{"id":464,"date":"2012-03-15T06:50:50","date_gmt":"2012-03-15T09:50:50","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=464"},"modified":"2012-03-15T06:50:50","modified_gmt":"2012-03-15T09:50:50","slug":"corpo-e-gozo-na-psicanalise-com-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2012\/03\/15\/corpo-e-gozo-na-psicanalise-com-criancas\/","title":{"rendered":"Corpo E Gozo Na Psican\u00e1lise Com Crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\" style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"font-size: 14px;\">SUZANA FALEIRO BARROSO<\/strong><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p style=\"text-align: right; padding-left: 360px;\"><em>\u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhuma necessidade de ir muito longe numa an\u00e1lise de adulto, basta ser algu\u00e9m que pratica com crian\u00e7as para conhecer esse elemento que constitui o peso cl\u00ednico de cada um dos casos que temos que manipular e que se chama puls\u00e3o. Parece ent\u00e3o haver aqui refer\u00eancia a um dado \u00faltimo, ao arcaico, ao primordial. Tal recurso, ao qual meu ensino os convida, para compreender o inconsciente, a renunciar, parece aqui inevit\u00e1vel.\u201d<\/em><br \/>\n<em>(LACAN, 1964\/1985, p.154)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Puls\u00e3o, A Crian\u00e7a E O Sonho De Freud<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A puls\u00e3o tem um percurso na psican\u00e1lise desde Freud at\u00e9 Lacan n\u00e3o sem passar pelos p\u00f3s-freudianos. Ela implica a desnaturaliza\u00e7\u00e3o do corpo a partir da incid\u00eancia da linguagem no mais \u00edntimo do organismo. Desse modo, a fun\u00e7\u00e3o org\u00e2nica \u00e9 habitada pela puls\u00e3o. O inconsciente estruturado como linguagem tem como parceiro o Outro enquanto corpo reduzido \u00e0 gram\u00e1tica das puls\u00f5es. Por meio do circuito pulsional, os \u00f3rg\u00e3os e as fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas se inscrevem enquanto fun\u00e7\u00f5es de gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conceito limite entre o ps\u00edquico e o som\u00e1tico, a puls\u00e3o tamb\u00e9m implica limites quanto \u00e0s \u201cmudan\u00e7as, transforma\u00e7\u00f5es e muta\u00e7\u00f5es que a an\u00e1lise pode efetuar nos modos de gozo do sujeito\u201d (MILLER, 2005, p.49). Por sua dupla face de significante e de sil\u00eancio \u00e9 que a puls\u00e3o interroga que o fato de falar pode acarretar mudan\u00e7as no modo de gozo do sujeito. \u00c9 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 puls\u00e3o que Lacan vai localizar o desejo do analista, como o que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, opera na cura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esse operador cl\u00ednico, a saber, o desejo do analista, Lacan fazia uma interven\u00e7\u00e3o no campo dos ideais anal\u00edticos que o precederam com rela\u00e7\u00e3o aos destinos da puls\u00e3o. Freud j\u00e1 nos havia advertido quanto aos limites e mesmo quanto ao fracasso da an\u00e1lise correlacionado ao imposs\u00edvel de educar e governar a vida pulsional. Ainda assim, parece ter sonhado com a efic\u00e1cia do simb\u00f3lico para promover o governo da puls\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A correla\u00e7\u00e3o entre a crian\u00e7a e a puls\u00e3o se encontra no conceito freudiano do perverso polimorfo. Trata-se da crian\u00e7a sob um regime an\u00e1rquico de gozo a ser organizado e humanizado pela interven\u00e7\u00e3o da ordem simb\u00f3lica da qual se esperam a submiss\u00e3o do gozo \u00e0 castra\u00e7\u00e3o e a instala\u00e7\u00e3o do regime f\u00e1lico de gozo. A humaniza\u00e7\u00e3o do desejo atribu\u00edda \u00e0 incid\u00eancia da autoridade parental sobre o car\u00e1ter selvagem da puls\u00e3o interfere nos seus destinos segundo a lei do pai. Desse modo, podemos distinguir a neurose da pervers\u00e3o e da psicose segundo o fracasso da submiss\u00e3o da puls\u00e3o \u00e0 autoridade paterna e suas consequ\u00eancias para o corpo e o gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na neurose, temos o exemplo do Pequeno Hans, que, segundo Freud, foi um modelo de todos os v\u00edcios. Esse caso ilustra a interven\u00e7\u00e3o humanizadora da met\u00e1fora f\u00f3bica na vida pulsional, promovendo a extra\u00e7\u00e3o de gozo e sua localiza\u00e7\u00e3o fora do corpo. Verifica-se, nos circuitos do Pequeno Hans, a montagem da puls\u00e3o. Na pervers\u00e3o, contrapondo-se ao Pequeno Hans, temos o caso de Gide, cuja falha na humaniza\u00e7\u00e3o do desejo e na sua compatibiliza\u00e7\u00e3o com o la\u00e7o social fez com que a masturba\u00e7\u00e3o se mantivesse desde sua inf\u00e2ncia at\u00e9 a juventude enquanto satisfa\u00e7\u00e3o selvagem da puls\u00e3o. Na psicose, o caso de Robert ilustra os efeitos da n\u00e3o inscri\u00e7\u00e3o do circuito da puls\u00e3o devido \u00e0 n\u00e3o extra\u00e7\u00e3o de gozo do corpo. A linguagem reduzida a um significante sozinho promoveu devasta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o