{"id":462,"date":"2012-03-15T06:50:50","date_gmt":"2012-03-15T09:50:50","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=462"},"modified":"2012-03-15T06:50:50","modified_gmt":"2012-03-15T09:50:50","slug":"a-insistencia-da-pulsao-e-o-ideal-de-bem-estar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2012\/03\/15\/a-insistencia-da-pulsao-e-o-ideal-de-bem-estar\/","title":{"rendered":"A Insist\u00eancia Da Puls\u00e3o E O Ideal De Bem-Estar"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\" style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"font-size: 14px;\">MARIA JOS\u00c9 GONTIJO SALUM<\/strong><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Este texto pretende trabalhar a rela\u00e7\u00e3o, na contemporaneidade, entre uma nova modalidade de aparecimento do ideal \u2014 o ideal de bem-estar \u2014 e o fracasso desse ideal diante da insist\u00eancia da puls\u00e3o. Para isso, este artigo ser\u00e1 dividido em duas partes. Ser\u00e1 abordado, inicialmente, o ideal de bem-estar, para, posteriormente, considerar-se seu fracasso na busca pela normatiza\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. O Ideal De Bem-Estar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Costumamos dizer, parafraseando Jacques-Alain Miller, que, em nossa \u00e9poca, o Outro n\u00e3o existe. Uma das maneiras de Miller apresentar essa tese, em seu semin\u00e1rio El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica, proferido em parceria com \u00c9ric Laurent, \u00e9 comparar o mandamento superegoico que vigorava na \u00e9poca vitoriana, quando Freud fundou a psican\u00e1lise, com o supereu que prevalece em nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo Freud, no texto \u201cO ego e o id\u201d, Miller (2005) lembra a dupla dimens\u00e3o dessa inst\u00e2ncia: de um lado, ele \u00e9 o herdeiro do complexo de \u00c9dipo e dos ideais do edipianismo, o que Miller grafa com \u201cI\u201d. Por outro, ele \u00e9 um mandat\u00e1rio do isso, a sede das puls\u00f5es, como Freud descreve, o que Miller grafa com \u201ca\u201d. Devido a essa dupla vertente, o supereu foi definido por Lacan como uma lei paradoxal e insensata, pois, como o pr\u00f3prio Freud definira, ele tem o preceito de ordenar o abandono da satisfa\u00e7\u00e3o a partir do imperativo: \u201cVoc\u00ea deve ser assim (como o seu pai)\u201d, e, ao mesmo tempo, pro\u00edbe esse ideal com o mandamento: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode ser assim\u201d (FREUD, 1923\/1969, p.49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas frases que encontramos no texto freudiano demonstram como o mandamento superegoico foi edificado a partir de um ideal. Pois, na civiliza\u00e7\u00e3o que Freud conheceu, as ins\u00edgnias simb\u00f3licas do ideal estavam bem colocadas. Para todos, seria necess\u00e1rio erigir um ideal, a partir de uma identifica\u00e7\u00e3o, veiculada a partir do lugar do pai. O que Freud ressaltava com o supereu era a impossibilidade de cumprir esse ideal e os efeitos para o sujeito diante desse fracasso: o supereu retomava a exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o do isso. Freud, nesse mesmo texto, n\u00e3o diferenciava supereu e ideal do eu. O supereu trazia a marca da elei\u00e7\u00e3o de um ideal e sua proibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso lembrar que a elei\u00e7\u00e3o de um ideal do eu estava de acordo com o ideal cultural da \u00e9poca: tratava-se de um tempo em que renunciar \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o em nome da honra, do pudor, da vergonha, era um ideal; ou seja, a absten\u00e7\u00e3o em nome do social era a orienta\u00e7\u00e3o a ser seguida para ser feliz. Por isso, o discurso que imperava era o que Lacan (1969-1970\/1992) localizou como o discurso do mestre, em O Semin\u00e1rio 17: o avesso da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller (2005), no seu mesmo semin\u00e1rio, citado anteriormente, vai dizer que, em nossa \u00e9poca, houve uma queda dos ideais. Assim, o supereu freudiano apresentava a vers\u00e3o: I &gt; a: o ideal maior que a satisfa\u00e7\u00e3o, o ideal dominando a satisfa\u00e7\u00e3o. Contrariamente, em nossa \u00e9poca, o supereu apresenta-se como I &lt; a: ideal menor que a satisfa\u00e7\u00e3o. Ou seja, com o decl\u00ednio do que Lacan postulou como o Nome-do-Pai, surgem os mandamentos de satisfa\u00e7\u00e3o, em sua grande maioria, atrav\u00e9s dos objetos de consumo produzidos em nossa civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destaque-se isto: nossa civiliza\u00e7\u00e3o demonstra uma preval\u00eancia de um imperativo de satisfa\u00e7\u00e3o, no lugar dos grandes ideais de ren\u00fancia, ou, mesmo, do adiamento da satisfa\u00e7\u00e3o, como na \u00e9poca vitoriana. Nessa \u00e9poca, a satisfa\u00e7\u00e3o estava orientada por um ideal de absten\u00e7\u00e3o socialmente compartilhado. Em nossa \u00e9poca, ao contr\u00e1rio, tem-se a satisfa\u00e7\u00e3o pelo gozo dos objetos e do que se prestar para gozar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao comentar essa mudan\u00e7a no programa da civiliza\u00e7\u00e3o, em O Semin\u00e1rio 17: o avesso da psican\u00e1lise, Lacan (1969-1970\/1992) lembra que a psican\u00e1lise foi uma tentativa de transgress\u00e3o, por isso ele a tomou como um discurso que seria o avesso do discurso do mestre. Ou seja, o discurso da psican\u00e1lise interpreta o discurso do mestre. Nesse semin\u00e1rio, na li\u00e7\u00e3o intitulada \u201cO campo lacaniano\u201d, Lacan fala de um retrocesso da psican\u00e1lise feito pelos psicanalistas p\u00f3s-freudianos. Segundo ele, esses psicanalistas estariam fazendo propaganda da felicidade, do happiness, do bonheur, do bem-estar. Lacan aproxima esses significantes, e, aqui, neste texto, seguir-se-\u00e1 o itiner\u00e1rio dessa indica\u00e7\u00e3o. Ele lembra que ningu\u00e9m sabe o que \u00e9 a felicidade, mas que ela se havia tornado um fator de pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa considera\u00e7\u00e3o de Lacan parece fundamental para trabalhar o tema proposto neste trabalho: \u201cA insist\u00eancia da puls\u00e3o e o ideal de bem-estar\u201d, podendo-se entender a constata\u00e7\u00e3o de Lacan da seguinte maneira: atrav\u00e9s da ci\u00eancia, nossa civiliza\u00e7\u00e3o alardeia ter desvendado o imposs\u00edvel da felicidade, equiparando-a ao bem-estar. Na programa\u00e7\u00e3o da vida, na atualidade, a promessa de felicidade passa pela busca do bem-estar e pela t\u00e3o propalada \u201cqualidade de vida\u201d. Para conseguir atingir esse ideal, \u00e9 preciso seguir um programa predeterminado que comanda: como comer, o que comer, o que beber, o que usar, como se portar, aonde ir, quais sinais observar em seu corpo \u2014 na pele, nos cabelos, na urina, nas fezes. Trata-se da dissemina\u00e7\u00e3o de preceitos que recolocam novamente o ideal, mas de uma forma distinta de outrora \u2014 n\u00e3o pelo ideal, mas por normatiza\u00e7\u00f5es. Isso pode ser traduzido da seguinte forma: goze atrav\u00e9s das normas estabelecidas pela ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcus Andr\u00e9 Vieira, ao apresentar o argumento para o V Encontro Americano de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, ENAPOL, que aconteceu no Rio de Janeiro, em junho de 2011, lembrava que, diante da aus\u00eancia de defini\u00e7\u00e3o do bem-estar para os fins de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, a sa\u00edda encontrada \u00e9 contabilizar. Dessa forma, tudo passa a ser contado, e \u201ca quantifica\u00e7\u00e3o da vida passa a guiar as opini\u00f5es e escolhas com seu enxame de \u00edndices, e a vender, como ideal, uma gest\u00e3o economicista da exist\u00eancia\u201d (VIEIRA, 2010, p.27).