{"id":456,"date":"2012-03-15T06:50:50","date_gmt":"2012-03-15T09:50:50","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=456"},"modified":"2012-03-15T06:50:50","modified_gmt":"2012-03-15T09:50:50","slug":"o-sonho-de-ser-a-mais-bela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2012\/03\/15\/o-sonho-de-ser-a-mais-bela\/","title":{"rendered":"O Sonho De Ser A Mais Bela"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Silvia Tendlarz<\/strong><\/h6>\n<blockquote>\n<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\" style=\"text-align: right;\"><em style=\"font-size: 14px; font-weight: normal;\">\u201cNow what I love in women is, they won\u2019tOr can\u2019t do otherwise than lie, but do itSo well, the very truth seems falsehood do itAnd, after all, what is a lie? \u2018T is butThe truth in masquerade\u2026\u201d<a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-sonho-de-ser-a-mais-bela#sdendnote1sym\" name=\"sdendnote1anc\">(1)<\/a><\/em><\/h1>\n<\/blockquote>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>(BYRON)<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trajeto que proponho \u00e9 simples. A partir do sonho de uma mulher, o de ser a mais bela, irei desenvolver os diferentes aspectos da mascarada, para estabelecer a seguir um la\u00e7o com a mulher sonhada por um homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Um Sonho De Mulher: \u201cA Mais Bela\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1920, Abraham publica \u201cManifesta\u00e7\u00f5es do Complexo de Castra\u00e7\u00e3o na mulher\u201d. Entre os diversos pontos que estuda, menciona uma tend\u00eancia que atenua o Complexo na mulher e se centra na possibilidade de um reconhecimento por parte do homem que a reconcilia com sua feminilidade. Diz: \u201cMencionarei um requisito que encontrei muitas vezes: \u2018eu poderia resignar-me \u00e0 minha feminilidade, se eu fosse a mais bela\u2019.\u201d Acrescenta, a seguir, que essa fantasia de ser a mais bela se constitui em tr\u00eas tempos. \u201cO desejo original diz: \u2018Eu gostaria de ser um homem\u2019.\u201d Quando isso \u00e9 abandonado, a mulher deseja ser \u201ca \u00fanica mulher\u201d (\u201ca \u00fanica mulher do pai\u201d \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o original). Quando tamb\u00e9m esse desejo precisa ceder perante a realidade, surge a ideia: \u201ccomo mulher, gostaria de ser inigual\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses tr\u00eas tempos ilustram a passagem do Complexo de Masculinidade da menina para a assun\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o feminina, mas com uma caracter\u00edstica particular. Frente \u00e0 falta, o falo que a menina espera receber do pai n\u00e3o entra no dom\u00ednio da equa\u00e7\u00e3o crian\u00e7a=falo, ou seja, a solu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da maternidade, mas \u00e9 posto em jogo seu pr\u00f3prio corpo \u2014 ainda que essas solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o se oponham.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos com Freud que o medo da perda de amor da menina se instala no lugar do Complexo de Castra\u00e7\u00e3o do menino. Isso explica a busca cont\u00ednua, por parte da mulher, de pequenos sinais que cifrem o amor do parceiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro tempo, a menina sofre do Complexo de Masculinidade. Ao chegarmos nesse ponto, devemos lembrar que Freud diferencia dois tempos para esse complexo. O primeiro se refere ao desenvolvimento normal da menina e traduz a atividade f\u00e1lica que acompanha uma rela\u00e7\u00e3o exclusiva com a m\u00e3e: a menina identificada ao falo da m\u00e3e. Esse tempo \u00e9 diferente do que constitui uma das respostas