simboliza\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel do corpo e do gozo, de modo que foi pela via do ato que Robert tentou obter a extra\u00e7\u00e3o de gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Educar e civilizar a puls\u00e3o \u00e9 o que a sociedade sempre esperou da fam\u00edlia, motivo pelo qual a psican\u00e1lise com crian\u00e7as foi de in\u00edcio questionada ou socialmente consentida desde que sustentasse uma alian\u00e7a com a educa\u00e7\u00e3o. Como aceitar um m\u00e9todo que iria contra o processo de educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, visto que ele supostamente liberaria seus impulsos os mais antissociais e contr\u00e1rios aos ideais da civiliza\u00e7\u00e3o? Disso decorre a inaugura\u00e7\u00e3o do debate que envolveu a psican\u00e1lise e a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, n\u00e3o s\u00f3 Lacan reinventou a psican\u00e1lise como tamb\u00e9m as transforma\u00e7\u00f5es sociais foram muitas desde o tempo de Freud. De modo que, a partir da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, podemos pensar em como promover o la\u00e7o social n\u00e3o a partir dos ideais, e sim a partir da puls\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos analistas de crian\u00e7as tentaram dar conta da quest\u00e3o da puls\u00e3o e do la\u00e7o social, a exemplo de Anna Freud e de Melanie Klein. Anna Freud associou a tarefa de analisar com a de educar, acreditando que o analista deveria promover uma regula\u00e7\u00e3o da vida pulsional infantil. Para cumprir esse objetivo, ela defendia a ideia de um pacto com os pais, de uma alian\u00e7a terap\u00eautica, ou seja, alian\u00e7a do analista com os pais em prol do fortalecimento do eu. Melanie Klein, ao voltar-se, sobretudo, para a vida pulsional, privilegiou o papel das puls\u00f5es estruturantes das rela\u00e7\u00f5es objetais, o que lhe conferiu o apelido de \u201cTripeira\u201d, dado por Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambas as analistas abordaram, cada uma \u00e0 sua maneira, as duas faces da puls\u00e3o, a face que implica o Outro e a cadeia significante de sua demanda endere\u00e7ada \u00e0 crian\u00e7a e a face de gozo que implica o objeto mais-de-gozar. Enquanto Anna Freud parece ter valorizado demais o papel do Outro parental na organiza\u00e7\u00e3o da vida pulsional, em detrimento do objeto visado pela puls\u00e3o, Melanie Klein, ao contr\u00e1rio, valorizou, acima de tudo, o objeto, por\u00e9m desconhecendo que a puls\u00e3o \u00e9 capturada num sistema de significantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan deslocou esse debate ao valorizar o fator satisfa\u00e7\u00e3o implicado na puls\u00e3o, o que se sobrep\u00f5e \u00e0 sua alian\u00e7a com os ideais e a verdade. A satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o pode infiltrar-se at\u00e9 mesmo no processo de an\u00e1lise, na fala, na transfer\u00eancia e na interpreta\u00e7\u00e3o. O problema, cada vez mais evidente, mediante o decl\u00ednio da autoridade paterna e dos termos freudianos da organiza\u00e7\u00e3o edipiana da puls\u00e3o, \u00e9 a tend\u00eancia da puls\u00e3o de se satisfazer autoeroticamente, portanto, at\u00e9 certo ponto, \u00e0 revelia do Outro e do la\u00e7o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, quanto \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es parciais, nunca foi evidente a refer\u00eancia ao campo do Outro, \u00e0 cultura, ao la\u00e7o social. A puls\u00e3o genital, suposta pelos p\u00f3s-freudianos como aquela que coroaria o desenvolvimento pulsional infantil para al\u00e9m de seus interesses parciais, n\u00e3o existe. Disso decorre a possibilidade de pensarmos a constitui\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social a partir da parcialidade da puls\u00e3o. \u00c9 o que a teoria lacaniana dos discursos vem demonstrar, desde que Lacan insere no \u00e2mago da estrutura discursiva o objeto mais-de-gozar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As Duas Faces Da Puls\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Semin\u00e1rio 11 constitui um marco para a no\u00e7\u00e3o de puls\u00e3o em Lacan, visto que a\u00ed ela ganha o estatuto de conceito fundamental, ao lado do inconsciente, da transfer\u00eancia e da repeti\u00e7\u00e3o. Nesse semin\u00e1rio, a puls\u00e3o \u00e9 relan\u00e7ada al\u00e9m da primazia do simb\u00f3lico, segundo a qual ela foi abordada, precisamente por meio da concep\u00e7\u00e3o da tr\u00edade necessidade, demanda e desejo. Para al\u00e9m de sua inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, definida at\u00e9 ent\u00e3o pela f\u00f3rmula do grafo do sujeito, ($\u25caD), Lacan concebeu as no\u00e7\u00f5es de aliena\u00e7\u00e3o e de separa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o opera\u00e7\u00f5es de constitui\u00e7\u00e3o do sujeito que incluem as duas faces da puls\u00e3o, a simb\u00f3lica e a real, respectivamente, o valor de verdade e de gozo, a face que fala por meio de