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o que \u00e9 chamado de bem-estar, justificado pela busca da qualidade, torna-se quantidade. O c\u00e1lculo do risco passa a fazer parte da vida e organiza a gest\u00e3o das pol\u00edticas, especialmente, as pol\u00edticas de sa\u00fade. E, na busca pela t\u00e3o propalada qualidade, prevalece uma l\u00f3gica utilit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9ric Laurent (2011), na Confer\u00eancia intitulada \u201cO del\u00edrio da normalidade\u201d, ao tratar da psican\u00e1lise aplicada no contexto da Sa\u00fade Mental, informa-nos que assistimos a uma nova defini\u00e7\u00e3o de terap\u00eautica. Segundo ele, passamos de uma defini\u00e7\u00e3o da terap\u00eautica como um saber cl\u00ednico para a defini\u00e7\u00e3o de normas sociais pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade. Diferente da antiga defini\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade como o sil\u00eancio dos \u00f3rg\u00e3os, \u201cno final do s\u00e9culo XX, a sa\u00fade foi definida como um estado de felicidade \u2014 ou de bem-estar \u2014 tanto corporal, quanto mental; o maior que se possa atingir\u201d (LAURENT, 2011, p.47).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent afirma que se trata de uma felicidade utilitarista, que n\u00e3o imp\u00f5e limites no saber, posto que ela \u00e9 postulada como objetivo ideal. Como consequ\u00eancia, a psican\u00e1lise aplicada no campo da sa\u00fade mental encontra-se num contexto definido pelo discurso do mestre, aplicada \u00e0s novas normas do ideal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qualidade Total E Utilitarismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A doutrina utilitarista tem grande repercuss\u00e3o em v\u00e1rios campos. Ela fundamentou a l\u00f3gica penal e, mais recentemente, no Brasil, v\u00ea-se sua implanta\u00e7\u00e3o na sa\u00fade. Calculando os riscos, controlando as a\u00e7\u00f5es, o utilitarista busca banir o acaso e prevenir. A prud\u00eancia \u00e9 reintroduzida na vida, n\u00e3o como virtude moral, mas pelo risco para a sa\u00fade e para o bem-estar que o excesso significa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Localizamos a introdu\u00e7\u00e3o do utilitarismo na sa\u00fade brasileira mais recentemente, a partir dos anos 90 do s\u00e9culo passado. No final dos anos 80, a Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira, qualificada de cidad\u00e3, universalizou uma s\u00e9rie de direitos para todos os brasileiros. Em decorr\u00eancia disso, as pol\u00edticas p\u00fablicas criadas a partir da Constitui\u00e7\u00e3o passaram a refletir o ideal de inclus\u00e3o na cidadania: com o Sistema \u00danico de Sa\u00fade, todos os brasileiros teriam acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade; no campo da justi\u00e7a, alternativas \u00e0 pris\u00e3o passaram a ser pensadas. Podem ser citados tamb\u00e9m a justi\u00e7a infanto-juvenil, com a qual crian\u00e7as e adolescentes passaram a ser vistos como pessoas com direitos de cidadania; a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, que passou a ser universal; programas de renda m\u00ednima, que come\u00e7aram a ser formulados. Enfim, era o sonho do estado de bem-estar social, ou Welfare State, tendo o modelo europeu como ideal. Contudo, antes que os servi\u00e7os fossem realmente constru\u00eddos, o sonho acabou: as pol\u00edticas neoliberais vieram cortar os gastos, implantando outro modelo de estado: o estado m\u00ednimo, no lugar do provedor. Importante lembrar que, no estado social m\u00ednimo, passou a imperar o estado penal m\u00e1ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, saiu de cena a responsabilidade do Estado em criar programas e projetos visando ao bem-estar social e foi reintroduzida, para cada um, a responsabilidade pelo seu bem-estar a partir de normas determinadas, pois a maneira como cada um