{"id":468,"date":"2012-03-15T06:50:50","date_gmt":"2012-03-15T09:50:50","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=468"},"modified":"2012-03-15T06:50:50","modified_gmt":"2012-03-15T09:50:50","slug":"perturbar-a-defesa-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2012\/03\/15\/perturbar-a-defesa-social\/","title":{"rendered":"Perturbar A Defesa\u2026 Social?"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\" style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"font-size: 14px;\">M\u00c1RCIA MEZ\u00caNCIO\u00a0<\/strong><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leg\u00edtima Defesa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o por acaso, um significante chamou-me a aten\u00e7\u00e3o no trabalho de Mariana. N\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil adivinh\u00e1-lo: trata-se do significante \u201cdefesa\u201d. Ela o traz para apresentar, via trocadilho, a quest\u00e3o que, para ela, constituiu o impasse que a levou ao Ateli\u00ea de Psican\u00e1lise Aplicada: como fazer a defesa do sujeito e do singular, atuando sob a \u00e9gide do discurso do universal no espa\u00e7o de uma pol\u00edtica de defesa social? Como faz\u00ea-lo sem fazer da psican\u00e1lise um ideal, um S1 na dire\u00e7\u00e3o de uma institui\u00e7\u00e3o do aparelho regulador do Estado? Como se utilizar das ferramentas da psican\u00e1lise nesse dispositivo de controle social?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio, encontrei 14 significados para a palavra defesa, abrangendo suas acep\u00e7\u00f5es na linguagem comum, na linguagem jur\u00eddica, na psicologia, na tipografia, no futebol\u2026 Registra-se tamb\u00e9m um uso espec\u00edfico no Brasil, que remete ao \u201cjeitinho brasileiro\u201d: \u201cproveito que habilmente se tira de algo, arranjo, cava\u00e7\u00e3o\u201d (FERREIRA, 1975, p.426). E ainda: ato de defender: socorro, aux\u00edlio; aquilo que serve para defender: arma de defesa; ato ou forma de repelir um ataque; resist\u00eancia; contesta\u00e7\u00e3o de uma acusa\u00e7\u00e3o; justifica\u00e7\u00e3o, alega\u00e7\u00e3o; resguardo, prote\u00e7\u00e3o; impedimento, interdi\u00e7\u00e3o\u2026 enfim, um vasto campo sem\u00e2ntico. Em seu sentido brasileiro, ressoa a incorpora\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e1tica utilitarista. Retenhamos essa concep\u00e7\u00e3o utilitarista, que nos pode orientar ainda sobre a proposta de uma \u201cdefesa\u201d social, orientada pelos paradigmas do controle e avalia\u00e7\u00e3o, pelo funcionamento das normas e consequente segrega\u00e7\u00e3o do sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do significante defesa, no campo da psican\u00e1lise, podemos derivar: mecanismos de defesa, a ideia de que as estruturas cl\u00ednicas se apresentam como defesas contra o real, o ato anal\u00edtico como uma forma de perturbar a defesa, a proposta de se pensar a transfer\u00eancia na psicose pela vertente do analista como defesa (ou como ajuda) contra o \u00c9dipo. N\u00e3o se trata de uma lista exaustiva, pensei apenas em levantar algumas indica\u00e7\u00f5es e dire\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para uma pesquisa sobre o tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, percebe-se em Freud um longo percurso desde a introdu\u00e7\u00e3o do termo defesa, em 1894, em \u201cAs neuropsicoses de defesa\u201d, confundido com ou equivalente ao recalque, at\u00e9 a precis\u00e3o do conceito de defesa como prote\u00e7\u00e3o do eu contra as exig\u00eancias pulsionais, em \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d, em 1926. Proposi\u00e7\u00e3o que permite uma aproxima\u00e7\u00e3o da proposta de Miller (1996) de pensar as estruturas cl\u00ednicas como diferentes modos de defesa contra o real do gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m