso da ci\u00eancia, sabemos tamb\u00e9m que existe o discurso do toxic\u00f4mano, que bate todos os dias \u00e0 porta dos servi\u00e7os especializados querendo ser atendido, e n\u00e3o damos conta de atender todo mundo. Por isso \u00e9 preciso avan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Beneti disse uma coisa importante sobre a transfer\u00eancia, pois ela continua sendo a mola ainda hoje. Aprendi com Beneti que n\u00f3s nos devemos colocar dealers no lugar do traficante, como algu\u00e9m que pode oferecer outra coisa para o toxic\u00f4mano, que n\u00e3o sejam s\u00f3 outras drogas modernas, mas que essas drogas modernas, \u00e0s vezes, podem ser apresentadas via transfer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a Rose disse, n\u00e3o \u00e9 uma \u00fanica inst\u00e2ncia que vai dar conta dessa problem\u00e1tica do sujeito que usa droga e \u00e1lcool. Ent\u00e3o, n\u00f3s estamos aqui porque todas as inst\u00e2ncias est\u00e3o sendo convocadas: a Escola, o jur\u00eddico, a sa\u00fade, mas uma sozinha n\u00e3o vai dar conta. A psican\u00e1lise nos ensina o convite \u00e0 inven\u00e7\u00e3o, ao caso a caso; na cl\u00ednica, nos dispositivos do SUS, nos consult\u00f3rios de ruas, nos CAPS, nos PSFs. \u00c9 preciso conseguir articular uma rede, e essa rede n\u00e3o \u00e9 algo pronto, mas alguma coisa a ser tecida em torno de cada usu\u00e1rio de droga e \u00e1lcool.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00e1rcia Parizzi<\/strong>: Eu trabalho na Secretaria Municipal de Sa\u00fade, sou coordenadora de Aten\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade da Crian\u00e7a e do Adolescente do munic\u00edpio. Gostaria de falar um pouco da nossa experi\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o ao atendimento dos adolescentes em conflito com a lei. Estranhei a fala da Cristina Nogueira, pois ela fala que agora ter\u00edamos a sa\u00fade com o CIA, mas a Secretaria Municipal de Sa\u00fade j\u00e1 est\u00e1 no CIA desde que come\u00e7amos a trabalhar com adolescente. A Secretaria tem uma interlocu\u00e7\u00e3o constante com esse servi\u00e7o e com o Liberdade Assistida tamb\u00e9m fora do CIA. Temos equipes de sa\u00fade da fam\u00edlia atuando dentro dos Centros de Interna\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria, h\u00e1 mais de um ano, o que seria imposs\u00edvel sem uma interlocu\u00e7\u00e3o com o CIA. Uma das orienta\u00e7\u00f5es que a equipe de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade do adolescente recebeu foi a de atender esse adolescente em toda a sua integralidade, olhar todas as dimens\u00f5es do adolescente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a Rose fala que n\u00e3o temos visto, dentro dos Centros de Interna\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria \u2014 para onde s\u00e3o encaminhados os adolescentes que teoricamente teriam cometido algum ato infracional mais grave \u2014 s\u00edndrome de abstin\u00eancia, nem sintomas de intoxica\u00e7\u00e3o, queremos dizer que o que vemos s\u00e3o adolescentes que apresentam quadros de ins\u00f4nia, de n\u00e1usea, que poderiam ser tomados como sintomas de s\u00edndrome de abstin\u00eancia. O que notamos \u00e9 que, ao conversar, escutar, entender o que esse adolescente tem a dizer, isso possibilita que passe essa ins\u00f4nia, e isso sem drogas. A nossa equipe n\u00e3o precisa dar drogas para esses meninos dormirem. Ela conversa, atende esses adolescentes. E o que esses adolescentes dizem para justificar essa ins\u00f4nia aponta para uma situa\u00e7\u00e3o grave de viola\u00e7\u00e3o dos direitos. Eles est\u00e3o dentro desses Centros de Interna\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria numa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, compartilhando os seus alojamentos \u00e0s vezes com ratos, passando frio, inseguros com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 medida socioeducativa que v\u00e3o receber. \u00c0s vezes, o adolescente est\u00e1 preocupado com o filhinho