uma gram\u00e1tica e a face silenciosa. Enquanto a dimens\u00e3o simb\u00f3lica da puls\u00e3o, representada pela interven\u00e7\u00e3o da demanda do Outro sobre o organismo do falasser, concerne \u00e0 opera\u00e7\u00e3o de aliena\u00e7\u00e3o, a dimens\u00e3o real implica o mais-de-gozar e concerne \u00e0 separa\u00e7\u00e3o. A separa\u00e7\u00e3o coloca em jogo o organismo vivo, a libido, os objetos pulsionais. Cada um dos objetos pulsionais \u00e9 especificado por certa mat\u00e9ria na medida em que a esvazia. O objeto a, na verdade, \u00e9, para Lacan, uma fun\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, uma consist\u00eancia l\u00f3gica que consegue encarnar-se naquilo que cai do corpo sob a forma de diversos dejetos. \u00c9 a dessubstancializa\u00e7\u00e3o do objeto que evidencia a sua consist\u00eancia l\u00f3gica de vazio, de cavo (MILLER, 1994).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan nos lembra, em 1964, do dizer de Freud de que as puls\u00f5es s\u00e3o nossos mitos e acrescenta que \u00e9 o real que elas mitificam, reproduzindo a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o objeto perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u201cN\u00e3o faltam objetos que passam por lucros e perdas para ocupar seu lugar. Mas \u00e9 em n\u00famero limitado que eles podem desempenhar um papel que se simbolizaria da melhor maneira poss\u00edvel pela automutila\u00e7\u00e3o do lagarto, por sua cauda desprendida com desola\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1964\/1998, p.867).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o freudiana de puls\u00e3o \u00e9 por excel\u00eancia a demonstra\u00e7\u00e3o de que a fala tem efeito e ressoa no corpo. \u201cO conceito de puls\u00e3o, explicado por Lacan, designa um tra\u00e7o comum \u00e0s palavras e ao corpo. \u00c9 o que \u00e9 designado pelo tra\u00e7o do corte\u201d (COTTET, 2000, p.70). Al\u00e9m disso, \u201cas puls\u00f5es s\u00e3o, no corpo, o eco do fato de que h\u00e1 um dizer\u201d (LACAN, 1975-1976\/2007, p.18). Para que esse dizer ressoe, \u00e9 preciso que o corpo seja sens\u00edvel, o que concerne aos seus orif\u00edcios dos quais o mais importante \u00e9 o ouvido. \u201cPorque ele n\u00e3o pode se tapar, se cerrar, se fechar. \u00c9 por esse vi\u00e9s que, no corpo, responde o que chamei de voz\u201d (LACAN, 1975-1976\/2007, p.19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corpo sens\u00edvel \u00e0s palavras est\u00e1 em jogo na constitui\u00e7\u00e3o do circuito das demandas lastreado pelas zonas er\u00f3genas a partir da incid\u00eancia do discurso do Outro sobre o infans. No encontro do ser vivente com a l\u00edngua materna, o corpo se constitui n\u00e3o somente como imagem, mas tamb\u00e9m como eco pulsional do dizer do Outro. A subst\u00e2ncia corporal coloca em relev\u00e2ncia a capacidade do dizer de afetar o corpo, de imprimir marcas sobre o corpo e desalojar o gozo. Trata-se da implica\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o do signo e sua incid\u00eancia sobre o corpo mais do que a fun\u00e7\u00e3o do significante, visto que este sempre vem no lugar de uma falta, opera pela negatividade e n\u00e3o enquanto presen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A montagem da puls\u00e3o sup\u00f5e a constitui\u00e7\u00e3o de um circuito de gozo em torno do furo deixado pela extra\u00e7\u00e3o do objeto. O paradigma da extra\u00e7\u00e3o do objeto \u00e9 o fort-da freudiano, matriz da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o significante e com o objeto. Ao observar o brincar de seu neto de um ano e meio de idade, Freud descreveu o jogo que ficou conhecido como jogo do fort-da e que marca a inser\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a na dimens\u00e3o simb\u00f3lica. Ao afastar de si o carretel com o qual brincava, a crian\u00e7a enunciava o fort e, ao recuper\u00e1-lo, trazendo-o para junto de si, enunciava o da, expressando a altern\u00e2ncia do desaparecimento e do retorno do objeto. \u201cForam esses jogos de oculta\u00e7\u00e3o que Freud, numa intui\u00e7\u00e3o genial, produziu, a nosso ver, para que neles reconhec\u00eassemos que o momento em que o desejo se humaniza \u00e9 tamb\u00e9m aquele em que a crian\u00e7a nasce para a linguagem\u201d (LACAN, 1953\/1998, p.320).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crian\u00e7a demonstra a\u00ed seu compromisso com o discurso do Outro, reproduzindo, em seu fort e em seu da, os significantes que dele recebe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPois sua a\u00e7\u00e3o destr\u00f3i o objeto que ela faz aparecer e desaparecer na provoca\u00e7\u00e3o antecipat\u00f3ria de sua aus\u00eancia e sua presen\u00e7a. Ela negativiza assim o campo de for\u00e7as do desejo, para se tornar, em si mesmo, seu pr\u00f3prio objeto. E esse objeto, ganhando corpo imediatamente no par simb\u00f3lico de dois dardejamentos elementares, anuncia no sujeito a integra\u00e7\u00e3o diacr\u00f4nica da dicotomia dos fonemas, da qual a linguagem existente oferece a estrutura sincr\u00f4nica e sua assimila\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1953\/1985, p.320).