no semin\u00e1rio \u201cA experi\u00eancia do real na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, de 1998-1999, Miller (2003) afirma que a defesa qualifica, de maneira eletiva, a rela\u00e7\u00e3o subjetiva com o real. Ele remete ao Semin\u00e1rio 7, de Lacan, em que este afirma que a defesa qualifica a rela\u00e7\u00e3o inaugural do sujeito com o real. A pr\u00e1tica anal\u00edtica, que se apoia na palavra, isola o real, ainda que o analista se confronte com um vac\u00faolo de real, em inclus\u00e3o interna \u00e0 sua pr\u00e1tica. Miller discute as rela\u00e7\u00f5es entre Real e semblante e a correspond\u00eancia dessas categorias com as no\u00e7\u00f5es de defesa e recalque e faz alguns esclarecimentos importantes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 A defesa n\u00e3o recai sobre um significante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Resist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 defesa. Se, para os p\u00f3s-freudianos, a resist\u00eancia \u00e9 tida como conceito global, que inclui defesa e recalque, Lacan, em \u201cVariantes do tratamento-padr\u00e3o\u201d, afirma que a resist\u00eancia est\u00e1 relacionada ao recalque e n\u00e3o \u00e0 defesa. Referida \u00e0 cadeia do discurso, a resist\u00eancia faz obst\u00e1culo \u00e0 emerg\u00eancia da verdade. Os analistas p\u00f3s-freudianos acreditavam poder interpret\u00e1-la. Em paralelo \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de sentido, que busca vacilar o sentido do enunciado, tamb\u00e9m se pode interpretar a resist\u00eancia, quando n\u00e3o h\u00e1 o enunciado do sujeito, com o objetivo de extra\u00ed-lo. Mas o registro \u00e9 ainda o simb\u00f3lico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Defesa n\u00e3o se interpreta. Para Freud, qualifica uma rela\u00e7\u00e3o com a puls\u00e3o para a qual n\u00e3o se indica a interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assinalo que a rela\u00e7\u00e3o ao real \u00e9 o ponto de converg\u00eancia da no\u00e7\u00e3o de defesa que privilegiaremos, seguindo Freud, Lacan e Miller. A orienta\u00e7\u00e3o de perturbar a defesa n\u00e3o indica a interpreta\u00e7\u00e3o. Miller, em sua interven\u00e7\u00e3o de encerramento do VIII Congresso da AMP, reafirma essa indica\u00e7\u00e3o de Lacan.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNo s\u00e9culo XXI, a psican\u00e1lise deve seguir outra via: a da defesa contra o real sem lei e sem sentido. Lacan nos indica a via do real, assim como Freud fez com o conceito m\u00edtico da puls\u00e3o. O inconsciente lacaniano, do \u00faltimo Lacan, est\u00e1 no n\u00edvel do real, digamos para simplificar: \u2018sob\u2019 o inconsciente freudiano. Para entrar no s\u00e9culo XXI, nossa cl\u00ednica dever\u00e1 se centrar na maneira de incomodar a defesa, de desregr\u00e1-la contra o real\u201d (MILLER, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Observe-se que o car\u00e1ter da defesa aqui colocado apresenta-se em vertente negativa: uma defesa \u201ccontra\u201d. O que prop\u00f5e Mariana segue uma orienta\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria: ela fala de defesa, tal como nos processos jur\u00eddicos (o que \u00e9 apropriado ao contexto das medidas socioeducativas), como falar a favor, posicionar-se do lado do sujeito. No dicion\u00e1rio (1975, p.426), encontramos essa defini\u00e7\u00e3o: \u201cPessoa que, em ju\u00edzo, patrocina outra\u201d, e ainda uma \u00faltima acep\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m remete ao campo jur\u00eddico: \u201cLeg\u00edtima defesa \u2014 o emprego dos meios necess\u00e1rios para resistir \u00e0 for\u00e7a ou agress\u00e3o, sem que ultrapassem os limites da raz\u00e3o ou da justi\u00e7a natural\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Registremos, ainda, que, \u201cna