que nasceu, preocupado de ser usado, ser abusado \u00e0 noite, numa situa\u00e7\u00e3o de superlota\u00e7\u00e3o dos centros. Essa \u00e9 uma circunst\u00e2ncia que sempre nos preocupa muito, principalmente quando ela \u00e9 reduzida \u00e0 droga, pois n\u00e3o \u00e9 essa a quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto preocupante \u00e9 quando pensamos na quest\u00e3o da estat\u00edstica, dos dados epidemiol\u00f3gicos, pois a estat\u00edstica n\u00e3o considera o sujeito, fica todo mundo igual. N\u00e3o podemos querer ter uma pol\u00edtica igual para todos, sem considerar a singularidade. Podemos pegar como exemplo de fracasso, ao considerar uma situa\u00e7\u00e3o como epidemia, a quest\u00e3o da obesidade. Desde que foi considerada uma epidemia em 1997, a obesidade s\u00f3 tem aumentado. Tratar a obesidade de forma reducionista, assim como tratar a droga, sem considerar o sujeito em toda a sua singularidade, inclusive porque, no caso desses adolescentes em conflito com a lei, eles est\u00e3o em uma situa\u00e7\u00e3o grave, \u00e9 nos levar ao fracasso de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ludmilla F\u00e9res<\/strong>: Gostaria de escutar um pouco mais sobre a experi\u00eancia do trabalho do consult\u00f3rio de rua, pois acredito que, nesses casos de usu\u00e1rios de droga e \u00e1lcool, e tamb\u00e9m adolescentes envolvidos em situa\u00e7\u00f5es graves de viol\u00eancia, a proposta de ir onde eles est\u00e3o \u00e9 fundamental. Todos sabemos da dificuldade dessas pessoas em procurar ajuda. Na maioria das vezes, eles ficam entrincheirados em seus territ\u00f3rios, ou sozinhos com sua droga, enquanto as pol\u00edticas p\u00fablicas ficam tamb\u00e9m \u201centrincheiradas\u201d em seus consult\u00f3rios. Modelos como o que voc\u00eas apresentaram com o consult\u00f3rio de rua e outros tantos que temos na cidade, que s\u00e3o pol\u00edticas p\u00fablicas \u201cn\u00f4mades\u201d, parecem possibilitar uma aproxima\u00e7\u00e3o com esse p\u00fablico. A experi\u00eancia com o Programa Fica Vivo, que trabalha dessa forma, pode-nos demonstrar a import\u00e2ncia de usar o \u201cnomadismo\u201d como uma boa forma de pensar uma pol\u00edtica p\u00fablica, j\u00e1 que, de in\u00edcio, parece-me importante fundar com esse p\u00fablico um espa\u00e7o, um campo de transfer\u00eancia, l\u00e1 mesmo onde eles est\u00e3o, e s\u00f3 a partir da\u00ed podermos pensar, de fato, no caso a caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lilany Pacheco<\/strong>: Achei interessante as cita\u00e7\u00f5es de Freud: a regra da abstin\u00eancia tem que estar do lado do analista, e essa oferta dos tratamentos para os jovens, de alguma outra coisa, que seja sem droga. E que os profissionais estejam abstinentes do gozo da droga, de gozar com a droga deles (disso que \u00e9 o espet\u00e1culo), e do gozo do olhar que est\u00e1 inclu\u00eddo nesse contexto. \u00c9 s\u00f3 uma ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Raquel Pinheiro<\/strong>: Gostaria de ressaltar somente tr\u00eas pontos: A quest\u00e3o do intervalo, do consult\u00f3rio de rua: acho que n\u00e3o s\u00f3 a abordagem da rua, o tratamento tamb\u00e9m atua nesse intervalo \u2014 ficar durante o dia \u00e9 um intervalo. A quest\u00e3o de criar a possibilidade de alterna\u00e7\u00e3o do gozo coloca-se tamb\u00e9m como uma fun\u00e7\u00e3o do tratamento. Uma \u201cmod\u00e9stia ativa\u201d de abordar o imposs\u00edvel \u00e9 perfeito para falar sobre o que n\u00f3s fazemos. Eu falo muito do que \u00e9 poss\u00edvel fazer no tratamento. Abordar o imposs\u00edvel, e fazer o que \u00e9 poss\u00edvel, e nem sempre \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 o que todo mundo quer; \u00e9 o que as pessoas querem. A preocupa\u00e7\u00e3o com os portadores de sofrimento mental e usu\u00e1rios, talvez n\u00f3s precis\u00e1ssemos voltar a conversar para mudar a forma de pensarmos os acolhimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s temos uma mudan\u00e7a do perfil dos moradores de rua. Antes, era um morador de rua de uso alcoolista, usu\u00e1rio de thinner e de cola. Os adolescentes, esses continuam o uso de cola e thinner. O fato de o crack provocar um baque muito grande familiar faz com que o seu usu\u00e1rio tamb\u00e9m v\u00e1 para a rua. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos hoje portador de sofrimento mental, usu\u00e1rio de crack e moradores de rua, e, se ainda insistirmos em ficar atendendo, todos n\u00f3s, s\u00f3 a crise, quem vai acolher \u00e9 o hospital, e a\u00ed temos 70% de pessoas dentro de um hospital psiqui\u00e1trico, nem todos necessariamente portadores de sofrimento mental, porque est\u00e1 ali pela interna\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria, interna\u00e7\u00e3o ordenada pelo Juiz, e o \u00fanico lugar que ele tem para enviar esses sujeitos \u00e9 o hospital. Como Miriam disse, \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o dela. Essa \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o minha tamb\u00e9m. N\u00f3s andamos para tr\u00e1s nesse ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que est\u00e1 acontecendo agora \u00e9 que o pessoal est\u00e1 pedindo para abrir leito, usando a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade disse que tem que ter x por cento, uma porcentagem da popula\u00e7\u00e3o, n\u00f3s temos menos que x, portanto, vamos chegar no x. Assim, acho que temos, a todo momento, que levantar essa conversa. Acho \u00f3timo que o pessoal do Instituto esteja entrando nessa di\u00e1logo. Acho que s\u00e3o pessoas que podem ajudar-nos muito a pensar o caso a caso. Somos convocados a falar da droga o tempo todo, e n\u00e3o do usu\u00e1rio. Quando voc\u00ea fala do usu\u00e1rio, as pessoas falam que n\u00e3o pode ser caso a caso. Temos que estar presentes nessa discuss\u00e3o, mas temos que ter mais voz a favor dessa discuss\u00e3o, do caso a caso, do sujeito, e n\u00e3o da droga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frederico Feu<\/strong>: A conversa me estimulou em v\u00e1rios pontos, mas eu queria retomar a quest\u00e3o pol\u00edtica. H\u00e1 v\u00e1rias propostas cl\u00ednicas em jogo, certamente n\u00f3s vamos poder retomar. Devemos retomar isso, talvez colocando numa forma de texto, em fun\u00e7\u00e3o disso que a Miriam estava lembrando, de que h\u00e1 um sil\u00eancio, que tanto pode ser pensado do lado de uma certa hipocrisia social, como tamb\u00e9m do lado de uma desorienta\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, se estamos nos propondo como instrumento uma conversa\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque n\u00e3o sabemos ainda o que fazer, embora constatemos que operamos clinicamente, podemos operar clinicamente. At\u00e9 porque somos especialistas, digamos assim, do fracasso, principalmente devido a essa posi\u00e7\u00e3o de psicanalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um ponto que Henri uma vez mencionou e me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea falou que se incomodava com o termo toxicomania, e talvez fosse melhor pensar na compuls\u00e3o. Acho que \u00e9 um significante interessante para levarmos em conta, porque o tempo todo n\u00f3s estamos colocando aqui que se trata de uma quest\u00e3o de discurso, uma quest\u00e3o de um resto de discurso. A Cracol\u00e2ndia surpreende pela ostenta\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o est\u00e1 exatamente num lugar do resto, no canto, escondido, realmente na l\u00f3gica da transgress\u00e3o, como colocava Beneti, \u00e9 de uma mostra\u00e7\u00e3o que, como Rose estava lembrando, tem um apelo ao pensamento nesse ponto, de que \u00e9 preciso coragem para colocar, coragem estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, eu penso que trazer \u00e0 cena esse termo compuls\u00e3o \u00e9 uma coisa que faz quebrar um pouco esse c\u00edrculo que o Beneti desenhou, que \u00e9 um c\u00edrculo compulsivo, e eu me lembro de que Lacan definiu o discurso do capitalista a partir da in\u00e9pcia em se