disp\u00f5e de seu tempo e goza de seu corpo afeta a conta a pagar por todos. Importante destacar que o termo responsabilidade est\u00e1 sendo usado aqui no sentido coloquial, n\u00e3o psicanal\u00edtico. No primeiro caso, o estado teria a incumb\u00eancia de prover as pol\u00edticas sociais, no segundo, trata-se de uma responsabilidade moral, pois cada um deve seguir as normas preestabelecidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas s\u00e3o formas contempor\u00e2neas do exerc\u00edcio de um poder totalit\u00e1rio, posto que utilit\u00e1rio. Ao criticar o utilitarismo, Jacques-Alain Miller (2000) afirma que o utilitarista calcula porque acredita que o ser humano \u00e9 govern\u00e1vel, que \u00e9 uma m\u00e1quina elementar, bastando deter o saber de suas molas. Tudo pode ser medido, n\u00e3o h\u00e1 conting\u00eancia. Segundo ele, trata-se de um del\u00edrio da raz\u00e3o. Ele explica que no estabelecimento entre as causas e efeitos, tudo se torna exemplo de funcionamento para o utilitarista, desde que se estabele\u00e7a uma fun\u00e7\u00e3o. Qualquer coisa pode ter rela\u00e7\u00e3o com outra. Nesse procedimento, o que \u00e9 relativo a uma situa\u00e7\u00e3o torna-se exemplar, absoluto. Um exemplo disso: certa vez escutei uma pessoa dizer que era contra a pena de morte por princ\u00edpios humanistas. Contudo, essa pessoa disse que a defenderia se as pesquisas demonstrassem que ela seria eficaz para controlar a viol\u00eancia. Esse \u00e9 um exemplo que demonstra que, para o utilitarista, n\u00e3o interessam os meios, desde que as coisas funcionem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando a Miller, ele afirma que o utilitarista \u00e9, no fundo, um humanista que almeja o bem-estar da humanidade. Na busca desse ideal, ele prescreve o bem e pune o mal. Essa frase esclarece por que ressurgem, a cada dia, pr\u00e1ticas de segrega\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito de discuss\u00e3o de pol\u00edticas de sa\u00fade. Por isso, a discuss\u00e3o sobre as drogas se torna especialmente importante nesse contexto, e a contribui\u00e7\u00e3o dos psicanalistas de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana nesse debate \u00e9 uma tarefa que nos toca. Ent\u00e3o, como exemplo mais recente, h\u00e1 a discuss\u00e3o atual das interna\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias para o abuso de drogas, especialmente o crack. Os partid\u00e1rios dessa pol\u00edtica acreditam que a interna\u00e7\u00e3o, para todos os usu\u00e1rios de crack, seria a forma de controlar o abuso dessa subst\u00e2ncia. \u201cPara salvar esses fiapos humanos e suas fam\u00edlias\u201d, ouvi tamb\u00e9m essa frase de um defensor das interna\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada mais avesso \u00e0 psican\u00e1lise que a l\u00f3gica utilitarista: Freud partiu da constata\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do mal-estar na cultura, e Lacan, por sua vez, vai definir a presen\u00e7a do gozo como o que n\u00e3o serve para nada, num contraponto ao princ\u00edpio da transforma\u00e7\u00e3o do dejeto de gozo em algo \u00fatil, a partir do ideal de controle.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent (2011), na Confer\u00eancia citada anteriormente, lembra-nos de que, diante da escalada dos ideais de sa\u00fade mental coletiva, Lacan provocava dizendo que \u201ctodo mundo \u00e9 louco\u201d. Ele n\u00e3o queria dizer que todos eram psic\u00f3ticos, mas que n\u00e3o existe a possibilidade de visar a uma norma comum. Quanto mais tivermos uma norma para todos em um utilitarismo sem limite, mais precisaremos lembrar que todo mundo \u00e9 louco, afirma Laurent, ou que \u201cde perto ningu\u00e9m \u00e9 normal\u201d, como canta Caetano Veloso. Segundo Laurent, \u201cisso significa dizer que cada um \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 norma de todos\u201d. E ele conclui que, \u201cno fundo, todo mundo faz de conta que entra na norma, mas o sintoma \u00e9 um obst\u00e1culo a isso\u201d (LAURENT, 2011, p.52).