{"id":458,"date":"2012-03-15T06:50:50","date_gmt":"2012-03-15T09:50:50","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=458"},"modified":"2025-12-01T17:29:21","modified_gmt":"2025-12-01T20:29:21","slug":"a-incidencia-do-narcisismo-na-esquizofrenia-e-na-histeria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2012\/03\/15\/a-incidencia-do-narcisismo-na-esquizofrenia-e-na-histeria\/","title":{"rendered":"A Incid\u00eancia Do Narcisismo Na Esquizofrenia E Na Histeria"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\" style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"font-size: 14px;\">GRACIELA BESSA<\/strong><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Eco-e-Narciso-Detalhe-Oleo-sobre-tela-John-William-Waterhouse-19031.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"736\" data-large_image_height=\"428\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-453\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Eco-e-Narciso-Detalhe-Oleo-sobre-tela-John-William-Waterhouse-19031.jpg\" alt=\"\" width=\"736\" height=\"428\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Eco-e-Narciso-Detalhe-Oleo-sobre-tela-John-William-Waterhouse-19031.jpg 736w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Eco-e-Narciso-Detalhe-Oleo-sobre-tela-John-William-Waterhouse-19031-300x174.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 736px) 100vw, 736px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo das neuroses de transfer\u00eancia \u2014 histeria e neurose obsessiva \u2014 tornou poss\u00edvel a Freud estabelecer uma teoria das puls\u00f5es. Basicamente, at\u00e9 1914, os processos mentais giravam em torno da oposi\u00e7\u00e3o entre as puls\u00f5es sexuais e as puls\u00f5es do eu. Contudo, no que diz respeito \u00e0 sua aplicabilidade aos sintomas na paranoia e na esquizofrenia, essa concep\u00e7\u00e3o do funcionamento ps\u00edquico a partir da ant\u00edtese entre os dois grupos pulsionais \u00e9 insuficiente. Freud, ao escrever o texto \u201cSobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o\u201d (1914\/1974), lan\u00e7a a hip\u00f3tese de que a passagem do autoerotismo para a libido objetal n\u00e3o se faz de modo direto, h\u00e1, entre os dois modos de satisfa\u00e7\u00e3o da libido, a constitui\u00e7\u00e3o do narcisismo. Aposta na ideia de que o estudo tanto da paranoia quanto da esquizofrenia esclarecer\u00e1 o modo como a libido toma o eu como objeto de satisfa\u00e7\u00e3o sexual, denominada de libido narc\u00edsica. Com esse trabalho, ele tem como objetivo demonstrar que o narcisismo \u00e9 constituinte da teoria da libido, independentemente de qualquer patologia mental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num estudo comparativo, observa que, enquanto, nas neuroses de transfer\u00eancia, a libido, ao se retirar dos objetos, \u00e9 investida na fantasia, j\u00e1 na paranoia, por exemplo, ela se retira para o eu, acarretando a megalomania. Mas essa retirada \u00e9, na maioria das vezes, parcial. Em consequ\u00eancia disso, Freud distingue, no quadro cl\u00ednico da esquizofrenia, tr\u00eas grupos de fen\u00f4menos. Um deles se refere aos fen\u00f4menos residuais, que s\u00e3o aqueles que se assemelham aos processos normais de neurose. Essa discuss\u00e3o \u00e9 retomada anos mais tarde, no texto \u201cEsbo\u00e7o de psican\u00e1lise\u201d ([1938] 1940\/1974), ao afirmar que:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMesmo num estado t\u00e3o afastado da realidade do mundo externo como o de confus\u00e3o alucinat\u00f3ria, aprende-se com os pacientes, ap\u00f3s seu restabelecimento, que, na ocasi\u00e3o, em algum lugar da mente (como o dizem), havia uma pessoa normal escondida, a qual, como um espectador desligado, olhava o tumulto da doen\u00e7a passar por ele\u201d (FREUD, [1938] 1940\/1974, p.231).