tornar mais lento. At\u00e9 o pr\u00f3prio discurso da ecologia entra no circuito que tem a ver com essa opera\u00e7\u00e3o sobre o resto, essa coisa incessante. Ent\u00e3o, eu penso que adotar o termo compuls\u00e3o, pensar a compuls\u00e3o, abrir um f\u00f3rum para pensar as compuls\u00f5es, abrange uma perspectiva discursiva mais ampla que \u00e9 a toxicomania. Talvez seja mais interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ant\u00f4nio Beneti<\/strong>: Conversa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma elabora\u00e7\u00e3o coletiva. Eu acho muito, mas muito importante a quantidade de coisas que surgiram aqui. Cada um faz uma reflex\u00e3o particular, e \u00e9 nesse sentido que eu queria propor \u00e0s pessoas que est\u00e3o dirigindo o Instituto, a Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica e o N\u00facleo de Toxicomania, que essa conversa\u00e7\u00e3o fosse transcrita, fosse veiculada no site do Instituto, passada tamb\u00e9m para o pessoal da Prefeitura, porque eu estou dando a ela o estatuto de um certo documento, dentro de um movimento pol\u00edtico dos trabalhadores de sa\u00fade mental, dos analistas, na abordagem de uma quest\u00e3o extremamente pertinente, num momento fundamental. Essa \u00e9 uma oportunidade a partir da qual podemos come\u00e7ar a ter a\u00e7\u00f5es dentro desse campo, junto com a sa\u00fade mental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o do \u201ctodos toxic\u00f4manos\u201d, ou da toxicomania contempor\u00e2nea, \u201c\u00e9 o sujeito contempor\u00e2neo\u201d, s\u00e3o as mulheres da terapia de reposi\u00e7\u00e3o hormonal e os homens com Viagra, a \u201csexualidade sem inconsciente\u201d \u2014 sabemos que s\u00e3o os jovens os que mais consomem o Viagra. Porque, se isso est\u00e1 posto dessa forma, parece que, dentro do discurso capitalista, a vida s\u00f3 tem sentido intoxicada, ou pela qu\u00edmica, ou pelos objetos de consumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A discuss\u00e3o n\u00e3o se resume somente \u00e0 quest\u00e3o da comunidade terap\u00eautica e similares. Tive dois casos na cl\u00ednica que me indicam: O que o discurso da ci\u00eancia pode fazer? Um sujeito hist\u00e9rico, que fez uma depress\u00e3o em determinado momento, foi tido como portador de \u201cfibromialgia\u201d pelo DSM-IV, e foi injetada nele uma bomba de morfina, que j\u00e1 era, digamos assim, a n\u00famero quatrocentos, de um neurologista de S\u00e3o Paulo que instalava essa \u201cbugiganga\u201d. Um quadro dram\u00e1tico, porque n\u00e3o podia tirar isso, e ele totalmente na transfer\u00eancia com o neurologista. Enfim, um ato de \u201cdescuido\u201d da ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tive um outro sujeito obsessivo com s\u00edndrome de p\u00e2nico no qual foi feita uma psicocirurgia. Eu n\u00e3o acho dif\u00edcil que para os usu\u00e1rios de drogas (eu estou apontando isso) o discurso capitalista invente \u201cbugigangas\u201d para serem consumidas, que v\u00e3o entrar no tratamento do sujeito toxic\u00f4mano. N\u00e3o duvido de que, tipo \u201claranja mec\u00e2nica\u201d\u2026 venha ocorrer, pelo discurso da ci\u00eancia, com drogas, instrumentos de interven\u00e7\u00e3o no n\u00edvel cerebral, porque se trata do c\u00e9rebro no comando. Ent\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es desse tipo n\u00e3o vir\u00e3o pelo servi\u00e7o p\u00fablico, mas podem vir no particular, e, assim, abre-se uma brecha enorme para isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rosimeire Silva<\/strong>: Bom, eu queria agradecer, em nome das \u00faltimas interven\u00e7\u00f5es, a todas as interven\u00e7\u00f5es feitas hoje aqui, agradecer \u00e0 Lilany, agradecer \u00e0 Ludmilla, nesse conjunto das \u00faltimas interven\u00e7\u00f5es, pelas p\u00e9rolas que voc\u00eas trazem, que s\u00e3o frases e pensamentos que organizam e nos ajudam a avan\u00e7ar nessa elabora\u00e7\u00e3o. E ao S\u00e9rgio, pela tradu\u00e7\u00e3o do sujeito da adi\u00e7\u00e3o como o sujeito