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Observa-se bem que o ato da crian\u00e7a, aparentemente ing\u00eanuo, \u00e9 um ato de palavra que anula o objeto e implica uma cess\u00e3o de gozo acarretada pela entrada no discurso. \u201cSe \u00e9 verdade que o significante \u00e9 a primeira marca do sujeito, como n\u00e3o reconhecer aqui [\u2026] que o objeto ao qual essa oposi\u00e7\u00e3o se aplica em ato, o carretel, \u00e9 ali que devemos designar o sujeito\u201d (LACAN, 1964\/1985, p.63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das interpreta\u00e7\u00f5es mais correntes do fort-da \u00e9 que, nesse jogo, por meio da repeti\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a estaria elaborando a perda relativa \u00e0 aus\u00eancia da m\u00e3e, fazendo-se agente dessa perda. Nesse contexto, o carretel \u00e9 a m\u00e3e. Para Lacan, fazer-se agente da perda torna-se um fen\u00f4meno secund\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia fundante do sujeito nesse jogo. O psicanalista desloca a quest\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o do par m\u00e3e-crian\u00e7a para a crian\u00e7a e o objeto, ao mesmo tempo \u00edntimo e exterior a ela mesma. O carretel \u00e9, ent\u00e3o, o objeto a. A necessidade do retorno da m\u00e3e poderia manifestar-se pelo grito. H\u00e1, portanto, algo mais do que o grito e a demanda que se inscreve no jogo do carretel e que o eleva \u00e0 dimens\u00e3o de um ato. O fort-da testemunha a perda inerente \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o do sujeito na dimens\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA hi\u00e2ncia introduzida pela aus\u00eancia desenhada, e sempre aberta, permanece causa de um tra\u00e7ado centr\u00edfugo no qual o que falha n\u00e3o \u00e9 o outro enquanto figura em que o sujeito se projeta, mas aquele carretel ligado a ele pr\u00f3prio por um fio que ele segura \u2014 onde se exprime o que, dele, se destaca nessa prova, a auto-mutila\u00e7\u00e3o a partir da qual a ordem da signific\u00e2ncia vai se p\u00f4r em perspectiva\u201d (LACAN, 1964\/1985, p.63).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que chamou a aten\u00e7\u00e3o de Freud foi, sobretudo, a necessidade da crian\u00e7a de repetir o jogo reiteradamente, revelando o verdadeiro segredo do l\u00fadico, isto \u00e9, a diversidade mais radical que constitui a repeti\u00e7\u00e3o em si mesma. A repeti\u00e7\u00e3o t\u00edpica do fort-da \u00e9 uma presentifica\u00e7\u00e3o em ato do encontro com o real que Lacan nomeou de tiqu\u00ea, em O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u201c\u00c9 a repeti\u00e7\u00e3o da sa\u00edda da m\u00e3e como causa de uma Spaltung no sujeito \u2014 superada pelo jogo alternativo, fort-da, que \u00e9 um aqui ou ali, e que s\u00f3 visa, em sua altern\u00e2ncia, a ser o fort de um da e o da de um fort. O que se visa \u00e9 aquilo que, essencialmente, n\u00e3o est\u00e1 representado\u201d (LACAN, 1964\/1985, p.63).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A observa\u00e7\u00e3o de Freud esclarece como o sujeito se produz a partir de sua inscri\u00e7\u00e3o na cadeia significante (fort-da). O que se destaca a\u00ed \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o dessa opera\u00e7\u00e3o, a saber, a extra\u00e7\u00e3o do objeto que introduz uma negativiza\u00e7\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u201cO carretel n\u00e3o \u00e9 a m\u00e3e reduzida a uma bolinha [\u2026] \u00e9 alguma coisinha do sujeito que se destaca embora ainda sendo bem dele, que ele ainda segura [\u2026] \u00c9 com seu objeto que a crian\u00e7a salta as fronteiras de seu dom\u00ednio transformado em po\u00e7o e que come\u00e7a a encanta\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1964\/1985, p.63).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sujeito como efeito de significa\u00e7\u00e3o \u00e9 resposta do real \u00e0 aus\u00eancia do Outro. \u201cO jogo do carretel \u00e9 a resposta do sujeito \u00e0quilo que a aus\u00eancia da m\u00e3e veio criar na fronteira de seu dom\u00ednio \u2014 a borda do seu ber\u00e7o \u2014 isto \u00e9, um fosso, em torno do qual ele nada mais tem a fazer sen\u00e3o o jogo do salto\u201d (LACAN, 1964\/1985, p.63). O salto \u00e9 o ato e indica uma cl\u00ednica do objeto para al\u00e9m de uma cl\u00ednica do sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse jogo infantil se tornou para Lacan o paradigma das opera\u00e7\u00f5es de constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, a aliena\u00e7\u00e3o e a separa\u00e7\u00e3o. Pode-se extrair da\u00ed uma cl\u00ednica do fort-da, isto \u00e9, uma cl\u00ednica das rela\u00e7\u00f5es do sujeito com o significante e com o objeto. O par fort-da corresponde ao par S1 \u2013 S2, necess\u00e1rio para definir a estrutura do Outro, segundo a primeira linha do discurso do mestre, no qual se inscreve a