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, passa-se ao segundo ponto desta discuss\u00e3o, a insist\u00eancia da puls\u00e3o, acrescentando-se que nosso tema nos adverte que o sintoma de cada um demonstra o fracasso do ideal de bem-estar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. A Insist\u00eancia Da Puls\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de iniciar a discuss\u00e3o sobre a insist\u00eancia da puls\u00e3o, exploraremos um pouco a hist\u00f3ria da considera\u00e7\u00e3o do fracasso em psican\u00e1lise. No artigo \u201cA psican\u00e1lise. Raz\u00e3o de um fracasso\u201d, Lacan (1967\/2003) faz uma cr\u00edtica aos psicanalistas conhecidos como p\u00f3s-freudianos, especialmente Daniel Lagache, dizendo que ele psicologizou a psican\u00e1lise ao desconsiderar a presen\u00e7a da meton\u00edmia, da falta, com seu postulado da personalidade total. Os discursos que preconizam o ideal do bem-estar tamb\u00e9m t\u00eam como objetivo alcan\u00e7ar uma totalidade, uma harmonia entre o corpo e a subjetividade. Outro ponto importante criticado por Lacan nesse texto foi o desvio realizado por esses psicanalistas com a no\u00e7\u00e3o de ideal do eu. Eles acreditavam que, almejando o ideal de um eu forte, seria poss\u00edvel acabar com o eu ruim, que era a forma que eles consideravam o isso. Para atingir esse objetivo, uma opera\u00e7\u00e3o de fortalecimento do eu deveria ser realizada. \u00c9 importante destacar esse ponto porque essa t\u00e9cnica de fortalecimento do eu e controle do isso \u00e9 preconizada por certas pr\u00e1ticas que defendem o ideal do bem-estar. Assim, pode-se dizer que, ao longo da hist\u00f3ria da psican\u00e1lise, encontram-se diferentes tentativas de pacificar seus aspectos contundentes, os pontos em que ela se tornou transgressiva em rela\u00e7\u00e3o ao discurso do mestre, que preconiza o controle. Esse desvio da psican\u00e1lise, ao buscar um eu forte e controlador, pareceu-me exemplar para pensar os procedimentos preconizados pelo ideal do bem-estar diante da insist\u00eancia pulsional: aprendizagem e controle.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em O Semin\u00e1rio 17: o avesso da psican\u00e1lise, Lacan (1969-1970\/1992) se refere aos discursos, afirmando que, em cada um deles, \u00e9 preciso verificar o que se quer dominar. Acrescenta que a dificuldade do discurso do analista \u00e9 que ele tem que ficar no oposto da vontade de dom\u00ednio. Lacan lembra que \u00e9 sempre f\u00e1cil escorregar para a mestria, principalmente, diante da insist\u00eancia da puls\u00e3o. E acrescenta que o discurso toca no gozo sem cessar, pois \u00e9 do gozo que ele se origina, e ele, o gozo, contesta todo apaziguamento. Nesse Semin\u00e1rio, ele tamb\u00e9m critica os p\u00f3s-freudianos. De acordo com Lacan, para eles, a mola mestra da an\u00e1lise seria a bondade. Com o apagamento de Freud que eles fizeram, puseram em evid\u00eancia um ego aut\u00f4nomo, livre de conflitos, educ\u00e1vel, como o eu preconizado pelas pr\u00e1ticas do bem-estar. De acordo com Lacan, ao promoverem um modelo de an\u00e1lise baseado no ideal, eles empreenderam um retorno ao discurso do mestre. Por isso, n\u00e3o se trata de psican\u00e1lise, mas de dom\u00ednio do gozo por um significante-mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso recordar que, como adverte Lacan, a psican\u00e1lise foi uma tentativa de transgress\u00e3o. Para ele, haveria um retrocesso na propaganda da felicidade, happiness, do bonheur, do bem-estar, operada pelos terapeutas travestidos de psicanalistas. Ele retoma a descoberta de Freud de que h\u00e1 um \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio de prazer\u201d. A puls\u00e3o insiste, apesar das tentativas