era do direito ao gozo\u201d, observa-se o incremento dos movimentos de defesa dos direitos, sejam os das minorias segregadas, das comunidades de gozo, dos consumidores\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Contexto: A Psican\u00e1lise Aplicada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Laurent (2011, p.45), em \u201cO del\u00edrio de normalidade\u201d, afirma que os psicanalistas \u201csomos os \u00faltimos a falar do um por um\u201d, ainda que, ou, talvez, mesmo em decorr\u00eancia de uma expans\u00e3o do discurso democr\u00e1tico e de uma amplia\u00e7\u00e3o inusitada da psican\u00e1lise aplicada. Ele coloca em quest\u00e3o esse sucesso, na medida em que implicou um \u201cfalar a l\u00edngua do Outro\u201d que ele chama de uma tentativa de sedu\u00e7\u00e3o do discurso do mestre, num contexto em que era necess\u00e1rio lembrar a for\u00e7a e a utilidade social da psican\u00e1lise. Estavam, ent\u00e3o, em quest\u00e3o a regulamenta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise e os protocolos avaliativos. Curiosamente, ao final desse artigo, apresenta tamb\u00e9m uma ideia de defesa \u2014 a ideia de que devemos nos defender do del\u00edrio de normalidade e de que devemos faz\u00ea-lo pelo esfor\u00e7o constante de mostrar que a sa\u00fade mental, o la\u00e7o social e a psicopatologia n\u00e3o existem. \u00c9 necess\u00e1rio saber disso para que nos aproximemos do sintoma como Real, ele afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece-me que se trata de considerar o \u201cesfor\u00e7o de cada sujeito para tratar do seu sintoma e do acolhimento que lhe damos em institui\u00e7\u00f5es que, sem nossa presen\u00e7a, teriam a tend\u00eancia a trat\u00e1-lo como categoria\u201d (LAURENT, 2011, p.45). \u00c9 nesse ponto que me parece importante discutir (ou seria afirmar?) a pertin\u00eancia da presen\u00e7a dos psicanalistas nessas institui\u00e7\u00f5es. Discuss\u00e3o que \u00e9 o fio do trabalho apresentado por Mariana, que poder\u00edamos formular pelas quest\u00f5es seguintes: De que forma pode-se pensar a psican\u00e1lise no espa\u00e7o de execu\u00e7\u00e3o de medidas socioeducativas? E, particularmente, no caso de sua localiza\u00e7\u00e3o no campo de uma pol\u00edtica de defesa social? Ou seja, uma pol\u00edtica que responde aos protocolos da gest\u00e3o e da ordem e aos paradigmas contempor\u00e2neos de avalia\u00e7\u00e3o e controle e de problema-solu\u00e7\u00e3o. A defesa social incorpora esse vi\u00e9s do controle, via segrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resta verificar a acep\u00e7\u00e3o do significante defesa nesse contexto, aqui, em substitui\u00e7\u00e3o aos significantes \u201cseguran\u00e7a\u201d, \u201crepress\u00e3o\u201d, \u201cjusti\u00e7a\u201d. Vivemos sob o imperativo do politicamente correto. Resson\u00e2ncias da equival\u00eancia recalque-defesa com as quais Freud se embara\u00e7ou a princ\u00edpio, at\u00e9 discernir o campo do recalque como o que concerne ao inconsciente e o da defesa concernindo ao real do gozo, do indiz\u00edvel e intraduz\u00edvel, n\u00e3o interpret\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise localiza-se mais al\u00e9m das classifica\u00e7\u00f5es, que apontam para a irresponsabilidade do sujeito e, portanto, para sua segrega\u00e7\u00e3o. A estrat\u00e9gia da psican\u00e1lise \u00e9 de resist\u00eancia ao controle social, \u201cdeslocando-se a \u00eanfase do ideal da institui\u00e7\u00e3o para o real em jogo para cada sujeito\u201d, como nos assinalou Elisa Alvarenga na abertura dos trabalhos do N\u00facleo no ano passado. Segundo ela, na rela\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise com a institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se trata de perguntar qual