ao Penisneid, no qual se aposta na recusa ou na nega\u00e7\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o. Nesses dois tempos, situa-se a passagem da m\u00e3e em dire\u00e7\u00e3o ao pai e a expectativa de receber o falo do pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na fantasia analisada por Abraham, o pai aparece depois da emerg\u00eancia do Complexo de Masculinidade. Nesse primeiro tempo, produz-se a passagem do ser ao ter o falo e a maneira de confrontar-se com a falta do ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSer a \u00fanica mulher do pai\u201d expressa tanto a rivalidade frente \u00e0s outras mulheres, quanto a demanda de amor dirigida ao pai, de quem espera receber o falo ansiado atrav\u00e9s da met\u00e1fora do amor. Ela quer tornar-se o que falta a ele e evadir-se da sua pr\u00f3pria falta. \u201cSer a \u00fanica\u201d guarda certa dire\u00e7\u00e3o. Aponta para a capta\u00e7\u00e3o do amor do pai e em dire\u00e7\u00e3o a fazer operar a met\u00e1fora f\u00e1lica que lhe permite ser no lugar da falta do ter, revelada no primeiro tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa virada explica por que Abraham afirma que essa fantasia consegue mitigar o Complexo de Masculinidade das mulheres, uma vez que a solu\u00e7\u00e3o do Penisneid n\u00e3o se conclui atrav\u00e9s da identifica\u00e7\u00e3o viril, mas pelo caminho da demanda de amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No terceiro tempo, emerge a ideia de ser uma mulher excepcional ou de ser a mais bela, no qual a apar\u00eancia, o semblante, situa-se no lugar da falta do ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o da faliciza\u00e7\u00e3o do corpo da mulher foi retomada em numerosas ocasi\u00f5es na literatura anal\u00edtica. Lacan evoca em particular a equa\u00e7\u00e3o girl=falo proposta por Fenichel e a mulher enquanto objeto de troca nas estruturas elementares do parentesco. Mas outros autores, como Ferenczi ou Rado, evocaram as metamorfoses do Wunsch-penis que desembocam em que toda superf\u00edcie do corpo passa a ser um substituto narc\u00edsico do p\u00eanis. \u00c9 uma forma um pouco imaginarizada de nomear a a\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora f\u00e1lica operada sobre o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse brilho f\u00e1lico \u00e9 tamb\u00e9m um jogo de sombras que enla\u00e7a o semblante. Van Ophuijsen, em seu artigo sobre o Complexo de Masculinidade, evoca o jogo de sombras de uma paciente durante sua inf\u00e2ncia. Habitualmente, nas noites, ela ficava em p\u00e9 entre o abajur e a parede e colocava os dedos na frente da parte inferior de seu corpo, de maneira tal que a sombra projetada evocasse a forma do p\u00eanis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A faliciza\u00e7\u00e3o do corpo feminino faz parte tamb\u00e9m do jogo de sombras. As sombras projetadas v\u00eam do simb\u00f3lico, com sua a\u00e7\u00e3o sobre o imagin\u00e1rio, e indicam quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas do objeto desejado que a mulher deve tentar alcan\u00e7ar. Partindo das curvas femininas do s\u00e9culo XIX, passando pelo modelo andr\u00f3gino do come\u00e7o do s\u00e9culo XX, at\u00e9 chegarmos \u00e0 mulher magra e atl\u00e9tica dos tempos modernos, toda uma gama de varia\u00e7\u00f5es de semblantes \u00e9 proposta atrav\u00e9s do discurso que atua sobre a inven\u00e7\u00e3o que as mulheres fazem delas mesmas. A mascarada \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o que aponta para o desejo do homem e encoberta a falta ao mesmo tempo em que flerta com ela. Ela est\u00e1 determinada por cada hist\u00f3ria e cada posi\u00e7\u00e3o subjetiva. Dessa maneira, se a contagem das mulheres deve