identifica\u00e7\u00e3o do sujeito. A cl\u00ednica do objeto concerne a uma orienta\u00e7\u00e3o que prioriza a extra\u00e7\u00e3o do excedente de gozo. O objeto a definido como um furo no Outro, um furo com uma borda que funciona como lugar de captura de gozo, proporciona uma forma ao gozo, pois isola uma unidade de gozo em rela\u00e7\u00e3o ao seu car\u00e1ter de absolutiza\u00e7\u00e3o e infinitiza\u00e7\u00e3o. Trata-se do isolamento de zonas especiais no corpo que se tornam lugares do mais-de-gozar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ang\u00fastia na neurose demonstra a positividade do objeto e sua presen\u00e7a avassaladora para o sujeito nas \u201capari\u00e7\u00f5es, perturba\u00e7\u00f5es e separa\u00e7\u00f5es\u201d do objeto a (MILLER, 2005, p.54). As apari\u00e7\u00f5es dizem respeito a toda presentifica\u00e7\u00e3o do objeto ali onde ele deveria faltar, a saber, no lugar de -\uf06a. Nesse ponto, onde o neur\u00f3tico sentiria ang\u00fastia, devido a uma vacila\u00e7\u00e3o dos semblants, o psic\u00f3tico sente horror e perplexidade, provocados, portanto, pela irrup\u00e7\u00e3o do gozo no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O menino do fort-da ilustra como a castra\u00e7\u00e3o imp\u00f5e a articula\u00e7\u00e3o da linguagem e faz com que uma palavra tenha que se articular a outra para produzir sentido, n\u00e3o sem uma perda de seu valor de gozo autoer\u00f3tico. A passagem de uma al\u00edngua \u00e0 linguagem, isto \u00e9, o acesso \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o m\u00ednima de dois significantes necess\u00e1ria \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sentido, sup\u00f5e uma opera\u00e7\u00e3o discursiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\">\u201cEssa elucubra\u00e7\u00e3o de saber pode ser vista como a incid\u00eancia do discurso do mestre sobre al\u00edngua, na perspectiva de sua decomposi\u00e7\u00e3o, do isolamento de sua unidade elementar, no estabelecimento de suas rela\u00e7\u00f5es fundamentais e de seu reordenamento numa estrutura de linguagem\u201d (MANDIL, 2010, p.234).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para pensar ent\u00e3o o percurso infantil de al\u00edngua \u00e0 linguagem, a teoria lacaniana dos discursos torna-se fundamental. Com a formula\u00e7\u00e3o dos discursos, Lacan estabeleceu uma conjun\u00e7\u00e3o de elementos heterog\u00eaneos, isto \u00e9, o efeito de significa\u00e7\u00e3o promovido pela oposi\u00e7\u00e3o dos significantes S1 e S2 e o efeito da produ\u00e7\u00e3o de mais de gozo, condensado no objeto a. O objeto a como mais-de-gozar adv\u00e9m da ren\u00fancia ao gozo exigida pela inser\u00e7\u00e3o do ser falante no discurso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Cl\u00ednica Do Objeto E O La\u00e7o Social<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante das transforma\u00e7\u00f5es provenientes da inexist\u00eancia do Outro da ascens\u00e3o do objeto a ao z\u00eanite na civiliza\u00e7\u00e3o, \u00c9ric Laurent explica, no artigo \u201cO objeto a piv\u00f4 da experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d (2007), que o tratamento pelo objeto a pode ser uma via de abertura ao campo do Outro, ali onde o sujeito goza do autismo de seu sintoma. Ele defende que, a partir do objeto de gozo, a exemplo do que \u00e9 a droga para o toxic\u00f4mano, possa-se refazer o la\u00e7o com o Outro. O objeto anal, na contemporaneidade, por exemplo, poderia vincular o sujeito ao Outro, ao promover a paix\u00e3o pelas acumula\u00e7\u00f5es, fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es financeiras, embora sempre \u00e0 beira de uma ruptura, quebra ou crise. Com rela\u00e7\u00e3o ao olhar, \u00e9 a paix\u00e3o para ver tudo que vem sendo explorada insistentemente, inclusive pela m\u00eddia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No artigo \u201cUma cl\u00ednica do objeto a em institui\u00e7\u00e3o\u201d (2011), Rabanel define dois movimentos civilizat\u00f3rios, dois modos de inser\u00e7\u00e3o social, a saber, por meio do Outro e por meio do gozo. A inser\u00e7\u00e3o social por meio do Outro depende das interdi\u00e7\u00f5es, limites, normas, prescri\u00e7\u00f5es e aprendizagens, o que restringe bastante as chances de la\u00e7o para o psic\u00f3tico, sobretudo, o autista. Mas, por meio do objeto, seja a voz ou o olhar, por exemplo, alcan\u00e7a-se alguma inser\u00e7\u00e3o do sujeito, a partir de suas inven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro, a no\u00e7\u00e3o de discurso e de mais-de-gozar implica diretamente a puls\u00e3o em sua fun\u00e7\u00e3o de la\u00e7o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 um modo de, com o objeto, re-inscrever esse sujeito, supostamente separado de tudo, em um discurso [\u2026] este gozo tamb\u00e9m re\u00fane o sujeito com o Outro. Ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 separa\u00e7\u00e3o como exclus\u00e3o, e sim um lugar \u00eaxtimo deste gozo no Outro\u201d (LAURENT, 2007, p.115).