de domina\u00e7\u00e3o, e a fun\u00e7\u00e3o do analista n\u00e3o \u00e9 refazer esse elemento de domina\u00e7\u00e3o, de mestria, como os terapeutas. E ele acrescenta: \u201cDe fato, tudo gira em torno do insucesso\u201d (LACAN, 1969-1970\/1992, p.78). Ou seja, do fracasso dessas tentativas de dominar a puls\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No nosso tempo, quando se pauta como ponto para discuss\u00e3o no campo freudiano a quest\u00e3o das drogas e da viol\u00eancia, \u00e9 porque estamos diante do que Lacan destacou em seus Escritos (LACAN, 1950\/1998, p.46): o ideal de bem-estar e o retorno da puls\u00e3o de morte exercem uma fun\u00e7\u00e3o criminog\u00eanica que \u00e9 pr\u00f3pria da sociedade quando o utilitarismo e seus ideais normativos triunfam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Operar Com A Insist\u00eancia Da Puls\u00e3o<br \/>\nJacques-Alain Miller (2010) inicia seu texto \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d lembrando que Freud fez a descoberta dos dejetos da vida ps\u00edquica: sonho, lapso, atos falhos e sintomas. E tamb\u00e9m a \u201cdescoberta de que, os levando a s\u00e9rio, o sujeito tem a chance de se salvar\u201d (MILLER, 2010, p.19). Miller explica que o termo \u201csalvar-se\u201d \u00e9 uma express\u00e3o religiosa. Esse termo traduz algo que diz respeito n\u00e3o simplesmente \u00e0 ordem da sa\u00fade e da cura, mas ao que, al\u00e9m do sintoma, ou sob o sintoma, \u00e9 uma verdade. Trata-se de uma revela\u00e7\u00e3o de saber que carrega uma realiza\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de uma satisfa\u00e7\u00e3o superior. Segundo Miller, a psican\u00e1lise apareceu como uma promessa de salvar pelos dejetos, diferente da salva\u00e7\u00e3o proposta pelos ideais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece ilustrativo que Miller, nesse texto, retome o mito de H\u00e9rcules, para o qual a humanidade estaria entre duas escolhas: o v\u00edcio e a virtude. De forma correlata, estar\u00edamos diante da recoloca\u00e7\u00e3o desse mito \u2014 a salva\u00e7\u00e3o pelo bem-estar ou pelos dejetos. Por um lado, a salva\u00e7\u00e3o pelo ideal e a consequ\u00eancia a que isso leva: a presen\u00e7a da puls\u00e3o de morte, na forma da gula do supereu e os efeitos criminog\u00eanicos que Lacan ressaltou. Miller pergunta o que seria o dejeto. Ele responde que \u00e9 aquilo que \u00e9 rejeitado ao cabo de uma opera\u00e7\u00e3o na qual se ret\u00e9m o ouro, a subst\u00e2ncia preciosa. O dejeto \u00e9 o que cai quando algo se eleva. Ele se faz desaparecer quando o ideal resplandece. N\u00e3o h\u00e1 como pensar o ideal sem o dejeto, e vice-versa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller tamb\u00e9m observa que h\u00e1 um ponto problem\u00e1tico quando o gozo \u00e9 colocado no lado do Outro. Ele vai dizer que isso \u00e9 a paranoia, lembrando que ela \u00e9 uma forma de consist\u00eancia da personalidade: ela socializa o sujeito pela suposi\u00e7\u00e3o no Outro de uma vontade de gozo, uma vontade que n\u00e3o \u00e9 para o bem do sujeito. \u201cEssa imputa\u00e7\u00e3o de vontade mal\u00e9vola que o Outro social, ali onde ele \u00e9 representado pelas inst\u00e2ncias legais, se empenha em desmentir\u201d (MILLER, 2010, p.23). O povo administrativo diz: \u201cEu quero seu bem\u201d. E Miller ironiza que \u00e9 preciso muito pouca personalidade para se crer nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse povo administrativo, que prescreve as f\u00f3rmulas, que preconiza querer o bem, necessita, de outro lado, como parceiro, do que Miller chama de \u201cpouca personalidade\u201d, \u201ctra\u00e7o comum desses que v\u00eam se entregar \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de cuidado, que os acolhem, gratuitamente, de bra\u00e7os abertos\u201d (MILLER, 2010, p.23), sob a \u00e9gide do \u201ceu quero seu bem!