o lugar da psican\u00e1lise, mas que sujeitos, pacientes e praticantes, podem beneficiar-se dela para orientar seu tratamento ou sua pr\u00e1tica (ALVARENGA, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o da responsabilidade me parece localizar um ponto de converg\u00eancia\/diverg\u00eancia entre o discurso jur\u00eddico e o discurso anal\u00edtico. Ponto onde a \u201cdefesa\u201d do sujeito pode-se assentar, na medida em que a responsabilidade somente pode ser remetida a um sujeito, ela n\u00e3o \u00e9 an\u00f4nima. Lembremos mais uma vez o dito de Lacan: \u201cDe nossa posi\u00e7\u00e3o de sujeitos somos sempre respons\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica no campo jur\u00eddico requer uma opera\u00e7\u00e3o na qual o sujeito seja extra\u00eddo do campo social. A sociedade \u00e9 an\u00f4nima, mas, para a psican\u00e1lise, o social n\u00e3o \u00e9 an\u00f4nimo. \u201cA psican\u00e1lise como procedimento \u00e9 uma experi\u00eancia que opera sobre um sujeito e s\u00f3 a partir de respeitar essa singularidade pode-se esperar uma a\u00e7\u00e3o no social\u201d (GREISER, 2009, p.11). Trata-se de uma nomea\u00e7\u00e3o n\u00e3o referida a uma classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A subjetividade muda com as mudan\u00e7as de \u00e9poca, mas o mal-estar em si mesmo \u00e9 o irredut\u00edvel que atravessa \u00e9pocas e lugares e organiza\u00e7\u00f5es sociais. Esse irredut\u00edvel \u00e9 a puls\u00e3o de morte e, como tal, imposs\u00edvel de educar ou interpretar. N\u00e3o entra nas trocas sociais. A puls\u00e3o \u00e9 associal, j\u00e1 o inconsciente \u00e9 pol\u00edtico, pois implica o la\u00e7o do sujeito ao Outro, dado pelas ofertas identificat\u00f3rias que variam segundo as sociedades e \u00e9pocas. Ainda que a puls\u00e3o seja associal e ineduc\u00e1vel, cada sociedade e cada \u00e9poca d\u00e3o acolhimento diferente ao gozo. O discurso jur\u00eddico \u00e9 uma forma pela qual esse acolhimento se apresenta. \u00c9 o que Laurent explicita, de alguma forma, ao dizer que o mestre p\u00f3s ou hipermoderno integrou as formas de contesta\u00e7\u00f5es em seu pr\u00f3prio discurso. Ou que o discurso do poder inclui todos os discursos cr\u00edticos ao exerc\u00edcio do poder. \u00c9 o que se verifica no campo socioeducativo, por exemplo, com a passagem da doutrina da situa\u00e7\u00e3o irregular para a doutrina da prote\u00e7\u00e3o integral. Situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m da psican\u00e1lise aplicada em rela\u00e7\u00e3o ao discurso do mestre: passamos de uma defini\u00e7\u00e3o da terap\u00eautica como um saber cl\u00ednico para a defini\u00e7\u00e3o de normas sociais \u2014 protocolos. Ent\u00e3o, tem-se uma passagem da psican\u00e1lise aplicada (\u00e0 terap\u00eautica) \u00e0 psican\u00e1lise aplicada \u00e0s novas normas do ideal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O contexto hist\u00f3rico no Brasil delineia a rela\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise aplicada com as novas normas e ideais, colocados a partir da redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Vemos o enorme sucesso e a extens\u00e3o do discurso psicanal\u00edtico aplicado e adaptado \u00e0s novas normas do discurso do mestre. A quest\u00e3o que se colocam Miller e Laurent \u00e9 a de saber se, em nossa tentativa de seduzir o mestre, n\u00e3o sucumbimos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o desse mesmo mestre e de seus novos ideais. A resposta deles \u00e9 positiva e a conclus\u00e3o \u00e9 a de que se deve refletir e tomar medidas sobre isso. Colocam como proposta: fazer usos dos semblantes como resposta, ou seja, de discursos que fazem semblante de la\u00e7o social. Remetem \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de Lacan no semin\u00e1rio Ou