<br \/>\nLonge de ser algo que s\u00f3 destr\u00f3i os la\u00e7os sociais, que significa uma amea\u00e7a para esse la\u00e7o, pode ser, precisamente, o la\u00e7o social que resta. A psican\u00e1lise pode ent\u00e3o sustentar uma cl\u00ednica do objeto visando \u00e0 extra\u00e7\u00e3o do excedente de gozo inclusive na psicose infantil. Trata-se de localizar o gozo fora do corpo por meio de interven\u00e7\u00f5es voltadas para uma redu\u00e7\u00e3o do gozo, sem a qual n\u00e3o h\u00e1 la\u00e7o social poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado do efeito de significa\u00e7\u00e3o, os discursos promovem a falta-a-ser e a identifica\u00e7\u00e3o do sujeito, sustentam a comunica\u00e7\u00e3o e o endere\u00e7amento ao Outro. Do lado do efeito de produ\u00e7\u00e3o, os discursos localizam o ser do sujeito, um efeito de real e de gozo, que n\u00e3o comunica nem endere\u00e7a nada ao Outro. Segundo a leitura de Miller (2009), por incluir no discurso os quatro elementos articulados, $, a, S1, S2, num sistema de quatro lugares, Lacan obt\u00e9m a ess\u00eancia da estrutura cl\u00ednica em psican\u00e1lise, para al\u00e9m de uma mera classifica\u00e7\u00e3o, pois faz valer o acr\u00e9scimo da causa \u00e0s classes. O falasser, ser falado falante, \u00e9 o conjunto dessa articula\u00e7\u00e3o e, por isso, adquire uma densidade especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso visa a distinguir os elementos de al\u00edngua, S1 e S2, estabelecer rela\u00e7\u00f5es, articula\u00e7\u00f5es e fundar la\u00e7os sociais. O significante, que se define apenas como uma diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a outro significante, \u00e9 extra\u00eddo de al\u00edngua a partir da introdu\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a enquanto tal pela opera\u00e7\u00e3o do tra\u00e7o un\u00e1rio. H\u00e1 estrutura de linguagem, propriamente dita, quando o S1 se articula a S2. H\u00e1, portanto, um real pr\u00e9vio \u00e0 estrutura, definido como mat\u00e9ria de estrutura, fora do sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO \u00faltimo ensino de Lacan come\u00e7a com essa clivagem entre a estrutura e os elementos pr\u00e9vios de acaso, os quais ela encaixa e significa. A pr\u00e1tica da psican\u00e1lise ganha ent\u00e3o outra \u00eanfase. Trata-se de reconduzir a trama de destino do sujeito da estrutura aos elementos primordiais, fora de articula\u00e7\u00e3o \u2014 ou seja, fora do sentido e, por serem absolutamente separados, podemos diz\u00ea-los \u2018absolutos\u2019 \u2014 reconduzir o sujeito aos elementos absolutos de sua exist\u00eancia contingente\u201d (MILLER, 2009, p.28).<br \/>\nA estrutura quer dizer efeito de sentido e produ\u00e7\u00e3o de mais de gozo, ou seja, \u00e9 a estrutura do discurso. O la\u00e7o social requer a rela\u00e7\u00e3o com os significantes S1-S2 com produ\u00e7\u00e3o de a, cuja resposta \u00e9 o sujeito barrado. Antes que o par ordenado dos significantes inscreva o sujeito num discurso, o falasser est\u00e1 alienado a um gozo pr\u00e9vio que n\u00e3o se articula com a linguagem como um sistema de significantes. \u201cEsse ser pr\u00e9vio \u00e9 um ser de gozo, quer dizer, um corpo afetado de gozo\u201d (MILLER, 2000, p.98). A incid\u00eancia traum\u00e1tica de al\u00edngua sobre o corpo instala o enigma do gozo, que poder\u00e1 ser submetido ao seu regime paterno, no caso da neurose.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa an\u00e1lise, mediante a associa\u00e7\u00e3o livre, o sujeito faz emergirem de sua narra\u00e7\u00e3o sobre o que lhe acontece os axiomas que tecem a trama do sentido de sua exist\u00eancia, transformando a conting\u00eancia em articula\u00e7\u00e3o. Um S1, ao acaso, articula-se com um S2, e se produz um efeito de sentido articulado, organizando os elementos do acaso que precedem a estrutura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os discursos estruturam modos diferentes de conjun\u00e7\u00e3o e disjun\u00e7\u00e3o das palavras e dos corpos. A condi\u00e7\u00e3o maior da montagem de um discurso \u00e9 uma perda, ou seja, a exclus\u00e3o do gozo. De uma parte, encontra-se a antinomia entre o discurso e o gozo, delimitando a exterioridade absoluta do gozo em rela\u00e7\u00e3o ao campo discursivo e, de outra parte, uma recupera\u00e7\u00e3o do gozo por meio da fun\u00e7\u00e3o do mais-de-gozar no discurso. A teoria dos discursos conta, portanto, com a solidariedade e n\u00e3o com a incompatibilidade do significante e do gozo. O gozo n\u00e3o contraria a ordem simb\u00f3lica, mas sup\u00f5e sua incorpora\u00e7\u00e3o e o seu funcionamento. A prova maior de que o gozo n\u00e3o contraria o simb\u00f3lico e que, ao contr\u00e1rio, se imiscui nele est\u00e1 no pr\u00f3prio processo civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada um dos quatro discursos, a saber, o discurso do mestre, o discurso da hist\u00e9rica, o discurso universit\u00e1rio e o discurso do analista, busca recuperar algo do gozo do corpo que foi exilado sob a forma do mais-de-gozar. Os quatro discursos