\u201d E Miller completa: \u201cAqueles que podem crer nisso s\u00e3o os rebotalhos da vontade de gozo\u201d (MILLER, 2010, p.23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, a insist\u00eancia do gozo pode ter como consequ\u00eancia para o sujeito a escolha pelo pior. De nossa parte, podemos consider\u00e1-la como uma maneira de n\u00e3o se assujeitar \u00e0s normatiza\u00e7\u00f5es, caso seja poss\u00edvel produzir um sintoma. Para os \u201cadministradores do povo\u201d, muitas vezes, quando a puls\u00e3o insiste, quando o isso se apresenta, e o eu n\u00e3o se faz forte para cont\u00ea-lo, isso pode ser traduzido pela constata\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do mal, do inimigo, daquele que tem que ser dominado, contra o qual \u00e9 preciso entrar em guerra, isolando-o em novas formas de campos de concentra\u00e7\u00e3o, por se tratar de um gozo subdesenvolvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[1] Texto apresentado no N\u00facleo de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental &#8211; Montes Claros, no dia 17 de abril de 2012.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, Sigmund. (1923\/1969) \u201cO ego e o id\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969, v.19, p.13-83.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. ([1929] 1939\/1969) \u201cMal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969, v.21, p.75-171.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, Jacques. (1969-1970) O Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. (1972-1973) O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. (1967) \u201cA psican\u00e1lise. Raz\u00e3o de um fracasso\u201d, In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. p.341-349.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. (1953) \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d, In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p.238-324.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. (1950) \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica a todo desenvolvimento poss\u00edvel da criminologia\u201d, In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p.127-151.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, \u00c9ric. \u201cO del\u00edrio da normalidade\u201d, In: Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2011. p.45-56.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, Jacques-Alain. El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica. Seminario en colaboraci\u00f3n com \u00c9ric Laurent. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. \u201cA m\u00e1quina pan\u00f3ptica de Jeremy Bentham\u201d, In: SILVA, T. T. (Org.) O pan\u00f3ptico. Belo Horizonte: Editora Aut\u00eantica, 2000.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d, Revista Correio, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n.67, dez. 2010, p.19-26.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">VIEIRA, Marcus Andr\u00e9. \u201cA sa\u00fade para todos, n\u00e3o sem a loucura de cada um\u201d, Revista Correio, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, S\u00e3o Paulo, n.67, dez. 2010, p.27-29.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Maria Jos\u00e9 Gontijo Salum<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Maria Jos\u00e9 Gontijo Salum Psicanalista, Doutora em Teoria Psicanal\u00edtica pela UFRJ, Professora Adjunta da PUC-Minas. e-mail:\u00a0<span id=\"cloakfdb05ed4a05d9c8eec740900776b8359\"><a href=\"mailto:mariajgontijo@gmail.com\">mariajgontijo@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA JOS\u00c9 GONTIJO SALUM Este texto pretende trabalhar a rela\u00e7\u00e3o, na contemporaneidade, entre uma nova modalidade de aparecimento do ideal \u2014 o ideal de bem-estar \u2014 e o fracasso desse ideal diante da insist\u00eancia da puls\u00e3o. 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