pior\u2026, de que s\u00f3 h\u00e1 la\u00e7o social no discurso, quer dizer, que n\u00e3o h\u00e1 um la\u00e7o social. Significa fazer uso dos discursos sem perder-se neles, mantendo a diferen\u00e7a pr\u00f3pria ao discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brousse (2007) prop\u00f5e tr\u00eas pontos de ancoragem para evitar que o discurso anal\u00edtico se dissolva nos discursos dominantes, tendo de responder a imperativos em contradi\u00e7\u00e3o com seu discurso. Para estar nas institui\u00e7\u00f5es socioeducativas e permanecer no discurso da psican\u00e1lise, a resposta n\u00e3o pode ser a denega\u00e7\u00e3o, tampouco a colabora\u00e7\u00e3o. Os tr\u00eas pontos s\u00e3o os elementos operat\u00f3rios do tratamento anal\u00edtico, que ela denomina de os tr\u00eas S do matema da transfer\u00eancia \u2014 Sujeito-Suposto-Saber \u2014 e os apresenta como segue:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 S barrado: Sujeito dividido entre efeito de significantes e objeto de gozo desse Outro do significante. O sintoma n\u00e3o \u00e9 social, ainda que seja uma forma de socializa\u00e7\u00e3o, \u00e9 do sujeito e nomeado pelo Outro. Manter a barra sobre o sujeito implica n\u00e3o abord\u00e1-lo a partir dos significantes segregat\u00f3rios ou categorias que servem ao patrulhamento do gozo, mas abord\u00e1-lo a partir de sua pr\u00f3pria fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Suposi\u00e7\u00e3o: Diz respeito ao estatuto do Outro (que n\u00e3o existe) em psican\u00e1lise, que \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, um semblante. A \u00e9tica do discurso anal\u00edtico se assenta no matema A barrado e tem como consequ\u00eancia a recusa do servi\u00e7o dos bens, do Bem soberano, das boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Saber n\u00e3o \u00e9 referencial, \u00e9 textual. O saber a ser obtido, em psican\u00e1lise, \u00e9 um texto de letras, que n\u00e3o quer dizer nada em particular, mas deve constituir, atrav\u00e9s da linguagem das f\u00f3rmulas matem\u00e1ticas ou do tratamento do sentido pela poesia ou pelo chiste, uma forma de ordena\u00e7\u00e3o e de acesso ao real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mant\u00ea-los, os tr\u00eas S, como refer\u00eancia, \u00e9 a forma pela qual a psican\u00e1lise pode objetar ao tratamento do sujeito pela foraclus\u00e3o produzido pelo discurso do mestre moderno e levar o sujeito \u00e0 destitui\u00e7\u00e3o de seu lugar de objeto. Assim, se, como prop\u00f5e Laurent, o la\u00e7o social n\u00e3o existe, a psican\u00e1lise opera atrav\u00e9s de um la\u00e7o in\u00e9dito \u2014 transferencial \u2014 que introduz a possibilidade de o sujeito se apresentar, destitu\u00eddo do v\u00e9u de um significante-mestre e do lugar de objeto de um gozo do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Contra-Sociedade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a da psican\u00e1lise, nesse dispositivo regido pelo imperativo do bem-estar e inclus\u00e3o, deve apontar para o tratamento do gozo singular e das incid\u00eancias da interven\u00e7\u00e3o da norma jur\u00eddica sobre o sujeito. Se a lei e a pol\u00edtica p\u00fablica se regem pelo universal, para o psicanalista, interessam o modo singular que cada um tem de subjetivar essa lei e a rela\u00e7\u00e3o com o que para ele funciona como interdi\u00e7\u00e3o, como limite ao gozo (como defesa?