consistem em quatro aparelhos de tratamento do real do gozo por meio dos la\u00e7os sociais. Os la\u00e7os sociais escritos pelos discursos s\u00e3o articulados a partir do real como imposs\u00edvel de ser escrito, tribut\u00e1rio da puls\u00e3o de morte e irredut\u00edvel ao simb\u00f3lico. Enquanto la\u00e7os sociais, os discursos fazem conex\u00f5es entre dois campos, o campo do sujeito e o do Outro. Cada discurso implica um modo t\u00edpico de tratamento do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ponto de inser\u00e7\u00e3o do aparelho significante \u00e9, portanto, o gozo. O paradigma do gozo discursivo n\u00e3o sup\u00f5e uma l\u00f3gica aut\u00f4noma do significante, independentemente dos corpos, nem \u00e9 transcendente ao corpo, mas, ao contr\u00e1rio, implica o corpo. O corpo \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es de gozo, um corpo afetado pelo inconsciente, cujo gozo satisfaz a uma puls\u00e3o. O gozo implica a vertente da repeti\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conhece limite, sen\u00e3o a consuma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio organismo. A introdu\u00e7\u00e3o de um modo de gozo estranho \u00e0 sobreviv\u00eancia do organismo e ao saber natural e instintivo do corpo torna esse gozo equivalente \u00e0 puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O campo do sujeito, no discurso do mestre, \u00e9 regido pelo falo, que \u00e9 tamb\u00e9m um dos nomes do S1, visto que esse significante determina a castra\u00e7\u00e3o. O campo do Outro \u00e9 ocupado pelo saber e pelo objeto mais-de-gozar. A fantasia comporta algo da vida, do corpo vivo e libidinal, por meio da inser\u00e7\u00e3o do pequeno a enquanto imagem de gozo capturada no simb\u00f3lico. Sem o recurso de um discurso estabelecido, o sujeito n\u00e3o tem como levar em conta o lugar de objeto indiz\u00edvel que \u00e9 ele mesmo e dar um tratamento a esse objeto pelo enquadramento fantasm\u00e1tico. O discurso do mestre est\u00e1 correlacionado ao discurso da fam\u00edlia ed\u00edpica, que insere a crian\u00e7a na civiliza\u00e7\u00e3o a partir da articula\u00e7\u00e3o dos significantes fundamentais, pai e m\u00e3e, que representam o sujeito, imp\u00f5em uma ren\u00fancia \u00e0 puls\u00e3o e permitem a localiza\u00e7\u00e3o do ser de gozo numa fantasia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando uma crian\u00e7a \u00e9 socializada e entra no discurso, ela apreende muito cedo a norma civilizat\u00f3ria que regula a sua rela\u00e7\u00e3o com o corpo, ao internalizar a lei do pai, as regras do conv\u00edvio social. \u201cAo tomar a palavra nesse discurso estabelecido, o sujeito recebe uma forma de regula\u00e7\u00e3o do vivo que agita seu ser, que Lacan nomeava falasser\u201d (LACAD\u00c9E, 2009, p.1). Mas nem tudo da dimens\u00e3o do vivo \u00e9 regulado pelo discurso do mestre. Assim demonstra o Pequeno Hans, crian\u00e7a que se v\u00ea tomada pela ang\u00fastia diante de um \u00f3rg\u00e3o, o f\u00e1lico, que escapava \u00e0 captura do corpo pelo discurso do mestre. A inscri\u00e7\u00e3o do sujeito no discurso leva em conta o lugar do objeto indiz\u00edvel que \u00e9 ele mesmo. O significante do Nome-do-Pai tem efeitos de significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, isto \u00e9, dar sentido e orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 falta, em face do enigma do desejo do Outro. De in\u00edcio, o sujeito localiza uma parte de seu gozo nessa falta, separando-se e inscrevendo-se na linguagem que vem aparelhar o gozo em excesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Noutro texto, H\u00e1 um final de an\u00e1lise para as crian\u00e7as (1999), \u00c9ric Laurent j\u00e1 discutia a formaliza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise com crian\u00e7as e a dire\u00e7\u00e3o da cura do ponto de vista da teoria f\u00e1lica de Lacan e da teoria do objeto a. \u00c0 medida que a promo\u00e7\u00e3o do objeto a como real se faz insistente, surge a cr\u00edtica \u00e0 refer\u00eancia exclusivamente edipiana na an\u00e1lise de crian\u00e7as. A quest\u00e3o subjacente a essa cr\u00edtica \u00e9 a de que o aporte psicanal\u00edtico sobre o gozo, segundo a estrutura edipiana, demonstra-se insuficiente para o tratamento do gozo, na \u00e9poca do decl\u00ednio social da imago paterna. H\u00e1 outro artigo mais recente de Laurent, \u201cA an\u00e1lise de crian\u00e7as e a paix\u00e3o familiar\u201d (2010), em que ele ratifica essa contribui\u00e7\u00e3o anterior ao definir o que \u00e9 a an\u00e1lise de crian\u00e7a. \u201cEla \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o dos circuitos pulsionais gra\u00e7as a esse objeto transicional f\u00e1lico e tamb\u00e9m, mais al\u00e9m, a explora\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a vers\u00e3o cada vez mais particular de como funcionou a articula\u00e7\u00e3o entre o objeto pulsional e o falo\u201d (LAURENT, 2010, p.31). Laurent nos indica ent\u00e3o que o matema a\/-\uf06a se torna precioso para nossa investiga\u00e7\u00e3o. Ele acrescenta que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 80px;\"><em>\u201c[\u2026] analisar seria poder, ao mesmo tempo, articular estes dois planos: o plano da rela\u00e7\u00e3o com a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e o da crian\u00e7a como objeto da fantasia da m\u00e3e. Analisar uma crian\u00e7a, ent\u00e3o, \u00e9 poder, com ela, extrair a hist\u00f3ria do que foi sua rela\u00e7\u00e3o com essas duas classes de objetos, por meio da fam\u00edlia, pai e m\u00e3e\u201d (LAURENT, 2010, p. 32).