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro grupo de fen\u00f4menos ele denomina de processos m\u00f3rbidos, que corresponde ao afastamento da libido dos objetos. Nesse grupo, est\u00e3o os sintomas da megalomania, da hipocondria, etc. E um terceiro grupo de fen\u00f4menos, que representa a tentativa de restaura\u00e7\u00e3o, ou seja, a libido \u00e9 novamente ligada aos objetos. De modo inesperado, Freud estabelece uma correla\u00e7\u00e3o entre esquizofrenia e histeria, ao afirmar que o retorno da libido aos objetos na esquizofrenia se d\u00e1 como numa histeria. Embora ele ressalte que haja diferen\u00e7as entre elas, n\u00e3o passa despercebida essa aproxima\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o que coloco seria a seguinte: por que Freud aproxima a esquizofrenia da histeria no que diz respeito ao narcisismo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que possamos iniciar uma discuss\u00e3o sobre o tema, sugiro partir do narcisismo, pois \u00e9 ele o elemento que conduziu Freud a fazer essa aproxima\u00e7\u00e3o. Devo esclarecer que este texto n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de realizar um estudo exaustivo sobre o narcisismo, desejando apenas abord\u00e1-lo por um vi\u00e9s que possa esclarecer nossa quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No texto \u201cSobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o\u201d (1914\/1974), Freud nos diz que o autoerotismo \u00e9 o primeiro modo de satisfa\u00e7\u00e3o encontrado pelas puls\u00f5es sexuais, \u00e9 o que ele denomina de prazer do \u00f3rg\u00e3o. A puls\u00e3o encontra satisfa\u00e7\u00e3o no pr\u00f3prio corpo sem recorrer a nenhum objeto, pois ainda n\u00e3o existe nenhuma unidade que possamos denominar de eu. \u201cAs puls\u00f5es autoer\u00f3ticas, contudo, ali se encontram desde o in\u00edcio, sendo, portanto, necess\u00e1rio que algo seja adicionado ao autoerotismo \u2014 uma nova a\u00e7\u00e3o ps\u00edquica \u2014 a fim de provocar o narcisismo\u201d (FREUD, 1914\/1974, p.93).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo essa passagem de Freud, o eu \u00e9 resultante dessa nova a\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o que se tem de si mesmo e que pode ser investida pela libido, ou seja, pode ser tomada como objeto de satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o sexual. Isso quer dizer que, sem essa a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o do eu, consequentemente, o narcisismo n\u00e3o se funda. Segundo a teoria do narcisismo, o eu e o objeto surgem de um s\u00f3 golpe, isso porque o eu, ao se constituir, marca a diferen\u00e7a entre o que \u00e9 eu e o que n\u00e3o \u00e9 eu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Identificamos na constru\u00e7\u00e3o da fase do espelho a interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana sobre as considera\u00e7\u00f5es de Freud sobre o narcisismo. O est\u00e1dio do espelho especifica que o eu se constitui como forma alienada na imagem do outro. Frente \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem no espelho, a crian\u00e7a a toma, inicialmente, como se fosse a de um outro. Para se identificar a ela, \u00e9 necess\u00e1rio que se cumpram duas condi\u00e7\u00f5es. Uma \u00e9 o consentimento de um adulto, confirmando que ela \u00e9 essa imagem refletida no espelho. A outra \u00e9 o investimento do Outro, reconhecendo a crian\u00e7a como um objeto real de um desejo singularizado. O est\u00e1dio do espelho se concretiza, portanto, no encontro do sujeito com uma imagem que assume como sua, com o aval do Outro. \u00c9 assim que a crian\u00e7a, que ainda n\u00e3o tem um dom\u00ednio sobre seu corpo, que o experimenta de modo fragmentado, em decorr\u00eancia de uma imaturidade neurol\u00f3gica, diante do espelho, vivencia o seu corpo a partir de uma Gestalt, tendo um dom\u00ednio