fazer-se de uma em uma, alcan\u00e7aremos uma ampla varia\u00e7\u00e3o, a partir de um n\u00famero reduzido de temas, que d\u00e1 conta das sombras que as mulheres projetam sobre elas mesmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata somente de uma miragem. Longe de pensar a mascarada como engano sob o qual se encontra o verdadeiro ser, devemos conceb\u00ea-la como a maneira particular em que se apresenta um sujeito no mundo, homolog\u00e1vel \u00e0s imagens evocadas por Freud em seu artigo sobre a transitoriedade. A beleza que se pode captar durante um instante somente n\u00e3o \u00e9 menos verdadeira se desaparecer logo em seguida. No parecer se manifesta a maneira \u00edntima de tratar a falta do ter, e no singular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu artigo sobre a mascarada feminina, Joan Rivi\u00e8re pergunta-se sobre a diferen\u00e7a entre a feminilidade como disfarce e a verdadeira feminilidade. Ela diz: \u201cQue a feminilidade seja fundamental ou superficial, \u00e9 sempre a mesma coisa\u201d. E isso acontece, podemos acrescentar, porque n\u00e3o existe uma ess\u00eancia feminina. Tanto a posi\u00e7\u00e3o feminina quanto a masculina s\u00e3o o resultado da inclus\u00e3o do ser falante na linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de existir um la\u00e7o \u00edntimo entre a mascarada e o semblante, a mascarada pode ser abordada nos diferentes registros. No simb\u00f3lico, expressa a a\u00e7\u00e3o do discurso que determina a maneira como o sujeito se apresenta no mundo para tornar-se desej\u00e1vel, quer dizer que permanece no circuito do desejo. No imagin\u00e1rio, concerne ao narcisismo do sujeito e \u00e0s imagens que se sobrep\u00f5em sobre o corpo. E, no real, por mais que o semblante e o real estejam separados, a mascarada, de alguma maneira, permanece ligada ao gozo singular do sujeito, mesmo que seja somente sob a forma de seu uso em rela\u00e7\u00e3o ao desejo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cria\u00e7\u00e3o da mascarada n\u00e3o sutura a pergunta acerca de \u201co que \u00e9 ser mulher\u201d. \u00c9 por isso que a fantasia de ser a mais bela n\u00e3o pode ser mais do que um sonho que algumas mulheres podem ter, mas que nenhuma delas se assume como o superlativo sonhado. Talvez essa seja a mulher que falte entre as mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Uma Mulher Sonhada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por que uma mulher gostaria de ser a mais bela ou ser excepcional? Durante o curso do ano de 1991-92, Jacques-Alain Miller apresentou duas solu\u00e7\u00f5es frente ao \u201cn\u00e3o ter\u201d: fazer-se ser e adquiri-lo. A mascarada forma parte da solu\u00e7\u00e3o de fazer-se ser o falo e conota uma solu\u00e7\u00e3o que permanece no registro do ter: \u201cser tida pelo outro\u201d (\u00eatre eue par l\u2019autre).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A condescend\u00eancia da mulher para com a fantasia do homem expressa sua plasticidade no que tange \u00e0 estrat\u00e9gia do desejo para conseguir despert\u00e1-lo. Isso se baseia nos tra\u00e7os particulares que determinam sua escolha de objeto. Dessa maneira, a mascarada, enquanto inven\u00e7\u00e3o, encontra seus limites em cada mulher. O mal-entendido \u00e9 o pre\u00e7o que se paga nessa opera\u00e7\u00e3o. O incontorn\u00e1vel n\u00e3o era ela, nem tampouco era ele; mostra a sucess\u00e3o de semblantes na com\u00e9dia do amor. Devemos ressaltar que o medo da perda de amor faz com que as mulheres se ocupem mais que o homem pela mascarada que prop\u00f5em ao seu parceiro, devido ao seu esfor\u00e7o para tornar-se a mulher sonhada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de propor a mascarada como fazendo