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa defini\u00e7\u00e3o abre uma s\u00e9rie de possibilidades de investiga\u00e7\u00e3o, a saber, as variedades cl\u00ednicas derivadas das articula\u00e7\u00f5es e desarticula\u00e7\u00f5es de a e -\uf06a. Proponho algumas perguntas: 1) quais os impasses contempor\u00e2neos para essa articula\u00e7\u00e3o? 2) como o corpo da puls\u00e3o \u00e9 tomado nessa articula\u00e7\u00e3o? 3) o que se passa na neurose infantil e na psicose infantil a prop\u00f3sito desses elementos estruturantes do la\u00e7o social? 4) o que a ang\u00fastia revela sobre o objeto e o falo? 5) como as fic\u00e7\u00f5es familiares podem tratar esses elementos?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">[1] Texto apresentado na reuni\u00e3o do N\u00facleo de Pesquisa em Psican\u00e1lise com Crian\u00e7as da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica do Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, em 07\/03\/2012.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">COTTET, Serge. \u201cLe langage, corps subtil\u201d, La Cause Freudienne, Paris: Navarin, Seuil, 2000, p.69-73.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAD\u00c9E, Philippe. \u201cA autoridade da l\u00edngua\u201d, Almanaque on-line, ano 3, n.4, jan.\/jun. 2009. Dispon\u00edvel em: www.institutopsican\u00e1lise-mg.com.br. Acesso em: 02 jul.2012.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LACAN, Jacques. (1964) O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. (1975-1976) O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edito, 2007.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. (1964) \u201cDo Trieb de Freud e do desejo do psicanalista\u201d, In: Escritos. Rio de Janeiro: J.Z.E., 1998. p.865-868.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, \u00c9ric. \u201cO objeto a piv\u00f4 da experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, v.49, ago. 2007, p.114-119.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. Hay un fin de an\u00e1lisis para los ni\u00f1os. Buenos Aires: Coleccion Diva, 1999.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. \u201cA an\u00e1lise de crian\u00e7as e a paix\u00e3o familiar\u201d, In: Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte: Ed. Scriptum, 2010. p.27-43.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MANDIL, Ram. \u201cO inconsciente como \u2018parasita falador\u2019 e seus destinos\u201d, In: LAIA, Sergio; BATISTA, Maria do Carmo Dias. (Org.) Todo mundo delira. Belo Horizonte: Scriptum, 2010. p.233-242.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, Jacques-Alain. Silet, os paradoxos da puls\u00e3o de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: J.Z.E, 2005.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. \u201cJacques Lacan et la voix\u201d, Quarto-r\u00e9vue de psychanalyse, Bruxelles, n.54, jun.1994, p.47-52.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. \u201cS\u00e3o os acasos que nos fazem ir a torto e a direito\u201d, Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, v.55, nov.2009, p.23-33.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">RABANEL, Jean-Robert. \u201cUne clinique de l\u2019objet a en institution\u201d, La Cause Freudienne, Paris: Navarin, Seuil, n.78, 2011, p.64-76.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Suzana Faleiro Barroso<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Suzana Faleiro Barroso Psicanalista, membro da EBP e da AMP. Professora da Faculdade de Psicologia da PUC-Minas, doutora em Teoria Psicanal\u00edtica (UFRJ). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak1b78c55e502e3d0ba348ea3548f8ec41\"><a href=\"mailto:suzanafaleirobarroso@gmail.com\">suzanafaleirobarroso@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SUZANA FALEIRO BARROSO \u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhuma necessidade de ir muito longe numa an\u00e1lise de adulto, basta ser algu\u00e9m que pratica com crian\u00e7as para conhecer esse elemento que constitui o peso cl\u00ednico de cada um dos casos que temos que manipular e que se chama puls\u00e3o. Parece ent\u00e3o haver aqui refer\u00eancia a um dado \u00faltimo, ao&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-464","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-10","category-6","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=464"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/464\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}