imagin\u00e1rio sobre ele. Ele se cristaliza nessa imagem, que n\u00e3o passa de uma imagem virtual, fazendo com que carregue em si algo de enganador e ilus\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O est\u00e1dio do espelho n\u00e3o est\u00e1 plenamente no imagin\u00e1rio, inclusive, ele opera a partir do simb\u00f3lico representado pela presen\u00e7a do Outro. \u00c9 esse Outro que, ao designar o significante que ser\u00e1 o ideal do eu, I(A), livra a crian\u00e7a de ficar aprisionada na aliena\u00e7\u00e3o dessa imagem. Ent\u00e3o, o est\u00e1dio do espelho comporta um duplo movimento. De um lado, est\u00e1 o elemento ilus\u00f3rio e enganador contido na assun\u00e7\u00e3o de uma imagem como sua, mas \u00e9 o que lhe vai servir de referente em sua rela\u00e7\u00e3o com a realidade, permitindo-lhe cernir o que \u00e9 do eu e o que n\u00e3o \u00e9. Por outro lado, ele cria a possibilidade da crian\u00e7a de iniciar uma s\u00e9rie de identifica\u00e7\u00f5es significantes, favorecendo sua entrada no simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, para Freud, inicialmente, est\u00e1 o autoerotismo, \u00e9 fundamental a constitui\u00e7\u00e3o do eu, ou seja, a constitui\u00e7\u00e3o dessa imagem i(a), pois \u00e9 ela que ir\u00e1 dar forma, organizar as puls\u00f5es. Mas a crian\u00e7a s\u00f3 assume essa imagem como sua se ela estiver sustentada pelo olhar e pelo desejo do Outro. Ou seja, o corpo real s\u00f3 \u00e9 vestido por uma imagem se houver a constitui\u00e7\u00e3o de uma identifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica I(A), que se apoia numa ins\u00edgnia fornecida pelo Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse processo de constitui\u00e7\u00e3o do eu, Elisa Alvarenga (1994) aponta tr\u00eas impasses e tr\u00eas solu\u00e7\u00f5es. O primeiro impasse seria a experi\u00eancia da crian\u00e7a frente \u00e0 sua impot\u00eancia primitiva. A solu\u00e7\u00e3o para esse impasse em que se encontra \u00e9 a constitui\u00e7\u00e3o da imagem especular, i(a), que organiza as puls\u00f5es. Essa solu\u00e7\u00e3o, por sua vez, a conduz ao segundo impasse, que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de agressividade narc\u00edsica \u2014 ou eu, ou voc\u00ea. A sa\u00edda para ele \u00e9 a presen\u00e7a do Outro simb\u00f3lico, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 posicionar o sujeito para al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o especular, abrindo a s\u00e9rie de identifica\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas. O terceiro impasse, Elisa Alvarenga discrimina a partir da falta de um significante no Outro que defina o ser do sujeito. A solu\u00e7\u00e3o encontrada pelo sujeito para esse impasse \u00e9 poder identificar-se com o objeto do desejo do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que podemos pensar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 esquizofrenia? Com Freud, dizemos que essa nova a\u00e7\u00e3o ps\u00edquica n\u00e3o se efetiva. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 a constitui\u00e7\u00e3o do narcisismo, e o tipo de satisfa\u00e7\u00e3o que se experimenta \u00e9 autoer\u00f3tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Lacan, a partir de sua formula\u00e7\u00e3o sobre o est\u00e1dio do espelho, dizemos que houve uma impossibilidade para a crian\u00e7a de se reconhecer nessa imagem, isso porque, do lado do Outro, h\u00e1 um desejo an\u00f4nimo, nada vem nomear o desejo do Outro em rela\u00e7\u00e3o a ela. Dito de outra forma, na esquizofrenia, \u00e9 imposs\u00edvel, para a crian\u00e7a, isolar um nome no discurso do Outro materno que possa singularizar seu ser. \u00c9 nesse sentido que Lacan, em O Semin\u00e1rio: a ang\u00fastia (1962-1963\/2005), diz que \u201ca m\u00e3e do esquizofr\u00eanico articula sobre o que seu filho era para ela no momento em que estava em seu ventre \u2014 nada al\u00e9m de um corpo, inversamente c\u00f4modo ou inc\u00f4modo\u201d (LACAN, 1962-1963\/2005, p.133).