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tomarei a afirma\u00e7\u00e3o \u2014 \u201cA medida socioeducativa tem o car\u00e1ter de pena, mas n\u00e3o a finalidade de retribui\u00e7\u00e3o, seu objetivo \u00e9 de ressocializa\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 que pode ser lida reiteradas vezes nos \u201cTermos de Audi\u00eancia\u201d e que resume, a meu ver, uma s\u00e9rie de fundamentos pol\u00edticos\/filos\u00f3ficos de ordenamentos legais e normativos. Essa medida \u00e9, pois, uma san\u00e7\u00e3o. Ela s\u00f3 se aplica em resposta ao ato delituoso cometido pelo adolescente, mas considera a \u201ccondi\u00e7\u00e3o peculiar de desenvolvimento\u201d e trata a ruptura do la\u00e7o social ocasionada pelo ato atrav\u00e9s da \u201csocioeduca\u00e7\u00e3o\u201d e da \u201cinclus\u00e3o social\u201d. Em resumo, trata-se da responsabiliza\u00e7\u00e3o do adolescente pelo ato cometido \u2014 atrav\u00e9s de uma pena privada da finalidade de castigo \u2014 e da sociedade \u2014 pela garantia dos direitos de cidadania do mesmo. Registro aqui que existem aqueles, mesmo fora do campo do discurso anal\u00edtico, que discordam dessa concep\u00e7\u00e3o e articulam o direito \u00e0 puni\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o da responsabilidade e da cidadania.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o analista, a quest\u00e3o \u00e9 operar a partir da \u00e9tica da psican\u00e1lise, n\u00e3o respondendo com a normatiza\u00e7\u00e3o do gozo \u2014 uma medida para todos \u2014 mas valendo-se da orienta\u00e7\u00e3o da \u201cmedida\u201d dada pela satisfa\u00e7\u00e3o de cada um, fazendo do dispositivo ofertado pelo Outro social, que responde a uma ordem baseada no controle coletivo e na gest\u00e3o, um lugar para o acolhimento da verdade singular, possibilitando ao sujeito responsabilizar-se pelo seu gozo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro desafio \u00e9 a quest\u00e3o da demanda, pois o que se apresenta \u00e9 o sintoma social, e o demandante \u00e9 o juiz. \u00c9 necess\u00e1rio criar uma demanda a partir de uma oferta paradoxal e da condi\u00e7\u00e3o de obrigatoriedade da san\u00e7\u00e3o e da\u00ed extrair a singularidade do sujeito. Ou seja, estabelecer para cada caso o estatuto do ato e a rela\u00e7\u00e3o de cada sujeito com a lei, de que forma se articulam o Outro, a culpa e a responsabilidade. Fazer da responsabilidade penal a condi\u00e7\u00e3o da responsabilidade subjetiva. Recebemos sujeitos que n\u00e3o se enquadram na norma vigente, mas que podem encontrar acolhimento em um la\u00e7o social in\u00e9dito criado pela psican\u00e1lise, o la\u00e7o transferencial. A posi\u00e7\u00e3o do analista n\u00e3o \u00e9 a de prover assist\u00eancia e direitos, nem a defesa e restaura\u00e7\u00e3o do tecido e da paz social, mas a de ofertar um lugar de escuta que ultrapasse o tratamento do sintoma social e caminhe no sentido de tratar o sintoma do sujeito, franqueando, para al\u00e9m dos efeitos terap\u00eauticos \u2014 a dita ressocializa\u00e7\u00e3o \u2014 efeitos propriamente anal\u00edticos ou efeitos do inconsciente. Segundo Miller (2008), um analista n\u00e3o pode funcionar se n\u00e3o estiver em conex\u00e3o direta com o social, o que, para ele, significa dizer que a extraterritorialidade \u00e9 um devaneio ou uma ironia de Lacan, pois a conex\u00e3o com o inconsciente tem rela\u00e7\u00e3o com a reconex\u00e3o com o discurso do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o que nos ocupa, diante de uma demanda de interven\u00e7\u00e3o nos dispositivos jur\u00eddicos, centros de assist\u00eancia, centros socioeducativos, pris\u00f5es, \u00e9: como deve responder o psicanalista? Deve ter em mente que n\u00e3o se trata de responder com o discurso do Outro, mas fazer uso dessas demandas e responder com suas pr\u00f3prias ferramentas, que n\u00e3o s\u00e3o as dos ju\u00edzes, dos assistentes sociais, dos educadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFazer do sintoma social um la\u00e7o social, sabendo que o la\u00e7o social sup\u00f5e sempre a particularidade do um por um. Por isso, Jacques-Alain Miller define a posi\u00e7\u00e3o do analista como contra-sociedade, que n\u00e3o quer dizer colocar-se contra a sociedade, mas colocar-se na posi\u00e7\u00e3o de extimidade, exclus\u00e3o interna, que produz o discurso anal\u00edtico que como tal \u00e9 o avesso do discurso do mestre massificante\u201d (GREISER, 2009, p.48).