do contempor\u00e2neo, que tamb\u00e9m nos vai ajudando a esclarecer uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es nessa nossa cl\u00ednica, dentro da rede p\u00fablica, com os usu\u00e1rios de \u00e1lcool e drogas, mas tamb\u00e9m com os portadores de sofrimento mental. Como o sujeito n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o localizada fora de um tempo hist\u00f3rico, ele responde \u00e0s m\u00e1ximas de seu tempo, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, temos o sujeito da adi\u00e7\u00e3o como esse sujeito da contemporaneidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concordo com Wellerson que a comunidade terap\u00eautica continua sendo um ponto tenso nessa discuss\u00e3o. Mas eu queria agregar a essa proposta de divulga\u00e7\u00e3o dessa conversa\u00e7\u00e3o alguma outra forma de tomada de posi\u00e7\u00e3o p\u00fablica da psican\u00e1lise. Acho que esse \u00e9 um momento que nos pede, \u00e0 psican\u00e1lise, \u00e0 gest\u00e3o, aos diferentes movimentos sociais, uma posi\u00e7\u00e3o de defesa da pol\u00edtica. Ainda que a pol\u00edtica tenha avan\u00e7ado, ela ainda \u00e9 t\u00edmida. Reconhecemos todos, no campo de \u00e1lcool e drogas, que ela precisa ser protegida nesse momento, porque, sen\u00e3o, n\u00f3s vamos perder essa pol\u00edtica. O risco que vivemos, e a\u00ed o risco colocado \u00e9 muito bem evidenciado por esse movimento que \u00e9 pol\u00edtico (das comunidades terap\u00eauticas, da federa\u00e7\u00e3o das comunidades que atr\u00e1s de si articulam v\u00e1rios setores sociais), \u00e9 um movimento que traz s\u00e9rios riscos para a continuidade da reforma psiqui\u00e1trica e para o pr\u00f3prio SUS. A forma como o Governo, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, vem muito embara\u00e7adamente se posicionando coloca riscos para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse momento, acho que \u00e9 preciso assumir mesmo, exercer nossa cidadania, e fazer a defesa de qual pol\u00edtica p\u00fablica de sa\u00fade esse pa\u00eds ter\u00e1, e n\u00f3s queremos que esse pa\u00eds tenha, ou continue a ter, ou continue a sustentar, para continuar a se orgulhar dela. N\u00e3o vale o Ministro da Sa\u00fade dizer que o SUS \u00e9 um patrim\u00f4nio da sociedade brasileira, e, num mesmo momento, acenar com a possibilidade de ceder \u00e0 press\u00e3o, que \u00e9 uma press\u00e3o real, uma press\u00e3o intensa sobre o Governo Federal, que tem a ver com o acordo de campanha, e a\u00ed, nesse momento, quem vai pagar a fatura \u00e9 o SUS. \u00c9 a \u00fanica pol\u00edtica p\u00fablica desse pa\u00eds que vem sendo corajosamente sustentada. Ent\u00e3o, \u00e9 disso que estamos tratando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe um manifesto feito pelo Conselho Federal de Psicologia (est\u00e1 no site do conselho), e eu convido todos para aderirem a esse manifesto, e tamb\u00e9m fazer parte de outros movimentos, outros movimentos de cidadania de manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica da nossa posi\u00e7\u00e3o, porque o coro dos aflitos est\u00e1 por a\u00ed cantando, sozinho, de forma hegem\u00f4nica. N\u00f3s temos que destoar dessa m\u00fasica, essa epidemia moralista: se tem uma epidemia, \u00e9 do discurso moral no tratamento dessa quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, esse movimento \u00e9 supertenso, e n\u00f3s estamos tentando, mais que regular, acho que \u00e9 preciso ter clareza do que isso traz de limita\u00e7\u00e3o, de atravessamento, de problemas para a constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica da sa\u00fade. E, al\u00e9m disso, ter claro tamb\u00e9m qual a interven\u00e7\u00e3o poss\u00edvel a ser feita junto dessas institui\u00e7\u00f5es. S\u00e3o institui\u00e7\u00f5es que se constitu\u00edram no v\u00e1cuo de uma pol\u00edtica p\u00fablica, isso \u00e9 verdade, 30 anos de aus\u00eancia de resposta, elas se constituem como iniciativas da sociedade, da boa caridade, dos bons sentimentos em rela\u00e7\u00e3o ao outro; mas querer o bem nem sempre \u00e9 o bem, e, em nome disso, se faz muita coisa. H\u00e1 muita den\u00fancia de viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos, de maus tratos e at\u00e9 de morte nesses lugares. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aceitar isso t\u00e3o passivamente! Pretendo que esse governo que se faz de esquerda v\u00e1 fazer seu lado moralista da hist\u00f3ria, v\u00e1 fazer o que nem Fernando Henrique fez. \u00c9 o movimento de segurarmos mesmo essa tentativa de retrocesso, \u00e9 um retrocesso real, que se articula com o pedido, com essa demanda de interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu escuto tanto esse neg\u00f3cio todo dia, ent\u00e3o resolvi pegar a Lei Federal 10.216 para reler. A lei coloca tr\u00eas tipos de interna\u00e7\u00e3o: volunt\u00e1ria, involunt\u00e1ria e compuls\u00f3ria; a compuls\u00f3ria, decidida pelo Juiz, mas decis\u00e3o singular. Ent\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 para acreditar, para ser ing\u00eanuo, nessa fala\u00e7\u00e3o sobre interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria como outra coisa sen\u00e3o estrat\u00e9gia de limpeza do espa\u00e7o social, porque, para esse discurso, ele n\u00e3o coloca nem a possibilidade de um sujeito singular recebendo uma medida determinada por um juiz: \u00e9 instrumento para a justi\u00e7a vir varrer a cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concluindo, Ludmilla, obrigada pelo \u201cterrit\u00f3rio\u201d e \u201cnomadismo\u201d. Acho que, com o consult\u00f3rio de rua, n\u00f3s vamos aprendendo a import\u00e2ncia de chegar l\u00e1 no territ\u00f3rio, ir at\u00e9 onde o povo est\u00e1, mas, no caso da sa\u00fade, sem fazer o que a sa\u00fade fez historicamente, que \u00e9 fazer pol\u00edcia sanit\u00e1ria. Ent\u00e3o, \u00e9 ir onde o sujeito est\u00e1 para encontrar de fato o sujeito, e a\u00ed sim, permitir que ele chegue \u00e0s redes, ajud\u00e1-lo a chegar \u00e0s diferentes redes. Curiosamente, eu conferi, com a equipe do Consult\u00f3rio da Pedreira, os casos mais facilmente encaminhados da Boca da Pedreira para a rede s\u00e3o os dois que est\u00e3o usando crack. A\u00ed sentimos um al\u00edvio, porque a propalada defici\u00eancia da Rede de Sa\u00fade Mental de BH fica muito mais amena. N\u00f3s temos dois CAPS para dar conta dos neur\u00f3ticos que se intoxicam nessa cidade, e temos sete CAPS para dar conta de todos os outros, e a\u00ed eles est\u00e3o chegando e d\u00e3o muito mais link.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obrigada pelas interven\u00e7\u00f5es. Foi muito, muito bom estar aqui. N\u00f3s vamos nos encontrar noutros lugares, exercendo nosso direito de cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Henri Kaufmanner<\/strong>: Quero fazer ainda um coment\u00e1rio antes de encerrarmos, aproveitando a fala do Frederico Feu. Era minha inten\u00e7\u00e3o, neste final, retomar o inc\u00f4modo que a nomea\u00e7\u00e3o toxicomania me provoca. Penso que \u00e9 um nome que n\u00e3o funciona no um a um de nossa pr\u00e1tica. Parece-me que as apresenta\u00e7\u00f5es de Rose e Beneti nos mostram como esse conceito \u00e9 insuficiente para dar conta do que est\u00e1 acontecendo. Como psicanalistas, n\u00e3o temos a priori quaisquer problemas com o consumo. Nossa quest\u00e3o \u00e9 com o gozo, e \u00e9 a responsabilidade do sujeito com esse gozo que est\u00e1 em jogo. N\u00e3o podemos desconhecer, e o mundo mostra isso, que a tend\u00eancia do consumo, em nossas vidas, \u00e9 aumentar, seja com as drogas, os smartphones, os computadores, ou com tudo aquilo que o capitalismo produz. Diante dessa realidade, a quest\u00e3o que se apresenta parece ser: como \u00e9 que cada sujeito, no seu Um de gozo, algo que S\u00e9rgio nos traz com essa refer\u00eancia a Miller, vai poder lidar com essas ofertas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, acho muito interessante a lembran\u00e7a do que ocorreu na Noruega. Com toda aquela dramaticidade, isso