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato de o esquizofr\u00eanico n\u00e3o se reconhecer numa imagem como consequ\u00eancia de uma opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica faz com que ele experimente um corpo despeda\u00e7ado, sem limites precisos. Para Elisa Alvarenga (1994), n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ao esquizofr\u00eanico solucionar a impot\u00eancia primitiva do ser com a constitui\u00e7\u00e3o da imagem especular. H\u00e1, na esquizofrenia, uma impossibilidade de metaforizar, o significante incide sobre o corpo, em sua dimens\u00e3o de real. Assim, o gozo retorna a um tempo anterior \u00e0 constru\u00e7\u00e3o dessa imagem gest\u00e1ltica do eu, ficando o esquizofr\u00eanico entregue ao funcionamento real das puls\u00f5es. Em fun\u00e7\u00e3o disso, no campo imagin\u00e1rio do corpo, aparecem os fen\u00f4menos hipocondr\u00edacos, atrav\u00e9s dos quais o sujeito vivencia um gozo aut\u00edstico; no simb\u00f3lico, a cadeia significante se dispersa, havendo apenas o deslizamento significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como pensar a histeria com base no desenvolvimento efetuado at\u00e9 o momento? Para isso, nortear-nos-emos pela seguinte quest\u00e3o: qual a consequ\u00eancia, na cl\u00ednica da histeria, da inser\u00e7\u00e3o de uma fun\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria da imagem corporal entre o real do corpo e o processo do recalque?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme se viu anteriormente, para que haja constitui\u00e7\u00e3o da imagem corporal unificada, a fun\u00e7\u00e3o do Outro \u00e9 decisiva, pois essa imagem depende da mensagem do Outro endere\u00e7ada \u00e0 crian\u00e7a. Na neurose, tanto h\u00e1 a constitui\u00e7\u00e3o do eu ideal i(a), que corresponde \u00e0 imagem unificada, como tamb\u00e9m a forma\u00e7\u00e3o do ideal do eu I(A), que abre a s\u00e9rie de identifica\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e que se apoia num tra\u00e7o significante extra\u00eddo do Outro \u2014 um desejo que particularize essa crian\u00e7a no desejo do Outro. \u00c9 justamente essa identifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que permitir\u00e1 que a crian\u00e7a possa ver ou n\u00e3o a imagem de si mesma. Essa imagem \u00e9 uma esp\u00e9cie de vestimenta que confere uma unidade para esse corpo real experimentado pela crian\u00e7a como fragmentado, entregue \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o autoer\u00f3tica das puls\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Observamos, na experi\u00eancia cl\u00ednica com mulheres, certo desconforto com sua imagem corporal, uma imagem que sempre vacila. Isso adv\u00e9m do fato de n\u00e3o existir, no Outro, o significante que especifique a condi\u00e7\u00e3o feminina de uma mulher, fazendo com que a imagem corporal, numa mulher, n\u00e3o capsule e torne er\u00f3tico completamente o real do corpo. Uma sa\u00edda para isso \u00e9 se fazer \u201ctoda f\u00e1lica\u201d, ou seja, abordar a sexualidade \u00e0 maneira do homem, pela via da ostenta\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, sem, contudo, assumir uma apar\u00eancia masculina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez possamos identificar aqui o ponto que serviu de apoio para Freud (1914\/1974) sustentar que, nas mulheres, \u201ccom o come\u00e7o da puberdade, [\u2026] parece ocasionar a intensifica\u00e7\u00e3o do narcisismo original, especialmente se forem belas\u201d (FREUD, 1914\/1974, p.105). Sob a perspectiva freudiana, \u00e9 justamente porque n\u00e3o tem o falo que a mulher cuida de sua imagem corporal a ponto de faz\u00ea-la adquirir o valor de falo. Ou