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse sentido que Brousse (2007, p.23) cita Lacan em \u201cA terceira\u201d: a sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise \u201cdepende de o real insistir. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio que a psican\u00e1lise fracasse\u201d \u2014 ela completa e esclarece \u2014 a psican\u00e1lise deve fracassar, justamente, em satisfazer a demanda do mestre moderno.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">ALVARENGA, Elisa. A a\u00e7\u00e3o lacaniana nas institui\u00e7\u00f5es, Almanaque on-line, Belo Horizonte, Instituto de Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental de Minas Gerais, n.8, jan.\/jun. 2011. Dispon\u00edvel em: http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/psicanalise\/almanaque\/almanaque8.htm. Acesso em: maio 2012.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. \u201cTr\u00eas pontos de ancoragem\u201d, In: Pertin\u00eancias da psican\u00e1lise aplicada. S\u00e3o Paulo: Forense Universit\u00e1ria, 2007. p.22-26.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FERREIRA, Aur\u00e9lio Buarque de Holanda. Novo dicion\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">FREUD, Sigmund. (1926\/1976) \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d, In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, v.20, p.95-200.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">GREISER, Irene. Delito y transgresi\u00f3n. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2009.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">LAURENT, \u00c9ric. \u201cO del\u00edrio de normalidade\u201d, In: Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum, 2011. p.45-56.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">MILLER, Jacques-Alain. \u201cA cl\u00ednica ir\u00f4nica\u201d, In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996. p.190-200.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. \u201cPerturbar la defensa\u201d, In: La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2003. p.35-53.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. \u201cRumo ao PIPOL 4\u201d, Correio, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Rio de Janeiro, n.60, 2008, p.7-14.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">______. \u201cO real no s\u00e9culo XXI\u201d, Lacan Cotidiano, Paris, n.216, 28\/05\/2012. Dispon\u00edvel em:\u00a0<span id=\"cloak1f9e283d71f290b59c7e71763459c261\"><a href=\"mailto:ebp-veredas@yahoogrupos.com.br\">ebp-veredas@yahoogrupos.com.br<\/a><\/span>. Acesso em: 08 jun.2012.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">i Reflex\u00f5es produzidas a partir do texto: \u201cEm \u2018Defesa\u2019 do sujeito: produ\u00e7\u00f5es em um Ateli\u00ea de Psican\u00e1lise Aplicada\u201d, de Mariana Furtado Vidigal.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/strong><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">M\u00e1rcia Mez\u00eancio Mestre em Psicologia (Estudos Psicanal\u00edticos), Psicanalista, Aderente da EBP-MG. E-mail:\u00a0<span id=\"cloakf1efb00a7ffc15c5b46b28f2ce367a95\"><a href=\"mailto:marcia.mezencio@terra.com.br\">marcia.mezencio@terra.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c1RCIA MEZ\u00caNCIO\u00a0 Leg\u00edtima Defesa? N\u00e3o por acaso, um significante chamou-me a aten\u00e7\u00e3o no trabalho de Mariana. N\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil adivinh\u00e1-lo: trata-se do significante \u201cdefesa\u201d. 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