parte da posi\u00e7\u00e3o feminina, podemos extrair da fantasia analisada por Abraham duas posi\u00e7\u00f5es opostas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser a \u00fanica para o pai e depois para o homem que o substitui n\u00e3o \u00e9 querer a excepcionalidade. No primeiro caso, a estrat\u00e9gia do desejo permanece ligada ao objeto escolhido; o segundo traduz o esfor\u00e7o da mulher em colocar-se no lugar da exce\u00e7\u00e3o. \u201cSer a \u00fanica para\u201d guarda uma dire\u00e7\u00e3o, fixa o objeto e se inclui na demanda de amor. \u201cSer excepcional\u201d deslocaliza o objeto e reenvia ao pr\u00f3prio sujeito o motor que liga a constru\u00e7\u00e3o da mascarada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso pode servir-nos para distinguir de outra maneira a feminilidade e a histeria. A primeira posi\u00e7\u00e3o \u00e9 tipicamente feminina, em que predomina o fazer-se amar, inclusive com a ambiguidade que comporta o \u201cser a \u00fanica\u201d: unicamente para ele, mas tamb\u00e9m a \u00fanica que ele ama. A evolu\u00e7\u00e3o dessa aspira\u00e7\u00e3o se modaliza nos labirintos da vida amorosa. J\u00e1 a segunda posi\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, expressa a identifica\u00e7\u00e3o viril atrav\u00e9s da qual a hist\u00e9rica tenta responder ao enigma do que \u00e9 ser mulher, ao mesmo tempo em que reivindica seu lugar entre os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sucess\u00e3o de bin\u00f4mios nos permitiu desenvolver a quest\u00e3o da mascarada. A partir da solu\u00e7\u00e3o que apresenta a equa\u00e7\u00e3o corpo=falo, analisamos a fantasia de ser a mais bela e indicamos como ponto de partida a distin\u00e7\u00e3o entre a posi\u00e7\u00e3o que resulta da identifica\u00e7\u00e3o viril e a enla\u00e7ada \u00e0 demanda de amor. Os tr\u00eas tempos da fantasia nos permitiram distinguir a tend\u00eancia de fazer-se amar pelo pai e pelo homem que vem a ocupar esse lugar do desejo intenso de ser excepcional. O uso da mascarada toma uma orienta\u00e7\u00e3o diferente nos dois casos, que nos conduziu \u00e0 postula\u00e7\u00e3o de algumas distin\u00e7\u00f5es entre feminilidade e histeria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre sombras e semblantes, as mulheres se inventam. Cada uma modaliza sua maneira singular de tratar a falta do ter; entre elas, para algumas, \u00e0s vezes, o amor as torna as mais belas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Julieta Sueldo Boedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/index.php\/o-sonho-de-ser-a-mais-bela#sdendnote1anc\" name=\"sdendnote1sym\">(1)<\/a>\u00a0&#8220;Agora o que eu amo nas mulheres \u00e9, elas n\u00e3o v\u00e3o \/ Ou n\u00e3o podem fazer outra coisa sen\u00e3o mentira, mas faz\u00ea-lo \/ T\u00e3o bem, a pr\u00f3pria verdade parece mentira ao faz\u00ea-lo \/ E, afinal, o que \u00e9 uma mentira? \u00c9 apenas \/ A verdade mascarada\u201d<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Silvia Tendlarz<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Silvia Elena Tendlarz Psicanalista, Membro da EOL \u2013 Escuela de la Orientaci\u00f3n Lacaniana e da AMP \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise. E-mail:\u00a0<span id=\"cloakb87a0d763b6baf45d81d00d3fae2b5be\"><a href=\"mailto:stendlarz@fibertel.com.ar\">stendlarz@fibertel.com.ar<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Silvia Tendlarz \u201cNow what I love in women is, they won\u2019tOr can\u2019t do otherwise than lie, but do itSo well, the very truth seems falsehood do itAnd, after all, what is a lie? \u2018T is butThe truth in masquerade\u2026\u201d(1) (BYRON) O trajeto que proponho \u00e9 simples. 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