seja, por n\u00e3o ter o signo \u201cp\u00eanis\u201d que lhe confira uma identifica\u00e7\u00e3o sexual, ela compensa tendo um corpo feminino. Na \u201cConfer\u00eancia XXXIII: Feminilidade\u201d, Freud ([1932] 1933\/1974) retoma essa quest\u00e3o trazendo um novo elemento. Ele diz o seguinte: \u201cA inveja do p\u00eanis tem em parte, como efeito, tamb\u00e9m a vaidade f\u00edsica das mulheres, de vez que elas n\u00e3o podem fugir \u00e0 necessidade de valorizar seus encantos, do modo mais evidente, como uma tardia compensa\u00e7\u00e3o por sua inferioridade sexual original\u201d (FREUD, [1932] 1933\/1974, p.162). Interpretamos essa passagem dizendo que a exacerba\u00e7\u00e3o do narcisismo ligado \u00e0 inveja do p\u00eanis teria como fun\u00e7\u00e3o velar essa falha no campo da imagem corporal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a leitura lacaniana do narcisismo, ressaltamos que a identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do corpo feminino, numa mulher, justamente por n\u00e3o existir o significante que defina o ser sexuado da mulher, \u00e9 fr\u00e1gil e prec\u00e1ria. Ela \u00e9 experimentada como um artif\u00edcio, um substituto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conforme Serge Andr\u00e9 (1987), a histeria teria como ess\u00eancia denunciar a falta de significante no Outro que identifique o que \u00e9 ser mulher, e a consequ\u00eancia disso, no campo da identifica\u00e7\u00e3o especular, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de uma falha. Nesse sentido, a histeria traz em si um questionamento sobre o feminino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com toda essa problem\u00e1tica na constru\u00e7\u00e3o da imagem especular, diferentemente da esquizofrenia, na histeria, a constitui\u00e7\u00e3o de i(a) se d\u00e1, e, com isso, h\u00e1 um corpo sexualizado e uma imagem corporal erotizada. Por se tratar de uma neurose, o processo do recalque est\u00e1 presente, e seu efeito \u00e9 determinar no corpo quais os lugares que servir\u00e3o de ancoragem para a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o sexual. A esses lugares Freud denominou de zonas er\u00f3genas. \u00c9 nessas zonas que a puls\u00e3o sexual encontra n\u00e3o s\u00f3 satisfa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m se une a uma representa\u00e7\u00e3o. A sexualidade, portanto, n\u00e3o est\u00e1 ligada estritamente aos \u00f3rg\u00e3os genitais. A determina\u00e7\u00e3o dessas zonas er\u00f3genas implica uma sele\u00e7\u00e3o, algumas partes do corpo s\u00e3o eleitas, outras s\u00e3o abandonadas, pois, para Freud (1905\/1974), qualquer regi\u00e3o do corpo pode ser erotizada. Uma determinada zona do corpo \u00e9 eleita se ela favorece a passagem da fun\u00e7\u00e3o org\u00e2nica para a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Observamos que a no\u00e7\u00e3o de zona er\u00f3gena comporta a ideia de que houve a incid\u00eancia do simb\u00f3lico sobre o corpo, efetuando uma separa\u00e7\u00e3o entre gozo e corpo. A entrada da crian\u00e7a no discurso lhe possibilita estabelecer uma fun\u00e7\u00e3o para seus \u00f3rg\u00e3os, segundo as leis significantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A histeria de convers\u00e3o \u00e9 um bom exemplo cl\u00ednico disso. Os sintomas conversivos demonstram que qualquer lugar da superf\u00edcie corporal pode ter uma fun\u00e7\u00e3o sexual a expensas da necessidade org\u00e2nica. No sintoma da cegueira hist\u00e9rica, trabalhado por Freud, em seu texto \u201cA concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica da perturba\u00e7\u00e3o psicog\u00eanica da vis\u00e3o\u201d (1910\/1974), o olho deixa de exercer sua fun\u00e7\u00e3o org\u00e2nica que \u00e9 a vis\u00e3o e passa a legitimar a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o sexual. O sintoma conversivo