traz tamb\u00e9m seus ensinamentos. Eu fiquei pensando, quando aconteceu, como \u00e9 que seria o funcionamento a partir de agora nos aeroportos, se todos os \u201cloiros de olhos azuis\u201d passassem a ser revistados. Vejam que o que se passou com aquele sujeito coloca em quest\u00e3o, por exemplo: O que \u00e9 o terrorismo? \u00c9, no m\u00ednimo, intrigante pensar nas raz\u00f5es que levaram boa parte da m\u00eddia a se recusar a chamar o que se passou de um ato terrorista, nomeando o sujeito apenas como um atirador. Todo esse problema me remete \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es de Lacan presentes em seu texto sobre a criminologia. L\u00e1 ele escrevia sobre o ressurgimento do racismo e das novas formas de segrega\u00e7\u00e3o. Isso me parece realmente estar em jogo na problem\u00e1tica atual das drogas. Obviamente, h\u00e1 sujeitos com os quais precisaremos de uma aproxima\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de seu problema. Mas, de maneira mais ampla, h\u00e1 algo a\u00ed que nos convoca como psicanalistas na cidade e como atores pol\u00edticos dessa cena. Essa foi a inten\u00e7\u00e3o que nos moveu ao convocarmos essa conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, vamos conversar mais, e, certamente, vamos ter outros desdobramentos disso. Agrade\u00e7o a presen\u00e7a de todos.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[1] Conversa\u00e7\u00e3o do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, realizada em Belo Horizonte, em 10 de setembro de 2011.<br \/>\n[2] Tamb\u00e9m publicadas nesta edi\u00e7\u00e3o do Almanaque online.<br \/>\n[3] LAURENT, \u00c9ric. Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum\/EBP, 2011.<br \/>\n[4] Medida protetiva prevista no Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, que determina a inser\u00e7\u00e3o em programa oficial ou comunit\u00e1rio de tratamento em fun\u00e7\u00e3o do uso de drogas.<br \/>\n[5] Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional. Funciona em Belo Horizonte e atende os adolescentes que cometem ato infracional. Participam do CIA: Pol\u00edcia Militar, Civil, Defensoria, Promotoria, Tribunal de Justi\u00e7a, Defesa Social e Munic\u00edpio.<br \/>\n[6] Publicada no Brasil em dezembro de 2011, no n.70 de Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, p.7-12, com o nome de \u201cAs profecias de Lacan\u201d.<br \/>\n[7] O ato terrorista de Anders Behring Breivik, autor confesso da explos\u00e3o no centro de Oslo e do massacre na ilha de Utoya, que juntos deixaram 76 mortos na Noruega, em 22\/07\/11.<br \/>\n[8] Ant\u00f4nio Lancetti, psic\u00f3logo, psicanalista, artigo intitulado \u201cA droga da m\u00eddia\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/drogasecidadania.cfp.org.br\/revista-brasileiros_edicao-47_junho-de-2011\/. Acesso em: 17 mar. 2012.<br \/>\n[9] Dartiu Xavier da Silveira, m\u00e9dico psiquiatra, \u00e9 professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de S\u00e3o Paulo) e diretor do Programa de Orienta\u00e7\u00e3o e Atendimento a Dependentes da mesma universidade. Trata-se do artigo \u201cDepend\u00eancia n\u00e3o se resolve por decreto\u201d. Publicado em 25\/06\/2011, na Folha de S\u00e3o Paulo.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CONVERSA\u00c7\u00c3O Henri Kaufmanner: Eu gostaria apenas de pontuar algumas quest\u00f5es r\u00e1pidas, antes de passarmos \u00e0 conversa. Tocarei em dois pontos rapidamente para nos aquecermos um pouco. S\u00e3o duas vinhetas cl\u00ednicas que exemplificam bem essas diferen\u00e7as apontadas por Beneti, que diferenciam dois momentos distintos das adi\u00e7\u00f5es. Na primeira, trata-se de uma senhora j\u00e1 idosa. Uma senhora&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-432","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-09","category-5","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=432"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/432\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}