atesta que o limite entre o sexual e o n\u00e3o sexual, entre o desejo e a necessidade, n\u00e3o pode ser mais estabelecido. A fantasia, express\u00e3o do desejo sexual, se apossa do \u00f3rg\u00e3o e apaga sua fun\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 necessidade. Verificamos, no sintoma de convers\u00e3o, que, entre a fun\u00e7\u00e3o real do corpo e a fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u2014 um corpo marcado pelo significante \u2014 se insere a fun\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria. Para Freud, essa fun\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do corpo tem uma preval\u00eancia na histeria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na esquizofrenia, observamos uma falta de simboliza\u00e7\u00e3o e, consequentemente, uma falta de sexualiza\u00e7\u00e3o. Isso porque, conforme abordamos anteriormente, a constitui\u00e7\u00e3o de i(a) diz respeito a um investimento libidinal no eu que n\u00e3o se d\u00e1. Por conseguinte, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que se forme uma Gestalt do corpo. O que prevalece \u00e9 a \u201cl\u00edngua do \u00f3rg\u00e3o\u201d, seguindo Freud em suas elabora\u00e7\u00f5es no texto \u201cO inconsciente\u201d (1915\/1974), justamente porque o significante n\u00e3o est\u00e1 submetido \u00e0 fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, ent\u00e3o, \u00e9 tratado como coisa. Nesse caso, o significante \u00e9 tomado pelo vi\u00e9s da identidade da express\u00e3o verbal, ou seja, a rela\u00e7\u00e3o de palavra a palavra, e n\u00e3o pela via da significa\u00e7\u00e3o, quando o recalque est\u00e1 presente. Para exemplificar o que quer dizer com isso, ele traz o caso de uma paciente de Tausk:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUma mo\u00e7a levada \u00e0 cl\u00ednica ap\u00f3s uma discuss\u00e3o com o amante queixou-se de que seus olhos n\u00e3o estavam direitos, estavam tortos. Ela mesma explicou o fato, apresentando, em linguagem coerente, uma s\u00e9rie de acusa\u00e7\u00f5es contra o amante. \u2018De alguma forma ela conseguia compreend\u00ea-lo, a cada vez ele parecia diferente; era hip\u00f3crita, um entortador de olhos, ele tinha entortado os olhos dela; agora via o mundo com olhos diferentes\u2019\u201d (FREUD, 1915\/1974, p.226).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra alem\u00e3 Augenverdreher, entortador de olhos, possui o sentido figurado de enganador. Mas n\u00e3o foi pela via da significa\u00e7\u00e3o, pela via da similitude das coisas designadas, que esse significante foi tomado por esse sujeito, mas pela rela\u00e7\u00e3o de palavra a palavra. \u00c9 uma prova de que o corpo do esquizofr\u00eanico n\u00e3o foi mortificado pela a\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, sendo assim, n\u00e3o houve a disjun\u00e7\u00e3o entre significante e \u00f3rg\u00e3o, e, com isso, o corpo n\u00e3o passou de sua condi\u00e7\u00e3o real para um corpo er\u00f3geno, um corpo recortado em zonas er\u00f3genas. Na esquizofrenia, o corpo \u00e9 o lugar do gozo, um gozo n\u00e3o mediado pelo simb\u00f3lico. O sujeito tem que se arranjar com seus \u00f3rg\u00e3os quando nenhuma refer\u00eancia a um discurso estabelecido pode vir em seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 na histeria de convers\u00e3o, h\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 um excesso de simboliza\u00e7\u00e3o em decorr\u00eancia do recalque, a representa\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 puls\u00e3o sexual ganha a dianteira e se sobrep\u00f5e \u00e0 fun\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, como tamb\u00e9m um excesso de sexualiza\u00e7\u00e3o. Partes do corpo passam a ter uma fun\u00e7\u00e3o er\u00f3gena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esquizofr\u00eanico atesta, atrav\u00e9s de sua fala e de seus sintomas no corpo, que h\u00e1 um imposs\u00edvel de simbolizar e de sexualizar, mesmo que possamos dizer que os fen\u00f4menos corporais a\u00ed presentes sejam uma tentativa de fazer a conjun\u00e7\u00e3o entre o real do corpo e a palavra. \u00c9 o que Freud nos ensina, ao afirmar que a pr\u00f3pria doen\u00e7a \u00e9 uma tentativa de cura. J\u00e1 os sintomas conversivos demonstram que s\u00e3o forma\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas pass\u00edveis de interpreta\u00e7\u00f5es. Isso quer dizer que h\u00e1, no sintoma de convers\u00e3o, uma substitui\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica de uma representa\u00e7\u00e3o por um elemento significante do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 a\u00ed um ponto de interse\u00e7\u00e3o. H\u00e1 na constitui\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria de um corpo dito feminino algo que fica fora de qualquer articula\u00e7\u00e3o significante que possa responder sobre a diferen\u00e7a anat\u00f4mica. H\u00e1, portanto, um inef\u00e1vel, um n\u00e3o simboliz\u00e1vel sobre o ser feminino que \u00e9 denunciado num ponto de falha na constitui\u00e7\u00e3o de i(a), que, na histeria, fica t\u00e3o evidente. O sintoma de convers\u00e3o tenta reparar essa falha que se d\u00e1 no campo da imagem, tenta revestir esse real do corpo, imposs\u00edvel de simbolizar.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ALVARENGA, Elisa. \u201cA esquizofrenia e o est\u00e1dio do espelho\u201d, Revista de Psiquiatria e Psican\u00e1lise com crian\u00e7as e adolescentes, Belo Horizonte, v.1, dez.1994, p.83-88.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ANDR\u00c9, Serge. O que quer uma mulher? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, Sigmund. (1905\/1974) \u201cTr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora,v.7, p.123-252.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. (1910\/1974) \u201cA concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica da perturba\u00e7\u00e3o psicog\u00eanica da vis\u00e3o\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora, v.11, p.193-203.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. (1914\/1974) \u201cSobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora, v.14, p.77-108.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. (1915\/1974) \u201cO inconsciente\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora, v.14, p.185-245.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. ([1932] 1933\/1974) \u201cConfer\u00eancia XXXIII: Feminilidade\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora, v.22, p.139-165.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. ([1938] 1940\/1974) \u201cEsbo\u00e7o de psican\u00e1lise\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora, v.23, p.165-237.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, Jacques. (1962-1963) O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, Jacques-Alain et al. \u201cEsquizofrenia y paranoia\u201d, In: Psicosis y psicoanalisis. Buenos Aires: Manantial, 1985. p.7-30.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Graciela Bessa<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Graciela Bessa Psicanalista, Doutora em Teoria Psicanal\u00edtica (UFRJ). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak2fc155924953a692ffbb8084db576632\"><a href=\"mailto:gracielabessa@yahoo.com.br\">gracielabessa@yahoo.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GRACIELA BESSA O estudo das neuroses de transfer\u00eancia \u2014 histeria e neurose obsessiva \u2014 tornou poss\u00edvel a Freud estabelecer uma teoria das puls\u00f5es. Basicamente, at\u00e9 1914, os processos mentais giravam em torno da oposi\u00e7\u00e3o entre as puls\u00f5es sexuais e as puls\u00f5es do eu. 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